Bolívia e Peru 10

O comércio e las cholitas

La Paz encanta porque é uma cidade cheia de vida. Muito do que se vê aqui, encontra-se por toda a Bolívia, mas a densidade humana, o sítio urbano marcado por desníveis imensos e a necessidade de todo mundo se virar para ganhar a vida tornam a vida pública tão intensa, que é magnífico observá-la.

Desde a origem das cidades, o comércio foi uma atividade importante para lhes explicar a gênese e justificar a existência e o crescimento. Essa função urbana permaneceu em diferentes períodos da história e de modos de produção, seja no Ocidente, seja no Oriente, nos países ricos ou nos pobres.

Estamos na América Latina e, quando analisamos esse subcontinente, enxergamos, neste espaço, uma unidade que o diferencia, por exemplo, da América Anglo-Saxônica, ou da África ao sul do Saara, ou da Ásia de Sudeste. No entanto, quando aproximamos a lente, as diferenças aparecem, com muita intensidade e a ideia de unidade latino-americana precisa ser matizada.

No caso brasileiro, é indubitável o papel que as feiras tiveram e, em algumas cidades do Nordeste, ainda têm. No sul do Chile, visitamos mercados imensos. Na Colômbia, também é importante o comércio de rua. Em Cuba, na Guatemala ou em El Salvador nem se fala. Entretanto, nada me pareceu tão intenso como a importância que o comércio tem na Bolívia.

Não há pedacinho de calçada em que não haja uma pequena barraca ou carrinho oferecendo alimentos ou uma lona com os produtos em exposição; não há bairro da cidade onde o comércio não esteja; não é possível pensar nos postulados de Le Corbusier que propugnou uma cidade com separação de funções no espaço.

Aqui, tudo é misturado e junto! Desse ponto de vista, a Bolívia se parece mais com o Vietnã do que com a Argentina ou o Brasil.

Nas ruas onde o comércio formal se estabelece, em lojas que estão funcionando regularmente, o comércio informal está bem em frente, na calçada e na rua, vendendo produtos semelhantes (talvez revendendo das lojas) ou completamente diferentes, como uma ação de complementaridade, por exemplo, lojas vendendo roupas e barracas na rua vendendo alimentos prontos para quem está fazendo compras.

Olhando de cima, a partir de registros feitos no percurso por teleférico, veem-se as barracas por toda parte, às vezes em esquinas, às vezes por ruas completas.

Há setores do comércio que são mais voltados aos turistas, como a rua dos paráguas, como é conhecida por causa da seus adornos.

Ou a rua Sagarnaga, uma das mais importantes, comercialmente falando, por meio da qual se chega à grande praça onde está a Igreja de São Francisco.

Se você for um dia a La Paz, não deixe de fazer a visita guiada a essa igreja, pois as obras de arte que estão no convento dos franciscanos e a própria construção merecem ser apreciados.

Eu gostei dos pátios internos, das galerias, do jardim onde os religiosos cultivavam temperos e árvores frutíferas, da torre com os sinos e das paredes azuis que distinguem uma parte da edificação.

Saindo do silêncio que o ambiente franciscano nos proporcionou, encontramos novamente o comércio, o barulho que lhe é peculiar e gente, mais gente, na enorme praça onde uma parte das pessoas transita, outras vendem e compram, e outras, apenas, ficam sentadas na escadaria esperando o tempo passar.

As rainhas deste comércio, que está por toda lado, são as cholitas, como aqui são chamadas as mulheres que, com origem ou moradia na área rural, ainda se vestem de modo tradicional.  Cholita é diminutivo de chola, que segundo a Wikipédia é

“…é uma denominação étnica referida a mulheres mestiças. O termo aplica-se de maneira contemporânea àquelas que utilizam vestimentas tradicionais estabelecidas durante o processo inicial de mestiçagem no atual território boliviano, e também se estende à outras mulheres mestiças e indígenas.”

É impressionante o quanto elas trabalham. Chegam cedo, descem das vans, abrem seus panos coloridos na calçada ou descobrem as pequenas barracas que já têm estabelecidas e passam o dia comercializando.

Em algumas situações cozinham por ali; em outras trazem alimentos naturais produzidos, sem agrotóxicos como destacou nosso guia Franz; vendem frutas descascadas; comercializam lenços de papel, cartões para celular e outras quinquilharias do mundo industrial…

Comem ali mesmo e, mais de uma vez, via que, após ao almoço, abaixam a cabeça sobre o próprio colo e tiram um cochilo.

Sinceramente, fiquei pensando o que fazem os homens por aqui, porque também na área rural, a pastagem de ovelhas ou alpacas, é responsabilidade delas.

JáJá algumas que se vestem de calça jeans, ou abrigo da Nike e usam tênis, mas são exceção. Neste caso, praticam o comércio, mas não merecem ser chamadas de cholitas.

A maioria está trajada com suas saias pregueadas, sob as quais usam enchimentos e várias anáguas coloridas. Com as duas tranças e a mercadoria ou o bebê que trazem nas costas em seus tecidos coloridos, que são vendidos por toda parte, compõem a paisagem urbana boliviana.

Achei engraçadas duas coisas. Primeiro que, mesmo com um calor grande no meio do dia, permanecem extremamente agasalhadas, pois além das saias com várias camadas, e o tal enchimento para alargar o corpo abaixo da cintura, várias delas estão com meias de lã e usam xales para completar o traje, ainda que seja verão.

Em segundo lugar, todas usam chapéus, porque o calor aqui é intenso e embora a maioria já tenha optado por modelos mais modernos, ainda há as que são fiéis ao de feltro marrom, tipo um chapéu coco. Este, a meu ver, nem protege do sol, porque a aba é curtinha, nem protege do frio, porque ele não entra efetivamente na cabeça, mas fica equilibrado sobre ela e a qualquer ventinho, elas erguem a mão para segurá-lo.

Nos dias de festas, como pude observar em El Alto, ocasião em que se dirigiam a uma festa religiosa, elas usam o mesmo traje, mas muito mais refinado. Algumas vezes com tecidos acetinados, coloridos, com algum tipo de brilho e joias. Não consegui fazer uma foto, mas reproduzo a que se segue que extraí do Pinterest (https://br.pinterest.com/pin/3377768464255956/)

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

3 comentários em “Bolívia e Peru 10

  1. Que interessante a figura da “chollita”. Será que são moradoras urbanas, já integradas ao movimento da capital ou ainda são moradoras rurais que comercializam os produtos da agricultura familiar e fazem o percurso até o centro da cidade?

    1. Leila, pelo que pude constatar são moradoras da área rural, de cidades pueblos ou cidades pequenas, que diariamente se deslocam para vender seus produtos no centro ou nas feiras de La Paz. Ao andar pelas rodovias, as vemos por todo lado, tanto no trabalho agrícola, como também comercializando produtos ao longo da rodovia. Embora eu pensasse no começo que seriam poucas, quase como encenações para turista ver, são muitas e cotidianamente se vestem mesmo deste modo.

  2. Carminha, além de suas ótimas descrições, as fotos estão maravilhosas! Obrigada por esse tour visual ! A foto de Eliseu na rua dos paraguas, por ex., está excelente ! E das vestimentas das mulheres, e da vista de cima das feiras!
    Eu me esqueci de comentar no seu primeiro relato de La Paz, quando ficaram chocados e assustados com o trânsito caótico, como isso me lembrou do centro de Cairo, também uma loucura! Fomos com um guia a um restaurante típico e tivemos que andar a pé pois o trânsito estava paralisado com vans e carros em diferentes direções.
    Outra coisa me que lembrou o Cairo foram as casas sem reboque, talvez pelo mesmo motivo que em La Paz: imposto menor. Além disso, foi construída uma avenida que “pegou” parte dos prédios e das casas e os deixou “cortados”! Tivemos a impressão de uma cidade bombardeada!

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