Grécia 2 – Parthenon, o máximo!

Uma das características que a Modernidade nos trouxe foi a tendência a comparar, hierarquizar, classificar, enfim, ver cada coisa, em cotejo com as outras, mesmo que se trate de histórias e culturas muito diferentes entre si.

Na Antiguidade, cada cultura era uma, porque as civilizações eram desenvolvidas sem grande influência umas sobre as outras, até chegarem os romanos e, por domínios, amarrarem num império tantas culturas e civilizações.

Com o Mercantilismo e a constituição das condições para o capitalismo, passamos a viver num sistema-mundo, em que tudo é visto em relação a um grande conjunto, cujas gêneses são muito diversas.

Assim, como modernos, somos levados a pensar o mundo como uma unidade e nele enquadrar o que não seria provavelmente enquadrável, a equiparar o que não deseja ser equiparado e nem pode sê-lo.

Com os monumentos históricos é isso aí todo o tempo. As viagens internacionais têm servido para comprovar esse ponto de vista. Em cada lugar que visitamos, há sempre alguém pronto a nos mostrar que ali é o mais em alguma coisa, ali tem um edifício, um bairro, uma experiência que é a melhor de todas.

O guia que nos levou a conhecer a Acrópole de Atenas logo informou que sua edificação principal – o Parthenon – era o mais importante entre todos os bens catalogados, como patrimônios da humanidade, pela Unesco. Fiquei desconfiada e fui buscar, na memória, outros que considero que poderiam se equiparar a este, ou seja, lá fui fazer a minha classificação. Logo vieram à mente vários que poderiam ser citados, mas decidi não morder o anzol, afinal estou defendendo a tese de que cada patrimônio tem seu valor intrínseco e não precisaria ser comparado aos demais.

Neste meio tempo, enquanto funcionava meu sistema de busca (e meu winchester anda lento), o guia veio com a informação taxativa: “Esta edificação é tão importante que é tomada como referência no logotipo da Unesco”. Bem, aí, parti do princípio que foram historiadores, arqueólogos e outros experts que decidiram por isso e fiquei um pouco mais convencida de que não era um trololó de guia grego defendendo as cores do seu país e o dim dim que ele ganha fazendo este trabalho duro de acompanhar mais de 50 pessoas para visitar este espaço tão magnânimo – a Acrópole – e seu edifício mais majestoso – o Parthenon. Ele é mesmo o máximo (o edifício e não o guia, é claro, embora este também tenha o seu valor)!

Enquanto subia a ladeira, sob o sol escaldante, voltei à ideia de História como um conjunto de narrativas que se elaboram sobre o passado e, mais uma vez, confirmou-se a constatação de que ela vai sendo contada, repetida, reproduzida e alterada aqui e ali. À medida que ele nos explicava a importância daquele espaço que estávamos pisando, não era possível deixar de considerar os séculos que nos antecediam, a grandeza dos que se dedicaram a erguer a acrópole, a destreza de seus arquitetos e artistas, mais se reforçava a importância das narrativas, mesmo que seja necessário escutá-las com respeito e relativizar, aqui ou ali, qualquer exagero que possa haver.

A Grécia e os gregos de hoje não são bem a Grécia e os gregos que ergueram esta cidade no alto do Monte Pentélico. Aqueles foram grandes, colonizaram o Mediterrâneo, fundaram cidades-estado, difundiram uma civilização, como já registrei no primeiro capítulo deste diário de viagem, mas tem um depois: foram minados pelos romanos e escravizados por eles; passaram por várias invasões quando o poder estava em Constantinopla; perderam território e, com isso, perderam parte das identidades que construíram na Antiguidade; miscigenaram-se fazendo com que o grego de hoje nem sempre lembre o perfil majestoso das esculturas que vimos nos museus; devem ter sofrido ou nem se deram conta quando parte da Filosofia e da Ciência que produziram perdeu-se em incêndios ou foi obliterada pelo Igreja Católica durante o período medieval; viram sua cultura estropiada pela ingleses, franceses e alemães, que ficaram com grande parte das esculturas e outras obras de arte, atualmente expostas em museus de outros países da Europa alimentando o turismo de lá; lutaram para ficar na União Europeia, como os primos pobres é claro, e para ter o euro como moeda; passaram por uma baita crise, em grande parte decorrente dos ajustes impostos por essa mesma União Europeia.

Bem, agora, com todo direito, estão aqui na condição de nos vender a sua história, ou o modo como convém elaborar narrativas para os turistas. É claro que têm correspondência com o que ocorreu, mas sempre com direito à interpretação. E as interpretações são muitas. Até eu tenho a minha.

Em grego, a Acrópole de Atenas, chama -se Ακρόπολη Αθηνών. Ela é tão importante que, mundo afora, é chamada apenas de “A Acrópole” embora haja outras na Grécia e em diversas partes do mundo, afinal situar cidades em elevações (do grego ἄκρος akros (‘extremo, cima’) y πόλις polis (‘cidade’), era muito importante na Antiguidade, na Idade Média e até na Moderna, quando a defesa dependia fortemente do sítio ocupado pelas cidades, afinal não havia nem aviação, nem Google Maps, nem GPS, ou seja, era preciso olhar de cima para poder se defender.

A escolha desta colina, para a construção da Acrópole, deveu-se menos à sua altura – 165 metros – e muito mais às suas escarpas rochosas, que possibilitam o acesso apenas por um dos lados, o que aumentava a proteção do assentamento.

Por este lado, subimos sob o sol estonteante. Havia já vários ônibus de turistas, quando o nosso estacionou, o que já dava para imaginar o que seria a visita.

Descemos em grupo, andando rápido, subindo a ladeira de acesso ao patamar elevado onde está a Acrópole e, entre uma cabeça e outra, com medo de cair, por pisar em falso numa pedra ou por ser ensanduichada entre a horda que me antecedia e a que me sucedia, ia fazendo umas fotos que não ficavam nada boas. Em que pese o guia ser alto e fofucho, portanto visível de longe, buscávamos enxergar a bandeirinha dele, que sempre estava vários metros na nossa frente. Perder-se ali seria um problema. Chegamos ao topo. Nesse meio tempo, alguém desmaiou e desceu carregado numa maca pela equipe de saúde que está à disposição (deve acontecer toda hora por causa do calor).

A análise de documentos indica que já havia, na Acrópole da Atenas Clássica, oliveiras que, aliás, estão pela cidade toda.

No cantinho da direita e na próxima foto está o balcão das Cariátides, com esculturas no lugar de colunas. Trata-se de réplicas porque as originais estão no Museu da Acrópole.

Os toques que o guia deu sobre vários detalhes me fizeram admirar o seu trabalho e pensar que talvez ele não ganhasse o que merecia. Não conseguia parar de olhar para o tênis dele azul turquesa com a sola amarelada, e ri baixinho imaginando que era pura estratégia para a gente ver ele de longe. Voltei a prestar atenção, mas já com vontade de me liberar daquela palestra.

Depois ele nos concedeu 30 minutos para enfrentar a fila do banheiro, comprar água e “sacar” fotos. O problema é que a mesma recomendação foi dada pelos outros guias para as dezenas e dezenas de pessoas que ali estavam.

Quando saio do banheiro, do nada, confirmo que os guias trabalham sincronizados porque consigo uma foto sem haver ninguém na frente.

O que eu achei da Acrópole e do Parthenon? Maravilhoso, sensacional, divino!, mas sinceramente não deu para curtir, porque não havia nem espaço, nem tempo, nem silêncio para tal.

A Acrópole foi construída por volta de 450 a.C. por Péricles. Foi dedicado a Athena, a deusa da cidade. Na Wikipédia há uma planta indicando seus principais vestígios arqueológicos, e nela se pode ver a posição ocupada pelo Parthenon.

  1. Partenon
  2. Antigo Templo de Atenas
  3. Erecteion
  4. Estátua de Atena Promacos
  5. Propileu
  6. Templo de Atena Nice
  7. Eleusinion
  8. Santuário de Artemisa Brauronia
  9. Calcoteca
  10. Pandrósio
  11. Arrefórion
  12. Altar de Atenas
  13. Santuário de Zeus Polieo
  14. Santuário de Pandion
  15. Odeão de Herodes Ático
  16. Stoa de Eumene
  17. Asclepeion
  18. Teatro de Dionísio
  19. Odeão de Péricles
  20. Temenos de Dionísio
  21. Aglaureion

Este edifício foi erguido entre 447 e 438 a.C., o que pode ser considerado um fenômeno, quando se observa seu tamanho e, sobretudo, começamos a imaginar como aquelas gigantescas rochas foram sobrepostas uma sobre as outras. Era rodeado por 17 colunas nas faces norte e sul e oito colunas nas faces leste e oeste. No dia seguinte, outra guia explicou que, em todas as edificações na Grécia clássica dois lados sempre têm o dobro do número de colunas dos outros dois mais uma [(8 x 2) + 1]. Neste caso, são 50 colunas no total. A largura das colunas varia um pouco, porque são calculadas para dar uma visão simétrica e não para serem simétricas, o que achei genial.

No interior do Parthenon estava a estátua da Athena, deusa da sabedoria, do artesanato e da guerra. Ela foi esculpida em madeira, coberta em ouro e marfim, por Phidias, considerado o Leonardo da Vinci da Antiguidade (foi o que foi dito e eu acreditei).

Essa escultura esteve no Partenon até o século V, quando muito do que havia ali se perdeu num incêndio. Há a hipótese de que ela foi removida para Constantinopla no século X.

Fiquei impressionada durante a visita mas, depois, aumentou minha admiração ao ler, na Wikipédia, como ocorreu a restauração deste sítio histórico e de seus monumentos, pensando tanto no passado como no futuro deste patrimônio:

O projeto de restauração da Acrópole começou em 1975 e agora está em conclusão. O objetivo da restauração era reverter a decadência de séculos de atrito, poluição, destruição decorrente do uso militar e restaurações passadas que foram feitas de maneiras equivocadas. O projeto incluiu a coleta e identificação de todos os fragmentos de pedra (até mesmo os pequenos) da Acrópole e suas encostas e a tentativa foi feita para restaurar o máximo possível usando material original reaproveitado (anastilose), com o novo mármore do Monte Pentélico usado com moderação. Toda a restauração foi feita usando pernos de titânio e foi projetada para ser completamente reversível, caso futuros especialistas decidam mudar as coisas. Foi utilizada uma combinação de tecnologia moderna de ponta e pesquisa extensiva e reinvenção de técnicas antigas.

Outras edificações compõem o conjunto majestoso da Acrópole, como pudemos ver no desenho de reconstituição da área, mas nem todas eu sei nomear. Mesmo assim vale a pena os registros fotográficos delas.

Achei por lá um moreno simpático.

Olhando, lá de cima, para a Atenas de hoje, escutamos atentamente as explicações do guia sobre a outra Atenas, a clássica. Era possível ver os contrapontos e pensar o que nós, mulheres e homens contemporâneos, queremos como cidades. A monumentalidade da antiga Atenas era estupenda diante da monotonia da arquitetura moderna da atual. A densidade comanda a forma de adensamento. Não haver hoje, nas cidades, distância suficiente para se apreciar a cidade é uma coisa que não me agrada – uma edificação ao lado da outra, porque cada m2 vale muito dinheiro. Isto vamos deixar para os turistas que nos visitarão daqui a dois ou três séculos?

Marcando o território grego atual e o direito deste povo de explorar turisticamente o seu patrimônio secular, estrategicamente fincada no território da Grécia Antiga, lá está a bonita bandeira grega. Este azul e branco tem tudo a ver com este país.

Carminha Beltrão

Junho de 2024

3 comentários em “Grécia 2 – Parthenon, o máximo!

  1. Carminha! Que delícia de texto! Dá para sentir com você a beleza da Acrópoles, as transformações da história, o calor, o sol, a quantidade de turistas! Estou aguardando os próximos textos! Um abração !

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