A viagem entre Denver e Amarillo foi, até agora, o maior percurso que fizemos num dia: 696 km. Não é muita coisa, se pensamos que, no Brasil, a distância entre a cidade que moramos, Presidente Prudente, e a capital do estado, São Paulo, é 560 km. Somos acostumados às distâncias. Além do mais, quase todo o percurso foi feito em autopista, o que torna a viagem tranquila.
Mudamos de bioma ao fazer esse trecho de nossa “expedição” pelos EUA. Passamos dos territórios semiáridos, às vezes desérticos, que marcam a paisagem do Colorado para chegar a planuras mais verdes que caracterizam parte da paisagem do estado do Texas.
Depois de percorrer cento e poucas milhas (mais ou menos 160 km), chegamos a Colorado Springs, uma cidade de quase 500 mil habitantes que se espraia com nível de dispersão urbana muito alto. Antes mesmo de chegar na sua área mais densa, passamos por vários subúrbios de classe média e de habitação bem popular.
Chama atenção o número de centros comerciais que há em entroncamentos de rodovias ou avenidas, em que marcas como McDonald’s, Starbucks, KFC, Subway, Domino’s Pizza, Taco Bell, Burger King, Pizza Hut e a Love’s, estão lado a lado, com as redes de hotéis e motéis que, no geral, também se situam ao longo das vias de grande circulação. Incluí a Love’s, embora ela não esteja na lista da Forbes relativa às maiores empresas de fast food, porque eu nunca tinha ouvido falar nada, mas observei que está muito presente nos estados que estamos visitando. É o tipo de loja de conveniência nos postos, mas tem também alguma comida pronta para se levar…
O melhor de Colorado Springs está ao sul da cidade e leva o nome de Garden of the Gods. Para falar a verdade não corresponde à imagem que tenho de um jardim dos deuses, que estaria mais para os tons brancos das nuvens, mas vamos combinar que é muito lindo.
Não é um parque grande e, como em outros, pode-se entrar de carro, circulando lentamente, apreciando as formas geológica e geomorfologicamente trabalhadas durante milhões de anos. A ação do intemperismo – água e vento – desenhando o relevo pelo desgaste lento, mas contínuo, gera paisagens verdadeiramente deslumbrantes.




Havia, no parque, muitas famílias com crianças, algumas de menos de dois anos, jovens em pequenos grupos e, também, casais sexagenários, septuagenários e até octogenários. Era uma terça-feira e chamou minha atenção como havia gente passeando por ali, principalmente considerando-se que as férias escolares ainda não começaram. A renda alta do estadunidense justifica a existência de tantos hotéis e gente circulando de motorhome por todas as estradas pelas quais passamos (até pela “estrada mais solitária dos EUA”).
Há muito tempo, li em algum lugar que o estadunidense quase não faz turismo fora do seu país. Admito que ele é grande, diverso em paisagens e cultura, mas é um traço desta sociedade que mostra certo ensimesmamento, próprio de quem se acha o centro do mundo.
George W. Bush, por exemplo, aliás, diga-se de passagem, um texano, ao ser eleito presidente deste país, não tinha jamais ultrapassado suas fronteiras, ou seja, sequer no México ou no Canadá ele havia dado um pulinho e me lembro que isso foi usado na campanha como um traço positivo do candidato.
Deixando Colorado Springs para trás fomos, também, despedindo-nos das paisagens cor de ocre para, pouco a pouco, descer da altitude de 1.600 metros (Denver) para os 1.100 metros (Amarillo) e alcançar terras mais planas onde a agricultura irrigada e a criação de gado mostram que a atividade agropecuária é importante nesta parte do país.
Cruzamos o Novo México e tinha ficado como impressão, o que é sempre parcial demais, pois apenas passamos por um trecho, pela rodovia estadual 87, que se trataria de um estado da federação estadunidense bem pobre. Fui verificar depois e, efetivamente, é o segundo na classificação dos 51 estados da federação, quando se toma como referência a taxa de pobreza que aí atinge 20,6% da população, enquanto em Nova Hampshire, o menos pobre, essa taxa é de 9,2%.
Em muitos pequenos assentamentos de casas, lugarejos que nem sei se chegam a ser classificados como urbanos, predominam casas mal conservadas, contêineres e trailers velhos que servem de residência.
Há, neste estado, grande proporção de moradores de língua hispânica, aliás a maior do país, o que corresponde a 42% do total, sendo que os mexicanos são 18%. Em razão desse índice, é o estado que tem mais católicos nos EUA (pouco mais de 40%). Além deles, exceção feita ao Alaska, o Novo México é o estado com maior proporção de população de origem nativa (indígenas).
Pelo que observei, muitos devem viver de trabalhos esporádicos e ajudas governamentais, porque havia muita gente na frente das casas. Isso significa que muitos vivem do subemprego, em condições de moradia precárias, ainda que infinitamente melhores que as de várias favelas brasileiras, é bom que se diga.
Entramos no Texas e nem percebemos. Esse detalhe chama atenção aqui – não há uma placa oficial informando que estamos passando de um para outro estado da federação, o que seria muito importante, até porque no caso deste país, isso significa até mudança das leis: nuns estados o consumo de maconha é livre, noutros é ilegal; em alguns, existe a pena de morte e em outros não; há aqueles em que o serviço de saúde pública está disponível e tem os que não o oferecem etc. Fiquei com vontade que houvesse até aqueles portais cafonas, anunciando “Sejam bem-vindos ….”. Na ausência das placas oficiais e dos portais de passagem, sempre se demora para perceber que estamos em outro estado, embora neste caso, tenha sido até mais fácil, porque os relógios digitais do carro e do nosso pulso anunciaram, uma vez que houve troca de fuso horário. Começamos na Califórnia que está 4 horas atrás do horário de Brasília, passamos para o fuso que está a três (em Nevada) e chegamos a apenas duas horas de diferença.
Sobre o Texas tem sempre muita coisa a ser dita. É o segundo estado mais extenso do país, sobrepujado apenas pelo Alaska que está em descontinuidade territorial e praticamente todo coberto pelo gelo.
Por estar no centro sul do território estadunidense, Texas foi passagem para todos os que conquistaram o oeste, tomando as terras dos mexicanos, porque as temperaturas mais amenas no sul facilitavam as longas viagens a cavalo ou por carruagem. Havia os que foram por caminhos mais ao norte, para conquistar, por exemplo, os territórios atuais de Idaho, Wyoming e Montana, mas era bem mais difícil. Você assistiu a série da Netflix chamada 1883? Ela mostra a saga de uma família – os Dutton – numa viagem difícil para chegar ao Oregon e, depois, instalarem-se em Montana. Vale a pena ver, tanto pela boa interpretação de Isabel May, a loirinha que estrela a saga, como porque mostra o que significava não chegar ao destino antes de o inverno chegar.
Ir pelo sul era menos desafiador e o Texas com isso ganhou muito. Aliás, se você gosta mesmo de séries deste tipo, veja também Yellowstone, que mostra a mesma família, duas gerações depois, já ricos e extremamente poderosos e autoritários.
Voltamos ao Texas, que está muito ao sul do percurso feito pelos Dutton. Para se compreender um pouco da cronologia dos fatos que impactaram a história deste estado, vejam o quadro que se segue, extraído do Guia Visual Folha dos Estados Unidos. Eu destaco três datas:
1822 – chegada do imigrante estadunidense que toma as terras dos mexicanos, que resultam da “colonização espanhola”, os quais dizimaram muitas nações indígenas;
1901 – descoberta do petróleo e mudança da economia do Texas, gerando uma elite rica e poderosa;
1963 – assassinato de John Kennedy, o que assisti pelo telejornal O seu Repórter Esso (a patrocinadora dava nome a ele), por ocasião do período em que compramos a primeira TV em casa. Eu tinha ainda sete anos e me lembro que a cena foi repetidas vezes projetada: era a história estadunidense entrando na casa dos brasileiros e difundindo um modelo de organização política e um modo de vida que, logo depois, ajudou a sustentar os governos militares no poder.
Eu adorava o Reporter Esso e me lembro que os slogans do telejornal eram – “O Primeiro a dar as últimas” e “Testemunha ocular da história”. Se você se lembra desses slogans é porque passou dos 60 anos e está chegando nos 70.
Há, no Texas, referências a uma “cultura do exagero” e se dissemina a representação social de que o texano tem senso de superioridade – o estado é grande, é rico por causa do petróleo, a equipe de futebol Dallas Cowboys é o máximo – além de famosa frase “Don’t mess with Texas” (Não mexa com o Texas).
Apesar de, no imaginário, continuar a ser a terra dos cowboys, o que tem alguma âncora na realidade já que a pecuária é importante para a economia texana desde a sua “conquista” pelos estadunidenses, hoje contribuem para a riqueza do estado, além da extração de petróleo que já tem mais de um século, a presença de dois ramos industriais: o de alta tecnologia em informática representado pela Dell Computer e pela Texas Instruments, em Austin e o da grande indústria de engenharia aeronáutica que dá suporte à NASA, em sua Mission Control, em Houston.
Apesar de ter algumas cidades muito importantes na hierarquia urbana estadunidense – Dallas, Houston e Austin – o país tem poucas cidades e se você quer conhecê-lo tem que percorrer muitos quilômetros ou fazer viagens aéreas entre os principais centros urbanos do país.
A melhor escolha, para quem quer efetivamente conhecer o Texas é andar de carro, porque podemos ver o território profundo, esse do mundo rural, em que vive pouca gente, mas estão as atividades da agropecuária e os poços de petróleo, desde os mais tradicionais ainda em madeira até os mais modernos, além das torres de energia eólica. Não consegui fazer uma foto dos poços, porque nem sempre as rodovias têm acostamento para a gente estacionar, mas aqui segue uma retirada da internet.
Guardadas todas as diferenças, que têm sua relevância, atravessar o Texas me fez lembrar o que é atravessar o estado do Mato Grosso no Brasil: quase nada de cidades pequenas, a não ser lugarejos que estão em torno dos entroncamentos rodoviários, algumas cidades grandes e muitos meios de transporte de mercadoria.
O número de caminhões que estão nas rodovias impressiona, eu arriscaria dizer que é o que predomina, em que pese os carros e os motorhomes e trailers que também marcam presença. Quando fiz a foto que se segue, havia quatro caminhões à nossa frente.
Vejam a foto que registrei de um trailer típico daqui, abastecendo num posto, junto ao lado do nosso veículo. É um carro potente carregando praticamente uma casa e notem que este não é dos maiores que vimos aqui nos EUA.
A diferença com o Mato Grosso está na presença do transporte ferroviário. Vejam a foto que fiz de um trem de mercadorias e considere que só consegui registrar o finalzinho dele, porque até pegar o celular, já tinha passado grande parte do comboio. Eram contêineres e contêineres, um sobreposto ao outro.

A chegada a Amarillo, após um percurso longo foi reconfortante, ainda mais que mudamos de fuso horário e “perdemos” uma hora, ou seja, ao invés de chegarmos às 17h, chegamos às 18h.
Mal deixamos as malas no hotel, seguimos para jantar, já que aqui a maior parte dos restaurantes fecha às 21h. Até agora não entendi o que comanda esse horário que também vimos em San Francisco, portanto ele parece estar em vigor em cidades de vários tamanhos e importância, nesta parte do país, o que não ocorre, por exemplo, em Nova York.
Consultando o TripAdvisor chegamos ao Mac Joe’s – abreviatura de Macarroni Joe’s. Além de ser um restaurante muito simpático na decoração, com uma árvore iluminada dentro do ambiente, o serviço era atencioso e a comida muito boa. Recomendo!
Comi um espaguete com camarão ao molho de limão siciliano. De fato, o molho que era bem caldoso deveria ter outra coisa, porque o limão era apenas para dar o sabor, mas isso seria possível de ser decifrado, apenas se minha amiga Leny estivesse junto, pois ela, ao colocar algo na boca, rapidamente decompõe o alimento em seus vários ingredientes. Não é à toa que é excelente cooker. A foto que está, em seguida, não é propriamente do meu prato, porque não me lembrei de fazer o registro, mas serve para dar água na boca.
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=f2bRWAV78IE
Depois demos um giro pelo centro de Amarillo, onde não havia ninguém pelas ruas, apesar de ser 20h30 e estar totalmente claro. Chamou atenção o número de igrejas – batista, presbiteriana, luterana (não vi a católica, mas deve haver).


Um único prédio muito alto marca a paisagem do centro de Amarillo.
E, assim, mais um dia se passou.
Carminha Beltrão
Junho de 2025



















Caríssima Carminha
Que esteja tudo bem com vocês. Gostei muito “do Colorado ao Texas…”. As fotos estão perfeitas, ilustrativas do bom texto. Parabéns!!!!
saudações
mmdospassos