Bolívia e Peru 24

Potosí, gente e espaço público

Fonte: https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/o-brasil-varias-cores.htm

No ambiente universitário, no âmbito das Ciências Humanas, há um debate qualificado sobre a natureza e o sentido do espaço público no mundo contemporâneo.

Muitos procuram refletir sobre o tema, porque a relação e a distinção entre público e privado tem se alterado com o aparecimento de espaços de convívio coletivo, mas que são privados e controlados por sistemas de segurança e vigilância como os shopping centers; ou em decorrência da existência desses sistemas em praças e ruas, onde deveria prevalecer a esfera pública e o direito ao anonimato; outras vezes, tem sido objeto de atenção o muramento de áreas residenciais que reservam ruas, calçadas e praças que são juridicamente públicas, para uso de seus moradores ou daqueles autorizados por eles…

Isso tudo entra no debate sobre o tema e gera o aparecimento de muitos novos termos, nem sempre bem ajustados às respectivas realidades, como espaços semipúblicos, espaços públicos de uso restrito etc., que revelam o interesse de interpretar as novas formas de uso dos espaços.

Logo que cheguei a Postosi, percebi que poderia deixar a bibliografia sobre o tema de lado, embora esteja envolvida com pesquisas que incluem esse debate. Por que? Porque, nesta cidade, o espaço público é vivamente utilizado e, mesmo que haja a presença dos turistas, ele é dos potesinos.

É importante que os turistas não sejam tantos, embora os houvesse como nós brasileiros. A maioria era de europeus, pelo que depreendi das conversas que ecoavam aqui e ali. Digo que é bom que não fossem muitos porque, vamos combinar: turista é um bicho espaçoso e tem dificuldade de assumir que a cidade não é dele.

Nas várias praças – umas maiores, outras menores – havia de tudo e de todos: comerciantes ambulantes, idosos, crianças, descendentes de indígenas e de europeus, gente descansando, outros buscando trabalho e festa, muita festa.

Oruro é notória por ter o melhor carnaval da Bolívia. Pelo que vimos em cartazes, na propaganda pela TV e nas vitrines das lojas – a festa carnavalesca é grande nesta cidade, embora seja diferente do que nós, brasileiros, consideramos carnaval.

Potosí também demonstrou, nos dias em que lá estivemos que se prepara para o carnaval. A cada uma ou duas horas, um grupo de 10 a 30 pessoas saía pelas ruas dos centros apresentando-se. Iam uniformizados, às vezes uma camiseta, às vezes uma jaqueta, com o símbolo e o nome do grupo. Tocavam seus instrumentos (tuba, clarinete, bumbo, repique e trompete) e dançavam.

Ao mesmo tempo que era um desfile exibido, no sentido que faziam questão que os que estavam pelas ruas os observassem, era muito recatado, principalmente no modo de dançar e de se vestir. Em relação a este ponto, é compreensível porque Potosí é, segundo a divulgação que fizer, a cidade mais elevada da Bolívia, com seus mais de 4000 metros de altitude. Não dá para sair por aí de dorso de nu ou de peitos e pernas de fora.

Havia alguns dentre estes grupos que avançavam com um ou outro figurante fantasiado que poderia ser considerado o “destaque”. Algumas crianças ou adolescentes, puxando uns carrinhos que vinham cheios de enfeites em prata, também era parte da alegoria. Fiquei imaginando que, desde os tempos áureos de extração da parta em Potosí, esses desfiles devem ter ocorrido.

Não apenas os participantes eram recatados, mas o batuque também. Mais parecia com uma fanfarra paulista do que um samba carioca ou um frevo pernambucano, mas ainda assim era uma verdadeira festa ver esses “blocos” pela cidade, fazendo o trânsito parar pacientemente, na manhã de sábado.

Outra forma de festar no espaço público foi observada no sábado à tarde com os casamentos.

Os carros enfeitados com tules e flores lembraram-me o taxi preto do meu tio-avô Fernando. Quando eu era pequena, na cidade de São Paulo, nos dias de sábado, ele super lavava e lustrava seu veículo, para enfeitá-lo na sequência, atender encomendas de noivas.

São Paulo já era uma metrópole, no começo dos anos de 1960, mas havia essas práticas de carros enfeitados e arrastando latas pela cidade para, com o barulho, anunciar que passavam os noivos. Suponho que, no último rincão brasileiro, isso já tenha acabado. Que pena! Na boliviana Potosí, lá estavam os carros enfeitando o espaço público.

Alguns casamentos estavam ocorrendo na catedral basílica que tínhamos visitado com o guia Joaquín, no dia anterior, e na qual entramos agora pela porta principal, para observar um casório.

Outros devem ter ocorrido em outras igrejas. Talvez por ser um sábado de verão, antes ainda da quaresma, o número de noivas e seus familiares e convidados era grande nas duas praças principais e ruas lindeiras.

Passamos muitas vezes pelas praças principais nos dois dias que estivemos em Potosí, bem como percorremos suas ruas comerciais. Sempre havia muita gente por todo lado.

As cholitas também estavam lá, mas como falei muito delas em capítulos anteriores, não quero deixar a ideia de que todas as mulheres bolivianas usam este tipo de vestimenta, porque há as que já estão completamente americanizadas ou abrasileiradas no estilo de se vestir.

Esta moça vestida de branco é de origem indígena, mas tingiu os cabelos de loiro.

Na rua comercial de pedestres jovens perambulavam.

Dois senhores batiam o maior papo sentados no beiral da fonte.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024







Carminha
Beltrão

Janeiro
de 2024

2 comentários em “Bolívia e Peru 24

  1. que cidade festeira!! Adorei os bloquinhos de carnaval, os carrinhos enfeitados com peças de prata, os carros de casamento! Que sorte vocês tiveram de ver tudo isso!

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