Uzbequistão 1 – Turista ou viajante?

Fonte: https://www.estudopratico.com.br/significado-da-bandeira-do-uzbequistao/

Alguém já escreveu sobre a diferença entre um turista e um viajante.

O primeiro é aquele que faz a viagem com um programa definido por uma agência ou por profissional da área e que pretende conhecer alguns lugares, a partir de roteiro e cronograma muito parecidos ao que outros fazem nesses mesmos lugares. Ficam hospedados em hotéis que pertencem a grandes cadeias, várias vezes globalizadas. De algum modo, o turista passa pelos cenários que são preparados para ele e escuta as narrativas que, igualmente, são elaboradas para o estrangeiro. Talvez, ele, no geral, nem queira fazer diferente. Para alguns entre eles, são mais importante os registros fotográficos e sua exibição posterior no Instagram ou no Facebook, do que efetivamente conhecer os territórios e a gente antes desconhecidos.

O viajante, ao contrário, espera viver experiências, se possível muito próximas daquelas que os moradores do lugar vivem e, por isso, ele se abre para o que pode ocorrer de inusitado. Deseja desvendar, descobrir, encontrar o novo. Ele se deixa levar, prefere conhecer a vida local e, se tiver um programa ou roteiro prévio, o que sempre tem, por menos rígido que possa ser, está sempre pronto a alterá-lo e a aprender com o que se apresentar a cada dia de sua viagem.

Acho que já conheci alguns lugares no mundo como uma viajante, mas aqui no Uzbequistão sinto que vai ser difícil fugir da situação de turista.

Primeiramente, porque estamos, meu marido, um amigo e eu, viajando com uma agência e, assim, ficamos bastante reféns da programação proposta e dos guias que nos acompanham, os quais têm poder sobre nós, porque não apenas nos contam sobre o que há de melhor ou que pode parecer o melhor, como nos estimulam a frequentar e comprar nos lugares que são os indicados pelas agências ou onde eles ganham alguma comissão.

Em segundo lugar porque, embora já tenha estado na Rússia, que liderou a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), da qual o Uzbequistão fez parte, é a primeira vez que visito um país da Ásia Central, do grupo que eles mesmos chamam “países da família dos quistão”, sobre os quais, aliás, escutei, durante minha vida, muito poucas coisas.

Por último, acho que seria difícil ser uma viajante, radicalmente diversa de uma turista, num país em que a língua oficial é o uzbeque e a segunda língua, falada também por mais de metade da população, é o russo. As barreiras à comunicação limitam muito as oportunidades de se lançar ao novo e, assim, meu destino é ser turista por aqui, mas vou me esforçar para me aproximar de uma viajante, quando isso for possível.

O uzbeque é, segundo a Wikipédia, uma língua turcomana, que aliás não é só falada por aqui, onde é o idioma principal, mas também em outros países da Ásia, ainda que o seja por minorias étnicas que lá vivem, como o Tajiquistão, Afeganistão, Quirguistão, Cazaquistão, Turcomenistão e até mesmo na região Xinjiang na China.

Foi influenciada pelo persa, pelo árabe e, mais tarde, pelo russo. Ela pode ser escrita em mais de um alfabeto:

  • oʻzbek tilii ou oʻzbekcha no latino;
  • Ўзбек тили no cirílico;
  • أۇزبېك ﺗﻴﻠی no árabe.

Essa diversidade de influências e de alfabetos tem relação direta com a geopolítica a que esteve submetido o Uzbequistão. Inicialmente, a influência persa foi enorme, razão pela qual a pequena parte da elite que estudava escrevia o idioma no alfabeto árabe. Houve também influência uzbeque neste alfabeto gerando uma escrita baseada no árabe, mas com representação de letras vogais, o que não é próprio desta língua.

Por influência do que estava sendo feito na Turquia, a partir da década de 1920, o idioma passou a ser escrito no alfabeto latino, mas logo veio a entrada do país na URSS, em 1925, e Stalin obrigou a adoção do cirílico.

Com a independência do Uzbequistão, declarada em 1991, a latinização voltou a ser obrigatória, mas isso não se faz de uma hora para outra, quando diferentes gerações foram alfabetizadas em alfabetos diversos e tendo como segunda língua idiomas também diversos entre si. Por essa razão, a confusão por aqui é grande.

Pelo que consegui saber até agora, nos ambientes familiares, fala-se o uzbeque e nas escolas de formação inicial idem. Em ambientes religiosos, fala-se também esta língua, que nas escrituras sagradas muçulmanas está escrita no alfabeto árabe. Os mais velhos, no entanto, quando estavam na escola, além de aprenderam o russo, foram alfabetizados em sua própria língua, o uzbeque, mas no alfabeto cirílico. Quando seguiam nos estudos, uma segunda língua estrangeira valorizada era o francês, e essa tinha que ser aprendida com o alfabeto latino.

Hoje, com a influência ocidental, pós independência, toda a publicidade é feita com base neste alfabeto, porque as marcas globalizadas chegaram com toda força e, neste caso, o idioma de comunicação é o inglês. Enfim, aqui é uma efetiva Babel, mas pensando bem, acho que vivemos num mundo com histórias, alfabetos e idiomas muito diferentes e ficamos supondo que ele se homogeneíza com a globalização.  Será? Um pouco sim, mas nem tanto, como a listinha que se segue sugere:

Uzbek language (English), Lingua Uzbeca (Italiano) 

Oezbeeks (Nederlands)  Ouzbek (Français)  Usbekische Sprache (Deutsch)  

Língua usbeque (Português)  Узбекский язык (Русский)  

Idioma uzbeko (Español)  Język uzbecki (Polski)  

乌孜别克语 (中文)  Uzbekiska (Svenska)  Limba uzbecă (Română)  

ウズベク語 (日本語)  Узбецька мова (Українська)  

Узбекски език (Български)  우즈베크어 (한국어)  

Uzbekin kieli (Suomi)  Bahasa Uzbek (Bahasa Indonesia)  

Uzbekų kalba (Lietuvių)  Usbekisk (Dansk) 

 Uzbečtina (Česky)  

Özbekçe (Türkçe)  Узбечки језик (Српски / Srpski)  

Usbeki keel (Eesti)  Uzbečtina (Slovenčina) 

Üzbég nyelv (Magyar)  Uzbečki jezik (Hrvatski) 

ภาษาอุซเบก (ไทย)  Uzbeku valoda (Latviešu)  

Ουζμπεκική γλώσσα (Ελληνικά)  Tiếng Uzbek (Tiếng Việt) 

(fonte – http://www.mapnall.com/pt/language/Língua-usbeque_576.html)

A viagem para cá não é das mais fáceis, porque não há voos diretos a partir do Brasil. Optamos por viajar com a Turquish e fazer escala em Istambul, e isso significa que entre chegar ao Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, para fazer o check-in e desembarcar, em Tashkent, capital do país, foram praticamente 24 horas, vivenciando a situação de, neste intervalo, ver duas vezes o sol, já que viajando de oeste para leste, atravessamos oito fusos horários.

A viagem foi longa e cansativa, num avião lotado no trecho até Istambul, cheio de argentinos (acho que eles chegam a falar mais alto que nós brasileiros!) e com várias famílias de judeus ortodoxos que se levantavam, abriam e fechavam malas, vestiam uma espécie de manta, para rezar várias vezes durante o percurso.

Com o atraso da saída do Brasil, chegamos em cima da hora para a escala em Istambul, cujo aeroporto é enorme (e muito bonito). Isso significou atravessá-lo correndo e sermos praticamente os últimos a embarcar, para voar o trecho entre esta cidade e Tashkent, cuja chegada no aeroporto foi tranquila, pois os brasileiros não precisam de visto para entrar no país. Assim, a passagem pela aduana não foi complicada, também não tivemos que passar por Raio X e, como o aeroporto é pequeno, tudo foi fácil.

A situação geográfica do Uzbequistão é bem especial, porque é um país que têm fronteira seca dupla, ou seja, além de não ter acesso direto ao oceano, faz fronteira por todos os lados com países que também não têm litoral.

A primeira impressão de Tashkent, a capital, foi bem surpreendente. Ela tem 2.5 milhões de habitantes.  O aglomerado que lhe deu origem remonta aos últimos séculos antes de Cristo e foi um ponto importante da Roda da Seda.

Imaginava encontrar uma paisagem urbana e arquitetônica semelhante a que conheci em Moscou, já que o Uzbequistão teve muitos investimentos em construções durante o período de domínio soviético, o que, de fato, ocorreu, mas a cidade também cresceu muito a partir da Independência e nas partes mais centrais parece ter se distanciado do padrão arquitetônico que, via de regra, identificamos com o soviético – construções pesadas, com poucos adornos e de estética pouco agradável, pela prevalência radical do funcional sobre o belo.

Tashkent é bem moderna. Do período soviético, ficaram como herança importante as avenidas muito largas, com calçadas também espaçosas.

Por outro lado, os edifícios na área pericentral, onde está nosso hotel, são bem modernos e há muitos jardins e praças, o que me faz associá-la às cidades ocidentais, mais para as estadunidenses do que para as europeias, embora em muitas fachadas de edifícios haja arabescos ou adornos da cultura árabe.

Claro que, quando tratamos de edificações históricas, o ambiente urbano não é o mesmo, mas isso fica para um outro capítulo.

Carminha Beltrão

Abril de 2023

4 comentários em “Uzbequistão 1 – Turista ou viajante?

  1. Que bacana Carminha esse seu relato das primeiras impressões do Uzbequistão!! Sobre escrever a respeito do turista e do viajante, Bauman fez isso e diferencia o turista (vida atual quando tudo é líquido, ou seja, provisório, até mesmo os valores morais ou pessoas) do peregrino (o que vivencia experiências mais profundamente, cresce, acrescenta valores em sua personalidade). Também Yves de La Taille aproveita a ideia para falar do turista ou peregrino na vida das pessoas e por que no caso do primeiro, nada fica, ou se acrescenta e enriquece a própria pessoa. Mesmo sendo turista aí no Uzbequistão, tenho certeza que você também tem a alma de peregrina!!

    1. oi Suzana, ótimas as suas duas referências, vou buscar esses textos. Eu já tinha lido sobre essa diferença, num texto de um amigo português, Rui Jacinto, mas não o encontrei mais para reler e fazer a referência. Agora vou procurar essas duas obras também. A alma de peregrina eu não alcanço ainda, porque gosto de conforto e isso é bom, mas às vezes atrapalha um pouco a ver mais de perto a sociedade.

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