Uzbequistão 9 – Chegando à Khiva de muitos tempos e muitas histórias

A viagem entre Bukhara e Khiva foi efetivamente uma expedição. Na véspera, o guia já nos preparou informando que deveríamos levar um lanche, porque não haveria “paradas técnicas” onde se vendesse algo para comer.

Partimos às 8h00 e chegamos 15h30, para atravessar 430 km. A primeira parte foi terrível, porque a rodovia estava em muito mal estado e, ademais, passávamos por áreas de suburbanização, com uma densidade de pessoas e veículos automotivos muito grande. Pela imagem de satélite, podemos ver a extensão do território desértico nesta porção da Ásia Central. No mapa que se segue, podemos ver que as cidades, como Bukhara e Khiva, ocupam os oásis que são e foram tão importantes para a produção de alimentos e obtenção de água.

Pelas informações obtidas, em 2024 deverá ser inaugurada ligação por trem de alta velocidade entre essas duas cidades. Hoje há apenas os trens herdados do período soviético. Talvez, tivesse sido melhor optar por este meio de transporte ferroviário, porque mesmo depois de a estrada melhorar em qualidade, nossa van não desenvolvia muita velocidade e, ademais, nosso motorista dirigia meio perigosamente, porque não obedecida as faixas e tampouco ficava à direita para os demais veículos ultrapassarem. Era boa gente, atencioso e educado, mas andar com ele nem sempre nos deixava tranquilos.

Aí está o registro fotográfico de nosso motorista e nosso guia. Adiante, a planura da planície desértica.

A vantagem do percurso de carro foram duas paradas: na primeira, para fotografarmos de perto a areia quase ocre constitutiva das áreas desérticas do Uzbequistão; na segunda, para ver um curso d’água importante, o rio Amu Dariá, que naquele trecho separa este país do Turcomenistão, ao sul.

Agora, o rio que delimita a fronteira com o Turcomenistão.

Esses pontinhos pretos correspondem a um rebanho de cabras que avistamos ao longe, para notar com no deserto perdemos noção das distâncias.

A grande desvantagem de percorrer esse trecho de estrada de carro: os dois banheiros que tive que enfrentar para aliviar a bexiga, um pior que o outro, ambos com a latrina turca e muito sujos…

Numa das paradas, três rapazes moradores desse território, onde a única atividade é a do pastoreio, solicitaram fazer fotos conosco. Autorizamos, mas depois quisemos entender a razão do pedido tão inusitado e o guia nos explicou que, para eles, ver turistas é ainda muito raro e somos muito diferentes com nossos rostos europeus.

A ponte sobre o rio Amu Dariá foi aguardada por meu marido que havia aprendido algo sobre este curso d’água no ginásio. Para o grupo, foi motivo de festa porque estávamos nos avizinhando de Khiva.

Ufa! Finalmente Khiva, também chamada de Khararizim ou de Quiva ou de Carizim. Em uzbeque eles falam Xiva (Хива, com h gutural lembrando o R); em persa, escreve-se خیوه.

Logo notamos que a cidade do passado está íntegra, com boa parte de sua muralha que é sempre refeita, porque o barro e a palha que são os materiais que lhes são constitutivos estão muito expostos às intempéries de tempo.

A umidade, embora sendo pouca por aqui, acaba minando o adobe e, aqui e ali, víamos o material sendo preparado para recompor as partes deterioradas.

No passado, nas laterais internas da muralha, eram enterradas as pessoas mais importantes do reinado.

Já ia esquecendo de registrar que, depois do esfacelamento império timúrico, poderes regionais se estabeleceram. Até a chegada do domínio czarista russo, Khiva, que domina uma região histórica importante, foi capital várias vezes.

Segundo a Wikipédia foi citado no século V a.C, pelo “geógrafo” grego Heródoto (já vi citações a ele como historiador e isso é compreensível, afinal na Antiguidade não havia a divisão de conhecimento como temos hoje e nem as disciplinas que lhes são constitutivas). Durante os séculos IX e X teve um desenvolvimento grande e, segundo estimativas de historiadores, poderia ter chegado a 800 mil habitantes. Passou no século seguinte pelos conflitos entre dinastias turcas e persas, mas o ponto mais trágico de sua história foi a devastação que viveu com a invasão das tropas de Gengis Khan. Pelas informações que se tem, embora o exército de Khiva fosse maior, a estratégia do fundador do Império Mongol foi cercar a cidade e impedir o abastecimento alimentar…. não demorou tanto para a população ficar à beira da morte por inanição e, assim, abrir as portas ao dominador que colocou fogo em quase tudo.

Foi justamente a fama de suas cerâmicas e azulejos que levou à recuperação de Khiva nos séculos seguintes e foi o reinado de Abdulgazi Badur (1643 a 1664) que tornou a cidade um centro cultural importante, com a construção de muitos edifícios religiosos, mas também um centro de comércio de escravos. Imaginem que há referências a cerca de um milhão de persas e um número desconhecido de russos vendidos em Khiva. Foi um reinado longevo que se manteve entre o século XVI e XX – Canato ou Império de Khiva

Como parte da invasão russa à Ásia Central, a cidade foi atacada e dominada em 1873, mas o reinado permanecia com alguma autonomia como um protetorado. Depois da Revolução Bolchevique, em 1920, a região se tornou República Popular Soviética da Corásmia que depois foi incorporada à República Socialista Soviética Uzbeque em 1924, o que levou ao declínio de Khiva.

Vejam a foto de um de seus últimos primeiro-ministros, hoje exposta no museu da cidade. Na sequência, um de seus últimos cã ou sultão ou rei, Maomé Raxim II, numa ilustração de livro de 1885. Eles tinham cara de mau ou faziam essa pose para serem representados.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Quiva

Ao adentrarmos no Hotel Zarafshon Boutique, logo nos deparamos com réplicas de alguém muito caro para o folclore uzbeque – as imagens de avôs e avós que sempre chegam trazendo alimentos, como uma representação do cuidado que se há entre gerações de uma mesma família. Aliás, nosso guia Bahkram, para nos explicar certas práticas sociais, sempre se referia a “mi abuelito” e “mi abuelita”, já que sua língua de comunicação conosco era o espanhol. Adorei esses bonecos símbolos do Uzbequistão. É claro que não compraria uma réplica para decorar minha casa, mas são uma simpatia, não são?

Olha eu descendo aí, na escada que dava acesso ao nosso apartamento no hotel.

Carminha Beltrão

Maio de 2023

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