Pertenço a uma geração que viveu a adolescência no auge da ditadura militar no Brasil. Eu tinha 12 anos quando foi promulgado o Ato Institucional número 5 (AI 5) e, em casa, quando meus pais falavam mal do governo e de suas práticas autoritárias, baixavam o tom de voz como se as paredes tivessem ouvidos. A família da minha melhor amiga deixou o país clandestinamente num navio, para proteger seu irmão que esteve preso no Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Se tivessem ficado no Brasil, talvez ele não estivesse vivo.
Em meados dos anos de 1970, já cursando a Universidade – Curso de Geografia – pude compreender melhor o significado dos tempos duros que o Brasil vivia e foi inevitável, tanto quanto importante, entender o papel dos Estados Unidos no fomento, apoio e financiamento a todas as ditaduras militares na América Latina.
Escrevo esse parágrafo, para explicar muito sucintamente porque visitar o país do Tio Sam nunca esteve na minha lista de desejos. Muito ao contrário, os EUA estavam no rol daqueles países que não tinha qualquer vontade de conhecer.
De todo modo, no ano 2000, decidimos meu marido e eu conhecer Nova York, como se passear pela maior metrópole do mundo ocidental fosse, afinal, fundamental para dois geógrafos com interesse especial no espaço urbano. Será que esse argumento foi um jeitinho de encontrar uma desculpa para trair a posição política anterior?
Gostamos demais dessa cidade cosmopolita, aberta à diferença, cheia de contradições e com grande vivacidade no espaço público. De lá para cá, esta é a sexta vez que estamos nos EUA.
Em 2002, menos de um ano depois do ataque às torres gêmeas voltamos e conhecemos São Franciso e, pela primeira vez, vimos outras faces do país, ao visitar Salte Lake City e a pequena Burley, onde nosso filho mais novo esteve por um ano para aperfeiçoar o inglês.
Em 2011, voltamos a Nova York, conhecemos Chicago e de lá fizemos um longo percurso atravessando país de nordeste (Chicago) a sudoeste (Los Angeles) percorrendo a Rota 66 de carro. Foi uma experiência e tanto. Até fiz esse diário de viagem completo, mas até hoje não o publiquei aqui no blog.
Em 2018, voltamos a Nova York, por razões de trabalho, para participar da FAPESP Week e apresentar nossa pesquisa. Em 2018, conhecemos Boston, participando do encontro da LASA (Latina American Studies Association) e agora estamos nós de novo em São Francisco, para participar também desse evento.
Enfim, para quem não tinha vontade de conhecer o país, digamos que já estou vindo até demais por aqui, mas a sensação a cada viagem é outra. Primeiro são importantes essas experiências para se aprender a separar os governos da gente de um país, embora aqueles sejam sempre o resultado do voto de seu povo.
No entanto, é preciso apostar na diferença e ver beleza nela, encontrar nas contradições entre o econômico, o social, o político e o cultural fissuras para compreender que há sempre o hegemônico e o contra hegemônico e vamos combinar que nisso os estadunidenses são muito bons: são capazes de criticar a si próprios, ainda que sempre de um certo ponto de vista que é o do centro do mundo. Se não, como teriam um cinema tão diverso que é capaz de vender sonhos e ilusões sobre si mesmo e, de outro lado, realizar filmes cujo objetivo central é colocar o dedo nas feridas que esta sociedade cultiva, cutuca e dissemina.
São Francisco é nossa porta de entrada oeste para fazer a travessia do país do Pacífico ao Atlântico. O mapa mostra qual é nosso projeto.

Já deixo aqui este esquema cartográfico, ao contrário de outras “expedições” como esta, em que o percurso completo eu só inseri no último capítulo do meu diário de viagem. Fiz questão de incluir logo no começo por dois motivos: – quem sabe o leitor se anima a ler minhas descrições; – com certeza, o percurso vai passar por mudanças e haverá outro mapa ao final. O melhor de uma viagem é aproveitar as pequenas oportunidades e ser capturado pelo inusitado: conhecer uma cidade ou parque, que não estavam incluídos no roteiro, mas cuja referência de alguém que se conhece no meio do caminho ou a leitura de um site qualquer ou, ainda, um outdoor na estrada convidam à visita.
O Google prevê 5.926 km, mas é bastante provável que passemos disso. Para nós interessa menos o tamanho do percurso e muito mais a possibilidade de apreender a diversidade: passar por lugares turísticos, mas por outros que não são; conhecer estadunidenses com o biotipo europeu, mas também cruzar com os asiáticos, indígenas, latinos e africanos; ver os vales verdejantes, desde que também cruzemos as Rochosas; passar pela Foz do fértil vale do Mississippi, depois de ter apreciado as extensões de terras desérticas. Enfim, que vejamos a diferença!
Carminha Beltrão
Maio de 2025
Que aventura querida!!!!! Vamos daqui, acompanhando cada capítulo. Beijos.