Little Havana: A Diáspora Cubana em Miami

Miami, jovem e bonita

Gostei bastante de Miami e, de certo modo, ela superou minhas expectativas. Imaginava que encontraria uma cidade voltada demais para o turista, com hordas deles andando pelas ruas, gente como nós que incomoda os que habitam na cidade. Talvez essa imagem que elaborei sobre Miami deva-se ao fato de ela ser a preferida de muitos brasileiros nos EUA.

Digo que a imaginava voltada demais, usando esse superlativo, porque ela é turística, é claro, mas nem tanto como eu imaginava ou isso não é perceptível em seu cotidiano. Talvez isso seja decorrência do fato de que muitos dos que a visitaram pela primeira vez, como turista, hoje são moradores da cidade, que tem cerca de 50% de seus residentes nascidos em outros lugares.

Fizemos um passeio de barco de pouco mais de uma hora, durante o qual o guia ofereceu informações de todo tipo, algumas delas bem pouco importantes, mas outras até curiosas, como a de que Miami é a única grande cidade dos EUA a ser fundada por uma mulher.

Ela se chamava Julia Tuttle e veio de Cleveland, onde era produtora de frutas cítricas e via nas terras desta península, ainda não ocupadas pelos “brancos”, muito potencial para a agricultura. Não é, então, por acaso, que as placas dos carros na Flórida tenham referência às laranjas e à luz do sol (desculpem o enquadramento mal feito da foto).

Evidentemente, ela não foi a primeira moradora deste território onde já tinham vivido nações indígenas e cujas terras tinham também sido reivindicadas pela Espanha, em 1536, embora esse passado espanhol pouco tenha prosperado.

A região era vista quase como um deserto, mas Julia acreditou nas possibilidades da fruticultura e teve a iniciativa de convencer um magnata do setor ferroviário a construir a Florida East Coast Railroad, o que potencializou sua posição portuária porque ligou a região às outras do país. Em 1896, segundo a Wikipédia, com pouco mais de 300 habitantes, ela foi reconhecida administrativamente como cidade. É, portanto, uma senhora muito jovem [Miami e não a Julia que, evidentemente, já faleceu, deixando herdeiros multimilionários em função de sua ação visionária]. Atualmente, ela é chamada de “mother of Miami”. Vejam a foto dela e se quiserem conhecer mais sobre essa história vejam o vídeo https://www.youtube.com/watch?v=yCdt1DsEieM

Fonte: https://floridatraveler.org/2018/08/05/women-who-changed-florida-my-honor-roll/

Embora componha uma aglomeração urbana grande, a população do município de Miami era, em 2020, por volta de 450 mil habitantes, o que não é muito. Além dos cubanos e seus descendentes que contam muito na composição demográfica, também há snow birds, como são chamados os que habitam as regiões frias dos EUA e, na condição de aposentados (ou ricos), optam por passar o inverno nesta cidade, fugindo das temperaturas baixíssimas do norte do país. São como pássaros que migram conforme as estações do ano.

O centro principal de Miami é parecido a tantos outros que vimos nos EUA, com edificações elevadas, prédios icônicos, calçadas largas e espaços públicos agradáveis. No entanto, observei uma diferença que precisaria ser confirmada por informações mais precisas: enquanto nas demais cidades de grande porte que visitamos – Denver, Dallas e Houston – a maior parte dos prédios, na área central, é voltada aos negócios, em Miami, pareceu-me que há mais moradia, o que teria a ver com sua situação litorânea e, também, com esse grande número de moradores que vieram de outros países ou de outros estados da federação para viver ali. Vejam que alguns prédios têm fachada tipicamente corporativa, mas outros têm varandas que, pelo mobiliário que as ocupa, denotam moradias.

A partir do mar, de onde a observamos no passeio de barco, Miami fica ainda mais bonita, com suas marinas e seu porto que, atualmente, já tem terminais de quatro grandes empresas internacionais de transatlânticos. Pelo que o guia explicou, cerca de 80 mil turistas, que viajam por esse modal, transitam diariamente por Miami.

Viram o tobogã no alto do navio?

Os iates são inúmeros e há tanto os que estão navegando como os ancorados em marinas e nas residências das Venezian Islands (escrevi sobre essas ilhas em outro capítulo deste diário de viagem – https://carminhabeltrao.com/2025/06/17/miami-beach-tem-um-que-de-extravagante/)

Havia também os que tranquilamente velejavam. Enfim, tanto Miami quanto Miami Beach passam a impressão que todos estão sempre de férias (embora saibamos muito bem que milhares de pessoas estão “trampando” para sustentar o turismo).

A maior parte se beneficia das vistas privilegiadas de Miami ou de Miami Beach. O guia desfilou um rosário de nomes de celebridades que têm imóveis ali, mas sinceramente não houve um entre os citados que eu conhecesse. Se me conhecessem, com certeza teriam me convidado para um drink olhando para a linda cidade (risos).

Aliás, as casas de Venezian Islands merecem destaque.

São muito bonitas, algumas já com 50 ou 60 anos, outras moderníssimas.

A maior parte se beneficia das vistas privilegiadas de Miami ou de Miami Beach.

Acho que eles não estão chateados de ter esse privilégio.

Se me conhecessem, com certeza teriam me convidado para um drink olhando para a linda cidade (risos).

Será?

A próxima foto é a que aparece, de cara, no Google, quando se digita Venezian Islands.

Com toda sua vitalidade, Miami continua a crescer. Havia vários prédios em construção, viadutos sendo ampliados e carros por todo lado.

Reparem no detalhe das varandas deste prédio que está em fase de acabamento. Ele tem o formato elíptico para suportar os ventos fortes que batem em Miami em parte do ano.

O prédio de que mais gostei é relativamente simples, do ponto de vista arquitetônico, mas que é adornado com pilares e painéis com pinturas. As fotos não fazem jus ao efeito que ele causa na paisagem.

Descemos do barco com fome e fomos atrás da indicação do TripAdvisor, relativa a um restaurante brasileiro perto do porto – Camila’s – e lá havia feijoada e picanha. Depois de exatos 30 dias fora do Brasil, a pedida foi ótima. A comida estava bem feita, o ambiente simples, mas super ajeitado e limpo. Recomendo.

Do nada, na volta para o estacionamento onde estava nosso carro, encontramos um veículo andando sozinho pela calçada. Era o entregador da Saprino’s Pizzaria. Curiosa a engenhoca, mas logo pensei que a consequência dessas máquinas é menos emprego e mais gente na rua. Miami tem menos homeless que São Francisco, mas não escapa dessa realidade contemporânea. A taxa de desemprego nos EUA está baixa, em torno de 5%, aliás equipara-se à brasileira que ficou um pouco abaixo desse patamar na última vez que divulgaram o dado, mas isso não significa que há trabalho para todos, porque muitas vezes falta mão de obra num setor em que se exige pessoal com determinado nível de especialização e sobra trabalhador que não se encaixa no perfil desejado.

Não bastasse o sistema complexo de vias e viadutos que cortam a cidade e a ligam a Miami Beach, há mais vias em construção para dar vazão ao grande número de carros que circulam na cidade, embora ela tenha um metrô e um pequeno trem de superfície, também funcionando em viaduto.

Passamos várias vezes por esse lugar para chegar em nossa residência temporária (AirBnB) em Little Havana, que está muito próximo do centro de Miami, mas esse tema fica para o próximo capítulo.

Carminha Beltrão

Junho de 2025

Key West – extremo sudeste dos EUA

Miami Beach tem um quê de extravagante

Nosso último grande trecho de viagem transcorreu entre New Orleans (Louisiana) e Miami (Flórida), passando rapidamente pelos estados de Mississipi e Alabama. O mapa da Flórida é engraçado porque se estende bastante do leste a oeste, razão pela qual é cortado por dois fusos horários, de modo que percorremos muitos quilômetros observando uma paisagem de planície e muito verde.

Fizemos um pernoite no meio, em Tallahassee, apenas para descansar, já que quase 1 400 km num dia seria demais. Sobre esta cidade só tenho duas coisas a registrar, uma vez que paramos somente para descansar: é a capital do estado da Flórida e tem muitas áreas verdes em seus subúrbios, tornando as áreas residenciais agradáveis porque próximas de bosques e parques muito bem cuidados.

Miami, nosso destino, como vocês viram no mapa, fica bem ao sul da Flórida que, por sua vez, também é o estado mais meridional do país. Não é à toa que, logo depois da Revolução Socialista em Cuba, sua elite, e mesmo após a fragmentação da URSS e o embargo estadunidense que deixaram a ilha desabastecida e muita gente sem trabalho, muitos cubanos fugiram de barco para os EUA. Essa presença é sentida ainda hoje em Miami.

A chegada a esta cidade foi dark. Era 6ª feira, final da tarde, por acaso eu estava guiando e senti na pele a intensidade da circulação automotiva. O conjunto de viadutos com várias saídas e sobreposições fazem com que qualquer pequeno erro signifique andar muitos quilômetros a mais para o remediar.

Trata-se de uma enorme aglomeração urbana composta de várias municipalidades. Vejam na próxima imagem que Miami é apenas o setor que está demarcado em vermelho. Assim, andamos algumas dezenas de quilômetros antes de chegarmos na Little Havana, onde está a casinha que alugamos pelo AirBnB.

Depois de dois trechos longos de viagem, o máximo que conseguimos fazer no mesmo dia foi ir a dois pequenos supermercados do bairro e constatar que a Little Havana ainda é dos hispânicos falantes (não se escuta inglês no comércio ou nas ruas) e que, pouco a pouco, lá estão os chineses… Aliás, já vimos movimentos semelhantes em outras cidades dos EUA. Em Nova York, o bairro chinês no decorrer dos anos foi invadindo a Little Italy. Em São Francisco, a mesma coisa ocorreu: os herdeiros do Império Romano perdem cada vez mais espaço para aquela que está se tornando a maior economia do século XXI e com sua gente espalhada pelo mundo todo. O jovem chinês que nos atendeu num pequeno supermercado onde tinha comida chinesa, é óbvio, mas também japonesa e vietnamita, era supersimpático. Começou conversando conosco em inglês, mas respondia em espanhol para seus funcionários que pelas feições logo vimos que eram latino-americanos. Miami é multicultural sem dúvida, mas de um modo diferente de New Orleans.

No dia seguinte, resolvemos aproveitar o sábado de sol para conhecer Miami Beach, que é uma municipalidade distinta de Miami. Sua condição insular e sua praia torna-a uma espécie de play ground da cidade principal.

Vejam o detalhe das três ilhas que estão ao norte da ponte e que, pelo formato, são artificiais. Chamam-se Venetian Islands. Nelas, estão edificadas casas de alto padrão em meio à vegetação abundante. Várias delas têm iates ancoradas na frente.

Fonte: https://www.archdaily.com.br/br/955332/planejamento-urbano-e-corpos-dagua-os-assentamentos-aquaticos-na-florida/6006c0d363c01779b000012f-planejamento-urbano-e-corpos-dagua-os-assentamentos-aquaticos-na-florida-imagem

Ao lado da ponte, estão grandes transatlânticos ancorados. Nunca tinha visto tão grandes, ou ao menos tão largos. Passavam a impressão de ter dois edifícios construídos sobre eles. No topo, um verdadeiro parque de diversões com tobogã gigante e tudo mais.

Uma marca registrada de Miami Beach? Palmeiras de vários tipos. Elas estão por todo lado.

O plano urbano é interessante. Ao longo do mar, a via de veículos está a uns 150 metros de distância da areia. Na faixa entre a via e a praia, tanto há trechos com prédios residenciais e hotéis, a partir dos quais se pode ir direto para a areia, como há trechos com a presença do Lummus Park e outros espaços públicos com vias para bike, patins e pedestres, tornando maior a integração com a Ocean Drive. Em grande parte desta avenida beira mar de Miami Beach, os prédios ficam entre dois e cinco andares, compondo um skyline agradável que não se constitui um paredão que isola o restante da cidade, como temos em Fortaleza ou Recife.

Ao lado de alguns edifícios remanescem residências individuais que suponho sejam quase centenárias.

Nos trechos em que estão os hotéis, a areia é ocupada pelos guarda-sóis deles, mostrando uma homogeneidade na ocupação da praia; nos outros trechos há vários tipos de apropriação do espaço público.

Essa combinação público-privada torna, aparentemente, a cidade bem democrática. Vi gente de várias classes sociais compartilhando os mesmos espaços num dia lindo e super quente. Havia jovens e não tão jovens casais, trajados com roupas esportivas de grife, fazendo cooper, com seus corpos esbeltos, tanto quanto havia senhoras rechonchudas, de origem latino-americana ou africana, carregando geladeiras térmicas com o almoço, indo para a praia, acompanhadas de famílias de, no mínimo, dez pessoas.

As edificações mais bonitas são as dos anos de 1920 a 1940 que são preservadas pela representatividade do estilo Art Déco, outra marca de Miami Beach na beira mar. Há vários prédios, mas só fiz foto deste primeiro, na sequência, os outros busquei na web.

Fonte: https://www.miamiandbeaches.world/things-to-do/history-and-heritage/bairro-hist%C3%B3rico-art-d%C3%A9co

Fonte: https://www.miamiandbeaches.world/l/atra%C3%A7%C3%B5es/bairro-hist%C3%B3rico-art-d%C3%A9co/2116

Nos extremos da ilha, os arranha-céus despontam com muito andares e tornam Miami parecida com Camboriú. Argh!

Além da faixa de areia propriamente dita, o mar era também apropriado pelos jet-skis e, pasmem, por um barco com um painel luminoso, que a cada 30 segundos, mudava a imagem, fazendo assim o papel de publicidade ambulante de várias empresas.

Miami Beach tem um quê de extravagante. Deve ser para fazer valer sua influência cubana. Os carros são coloridos demais, conversíveis, muitas vezes, e barulhentos com a música tocando no volume máximo. As que desciam desses carros eram pessoas que se vestem do modo “cheguei e tomara que vocês me notem”. Não as fotografei, porque não encontrei um jeito de fazê-lo sem as constranger.

Os restaurantes na Ocean Drive também são chamativos. As primaveras estavam floridas, mas em algumas circunstâncias elas são artificiais, e estão enfeitando pequenos coqueiros nos vasos. Assim, Miami, como muita coisa nos EUA tem um quê de kitsch. Vejam os ventiladores vermelhos para combinar com os guarda-sóis e as flores plásticas no vaso azul.

Almoçamos num restaurante italiano parecido, na decoração, com estes. Gostamos do simpático garçom mexicano. Na hora da conta, além dos pratos e bebidas consumidas, a surpresa da água mineral mais cara que encontramos nos EUA – 10 dólares a garrafa – mais 20 dólares por pessoa para pagar pela vista da Ocean Drive. É mole ou querem mais?

De que cor é o mar em Miami Beach? Ele muda do verde para o azul, sem mais nem menos, só para deixar a gente extasiado de tanta belezura.

Voltamos para nosso “alojamento” saciados pelo bom passeio da manhã, por ter visto a praia tão cheia de gente alegre e pelo charme nada discreto de Miami Beach. Como o sol estava extenuante e caminhamos, no mínimo, quatro horas naquela manhã, parando aqui e ali, nada melhor que uma soneca antes do próximo passeio, que fica para outro capítulo. Era 14 de junho e Eliseu completava 75 anos.

Carminha Beltrão

Junho de 2025

Jazz, Blues e algo mais

Fonte da foto: https://www.viator.com/en-CA/New-Orleans-attractions/Old-U-S-Mint/d675-a9794

Para ter um gostinho da voz que, talvez, tenha sido uma das mais potentes do século XX, escutem Armstrong e seu trompete.


[1] Quer escutar o CD do meu marido? https://www.youtube.com/watch?v=Au9qfy2cde0&list=OLAK5uy_m72zZssYzkxL7QfAj51ocNoMx5BcAgGKk&index=2

New Orleans: expectativas e experiências

Os franceses nos Estados Unidos da América: Louisiana

Deixamos definitivamente o interior dos EUA e o estado do Texas. Agora atravessamos de carro áreas que estão na faixa litorânea do sul do país, entrando na Louisiana.

Este é um estado peculiar nos EUA, porque seu território foi “colonizado” por imigrantes franceses e houve, ainda, pequena influência espanhola, até se tornar parte da federação estadunidense.

O nome Louisiana é homenagem a Luís XIV, ou melhor, em francês Louis XIV, assim se entende melhor a gênese da nomenclatura do estado. Seu codinome era Rei Sol e teve muito poder, o que em grande medida se deveu a ações coloniais ultramarinas que favoreciam a transferência de riqueza da América, África e Ásia para a Europa.

Os franceses que ocuparam essa região não vieram diretamente da Velho Continente, mas sim do Quebec, no Canadá (eram os acadianos). No sul dos EUA, fundaram a Província Colonial da Louisiana, como parte da Nova França, mas perderam o controle deste território para a Espanha em 1763 e o retomaram em 1800.

Em 1803, os estadunidenses compraram essas terras dos franceses. Não me pergunte por que, pois não sei explicar e acho difícil de entender as razões que levam à venda de terras tão bonitas, pródigas e úmidas, como estas das planícies que atravessamos neste trecho da viagem. Elas são férteis e muito algodão por aqui vicejou no período colonial.

Para não ficar sem uma hipótese explicativa, vamos lembrar que, em 1789, houve a Revolução Francesa, Luís XVI e Maria Antonieta foram decapitados e a República instalou-se. Acho que os franceses queriam mesmo virar a página e ser colonizador para quem queria ser o baluarte da modernização política não ficava muito bem [à parte que eles mantiveram colônias na África ainda durante muitas décadas].

Acontece que os EUA terem comprado as terras não significa o completo apagamento do passado, porque os franceses ainda estão na Louisiana na culinária, na toponímia e em certo charme que remanesce. No entanto (e ainda bem) este passado francês mescla-se com a herança deixada pelos africanos que vieram em massa para as plantations de algodão que se desenvolveram nessa porção sul dos Estados Unidos, em regime de escravidão. Eles também permanecem na culinária, no colorido que predomina as paisagens urbanas e, sobretudo, na música por causa do Blues e do Jazz, sobre os quais escreverei um pouco em outro capítulo.

A capital da Louisiana é uma cidade singela – Baton Rouge – que tem cerca de 500 mil habitantes. Estou qualificando de singela porque, ao contrário de outras cidades de tamanho equivalente nos Estados Unidos, esta não é caracterizada por trânsito intenso, nem tem um centro movimentado pelo vai-e-vem das pessoas. Por outro lado, ela é premiada por ser cortada pelo Rio Mississipi, o maior do país e o quarto maior do mundo (neste quesito, nós, brasileiros, ficamos em primeiro lugar com o Amazonas).

Fundada em 1699, Baton Rouge (bastão vermelho) recebeu esse nome em função das estacas com cabeças ensanguentadas de peixes que demarcavam a separação entre dois territórios de caça dos indígenas. Sim, eles não pescavam, mas caçavam os peixes no Mississipi com arpões.

Atualmente, o que torna esta cidade atraente aos turistas tem relação com o seu State Capitol, construído em 1932, por um governador considerado ousado, quase maluco, ao propor, ao legislativo, um mega orçamento para financiar esta edificação de 34 andares. Seu nome era Huey Long e morreu assassinado, em 1936, ironicamente, no prédio que mandou construir.

A enorme edificação não se notabiliza por qualquer beleza arquitetônica. Ele parece uma mistura dos prédios soviéticos do período socialista com o layout do Farol Santander em São Paulo, antigo prédio do Banespa, mas não é bonito como este.

No entanto, estando nele, que é cercado de jardins, tem-se uma bonita vista do centro da cidade.

A escada de acesso ao lounge principal tem tantos degraus quando os estados da federação estadunidense. A ordem dos nomes dos estados, cravada na rocha, corresponde à cronologia, segundo a qual eles foram reconhecidos como tais.

Adoramos fazer a visita ao prédio e logo percebemos que ele tem múltiplas funções. No térreo estava se realizando um congresso e os cientistas estavam diante de seus pôsteres, com suas pesquisas sobre design, dando vida ao suntuoso lounge principal.

Subimos ao 27º andar, dedicado aos turistas, de onde pudemos ter uma visão ampla da cidade e da grande planície dominada pelo Mississipi. O vento era intenso e as paisagens lindas.

No elevador, fomos observando que várias instâncias administrativas funcionam no prédio e, ao retornarmos ao térreo, vimos que muita gente se dirigia a um salão lateral.  Lá fomos nós atrás: tratava-se de uma sessão do legislativo que estava ocorrendo com grande número de pessoas na audiência. Fomos convidados pelo simpático segurança da porta a entrar e sentar porque não se podia ficar de pé naquele lugar. Ali ficamos alguns minutos, o suficiente para observar que a maior parte dos deputados era branca e quase todos que estavam no serviço – seguranças, aspones ao lado dos deputados, secretárias da mesa principal, gente que servia água (e não café) – eram negros. É por essas e outras que é fundamental haver política de cotas, para corrigir as históricas disparidades de oportunidades.

Fui verificar depois na Wikipédia e constatei que 62% dos que moram na Louisiana são brancos, 32% são afro-americanos, sendo poucos os de língua hispânica (2,4%) e asiática (1,2%). Vejam que, entre os brancos, 18,7% correspondem ao que chamam de cajus e crioulos, de origem francesa, havendo 8,7% alemães e 8,3% irlandeses.

O sol estava para lá de exageradamente brilhante e quente e saímos à procura de um café. O que encontramos era extremamente simpático – The Vintage – onde se anunciava que era possível tomar café de chicória e comer beignets. O café com chicória é herança da segunda guerra mundial, quando as importações deste produto se tornaram tão custosas que era preciso moer junto com o precioso grão, algo que o fizesse render. Acabei não provando o café, por esquecimento, porque já tinha lido sobre isso antes de estar aí. Também não provei os beignets que são herança do período francês e são quadradinhos de bolo com açúcar refinado de cobertura. Como sempre, ficam coisas sem serem feitas, aspectos sem serem observados, experiências que não foram vividas e sabe-se lá se um dia o serão.

Adorei a decoração do café, especialmente o pôster que adornava a parede principal.

Também gostei de algumas vitrines que vi em Baton Rouge, porque elas me faziam voltar no tempo. Um paletó branco como este é muito parecido com o que meu pai usou no meu batizado e que, anos e anos depois, meu marido usou para ser o noivo em uma festa caipira (afinal representação de que os caipiras se vestiam com roupas remendadas nas festas é completamente inadequada).

A biblioteca pública de Baton Rouge está num prédio moderno e numa avenida onde há vários espaços para se permanecer, com bancos e mesas.

As construções do estilo do sul dos EUA, em madeira e cercadas por varandas, estavam nas vias principais e secundárias.

Por último, se você for a Baton Rouge, não deixe de conhecer a Casa Branca deles, edificada pelo mesmo governador Huey Long, chamada de Old Governo’s Mansion. Se entendi bem, não funciona mais como casa do governador, mas sim como museu que não visitamos. No Guia Visual Folha, havia referência em destaque para o fato de este museu abrigar o violão de Jimmie Davis e os pijamas do Huey Long. Com todo o respeito pelo Jimmie Davis, que se notabilizou pela música Mississipi Moonshine [https://www.youtube.com/watch?v=VTXPMgT_Nyc] e faleceu em Baton Rouge, mas entrar num museu para ver os pijamas do ex-governador não estava no nosso programa… Como se diz no Brasil brincando, mas falando a verdade: “me inclua fora desta”.

A cena mais simpática que vivenciamos em Baton Rouge foi o encontro fortuito na calçada com um morador: um senhor alto, avermelhado e super sorridente que se ofereceu para fazer a foto que segue. Devolvendo o celular, perguntou de onde nós éramos (é claro que o sotaque nos traiu). Ao informarmos que éramos do Brasil, ele abriu ainda mais o sorriso e disse a nós que não ficássemos com a impressão de que todos os estadunidenses são pró-Trump, pois ele não era. Deduzimos que devia saber que somos, no momento, governados por Lula. Foi a explicação encontrada para essa declaração tão inusitada sob um sol escaldante.

E lá seguimos nós para Nova Orleans.

Carminha Beltrão

Junho de 2025

Galveston e o Golfo do México

Nada mais especial do que ver o mar. Deixamos o Pacífico para trás ao sair de São Francisco e, agora, chegamos ao Atlântico pelo sul dos Estados Unidos, nessa porção tão especial que se chama Golfo do México. É inacreditável que Trump tenha proposto mudar o nome do golfo, o que parece ter sido admitido pela Google… Procurando mais informações, fiquei sabendo numa matéria na Web, que tal como aparece na imagem abaixo, a Google mudou o nome somente para quem acessar o Google Maps nos EUA. Lamentável! Então, você leitor de outro país, se acessar agora essa plataforma vai encontrar o nome que designa o maior golfo do mundo há 400 anos – Golfo do México – pois mesmo em pequeno interregno que ele foi oficialmente chamado de Golfo da Nova Espanha, continuou a ser mencionado com o nome original.

De todo modo e, apesar do Trump, o que vale é que chegamos ao Golfo do México, pela pitoresca cidade de Galveston, que fica a sudeste de Houston e se situa numa ilha, à qual se acede por meio de uma longa ponte que é muito mais alta no meio, para possibilitar a passagem de navios. Então, a sensação é engraçada, como se a gente subisse e descesse a ponte.

A origem de Galveston associa-se ao pirata Jean Lafitte, pirata francês que navegou pelo Golfo do México e pelo Caribe, no comecinho do século XIX. Era expert em contrabando, por meio do saque de navios britânicos, mas também enriqueceu fazendo tráfico de escravos. Mais tarde, em 1815, atuou na Batalha de Nova Orleans, primeiramente auxiliando os ingleses, mas depois mudou de lado e ajudou os estadunidenses, tendo em troca o perdão por seus crimes.

Pois é, embora operasse comercialmente em Nova Orleans, sobre a qual escreverei no próximo capítulo, Lafitte escondia-se nessa ilha, cuja configuração alongada devia ser valiosa para atracar as embarcações.

Depois dele, em 1890, a cidade já havia se tornado um porto importante e era a maior e a mais rica do Texas, mas passou por um furacão, em 1900, que a devastou e matou 6 mil pessoas.

A ascensão subsequente de Houston e as consequências do furacão deixaram Galveston parada no tempo. Hoje, com cerca de 60 mil habitantes, ela vive do turismo, sobretudo, e seu patrimônio arquitetônico do século XIX tem importância para essa atividade. Imagino que as praias também, não que elas sejam bonitas, porque a água do mar, na porção mais próxima da areia carrega os tons dos desaguadouros dos rios, sempre cheios de raízes e com muita areia.

No geral, o casario em Galveston é modesto para os padrões estadunidenses, pois predominam casas de madeira como as das fotos, o que mostra que não se trata de uma cidade próspera, sendo, neste aspecto, muito diferente de Houston.

O seu porto ainda tem alguma importância (agora não mais para piratas) e é ponto de parada para grandes transatlânticos.

O seu distrito histórico está ao lado do porto e hoje é o espaço principal dos turistas com seus restaurantes, bares, lojas de souvenirs, galerias de arte etc. Chama atenção o quanto há de artesanato africano à venda – roupas, máscaras, pequenas esculturas de madeira – mostrando que alguma herança do período do tráfico de escravos permanece.

Havia muita gente passeando em Galveston neste domingo e deduzi, sem qualquer informação mais adequada, que devem ser moradores de Houston e redondezas, porque sinceramente a cidade não vale um deslocamento de grande distância para conhecê-la.

Sua construção mais famosa é a Ashton Villa, construída em 1859, que foi habitada por Rebecca Ashton e James Moreau Brown. A casa passou por vários períodos e agora está novamente sendo recuperada, mas não pareceu estar aberta à visitação, pelo que o pequeno outdoor em seu jardim indica.

Reforçando o papel turístico de Galveston, lá está instalado o Moody Garden, um complexo turístico composto de hotel, parque aquático, pirâmide florestal e aquário. Fomos até lá, mas não entramos, primeiro porque o sol estava causticante e continuar andando era uma opção bem menos agradável do que procurar um restaurante para o almoço; em segundo lugar, porque o ingresso era absolutamente caro, ou talvez fosse mais adequado para quem fosse passar o dia “brincando” no parque e fazendo as visitas, o que não era no nosso caso. Os jardins são muito bonitos.

Uma delícia, em Galveston, foi conhecer o restaurante Gaido’s. Os pratos solicitados estavam muito bem-feitos (comi camarão com aspargos preparados na chapa), o ar condicionado a todo vapor, a cerveja gelada e o garçom colombiano era uma simpatia. Além de tudo, sem mais nem menos, perguntou se o almoço era uma comemoração especial – aniversário, casamento? Explicamos que Eliseu completaria idade nova em breve e lá veio ele com uma sobremesa de cortesia.

E assim passamos um domingo olhando para o Golfo do MÉXICO, MÉXICO, MÉXICO!

Carminha Beltrão

Junho de 2025

Houston, no sul do Texas

Finalmente, chegamos à cidade mais populosa do Texas: Houston com seus 2,3 milhões de habitantes. Viemos de Dallas e percorremos 385 km, conhecendo paisagens amenas, com pouca variação de altitude e, na maior parte do caminho, com bastante vegetação verdejante. Ficou para trás o predomínio das áreas áridas e semiáridas, que estão no norte do Texas, em Nevada, Utah e Colorado. Passamos das altitudes que atravessamos nas Rochosas para, agora, cruzar planícies onde a criação de gado e a agricultura predominam. Fizemos o caminho do centro sul para o sul dos Estados Unidos.

Houston ocupa uma imensa área em km2. Na literatura científica sobre a cidade e o urbano, um dos conceitos cunhados nas últimas décadas é o de cidade dispersa, que tem, em Los Angeles, sua representação mais emblemática.

Quando estive lá, esse aspecto impressionou muito, pois Los Angeles é uma cidade cortada por vias de alta velocidade, viadutos sobrepostos e estruturada em subúrbios distantes, o que lhe garante a conceituação de cidade sem centro ou com muitos centros.

Aqui, em Houston, a sensação é muito semelhante e cabe o conceito de urban sprawl, que é o mais adotado entre os de língua anglo-saxônica, uma vez que também passamos por áreas que não estão ainda incorporadas ao tecido urbano e, logo adiante, vem mais cidade, mais bairro, novos centros comerciais com lojas de todo tipo e serviços de restauração dos mais populares – fast food – aos mais conceituados.

Para entrar em Houston, ficamos totalmente dependentes do sistema GPS, tal é o número de opções de saídas e de viadutos para se aceder aqui ou acolá.  No mapa que se segue, estão apenas as vias de altíssima velocidade e para se entrar ou sair de cada uma delas há sempre um complexo sistema de viadutos.

A primeira visão que tivemos da cidade é a da foto que abre este capítulo.

O centro principal da cidade (nem sei se posso chamar assim) é caracterizado pela presença de muitos edifícios altos e, ao que parece, predominantemente ocupados por serviços (escritórios de profissionais liberais, sedes de empresas, centros médicos etc.). No nível das vias, o que há são locais de restauração, a maior parte fast foods. Não se vê comércio propriamente dito – lojas de roupas ou calçados, por exemplo – mas pode ser que haja um setor pelo qual não passamos, embora tenhamos percorrido a pé mais de 5 km pelas ruas desta área da cidade.

Adorei o transporte urbano por trilhos, que não é tipo metrô subterrâneo, mas está na superfície, com os trilhos convivendo com a cidade. Passando pela Main Street, em alguns trechos, ele é ladeado por um canal com água. Aliás, em todo centro de Houston há alguma “oferta” desse líquido precioso, o que é importante em se tratando de uma cidade super quente no verão. A água está sob a forma de pequenas fontes, ou como esculturas urbanas sobre as quais um pouco de água escorre continuamente. É interessante porque passa uma sensação de frescor.

Neste centro principal está, também, o distrito histórico, que não é grande, mas tem algumas edificações bem conservadas. Li que é um espaço muito animado à noite, por causa dos bares e dos espaços de contracultura, mas passamos por lá por volta de 11h e ele estava “dormindo”.

Como chegamos a Houston numa sexta-feira ao final do dia, achamos melhor visitar o centro no sábado de manhã, na expectativa de que houvesse o movimento comum neste setor da cidade, mas, como o predomínio são os serviços e deduzo que essas atividades não funcionam neste dia da semana, as ruas estavam quase desertas.

Aqui ou ali, eu vi: – uma jovem que caminhava com um copo térmico de café entrando em seu prédio (cena que já vimos em dezenas de filmes e sempre intrigam porque, afinal, parece-me que é mais fácil fazer um café em casa do que sair para comprar…); – um homem, de bermuda, chinelo e meia, fazendo seu pet passear, por isso andava com o saquinho para recolher as fezes (não tenho paciência para isso e admiro quem tem); – um casal de homeless que, às 10h da manhã, já tinha tomado umas e outras (ou será que ainda são aquelas do dia anterior?); – um casal, ela trajada à muçulmana e ele completamente fantasiado de Nike-Adidas-seilámaisoque; uma mulher elegantérrima saindo de um café anexo a um museu com dois adolescentes que pareciam animados para o final de semana com a mãe (ou seria a tia?); – dois turistas brasileiros fotografando tudo que viam (que impressão será que eles passavam para os outros que pareciam todos moradores de Houston?).

Policiais caminhavam tranquilamente pelas ruas, sempre em pares e de modo nada ostensivo. Apesar de haver violência policial também nos EUA (é claro que há, pois isso não é privilégio dos países da periferia) não presenciamos nada do tipo. Talvez, porque sendo os States um país muito apoiado na judicialização da vida, os policiais tenham maior autocontrole sobre suas ações, sobretudo quando em público. No entanto, para ter uma opinião mais abalizada eu precisaria ter andando pelos bairros pobres da cidade e ver como é o comportamento deles por lá, o que não fiz.

Como já tinha destacado em relação a Denver, em Houston gostei demais do espaço público, pela presença da arte (murais, esculturas) e pela grande oferta de espaços para se estar (mesas e cadeiras que estão disponíveis nas calçadas, parques e praças muito bem cuidadas).

Sempre me pergunto porque, mesmo depois de recuperados, certos espaços públicos no Brasil rapidamente se deterioram. A rejeição ao que é de todos, associado ao popular, é fácil de ser explicada numa sociedade como tão desigual como a nossa, mas penso que tem outros fatores. Um deles é, talvez, o fato de que se valorize demais a produção material do espaço público e não o que vai ser feito nele e como ele será apropriado. Por isso, cada vez mais, gestores públicos responsáveis investem em programas para animar a vida pública, principalmente em áreas centrais, que vêm sendo abandonadas ou menos utilizadas nas cidades progressivamente em expansão e dispersão. Pelo centro de Houston, vi os cartazes estimulando, por exemplo, a realização de picnics ou informando sobre a combinação entre metrô e fazer compras. Enfim, estratégias para valorizar o centro.

Como o calor era intenso, a brincadeira na água era preferida na manhã de domingo.

Já íamos deixando o centro e nos deparamos com uma churrascaria brasileira. É engraçado que, geralmente, no exterior o Brasil seja mais conhecido pela “culinária” gaúcha do que pela baiana ou mineira, embora no Texas seja compreensível que a opção seja a carne de boa qualidade.

Em Houston, também fizemos a visita completa ao Space Center Houston, associada à missão de controle das missões tripuladas da NASA. Gostamos de saber mais sobre elas e de relembrar o que foi a chegada à lua, mas isso fica para ser contado em outra oportunidade.

Carminha Beltrão

Junho de 2025

Fort Worth e a cultura caubói

  • É fake? Super.
  • Trata-se de uma encenação pitoresca demais do passado? Sim.
  • É muito mais para estimular o consumo? Ok, já sabemos.

Carminha Beltrão

Junho de 2025