Bolívia e Peru 23

Potosi – prata, passado e presente

A chegada a Potosi, numa sexta-feira, metade da tarde, foi marcada pelas dificuldades impostas por um plano urbano de ruas estreitas e de densidade construtiva alta: um imóvel ao lado do outro, ocupando o terreno até as calçadas estreitas. Não é para menos, porque aqui também as montanhas abraçam a cidade com tanta força que quase a “esganam”. Putz, essa metáfora não ficou nada legal – montanhas que esganam cidades – mas fica assim, porque foi a que ocorreu, deixando claro que não sou uma escritora, mas apenas uma escrevinhadora.

Ao deixarmos a estrada, começamos a descer, cruzando bairros empobrecidos, até chegar às ruelas mais antigas, aproximando-nos das construções mais bonitas que foram ocupadas pela elite no passado colonial de Potosi e, hoje, são destinadas a diversos usos institucionais, comerciais e de serviços. Também há, pelo que observei, quem ainda mora nesta área que foi a cidade do passado (vejam a representação de Potosi de 1758, que consta como uma cidade peruana) e hoje é o centro histórico da cidade do presente.

Fonte: https://www.alamy.es/imagenes/potosi-map.html?sortBy=relevant

Passamos pela porta do Hostal Colonial Potosi e, simplesmente, não pudemos parar na estreita Rua Hoyos, porque uma fila de carros, vans, minibus e motocicletas estava atrás de nós. Adiante, na Plaza 6 de Agosto, foi possível estacionar, provisoriamente, e já começarmos a nos apropriar dessa graça de cidade.

Este centro não apenas é bonito, testemunhando a riqueza que marca o passado de Potosi, como está extremamente bem cuidado. Em contraponto a uma Bolívia, onde há lixo por todo lado, esta área urbana estava agradavelmente limpa.

O contraste entre o branco e o cinza dos prédios institucionais e as fachadas revestidas de pedras das igrejas conformam um conjunto muito bem articulado, que se combina com um espaço público vivo e diverso.

Como outras cidades bolivianas, aqui o centro também se assenta numa bacia cercada por montanhas, com a diferença de que uma parte delas, em Potosi, já foi bastante desgastada pela extração da prata e do estanho, metais aos quais se vincula a história desta cidade. A elevação mais importante é o Cerro Potosi também chamado de Cerro Rico.

Em 1645, Potosi aparece numa representação holandesa como a principal fornecedora de prata do “Império Espanhol del Nuevo Mundo” e vejam o famoso cerro aí representado.

Potosi é, para o subcontinente sul-americano, muito longeva. É claro que, se comparamos com a Europa ou Ásia é uma cidade até nova, mas para nós deste continente ocidental é uma joia do ponto de vista histórico:

Foi fundada em 1546. Em 1611, já era a maior produtora de prata do mundo e tinha à volta de 150 000 habitantes. Alcançou seu apogeu durante o século XVII, tornando-se a segunda cidade mais populosa (atrás de Paris) e a mais rica do mundo, devido à exploração de prata enviada à Espanha. No entanto, em 1825, a maior parte da prata já se tinha esgotado e a sua população desceu até os 8 000 habitantes. No começo do século XX, a exploração de estanha se incrementou pela demanda mundial e, como consequência, Potosí voltou a experimentar um crescimento importante.

Após a chegada dos espanhóis à América e a dominação do povo inca, com a descoberta de Potosí e sua riqueza em prata, começou sua extração, utilizando-se, para isso, trabalho indígena, chegando cada extrator a levar 29 quilogramas de prata por dia, subindo pelas minas com este peso em uma bolsa atada ao pescoço.

Em razão das más condições de trabalho, muitos índios acabavam morrendo, por fome ou doenças, como pneumonia, acidentes, como soterramentos e quedas de grandes alturas. Frei Domingo de Santo Tomas, um padre que viveu à época, escreveu: “Não é prata o que se envia à Espanha, é o suor e sangue dos índios”.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Potos%C3%AD

Do mesmo modo que a maior parte da Bolívia atual, esta cidade pertencia até 1776 ao, então, Vice-Reinado do Peru e depois ao Vice-Reinado do Rio da Prata. Ser a segunda maior cidade do mundo no século XVII não é pouca coisa, mas ajuda a explicar o patrimônio da cidade.

A primeira visita foi à Catedral Basília Nossa Senhora de la Paz, que fica bem na lateral da Plaza 6 de Agosto, onde havíamos estacionado o carro na chegada.

Esta como tantas outras na Bolívia e na Peru (aliás, como também nas cidades coloniais brasileiras) encontrava-se com as portas fechadas. Visitar estas igrejas é, por vezes, condição de sorte, por vezes, de oportunidade: se é feriado, não está aberta à visitação; se não é, a porta está fechada porque é hora de almoço; se são 9h15 da manhã, a próxima visita guiada ocorrerá somente às 11h00; ser quer mesmo visitar, seja rápido porque logo vamos fechar…. Haja persistência.

No caso desta igreja, havia a indicação de que o acesso para visita ficava na rua lateral. Lá fomos nós, vimos uma escadaria para o subsolo com uma fila: não era ali, tratava-se apenas de acesso aos banheiros públicos.

Continuamos e chegamos à rua atrás da igreja, estreita, cuja calçada deveria ter 60 cm de largura, em alguns trechos, e lá havia a entrada para uma salinha, onde nos deparamos com um jovem que, depois, ficamos sabendo que se chamava Joaquim.

Não pareceu um nome muito boliviano (ou será que os portugueses passaram por lá) e perguntamos se ele sabia a razão dele. Disse que não e esclareceu que seu nome era composto – Joaquim Rolando. Conhecer o seu segundo nome não ajudou nada a entender a escolha e o engraçado é que nem Joaquim, nem rolando combinavam com o estilo jovem da roupa, do cabelo repicado com gel e da atitude dele, que nos vendeu os ingressos e nos guiou até a entrada para a igreja.

Saímos da salinha, descemos uns degraus até a rua, percorremos uns metros pela calçada, passamos por um portão e uma enorme porta de madeira, ambos com cadeados que pesam mais que do que o esperado. O guichê de venda de entradas ficou aberto e sem ninguém, enquanto ele nos acompanhou por meia hora.

Ufa, neste caso, tivemos sorte, porque se alguém chega antes de nós, teríamos encontrado o guichê sem ninguém e seria mais uma visita frustrada a uma igreja boliviana.

Valeu a pena. A igreja é muito linda com as paredes pintadas de branco e vários altares e colunas folheados a ouro. Na Bolívia, esse acabamento – folheado a ouro – é chamado de pan de oro. Achei engraçado e mesmo tendo perguntado depois, ao guia da Casa de la Moneda que também usou a mesma expressão, a razão de se nomenclaturar o folheado como pão, continuei sem saber o porquê.

As informações obtidas é de que boa parte das obras de arte desta igreja foram feitas por indígenas, como tantas outras do Peru de Bolívia. Vejam que na fisionomia das estátuas e pinturas, é possível observar traços das etnias autóctones. Além do mais, notem, também, que algumas estátuas tem cabelos, que são naturais e não sintéticos. São cabelos de indígenas. Nada de madonas, apóstolos ou anjinhos loiros.

Joaquim explicava pouco, mas respondia com atenção às nossas perguntas. Informou que estudou Turismo em Oruro e estava se especializando agora em pesquisa histórica.

Convidou-nos para subir ao campanário da igreja. Quando vi a altura dos degraus e ele informou que eram 90, desisti. Expliquei que ficaria ali sentadinha, esperando e apreciando a igreja.

Eliseu e ele me olharam com uma carinha de cachorro morto, deixando passar a ideia de que faziam questão que eu fosse. Vamos lá. Estávamos a mais 4 000 metros de altitude e não eram 90 degraus, mas 98 (teria sido mais honesto, ele ter arredondado para 100). Cheguei lá em cima com pouco ar e com o coração batendo mais forte, mas valeu a pena.

Primeiro, os sinos seculares eram espetacularmente grandes. Segundo Joaquim, vieram da Alemanha. Um deles pesava uma tonelada. Eram tão grandes, que não tínhamos distância suficiente, no espaço restrito do campanário, para fotografá-los, a não ser o menor dos três.

Em segundo lugar, a vista era simplesmente bárbara. Podia-se olhar para os quatro cantos da cidade. Apreciar o mar de telhadinhos e as ruas estreitas, olhar para as montanhas de outro ponto de vista, ter a visão aérea das duas praças principais e, por fim, apropriar-se de uma perspectiva de conjunto da cidade, o que foi muito bom.

Na torre lateral, vê-se o relógio (marcador dos tempos do homem moderno) e os sinos (marcadores dos tempos pré-capitalistas no mundo ocidental). Estes são os que, atualmente, continuam a badalar, mas já sincronizados a um sistema automático. Bem menores, lá estão eles para dizer que a Igreja ainda conta.

Apreciar a Plaza 6 de Agosto lá de cima, possibilitou constatar que ela é tão linda como vista de baixo, a qual curti sentadinha, no mesmo final de tarde, e diante do seu obelisco, no seguinte.

A descida do campanário foi mais fácil, leitor, mas não pense que é barbada não, porque a escada é escura, nem sempre há corrimãos e os degraus altos demais são estreitos para quem calça 37.

Logo adiante da basílica catedral, está o Colégio Nacional Pechincha (nome engraçado né?), cuja igreja lindeira está sendo reformada para se tornar um teatro público – alguma coisa como: cada um pode chegar e fazer a sua performance ou representação. Achei a ideia genial.

Potosi tem muitas outras igrejas bonitas, mas não tivemos a sorte de encontrar outras abertas. Aliás, chamou atenção que, além da denominada catedral basílica que visitamos, tem outra catedral, esta em devoção a São Francisco.

Fonte: https://es.wikipedia.org/wiki/Templo_y_exconvento_de_San_Francisco_%28San_Luis_Potos%C3%AD%29

Algumas igrejas de Potosi são singelas no tamanho, mas sempre chama atenção o maravilhoso trabalho com as pedras em altos relevos que devem ter dado muito trabalho e exigido muito tempo e vida de indígenas.

Uma visita recomendada em Potosi é a ida ao Mercado Municipal.

Sinceramente, fiquei decepcionada. Ele é grande e movimentado, isso é verdade, e já vale a pena conhecê-lo sob este ponto de vista, mas esperava boxes com venda de produtos artesanais bolivianos e, sobretudo, peças de prata, afinal estamos na capital mundial da prata. Nada disso, porque lá encontrei baldes de plástico, alimentos industrializados, capas para celular, calças jeans baratas e até camisas de futebol “verdadeiras cópias do original”.

Potosi tem tanta coisa interessante para se relatar que acabo de resolver que farei outro capítulo só para contar sobre seu espaço público.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

3 comentários em “Bolívia e Peru 23

  1. Carminha

    Muito obrigado por mais este texto. Muito bom…, continuo apreciando tanto o texto como as fotos!

  2. Carminha, que linda a parte antiga de Potosi! E que surpresa para mim saber quando a cidade foi fundada!! E o quanto foi populosa e rica!
    Adorei a praça central com os arcos brancos.

Deixar mensagem para MESSIAS MODESTO DOS PASSOS Cancelar resposta