Grécia 12 – Creta, um labirinto e muita história

A situação geográfica de Creta é muito especial. Ocupa posição central no Mar Egeu, tendo a noroeste a Grécia continental e a nordeste a Turquia, como o mapa anterior mostra. Mudando a escala da observação, nota-se ainda melhor o privilégio de sua localização: ela está estrategicamente situada entre a Europa e África, a meio caminho do Oriente.

É uma ilha grande com seus 8.336 m2, mas voltando à comparação com a de Marajó que tem 49 mil, k2, ela não é tão grande assim. Tudo é relativo, está claro, porque a Grécia também é menos extensa que o Brasil.

De todo modo, é uma ilha bonita e com muita história. Atualmente, tem mais de 600 mil habitantes. Sua capital é Heraklion, com cerca de 170 mil habitantes, que sedia o porto onde atracou o navio que nos levou à ilha.

A van que nos aguardava, com um motorista para lá de educado, andou algumas centenas de metros pela avenida beira mar e já chegamos. O vento não deixava as palmeiras em paz.

Mal nos instalamos no hotel, seguimos a pé para o centro da cidade e ficamos muito impressionados com o movimento de gente nas ruas – havia turistas (a gente reconhece de longe), mas também moradores da própria cidade que, pelas práticas, denotavam viver seus cotidianos. As lojas na rua central de pedestres ainda estavam abertas, os bares e restaurantes lotados (inclusive o que escolhemos para jantar), casais com os filhos passeando na praça. Achamos Heraklion superanimada.

Jantamos no ótimo Restaurante Pastarella. Os italianos e sua culinária estão por todo lado. Neste dia, saímos duplamente da linha: – a comida estava maravilhosa e ainda comemos uma pequena sobremesa; – tomamos duas garrafas de vinho, pela primeira vez, não que a gente não tivesse tido vontade em outras noites, mas em euros os preços são, por vezes, proibitivos.

O melhor de tudo foi observar, quando a conta chegou, que apenas uma garrafa foi cobrada. Tivemos 30 segundos de crise ética, mas logo lembramos que a segunda garrafa foi trazida por um garçom, que a pegou na adega ao lado de nossa mesa e, na hora, não fez o registro daquele pedido no celular por onde enviam os pedidos para a cozinha e as despesas para o caixa. Concluímos que não haveria perigo de ele ser cobrado.

Voltamos para o hotel mais leves, pelo vinho, e com a sensação (boa, é claro) de ter feito alguma coisinha errada. Todos gostamos de transgredir!

Ao cair da noite (no geral, o sol se punha às 21h), ainda foi possível apreciar algumas edificações bonitas que estão nesta área central.

Sendo a maior ilha da Grécia, que tem mais de um milhar delas, Creta caracteriza-se por ter traços culturais muito próprios, em função de já ser sido ocupada pelos minoicos, desde o século III a.C., bem antes do florescimento da Civilização Grega, que a dominou, como depois ter estado sob influência de outras sociedades e culturas.

Em micênico, era chamada de Keresijo (que significa cretense); teve um nome árabe Iqrīṭiš (اقريطش); em grego, chamou-se Kerete (Creta), que no alfabeto deles foi Κρήτη e depois Κρῆτες. Esses muitos nomes não são uma peculiaridade qualquer, porque revelam as múltiplas influências que este território e seus povos, no plural, receberam.

Segundo a interpretação dada pela mitologia grega, foi ali que cresceu Zeus e viveu o Minotauro, sobre o qual volto a escrever alguma coisinha adiante.

Lendo um pouco sobre a história de Creta, eu mesma resolvi dividi-la em fases. Não fiz isso com qualquer critério de natureza científica, mas apenas para resumir as informações, o que é sempre um risco se algum especialista for ler este blog (risos).

Uma primeira, que terá se iniciado há 130 mil anos, foi marcada pela ocupação de assentamentos humanos que praticavam a criação de animais e algum cultivo. O maior desses assentamentos foi Céfala que depois seria Cnossos. A bem da verdade, por serem assentamentos de vida agrícola e ainda não haver propriamente uma sociedade de classes, essa primeira fase seria mais bem conceituada como a pré-história de Creta.

A segunda fase corresponde à da Civilização Minoica, situada nos primeiros séculos do 3º. Milênio a.C. Pelo que li foi, talvez, a mais importante para a ilha, dado o papel que ela exercia para toda a Europa, pois Creta chegou a ser o centro cultural e comercial mais importante do Mediterrâneo Oriental. Com esse destaque, esta civilização depois se irradiou para o continente. Manteve relações com o território vizinho, mas também fez circular suas mercadorias – vinho, azeite, cerâmica, tecidos e joalheria – até a Sicília e o Egito. Eles desenvolveram uma escrita que ainda não foi decifrada, mas muitas das suas lendas foram transmitidas oralmente e depois difundidas por Homero.

A terceira fase tem início com o domínio dos minoicos pela Civilização Micênica que ocupava o território continental, hoje parte da Grécia. Com esta ocupação. Desestruturou-se no final do sécul XV a.C a Civilização Minóica, para o que também terá contribuído a erupção do vulcão Thera e os tsunamis causados por este evento natural.

A existência de cidades-estados independentes marca o começo do quarto período, cujo eventos principais foram o ataque romano à ilha no ano de 71 a.C. iniciando a anexação de Creta ao famoso império e, posteriormente, com a divisão dele, a ilha passou ao Império Bizantino, que correspondia à porção oriental do romano.

As influências não param por aí, porque entre os anos 823 e 961, a ilha foi ocupada pelos árabes, depois retomada pelos bizantinos, sendo que mais tarde passou às mãos da República de Veneza compondo o que considero uma quinta fase, marcada por muitos eventos e pouca estabilidade.

Em 1645, tem início a sexta fase, a partir da ocupação dos turcos, que introduziram o Islamismo Sunita, embora na ilha se praticasse o Cristianismo Ortodoxo Grego.

Por fim, em 1898 tornou-se um estado independente para, na sequência ser anexada ao Reino da Grécia em 1908, compondo uma sétima fase.

Ufa! Quanta luta política, quantos poderes, quanta riqueza de influências. Uma miscelânea. Disso, resulta que a população atual de Creta é um pouco turca, um pouco grega, com umas pitadinhas romanas e árabes. Tudo junto e misturado.

No dia seguinte, começamos nosso passeio pela visita ao Palácio de Cnossos, que fica nos arrabaldes de Heraklyon. Depois de vários dias andando com guias, lá fomos nós quatro conhecer o sítio arqueológico e tentar decifrar nos folhetos e nos painéis explicativos o significado de cada achado sobre a civilização minóica.

Mal chegamos, havia um personagem inusitado nos esperando calmamente. Acho que não percebeu nossa ilustre visita, porque nem olhou para nós, nem decidiu nos saudar com a abertura da cauda.

O palácio representa a força que os minoicos chegaram a ter. Terá tido, pelas escavações feitas e achados realizados, 20 mil m2, muitas salas e andares, adornados por esculturas e pinturas. Em torno dele, viveram entre 25 mil e 50 mil pessoas, mostrando a pujança deste reinado, que era teocrático, porque o rei era chefe político e religioso.

Destacou-se o Rei Minos e a lenda do Minotauro, que ele teria mantido aprisionado. Essa lenda foi depois apropriada pela Mitologia Grega, para a qual esse monstro era parte humana, parte touro, porque nasceu de uma relação sexual entre Pasífae, esposa do rei, e um touro dado por Poseidon. Consta que era um touro lindo. Não que sua imagem me remeta à beleza, mas sabemos que os padrões mudam com o tempo.

Fonte: https://www.infoescola.com/mitologia-grega/minotauro/#google_vignette

Como o Minotauro alimentava-se de seres humanos, o rei decidiu pelo seu aprisionamento em um labirinto no subsolo do palácio, construído pelo arquiteto Dédalo.

Quando Minos derrotou Atena, deusa das artes e da sabedoria, e matou um de seus filhos, ela resolveu se vingar e enviou muitos homens e mulheres atenienses com o objetivo de matar o Minotauro. Depois de insucessos e muitas mortes, o escolhido para tarefa tão difícil foi Teseu, que se apaixonou pela filha de Minos, Ariadne, e foi, por ela, ajudado com um novelo de lã e uma espada mágica.

Com a espada matou o monstro, com o novelo de lã marcou o caminho no labirinto e conseguiu sair dele depois. Puxa vida, quanta interpretação esta lenda possibilitaria – os psicanalistas que o digam, mas nem me atrevo a tal.

Na Galeria de Arte Moderna de Bolonha, tem uma pintura de Pelágio Palagi, que retrata o momento em que Ariadne entregou o novelo de lá para Teseu.

Fonte: https://www.nationalgeographic.pt/historia/minotauro-o-monstro-do-labirinto_3339

Tem muitos desenhos e ilustrações diferentes sobre esse labirinto na internet. Resolvi reproduzir três representações dele para vocês, leitores, verem se conseguem chegar ao Minotauro. A primeira está cunhada numa uma moeda do século V a.C., hoje no Museu Nacional Romano, em Roma. A segunda corresponde a um mosaico encontrado em Loigersfelder, na Áustria, e que hoje está no Museu de História da Arte em Viena (fonte: https://www.nationalgeographic.pt/historia/minotauro-o-monstro-do-labirinto_3339). A terceira, a que abre este capítulo do meu diário de viagem, não conheço a fonte, porque ao clicar na opção “gerar com Inteligência artificial” ela apareceu. Até agora não sei se foi produzida a partir da mescla de muitas imagens, ou se ela realmente existe como uma pintura, em algum museu do mundo.

As escavações e recuperações arqueológicas ainda estão curso neste grande sítio arqueológico, mas há muita coisa para ser feita em termos de pesquisa por lá. Valeu a visita. Se quiserem mais informações, há mais fotos do que as que posto aqui e um bom resuminho no site https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/almanaque/palacio-de-cnossos-gloria-de-uma-civilizacao-perdida.

A observação da sala do trono do rei mostra pelas dimensões que, embora o reinado fosse poderoso, o conforto não deveria ser muito grande. Um volta do fogo, alguns bancos. Chama atenção os afrescos que, depois de alguns milênios, sem ainda tintas de base química, ele permanece bem legível.

Hoje a área do entorno do palácio é bem utilizada pela agricultura. Entre vinhedos, oliveiras e verduras, fiquei me perguntando o que esses moradores devem pensar sobre Minos e seu Minotauro.

Carminha Beltrão

Julho de 2024

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