Uzbequistão 8 – Bukhara, suas mercadorias e sua gente

Quando jogo no Google a expressão “mundo das mercadorias”, as vinte primeiras referências referem-se ao capitalismo e/ou à teoria marxista que desnudou o papel delas na construção objetiva e subjetiva do capitalismo.

Ok, é isso mesmo, no sentido científico que essa expressão tem ela se refere ao fato de que foi, no Ocidente, com a constituição deste modo de produção, que as mercadorias se tornaram centrais na vida da Sociedade, como condição e meio para a reprodução do capital.

No entanto, quando observamos boa parte das cidades asiáticas ou aquelas do norte da África, encontramos seus espaços urbanos centrais dominados pelo comércio, como se fossem, efetivamente, o mundo das mercadorias.

É impressionante como, no Uzbequistão, a cultura mulçumana secular, a influência árabe e persa, e a história associada à Rota da Seda permanecem como elementos centrais na vida cotidiana de sua gente, estruturando o uso dos espaços e do tempo, tendo o comércio como uma atividade central no mundo urbano.

Por onde passamos há gente comercializando algo, alguns nestes mesmos espaços estão produzindo artesanal ou semi artesanalmente suas mercadorias.

Ladeando a praça principal entrecortada por dois canais, está o bairro judeu, com sua sinagoga, em ruela estreita, na qual se enfileiram antigas casas de dois pavimentos que hoje são ocupadas por “hostais” ou por “hotéis boutiques”.  Aliás, aproveito para avisar que o conceito de hotel boutique aqui está meio alargado. Basta ser pequenininho para receber esse nome, quase como se popularizou no Brasil o conceito de pousadas: tem para todo gosto e de todo preço.

Na imagem que se segue, aparece a extensa praça central em formato triangular orgânico e, ao sul dela, está o bairro judeu com a sinagoga assinalada em vermelho, com a estrela de Davi, que simboliza o judaísmo.

Nas ruas do bairro judeu, concentram-se as atividades bancárias, de produção artesanal e o comércio da Bukhara turística. Desde agências e caixas onde se pode trocar dólares ou Euros por Som Uzbeque (UZS), passando por pequenas lojas onde se vendem tesouras, facas, pratos de outros produtos de metal trabalhado, por lojas de tapetes de vários tipos, por ateliês de pintura a mão, em que os artistas produzem e vendem seus produtos. Com uma pequena cifra em dólares, você sai com o bolso cheio de Sons. Será que é assim mesmo que se escreve o plural da moeda uzbeque?

É no mercado Toki Zargaro Dome, cuja entrada está à direita na próxima foto, que a mega oferta de produtos enche os nossos olhos de cores, nossos dedos de texturas e nossa mente de imaginação, mas também de dúvidas. Acho bárbara de linda essa edificação com suas cúpulas.

Fonte: https://gotosilkroad.com/city/sight/toki-zargaron-toki-sarrafon-toki-tilpak-furushon-trading-domes

Quem terá desenhado os tapetes? Se são produzidos milenarmente, desde quando começaram a ser tecidos à máquina também?

As echarpes são de fio de seda ou de lã de camelo mesmo, ou isso é trololó para turista? Haja camelo e bicho da seda!

Quais as diferenças e significados culturais de cada desenho dos quepes que os homens usam por aqui? Os solteiros usam os de mesmas cores que os mais idosos? Os mais ricos se diferenciam dos mais pobres?

As bijuterias são produzidas no Uzbequistão ou produzidas em série na China? As cores e os modelos são os mesmos que vi há alguns na Turquia, mas isto é olhar estrangeiro que simplifica porque não conhece a cultura local…

Os maravilhosos casacos bordados em seda são bordados à moda “suzanis” sobre os quais havia lido alguma coisa em vários blogs e sites?

E essa profusão de bonequinhas serão as que as meninas uzbeques brincam ou elas já preferem a réplicas da Frozen que minha neta tanto admira? Girafas amarelas e camelos branquinhos, será que atraem os meninos daqui?

Por que as romãs aparecem em tantos bordados uzbeques? Será uma fruta que cotidianamente é parte da dieta deste país?

Nas casas uzbeques, o que guardam nessas sacolinhas? As chaves, a carteira e, atualmente, o celular?

Será que, ainda hoje, nas casas uzbeques mais abastadas, o chá é servido nestes bules e taças?

Em várias tendas há jogos de xadrez para vender, será que eles querem agradar os turistas ocidentais ou será que ficou essa boa herança do domínio czarista e, depois, soviético sobre o Uzbequistão?

Os pratos e tigelas são tão lindos que tive dificuldade de escolher um para levar para o Brasil. A dúvida me paralisou.

Há uma profusão de ofertas que me deixa um pouco tonta, em decorrência do número de tendas pelas ruas, pequenas lojas e outras já mais sofisticadas onde se vendem os produtos mais elaborados. Ademais, a gentileza e um pouco de insistência exagerada dos vendedores também me deixa sem paciência depois da primeira meia hora. Gosto de negociar o preço, mas passado um tempinho, fico com vontade de voltar para o hotel e descansar porque essa densidade de vida urbana acaba fatigando.

Deixo também, neste capítulo do meu diário de viagem ao Uzbequistão, fotos da gente de Bukhara, cuja simpatia me pareceu maior ainda do que a dos uzbeques de Tashkent ou Samarqanda.

No geral, eu era motivo de observação dessa gente, mas demorei a entender a razão. Depois de um tempinho, algumas crianças e adolescentes, em mais de um lugar, pediram-me para fazer registros fotográficos e pelos gestos, compreendi a razão: meu cabelo pintado de azul. Imagino o impacto causado, numa sociedade em que as mulçumanas sequer mostram os cabelos.

Carminha Beltrão

Maio de 2023

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