Bolívia e Peru 11

A entrada no Peru não foi fácil. O fato de estarmos com um carro locado da empresa Kinto Share, associada da Toyota no Brasil e presente também na Bolívia, não facilitou em nada nossa passagem pela fronteira.

Saímos cedo de La Paz, no dia 8 de janeiro de 2024, animados para chegar em Cusco (cada vez vejo menos a grafia Cuzco), passando por Desaguadero, o que corresponde a 113 Km.

Gastamos, ao menos uma hora e meia, para vencer o trânsito da região metropolitana, saindo de La Paz e atravessando El Alto, mas depois encontramos uma estrada livre, em boas condições e com lindas paisagens.

Passamos por Tiwanaku, onde há ruínas arqueológicas importantes, mas desistimos de fazer a visita pelo tempo necessário, face à nossa preocupação de termos ainda que vencer os trâmites fronteiriços e, depois, fazer mais 160 km até a cidade de Puno.

Sabíamos que a estrada era tortuosa e, portanto, não alcançaríamos velocidade alta. Pelo que vimos em folhetos e na internet, a visita às ruínas vale a pena, mas ficou sem ser feita… Acho que já estávamos adivinhando o que viria.

Antes de alcançarmos Desaguadero, a paisagem dominada pelo Lago Titicaca (ou Titikaka) já nos animava, tal a sua extensão e pelo azul da água que se mistura com o azul do céu.

A passagem pela Aduana boliviana foi fácil, porque estávamos já com o documento de circulação do carro obtido na fronteira com o Brasil.

Atravessamos a ponte que faz a ligação entre os dois países e chegamos à barreira constituída pelo que chamam de “Controles Integrados Bolívia – Peru”.

Esse serviço coloca no chinelo os que são oferecidos na fronteira Brasil – Bolívia, marcada pela pouca articulação, desorganização e falta de informação, como eu já descrevi em capítulo anterior desse “diário de expedição” – “Globalização, pero no mucho” disponível em: https://wordpress.com/post/carminhabeltrao.com/3176.

Num mesmo prédio, grande, bem iluminado e sinalizado, com várias vagas para estacionamento, estão a Polícia de Imigração boliviana e a peruana, em guichês lado a lado. Em anexo, o serviço da Aduana para verificação de bagagens e veículos. Tudo fácil e rápido. Em vinte minutos tínhamos, no passaporte, os carimbos de saída da Bolívia e entrada no Peru.

Fomos para a fila da verificação do veículo e logo fomos interceptados por agente da Polícia peruana, que se dizia também advogado, e nos abordou para explicar que nosso documento de locação do veículo não era suficiente para que entrássemos no país.

Ele tinha razão, na minha opinião. O tal documento trata mais das nossas obrigações para a devolução do carro e seu usufruto, do que explicitava o direito sobre o uso do veículo. Argumentamos, mas em vão. Ele contra-argumentava frisando que era preciso um papel que dissesse que tínhamos “poder” de dirigir o automóvel em outro país que não o Brasil. Demoramos a entender o que ele queria nos explicar, mas deduzimos que seria o poder sobre o carro, mesmo não sendo proprietários dele.

Nenhum comportamento inadequado do policial, tampouco sugestão de que algum suborno resolvesse o problema. Aconselhou-nos a voltar a La Paz e tentar novos documentos da empresa e/ou passar pela embaixada brasileira.

Voltamos cabisbaixos pela fileira de centenas de caminhões, a maior parte de combustível, entremeados por alguns tuk tuks que levam pessoas para lá e para cá, que aguardavam a verificação dos respectivos documentos.

Antes, porém, passamos pela Imigração e novos carimbos de saída do Peru e entrada na Bolívia. Em outras palavras, entramos e saímos dos dois países no mesmo dia e no intervalo de menos de uma hora.

Paramos na volta para almoçar num restaurante agradável na entrada de Tiwanaku, no qual degustamos uma deliciosa truta na chapa. Havia outras duas mesas ocupadas, por pequenos grupos de turistas e o guia, nas quais o idioma falante era o inglês.

Com o estômago cheio e desanimados, lá pegamos nós o caminho de volta a La Paz, após avisarmos, pela plataforma do Booking, ao hotel em Puno, que não chegaríamos mais naquela noite.

Fomos para o Hotel El Rey, na capital, reservado de última hora, e mais uma vez enfrentamos o trânsito da região metropolitana.

No dia seguinte, após “mil” mensagens para a Toyota em Presidente Prudente, à qual se associa o serviço da locadora, obtivemos um novo documento que foi, depois, impresso e carimbado na agência da Locadora Kinto em La Paz. O Rodrigo que nos atendia, por WhatsApp (telefonemas e mensagens) foi incansável, desde a véspera, que era um domingo, mas penso que, realmente, a empresa não tem prática em locação para saída do veículo do Brasil.

Voltamos animados para a fronteira, agora com um contrato assinado digitalmente pela empresa e novamente fomos barrados, já que ele não estava chancelado por um cartório ou coisa do tipo.

Em suma, percebemos que são precauções adequadas que o governo peruano toma contra roubos de carro, cuidados que o governo boliviano parece não ter.

Novamente fizemos o trecho de volta para a capital, agora hospedando-nos no Hotel Madero, perto da Plaza de los Estudiantes, o qual recomendamos para quem for a La Paz.

Passaram pela nossa cabeça duas opções: – abolir a ida ao Peru, a qual, aliás, era a mais indicada, depois de duas tentativas frustradas; – a outra era tentar a validação daquele documento na Embaixada do Brasil.

Ficamos com a segunda, mesmo que relativamente pessimistas sobre as possibilidades.

Às 9h00 em ponto do dia seguinte, 9 de janeiro de 2024, chegamos à Embaixada brasileira em La Paz e fomos informados que devíamos ir ao Consulado… Ok, era ao lado, num prédio elegante, mas só abriria às 9h30. Plantamo-nos na recepção e fomos os segundos a terem direito de ser atendidos.

Fonte: https://es.wikipedia.org/wiki/Archivo:Embajada_de_Brasil_en_La_Paz,_Bolivia.jpg

A funcionária era uma boliviana que morou dez anos no Brasil. Boliviana loira e de cabelo encaracolado, o que não é comum. Gentil, atenciosa, mas cética quanto ao que poderia ser feito em nosso favor. Sugeriu que fôssemos à empresa, explicamos que já tínhamos ido. Lembrou que o documento deveria ter vindo com o reconhecimento de um cartório brasileiro. Contra-argumentamos que o consulado era território brasileiro na Bolívia e ali essa chancela poderia ser dada. Ela dizia que não.

Praticamente desistimos, mas ela ficou tão penalizada que se dispôs a ir falar com o Vice-cônsul que, após 10 minutos, veio até nós. Era um carioca que tinha o semblante cansado da burocracia. Foi, assim, que o interpretei.

Explicou as limitações que o consulado tem em situações como esta, mas se dispôs a oferecer uma cópia autenticada do documento que tínhamos em mãos que, a bem da verdade, também não era o original porque foi encaminhado pela internet…

Novas providências: para tal, era preciso ir a um banco e pagar cinco dólares pela cópia. Eliseu foi ao mais próximo, onde a funcionária aproveitou para solicitar a ele que contribuísse com uma campanha humanitária que estava em curso. Como discordar numa situação como aquela?

Voltando ao consulado, foi mostrado o depósito e solicitada a cópia. A gentil funcionária pediu que voltássemos às 11h30 para pegar.

Eliseu reagiu rapidamente: “Não é possível! Por que a cópia não pode ser feita e assinada agora?” Ela olhou para a cara dele, pouco amigável àquela altura, e foi ao encalço da assinatura. Por volta de 10h30, saímos do consulado com o papel na mão.

Pondera daqui, pondera dali, lembramos que não era bem um documento chancelado como, na fronteira, havia sido solicitado, mas apenas uma cópia autenticada pelo consulado e tivemos dúvidas se valeria a pena nova ida até a fronteira.

Acho que meu sangue espanhol valeu nessa hora e minha tendência a não desistir facilmente prevaleceu, embora soubesse que a possibilidade era pequena.

Eliseu teve uma ideia, então: mudar de ponto de passagem na fronteira, como um modo de não nos encontrarmos mais com o gentil policial-advogado tão cioso da obtenção do documento correto.

Foi assim que saímos pela terceira vez de La Paz, agora em direção a Copacabana. Vejam, no mapa, que este ponto da fronteira está um pouco mais ao norte que Desaguadero e escondido nos meandros do Lago Titicaca e suas ilhas.

Ao mesmo tempo em que íamos em direção à terceira tentativa, preparávamos o “espírito” e o planejamento da viagem para a hipótese de não entrar no Peru.

Para chegar em Copacabana, fizemos um lindo percurso que vou contar em outro capítulo deste diário.

Por volta das 17h, antes de nos acomodarmos no hotel Rosário reservado para passar a noite em frente ao lago, resolvemos ir à Aduana Peruana a pouco menos de 20 km dali.

Fomos sinceros ao contar que já tínhamos tentado passar pela fronteira, mas omitimos o fato de que havia sido duas vezes. Fomos logo informando que trazíamos um documento com chancela do Consulado do Brasil, sem explicar bem que tipo de selo foi o que se imprimiu no documento, simplesmente o de uma cópia reconhecida.

O primeiro policial olhou e resolveu entrar no container-caminhão que servia de escritório aos funcionários da Aduana Peruana. Mostrou para uma policial que estava acima dele na hierarquia, pelo que presumimos. Ela faz cara de descrença e balbuciou que achava que não serviria, mas resolveu ir direto ao chefe, que olhou o selo do Consulado e enfaticamente em 10 segundos disse: Vale!

Fomos dormir com essa primeira impressão de que seria possível.

Acordamos cedo e passamos pela Imigração primeiramente, onde outros preenchimentos e formulários foram necessários. Tudo rápido e antes das 9h00 estávamos diante dos mesmos funcionários do dia anterior. Éramos o segundo carro na fila. O primeiro era uma super Hillux dirigida por um argentino que viajava com três filhos homens jovens. Pretendiam ir até Machu Picchu.

Nesse meio tempo, o da espera, resolvi fazer uma foto da placa da fronteira e me dei conta que estava sem celular. Eliseu tinha ido com ele até o pequeno quiosque para imprimir os tais formulários de imigração e, na pressa, tinha deixado o aparelho por lá.

Voltou correndo, percorrendo a pé uns 200 metros enquanto eu ficava guardando lugar na fila para verificação do carro. Antes que ele voltasse aliviado com o aparelho na mão (o dono da bodeguita poderia ter ficado com o smartphone), o policial da Aduana peruana já tinha verificado tudo no carro e até fotografado o número do chassi.

Ficamos mais uns minutos na fila e o mesmo policial chefe do dia anterior preencheu um formulário no computador lentamente e nos entregou o papel de circulação do veículo no Peru, impresso (uma impressão horrível pois a tinta estava fraca), assinado e carimbado.

Pronto, estávamos empoderados! Entramos vitoriosos no carro, onde eu fiz um “Hip Hip Urra” duas vezes em voz alta. Eliseu me recomendou baixar o tom, antes que eles nos escutassem e pedissem o documento de volta.

Vitória!

Fonte: https://br.freepik.com/vetores-premium/desenho-de-pessoas-pequenas-com-a-palavra-vitoria_18761359.htm

Com um enorme saco de pipocas para o almoço, fotografamos a placa de boas-vindas e pegamos a estrada para Cusco.

Foram mais 530 km sobre os quais escrevo alguma coisa depois.

Enquanto os percorríamos, mentalmente refazíamos o roteiro previsto para o Peru, que incluía Puno, Cusco e Arequipa. Invertemos a prioridade. Perdemos a reserva em Puno em função das três noites que passamos entre La Paz e Copacabana e deixamos esta cidade para a volta. Agora, precisávamos ir para Cusco, onde também já tínhamos perdido um dia da reserva, mas ainda tínhamos duas noites pagas.

Era preciso fazer algum corte no roteiro inicialmente desenhado.

Foi assim que Arequipa sumiu do mapa. Não do mapa do Peru, mas do nosso mapa de viagem.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

3 comentários em “Bolívia e Peru 11

  1. Boa tarde, Carminha

    Os seus relatos são totalmente pertinentes. E, claro, vocês viveram momentos de inquietações. Eu acho que, em parte, é que muitos carros roubados no Brasil são levados à Bolívia… Eu já estive na fronteira da Bolívia com o Mato Grosso, em San Martín. E fui alertado do risco do carro ser roubado pelos “cabriteiros”: expressão utilizado naquela “região” para se referir aos ladrões de carro…
    Curtam e Cuidem-se!!!!

  2. Olá Carminha

    Muito obrigado por este e pelos demais relatos! Sigo “viajando” com vocês…

  3. Carminha! que “via Crucis” atravessar essas fronteiras!! Inacreditável! Nessas horas é que pensamos como com avião tudo fica mais fácil!

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