Bolívia e Peru 13

Fonte: https://www.inkanmilkyway.com/pt-br/blog/praca-das-armas-cusco/

Por onde começar? Tudo que eu falar sobre Cusco, ficará aquém da maravilha de síntese histórica e cultural, que essa cidade é expressão.

Representativa do Império Inca, Cusco foi, por dois séculos, a sua capital, do ponto de vista administrativo, militar e religioso. Sua situação geográfica no Vale do rio Huatanay, assentando-se sobre uma planície entre montanhas, o que, para este império significava o “céu na terra”.

Entre os séculos XII e XV, 13 imperadores incas governaram a partir desta cidade. Quando os espanhóis chegaram e os dominaram, sobre as fundações da cidade inca, ergueram a sua. Por isso, essa cidade é considerada símbolo da mescla, ou da mestiçagem, entre a cultura andina autóctone e a que se impôs pelo domínio hispânico.

Não é demais lembrar que, embora eu mesma tenha qualificado a presença inca como autóctone, nos séculos VIII e IX, os Wari já haviam ocupado este território e, antes deles, outras tribos e nações.

O que resulta hoje como patrimônio e representação é a relação ou a tensão entre a cultura inca e a hispânica. Desse ponto de vista, embora Cusco me leve a comparações com Ouro Preto ou Olinda, para citar dois exemplos brasileiros de cidades históricas, ela tem um patrimônio muito mais muldimensional e multicultural.

A imagem que abre este capítulo corresponde a Cusco, ainda sob o comando inca, em 1470. Vejam que já era um cidade grande e densa do ponto de vista das construções, mas que foi arrasada pelos espanhóis.

Muitos dos edifícios pré-incas foram destruídos e substituídos por palácios incas, como o Palácio Huayna Qapac ou o Palácio Wiracocha. Havia também outros edifícios, como Accla Wasi (casa das mulheres escolhidas), Suntur wasi (arsenal) e Yachay Wasi (casa do conhecimento), bem no centro havia um “Ushno”, uma espécie de pirâmide truncada e muitos outros edifícios na área Oriental.

O chão desta praça pré-hispânica estava cheio de areia trazida da costa por ordem do imperador Pachacuteq. O nível ou elevação do piso era pelo menos 1 metro mais profundo que o nível atual.

Fonte: https://www.inkanmilkyway.com/pt-br/blog/praca-das-armas-cusco/

Enquanto Pizarro, no século XVI, esteve sob o comando de Cusco, ela era um centro importante da presença hispânica nos Andes, mas a sua saída deste território, pelo que pude ler, deixou a cidade em certo ostracismo, o que foi se recuperando, aos poucos, a partir da ‘redescoberta” de Machu Pichu, em 1911, e de sua transformação em sítio arqueológico e lugar de visitação turística importantes, já que a distância entre a cidade em tela e este “santuário arqueológico” é de cerca de 100 km.

A Unesco declarou Cusco como Patrimônio da Humanidade em 1983. Ouro Preto recebeu esse título em 1980, Olinda em 1982, o centro da Cidade do México em 1987, Sucre na Bolívia em 1991, Cartagena na Colômbia em 1984, o que me leva a crer que foram do último quartel do século XX as iniciativas para reconhecimento da importância cultural e artística na América Latina.

Entre esses exemplos que citei, só falta conhecer Sucre, o que deverá ocorrer ainda nesta “expedição”. Todas as demais considero muito representativas de tempos históricos importantes para determinadas sociedades e culturas, hoje apropriadas pelo turismo com seu potencial e com suas mazelas.

No entanto, talvez, seja Cusco a mais significativa da simbiose cultural que ela representa, já que, em alguns casos, as nações indígenas que ocupavam o território antes da chegada dos portugueses e espanhóis não tinham vida urbana e, portanto, não havia a cidade do colonizador, sobre a cidade primeira. No caso da cidade do México, Teotihuacán, um dos símbolos da Civilização Asteca, está na região metropolitana, mas não ocupa o mesmo sítio da atual capital.

A Cusco que vejo hoje é também uma mescla de mais de uma experiência que vivi. Estive aqui pela primeira vez há cerca de 10 anos. Orientei, com prazer, a tese de doutorado de Rita de Cássia Andrade que versou sobre essa cidade e, por meio dela, aprendi um pouco sobre a sua histórica social e sua geografia urbana. Li textos aqui e ali que me deixam reminiscências, que, é claro, sempre resultam de uma seleção que a memória de cada um de nós opera, mais involuntária do que voluntariamente. As minhas lembranças são todas positivas e se reavivam agora.

Quanta coisa há para se ver em Cusco, mas seleciono como sua representação atual mais emblemática a Plaza de Armas, também nomeada, em alguns mapas, como Plaza Mayor, com seus arcos e sacadas de madeira, projetadas no primeiro piso, como ‘binóculos’ para se olhar o espaço público.

Se, no passado, essas varandas eram ocupadas por famílias da elite hispano-peruana, hoje alojam cafés, pubs e restaurantes, onde o direito de se sentar numa mesa nestas adoráveis janelinhas, tem que ser precedido de reserva e da disponibilidade para pagar preços um pouco mais altos do que em outros sítios, mas vale a pena. Os balcones como eles chamam são espaços especiais para se olhar essa cidade.

O cuidado com os jardins floridos, que já tínhamos visto em praças bolivianas, também está por aqui.

Curto jogar meu olhar sobre esta praça, ora andando por ela, sentada num dos bancos, fotografando a vida pública que ali se desenrola e meu parceiro querido, ou mirando-a pela grade da janela do Starbucks e pela varanda do Restaurante Morena.

Também posso fazer de binóculo o Google Maps, aproximando escalas e possibilidades de olhar, para entender essa cidade: rede urbana, município, centro histórico, Plaza Mayor de Cusco.

De qualquer ponto da praça e mesmo um pouco longe dela, a Catedral domina a paisagem no seu estilo renascentista, segundo o que li. Como outras igrejas, que vimos por aqui, tanto nesta cidade como em outras, a visão é dominada pelo granito vermelho que recobre as fachadas.

Aliás, a Plaza de las Armas conta com outras duas igrejas também revestidas por este granito: – a mais antiga, situada à esquerda da catedral e praticamente justaposta a ela, é chamada El Triunfo porque foi erigida sobre arsenal inca para demonstrar a vitória espanhola; – a da Companhia Jesuítica, chamada Capela de Jesus, Maria e José, fica à direita.

Nas ruas estreitas, que acedem a esta praça o comércio se desenvolve, pequenas agências de turismo vendem pacotes de todo tipo, gente oferece massagens a preços módicos (fiquei desconfiada), localizam-se tanto pequenos hostales, como hotéis boutiques ou de grandes redes. Há até os que valorizam a hospedagem do público LGBTQI+.

Adoro o desenho das pedras compondo um piso por onde milhões de pessoas em algumas centenas de anos têm passado.

Face à altitude de Cusco, subir essas ladeiras é uma dificuldade para nós. No entanto, vê-se que elas dão acesso às áreas mais periféricas que se expandiram a partir do núcleo histórico, pois a cidade sobe os morros.

Para fazer a foto que se segue e mudar nosso ponto de vista, enfrentamos uma das ladeiras. O coração dispara, o ar falta, mas valeu a pena, inclusive para ver os cusquenhos no seu dia a dia. Vejam, à direita, o casal que se beijava sob os capuzes dos agasalhos.

Por fim, a demonstração da nacionalidade peruana em um dos contrafortes da serra que abraça o núcleo histórico de Cusco.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

2 comentários em “Bolívia e Peru 13

  1. Que fotos maravilhosas! Carminha, Além de escritora, você é ótima fotógrafa! Só precisa aparecer mais nas fotos! ( Mesmo que Eliseu seja um ótimo modelo!)
    Estive em Cusco com Odorico e Marialva, uma amiga da Fundação Carlos Chagas. Tínhamos ido à Lima para um congresso.
    Fiquei também maravilhada com a praça, os caminhos de pedra, as pedras colocadas pelos incas e as “pedrinhas” colocadas elos espanhóis, como nosso guia insistia em enfatizar.
    Fomos a um restaurante de um chefe famoso: Gastón Acurio. Restaurante pontuado no Michelin. Comemos apenas uma entrada pois o preço também era “estrelado”! Espero que vocês também o tenham degustado!

  2. Que maravilha esta interpretação sobre Cusco, Carminha. É mesmo surpreendente esta cidade. Uma parte dela construída sobre uma estrutura pré-existente de povos originários, toda sua paisagem e ambiência desta simbiose entre o passado e o presente. Um presente marcado pela diversidade também. Estive nela em 2013, foi mágico. A bandeira LGBQI+ na fachada de um hostel chama a atenção mesmo pelo o que se chama e Pink Money, nada mais que investimentos em membros da comunidade gay em viagens e turismo em geral. Muito bacana!

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