Sardenha – Cagliari

Cagliari estende-se ao longo do Mar Mediterrâneo, na posição sul da Ilha da Sardenha. Seu relevo é movimentado e a cidade histórica, hoje chamada de Distrito do Castello, impressiona pelo patamar topográfico que ocupa muito acima do nível do mar.

Fonte: https://www.corriere.it/bello-italia/notizie/cagliari-castello-quartiere-rinato-0d1510d8-8348-11eb-98e0-a911bb2fb5b0.shtml

Fonte: https://www.shmag.it/insardegna/itinerari/11_10_2021/cagliari-a-spasso-per-il-bel-capoluogo-della-sardegna/

A fundação do primeiro aglomerado urbano neste sítio remonta a meados do milênio anterior ao nascimento de Cristo, segundo a Wikipédia. Embora houvesse assentamentos humanos por aí desde seis mil anos antes de Cristo, é com os fenícios que se constitui a feição de núcleo urbano, depois engrandecido pelo domínio romano.

Não é difícil compreender por que os primeiros moradores deste território escolheram este sítio urbano. Ele possibilitava que se avistasse a aproximação de qualquer inimigo que buscasse atacar a cidade pelo mar, tanto quanto se beneficiava do próprio relevo para proteger o assentamento, porque parte da “cidadela” já está protegida pelas alturas das escarpas do rochedo sobre o qual ela se assenta.

Grosso modo, a zona do Castello vai da Porta Cristina, ao norte, ao Bastione de Saint Rémy, ao sul; a Viale Regina Elena contorna a área a leste e um ponto importante para se ter acesso à cidade velha pelo oeste é a Torre dell’Elefante.

Tomando como referência o Bastione di Saint Rémy e a Cathedrale di Santa Maria Assunta e Santa Cecília, pode-se comparar o primeiro mapa com o segundo e observar alguns aspectos: – a proximidade que há entre o sítio histórico e o mar; – as áreas comerciais mais importantes atualmente, sombreadas em amarelo claro, estão em torno da cidade antiga, a sudeste e a sudoeste; – as áreas que se destinam a marinas no mar, onde centenas de embarcações parecem aguardar pacientemente o verão.

Aliás, Cagliari está toda abraçada e entremeada por águas, então é natural que a relação com o mar seja grande e que os sardos estejam sempre propensos a navegar.

Voltando ao Distrito do Castello, informo que, ainda hoje, para se circular a pé ou de carro pela zona é necessário entrar pelas portas que, no passado, tiveram a função de proteger a cidade e controlar a circulação de mercadores. Hoje, o fluxo que as atravessa é mediado por um semáforo, pois o tamanho é suficiente para a passagem de, apenas, um veículo…. Assim, ficamos nós com nosso mini Mini, locado para circular pela ilha, aguardando o verde aparecer para entrar na guest house, em que nos hospedaríamos, localizada justamente intramuros. Quando fiz a reserva pelo Booking.com, não podia imaginar a escolha que fizemos: ótima do ponto de vista de conhecer bem esse centro histórico, um pouco difícil, por outro lado, porque para se aceder à zona comercial atual da cidade, onde estão a maior parte dos bares e restaurantes e parte do patrimônio constituído por várias igrejas, era preciso vencer a pé muitas ladeiras e degraus (demoramos um pouco para descobrir que há elevadores públicos que ajudam bastante a vencer os enormes desníveis).

Passar pelas portas para entrar no Distrito do Castello era sempre agradável, mas nem sempre a presença dos carros facilitava o registro fotográfico.

Sempre que acedíamos ao sítio histórico pela sua porção leste, lá estava a imponente Torre do Elefante, com seu gigantesco portão de madeira suspenso, causando sempre a impressão que ele poderia cair sobre nossas cabeças a qualquer momento.

Enfim, o distrito é muito especial. O que no primeiro momento pareceu uma escolha inadequada, a de se hospedar numa área que atualmente não é propriamente central na cidade, uma vez que não era fácil encontrar um lugar para estacionar nosso Mini, foi, ao final, muito interessante porque pudemos andar pelas vias estreitas da zona histórica, observar que muitos prédios estão sendo recuperados (pelas vãos de janelas e portas se via que, por dentro, estão muito bem decorados) e notar que boa parte de seus moradores ou são pessoas idosas, que à noitinha víamos passeando com seus cachorros, ou imigrantes que ocupam os imóveis ainda não recuperados. Passei a observar os nomes dos proprietários, nos painéis metálicos em que estão as campainhas dos apartamentos e deduzi que uma parte deles, pelos sobrenomes, são europeus do norte que, suponho, adquirem um imóvel relativamente barato e têm acesso ao sol e ao mar azul do Mediterrâneo, em alguns meses do anos.

Foi caminhando em busca da cidade baixa, digamos assim, que vimos L’Osteria di Castello, um simpático restaurante ao qual se tem acesso após descer alguns degraus, para se chegar ao piso que deve ter sido, no passado, um porão, o que lhe dava a aparência de uma pequena caverna (veja, leitor, nas fotos, suas paredes seculares e a madeira que sustenta os andares superiores). Ali o perfume dos temperos da cozinha, as toalhas e guardanapos absolutamente brancos e, na sequência, uma boa taça de tinto agradam o corpo cansado do sobe e desce, imposto pelos desníveis, e aquecem o coração.

Como assinalado nos mapas, é no Distrito do Castello que está a catedral de Cagliari. Uma igreja bonita por fora, por ter sido erguida com a rocha calcária que domina a região e dá a sua fachada esta claridade que embeleza a composição e favorece o destaque das colunas e do dourado que emoldura as imagens santas. Com a torre iluminada à noite, achei que fica ainda mais bonita.

Por dentro, encanta igualmente, talvez porque, não tendo vitrais coloridos, a transparência dos vidros deixa a luz entrar livremente. Deduzi que os vitrais se perderam em ataques que a cidade sofreu durante a segunda Guerra Mundial, quando foi bombardeada em 1943. O altar é demarcado por escada e muretas de mármore e granito trabalhadas maravilhosamente, conformando verdadeiros rendilhados. Dois leões de bronze resguardam a entrada.

O teto também é lindo e os altares secundários nas laterais merecem igualmente destaque.

O piso, ah sempre o piso me chamando atenção. Adoro esse desnivelado que retrata o tempo acumulado, o desgaste diferenciado dos mármores e granitos, para nos fazer lembrar os milhares de pessoas de várias gerações que caminharam por ele.

Cagliari tem muito mais coisas para se ver, é claro. O que registro aqui resulta de uma seleção que como toda escolha tem perdas. Se você pensa em conhecer essa cidade não deixe de visitar a galeria que está ao pé do Bastione de Saint Rémy, reconstruído parcialmente após o bombardeio de 1943. Suas colunas altas compõem um ambiente agradável, por meio do qual podemos ver as bases rochosas da cidadela.

Bateu fome, vontade de dar uma pausa e de comer Cullurgiones, prato típico da Sardenha? Vá ao Niu, que ocupa um antigo convento, como as abóbodas do teto denunciam. Ele se localiza na atual área comercial da cidade, aos pés do Distrito do Castello.

Veja as explicações sobre este prato:

Os culurgiones são um tipo de massa recheada muito tradicional. Originária de Ogliastra, espalhou-se aos poucos por toda a região, tornando-se uma das receitas mais populares da Sardenha.

Os culurgiones assemelham-se a grandes raviólis recheados com batata e hortelã, todos acompanhados de muito queijo pecorino (mas os ingredientes podem variar de zona para zona).

No entanto, a característica que mais os distingue é o modo de fechá-los. A técnica se chama sa spighitta, e representa a forma do trigo. Na verdade, os culurgiones foram originalmente preparados como um presente, uma espécie de amuleto, que era dado a uma pessoa querida. O trigo representado nele nada mais era do que um sinal propiciatório de fartura.

Enfim, normalmente serve-se os culurgiones com molho de tomate ou então com manteiga e sálvia.

Fonte: https://descobrindoaitalia.com/10-pratos-tipicos-da-sardenha/#culurgiones

Fonte: https://www.salepepe.it/ricette/primi/pasta-fresca/culurgiones-casu-fruscu-sardegna/

Carminha Beltrão

Março de 2023

2 comentários em “Sardenha – Cagliari

  1. Carminha

    Ótimo! Ou, como diria o Hélio, um nosso ex aluno: “Otimamente ótimo”.

    Muito obrigado

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