Bolívia e Peru 19                       

Oruro

Fonte: https://www.istockphoto.com/es/search/2/image?mediatype=illustration&phrase=oruro+bolivia

O percurso entre Puno (Peru) e Oruro (Bolívia) foi marcado por uma passagem tranquila pela fronteira, em Desaguadero, o mesmo lugar onde, uma semana antes, tivemos dificuldades de obter os documentos para a entrada do nosso carro. Sair de um país sempre é mais fácil do que entrar, eu sei, mas de todo modo, sentimos uma sensação de alívio.

Ainda no Peru, as paisagens diferiam um pouco das que tínhamos apreciado antes, porque o tipo de habitat rural era peculiar e me agradava pela existência de muros entre as propriedades feitos de pedra. De algum modo, lembrei das paisagens rurais da Inglaterra, embora a arquitetura e os materiais das pequenas casas em nada lembrassem as inglesas.

Próximo à estrada, as habitações eram bastante pobres, mas não demonstravam qualquer situação de miséria.

Durante todo o trajeto, as elevações dos Andes nos acompanhavam, menos acentuadas do que no trecho anterior, do ponto de vista da altitude, mas bastante desenhadas pelos processos geomorfológicos milenares.

Em alguns trechos, a montanha estava terraceada para o desenvolvimento da agricultura e me perguntei se esse trabalho teria sido feito pelas nações indígenas, antes mesmo da chegada dos espanhóis.

A chegada em Oruro foi tranquila. A cidade tem mais de 260 mil habitantes e, como outras na Bolívia, está ladeada por montanhas. Neste caso, a cordilheira está a oeste e uma área plana estende-se à leste. Ao sul, o Lago Uru Uru, que não pudemos ver, porque praticamente secou.

Segundo a explicação de um motorista de táxi, quando começou a cair o nível do Titicaca, optaram por fechar as comportas do rio que ligava os dois lagos e o de Oruro praticamente secou. Vejam, na foto que fizemos do alto do morro que, ao longe, se vê muito pouca água na área que ocupava o lago.

A cidade tem sua origem associada à mineração. Quando foi fundada oficialmente, em 1606, já havia 15 mil pessoas aí assentadas – espanhóis, negros e indígenas das etnias uru, quéchua e aimará.

Perto da praça central havia uma espécie de outdoor com a explicação sobre a sua origem, logo acima de uma estátua dedicada à força da mulher, que aparece um pouquinho na parte inferior da foto. Não tive presença de espírito de fotografá-la, mas registro que, lamentavelmente, a imagem é de uma mulher branca, europeia, e não das que dominam as ruas em Oruro, nitidamente quéchuas ou aimarás.

A cidade cresceu em ritmos que oscilaram conforme o preço da prata. Era chamada antes de Vila Real de São Felipe de Áustria, segundo li na Wikipédia, e se notabilizou porque, em 1781, foi nela que se deu o primeiro grito libertador da América Latina, a partir da seguinte frase:

“Amigos paisanos e companheiros: em nenhuma ocasião, poderemos dar melhores provas de nosso amor à pátria, se não nesta. Não estimemos em nada nossas vidas. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Oruro

Foi interessante ler sobre esse passado de Oruro, porque na mesma praça onde ficava o Hotel Eden By Blue Bay, onde nos hospedamos, havia uma manifestação pacífica, mas contundente, com música, altos falantes e discursos, que começou na manhã do dia 14 de janeiro, varou a noite e estava firme no dia seguinte, quando deixamos a cidade.

Acabei fazendo algum paralelo e ficando com a imagem que o povo de Oruro é lutador. O protesto agora não era contra os reis de Espanha nem visavam a independência, mas em defesa dos trabalhadores de obras e contra Paola Condori.

Tentei descobrir direitinho quem é a Paola, mas não ficou muito claro. Parece que ela é a engenheira que comanda obras no município e contra a qual os trabalhadores associados ao Sindicato Mixto lutavam. Do outro lado da rua, os policias assistiam à sombra, calmamente.

Bom, já que eu escrevi o nome do hotel que se localiza na praça central, preciso fazer dois comentários: – não vale a pena se hospedar lá quando fores a Oruro (não que haja outras opções melhores), porque o preço é alto e o serviço fraquinho; – vejam a arquitetura do prédio, para lá de pós-moderna, porque sobre a construção colonial ergue-se um prédio de vidro, com elevador panorâmico.

Já tinha visto outras combinações deste tipo – manutenção da edificação antiga, geralmente de valor histórico e construção da nova – tanto em São Paulo como em Curitiba, mas sinceramente, a solução encontrada aqui ficou para lá de esquisita. Além de tudo, internamente, o hotel não é nem colonial, nem moderno. Escadas redondas de granito misturam-se a jardineiras com flores de plástico. 

Desde que começamos essa “expedição”, Oruro é, do nosso roteiro de cidades escolhidas para visitação, a que menos gostei. Ela tem um certo ar de decadência e muito lixo por todo lado, mas como tudo na vida, ela tem seus lados positivos.

A praça central denominada 10 de Febrero é agradável. O prédio do governo departamental de Oruro localiza-se nela e é bem bonito, com suas arcadas à moda hispânica.

Numa elevação a uns 500 metros (foi duro subir até lá) está o Santuário de la Virgen de Socavon que, para mim, destacou-se pelo azul do seu teto.

Logo ao lado deste santuário estava a estação de teleférico que deveria nos levar ao alto do morro, onde no começo dos anos de 2000 foi inaugurado um monumento para a mesma virgem.

Tivemos a informação de que o moderno sistema de transporte só funcionava às quartas-feiras, aos sábados e domingos, e era uma terça-feira. Lá fomos nós de taxi, o que foi ótimo, porque o motorista respondia às nossas perguntas e acabou reforçando, com suas explicações, a primeira impressão nossa de que a cidade não vai bem. No entanto, além de rapidamente demonstrar que era bem de “direita” e pessimista, suas interpretações batiam sempre na mesma tecla: “Os políticos na Bolívia não valem nada, são todos corruptos”. Não que ele não possa ter alguma razão, mas uma explicação como esta nem sempre é suficiente.

A mulher da foto não tenho ideia de quem seja, mas como o fluxo de pessoas que cruzavam por ali era grande, o jeito foi ficar com ela na frente da virgem.

O bom de subir o morro foram as fotos da cidade que pudemos registrar.

E foram lindas vistas, com as explicações do Eliseu sobre a expansão urbana.

A altitude de Oruro – 3.735 metros – atingiu-me de cheio, pois tive grande dificuldade de caminhar, quando havia aclives ou declives, alguns dos quais com escadarias imensas, pois imediatamente meu coração disparava.  Vejam o tamanho da escadaria que dá acesso ao Farol de Concupata. Fiquei quietinha no degrau inferior, aguardando…

Eliseu aproveitou mais e, inclusive, visitou o Museu de Minería, um túnel de uma antiga mina de estanho, 30 metros abaixo da superfície, com apetrechos dos mineradores (pequenos vagões, calculadoras, teodolitos, escafandros, vestimentas de vários tipos etc) e duas estátuas do “tio de la mina”, uma espécie de protetor religioso dos trabalhadores deste metiê, que aparentava um velho, de cara escurecida pelos gases do subsolo, mas de boa índole. Lá, o guia informou que deve haver, aproximadamente, 250 km de túneis de antigas minas, que se interligam, abaixo da cidade de Oruro.

Do que eu mais gostei em Oruro? Do Typica Café. Fica numa rua comercial do centro tradicional. Está instalado numa casa com um pátio interno. A fachada não é nada chamativa, mas entramos, em busca de um cafezinho às 11h da manhã, após uma visita que não foi grande coisa no Museu Simon Patiño de Oruro. Lembram que escrevi sobre o museu da fundação que leva o seu nome em Cochabamba? Valeria a pena umas linhas sobre este senhor, mas ficará para outro capítulo, porque as histórias sobre ele estão por toda a Bolívia.

Gostamos tanto do café, com seus móveis antigos, cardápio variado e serviço atenciosa, que voltamos ao entardecer e ali ficamos por um bom tempo, eu escrevendo algum capítulo deste diário, Eliseu olhando notícias na internet…

Não é um charme este lugar? Se fores a Oruro, não deixes de passar pelo Typica Café.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Um comentário em “Bolívia e Peru 19                       

  1. Carminha

    Muito obrigado pelo texto. Sigo “viajando” com vocês…

    saudações

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