Bolívia e Peru 15

Cusco: arte e cultura

Fonte: https://pt.vecteezy.com/arte-vetorial/20600215

Cusco é uma cidade que tem lugares que são bem especiais.

Como essa é nossa segunda vez nesta cidade, optamos pelo usufruto de um tempo mais lento, sem qualquer intenção de ver ou rever tudo que os guias ou sites turísticos recomendam.

Assim, foi possível “degustar” mais os lugares, mais do que apenas ir ticando uma lista infinda de visitas a serem feitas.

Começamos pela Iglesia de la Companhia de Jesús, situada na Plaza de las Armas, também conhecida como Mayor.

Ela está construída no mesmo terreno em que estava antes o palácio inca Amarucancha. Segundo a Wikipédia, os jesuítas chegaram em Cusco em 1571 e foram autorizados a se apropriar de Amarucancha que, a esta altura, era dos herdeiros de Pizarro, o espanhol que primeiro dominou Cusco. A primeira igreja foi demolida pelo terremoto de 1650 e logo depois teve início a construção da atual edificação. 

Fonte: https://es.wikipedia.org/wiki/Iglesia_de_la_Compa%C3%B1%C3%ADa_(Cuzco)#/media

Não se trata de uma construção suntuosa, mas há dentro dela altares, retábulos e imagens que encantam pelo folheado em ouro e pela mescla de traços europeus e traços indígenas, nas fisionomias e corpos representados.

Na sala lateral à igreja havia uma exposição de presépios – um mais lindo que o outro – sendo que os que mais me interessaram foram os que expressavam esta mescla de civilizações que caracteriza Cusco.

No dia seguinte, para não ter uma overdose de igrejas no mesmo dia, revimos a Catedral de Cusco, que havíamos conhecido minuciosamente com o guia que nos acompanhou há 10 anos.

Ele era professor universitário no campo da Antropologia e Arqueologia, e foi excelente nas explicações que nos oferecia.

Ao entrarmos no recinto, constatamos que não nos lembrávamos de muita coisa. Senti uma certa sensação de perda por não reter tanta coisa interessante que aprendemos. Li em algum lugar que retemos cerca de 10% apenas do que lemos ou vivemos e que ficaríamos loucos se conseguíssemos reter tudo.

Desse ponto de vista, é bom rever os lugares, para reativar parte dos 90% que foram olvidados. Adoro o verbo olvidar e suas derivações substantivas e  adjetivas porque acho que ele é mais que esquecer… que seria a tradução mais imediata, mas não sei explicar bem por que sinto essa diferença.

Efetivamente, esta igreja é grandiosa. O número de altares laterais, a magnificência do coro talhado em madeira, a beleza das imagens e das pinturas… É difícil até entender por que, por exemplo, não é tão famosa como a Notre Dame.

Por ser um cartão de visitas da Cusco espanhola, talvez esteja melhor preservada do que a dos jesuítas. Foi o que deduzi ao observar que o folheado de ouro dever ter sido recuperado recentemente, as madeiras estavam lustrosas, o chão limpíssimo.

Não era permitido fazer registros fotográficos, o que não concordo, porque se eles não forem efetuados com flash não prejudicam as obras expostas. Ademais, nem havia uma lojinha ao final da visita para se comprar os cartões que substituem as fotos, como ocorre em visitas similares na Europa, por exemplo.

Pronto, lá estava eu novamente cometendo delitos. Já não basta as maracutaias para obter combustível na Bolívia, eu estava fazendo sorrateiramente algumas fotos. Nem todas ficaram enquadradas, é claro, porque era preciso fazer uma ginástica grande para esconder o celular da visão de outrem.

Adorei o Cristo, praticamente negro, entre Maria e José alvos. Segundo informações, a maior parte das pinturas e estátuas foram feitas por indígenas, por isso são anônimas e revelam a mestiçagem que marcou a invasão espanhola na América andina.

Essa magnífica catedral levou um século para ser construída e foi concluída em 1654, apesar de sua abóbada ter sofrido um pouco com o terremoto de quatro anos antes.

Os registros fotográficos que incluo aqui são parte pequena do que há dentro dela para ser visto. Copio na sequência duas fotos da sala reservada ao coro, no meio da igreja. Vejam os detalhes. É um espaço maravilhoso e não é possível imaginar quantos artesãos e quantos anos foram necessários para se fazer essa beleza. O coro é mais lindo que o da Catedral de Amiens, famoso pelos detalhes.

Fonte: https://www.machupicchu.biz/la-catedral-del-cusco

Fonte: https://en.m.wikipedia.org/wiki/File:Siller%C3%ADa_del_coro,_Catedral_de_Lima,_Peru.jpg

A terceira visita que fizemos em Cusco foi ao Palácio Episcopal.

Seu terreno já era ocupado antes dos incas em Cusco. No século XVI, o espanhol Rodrigo de Orgóñez aí construiu uma mansão que, depois, se tornou a casa do bispo, que era irmão de sua mulher. A bela edificação teve outros proprietários e usos até chegar ao museu atual.

A visita vale pelas maravilhosas pinturas, que também foram feitas por indígenas e pela graciosidade da capela.

A pintura que mais gostei foi a que se segue, por ter alguma relação com minha profissão. É a representação do Reitor e da “árvore universitária” em 1794.

Fiquei pensando o quanto nós, brasileiros, demoramos para ter ensino superior. A Universidade do Rio de Janeiro, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi criada em 1920 e a Universidade de São Paulo é de 1934, ou seja, apenas a primeira completou um século.

Pelas consultas que fiz, sempre aqui e ali, conforme o Google me leva, a mais antiga é a de São Domingos (1538), seguida por San Marcos no Peru (1551), México (1553), Bogotá (1662), Cusco (1692), Havana (1728) e Santiago (1738). Voltando ao Palácio Episcopal, olhem a beleza do altar da capela.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

3 comentários em “Bolívia e Peru 15

  1. Olá Carminha!

    Que maravilha de fotos vc tirou! Adorei aquele presépio que revela a “marca” inca na igreja católica! Mesmo fotos as escondidas da catedral estão ótimas!

    Carminha, vi um errinho de data nesta sua frase: “Pelas consultas que fiz, sempre aqui e ali, conforme o Google me leva, a mais antiga é a de São Domingos (1938), seguida por San Marcos no Peru (1551), México (1553), Bogotá (1662), Cusco (1692), Havana (1728) e Santiago (1738). Voltando ao Palácio Episcopal, olhem a beleza do altar da capela.” Será que a universidade de São Domingos é 1538 ao invés de 1938?

    1. oi Suzana, obrigada pelas leituras atentas. Estava errado mesmo. É 1538 – já corrigi.
      Realmente o presépio era lindo, como domínio artesanal, porque era perfeito, e como representação.
      Havia outros lindos, feitos de palha, de cobre, de tecido…

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