Sardenha – Uma ilha especial

A ilha da Sardenha, que é parte do território italiano, reflete muito a situação geográfica que ocupa. Encravada no Mar Mediterrâneo, é espaço natural e, simultaneamente, político de integração e circulação secular. A Sardenha está a oeste da Itália continental, ao sul da ilha francesa da Córsega e ao norte da Tunísia.

Se, na Antiguidade e na Idade Média, contava mais sua posição entre o Oriente e o Ocidente, pela principal via de comunicação que era este mar, na atualidade, vejo bem no meio do caminho entre a África e a Europa Ocidental, por onde trafegam imigrantes em busca de trabalho no Velho Mundo. Como estamos tratando da Sardenha e do Mar Mediterrâneo, não é demais lembrar que, há séculos, comercializa-se de tudo por este território.

Não se trata, fazendo um balanço agora, de um destino que eu escolheria de pronto, mas as circunstâncias nos trouxeram até aqui, como uma opção para completar a visita a Milão.

Esta ilha merece ser adjetivada como especial, porque reúne paisagens muito peculiares, história longeva e uma mistura de influências culturais que a singularizam. Aliás, alude-se a ela tanto em italiano (Sardegna) como em sardo, a língua autóctone (Sardigna), como ainda em catalão, para fazer jus à grande influência desta região da Espanha na linda ilha (Sardenya). Com essas características plurais, este território goza do estatuto de região autônoma da Itália, o que lhe dá certa independência administrativa e garante a proteção de suas particularidades, tanto da língua como de outros aspectos culturais.

Aliás, o sardo, por seu uma língua que remanesce do Império Romano, aproxima-se muito do latim, mas tem influências fenícias e etruscas. Ela se parece bastante com o basco, mas não é o único idioma da ilha, além do italiano, como mostra o mapa.

Nas placas indicando a toponímia dos lugares, podemos perceber a presença da península ibérica no linguajar cotidiano da ilha.

A cidade principal da ilha ocupa a posição sul e é capital. Chama-se Cagliari e tem pouco mais de 154 mil habitantes, praticamente 10% do total da ilha que alcança 1,6 milhão de habitantes. As outras cidades importantes são Sassari, Alghero, Ólbia, Nuoro e Oristano. Talvez, em outro capítulo desta série Diário de Viagem, eu escreva um pouco sobre Alghero e Cagliari.

A ilha, como um todo, tem perdido população, principalmente jovem que parte em busca de oportunidades melhores em outras regiões italianas, por isso o governo oferece subsídios para quem queira vir morar em cidades pequenas e investir na reforma de imóveis na Sardenha (https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2022/08/italia-paga-ate-r-75-mil-a-quem-se-mudar-para-ilha-da-sardenha.shtml).

Seu relevo é espetacular. A maior parte da costa é bastante recortada, o que conforma cabos e baías muito bonitas. Mais para o interior, a superfície é desenhada com colinas e montanhas. Algumas chegam aos mil metros de altura e seu pico mais elevado – a Punta La Marmora – alcança 1.834 m, o que é bastante para um território tão pequeno.

Fonte: https://www.atlantides.it/la-scoperta-della-vera-punta-la-marmora.html

A vegetação também é bem peculiar: não é densa, tampouco corresponde a um clima árido. Ora se beneficia da umidade, ora se prejudica pelo solo rochoso e pelos ventos fortes que cortam a ilha. Ela tem bastante semelhança ao que tínhamos observado em outras viagens na Ilha da Sicília, mas, principalmente, no paisagismo das cidades lembra também a Tunísia e o Marrocos, pelos palmeirais e fênix que estão por todo lado.

Fonte: https://jujunatrip.com/sardenha/

Fonte: https://br.depositphotos.com/49610905/stock-photo-santa-teresa-di-gallura-sardinia.html

Essa combinação de relevo e vegetação conforma, então, uma paisagem que poderia parecer rude, mas é suavizada, na minha opinião, por alguns fatores que exercem o papel de atenuadores. Primeiramente, a beleza do Mediterrâneo que cerca a ilha, cujos tons formam uma moldura lindíssima. As minhas fotos são menos bonitas que a realidade, porque não captaram a transparência da água e a variação de tons do azul para o verde, contrastando com faixas de pedras e de areias quase brancas.

Em segundo lugar, pela presença de muitas oliveiras, algumas centenárias, cujo verde acinzentado das folhas brilha quando o sol bate. Elas estão em várias propriedades tanto no norte, como no sul da ilha, mas também adornam cidades, cercadas de muretas com grafites, tanto quanto parques naturais que estão nos campos, mostrando que, a exemplo do outros países que margeiam o Mediterrâneo, as oliveiras são um patrimônio da ilha.

A fisionomia rude da ilha é enfeitada, também, pela gracinha dos rebanhos de ovinos que pastoreiam até mesmo nas estradas e são um símbolo da ilha, porque aparecem até mesmo nas camisetas de recordação, que estão a venda em tudo que é lojinha para turista. Olha a ovelha negra aí!

Fonte: https://www.cartolerialghero.com/t-shirt-etc/t-shirt-sardegna/

Gostei demais do perfume de alecrim que exala, por todo lado, porque há verdadeiras touceiras desta planta em qualquer canto, tão grandes, que estão floridas (eu nunca tinha visto alecrim florido). Elas também embelezam a ilha e tornam sua paisagem mais bem temperada.

Dizem que o ponto alto da Sardenha é o Arquipélago da Maddalena que fica ao norte, mas não o conhecemos, porque mutas coisas funcionam de modo incompleto antes do verão. Não se consegue, em março, fazer passeios de barco, ou visitar alguns museus ou mesmo conhecer alguns dos melhores restaurantes, que só funcionam a partir de abril. Os hotéis cinco estrelas e spas são muitos por aqui e destinados, principalmente aos europeus do norte.

À parte esses grandes equipamentos para o turismo, a ilha não transparece riqueza; ao contrário, se veem, aqui e ali, esforços para recuperação do patrimônio e melhoria da infraestrutura, mas se nota que o padrão médio de vida está abaixo do que se observa em grande parte da Itália (eu a identifiquei mais com a Calábria e a Ilha da Sicília, mas é preciso ter alguns dados para fazer alguma afirmação mais precisa).

Outra peculiaridade da ilha são os milhares de sítios arqueológicos que ela tem. No escritório de informações turísticas do Aeroporto de Cagliari, aliás muito bom e com uma funcionária muito bem-preparada, tivemos a informação de que são oito mil sítios, embora apenas uma parte muito pequena tenha passado por trabalhos de recuperação e tratamento museológico.

Visitamos alguns destes sítios arqueológicos, mas isso fica para outro capítulo deste diário.

Para finalizar, o primeiro mapa mostra o percurso inicial que fizemos na direção de Alghero, onde nos hospedamos nos três primeiros dias, incluindo os passeios feitos até Ólbia, Palau e arredores. O segundo representa nosso passeio na direção de Villasimius, durante os três dias que ficamos em Cagliari.

Carminha Beltrão

Março de 2023

Um comentário em “Sardenha – Uma ilha especial

  1. Carminha

    O seu texto exalta o geográfico (não estou me referindo à Geografia) da ilha. As fotos tem ótima qualidade. Parabéns!

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