Chegando ao Colorado

De Nevada a Utah: ainda atravessando o Great Basin Desert

Pela Rodovia US 50 continuamos a atravessar o maior deserto dos EUA. Ele é denominado Great Basin Desert (Deserto da Grande Bacia) e compreende territórios dos estados de Oregan, Idaho, Nevada, Utah, Wyoming, Colorado e Califórnia, abrangendo mais de 409 mil km2. É muita terra! Seu solo é arenoso e com muitos cascalhos.

Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Great_Basin#/media/File:Great_Basin_map.gif

Em função dessas características do quadro natural é também um deserto urbano, pois as cidades que têm alguma relevância estão muito distantes entre si. Por exemplo, entre Reno e Salt Lake City são 830 km, entre Reno e Las Vegas, 711 km. Entre elas, os núcleos urbanos que existem são muito pequenos e foi assim que fomos parar em Ely (pronuncia-se Íly), que tem pouco mais de três mil habitantes e muito cassino, é claro, porque ainda estamos em Nevada.

A cidade encontra-se a pouco mais de 1900 m de altitude e está cercada por montanhas e muita aridez. Nossa opção de hospedagem (até parece que havia muitas) foi no Hotel Nevada and Gambling Hall que, para minha surpresa, é destacado na Wikipédia, no verbete sobre a cidade:

Apesar da sua importância histórica, ele não é nenhuma maravilha, mas era o possível.

A partir dele fotografei a main street de Ely, para um lado e para o outro, o que te ajuda, leitor, a constatar que a cidade não é muito grande, pois é possível ver o fim dela em ambas as direções.

No térreo, o hotel mantém parte de sua memória como é o caso da placa indicando o local da cafeteria e, pelo que observei, as máquinas de jogo já estão prontas para ir para o museu.

Adorei as fotos e o desenho do ator e cineasta Clint Eastwood, na coluna logo na entrada do hotel. Quem simbolizaria melhor o velho oeste estadunidense?

Quanto mais quilômetros percorríamos neste dia, maior era a sensação de que estávamos diante de uma mega tela de cinema, a cores e ao vivo. Quantos westerns ou mesmo filmes com enredos mais contemporâneos já assistimos, nos quais víamos paisagens como as que se seguem? Lembrei de Erin Brockovich com Julia Roberts; Bagdad Café com Marianne Sägebrecht e Carol Christine Hilaria Pounder; Thelma & Louise com Geena Davis e Susan Sarandon e, por fim, Paris Texas com Nastassja Kinski, para não entrar na lista dos de far west que é imensa.

Observem o azul do céu, limpo e sem uma única nuvem.

Vez ou outra, cruzávamos com um veículo, para lembrar que a estrada é solitária, como seu codinome anuncia, mas há quem ande por ela.

No sopé das Rochosas encontramos, num dado trecho, muitas torres de energia eólica. Elas pouco se moviam, mas imaginei que, no inverno, o vento deve correr solto ao longo da cadeia montanhosa.

Um ponto alto do percurso, entre Nevada e Utah, ainda bem próximo a Ely, foi a visita ao Great Basin Visitor Center, cuja recepção principal está na próxima foto e as imagens que registrei logo, na sequência. Em algumas delas, vemos que, mesmo com clima desértico, há vegetação, inclusive, arbórea, habitando o parque.

O parque é enorme. Percorremos de carro apenas um trajeto entre os muito indicados para serem feitos, alguns em veículos comuns, outros em 4 x 4, outros ainda a pé e, por fim, os que exigem habilidades para escalar. Vejam no mapa o percurso assinalado em vermelho na porção norte: foi este que realizamos parcialmente.

Fonte: https://www.parkrangerjohn.com/great-basin-national-park/

O que mais ocorreu neste dia? Fizemos um rápido pic nic de almoço em Hinckley, cuja população está acima dos 600 habitantes, mas sempre abaixo dos 700, desde 1990. Por que paramos neste lugar? Porque não havia outro por quilômetros e quilômetros, mas foi interessante observar suas casas e um pouco do cotidiano daquele pequeno povoado.

Quem não viu um filme em que os personagens namoram ou espiam a rua a partir de uma varanda como esta? Olhem o detalhe das cadeiras de balanço.

Era o sábado, 31 de maio de 2025, e parte importante da população estava saindo do culto na Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Estamos em Utah.

Vejam o que a IA do Google informa sobre essa religião:

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, frequentemente chamada de Igreja Mórmon, tem uma forte presença em Utah devido à sua história e à sua sede global em Salt Lake City. Muitos membros da igreja residem no estado, e Utah possui um grande número de templos mórmons. A igreja tem uma grande influência na cultura e na vida política de Utah.

Segundo a BBC News Brasil, em 1947:

…o religioso e historiador Brigham Young (1801-1877) chegou, com um grupo de adeptos da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, na região do Vale do Lago Salgado. Ali fundaria Salt Lake City. Era uma terra árida, com feições nada atraentes nem convidativas. Os integrantes da caravana, contudo, estavam exaustos. A viagem, com paradas em assentamentos, principalmente onde hoje é a cidade de Omaha, Nebraska, já levava mais de um ano (fonte: https://www.bbc.com/portuguese/geral-62255091)

De Hinckley, após o lanche, sem nada gelado para beber porque não encontramos um café, bar ou mercadinho na cidade, seguimos para Green River, onde iríamos dormir, percorrendo 530 km pelo deserto. A partir de Salina deixamos a US 50 e tomamos a autopista US 70. Vejam que passamos por vales, onde observamos o desenvolvimento da agricultura com irrigação. Aliás, já tínhamos notícia de que os mórmons vêm se dedicando, desde que chegaram à região, ao desenvolvimento de técnicas e equipamentos para irrigação, afinal, tinham que transformar solo pedregoso e terra fértil.

À medida que nos aproximávamos do nosso destino, os tons acinzentados que tínhamos visto na maior parte do deserto foram substituídos por formas de relevo impressionantes, e por tons terra ocre, que nos fizeram lembrar do Grand Cannyon. Não vou escrever nada, porque as fotos mostram (em parte, porque ficam aquém do que os olhos viram) a belezura que apreciamos.
 

O brilho do sol é maravilhoso para tornar as paisagens exuberantes, mas após um dia de viagem, nossos olhos estavam cansados de tanta luminosidade. Chegar ao hotel em Green River foi ótimo. Quando saímos do carro às 17h30, o calor era ainda intenso.

Estou acabando de escrever esse capítulo do meu diário de viagem no começo do dia 1 de junho e a previsão para hoje é de temperaturas entre 62 e 95 graus fahrenheit, ou seja, entre 16 e 35 graus centígrados. Seguimos para Denver.

Carminha Beltrão

Maio de 2025

A estrada mais solitária dos EUA

Fonte: https://br.freepik.com/fotos-premium/percevejo-vermelho-sobre-mapa-dos-eua-do-estado-de-nevada-renderizacao-3d_18224189.htm

Agora, estamos cruzando Nevada pela rodovia US 50, cujo codinome é “a estrada mais solitária dos Estados Unidos”.

Assim que vimos esse apelido, ficamos curiosos e já aviso que, se eu não entendi o codinome de Reno, rapidamente compreendi o da estrada. Fez todo sentido ela ser assim chamada, porque percorremos quilômetros e quilômetros sem ver cidades, agricultura ou gado na área rural e havia poucos veículos circulando.

Nossa intenção era dormir em Eureka, mas daqui a alguns parágrafos, conto porque mudamos de intenção. Primeiro quero descrever um pouco a sensação da travessia do deserto (veja o mapa que se segue), que pareceu diferente, por ocasião do percurso realizado em 2011, mais ao sul, entre Flagstaff, no Arizona, e Las Vegas, em Nevada.

Agora estamos mais ao norte e, por isso, cruzamos relevos mais movimentados. Do que me lembro, ao sul, a paisagem era ocre, enquanto na porção norte do estado de Nevada, por onde circulamos agora, a paisagem varia do cinza ao marrom chocolate.

Quando estamos dentro do carro, sob o ar condicionado, estas cores nos enganam, porque passam a ideia de que as temperaturas estão amenas, mas quando se abre a porta do veículo, o bafo quente dá um tranco na gente. Entre a máxima do dia e a mínima durante a noite, tem dado 20 graus centígrados de diferença.

Já havíamos percorrido vários quilômetros, quando as cores mudaram e percebemos que havia imensas áreas de depósito de sal, mostrando que, no passado ali estava o oceano. Nada parecido em extensão e brancura com o que tínhamos visto na Bolívia, no Salar de Uyuni (ver https://carminhabeltrao.com/2024/01/18/bolivia-e-peru-20/ e https://carminhabeltrao.com/2024/01/18/bolivia-e-peru-20/), mas havia muito sal acumulado, sobretudo em valas e fissuras do relevo.

Andamos mais um pouco e nos deparamos com morros de areia e planícies onde elas devem ter sido depositadas pelo vento. Estávamos no coração do deserto.

Mais adiante, estivemos frente a frente com elevações mais altas, onde a neve ainda remanesce nos picos, apesar do calor de 35 graus centígrados.

Dizer que se percorre a estrada de forma completamente solitária também não é verdade. Cruzamos com outros veículos. Sobressaem-se alguns caminhões, motorhomes, trailers e outros equipamentos voltados ao lazer, como os barcos (será que estavam indo para o Lake Tahoe?). Fiquei com a ideia de que ninguém que circulava pela rodovia, morava na região. Aliás, não se viam casas ou lugarejos, então é compreensível que essa seja uma rodovia de passagem e não de “ficagem”.

Aliás, a quantidade e variedade de motorhomes que há circulando nesta região sudoeste dos EUA chama atenção. Vimos de todos os tamanhos e tipos: alguns moderníssimos e gigantescos, outros parecendo do “tempo do onça”, são adaptações dos antigos ônibus escolares estadunidenses ou parecem mais furgões de transporte de animais, mas juro que verifiquei e estavam sendo “habitados” por gente.

Até os amantes das bikes encontramos pela estada mais solitária dos EUA.

O grande acontecimento de nossa passagem pela rodovia US 50 foi tomar consciência do que era efetivamente a cidade de Eureka. Para começar, fica a pergunta: cidade?

Fico envergonhada, porque dois geógrafos, observando apenas a distância entre um ponto e outro e a média de quilômetros que queríamos fazer num dia, fomos escolhendo as cidades em que dormiríamos na porção mais oeste da nossa “expedição”, sem prestar atenção em outras variáveis e, assim, escolhemos Eureka.

No caminho, pelo Booking, comecei a escolher algum hotel. Havia? Nada que se pudesse chamar efetivamente de hotel. Então decidimos prolongar o percurso do dia e seguir até Ely, parando em Eureka apenas para almoçar. Que desolação! O aglomerado de casas tem pouco mais de 300 habitantes. A maior parte dos imóveis está desocupada e, alguns deles, caindo aos pedaços.

Corremos para o TripAdvisor para saber quais eram as melhores opções para comer, Não havia Eureka no estado de Nevada nesta plataforma. Fomos então pedir socorro ao Google Maps, que indicava três ou quatro locais para restauração. Da nota melhor para a pior, uma a uma as opções estavam fechadas, ou porque só abriam para o jantar ou porque pararam de funcionar mesmo.

Sob o sol intenso, chegamos no Owl Club Bar and Steakhouse. O nome é pomposo, as fotos no Google são até razoáveis, mas o leitor não tem noção do que encontramos lá: um lugar escuro, mas até onde eu podia enxergar, bastante sujo. A  solução foi pedir um sanduíche que veio com o pão de forma quente e o presunto e o queijo semi congelados. Deu para curtir o bacon fritinho e seco e as batatas fritas….Para você ter uma ideia do que era, veja o objeto decorativo que ampara o sal e a pimenta em cada mesa.

Ao ir ao banheiro, adivinhem o que encontrei na sala ao lado: um mini cassino!!! Observem o estado do carpete!!!

Mesmo sendo minúscula, Eureka tem uma unidade da Maçonaria.

Para ter um motivo para registrar um elogio a Eureka, passamos, após o lanche, num café chamado Eureka Depot e tudo estava super bonitinho, o serviço era simpático e o expresso foi bem tirado. Até me esqueci de fazer um registro fotográfico, mas agora reproduzo uma foto dele que extrai da web.

Fonte: = https://www.yelp.com/biz_photos/eureka-depot-eureka-2?select=nF91v6YPWSPA54HP_NaOjg

Seguimos aliviados para Ely, na expectativa de encontrar um ambiente urbano mais equipado, mas isso fica para o próximo capítulo…

Carminha Beltrão

Maio de 2024

A maior pequena cidade do mundo

Atravessando a Califórnia

Fonte: https://lalarebelo.com/es/sanfrancisco/

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Corrida_do_ouro_na_California

Certos vales da Califórnia

Fonte da imagem: https://www.foodandwine.com/top-wines-of-2024-8761014

Nossos primeiros cinco dias nos EUA foram em São Francisco, mas não houve tempo, nesse interregno, para escrever sobre essa cidade charmosa. Talvez, faça isso ao final da viagem…

Hoje, quero escrever um pouco sobre a principal área vinícola do país – a que se desenvolveu em Sodoma Valley e Napa Valley. Para conhecer esta região, tomamos a rodovia no sentido norte e fizemos este passeio por meio de uma agência de viagem. Se íamos beber vinho, não havia como ir dirigindo.

Uma boa surpresa do passeio foi o motorista-guia que nos conduziu. Já demonstrou que era brincalhão desde a nossa entrada no ônibus. Gostamos, de cara, do seu inglês límpido e sem contrações em demasia. Foi fácil entender a razão, quando ele nos contou que nasceu na França, morou na Argentina e veio depois para os EUA. Seu nome? Jorge. Que figura! Alto, cabelos fartos e totalmente brancos, dirigia calmamente, enquanto ia nos explicando tudo que se via no percurso, desde o centro de São Francisco até chegarmos nas vinícolas. Volta e meia uma tirada para ninguém reclamar de monotonia.

Foi boa a sensação de novamente passar pela Golden Gate. Depois de mais de vinte anos, que tinha vindo a São Francisco, havia me esquecido do quanto ela é bonita e extensa. Na ida, a névoa encobria suas porções mais elevadas.

O trânsito no contrafluxo – das cidades da aglomeração urbana para o centro de São Francisco – estava intenso e ele explicou que o motivo principal eram os preços elevados dos imóveis nesta cidade, o que empurrava muita gente para a vida nos subúrbios distantes ou nas pequenas cidades de seu entorno.

A Golden Gate Bridge foi construída para ligar um lado ao outro da entrada da baía de São Francisco, por isso ela se chamar “Ponte do Portão Dourado”, já que efetivamente ela possibilita a transposição deste “portão”.

 Foi inaugurada em 1937 e representa, em grande medida, o apogeu econômico que a cidade vivia. Foi durante muito tempo a mais extensa (2700 metros) e mais alta do mundo (pouco mais de 220 metros acima do mar), mas mesmo tendo perdido esta posição no pódio mundial continua muito visitada e fotografada.

Além das vias por onde circulam os carros, ela tem duas passarelas – uma de cada lado – para servir aos pedestres. Apesar do seu comprimento e da cerração, havia muita gente atravessando a pé.

As duas fotos que se seguem extraídas da Wikipédia, dão uma visão melhor dessa graça de ponte – num dia de sol e num de nevoeiro.

São Francisco é uma cidade em que o vento é muito forte todo o tempo. Há parques bonitos como o Yerba Buena, por exemplo, mas, no geral, ela não me pareceu muito arborizada, por isso, quando tomamos a rodovia, a paisagem verde já começou a encantar, ainda que inicialmente se mesclasse com o ocre das rasteiras.

Logo chegamos ao verde mais pleno e, na sequência, às videiras.

O plantio de uvas nesta região remonta ao século XIX, favorecido pelo clima mediterrâneo e pela presença de água, numa grande região da América do Norte em que os climas semi-áridos e desérticos predominam.

Do ponto de vista comercial, a produção passou a ter mais destaque em meados dos anos de 1970, quando os vinhos aí produzidos ficaram melhor posicionados em certames de degustação às cegas que vinhos franceses.

Nossa primeira visita foi à Roche Winery, cujas plantações de uva e os canteiros floridos embelezam tanto quanto as oliveiras.

Foi pena que os cachinhos de uvas mal tinham deixado de ser flor.

E lá fomos nós para as explicações sobre o processo de produção do vinho.

Como ninguém é de ferro, íamos aproveitando para degustar, um por um: Branco Seco, Prosecco, passando pelo Rosé, para chegar ao Pinot Noir e, depois, ao Merlot.

Você, leitor, já assistiu ao filme Sideways? Não? Então, assista, porque é muito bom.

Por causa dessa película, filmada justamente neste vale tão especial, o Pinot Noir passou a ter muito prestígio, porque ele é motivo central dos elogios de um dos personagens.

Li, na internet, que um estudo da Universidade de Sonoma mostrou que as vendas do Merlot caíram 2% por ano, logo depois do lançamento do filme, em favor do Pinot. Os produtores de vinho da região chamam este movimento de “efeito Sideways”.

Adorei o espaço desta vinícola, especialmente a mesa em torno da oliveira.

Visitamos mais duas vinícolas e entre elas almoçamos num agradável restaurante mexicano na cidade de Sonoma, mas não vou detalhar tudo isso…

Com tanta degustação e paisagens tão especiais, chegamos saciados de volta a São Francisco, no final da tarde. Por sorte, novamente, o congestionamento estava no contrafluxo: os que foram trabalhar voltavam para suas casas.

Olha ela aí de novo, agora sem cerração encobrindo seu cume. Logo, na sequência, o skyline de São Francisco e um de seus famosos bondes, com meu pedido de desculpas pelas manchas das fotos, afinal o vidro do ônibus não estava muito limpo.

Carminha Beltrão

Maio de 2025

Atravessando os Estados Unidos da América

Descobrindo Palos de la Frontera: um charme andaluz

Feita a visita ao Museo de lo Descobrimiento e ao parque que o abriga, avaliamos que ainda havia tempo para esticar um pouco o passeio.

Não tínhamos grandes expectativas, mas optamos por aproveitar a oportunidade, já que, no dia seguinte, começaríamos o trajeto de retorno ao Brasil. Dificilmente voltaríamos àquela porção da Andaluzia, assim fomos conhecer o povoado ao qual se vinculava o porto de onde Colombo partiu para “descobrir” a América.

Chama-se Palos de la Frontera. Ainda bem que fizemos aproveitamos a chance, porque o pueblo é um charme!

Não foi fácil encontrar um cantinho para estacionar, mas assim que conseguimos, saímos a esmo fotografando as fachadas, as ruelas e os espaços públicos.

Alguns aspectos chamaram atenção.

O primeiro deles foi a presença de muçulmanas com a cabeça coberta. A proximidade com a África do Norte me fez supor que muita gente imigra do Magreb em busca de oportunidades de trabalho. No entanto, perguntei-me: por que para esta cidade tão pequena? Eu não tinha reparado nas ruas de Huelva mulheres trajadas à moda mulçumana, mas deve haver também. Fiquei, de todo modo, sem ter uma explicação.

Um terceiro aspecto que nos sensibilizou foi a limpeza das fachadas, todas pintadinhas, bem como os beirais de portas e janelas, a maioria de márbore branco, reluzindo.

Fiquei com a impressão que tanto capricho poderia ser resultado de algum incentivo do poder público. Entramos no imóvel onde funciona o escritório de turismo e perguntamos à funcionária, que lá estava, se havia alguma política deste tipo na cidade e ela respondeu algo como: “Ah, aquí en Palos tenemos una mujer como alcaldesa. Ella cuida mucho de la ciudad, pero la limpieza viene de ser así: nos gusta vivir aquí y tener una ciudad bonita.”

Se a informação dada é correta, é surpreendente tal espírico de comunidade e pertencimento ao pueblo.

O número de idosos foi outro ponto que chamou atenção. Eles andavam pelas ruas e aproveitavam o sol. que estava brilhando. Alguns sozinhos, outros com cuidadores. Aliás, essa não é uma peculiaridade de Palos, pois este foi um ponto também de destaque em outras cidades visitadas, afinal a Europa está envelhecida. No entanto, fiquei achando que em Palos de la Frontera eles são, ainda, mais numerosos.
 

Deparamo-nos com uma edificação muito peculiar, com apliques de louça em sobre relevo na fachada. Talvez um pouco enfeitado demais para o meu gosto, mas, sem dúvida, super caprichado e marcado pelas suas singularidades.

Entramos e uma jovem simpática foi informando que era o prédio do Ayuntamiento e que podia ser visitado. Havia uma pequena exposição de fotos, sempre duas a duas, mostrando a Palos fotografada por um estrangeiro na década de 1950 e a atual. Nas fotos do passado, muitas crianças, nas ruas de hoje não vi nenhuma.

A construção é a mesma de algumas décadas, mas passou por uma reforma que lhe adicionou toda uma ornamentação de ladrilhos coloridos. Nada que se escolheria para fazer na casa da gente, mas o conjunto alegre acaba compondo um ambiente agradável para se observar numa cidade pequena. Vai saber o que pensou o arquiteto ao propor essa reforma na edificação.

No pátio interno, onde está a escadaria que dá acesso aos gabinetes de trabalho, um enorme painel sobre o descobrimento da América.

Como no restante da cidade, tudo predominantemente branco e muito limpo.

Palos de la Frontera vangloria-se de ser a terra de Martin Alonso Pinzón, que ali nasceu em 1441 que acompanhou Colombo na viagem da descoberta da América, sendo o capitão da caravela Pinta. Ademais, teve influência enorme sobre a rainha Isabel na sua decisão de apoiar a empreitada ousada do navegador genovês. Olhem a casa dela abaixo.

Tudo está caprichado nesta cidadezinha. Cada escada, cada cantinho, cada praça.

A Plaza de España parece ser o coração do espaço público de Palos de la Frontera.

Ao final da rua principal, já se aproximando da área de onde, no passado, saíram as três embarcações famosas – Santa Maria, Pinta e Niña – está a igreja principal que não conhecemos por dentro (como sempre as visitas estão restritas a horários muito específicos).

E o que mais encontramos? Elas, as cegonhas.

Por fim, fica o registro que o povo de Palos de la Frontera tem do que se orgulhar, mas digamos que um pouco de modéstia não faria mal a eles.

Fevereiro de 2025

Carminha Beltrão

Andaluzia – Um porto e sua ligação com a América

Como comentei no capítulo anterior, Palos de la Frontera foi a razão principal de voltarmos à Andaluzia.

A história da América, da Espanha e, de certa forma, de Portugal tem tudo a ver com este pequeno povoado e seu porto.

Havíamos estamos em 2004 em Sagres e no cabo de São Vicente, extremo sudoeste do Algarve português, pontos do território que marcaram a preparação da viagem de Cabral, embora ele tenha partido do Porto de Lisboa em 9 de março de 1500.

Apenas 242 km separam esses dois pontos no território e hoje em menos de três horas se vai de um ao outro, mas no final do século XV essa distância não era pequena, embora os interesses que moviam as duas empreitadas eram muito semelhantes.

Agora com a visita a Palos, ligávamos de certa forma esses dois pontos da Península Ibérica ao que aconteceu nos últimos 500 anos na América Latina.

Ao contrário de certo vazio que havíamos encontrado em Sagres, além do vento e de algumas placas alusivas ao grande feito de Cabral, em Palos de la Frontera há um complexo museológico e turístico organizado para engrandecer a ousadia de Colombo.

Começamos pela avenida de entrada, com suas palmeiras fênix e chegamos ao pátio frontal do museu onde se vê um totem que não decifrei completamente, mas é bonito.

O museu é composto por uma edificação onde há painéis e uma sala de exposição de um vídeo sobre o descobrimento, que foi feito como se a história fosse contada pelas caravelas Niña e Pinta. Essa edificação é chamada de Muelle de las Carabelas, e tudo gira em torno do que ocorreu no último quartel do século XV e da reprodução das três valentes embarcações.

As informações contidas nos painéis são muito didáticas e oferecem uma síntese dos acontecimentos, sendo necessário descontar sempre um pouco dos exageros e patriotismos que costumam atravessar essas narrativas.

Talvez o leitor não tenha ânimo ou tempo para ler os painéis que reproduzo aqui, mas quis fazer o registro, porque eles contêm informações, as quais, se já soube, havia me esquecido de boa parte delas.

Por exemplo, visitando o museu fiquei sabendo que o navegador genovês Cristóvão Colombo se casou com uma portuguesa e morou nesse país, período em que apresentou seu projeto de atravessar o Atlântico à Coroa Lusitana, Rei João I, e não foi levado a sério.

A história não tem “se”, mas se João I tivesse levado Colombo a sério, não haveria América Espanhola e o português seria um idioma muito mais importante neste continente.

A representação cartográfica do caminho continental para as Índias que foi interrompido pela tomada de Constantinopla pelos turcos ajuda a lembrar que os interesses econômicos e políticos de descobrir um novo trajeto para se alcançar o Oriente eram grandes. Assim, os heroismos dos navegadores não são apenas resultado de iniciativas individuais ou de grupos, mas representam interesses muito maiores que ajudam a entender a lenta passagem do Feudalismo em direção ao Capitalismo.

Ao contrário de outros navegadores, que tentavam grandes empreitadas marítimas, Colombo não tinha muito estudo, mas era extremamente curioso e já sabia que havia erros nos mapas que então existiam.

Além de sua curiosidade,  ousadia e espírito aventureiro, Colombo tinha a experiência de outras viagens como as que fez pelo Mediterrâneo chegando à costa africana, a realizada até a Inglaterra contornando o litoral português e a travessia até a Islândia.

A vitrine com a reprodução dos instrumentos e ferramentas disponíveis para a grande viagem mostra quão rudimentares eram as condições para realizar a longa travessia que foi, afinal, bem empreendida.

Enquanto Cabral viajou com 13 caravelas, Colombo dispunha de apenas 3 embarcações – uma nau, a Santa Maria, e duas Caravelas, Pinta e Niña.

Se você gosta de Caetano e Gil, escute a música Las Tres Carabelas, de autoria dos espanhóis Augusto Algueró Jr, Augusto Algueró Senior e Santiago Guardia Moreu, no link https://www.youtube.com/watch?v=R40d0fIpkRM

Os mapas da primeira viagem à América e o das que se seguiram mostram que ele era um navegador de total sucesso para as condições disponíveis em seu tempo.

A pintura em que se representa a chegada do navegador em terra firme já era minha conhecida, com certeza de algum livro didático do ensino básico. Não sei se, na ocasião, apreciei tantos detalhes como agora, porque uma representação como esta oferece base para a elaboração de efetiva tese sobre como o domínio europeu se estabeleceu sobre a América.

Ainda que, no diário da viagem, haja registro de que Colombo, ao ser informado de que havia “terra à vista”, vestiu seus melhores trajes, é pouco provável que ele estivesse tal e qual aqui representado, porque no mesmo diário é informado que não havia água para limpeza de corpos e roupas e, mesmo que a pintura seja inodora (risos), é pouco provável que estivessem com os cabelos tão sedosos.

As réplicas das três embarcações são muito didáticas para se imaginar as dificuldades da travessia. Não eram grandes, embora a Santa Maria fosse um pouco maior, o que a tornava mais lenta. Olha ela aí.

Vejam, a partir dos seus respectivos conveses, a Pinta e a Santa Maria.

Os tripulantes não tinham qualquer conforto, a não ser o direito de dormir na parte coberta do convés (cuja altura não passava muito de 1,5m), o que era concedido aos mais importantes da tripulação, enquanto os demais se viravam a céu aberto, fizesse vento ou chuva. Olhem a reprodução do convés coberto da Santa Maria.

O trabalho com as velas não devia ser fácil também, porque qualquer erro tiraria as embarcações do rumo traçado e isso significava mais dias e menos víveres para a sobrevivência da tripulação que, em 10 de outubro de 1492, rebelou-se contra Colombo, já desiludida de chegar a qualquer lugar e demandando a volta à Espanha, antes de morressem naufragados ou de fome.

Olhem aí meu marido, curtindo a área das velas.

Nas duas próximas fotos, é possível ver como a Santa Maria (as da esquerda) era maior que a Niña, por ser nau e não caravela.

Do parque onde está o museu, avista-se Huelva (no fundo à direita) e a estátua de Colombo (também no fundo, à esquerda) que está a meio caminho entre esta cidade e Palos de la Frontera.

Depois fomos até lá e descobrimos que o Monumento a Colón foi um presente do povo estadunidense, aos espanhóis, em 1929.

Voltando a descrever o museu, registro que, em volta da pequena área onde estão as réplicas das embarcações, há um passeio com a reprodução de como viviam os indígenas na América, quando ali chegou Colombo.

Não confiei nem um pouquinho na qualidade deste trabalho museológico, porque notei vários estereótipos e clivagens culturais nessas representações. Enquanto os índios estavam representados totalmente nus, as índias apareciam com um tapa sexo (deveria ter feito um registro fotográfico), feito com um tecido branco que não tem nada a ver com a cultura americana de então. Os pequenos textos davam a entender que, apesar de bonitos e com cabelo que parecia de seda, os indígenas não trabalhavam, quase sugerindo que eram preguiçosos…

No mesmo complexo onde está o museu, há uma edificação para esportes e eventos de grande porte, o Foro Iberoamericano.

Em volta de todo o complexo há áreas com água, que eles chamam de humedales, onde parte da fauna aquática da região nada, indiferente aos feitos de Colombo.

 Por fim, o obelisco em homenagem à grande viagem de Colombo.

Valeu a visita!

Carminha Beltrão

Fevereiro de 2025

A Andaluzia de Huelva

Fonte do mapa: https://br.pinterest.com/pin/728809152206613118/

Passamos da Extremadura para a Andaluzia sem grandes contrastes paisagísticos, embora a região mais meridional da Espanha tenha mais palmeiras do que a ocidental.

Nossa ida a esta região, onde já estivemos várias vezes a trabalho ou a passeio – Sevilha, Córdoba, Granada, Cádiz – deveu-se a um desejo muito singular do meu marido: conhecer o porto de onde Colombo partiu para “descobrir” a América. Isso eu vou relatar, no próximo capítulo do meu diário de viagem, mas faço referência aqui para entenderem, por que passamos três noites em Huelva.

Veja a situação geográfica desta cidade no mapa obtido por imagem de satélite.

Nossa reserva tinha sido feita pelo Booking, para o Hotel Exe Tartessos, que fica muito bem situado, na Avenida Martin Alonso Pinzón, mas que foi difícil de encontrar, visto que, estando ele numa rua de pedestres, rodávamos em torno da quadra sem chegarmos à sua porta.

O ambiente de Huelva é extremamente agradável. Embora ela esteja a alguns quilômetros do Mar Mediterrâneo, às margens dos Rios Odiel e Tinto, nela há um clima praiano. As pessoas parecem mais leves, expansivas e coloridas do que nas outras cidades espanholas pelas quais passamos nos últimos 20 dias. Já no dia da chegada foi possível ver os cafés cheios de gente: alguns tomando um capuccino e comendo uma torta doce (recomendo 0 café La Tartería Las Alemanas para isso), outros já na cerveja ou vinho.

No dia seguinte, fizemos um passeio muito agradável por Huelva durante toda uma jornada, ao final da qual, olhando no APP Pedômetro, vimos que foram mais de 10 km.

Começamos pela própria rua do hotel, cujas construções com arcadas no térreo atribuem certa harmonia ao conjunto arquitetônico.

O prédio ocupado pelo Ayuntamiento (corresponderia à prefeitura para nós) guarda um recuo em relação a esta via principal, o que garante uma distância que favorece a apreensão de toda a fachada.

Neste largo, alguns homens trocavam ideias e logo chegou uma van trazendo painéis que anunciavam uma exposição de roupas andaluzes, que ocorreria justo naquela noite.

Ficamos animados porque, nas fotos os vestidos eram lindos. Eliseu resolveu, então, perguntar para o rapaz que parecia ser o “chefe” da montagem do tal desfile, como poderíamos comprar um ingresso.

Ele estava atarefado com um ar de azáfama, mas parou, deu uma olhada de cima a baixo em nós dois, que estávamos lá tão elegantes de tênis, jeans e jaqueta de nylon e, numa postura superior, explicou: “É uma exposição apenas para convidados do alcaide”. Não era preciso ser tão imperioso no olhar o no tom, como ele foi, por isso saímos rindo da situação e lamentando não termos o convite tão especial.

Chegando à Plaza de las Monjas de Huelva, vimos que o palmeiral banhado pelo sol causava uma sensação ótima e estava sendo aproveitado por muita gente que, naquela manhã invernal. Ele estava ali apenas curtindo o quentinho. Ao se chegar nesta praça, vindo pela Avenida Martin Alonso Pinzón, está a estátua de Cristóvão Colombo, numa dessas poses heroicas que os escultores tanto gostam de reproduzir, para agradar a freguesia.

As edificações que ladeiam a Plaza de las Monjas são, em grande parte, recobertas de tijolinhos ou pintadas em tons ocre, o que oferece alguma homogeneidade ao conjunto arquitetônico, constituído por essas fachadas. As varandas com suas ferragens e rendilhados à moda árabe também compõem a ambiência tão agradável.

Algumas quadras depois, na Plaza de la Merced, está a Catedral. Na praça, também, está situada a Santa Igreja Catedral de La Merced de Huelva, da qual gostei muito. Ao contrário de outros templos espanhóis e europeus, de um modo geral, que são do mesmo período, ela não é acinzentada, mas está toda pintada de branco por dentro.

O contraste entre o branco das paredes e na abóbada central, o granito avermelhado no piso e os altares e adornos de madeira enfeitados sobejamente com outro compõe um conjunto luminoso que trazia uma sensação muito boa.

Não é uma igreja majestosa, mas dá vontade de ficar ali sentada espreitando a luz e o ouvindo o silêncio.

Na saída, resolvi prestar mais atenção na torre com o sino, porque escutei um cantar altos de pássaros. Lá estavam elas de novo:  as cegonhas cuidando de seus ninhos e competindo com a cruz por um lugar ao sol.

O coreto, lembrando outros tempos deste espaço público, ocupava seu lugar como um adorno urbano que, talvez, possa parecer sem sentido hoje, mas cumpre o papel de testemunhar o passado, por meio de usos do espaço público que foram importantes na Modernidade europeia.

Dava para imaginar senhoras trajadas com chapéus e luvas portando sombrinhas, senhores com ternos, coletes e bengalas, crianças com vestidos de renda guipir branca, todos chegando para escutar uma banda ou pequena orquestra numa tarde de domingo.

Não foi difícil lembrar, com pena, da demolição do coreto de Presidente Prudente, onde moro. Sendo ela uma cidade de pouco mais de 100 anos é incrível constatar que quase nada resta de seu passado pouco longevo.

Continuamos nossa caminhada até o Muelle de la Companía del Riotinto onde há o que eles chamam de Paseo Marítimo de la Ría, de onde se avista o rio majestoso e ilhas em restinga que compõem uma reserva destinada à proteção de aves.

Não entendemos bem a razão dessa construção que é extensa tem três pisos, adentra na água com suas bases de ferro, muito madeira e milhares e milhares de parafusos. Ele não tem o papel de segurar as águas, tampouco serve de apoio a embarcações. Havia pouca gente andando por ali por volta de 11h da manhã, talvez por ser inverno e um dia de semana.

Retomamos a caminhada nos afastando um pouco do rio e voltando à cidade dos moradores, com o desejo de ir além dos pontos turísticos.

Já era menor o número de pessoas nos cafés. Chamou nossa atenção, diariamente durante esta viagem, o movimento desses estabelecimentos entre 9h30 e 11h30. Tiramos três conclusões: ninguém toma café da manhã em casa; – o poder aquisitivo médio é suficiente para esta escolha; – as pessoas ou estão aposentadas, ou não trabalham ou pouca gente começa a trampar cedo.

É descabido chegar a explicações deste tipo, eu sei, pois não tenho dados para essas conclusões, mas escrever relatos de viagem num blog não exige precisão não é mesmo, leitor? Com essas e outras, recomendo que não acredite em tudo que registro aqui.

Andamos mais um pouco e chegamos à maravilhosa edificação que foi erguida entre 1881 e 1883 para ser um hotel à altura do que mereceria Huelva. Veja a descrição contida num painel que se encontrava dentro do prédio.

Trata-se de uma construção em “U” que, internamente, tem uma fonte. Hoje, não é mais usada como hotel, chama-se Casa Cólon, também em homenagem a ele o grande personagem da história de Huelva. Pareceu ser, agora, um prédio público. Tem um anexo moderno, aos fundos, que é utilizado para eventos. Estava justamente acontecendo um Congreso Nacional de Hidrógeno Verde.

No pátio interno, acomodada entre duas palmeiras, havia uma laranjeira carregadinha de frutas.

Próxima parada: Museu de Huelva. Minutos antes de chegar já tínhamos decidido que não íamos entrar. Quando se está numa viagem, como a que fizemos neste fevereiro de 2025, passando por várias cidades e lugares, chega uma hora que não se deseja mais ver qualquer exposição de objetos, documentos ou obras de arte, porque tudo parece se embaralhar na nossa cabeça.

Mesmo assim quis fazer uma foto da fachada da construção que fora de uma família da elite de Huelva. Lá estava uma professora com seus alunos. Quando me viram, os jovens pararam de ouvir a docente e começaram a brincar comigo: algumas meninas deram tchau, outras fizeram coraçõezinhos com as mãos, outras poses; os meninos foram mais brincalhões ainda, com uma mímica indicando que cobrariam para serem fotografados. Confirmaram assim minha primeira hipótese de que a gente de Huelva é muito alegre e descontraída.

Andamos mais um tantão para conhecer uma vila operária de Huelva, que leva o nome de Bairro Reina Victória.  Na sua parte frontal, um pequeno parque e a escadaria de acesso às ruas onde estão as casas.

Foi espetacular ver aquele conjunto de residências tão bem preservado. Li depois na web que as casas compartilham os estilos neerlandês e andaluz, e foram projetadas pelo arquiteto Perez Carasa.

 Notamos pelo tamanho e pela fachada das construções, que o conjunto foi planejado com alguma diferenciação social que, talvez, correspondesse aos ofícios e funções de seus moradores. Algumas casas tinham dois pavimentos e ocupavam terreno maior, enquanto outras eram mais modestas. No entanto, o que chamou atenção é que não estavam separadas ou distantes entre si, pois numa mesma quadra havia casas de padrões bem diferentes entre si.

Ao final do dia, já com as pernas bambas, passamos pelo El Corte Inglés para um “almojanta” e para bisbilhotar os preços dos produtos ainda em campanha de “saldos de inverno”. Nesses passeios por magazines, a seção que curto mais é a das louças e panelas, que, no geral, na Europa, têm qualidade e design mais bonitos que os nossos. Mesmo assim, não comprei num uma tigelinha que fosse, preocupada com as dificuldades de acomodá-la nas malas.

Gostei de Huelva. Quando estou viajando, ao conhecer lugares novos sempre me pergunto se moraria ali. Pensei que gostaria sim de morar uns meses nesta cidade.

Fevereiro de 2025

Carminha Beltrão