Bolívia e Peru 8

Cruzando os Andes e chegando à La Paz

Fizemos a segunda parte da travessia dos Andes, percorrendo o trecho entre Cochabamba e La Paz, cidade onde estou escrevendo esse “capítulo” de meu diário de viagem à Bolívia e ao Peru, descrevendo o que vivemos há dois.

Não sei bem por que, depois de um dia cansativo de passeios em La Paz, que descreverei em outros capítulos, zapeando pela Netflix no apartamento alugado pelo AirBnB, onde estamos hospedados, encontramos o filme Sociedade da Neve. Ele é a aposta dos espanhóis para ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro. Clicamos e passamos duas horas e vinte minutos magnetizados pela película.

Fonte: https://javiu.blog/2024/01/05/005-2024-a-sociedade-da-neve/

Trata-se da filmagem do que alguns chamaram de a “Tragédia nos Andes”, outros de o “Milagre nos Andes”, representando o que sucedeu após a queda de um avião da Força Área Uruguaia, que, em 1972, levava um time de rugby e outros passageiros para Santiago do Chile. Eram 45 pessoas no total, das quais sobreviveram 16. Foi um acidente muito divulgado pela imprensa na época.

Alguns faleceram no momento em que o avião caiu sobre os Andes, cobertos de neve, outros morreram durante os 72 dias de luta para sobreviverem até encontrar socorro. Sim, foram eles que foram atrás de socorro, porque as ações de busca já tinham sido encerradas há algumas semanas.

Senti arrepios ao ver o filme e o recomendo. Primeiro, porque é uma película sensível e não cai em maniqueísmos sobre a pertinência ou não dos sobreviventes, a dada altura, passarem a se alimentar da carne dos corpos dos que faleceram.

Em segundo lugar, porque as imagens são lindas de morrer e os atores latino-americanos, nesta produção hispano-estadunidense, trabalham muito bem.

Por último e o que é mais importante para este relato, porque, pelo filme, constatamos a grandeza da natureza e de suas dinâmicas, sobretudo quando estamos tratando de altitudes como a desta cordilheira.

É claro, os Andes são exuberantes, como procurei mostrar no capítulo “Bolívia e Peru 6”, mas é, ao mesmo tempo, incrível imaginar as dificuldades que, no passado ou hoje, os seres humanos enfrentavam e enfrentam para atravessá-lo.

De boa, nós atravessamos por terra, portanto não estávamos num avião que não conseguiu concluir o trajeto proposto. Ufa! Que alívio.

Mesmo assim, sentimos a grandeza das forças naturais que erigiram essas paisagens tão maravilhosas.

Resta sempre um pouco de inveja, positiva é claro, dos corajosos que desafiam a natureza, pois é epopeica a experiência que vivem, como deve ser a relatada pelo alpinista inglês que escalou as maiores elevações da América do Sul. Pretendo ler este livro qualquer hora.

O trecho que percorremos perfaz 379 km, que levamos para atravessar um pouco mais do que as sete horas previstas pelo Google Maps.

Como se pode ver na imagem, foi na primeira parte que enfrentamos os aclives mais pronunciados, porque depois o percurso se desenvolve, pelo altiplano em que se encontra La Paz. Independente dos trechos mais ou menos íngreme da rodovia, todo o tempo estamos cercados de elevações e formações geológicas das mais impressionantes.

Ao contrário da travessia realizada para chegar a Cochabamba, aqui a cordilheira, em patamares mais elevados, mostra-se com toda sua força geomorfológica, já que a vegetação é escassa a não recobre as maravilhosas formas esculpidas pelo tempo, desde a Era Terciária. As fotos falam por si.  Mostram o tamanho dos veículos diante das elevações rochosa.

Fazem-nos rir com as placas de trânsito, solicitando que não ultrapassemos os 50 km por hora, como se isso fosse possível nos trechos mais acidentados.

Representam as camadas que se sobrepuseram e depois se dobraram, formando a cordilheira e mostrando uma sucessão de tempos geológicos.

As fotos também revelam a beleza dos vales que se escondem entre as serras; as encostas mais suaves que foram sendo degastadas durante milênios…

Ao contrário do território onde houve o acidente com o avião da Força Aérea Uruguaia, na fronteira entre a Argentina e o Chile, os Andes são menos inóspitos à vida humana na Bolívia. Por essa razão, havia lugarejos e gente por todo o percurso, ora ocupando vales entre montanhas, ora ocupando justamente as partes mais elevadas.

Em Tapacari, havia uma placa informando que estávamos a 4.102 m de altitude. Saindo do carro para uma foto ou outra, sentíamos tanto o vento frio como um pouco de falta de ar.

Afirmar que a vida é menos inóspita neste território não significa que a vida destes bolivianos deve ser fácil.

A fonte de renda para os que vivem nessas alturas, pelo que pude observar, advém da criação de ovelhas, da produção de algum artesanato muito elementar, da venda de combustível e de alguns alimentos que são oferecidos às margens da rodovia.

Perguntei-me o que levava tanta gente a viver nesse território, em que as dificuldades se apresentam cotidianamente, mesmo no verão.

Depois me lembrei que, provavelmente, a eles não foi dada oportunidade de qualquer escolha. Estão ali e pronto!

É necessário fazer o possível e sobreviver.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

4 comentários em “Bolívia e Peru 8

  1. Olá Carminha

    Muito obrigado por mais este blog. A Folha dessa segunda-feira (8/1) publicou uma boa análise das motivações que levaram ao filme Sociedade da Neve.
    Que a viagem de vocês continue com paisagens de conforto!!!

    Grande abraço

    mmdospassos

  2. 4 mil metros de altura! Com 2500 eu já tive mal de altura na França! Imagine aqui!
    Carminha, suas fotos estão ótimas, mas fiquei procurando neve. Há?
    Gostei muito de seus comentários e figuras mostrando as formações rochosas com diferentes idades arqueológicas!

    1. Oi Suzana, como é verão, apenas os mais elevados e que estão distantes da cidade tem neve nos picos. Tirei hoje uma foto para mostrar para você. Daqui uns dois dias vou fazer um capítulo a mais de La Paz e ponho a foto. Obrigada pela leitura

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