Bolívia e Peru 25

O trecho entre Potosí e Sucre foi o menor que realizamos, em toda esta “expedição”. Foram apenas 155 km, mas, como pode ser visto pela previsão de tempo feita pelo Google Maps, não é um trecho fácil de ser percorrido. Saímos da cidade mais alta da Bolívia – Potosí com 4.090 m – e chegamos aos 2.790 de Sucre.

Muitas curvas, certa lentidão pela dificuldade de ultrapassar, mas muita beleza cênica para compensar.

A estrada ia serpenteando as montanhas, buscando caminho entre elas e o rio. Nós íamos curtindo aquela paisagem tão especial, sobretudo para quem mora em terras sem morros para vislumbrar.

À medida que nos afastávamos de Potosí, os cumes das montanhas eram menos pontiagudos, mas continuavam a se impor mostrando que estávamos ainda no domínio dos Andes.

A dificuldade para respirar tão sentida em La Paz, Puno, Oruro, Uyuni e Potosí ia aos poucos nos deixando e chegávamos na Capital Constitucional del Estado Plurinacional de Bolívia. É isso, a Bolívia tem uma capital administrativa e legislativa (La Paz) e outra constitucional (Sucre).

Não é o único país do mundo a ter essa situação. Seu vizinho Chile tem uma capital administrativa e judiciária (Santiago) e outra legislativa (Valparaíso). Na América Central, Honduras também tem duas capitais, mas ninguém ganha da África do Sul que tem três: Pretória (administrativa), Cidade do Cabo (legislativa) e Bloemfontein (judiciária).

Encontrei a explicação de que Sucre é capital de jure, que significa capital pela lei, pelo direito, mas La Paz é capital de facto, ou seja, é lá que se exerce o poder.

Sucre foi fundada em 1538, mas teve outros nomes antes – Charcas, La Plata, Chuquisaca. O rei espanhol Filipe II, em 1559, tornou-a a cidade de comando de um grande território que abrangia o Paraguai atual, o norte do Chile e o sudeste do Peru. Chegou a ser uma cidade importante, politicamente, mas também economicamente por causa da extração da prata de Potosí. Por isso, em 1624 foi nela fundada a Universidade São Francisco de Xavier.

Em 1825 foi declarada, em Sucre, a independência da Bolívia e, em 1839, ela se tornou capital do novo país. Se você, leitor, quiser conhecer um pouco dessa história, veja a série da Netflix denominada Bolívar, porque parte dela se passa nesta cidade e retrata esse momento.

Somente com a declínio da riqueza oriunda da prata é que a capital passou a ser administrativamente La Paz, em 1898, mas o título constitucional de capital permaneceu com Sucre.

Hoje é conhecida pelo codinome de cidade branca das Américas e merece esse apelido simpático, porque a quase totalidade das edificações de sua área central estão pintadas de branco.

Para o meu gosto, a cidade mais bonita da Bolívia, entre as que conheci, é Sucre. Foi adorável entrar nela, num domingo ensolarado, em que a praça central e todas as quadras lindeiras estavam fechadas ao trânsito de veículos para favorecer o uso do espaço público com atividades culturais.

Tivemos que dar muitas voltas para chegar ao Parador Santa Maria La Real, que é um hotel tão especial que merece um capítulo posterior.

O dia seguinte à nossa chegada, a segunda feira, 22 de janeiro, era feriado nacional – Dia do Estado Plurinacional – nomenclatura adotada com a Constituição de 2010. Um domingo e um feriado juntos favoreceram ver a cidade em festa, mas por outro lado, não conseguimos entrar em uma igreja sequer.

Na Plaza de Armas 25 de Mayo está a Catedral metropolitana de Sucre, denominada Basílica de Nuestra Señora de Guadalupe, uma edificação portentosa, pelo tamanho, mas ao mesmo tempo singela pelo predomínio do branco sobre os barrados de pedra.

Na mesma praça está a sede do governo municipal e, em outra face, o Museo del Tesoro, do qual não consegui fazer uma foto boa porque sua frente está muito arborizada, mas incluo um desenho dele.

Fonte: https://www.tripadvisor.com.br/Attraction_Review-g295432-d8447728-Reviews-Museo_del_Tesoro-Sucre

Adorei visitar este museu. São visitas orientadas de hora em hora, com poucas pessoas por vez e um guia muito bom. Ele ia de sala em sala explicando as formas de extração de metais e pedras preciosas e, na sequência, mostrando pedaços das rochas brutas e as diversas fases de refinamento subsequentes, até se chegar em pedras lapidadas ou em fios de ouro tão finos que mal eram visíveis a olho nu.

A pedra mais impressionante é a “geoda de Amatista”, pelo tamanho e pela perfeição das lanças pontiagudas internas que compõem o cristal.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Bolivianita

Outro ponto alto de Sucre, é o Parque Simon Bolívar, que deve ocupar o que corresponderia a umas três quadras completas. No caminho para ele, saindo da Plaza de Armas, já encontramos um obelisco na Plaza de la Libertad, que é engraçada porque você pode cruzá-la de carro, ladeando o portentoso mastro que ali está construído.

Nessa mesma praça, está o Teatro Gran Mariscal Sucre, que também impressionou pela beleza da fachada e a conservação do prédio.

Antes ainda de chegar ao parque (estou dando uma volta e tanto), está o edifício principal do poder judiciário e, do lado dele, de construção mais recente um outro prédio, que não tem nada a ver com o primeiro (parece a caixa forte do Tio Patinhas um pouco mais caprichada), e também abriga este poder boliviano.

A entrada do Parque é marcada por outro obelisco, um pouco menor, e dois arcos bonitos, que me lembraram os de alguns jardins de cidades francesas, mas dos quais gostei mais, por causa do branco, no lugar do granito que é o mais comum nos arcos, como nas terras francesas.

O parque estava uma verdadeira festa. Tinha gente andando de carrinho, de barco, muitos comendo e bebendo, outros correndo, e mais de um grupo dançando.

Voltando para o hotel, fomos nos deliciando com outras fachadas.

No dia seguinte, subimos algumas dezenas de degraus para chegar a um patamar mais elevado da cidade, onde está o Monastério de la Recoleta, indo atrás de visitar o Museo de Arte Indígena, que estava fechado por causa do feriado. Valeu a pena, mesmo assim, porque pudemos ter uma vista bonita da cidade, embora o tempo estivesse fechado neste dia.

Prometi, a mim mesma, não me olvidar de Sucre. É uma promessa fácil de cumprir.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

2 comentários em “Bolívia e Peru 25

  1. Carminha

    Estes últimos textos são excelentes, confortáveis… Digo confortáveis porque alguns textos iniciais, notadamente os que se referem aos perrengues da entrada na Bolívia me deixaram desconfortáveis. No entanto, todos são textos autênticos!!! Muito obrigado.

  2. Que cidade linda mesmo! E como vc a descreve com arte! Eu iria gostar muito de conhecer o museu de mineração. Adora as pedras “semipreciosas”, principalmente a ametista!

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