Sem dúvida, esta era a minha maior expectativa antes de começar a travessia dos Estados Unidos de oeste para leste. Queria muito conhecer New Orleans, uma cidade que, no imaginário social, no qual me incluo, está associada à alegria, à cor, à cultura francesa e, sobretudo, ao swing da música e da dança dos afrodescendentes.
Logo de cara, as expectativas não se realizaram. Chegamos a esta cidade por volta de 16h e já saímos para a primeira volta, após nos acomodarmos no Hotel Provincial. Havia muita gente pela rua e isso tornou o passeio pouco tranquilo, na medida em que sempre se tinha a impressão de que alguns comportamentos eram suspeitos e você poderia ser abordado de maneira desagradável ou mesmo roubado, tal era a forma como, no geral, os autóctones se comportavam tomando a rua para fazer a propaganda de seus bares, restaurantes ou lojas.
A mistura de jazz (acho que não tem plural essa palavra) que vinham de diferentes cantos, tocado com pouca qualidade, também tornava o ambiente turbulento e pouco agradável. Esse foi o resultado de começarmos o passeio, justamente pelas partes mais turísticas, nas quais o excesso de informação e apelo ao consumo de bugigangas e todo tipo de bebida alcóolica, deixa a gente meio tonta. Lembrei-me da última vez em que estive em Porto Seguro, quando senti sensação semelhante.
Foi preciso ter mais dois dias completos em New Orleans, para conhecer mais setores da cidade e, sobretudo, estar neles em horários diferentes. Essa é uma característica relevante para compreender a cidade – a New Orleans do final do dia, agitada, apelativa ao máximo para o conjunto de experiências que a noite reserva, é muito diferente da New Orleans da manhã, quando os notívagos ao extremo ainda estão descansando, o sol está mais ameno e há certo silêncio que nos possibilita prestar atenção nas fachadas dos sobrados que encantam a paisagem urbana do French Quartier (bairro francês). Não fique pensando, leitor, que não gosto da noite, ao contrário, funciono bem neste período do dia, mas o turismo de massa, às vezes, rouba a alma dos lugares e acho que isso ocorre nesta cidade em determinados horários.
Vamos, no entanto, voltar no tempo para escrever um pouco sobre a origem desta cidade charmosa. Embora Baton Rouge seja a capital, New Orleans, situada no sudeste da Louisiana é sua cidade mais emblemática, expressando a multiculturalidade e a mescla racial e étnica que a constitui. Poderia fazer um paralelo afirmando que New Orleans está, para os Estados Unidos, como Salvador está para o Brasil, mas teria que radicalizar essa comparação, porque a cidade estadunidense distingue-se ainda mais do conjunto das cidades deste país.
Sua situação geográfica é bem especial, pois ela fica entre lagos e tem a oeste o Mississipi chegando, serpenteando a planície ao sul do Lake Pontchartrain e entrando todo valente na cidade. Não é à toa que volta e meia New Orleans tem que enfrentar enchentes.
A influência francesa, espanhola e, sobretudo, africana (ver https://carminhabeltrao.wordpress.com/wp-admin/post.php?post=7444&action=edit) está na raiz dessa exuberância desta cidade.
Efetivamente, do ponto de vista urbanístico, podemos falar de duas New Orleans, a moderna onde está seu Central Business District (CBD) com arranha – céus e shopping centers, e a do French Quartier, representativa dos séculos XVIII e XIX, quando a riqueza do algodão levou a cidade à prosperidade e ela chegou a ser a 4ª maior do país. Hoje, tem pouco mais de 380 mil habitantes e ocupa a 53ª posição no ranking nacional (segundo a Wikipédia com dados do Censo de 2020).



Ouvimos falar muito de New Orleans, pela mídia, quando ela foi assolada pelo furacão Katrina em 2005. Ficou inundada, várias edificações foram atingidas, houve muitos mortos. Hoje, andando pela cidade, talvez porque não tenhamos base para comparação, não se percebe os estragos que o furacão fez na cidade.
Embora tenhamos ido de bonde até o CDB e até visitado um de seus outlets, nós nos deliciamos, mesmo, em New Orleans, palmilhando a pé o French Quartier, sob sol e chuva, que quando cai é torrencial. Aliás, pegamos um pé d’água (a foto não é suficiente para mostrar o quanto chovia) ao deixarmos o restaurante Sun Chong, cujo nome já denuncia que é de chineses, mas serve comida deste país e também do Vietnã. Gostamos do almoço, mas o bom mesmo era a agilidade, graça e simpatia da garçonete que até posou para uma foto.
Olhando aqui no meu APP Pedômetro foram 12.190 passos, no primeiro dia, 9.382, no segundo, e 9.002, no terceiro (esse registro é especial para o nosso fisiologista Gustavo não pensar que estamos de boa sem fazer exercício).
São duas as suas ruas principais – Bourbon Street e Royal Street– e elas são muito diferentes entre si. A primeira é cheia de bares, restaurantes e lojas para turistas, onde se pode comprar de tudo, desde um pequeno saxofone de plástico pintado de dourado, passando por roupas para o carnaval, chegando a camisetas de todo tipo e marijuana. A maior parte dos bares vende drinks que são feitos de vodca ou rum com frutas ou xaropes de frutas. A aparência deles não era convidativa porque parece que a parte do xarope é excessiva e devem ser doces demais. Os copos onde eles são servidos são demasiadamente kitsch para o meu gosto – têm formato de coração, de tulipa, de cálice de champagne – mas são feitos de plásticos coloridos – azuis, lilases, pinks etc.
Para não deixar a Bourbon Street com má fama, é importante registrar que se afastando um pouco das quadras onde estava a muvuca, havia bares de onde um jazz com mais qualidade invadia as ruas e fazia o transeunte ter vontade de dançar na calçada (por que não tive coragem de fazer isso? Ninguém me conhece em New Orleans, mas não dancei).
A Royal Street, ao contrário, embora tenha também bares e restaurantes, tem um comércio de rua mais sofisticado, com galerias de arte, livrarias e lojas especializadas (vi, pelo menos, duas que eram de chapéus). Os hotéis também estão em maior número nesta rua e essas funções garantem que você passeie mais tranquilamente (porque não é, a toda hora, chamado a consumir um drink às 10h da manhã num copo de plástico, ou a comer um hot-dog entregue em embalagem colorida).
O período de influência espanhola remanesce nas placas com os nomes das ruas que estão em azulejo em algumas esquinas.
As fotos que se seguem, nem todas são da Royal Street, embora a maioria o seja. Estão reunidas aqui para vocês terem uma visão de conjunto do que é a arquitetura que predomina no French Quartier.




Entre as vitrines da Royal Street, a que mais gostei foi de abajures e lustres art nouveau.




São lindos, não é mesmo? Volto com vontade de comprar um destes para minha mesinha de cabeceira, mas é provável que me esqueça disso daqui a algumas semanas.
A vitrine com mini caixinhas de porcelana também encanta, bem como as com bússolas de todos os tipos.
O nosso próprio hotel – o Provincial – é uma amostra de arquitetura peculiar, com sua fachada que me lembrou algumas que vi na África do Sul, no território “colonizado” por franceses e holandeses.
Apesar dessa fachada não ter balcões, o que predomina em New Orleans com suas varandas e gradis em ferro, internamente o Hotel Provincial reproduz um partido arquitetônico comum na cidade, que é o dos cômodos voltarem-se para pátios internos. As construções estão na beira da calçada, sem qualquer afastamento frontal ou jardim, mas há sempre o pátio interno que propicia um microclima mais ameno numa cidade tão quente.
Várias das antigas construções de New Orleans estão refuncionalizadas e recuperadas para funcionarem como hotéis, inclusive de redes, como a Sheraton.
Visitamos também o Old Ursuline Convent, uma construção bonita que se situa na mesma rua do nosso hotel – Chartres Street – e data de 1752. É considerado, atualmente, o prédio mais antigo de todo o vale do Rio Mississipi. Em 1820, as freiras mudaram-se para um prédio novo e este, no coração do French Quartier, tornou-se a residência oficial dos bispos de New Orleans. Com algum esforço, você conseguirá ler o resumo da história do prédio (se é que isso pode ter algum interesse).
Hoje é um museu e pelo que constatamos é pouco visitado, porque havia um casal na porta que deve ser de membros da French Heritage Society (pelo que entendi uma espécie de OnG que se preocupa com a mantença da herança francesa), que nos convidou a entrar. Lá fomos nós, mas com gentileza renunciamos à visita guiada para podermos ter maior domínio sobre o tempo. Ainda bem, o acervo não era assim tão magnífico que merecesse uma explicação detalhada.

O que vale mesmo a pena é a capela cujo nome é Our Lady Victoria, de 1845. O teto em madeira de cipreste e pinheiro é original.
Um escapulário centenário faz parte do acervo e é uma peça bonita.
Quase todo mundo que vai a New Orleans morde o anzol e faz o passeio pelo Natchez, tradicional navio a vapor com roda de pá na popa que, tradicionalmente, era o principal meio de transporte no Vale do Mississipi, levando algodão, açúcar, milho e gente.
Hoje fazem passeios turísticos por duas horas, nos quais vai se apreciando o que está às margens do magnífico rio. Vale a pena? Sim e não. Sim, pelo significado histórico deste rio na ocupação de um grande território e por se ter uma noção melhor do que eram essas embarcações. Não, porque é caro pelo que oferece: música de má qualidade, café bar pouco preparado para servir e a maior parte do tempo possibilita-nos olhar para as margens do rio. onde não há muita coisa para se ver. O tempo de navegação ao longo da cidade que possibilitaria ver melhor o conjunto urbano é proporcionalmente pequeno.
Havia indústrias antigas, grandes navios militares, outros de mercadorias e uma unidade industrial, que parece desativada, e que servia à estocagem de açúcar importado do Brasil.
Já escrevi muito e não o suficiente para tratar do jazz o que fica para um próximo capítulo.
Carminha Beltrão
Junho de 2025























Muito ótimo. É o seu bom e qualificado olhar para os lugares-históricos-paisagens!!! Grande abraço. E muito obrigado!