O percurso entre as ilhas de Mykonos e Santorini, também, foi feito de navio. Não foi tranquilo. A agência de viagem nos deixou muito cedo na área de embarque, o calor era fenomenal, não havia lugar para se sentar na sala de espera e, para amenizar o estresse, resolvemos tomar um sorvete num dos muitos pequenos bares restaurantes do porto.
O espaço era exíguo, todos os que ali estavam, levavam malas ou mochilas, as mesas eram pequenas e não havia como circular. Conseguimos nos acomodar numa área que deveria ter 1,5m x 1,5m – quatro pessoas, quatro cadeiras, uma mesinha redonda, quatro malas, mochilas e bolsas – é possível?
Na mesa ao lado, havia um casal que observava nossa conversa e, ao final, apresentaram-se: ela é professora universitária na área de Psicologia no Mackenzie e ele proprietário de uma produtora de vídeos, inclusive para a Netflix.
Super simpáticos! Trocamos informações sobre o que valia mais ou menos a pena no percurso que já tínhamos realizado e ele nos indicou o podcast Noites Gregas – https://noitesgregas.com.br/ -, que me propus a escutar integralmente quando chegar em casa.
O navio atrasou um pouco e atracou com o mar muito revolto. Esperávamos sob o sol ardente do meio do dia, enquanto os carros entravam. Um deles, amarelo, não conseguiu vencer a rampa, porque o movimento do navio, suspendia a plataforma de acesso e, além do aclive, ela estava úmida em decorrência da água do mar que espirrava para todo lado. Desceu de ré, tentou novamente, acelerou e conseguiu. Foi aplaudido pelos que, no porto, viam a operação.
Chegou nossa vez e, como da feita anterior, dezenas e dezenas de passageiros começam a se movimentar com suas malas de rodinha. Não foi fácil, pelos mesmos motivos: a rampa movimentava-se demais para se adaptar à mudança de nível da água e estava úmida. O aclive era acentuado para puxar as malas grandes, mesmo com tênis nos pés. Eu temia uma derrapagem no piso de alumínio. Uma senhora à minha frente caiu, os funcionários da empresa ajudaram rapidamente.
Quando venci a rampa, me dei conta que o grupo de quatro amigos havia se separado neste pequeno trecho de 5 ou 6 metros de subida. Três entre nós nos encontramos mais rapidamente e saímos à procura da quarta pessoa, isso tudo com gente empurrando, buscando lugar para as malas e fazendo tudo depressa, sob pressão dos funcionários que tentam com gestos indicar onde ir, estimulando a que todos andem rapidamente.
A rampa-portão de acesso ergueu-se e sempre nos parece que esse ato está previamente cronometrado para ocorrer, porque tanto nesta viagem como nas outras que fizemos nas grandes embarcações, ele ocorre quando ainda precisaríamos de mais tempo para todos se sentirem, realmente, dentro da grande nau. Minutos antes os funcionário da empresa começam a gritar pedindo agilidade (não consegui saber se em grego ou inglês), o que me faz pensar ter dúvidas se é uma estratégia para apressar o embarque ou, realmente, a rampa vai fechar de um jeito ou de outro.
Enfim, o navio zarpou, antes que estivéssemos os quatro reunidos novamente e sentados no andar superior. Ufa, que alívio quando nos reencontramos!
A distância entre Mykonos e Santorini é de 135 km, mas foram necessárias mais de três horas para fazer o percurso, menos do que o indicado no Google Maps, mas ainda assim um tempo considerável. Dento do navio, temos a sensação que ele navega rapidamente, mas fazendo as contas, ele pouco avança além dos 40 km por hora.
Ao nos aproximarmos do desembarque já começamos a apreciar o desnível acentuado que marca a face oeste da ilha e o maravilhoso contraste entre sua formação rochosa de tons acinzentados e o azul do mar. Várias vezes já escrevi sobre os azuis da Grécia – do céu e do mar – e tantas outras escreverei… É divino!




A forma em meia lua da ilha de Santorini lembra um croissant, segundo meu marido. O porto de desembarque, denominado Athinios, aparece na última foto e fica na parte côncava da ilha, a oeste, bem onde estão os fluxos de embarcações desenhados no mapa. Nós ficamos hospedados justamente do lado oposto, o convexo, a leste, num dos aglomerados urbanos da ilha, chamado Kamari, hoje totalmente voltado aos turistas com bares, restaurantes, hotéis, lojas de todo tipo e padrão.
Para chegarmos a Kamari, subimos por uma estrada muito tortuosa (veja o ziguezague na porção oeste do mapa), que ia oferecendo vistas cada vez mais bonitas do porto e do mar.
Hoje, Santorini é vista como:
…o principal playground romântico da Grécia, com vilas e resorts luxuosos que oferecem refúgios cheios de mimos para celebridades e cenários de sonho para casamentos luxuosos e sessões de fotos. As íngremes falésias vulcânicas da ilha, situadas a cerca de 300 metros acima do nível do mar, criam uma impressionante obra de arte geológica, com casas caiadas de branco equilibradas nas beiradas. Não é à toa que é um dos locais mais fotografados do planeta (Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/vulcao-submerso-ameaca-santorini/)
No entanto, a história de Santorini não começa com o jet set internacional. Ela é longeva. Seu primeiro nome foi Caliste, que significa “a mais bela”. O nome atual, escrito assim em grego Σαντορίνη, significa Santa Irene. Pela mitologia grega, a ilha foi criada por Eufemo, que jogou no mar um pedaço de terra, a qual havia ganho de Tritão, filho de Poseidon, deus dos mares.
Passando da mitologia para a ciência, há hipóteses de que esta ilha tenha sido a Atlântida, tanto pelo seu formato em meia lua, como pela sua situação geográfica, ou seja, talvez esteja aí nesta localização, o que se considera como civilização perdida. (fonte: https://www.vivaterra.com.br/mitologia-grega-por-tras-de-santorini/).
Há cerca de cinco mil anos teve início um processo de civilização na Ilha de Creta, próxima a Santorini, pelos minoicos (em homenagem ao rei de Creta Minos). Compunham um povo guerreiro, com boa capacidade de navegar e comerciar, mas eram também artistas
Eles eram um povo enigmático e educado, formado não só por guerreiros, mas também comerciantes, artistas e navegantes. Se você quer saber mais sobre eles, veja a matéria que saiu publicada no site da BBC:
A ascendência dos minoicos é objeto de uma disputa calorosa: enquanto alguns acreditam que eles foram refugiados do Delta do Nilo, no Egito, outros argumentam que eles saíram da antiga Palestina, Síria ou da Alta Mesopotâmia. Uma pesquisa recente sugere, no entanto, que a civilização minoica se desenvolveu localmente, a partir dos primeiros agricultores que viveram na Grécia e no sudoeste da Anatólia. Seja qual for a origem, não há dúvida de que, entre 2600 e 1100 a.C., uma civilização altamente sofisticada e avançada prosperou por aqui. (Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/vert-tra-43309080)
Do ponto de vista da extensão territorial, Santorini era maior, mas em 1550 a.C. (as datas variam segundo os sites que consultei) houve uma grande erupção vulcânica, que provocou um tsunami com ondas de mais de 100 metros que inundaram a ilha e a dividiram em quatro partes. A população minoica que aí residia foi dizimada neste evento natural.
Hoje habitam na ilha pouco mais de 15 mil habitantes, mas essa população aumenta muito no verão, como pudemos constatar, pois embora o cume do verão para os europeus seja agosto, já havia muita gente nos navios, hotéis, restaurantes e nas visitas aos diferentes sítios.
O casario, na face oeste e norte, assenta-se sobre os rochedos e compõe uma paisagem tão especial que parece que estamos diante de uma maquete e não da realidade.
A permanência em Santorini – duas noites, com cerca de um dia e meio para fazer as visitas – não foi suficiente. Se você, leitor, pretende visitar a ilha, recomendo três dias inteiros, porque ela é bem especial. Fiquei com vontade de voltar a este pedacinho da Grécia.
Para tornar nosso tempo mais exíguo, a agência incluiu, no nosso pacote, um passeio de escuna, que foi legal, mas demandou sete horas e isso significou menos tempo em Santorini.
Da popa, fiquei observando a terra ficar cada vez mais longe para nos aproximarmos da Ilha Nea Kameni (que significa queimada jovem), conhecida como a ilha do vulcão Gheorghios. Mais de um transatlântico navegava nesta porção de mar.

A origem vulcânica da ilha é notória na paisagem que encontramos. Ela serviria para fazer um filme de ficção científica, caso o diretor desejasse fazer paralelos com outros planetas.
A temperatura na hora que começamos a subir em direção à boca do vulcão deveria ser de 40 graus centígrados, mas a secura do tempo levava a uma sensação pior, como se estivéssemos à beira da desidratação.
De vez em quando, eu olhava para trás, de modo a aquilatar, quanto teria que percorrer na volta, afinal é necessário calcular bem, de modo a ter energia suficiente para subir e fazer o retorno.
Quando chegamos à primeira parada da subida, onde nosso guia de origem afro, num inglês péssimo, deu as devidas explicações, eu senti que não queria continuar. Nem estava animada, nem é de meu grande interesse paisagens como esta. Decidi ficar ao abrigo do sol sob um pergolado que havia ali. Devo ter chegado, então, a 1/3 do percurso planejado. Os meus heróis da tarde foram minha amiga, que deve ter alcançado os 2/3 e meu marido que percorreu 100% e viu a boca do vulcão. Olha eles aí descendo de volta.
Na sequência, a escuna parou perto da Ilhota Palaia Kameni, onde as águas são sulforosas. Mais da metade dos turistas que estavam na escuna pularam se banhar por ali. Nenhum dos quatro quis pular, pois, mesmo no verão, a temperatura da água não é boa para nós que vivemos no mundo tropical.
No próprio barco, foi servido o jantar, por volta de 19h30. Eles anunciaram um barbecue, mas as carnes oferecidas estavam mais para cozidas do que assadas. Tomamos um vinho tinto e ficamos apreciando o sol se pôr, tendo a ilha de Santorini e o mar como moldura.
Na manhã que antecedeu o passeio de escuna, ficamos curtindo a praia perto de Kamari e observando uma coisinha ou outra no comércio destinado aos turistas – imãs, cartões postais, chaveirinhos, pequenas esculturas de gesso, cangas para a praia, copinhos com a inscrição “I love Greece”, vestidos e túnicas, sandálias, sacolas e mais sacolas. Quanta quinquilharia existe no mundo!
Gostamos do restaurante Pomodoro, onde comemos na varanda externa. A comida era boa e a gentileza e bom humor do garçom Dimitri era o ponto alto. Ele entrava e saia do estabelecimento, com agilidade, a cada pedido que fazíamos – um pouco mais de pão, azeite por favor, gelo para resfriar o vinho rosé etc. Depois, sua irmã que também ajudava no serviço de atendimento, acabou informando que ele era o boss. Somente aí percebemos que ele era o proprietário, o caixa e o garçom ao mesmo tempo. Será que havia um chef na cozinha ou era ele também?
Ao lado do restaurante, lá estava a bem montada e decorada loja destinada a vender cannabis. Durante todo o tempo em que estivemos na varanda do restaurante, ela estava vazia. Fiquei me perguntando por que ela não atraía fregueses. Será que comprar no paralelo era mais fácil e barato?
Voltamos à mesma praia na manhã seguinte. Areia? De jeito nenhum. Pedras vulcânicas que exigiam que a gente se deslocasse sempre calçado. Um mar de quiosques com espreguiçadeiras, aguardavam turistas de vários países do mundo, para ficar ali jacarezando e olhando o Egeu, desde que estivéssemos dispostos a consumir 10 euros cada um. O vento agradável amenizava o sol. Minha amiga e eu batemos longo papo sobre a vida, com direito a ficar emocionadas. Tomamos uma gostosa sangria!
Insolitamente, diante de nossa espreguiçadeira, havia um pé de sapatinho plástico, que sob a incidência do sol, parecia de cristal. Há quantas subidas e descidas, ele estava indo e vinda à praia com a maré. Quem terá perdido? Uma adolescente, uma jovem ou uma senhora? Entrou com ele na água e o perdeu na força de uma onda? Na noite anterior, na pressa de fazer amor com alguém, sob o luar na Grécia, deixou o sapato por ali? Ou este sapatinho sobre as pedras estaria aguardando ser encontrado pelo príncipe que sairia a procura da linda mulher que o perdeu?
Carminha Beltrão
Julho de 2024
























