Bolívia e Peru 4

Finalmente entrando na Bolívia

Fonte: https://pt.dreamstime.com/ilustra%C3%A7%C3%A3o-de-desenhos-desenhados

Na manhã do primeiro dia de 2024, entramos pacificamente na Bolívia, tendo como primeiro destino Santa Cruz de la Sierra. Digo pacificamente, porque a passagem pela fronteira foi sem interceptações…

Na memória, ainda restavam relances da experiência do dia anterior, atrás de informações precisas e dos documentos necessários para passar a fronteira.

Para compensar um pouco a chatice pela qual tínhamos passado, constatamos que era mesmo necessário todos os papeis e carimbos atrás dos quais corremos, porque dois policiais nos pararam no percurso e olharam para eles com detalhe. Teria sido pior, ao menos psicologicamente, se não fossem necessários os papeis cuja obtenção nos roubou um dia do passeio.

A Natureza continuou a imperar a oeste do Rio Paraguai, espelhando as paisagens que tínhamos apreciado antes da fronteira, ainda no território brasileiro. Primeiro, o Chaco que se assemelhava, à primeira vista, ao Pantanal brasileiro.

Depois, o número de árvores aumentou e nos deparamos com uma formação que eu chamaria de Cerrado.

Nos últimos 150 km, à medida que nos aproximávamos de Santa Cruz, a agricultura começou a predominar nas extensas planuras. Na imagem de satélite que se segue, é possível observar as diferenças de biomas pelas quais passamos neste dia. Nos 2/3 iniciais saindo de Corumbá, áreas relativamente bem preservadas, com cobertura nativa; no último terço, chegando a Santa Cruz de la Sierra, as áreas de uso agrícola.

Não importam aqui as denominações – Chaco, Cerrado ou …. –, mas sim dizer que atravessamos áreas muito bonitas e, em certa medida, bem parecidas às que vislumbramos nos últimos 300 km antes da fronteira.

Ladeamos o Parque Nacional del Gran Chaco e a impressão é de que as características dos biomas naturais estão bastante respeitadas. Estávamos também ansiosos para ver as condições da estrada. Até El Carmen, o asfalto estava pouco conservado, não havia faixas demarcando as pistas, nem muitas placas de sinalização. Na própria pista ou nas suas laterais, a água se acumulava, mostrando o perfil de área de inundação do Chaco.

Atravessamos muitos quilômetros, vendo poucos assentamentos e, portanto, pouca gente. Aqui e ali, algum pequeno povoado com casinhas muito simples.

Já tinha ficado para trás El Carmen, quando vimos o primeiro posto de abastecimento de combustível. Rapidamente, percebemos que alguma coisa não iria acontecer da melhor maneira possível.

Haviam duas filas longas que logo se desdobraram em quatro filas, uma para cada bomba, embora fosse um pouco difícil compreender a lógica que comandava o caos de veículos entrando e saindo por todos os lados.

Meu marido se adiantou para perguntar se seria possível pagar com cartão de débito internacional e disseram que sim, sem maiores detalhes.

Finalmente, chegamos à bomba de abastecimento, quando fomos informados que não era possível abastecer carros com placas de outros países.

Como assim? Não é possível abastecer carros que vêm de outros países. As explicações não foram muito didáticas, mas depois viemos a entender que o combustível é subsidiado para os bolivianos e somente os que tem o registro no sistema (outro sistema!) e um número PIN poderiam ser abastecidos nos postos de forma legal.

Não ficamos muito convencidos que essa regra se aplicava aos estrangeiros, porque logo vimos vários bolivianos enchendo galões de combustível e em seguida abastecendo seus carros. Eles não têm registro no sistema? Seus carros não têm documentos? Não há postos com a frequência necessária e por isso há necessidade dos galões?

Tudo isso e mais um pouco são explicações plausíveis, porque logo ao lado do posto, há um quiosco com galões disponíveis, usados e velhos. Sim, usados porque não estão ali para venda, mas para aluguel, pelo preço de um peso boliviano (cerca de 70 centavos de real), com direito a empréstimo do funil, feito com pet de refrigerante.

Não é hilário? Quase surreal? Ali mesmo onde se vendem refrigerantes gelados e todo tipo de quinquilharia, misturando-se com frutas e com milho, estava o pau fincado próximo ao meio fio com praticamente uma dezena de galões, que eram locados e devolvidos em menos de 15 minutos.

Foi fácil constatar que, na Bolívia como no Brasil, há sempre um modo de se dar um jeitinho. Rimos da situação inusitada de abastecer o carro de modo ilegal e precário, ao lado do posto onde isso não poderia ocorrer de modo legal, mas ficamos preocupados com os quilômetros que tínhamos pela frente, razão pela qual prevenir seria melhor que remediar.

Mais ou menos no meio do trajeto, estava San José dos Chiquitos que, no dia anterior, tinha sido aventada como uma parada, caso conseguíssemos nos desvencilhar mais cedo da papelada na fronteira.

Olhando na Wikipedia fiquei sabendo que é capital da Província de Chiquitas, pertencente ao Departamento de Santa Cruz.

Foi fundada pelos jesuítas em 1697 e hoje é uma cidade de pouco mais de 20 mil habitantes, bastante pobre, mas com alguns hotéis para turistas interessados em visitar a área das missões e de se beneficiar de banhos.

Não cheguei a me inteirar que tipos de banhos são estes, mas supus que devem fazer bem, já que a poeira dominava o pequeno aglomerado, que, sinceramente pareceu pequeno para este tamanho demográfico.

Não tivemos tempo de nada, a não ser procurar um posto de combustível, que não encontramos, e de fazer nosso lanche à sombra de uma árvore numa rua qualquer. Propusemo-nos, nesta viagem, a não comer alimentos preparados em postos ou quioscos na estrada, para nos prevenirmos de bactérias e diarreias… Por essa razão, antes de pegar estrada, passamos em algum supermercado ou cafeteria que nos pareça limpa para comprar o lanche da viagem.

Agora que estou escrevendo esse texto, dou-me conta  que teria valido a pena gastar um tempinho para conhecer as construções mais antigas de San José de Chiquitos, mas estávamos focados em chegar em Santa Cruz antes de anoitecer. Quem sabe na volta, teremos chance de ver um pouco melhor esses testemunhos da história colonial boliviana, como esta edificação que a foto retrata.

Fonte: https://es.wikipedia.org/wiki/San_Jos%C3%A9_de_Chiquitos#

O bom das viagens é que mesmo nos preparando para selecionar os pontos que merecem visita, sempre nos surpreendemos com alguns lugares que nunca imaginamos conhecer e que estão ali, no meio do caminho. Assim, foi com San José dos Chiquitos (não é um nome bonitinho?).

Na segunda metade do trajeto, as paisagens começaram a se modificar um pouco. Uma linda serra estava diante de nós com formações bem especiais. Nem todas as fotos estão nítidas, porque não havia acostamento e os registros foram feitos com o carro em movimento (agora com a precaução de não levar o telefone celular para fora da janela e não o ver voar novamente como ocorreu no Mato Grosso do Sul). As imagens a seguir retratam um trecho especialmente bonito deste percurso.

A estrada serpenteava a serra, de modo muito parecido ao trajeto próximo à Serra da Bodoquena ainda no Brasil. Logo se constata que a Bacia Platina conforma um ambiente com bastante similaridade dos dois lados do Rio Paraguai.

À medida que nos aproximávamos de Santa Cruz de la Sierra o mundo dos agronegócios começou a imperar, mas isso fica para o próximo capítulo deste diário, pois a viagem foi longa, o calor intenso e os percalços com o abastecimento do veículo levavam a várias paradas. Levamos cerca de 10 horas para percorrer os 655 km.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

6 comentários em “Bolívia e Peru 4

  1. Carminha

    Muito obrigado pelo texto que, entre outros benefícios, me leva a acompanhar esta viagem de vocês…
    Boa viagem!!!

  2. KKK, realmente hilária a foto do Eliseu pondo gasolina desse jeito “não-oficial”! Levaram o galão e o funil para o restante da viagem? Tiveram que usá-lo em outras vezes?

    1. Oi Suzana, é claro que guardamos galão e funil e já usamos mais uma vez. De outras, bolivianos simpáticos emprestaram o número deles para a gente fazer o abastecimento.

  3. Querida. Essas “aventuras inesperadas” dão um colorido de comédia ao relato. Que os próximos quilômetros sejam mais tranquilos. Bjos e aproveitem!

Deixar mensagem para Leila Cancelar resposta