Grécia 12 – Creta, um labirinto e muita história

A situação geográfica de Creta é muito especial. Ocupa posição central no Mar Egeu, tendo a noroeste a Grécia continental e a nordeste a Turquia, como o mapa anterior mostra. Mudando a escala da observação, nota-se ainda melhor o privilégio de sua localização: ela está estrategicamente situada entre a Europa e África, a meio caminho do Oriente.

É uma ilha grande com seus 8.336 m2, mas voltando à comparação com a de Marajó que tem 49 mil, k2, ela não é tão grande assim. Tudo é relativo, está claro, porque a Grécia também é menos extensa que o Brasil.

De todo modo, é uma ilha bonita e com muita história. Atualmente, tem mais de 600 mil habitantes. Sua capital é Heraklion, com cerca de 170 mil habitantes, que sedia o porto onde atracou o navio que nos levou à ilha.

A van que nos aguardava, com um motorista para lá de educado, andou algumas centenas de metros pela avenida beira mar e já chegamos. O vento não deixava as palmeiras em paz.

Mal nos instalamos no hotel, seguimos a pé para o centro da cidade e ficamos muito impressionados com o movimento de gente nas ruas – havia turistas (a gente reconhece de longe), mas também moradores da própria cidade que, pelas práticas, denotavam viver seus cotidianos. As lojas na rua central de pedestres ainda estavam abertas, os bares e restaurantes lotados (inclusive o que escolhemos para jantar), casais com os filhos passeando na praça. Achamos Heraklion superanimada.

Jantamos no ótimo Restaurante Pastarella. Os italianos e sua culinária estão por todo lado. Neste dia, saímos duplamente da linha: – a comida estava maravilhosa e ainda comemos uma pequena sobremesa; – tomamos duas garrafas de vinho, pela primeira vez, não que a gente não tivesse tido vontade em outras noites, mas em euros os preços são, por vezes, proibitivos.

O melhor de tudo foi observar, quando a conta chegou, que apenas uma garrafa foi cobrada. Tivemos 30 segundos de crise ética, mas logo lembramos que a segunda garrafa foi trazida por um garçom, que a pegou na adega ao lado de nossa mesa e, na hora, não fez o registro daquele pedido no celular por onde enviam os pedidos para a cozinha e as despesas para o caixa. Concluímos que não haveria perigo de ele ser cobrado.

Voltamos para o hotel mais leves, pelo vinho, e com a sensação (boa, é claro) de ter feito alguma coisinha errada. Todos gostamos de transgredir!

Ao cair da noite (no geral, o sol se punha às 21h), ainda foi possível apreciar algumas edificações bonitas que estão nesta área central.

Sendo a maior ilha da Grécia, que tem mais de um milhar delas, Creta caracteriza-se por ter traços culturais muito próprios, em função de já ser sido ocupada pelos minoicos, desde o século III a.C., bem antes do florescimento da Civilização Grega, que a dominou, como depois ter estado sob influência de outras sociedades e culturas.

Em micênico, era chamada de Keresijo (que significa cretense); teve um nome árabe Iqrīṭiš (اقريطش); em grego, chamou-se Kerete (Creta), que no alfabeto deles foi Κρήτη e depois Κρῆτες. Esses muitos nomes não são uma peculiaridade qualquer, porque revelam as múltiplas influências que este território e seus povos, no plural, receberam.

Segundo a interpretação dada pela mitologia grega, foi ali que cresceu Zeus e viveu o Minotauro, sobre o qual volto a escrever alguma coisinha adiante.

Lendo um pouco sobre a história de Creta, eu mesma resolvi dividi-la em fases. Não fiz isso com qualquer critério de natureza científica, mas apenas para resumir as informações, o que é sempre um risco se algum especialista for ler este blog (risos).

Uma primeira, que terá se iniciado há 130 mil anos, foi marcada pela ocupação de assentamentos humanos que praticavam a criação de animais e algum cultivo. O maior desses assentamentos foi Céfala que depois seria Cnossos. A bem da verdade, por serem assentamentos de vida agrícola e ainda não haver propriamente uma sociedade de classes, essa primeira fase seria mais bem conceituada como a pré-história de Creta.

A segunda fase corresponde à da Civilização Minoica, situada nos primeiros séculos do 3º. Milênio a.C. Pelo que li foi, talvez, a mais importante para a ilha, dado o papel que ela exercia para toda a Europa, pois Creta chegou a ser o centro cultural e comercial mais importante do Mediterrâneo Oriental. Com esse destaque, esta civilização depois se irradiou para o continente. Manteve relações com o território vizinho, mas também fez circular suas mercadorias – vinho, azeite, cerâmica, tecidos e joalheria – até a Sicília e o Egito. Eles desenvolveram uma escrita que ainda não foi decifrada, mas muitas das suas lendas foram transmitidas oralmente e depois difundidas por Homero.

A terceira fase tem início com o domínio dos minoicos pela Civilização Micênica que ocupava o território continental, hoje parte da Grécia. Com esta ocupação. Desestruturou-se no final do sécul XV a.C a Civilização Minóica, para o que também terá contribuído a erupção do vulcão Thera e os tsunamis causados por este evento natural.

A existência de cidades-estados independentes marca o começo do quarto período, cujo eventos principais foram o ataque romano à ilha no ano de 71 a.C. iniciando a anexação de Creta ao famoso império e, posteriormente, com a divisão dele, a ilha passou ao Império Bizantino, que correspondia à porção oriental do romano.

As influências não param por aí, porque entre os anos 823 e 961, a ilha foi ocupada pelos árabes, depois retomada pelos bizantinos, sendo que mais tarde passou às mãos da República de Veneza compondo o que considero uma quinta fase, marcada por muitos eventos e pouca estabilidade.

Em 1645, tem início a sexta fase, a partir da ocupação dos turcos, que introduziram o Islamismo Sunita, embora na ilha se praticasse o Cristianismo Ortodoxo Grego.

Por fim, em 1898 tornou-se um estado independente para, na sequência ser anexada ao Reino da Grécia em 1908, compondo uma sétima fase.

Ufa! Quanta luta política, quantos poderes, quanta riqueza de influências. Uma miscelânea. Disso, resulta que a população atual de Creta é um pouco turca, um pouco grega, com umas pitadinhas romanas e árabes. Tudo junto e misturado.

No dia seguinte, começamos nosso passeio pela visita ao Palácio de Cnossos, que fica nos arrabaldes de Heraklyon. Depois de vários dias andando com guias, lá fomos nós quatro conhecer o sítio arqueológico e tentar decifrar nos folhetos e nos painéis explicativos o significado de cada achado sobre a civilização minóica.

Mal chegamos, havia um personagem inusitado nos esperando calmamente. Acho que não percebeu nossa ilustre visita, porque nem olhou para nós, nem decidiu nos saudar com a abertura da cauda.

O palácio representa a força que os minoicos chegaram a ter. Terá tido, pelas escavações feitas e achados realizados, 20 mil m2, muitas salas e andares, adornados por esculturas e pinturas. Em torno dele, viveram entre 25 mil e 50 mil pessoas, mostrando a pujança deste reinado, que era teocrático, porque o rei era chefe político e religioso.

Destacou-se o Rei Minos e a lenda do Minotauro, que ele teria mantido aprisionado. Essa lenda foi depois apropriada pela Mitologia Grega, para a qual esse monstro era parte humana, parte touro, porque nasceu de uma relação sexual entre Pasífae, esposa do rei, e um touro dado por Poseidon. Consta que era um touro lindo. Não que sua imagem me remeta à beleza, mas sabemos que os padrões mudam com o tempo.

Fonte: https://www.infoescola.com/mitologia-grega/minotauro/#google_vignette

Como o Minotauro alimentava-se de seres humanos, o rei decidiu pelo seu aprisionamento em um labirinto no subsolo do palácio, construído pelo arquiteto Dédalo.

Quando Minos derrotou Atena, deusa das artes e da sabedoria, e matou um de seus filhos, ela resolveu se vingar e enviou muitos homens e mulheres atenienses com o objetivo de matar o Minotauro. Depois de insucessos e muitas mortes, o escolhido para tarefa tão difícil foi Teseu, que se apaixonou pela filha de Minos, Ariadne, e foi, por ela, ajudado com um novelo de lã e uma espada mágica.

Com a espada matou o monstro, com o novelo de lã marcou o caminho no labirinto e conseguiu sair dele depois. Puxa vida, quanta interpretação esta lenda possibilitaria – os psicanalistas que o digam, mas nem me atrevo a tal.

Na Galeria de Arte Moderna de Bolonha, tem uma pintura de Pelágio Palagi, que retrata o momento em que Ariadne entregou o novelo de lá para Teseu.

Fonte: https://www.nationalgeographic.pt/historia/minotauro-o-monstro-do-labirinto_3339

Tem muitos desenhos e ilustrações diferentes sobre esse labirinto na internet. Resolvi reproduzir três representações dele para vocês, leitores, verem se conseguem chegar ao Minotauro. A primeira está cunhada numa uma moeda do século V a.C., hoje no Museu Nacional Romano, em Roma. A segunda corresponde a um mosaico encontrado em Loigersfelder, na Áustria, e que hoje está no Museu de História da Arte em Viena (fonte: https://www.nationalgeographic.pt/historia/minotauro-o-monstro-do-labirinto_3339). A terceira, a que abre este capítulo do meu diário de viagem, não conheço a fonte, porque ao clicar na opção “gerar com Inteligência artificial” ela apareceu. Até agora não sei se foi produzida a partir da mescla de muitas imagens, ou se ela realmente existe como uma pintura, em algum museu do mundo.

As escavações e recuperações arqueológicas ainda estão curso neste grande sítio arqueológico, mas há muita coisa para ser feita em termos de pesquisa por lá. Valeu a visita. Se quiserem mais informações, há mais fotos do que as que posto aqui e um bom resuminho no site https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/almanaque/palacio-de-cnossos-gloria-de-uma-civilizacao-perdida.

A observação da sala do trono do rei mostra pelas dimensões que, embora o reinado fosse poderoso, o conforto não deveria ser muito grande. Um volta do fogo, alguns bancos. Chama atenção os afrescos que, depois de alguns milênios, sem ainda tintas de base química, ele permanece bem legível.

Hoje a área do entorno do palácio é bem utilizada pela agricultura. Entre vinhedos, oliveiras e verduras, fiquei me perguntando o que esses moradores devem pensar sobre Minos e seu Minotauro.

Carminha Beltrão

Julho de 2024

Grécia 11 – Santorini e um sapatinho de cristal 

Carminha Beltrão

Julho de 2024

Grécia 10 – A Ilha de Delos

 Grécia 9 – Milkonos, a ilha

Fonte: https://dicadagrecia.com.br/mykonos/o-que-fazer-em-mykonos

Fonte: https://pt.textstudio.com/city-logos/mykonos-11392

Carminha Beltrão

Junho de 2024

Grécia 8 – Zarpando em direção a Mikonos

Fonte: https://minionupucmg.wordpress.com/2017/07/18/a-evolucao-dos-tipos-de-navios/

E aí está Mikonos, essa pequena e maravilhosa ilha que faz parte do Arquipélago de Cíclades, no Mar Egeu e tem apenas 86 km2. Para o leitor ter uma ideia dessa extensão, a Ilha do Marajó tem 40 mil km2. Sua população é pequena – 6200 habitantes – mas recebe milhares de turistas ao ano, porque hoje é um ponto de encontro do jet set internacional.

Sua formação rochosa em granito e o fato de que sua elevação máxima alcança os 360 metros faz dessa paisagem uma lindeza: relevo movimentado, tons múltiplos de cinza ao ocre, todas as edificações pintadas de branco e, em volta, um mar azul de morrer de tão lindo.

No começo do século XI a.C., já havia aí habitantes da civilização jônica, que precedeu os gregos. Na mitologia, a ilha é conhecida como o local da luta entre Zeus e os gigantes. O nome dado a ela é o do filho de Apolo (aquele cujo santuário visitamos em Delfos).

Carminha Beltrão

Junho de 2024

Grécia 7 – Metéora e o cristianismo ortodoxo

Fonte: https://www.google.com/search?client=firefox-b-d&q=kalabaka

Em nossa última noite do percurso pela chamada Grécia Continental, pernoitamos em Kalabáka, que também vi grafada como Kalambaka. A cidade onde moram pouco mais de 10 mil habitantes não é propriamente bonita, mas dá apoio à visita a Metéora.

Vindo de Delfos, pulamos séculos para falar de Metéora, que não tem nada a ver com os Deuses do Olimpo, mas sim com o Cristianismo Oriental, que nós, no Ocidente, chamamos de Ortodoxo.

É provável que os primeiros eremitas tenham se estabelecido nessa região, no século XI, isso significa, segundo a contagem que fazemos no Ocidente, que era Idade Média: nada mais de domínio político dos gregos.

Metéora, em grego, significa “meio do céu”. Outras interpretações sobre o significado etimológico desta palavra referem-se a “suspensos no ar”. Por quê? Ali estão mosteiros erguidos sobre pilares de rocha granítica que, hoje, compõem uma atração turística “enigmática”, como li em algum lugar.

Estão situados na Grécia Central, próximos da planície de Tessália e do Rio Peneu.  O maior pico tem quase 550 metros e o menor tem pouco mais de 300 metros. O vale agricultado que avistamos de Metéora é espetacular, depois de alguns dias passando por paisagens predominantemente ocres.

Chegaram a ser 20 mosteiros e hoje são seis: Megálos Metéoros (Grande Meteoro ou Mosteiro da Transfiguração), Varlaam, Ágios Stéphanos (Santo Estevão), Ágia Tríada (Santíssima Trindade), São Nicolau Anapausas e Roussanou.  Cinco dentre estes são masculinos e apenas um feminino.

Visitamos dois deles: o de Santos Estevão e o outro cujo nome não memorizei (como sempre falo aos meus alunos, anotar é importante).

Por que os monges ergueram seus mosteiros nestes picos? Fugiam da ocupação otomana e queriam ficar num sítio inacessível aos invasores. Pelo que explicou a guia e vimos em algumas ilustrações que lá estavam, no início, tanto o material para fazer as construções, como as pessoas, eram erguidas por guindastes (não destes controlados por computador que vemos hoje nos portos, mas aqueles antigos com roldanas e cordas puxadas por força humana). Depois foram esculpidas escadas nas rochas. Hoje já há teleférico para um deles e pontes para outros.

Numa das visitas, lá estava uma freira varrendo o pequeno pátio em frente à capela. Imaginei a vida neste isolamento e pensei que não quereria viver neste lugar.

Dentro das construções seculares não se podia fazer fotos, o que era uma pena, porque paredes e tetos eram adornados por pinturas muito bonitas, algumas delas acabadas com ouro, mas pude fazer um registro de um quadro na varanda de acesso a uma das capelas.

A visita me fez lembrar muito as edificações e pinturas que vimos em Suzdal, que foi o centro da vida religiosa cristã ortodoxa, na Rússia, antes da Revolução Bolchevique, que passou a “desaconselhar” as práticas religiosas, mas o patrimônio permaneceu e esta cidade tem igrejas lindas.

Nos templos cristãos ortodoxos não é permitido representações das santidades em três dimensões, ou seja, não há nem estátuas, nem sobre relevos. Para compensar, a vivacidade das cores e o folheado a outro iluminam as obras de arte e as deixam mais vivas do que as madonas, os Pedros e os Paulos que vemos representados nas igrejas cristãs do Ocidente, onde os azuis muito pálidos, os acinzentados e tons de ocre geralmente predominam.

Zapeando pela WEB encontrei fotos bonitas, mas em sites pagos. Reproduzo algumas que devem ter sido registros feitos sem autorização porque a iluminação não está grande coisa e, como os ambientes eram escuros, o flash era imprescindível.

Os Metéoros são, desde 1988, Patrimônio Mundial pela Unesco e não apenas as construções religiosas, mas os montes e vales cobertos de florestas, onde ainda vivem lobos.

Essas três hastes que encontrei na saída de uma das visitas representam para mim, a articulação entre a construção de Estados-nações modernos e a Igreja.

Não terei capacidade de contar a vocês como estava o azul do céu neste dia, porque para descrever os tons de uma cor, nem mesmo a paleta da Suvinil é suficiente, mas deixo aqui uma foto em que vocês poderão apreciar essa belezura de firmamento.

Terminada a visita a Metéora, partimos para Atenas concluindo o trajeto continental da nossa viagem à Grécia. Foi cansativo – quatro noites em quatro cidades diferentes, vários sítios arqueológicos, museus, mosteiros etc. – mas valeu demais. Voltamos ao passado e compreendemos um pouco melhor, de algum modo, o significado de valores e representações que orientam o mundo em que vivemos.

Carminha Beltrão

Junho de 2024

Grécia 6 – Delfos e seu museu

Fonte: https://pt.vecteezy.com/bundle/4288116-modern-canvas-style-presentation-mockup-bundle

Fonte: https://umabrasileiranagrecia.com/2015/07/museu-arqueologico-de-delfos.html

….eram dois jovens heróis, gémeos, filhos de Cídipe, que se sacrificaram pela deusa Hera. No primeiro livro de Histórias de Heródoto (1.31) reporta o conto de Sólon ao rei Creso relativo à história mítica de Cleobis e Bitão em que a sua história foi divulgada como um exemplo da moral, da vida virtuosa e plena, apesar da sua morte prematura, não foi, contudo, encarada como um facto negativo, mas como o maior presente que os deuses poderiam conceder. Heródoto conta que “os argivos teriam erguido as suas estátuas e as teriam consagrado em Delfos, como é feito com os homens realmente distintos. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cleobis_e_Bit%C3%A3o

Carminha Beltrão

Junho de 2024

Grécia 5 – Delfos, o umbigo do mundo

Fonte: https://brasilescola.uol.com.br/mitologia/apolo.htm

Delfos é uma pequena cidade grega, onde nos hospedamos, quando viemos de Olímpia. Tem apenas algumas poucas ruas, cujo traçado foi desenhado entre montanhas e um extenso vale onde a agricultura é praticada de modo intenso.

É um lugar simpático e convidativo para um período de descanso. No entanto, nosso objetivo, como turistas que vêm de longe, era conhecer o que restou da Delfos antiga.

Antes mesmo de chegamos ali, quando ainda estávamos conhecendo Olímpia e ouvindo sobre seus jogos famosos, já percebi que aquilo que os gregos chamam de “jogos” é um conjunto amplo de atividades que vão além do mundo dos esportes ou da sorte. Aliás, a seara dos esportes também precisa de um pouco de sorte e, para os viciados em jogos, isso passa a ser um esporte…

Embora houvesse jogos esportivos em Delfos, que eram realizados dois anos antes e depois dos Olímpicos, sua fama não está associada nem a eles, nem a jogos de azar (que nem sei se existiam na Grécia Antiga), mas sim às competições de música e poesia que ocorriam durante este certame denominado Jogos Píticos.

Eram realizados em honra a Apolo e era ele a razão de tudo, porque neste sítio, nas encostas do Monte Parnaso, estava o famoso oráculo de Delfos situado dentro do Templo erguido para este grande deus.

A importância do santuário era tão grande e recebia tantos peregrinos que havia o que se poderia chamar de um “pré-santuário”, um ambiente também sagrado, em que se ficava orando e aguardando por algum tempo, por vezes dias, até se poder aceder ao grande sítio. Vejam que era gracioso esse “pré-santuário”, situado numa escarpa íngreme.

Segundo a lenda e sempre há uma lenda, o oráculo maior era destinado à adoração da Deusa Têmis e era guardado pela serpente Píton. Apolo ali chegou e matou a serpente, dividindo-a em duas, tomando para si o oráculo e notabilizando, com o passar dos anos, este lugar como sendo de orações e de competição artística, que atraía não apenas gregos, mas outros povos, o que o levou a ser reconhecido como “centro do universo” (omphalos), mas que hoje, de modo brincalhão, é também chamado de o “umbigo do mundo”.

No sítio arqueológico, tem uma rocha esculpida para representar essa centralidade metaforicamente associada ao umbigo, mas nossa guia explicou que não é antiga, ou seja, foi ali colocada já no período moderno da Grécia. Pensando bem, não achei nada graciosa essa pequena escultura.

A cada dia me convenço mais de que os gregos tinham autoestima elevada e pensavam grande. Seus deuses eram os mais poderosos, suas estátuas eram as maiores e mais belas, seu santuário era o centro do universo, seu idioma é o que deu origem e sentido etimológico a vários outros etc. Sempre as explicações são majestosas e, é claro, têm correspondência em fatos e evidências, mas é preciso considerar que esta civilização transcorreu, historicamente falando, entre os séculos XIV a.C. e V d.C., tendo, portanto, sincronia parcial às civilizações antigas do Egito (de 3.200 a 600 a.C.) da Índia (de 1500 a 500 a.C.)  e da China (desde 1500 a 221 a.C.), para lembrar outras grandes sociedades da Antiguidade, que também são autoras de grandes feitos.

Voltemos a Delfos, onde estava ele, o filho de Zeus, Apolo, considerado dos mais importantes na mitologia grega e vejam que ele era mesmo demais, quase um Posto Ipiranga, porque servia para tudo. Assim, é descrito na Wikipédia:

… deus da divina distância, que ameaçava ou protegia desde o alto dos céus, sendo identificado como o sol e a luz da verdade.  Fazia os homens conscientes de seus pecados e era o agente de sua purificação ritual; presidia sobre as leis da Religião e sobre as constituições das cidades, era o símbolo da inspiração profética e artística, sendo o patrono do mais famoso oráculo da Antiguidade, o Oráculo de Delfos, e líder das musas. Era temido pelos outros deuses e somente seu pai e sua mãe podiam contê-lo. Era o deus da morte súbita, das pragas e doenças, mas também o deus da cura e da proteção contra as forças malignas. Além disso era o deus da Beleza, da Perfeição, da Harmonia, do Equilíbrio e da Razão, o iniciador dos jovens no mundo dos adultos, estava ligado à Natureza, às ervas e aos rebanhos, e era protetor dos pastores, marinheiros e arqueiros.  

Com tanta importância que Apolo teve, ficamos serelepes para enfrentar a subida para aceder a seu santuário. Atrás do nosso grupo de 50 e poucas pessoas, vinha um de adolescentes franceses com seus dois professores.

O sítio arqueológico está muito bem estruturado, já com várias colunas recompostas e situadas em seus lugares de origem, oferecendo uma visão do conjunto do que deveria ser a visitação aqui na Grécia Antiga.

Chegamos ao teatro grego, onde se dava a parte artística dos Jogos Píticos.

O relevo acentuado traz uma graça adicional a este santuário, uma vez que as edificações vão se posicionando em patamares topográficos diferentes e vão oferecendo ao visitante (do passado e de hoje) perspectivas bonitas para olhar a paisagem, tanto a natural como a construída pelos gregos.

É muito importante que recursos públicos e privados sejam continuamente destinados às pesquisas arqueológicas e reconstituições de sítios, edificações e obras de arte, porque se trata de um trabalho muito minucioso e que demanda tempo e técnica. Vejam a recomposição destas colunas e seu frontal superior. Pode-se ver, pelas cores das rochas, os fragmentos do passado (mais escurecidos pelo tempo) e a composição em cópia dos novos (mais claros), de modo a poder reerguer parte da edificação e nos remeter ao passado.

Delfos era tão importante para os gregos, que, quando um escravo obtinha sua liberdade, pagando a seu dono por isso, o registro de sua liberdade era inscrito nas rochas deste santuário. Assim, à medida em que caminhávamos, víamos que a base das grandes construções e de estátuas que estiveram espaço estão todas gravadas com esses registros.

Fiquei me perguntando sobre as diferenças essenciais entre os peregrinos de então e nós, turistas, que, de algum modo, somos peregrinos modernos em busca de viver experiências. Rapidamente me lembrei que chegamos de ônibus, com ar-condicionado e estávamos com tênis confortáveis nos pés. Não precisei ir muito longe para imaginar homens e mulheres deslocando-se a pé ou em lombo de animais, por dias e dias, para adorar Apolo e concluir que diferenças há, embora sejamos todos peregrinadores, como minha amiga e eu, ou como ela e seu marido.

Carminha Beltrão

Junho de 2024

Grécia 4 – Olímpia e, depois, uma ponte

Fonte: https://sportsjob.com.br/olimpiadas-2021-falta-menos-de-1-mes/

1: Propileo noreste

2: Pritaneo

3: Filipeo

4: Hereo

5: Pelopio

6: Ninfeo de Herodes Ático

7: Metroo

8: Zanes

9: Cripta (sendero con arcos, hacia el estadio).

10: Estadio

11: Pórtico del Eco

12: Edificio de Ptolomeo II y Arsinoe

13: Estoa de Hestia

14: Edificio helenístico

15: Templo de Zeus

16: Altar de Zeus

17: Exvoto de los aqueos

18: Exvoto de Micito

19: Niké de Peonio

20: Gimnasio

21: Palestra

22: Teecoleón

23: Heroon

24: Taller de Fidias (descubierto en excavaciones arqueológicas) y basílica paleocristiana

25: Baños del Cládeo

26: Baños griegos

27: Hostal

28: Hostal

29: Leonideo

30: Baños del sur

31: Buleuterio

32: Estoa Sur

33: Villa de Nerón

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Est%C3%A1tua_de_Zeus_em_Ol%C3%ADmpia

Fonte: https://es.wikipedia.org/wiki/Olimpia

Fonte: https://pt.linkedin.com/pulse/ponte-rion-antirion-grega-feita-para-resistir-westphal-junior

Grécia 3 – Corinto, Epidauro e Micenas

Fonte: http://desenho-classico.blogspot.com/2016/02/teatro-grego.html

Não há opção sem perda. Decidimos conhecer a Grécia por meio de uma agência de viagem – a Terramundi – que organizou o roteiro de acordo com algumas escolhas que fizemos. Queríamos que houvesse uma parte da viagem pelo continente, de modo a conhecer o período clássico ou antigo da civilização grega, além de Atenas que já é ponto que não pode faltar em qualquer roteiro. Desejávamos, também, conhecer algumas ilhas para satisfazer nosso imaginário, sempre estimulado pelas inúmeras fotos que já vimos na vida, retratando as lindas paisagens insulares do Egeu e do Mediterrâneo.

As vantagens de se optar pelos pacotes organizados por agências são muitas: há sempre alguém nos atendendo para fazer os traslados, facilitar a entrada nos museus e sítios arqueológicos, escolher e reservar os hotéis e decidir onde parar para um café.

Por outro lado, tem as desvantagens: os horários rígidos; as paradas com filas para ir ao banheiro; a necessidade de esperar pelo grupo e obedecer, atentamente, às orientações dos guias; a impossibilidade de se sentar num café e olhar a vida, sem ter horário para cumprir etc.

No dia 19 de junho de 2024, deixamos Atenas em direção a Olímpia. Talvez eu volte a escrever sobre Atenas porque, no capítulo anterior deste diário, registrei apenas a experiência da visita à Acrópole.

Perto da praça Sintagma (Plateia Syntagmatos), a mais importante da cidade, reuniram-se turistas vindo de diversos hotéis para tomar o ônibus, com o qual faríamos o percurso continental do nosso roteiro. Ele é confortável, mas 54 pessoas é gente demais para compartilhar espaços, tempos e satisfazer vontades. Vamos lá, com paciência, mas um carro alugado, para se parar e fazer fotos das lindas paisagens onde bem quiséssemos teria sido muito bom e, com certeza, uma experiência diferente…

Neste dia, o trajeto compreendia o trecho entre Atenas e Olímpia. Deem uma olhada no mapa. Demoramos bem mais do que as 3h51 previstas pelo Google Maps, porque fomos fazendo paradas para começar a conhecer o país.

Saímos da região Ática (em roxo no mapa), onde está a capital, para entrar no Peloponeso (em verde quase azul). Como podem observar, o Peloponeso está numa enorme península, que estava ligada por um istmo ao continente, até ser aberto o Canal de Corinto.

Fonte: https://portaltriptips.com.br/grecia/

Segundo o que li em mais de um site, o nome desta região peninsular deriva de Pelopos Nisos, que significa Ilha de Pélope, em homenagem ao herói lendário que era assim chamado. Na obra de Homero esse território é referenciado como Argos, que hoje corresponde a uma cidade. Nele, teve origem e se desenvolveu, durante o II milênio a.C., a civilização micênica, anterior à grega e constitutiva dela.

O trajeto foi muito bonito, pois, desde que saíamos de Atenas, já víamos elevações no relevo e as planuras e início das encostas estavam, sempre, cobertas de oliveiras.

Para atravessarmos o Peloponeso de leste a oeste, passamos pelas elevações que dominam a parte central desta península e, pela foto e pela imagem de satélite, pode-se ver que as paisagens são semiáridas. Aliás, pelo relatado, não é fácil a obtenção de água, tanto nesta região como em Ática.

Depois de hora e pouco, chegamos ao Canal de Corinto, que é incrivelmente profundo, porque o relevo está elevado neste ponto. Parece ser estreito, mas pela segunda foto pode-se ver melhor que a embarcação não é tão pequena como parece na primeira.

Este canal de 6,3 km liga o Golfo de Corinto ao Mar Egeu. Com sua abertura, a península de Peloponeso pode ser considerada uma ilha.

Segundo a Wikipédia (sempre ela), a primeira iniciativa de “…construir um canal na região aconteceu no ano de 67, em uma tentativa realizada pelo imperador romano Nero, que ordenou a seis mil escravos escavarem a região usando pás. No ano seguinte, Nero morreu e seu sucessor, Galba, abandonou o projeto, por ser caro demais.”

O projeto foi retomado e o canal construído entre 1881 e 1893, evitando que as grandes embarcações do século XIX e grande parte do século XX tivessem que dar a volta de cerca de 700 km pelo sul da península.

Hoje é um canal estreito para os grandes cargueiros internacionais, mas segue sendo usado por navios e barcos turísticos. Pelo que li, 11 mil embarcações atravessam este canal a cada ano. Olha eu aí, fazendo uma selfie.

Mais algumas dezenas de quilômetros e chegamos a Epidauro (em grego Ἐπίδαυρος, em latim Epidauros), que foi uma cidade importante na Grécia Antiga, por ter um santuário dedicado a Esculápio, deus da Medicina, razão pela qual atraía doentes de todo o mundo.

O que escrevo aqui em algumas poucas linhas, nossa guia explicava detalhadamente em 15 a 30 minutos de preleção, a cada parada, no seu castelhano muito bom porque não sentíamos sotaque forte. Ficamos sempre nos perguntando se ela imaginava que iríamos guardar tantos detalhes de sua explicação. Deduzimos que ela apenas estava comprometida em “hablar de mi país”, como sempre frisava.

A cidade, fundada pelos jônicos e depois dominada pelos dóricos, foi sempre uma aliada de Esparta que fica a uns 150 km a sudoeste. Perdeu importância com o domínio romano.

O que conhecemos em Epidauro foi o seu maravilhoso teatro o qual, segundo a guia, é o mais bem conservado da Grécia Antiga. Adorei este teatro grego, construído cerca de 400 anos antes de Cristo. Já havia visitado outro, também erguido pelos gregos, na Ilha da Sicília, mas este realmente estava completo.

A acústica dele é perfeita e, segundo o que li, isso se deve em grande parte à distância em que se encontra da cidade, o que foi proposital, para nenhum ruído atrapalhar a perfeita escuta de todos os expectadores, desde que haja silêncio na plateia.

Sob a civilização grega, ele era destinado a apresentações artísticas musicais ou de encenação, tanto dramáticas como cômicas. Segundo a guia, havia uma primeira fileira onde se sentavam os políticos, que eram sempre objeto de piadas e de ironias, ou seja, a democracia era exercida pelo direito de criticá-los, mas nem tanto, razão pela qual os artistas estavam sempre com máscaras.

Depois, com os romanos, este teatro também foi utilizado para “luchas sangrentas” como ela destacou, de modo irônico, demonstrando claramente que a subjugação dos gregos pelos romanos na Antiguidade não foi engolida até hoje.

Não consegui fazer uma foto tão boa do teatro, por isso reproduzo aqui uma vista aérea disponível na WEB e, na sequência, os registros fotográficos feitos pelo nosso grupinho – dois casais.

Fonte: https://br.pinterest.com/pin/17803361019888237/

Subimos até o último nível e, de fato, era possível ouvir quem falava no centro do teatro. Ele é todo construído em mármore e o encaixe dos blocos de rocha é bem feito porque a construção está quase perfeita.

Dali fomos a Micenas (mais 45 km), uma cidadela construída pelos gregos que foi uma potência militar tão importante, que o interregno de 1600 a 1100 a.C. é nomeado como Período Micênico, dada a liderança desta cidade na civilização grega.

Como tudo aqui na Grécia, sempre há alguma referência na mitologia:

Micenas teria sido fundada por Perseu, neto do rei Acrísio de Argos, pela sua filha, Dânae. Tendo matado acidentalmente o seu avô, Perseu não herdou o trono de Argos. Em contrapartida, procedeu à troca de domínios com o seu primo, Megapentes, que ficou com Argos enquanto que Perseu passou a reinar em Tirinte, tendo, posteriormente, procedido à fortificação de Micenas.

Perseu, casado com Andrómeda, depois de ter tido dela vários filhos, entrou em guerra com Argos, onde foi morto por Megapentes.[5] O seu filho, Electrião, viu a sucessão disputada pelos Táfios, filhos de Ptérelas. Estes reclamavam para si o trono por pertencerem à linhagem dos Perseidas através do seu bisavô Mestor, irmão de Eléctrion. Como este último não abdicou aos interesses dos Táfios, estes vingaram-se procedendo ao roubo de grande parte dos rebanhos reais, que levou os filhos de Eléctrion a entrar num combate que resultou na morte de todos os contendores. Eléctrion decidiu, então, seguir para a guerra, confiando a sua filha Alcmena ao seu sobrinho Anfitrião, que lhe havia resgatado as cabeças de gado. Anfitrião, contudo, mata acidentalmente o seu tio e é obrigado a purificar-se do seu acto, seguindo para o exílio. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Micenas)

Vocês pensam que a história acaba aqui? Nada disso, seguem-se várias gerações e mortes, com as quais não vou cansar vocês, mas se alguém que lê este blog deseja conhecer mais, há uma imensa literatura disponível neste mesmo link.

O sítio arqueológico de Micenas é extenso, mas pouco há das edificações antigas.

A grande exceção é a tumba do Rei Agamenão, também conhecida como Tesouro de Atreu, porque as pesquisas indicam que havia inúmeros objetos de ouro e prata, os quais foram objeto de saque pelos romanos, quando estes dominaram os gregos. Vemos a entrada da tumba e seu interior das duas próximas fotos.

Vale demais a visita ao seu Museu Arqueológico que está situado ao lado do sítio histórico. Reparem que as cerâmicas têm semelhança com as de nações indígenas da América do Sul, tanto nas formas (ânforas para água, urnas para os mortos, imagens masculinas e femininas), como nas pinturas que as adornam.

Imaginam o que está na próxima foto? Uma pinça. Não sabemos se as mulheres de Micenas faziam as sobrancelhas, mas já conheciam a importância de um bom equipamento para retirar pelos indesejáveis.

A paisagem da região? Também dominada pelas oliveiras.

Carminha Beltrão

Junho de 2024