Voltando a Viena para um congresso

Já havíamos estado na capital da Áustria por duas vezes. A primeira, em 2006, por ocasião de numa viagem que realizamos do Leste para o Centro da Europa, começando em Budapeste, passando por Praga, Viena, Dresden e chegando a Berlim.

Foi um percurso muito agradável, porque estávamos de ônibus com uma guia espanhola que, além de muito didática, fugia um pouco dos scripts estritamente turísticos e tinha muita paciência com nossas perguntas sobre como viviam realmente os moradores daqueles países e cidades.

Voltamos alguns anos depois, em 2012, para participar do International Congress of Americanists (ICA), que se autointitula como o mais antigo do mundo. Já participamos algumas vezes deste evento, em diferentes cidades, inclusive em 2006 em Sevilha, antes da viagem pelo Leste-Centro da Europa.

Nesta segunda estada em Viena, em 2012, esticamos com nossos amigos Denise e Renato, para conhecer Salzburgo, Stuttgart e Munique. Sem dúvida, um dos pontos positivos da minha profissão – professora universitária – são as oportunidades de conhecer outros países, interagir com pesquisadores de outras universidades e, assim, além de intercambiar ideias, viajar por aí.

Agora, estamos de volta a Viena, para apresentar um trabalho no RC 21 – Inequalities in the City. Olds issues, new challenges. Ao contrário do ICA, criado em 1875, e que reúne pesquisadores do grande campo das humanidades, voltados aos temas mais diversos, o RC21 é um evento criado recentemente, em 2021, e que tem um foco mais específico – compreender as desigualdades no mundo urbano. Ótimo porque os problemas e os desafios são mesmo enormes nas cidades!

Ele transcorreu na Universidade de Viena, instituição secular, cuja sede ocupa um prédio lindo, ao qual se acessa pela Estação Schottentor da linha U2 do metrô. Quando viemos para a realização do ICA, eu já tinha me encantado com os painéis que a universidade dedica aos seus principais pesquisadores. Esse encantamento também me envolveu em Toronto, no Canadá, onde a cidade é enfeitada, ao final do ano letivo, com painéis enormes dedicados aos melhores professores daquele período, segundo a avaliação dos seus alunos.

No Brasil, no geral, painéis com fotos e homenagens são voltados aos seus gestores. Há, exceções honrosas, como a da biblioteca da Unesp, Campus de Presidente Prudente, que leva o nome de Dióres Santos Abreu, um grande pesquisador, um grande leitor, um grande professor.

Não acho que o trabalho dos gestores de instituições universitárias não seja importante, afinal, muito depende da liderança deles e das lutas políticas que empreendem e são necessárias para haver mudanças significativas. Então, eles merecem, em algumas situações, a foto no painel que fica para a história. O problema é estar nessa tribuna de honra não é seletivo, todo mundo que ocupa um cargo de reitor ou diretor vai conquistar a posição de figurinha carimbada. Isso não se pode afirmar dos bons professores e bons pesquisadores, aqueles que, afinal, desempenham o papel essencial da universidade.

Fecho o parêntese e volto à Universidade de Viena: logo no saguão central que funciona como um hall de entrada e distribuição para vários braços do prédio, está o painel dedicado aos que são dessa instituição e foram agraciados com um prêmio Nobel.

É um painel bonito feito com barras de vidro temperado e já, por ocasião da outra visita, eu o havia fotografado. A novidade é que ele foi ampliado com o registro de uma jovem professora brindada recentemente com o Nobel de Química.

O prédio foi construído na segunda metade do século XIX, enquanto a Universidade de Viena é de 1365, segundo levantei na Web. Foi fundada em pelo Duque Rodolfo IV é a segunda mais antiga do mundo das línguas saxônicas (a mais antiga é de Praga de 1348).

Esta edificação, onde se realizou o congresso, foi construído na segunda metade do século XIX para abrigar a biblioteca Central, a Reitoria e outras funções da instituição. Sua construção foi parte do chamado projeto urbano da Ringstraße, que incluiu os prédios do Parlamento, Prefeitura e Ópera e que foi pensado para que o Império Austro-Húngaro reforçasse seu prestígio político e simbólico.

Vejam, no mapa, que ele está ladeado por um grande jardim, que o separa do prédio ocupado pelo Parlamento.

A imagem seguinte mostra a estrutura da construção, composta por três blocos: um principal que tem ao centro um amplo pátio interno e dois laterais, onde se situam a maior parte das salas de trabalho.

Gostei demais dos corredores-galerias que contornam o pátio central e fico imaginando quantos professores e estudantes passearam por este espaço, antes que estivéssemos ali para dialogar sobre desigualdades urbanas.

Ficamos com a impressão de que eram, sobretudo, encontros entre professores que já se conheciam antes. Víamos mais ou menos sempre as mesmas duplas ou trios e grande parte das pessoas andava sozinha, observando aquele ambiente tão bonito ou, simplesmente, checando mensagens no celular. Nós mesmos, durante os três dias, só conversamos com uma amiga da Universidade Federal Fluminense, outro da Universidade de São Paulo e uma terceira da Universidade do México. Foram em vão nossos esforços de dar continuidade à conversa, após nossa sessão de apresentação, com um colega que trabalha na Universidade do Chile. Ele é nascido na Alemanha, desenvolve pesquisas sobre economia regional latino-americana, comunicava-se muito bem em inglês, mas acabou abusando do que poderíamos qualificar como certo ar de superioridade… ou seja, foi gentil em relação à nossa proposta de trocar e-mails e textos, mas rapidamente apressou o passo e se juntou a um grupo conhecido, sem qualquer esforço para continuar o diálogo conosco.

Por que destaco esse ponto? Porque embora houvesse pesquisadores do mundo todo, minha avaliação é de que as decisões e, portanto, o programa (temas e convidados para as palestras principais, mesas redondas etc.) era definido pelos do Norte Global, ainda que desigualdades mesmo, quem as conhece somos nós do Sul Global.

Na sessão de abertura, informaram que foram submetidos 2500 trabalhos (dos quais 35% no último dia previsto para tal). Foram aceitos pouco mais de 800 textos para apresentação e o congresso tinha cerca de 1000 participantes. Como se vê, de cada três trabalhos propostos, um foi aceito para apresentação e, mesmo assim, não se pode dizer que foi um encontro pequeno, embora perto do ICA que costuma reunir cinco mil participantes, digamos que era um evento de médio porte.

O Brasil submeteu 132 propostas, ficando em 6ª posição no que se refere a este quesito, mas eles não divulgaram quantas foram aprovadas por país… Tive a impressão olhando o programa que não houve muita proporcionalidade entre o número de submissões e o de aprovações, segundo os países, pois o número de trabalhos de brasileiros não pareceu corresponder a 1/3 de 132. Ok, esse critério quantitativo não deveria mesmo ser o mais adequado, mas fiquei na dúvida se não é a identidade da comissão científica (predominantemente do Norte Global) com determinados temas mais afeitos a suas realidades, o que conduziu as escolhas. São suposições que, talvez, eu nem devesse registrar, mas como esse texto não tem compromisso com qualquer nível de acuidade científica, tenho direito de levantar hipóteses.

A principal palestra foi proferida por Mario L. Small, um professor estadunidense, alto (apesar do sobrenome), negro, superelegante e que trabalha no Departamento de Sociologia da Columbia University. Ele se comunicava com bom humor. Apoiava-se em slides que não conseguíamos ler, porque eram quadros cheios de números pequenos. Entremeava sua análise com pequenas piadas, que não foram entendidas muito facilmente pelos não anglofônicos de nascença…

O interessante é que, para tratar o tema eleito por ele – Large-ScaleData and Understanding Economic Inequality , fez referência à sua pesquisa realizada no Central Park, no coração de Mahattan, em Nova York. Sabemos que também há desigualdades no coração do capitalismo e como há, mas nada que se pareça com aquelas observadas na Índia, na Bolívia ou no Congo, para não dizer que não falei de flores… Ops que não falei do Brasil. Aliás, fica o registro do título da nossa apresentação: “The elite in middle Brazilian cities: spatial proximity and social distance”, em que analisamos as narrativas de entrevistados da classe média e da elite, mostrando as identidades entre eles em Ribeirão Preto e Chapecó, com o objetivo de mostrar como desigualdades urbanas acentuadas, geram formas diversas de confirmar as diferenças entre nós (classe média e elite) e os outros (os pobres). É um dos resultados da pesquisa FragUrb financiada principalmente pela Fapesp. Vejam Eliseu apresentando nosso trabalho.

Voltando à palestra de boas-vindas, fiquei pensando que, mesmo com todos os esforços para se produzir, nas últimas duas décadas, uma episteme mais autônoma – conceituada como decolonial – lá estávamos nós batendo palmas para o professor dos EUA. Ele merecia nosso respeito e, portanto, as palmas, é claro, mas sinceramente, eu esperava uma palestra mais engajada e que fizesse um painel mais global sobre as desigualdades. Eu sei que as deles são menores que as nossas, mas isso é mais uma razão para a visão ter que ser mais abrangente e mostrar essas distinções.

De todo modo, foi uma abertura muito simpática, porque o Reitor falou em nome da universidade, os organizadores contaram um pouco dos bastidores do evento e a palestra fluiu polarizando a atenção do público. Essa cerimônia compôs um tempo de pouco mais de uma hora e meia (nós brasileiros, levaríamos três horas, inclusive porque não teríamos começado na hora).

Não fosse por outras razões, já foi uma maravilha conhecer a sala onde ocorreu esta abertura, que suponho seja uma espécie de salão nobre. Do nada, tive o ímpeto de olhar para o teto e me deparei com pinturas de Gustav Klimt – ele mesmo o grande pintor austríaco que nasceu nos subúrbios de Viena em 1862 e morreu nesta cidade em 1918, com apenas 55 anos. Não foi preciso ninguém dizer que eram dele porque seu estilo é inconfundível, com as pinceladas em dourado. As fotos que registrei já enquanto saíamos da sala ficam aquém da sua belezura.

A organização do evento foi ótima. Por razões de sustentabilidade, eles nos entregam uma sacolinha de algodão vazia, sem um caderninho para anotar, sem o programa impresso, sem folhetos onde se indicam restaurantes, sem nada. Para que a sacolinha? Já não chega nos restaurantes, termos que acessar os cardápios por QR Code… Fico com saudades dos primeiros congressos de que participei, quando recebia o livro de resumos e podia grifar as sessões que me interessavam mais. Eu sei que é importante ser politicamente correto, do ponto de vista ambiental, mas sinceramente me canso de andar todo tempo buscando informações no celular, cuja bateria, nestes dias em Viena, eu preferia guardar para consultar o Google Maps, escolher o que visitar no final do dia ou para fazer fotos.

À parte esse detalhe, tudo correu super bem. As sessões começavam e terminavam no horário previsto, os computadores e multimídias funcionavam, as salas estavam bem-preparadas. Essa é a escadaria que levava às salas onde as comunicações estavam se realizando.

Os coffee breaks da manhã e da tarde, bem como o brunch servido no almoço eram gostosos e suficientes para todos. Essas pausas agradáveis nos possibilitavam aproveitar os corredores-galerias e o pátio interno, numa Viena ensolarada, como a vimos durante toda a semana.

Sobre o hotel em que nos hospedamos, vale a pena tecer umas linhas. Ele foi reservado pelo Booking, a partir de uma avaliação que tomou como referência a relação entre preço razoável e boa localização. Chama-se The Social Hub Viena. Localiza-se na Estação Praterstern do Metrô, portanto a três estações da principal, pela linha U1 e a três estações da universidade pela linha U2.

O interessante é que, embora muito perto do coração da cidade, o hotel fica numa avenida em que predomina a combinação entre algumas edificações antigas como a que sedia a empresa de transporte OBB e prédios novos ou cujas fachadas passam por modernização com murais.

É bem diferente de outros hotéis em que já me hospedei. No andar térreo, há algumas ilhas onde recepcionistas atendem vários tipos de demandas, desde auxiliar os que precisam fazer o check-in num dos computadores disponíveis até providenciar uma balança para pesar malas. Neste mesmo ambiente tem ilhas para quem quer trabalhar, sofás redondos para quem quer ver TV deitado, redes que fazem o papel de chão entre o térreo e o subsolo, pequenas salinhas envidraçadas, geladeiras com bebidas disponíveis (desde que passe seu Visa ou Credicard, é claro), expositores de produtos à venda etc. etc. etc. O hotel oferece academia, aula de pilates, de ioga, lavanderia, porta bicicletas e outras coisinhas mais. Alguns andares são servidos por cozinhas que podem ser usadas pelos hóspedes para preparar refeições completas. 

O apartamento é grande e seria excelente não fosse a ideia do decorador de colocar cortinas e pintar parte dos móveis e das paredes de preto. Já imaginaram procurar um tênis preto num móvel todo preto, num ambiente também pintado desta cor? A gente se sentia todo tempo na semiescuridão. À parte este detalhe, em função do ambiente espaçoso, da proximidade da estação de metrô que era também de trens regionais e da maravilha do café da manhã, recomendo este hotel. Ele tem um detalhe: não aceita hospedagens de curta duração – um ou dois dias. Como ficaríamos sete noites ele foi adequado…

Fico, hoje, por aqui.

Carminha Beltrão

Julho de 2026

Baden bei Wien, Beethoven e um coreano. Um coreano?

Carminha Beltrão

Julho de 2026

Melk, o Danúbio e sua Abadia

Com pouco mais de 5 mil habitantes, Melk é um lugarejo muito especial. Resolvemos fazer um bate e volta a esta cidade, saindo de Viena e levamos cerca de uma hora. Pela janela do trem, o verão nos brindava com uma paisagem agrícola – o trigo já foi colhido e o milho está na fase final de crescimento.

Dois aspectos distinguem Melk: – funcionar como uma porta de entrada para o Vale do Wachau, área famosa por seus vinhedos e por ter sido declarada Patrimônio Mundial pela Unesco; – ter sua história e vida urbana associada à Abadia de Melk (Stift Melk). O vale e a abadia são, além de tudo, serpenteados pelo emblemático Rio Danúbio.

Antes de ouvir falar desse rio nas aulas de Geografia, no antigo Ginasial, já conhecia a valsa que Strauss compôs em 1866, pois na época aprendia piano (um dos insucessos da minha vida).

Pelo que li, ela não ganhou repercussão no século em que foi composta, mas depois acabou se tornando famosa a tal ponto que, hoje, funciona como um segundo hino nacional da Áustria. Cliquem no link para escutá-la de novo.

Descemos na estação ferroviária de Melk e começamos nosso passeio tomando um caminho que levava até ao rio. Primeiro passamos por um canal dele e, na sequência, andamos às suas margens. Ali encontramos embarcações de porte relativamente grande que realizam cruzeiros pelo Danúbio, passando inclusive por diferentes capitais europeias – Budapeste, Bratislava, Viena etc. As cabines são servidas por varandas, há uma grande área no último andar com ambientes para aproveitar o sol. Supomos, depois, que parte dos turistas com quem cruzamos durante o dia eram passageiros destes cruzeiros.

Andando mais um quilômetro e pouco voltamos à cidade por um caminho em que havia muita gente se locomovendo por bike.

O vale, pela beleza das paisagens, convida a este tipo de deslocamento. Havia solitários, casais apaixonados, pais e filhos e muita gente, mas muita gente mesmo com mais de 60 anos (alguns na casa dos quase 80) com sua indumentária própria para o ciclismo apreciando um dia de verão.

Aliás, o número de bicicletas estacionadas na praça principal de Melk é demonstrativo da importância deste modal de circulação por ali.

Desde que saímos da estação ferroviária, seja durante a travessia da cidade, seja voltando do rio, a enorme abadia esteve sempre dominando magnanimamente a paisagem. Isso impressiona demais, porque me ponho a imaginar como há 900 anos escolheram tão bem a situação geográfica dessa edificação. O domínio sobre o território não era, como hoje, feito pelas plataformas digitais e pelos satélites, mas era mensurado pela distância até onde a vista alcançava e por isso a posição geográfica elevada, topograficamente falando, era estratégica.

É bem provável que, quando o Marquês Leopoldo II doou um dos seus castelos aos monges beneditinos, não imaginava que, no século XXI, ele fosse um dos locais mais visitados da Áustria (até brasileiros andam por essas bandas!).

A abadia funciona como um centro religioso, mas também cultural, por mais de 900 anos. Passou por mudanças, é claro, pois a construção original medieval foi totalmente refeita nas primeiras décadas do século XVIII, como um símbolo da vitória do catolicismo frente à Reforma Protestante. Além disso, as invasões napoleônicas e a ocupação nazista também trouxeram transtornos à vocação da abadia, mas sabemos que o tempo é isso, é transformação. Vendo os turistas caminharem, em grupos ou não, registrando fotografias com seus celulares, escutando mensagens, conversando em vídeos, fico imaginando o olhar de espanto que teria um monge beneditino do século X que tivesse a chance de viver uma experiência “De Volta para o Futuro”, como no filme estrelado por Michael Fox e Christopher Lloyd.

A cidade vive aos pés da abadia e sempre olhando para ela topograficamente, porque realmente a colina é elevada; economicamente, porque gira em torno do turismo que ela proporciona; e simbolicamente, porque é como se um milênio pesasse sobre os ombros de Melk.

Impressiona seu tamanho e sua arquitetura típica do barroco europeu. Para uma visão de conjunto, vejam a foto que fiz de um painel exposto na abadia.

Almoçamos no restaurante que fica na colina ao lado da abadia. Nada especial, mas a comida estava bem-feita. A maior parte das mesas estava ocupada por turistas, é óbvio, entre os quais se descavam neste dia, os italianos, falantes e espaçosos como é natural para quem tem, em sua história, o prestígio do maior império do mundo antigo.

Em frente ao restaurante, uma pequena fonte moderna oferecia um microclima mais fresco num dia de muito calor.

Acabamos não fazendo a visita guiada completa na abadia, mas um dos destaques é sua biblioteca que, segundo informações, foi a que inspirou aquela descrita no livro “O nome da Rosa” de Umberto Eco, depois imortalizada no filme estrelado por Sean Connery.

Vários painéis mostravam o trabalho de recuperação do prédio e das obras entre as quais estão vários manuscritos medievais e logo se percebe que há muito investimento público para que se mantenha esse patrimônio.

Os jardins que circundam a abadia são enormes. Vejam que, na planta que se segue, a construção principal, esta que está nas fotos, ocupa uma pequena parte da representação na porção direita, em preto.

A abadia é composta por vários pavilhões, alguns dos quais ladeados por corredores avarandados, cujos pisos em diferentes tipos de granito, brilha de tanto desgaste do tempo – quantos andaram por eles nos séculos que marcam a história dessa construção?

A igreja da abadia é suntuosamente ornada em ouro. Não era possível fazer fotos, mas seguem algumas que extraí da web.

Fonte das duas fotos: https://pt.dreamstime.com/fotos-de-stock-abadia-de-melk-igreja-%C3%A1ustria-image22808113

O centro histórico de Melk (Altstadt) é muito charmoso e, atualmente, pelo que observei, está voltado para o turismo – são restaurantes, pequenos hotéis, cafés, lojas de souvenires instalados nos térreos de casarões, que mostram que os vinhedos propiciaram a formação de uma classe abastada desde o século XIX, quando suponho que, pelo estilo arquitetônico, a maioria delas tenha sido construída. Assim, embora seja nomeada como uma cidade medieval, o que sobra desta era é apenas o traçado das ruas, pois as edificações são dos últimos dois séculos em sua maioria, exceção o grande prédio da abadia que é do XVIII.

Do nada, paro para olhar a vitrine de uma loja que vendia bugigangas de todo tipo e vejam o que encontrei exposto por lá.

Chamou muito minha atenção que, do mesmo modo que era muito nas pequenas cidades da Alsácia Lorena na França, em Melk, várias casas, que foram de famílias importantes, têm, na fachada, placas que são chamadas de Enseignes de Fer Forgé (insígnias de ferro forjado) ou placas de Guilda que tinham, no passado, o objetivo de informar o ofício, a crença ou a fonte da riqueza dos que ali habitavam.

Como terminamos o dia antes de pegar o trem de volta?

Experimentando os doces austríacos numa mesa disposta na principal rua, cujo traçado foi desenhado pelos homens e mulheres que, no período medieval, andavam por ali.

Carminha Beltrão

Julho de 2026

Tallinn, entre turistas, portas e flores

Resolvemos usar um dia da nossa permanência em Helsinque para conhecer Tallinn, capital da Estônia que está separada da Finlândia pelo Mar Báltico.

Isso exigiu toda uma preparação com procedimentos, verdadeiros protocolos, que o turista atual tem que dominar, mas nem sempre isso é fácil para todos. É preciso entrar no Google e descobrir quais empresas fazem a travessia ligando as duas cidades; perguntar para a AI Gemini qual é a melhor, em termos de custo x benefício; na sequência, entrar no site da empresa escolhida, verificar os horários, ser informado que, se baixar o APP pode, segundo eles, ser mais rápido; verificar que não é verdade, aff…; sair do APP e voltar para o site; atender as duas ou três solicitações de verificar códigos de segurança no e-mail, depois no celular, depois de novo não sei onde; resolver ir à recepção do hotel para a autóctone que lá está nos ajudar a conferir nossas opções; tomar a decisão de comprar os bilhetes; aguardar a rodinha girando, girando, girando; fazer o pagamento pelo Credicard, ser informado que será preciso usar para essa finalidade o VISA; esperar que a empresa do cartão autorize e receber um e-mail informando que a compra foi feita. Só que…. o cartão de embarque não chegou por esta via. C’est dommage! como diriam os franceses.

Foi assim que tivemos, ainda na véspera, que ir conhecer o terminal marítimo de Helsinque. Rapidamente constatamos que, quando se tem a oportunidade de conversar com gente (e não com o computador via IA), as coisas ficam mais simples: a loirinha de pele alva, em 30 segundos, explicou como fazer e mais 60 segundos foram necessários para sairmos à rua felizes da vida com nossos bilhetes em mãos; sim, bilhetes em papel, com tudo certinho, dia, horário, nosso nome completo, número de terminal etc.

O pior dessas experiências de insucesso digital é que ficamos, na dúvida, se acontece com todos ou apenas com a gente, por inabilidade ou condição geracional. O alívio, neste caso, foi observar que vários jovens estavam ali, perguntando para a loirinha como fazer, tanto quanto nós.

Na saída do Terminal, uma foto nossa espelhada no enorme mural de vidro que faz o front da sua edificação moderna.

No dia seguinte, estávamos nós lá de novo, agora para ir mesmo para Tallinn. Impressionou muito o nível de organização do embarque. Em algum capítulo deste blog, descrevi as terríveis experiências de embarque e desembarque em grandes navios que vivemos para fazer os percursos entre as ilhas gregas. Aqui tudo foi muito diferente. Nada de esperar no sol ardente e depois, atendendo a apitos estridentes, entrar todo mundo se empurrando, lado a lado com os carros, e puxando as malas por rampas deslizantes, para depois constatar que nos separamos de nossos partners de viagem, como ocorreu conosco no país do Sócrates (não o corinthiano, mas o filósofo).

Em Helsinque (e depois vimos que foi do mesmo modo em Tallinn na volta), os tubos de embarque eram largos, passava-se por catracas digitais que funcionavam mesmo se seu bilhete estivesse a 20 cm do leitor digital, os carros entravam por outra via, tudo estava limpo, aclimatado e on time.

A travessia demora duas horas. O navio tinha 10 andares, ficamos no oitavo, confortavelmente acomodados numa mesinha, havia tomadas para carregar os equipamentos por todos os lados e o acesso à internet era de boa qualidade, os banheiros limpíssimos, havia um free shop que ocupava dois andares e os preços eram realmente bons para alguns produtos…

O dia estava lindo. É difícil escolher entre o azul do céu e o do mar.

Ao chegamos em Tallinn, logo me chamou atenção algo que já havia observado em alguns pontos turísticos de Helsinque: além da língua autóctone, neste caso o estônio (sim, existe essa língua) e do inglês, considerada a forma mundial de comunicação, os avisos apareciam, também, em chinês. Eles vão tomar conta do mundo!

前往城市

Pronto, estamos do lado de fora do terminal, pisando no chão da Estônia.

A situação geográfica de Tallinn é muito parecida com a de Helsinque. Ambas estão estrategicamente posicionadas controlando o Báltico, por isso a competição entre elas sempre foi grande, sobretudo no período de grande circulação comercial pelo mar, ao final da Idade Média, começo da Moderna. Tallinn era, então, mais importante que Helsinque. Hoje a situação econômica e geopolítica delas se inverteu, mas, ainda assim, Tallinn tem sua importância e elas de algum modo se complementam.

Segundo a IA da Gemini, elas são interligadas estrategicamente por comporem a região de capitais gêmeas – Talsinki (contraindo Tallinn e Helsinque) – que funcionam como um hub digital na borda da Europa. Tallinn funciona segundo uma perspectiva ultraliberal e por isso é ágil para a realização de negócios. Helsinque corresponde mais ao modelo de Sociedade do Bem-estar Social, com forte valorização do planejamento de futuro. Enquanto na Estônia o salário médio é 1950 euros/mês, na Finlândia essa cifra é de 3900 euros/mês. Por causa disso, muitos que são de Tallinn trabalham de forma remota ou híbrida para a Finlândia e os finlandeses buscam serviços e produtos em Tallinn porque são mais baratos para eles. O interessante é que os dois governos estão trabalhando para unificar sistemas de impostos, saúde e previdência.

Mas essa é a situação atual. Justamente pela importância maior que teve, no final da Idade Média, é que Tallinn é especial para o turismo, hoje. Seu centro histórico foi classificado como Patrimônio Mundial da Unesco, suas ruas mantêm o calçamento original em pedras, parte da muralha está preservada bem como as torres de vigia.

Fizemos caminhada de dois quilômetros, entre o porto, onde havia um píer com alguns iates, e a cidade histórica. Passamos pelas áreas modernas de Tallinn que ocupam os terrenos entre a cidade antiga e o porto. Havia sedes de empresas, prédios de apartamentos, um grande shopping center e galerias menores com lojas elegantes. Pareceu-me que eram espaços do cotidiano dos moradores da capital da Estônia.

Como já destaquei, a Estônia é um país muito digitalizado. Foi nele que surgiu o Skype. Em Tallinn, o acesso wi-fi à internet é público e de alta velocidade, em qualquer ponto da cidade.

O espaço-tempo contemporâneo, no entanto, fica para trás, ao atravessarmos uma das portas da muralha, pois entramos no mundo medieval, não como ele foi efetivamente, mas cenarizado para nós, centenas de transeuntes de vários países do mundo, que aproveitando o verão vêm brincar de ver o passado. Havia muitos em grupos com uma guia carregando sua bandeirinha e parando para explicações longas, às quais poucos prestavam atenção. Havia outros casais de mais de 60, 70 anos, como nós, famílias com bebês nos carrinhos, routards com as mochilas nas costas… Gente com pouca roupa do corpo, outros com a túnica longa e a cabeça coberta. Uma babel!

O sol estava forte por volta de 14h e o estômago já reclamava pedindo almoço. Procura aqui, olha ali, consulta o celular e assim chegamos ao restaurante situado na Rataskaevu 16 (aliás o nome do restaurante é seu endereço), anunciado como de alta gastronomia a preços justos. A comida era apresentada como nórdica/estoniana contemporânea e o que quer que fosse isso, desejávamos apenas sair do sol, entrar, sentar-se e comer.

Fonte: https://aoitrip.jp/tallinn-food/

Não vou omitir que a chegada não foi simpática. Ficamos no balcão da entrada esperando o que parecia ser o proprietário acabar uma longa ligação telefônica para depois nos perguntar se tínhamos ou não reserva. Informamos que não, ele foi aos fundos do restaurante, observou que não havia mesa disponível, subiu ao mezzanino e chegou à mesma conclusão. Na sequência, olhou em volta no pequeno salão da entrada e indicou exatamente a mesa que estávamos namorando desde a chegada – justamente a da “janelinha” – mas, recomendando enfaticamente que devíamos deixá-la antes das 16h30, porque havia um reserva para ela neste horário. Isso é meio irritante em alguns países da Europa: eles manejam a disponibilidade das mesas segundo duas lógicas que não agradam os fregueses que estão presencialmente ali esperando por um lugar: ocupar todas as mesas de um dado setor, mesmo que haja outras melhores no lado oposto; ocupar as piores mesas, deixando sempre as melhores para depois… Que chatice!

O calor que fazia lá fora, a água com gás gelada que logo chegou à mesa, a construção de pedra com o forro em madeira original que tornava o ambiente tão acolhedor, a vista da pracinha, filtrada pelo vidro do garrafão que servia de abajur, nos ocupou observando um guia que informava detalhes sobre o poço medieval ali situado – em torno dele, mais 20 turistas de um grupo que mal prestavam atenção…

Tudo isso fez com que a permanência ali fosse boa, mas sinceramente foi a comida que chegou 20 minutos depois o ponto alto da visita a Tallinn.

Eliseu escolheu um risoto com frango. Não era feito com arroz, mas com um pequeno feijão verde super macio. Eu escolhi uma costelinha com legumes.

Quando a simpática garçonete trouxe a cerveja local para apreciarmos foi nos explicando a razão do rótulo e começamos a entender por que o poço em frente ao restaurante era uma das paradas dos turistas.

Segundo a IA da Gemini:

O nome da rua, Rataskaevu, significa “Poço da Roda”, em referência a um poço público medieval que ficava bem ali no cruzamento.  Segundo a lenda, os moradores medievais de Tallinn acreditavam piamente que um espírito maligno (ou o próprio diabo) morava no fundo do poço. Eles temiam que, se a criatura ficasse zangada, ela secaria toda a água da cidade ou envenenaria o poço com doenças. Para acalmar o demônio, a população local começou a fazer sacrifícios bizarros: eles jogavam gatos de rua vivos dentro do poço. Por causa dessa prática cruel e supersticiosa, a água acabou ficando completamente intragável, e o poço ganhou o apelido sombrio de “Cat’s Well” (Poço do Gato). O poço acabou sendo desativado e lacrado, mas uma réplica de madeira ainda marca o local exato hoje em dia

Em que pese toda essa lenda a cerveja é super gostosa, recomendo, e os dois pratos estavam super saborosos. Fui verificar na web e era um restaurante estrelado pelo Guia Michellin, mas com preços superacessíveis para o padrão europeu – dois pratos com dois copos de cerveja e água custaram 58 euros.

Olhem a minha cara de felicidade depois de comer.

Foi duro enfrentar o sobe e desce das ladeiras, típicas dos sítios das cidades medievais, após o almoço, mas lá fomos nós, ticando, como teria dito nosso amigo Dióres, os pontos que precisavam ser visitados. Passamos por ruelas, chegamos a mirantes, sentamo-nos em bancos de praças, entramos num café da Aliança Francesa para comer a sobremesa e entramos na igreja mais importante de Tallinn.

Um dos edifícios públicos mais bonitos me fez rememorar a Casa Rosada, sede do governo argentino, mas havia outros que testemunhavam que houve também construções estilo neoclássico, provavelmente do século XIX.

Torres havia por todo lado, porque o que mais tem em cidades medievais são igrejas.

A praça principal de Tallinn me lembrou a de Bruxelas, ambas bem denotativas do apogeu comercial que essas cidades viveram ao final do período medieval. Algumas fotos não estão nada bem enquadradas, eu sei, mas esqueci como corrigir isso no word.

Adorei as portas de Tallin, sempre bi ou tricolores.

Eram magníficas as bancas de flores, na saída da cidade medieval, por porta diferente da que entramos. Tive que chegar perto para ficar convencida que não eram artificiais. As rosas da primeira foto eram vendidas, cada unidade, a preços entre 1,5 e 3 euros, mas eram verdadeiramente lindas.

As hortênsias também estavam expostas em uma das barracas. Lindas demais, né?

Pelo caminho, floreiras de todo tipo.

Já voltando para o porto passamos por uma antiga zona de estaleiros navais que se transformou numa área cheia de lojas elegantes, bares e restaurantes.

E. para terminar, um touro nos aguardava na calçada.

As duas horas de retorno a Helsinque foram de descanso, mas mesmo assim chegamos cansados e tivemos que fazer mais 2 km a pé porque não conseguimos ter certeza se o bonde a ser tomado para a volta era o que estava na plataforma… Chegamos no hotel às 23h – foi um dia e tanto, mas sinceramente um pouco demais para uma única jornada. Voltei à minha tese de que agora só quero usar seis a sete horas do dia para bater perna quando estou em viagem de turismo.

Carminha Beltrão

Julho de 2026

Helsinque, a Oodi é mesmo uma biblioteca?

Se alguém me perguntasse: “Mikä Helsingissä miellytti minua eniten?

Eu responderia: “Eniten pidin Oodista, sen kirjastosta“.

Ela é realmente muito mais que uma biblioteca. A foto acima eu registrei para mostrar um pouco da sua arquitetura, mas as outras duas que foram extraídas da web são bem melhores, porque mostram de modo completo suas formas icônicas e possibilitam que o contraste com a neve torne mais viva a cor escolhida para a fachada.

Fonte: https://www.linkedin.com/pulse/biblioteca-central-de-helsinque-marcello-lopes-siczf

Fonte: https://ww3.rics.org/uk/en/modus/business-and-skills/surveying-stories/oodi-library-helsinki.html

Logo que entramos eu fotografei, sem a devida atenção, a placa de boas vindas. Agora escrevendo sobre a Oodi é que vejo a recomendação de não fazer registros fotográficos.  Ainda bem que só vi agora, porque adoro as fotos, elas acabam me servindo de guia para encontrar um fio da meada para os textos. Se tivesse prestado atenção na placa, eu teria ficado chateada de não poder fotografar ou teria fotografado e ficaria sentindo que cometi um pequeno delito.

Em vários sites turísticos havia a indicação de conhecer a Oodi. Revolvi perguntar à IA, a razão da sugestão e fiquei sabendo de muitas coisas interessantes. Primeiro que ela é uma biblioteca muito recente – foi inaugurada em 2018 – ano em que os finlandeses comemoraram o centenário da sua independência. Embora tenham declarado soberania política em relação à Rússia em 1917, viveram um ano de Guerra Civil, o que retardou a constituição do Estado filandês.

A biblioteca é um marco arquitetônico que está situado na praça Kansalaistori, bem em frente ao Parlamento finlandês (Eduskuntatalo) e isso não é casual, mas sim intencional para mostrar que o conhecimento e a igualdade de acesso são vistos como base da democracia.

No mundo todo, com a expansão sem limites do acesso à informação e ao conhecimento pela internet, as bibliotecas ficaram mais vazias e, em algumas situações, disfuncionais. Aqui e ali elas se ressignificam, mas no caso da Oodi, por sua juventude, a concepção já foi a de ir muito além de um “santuário” para os livros. Pelas informações que li na própria biblioteca, apenas 1/3 do seu espaço é dedicado a publicações em suporte papel. E mesmo neste 1/3 ela foi arquitetonicamente pensada para ser uma sala de estar.

As estantes enfileiradas são baixinhas e brancas, possibilitando visualização do conjunto do espaço e superando a ideia que temos das bibliotecas do passado, em que nos perdíamos ou nos escondíamos entre fileiras de muros de livros.

Tanto nas laterais das estantes, junto às janelas, há mesas e pequenas poltronas para acomodar os leitores que podem fazer os olhos oscilar das letras para as paisagens urbanas, como  nas duas pontas da extensa área há escadas para acomodar os que preferem ler refestelados.

Seu nome foi resultado de uma consulta pública. Oodi significa ode, ou seja, a biblioteca, metaforicamente, é concebida como um poema lírico, algo magnífico e grandioso. Para confirmar minha hipótese de que a Finlândia é uma nação de construção sólida da democracia, fiquei sabendo que o projeto da biblioteca foi debatido com a sociedade local e desde sua ideia inicial foram necessárias duas décadas para irem sendo incorporadas sugestões e demandas sociais.

As duas fotos que postei e mais a subsequente são do 3º. andar que é conhecido como o “paraíso dos livros”. Além das duas paredes laterais extensas e envidraçadas, uma delas com portas que dão acesso a um maravilhoso terraço, o teto é todo iluminado por clarabóias. Como o dia estava lindo e as temperaturas relativamente amenas, muitos leitores estavam acomodados nas mesas ao sol. Você já se imaginou lendo num terraço ao sol do meio dia, durante o verão, no Brasil?

Em algum momento da vida fiquei sabendo que as bibliotecas tinham que ser escuras para a luminosidade não estragar os livros. Eu me recordo de este ser um desafio constante entre funcionários e usuários da Biblioteca Nacional de Brasília, porque o projeto de Niemeyer, como sempre em concreto e vidro, favorece o calor interno e a grande luminosidade.

Por outro lado, sabemos que as temperatudas no Planalto Central do Brasil são muito superiores à da Escandinávia onde se situa a Finlândia, por isso o perigo da luz e do calor é sempre relativo a cada situação geográfica.

Olha eu aí no extremo mais alto do terceiro andar.

No extremo oposto, ainda no terceiro andar, há um setor dedicado às crianças que se organiza a partir das estantes com livros infantis e se alonga em vários outros ambientes que tornam o acesso e o uso pleno deste ambiente, favorecendo as mães acompanharem seus pimpolhos. Tem a área para estacionar carrinhos de bebê, prateleiras para deixar os sapatos da molecadinha, tatame para brincar como que quiser e até um trepa-trepa numa árvore estilizada para as crianças gastarem toda sua energia (imaginem a importância deste espaço no inverno, quando lá fora a neve cai sem parar).

O piso intermediário da biblioteca é conhecido como o “andar criativo”. Ali estão estúdios para edição, impressão em 3D, costura, ferramentas de corte a laser, espaços para música e videogame. Vi gente usando todos esses espaços com apoio de funcionários em número bastante expressivo neste ambiente público e gratuito, o que é fundamental para seu uso ser pleno e adequado.

Como aqui estamos nas longas férias de verão do hemisfério norte, as salas para jogar videogame estavam todas ocupadas.

No térreo, a biblioteca abre-se para uma praça extensa (vejam de novo as três primeiras fotos do prédio). Isso faz com que, no verão ao menos, pouco se presenta a separação entre o dentro e o fora. Os espaços são para convivência, leitura e eventos. Há cinemas e um restaurante. Neste andar, chamou atenção o multiculturalismo. Acho que muitos visitantes turistas permanecem mais neste piso, por isso havia gente de todo mundo, de todas as cores e religiões enquanto, no terceiro, deu para notar a prevalência dos loiros e muito brancos.

De todo modo a biblioteca, no seu conjunto, combina com o que vimos pelas ruas de Helsinque. Há muitas crianças e, o que mais me chamou atenção, são casais com filhos; há também os solteiros, os que parecem solitários, descasados ou viúvos, mas o número de carrinhos e de bebês pareceu visualmente o que predomina.

Chamou atenção as mulheres com a cabeça coberta, algumas com feições que indicam que são oriundas de outros países de prevalência muçulmana, mas vimos loirinhas que pareciam finlandesas, também com esses mesmos hábitos. Os indianos apareceram em muitos lugares e não imagino que sejam imigrantes, porque as vestimentas são muito originais ainda e, em outros países, onde eles também estão, como a Inglaterra, por exemplo, rapidamente se ocidentalizam nas roupas. Como turistas, o predomínio pelas feições e vozes que escutamos pelas ruas é, além dos indianos, os asiáticos dos olhinhos puxados. Deduzi que são chineses. Como cheguei a essa conclusão? Para mim, os japoneses estão sempre em grupo, apressados com seus passinhos curtos e seguindo um guia. Estão todos de chapeuzinho cata-ovo e tiram fotografias com máquinas poderosas.

Os chineses, de pele no geral mais morena, mais gordinhos, andam em casais, ou famílias pequenas. Estes parecem adotar menos as marcas de grife que aqueles. Pura impressão, mas turista é assim: um bicho metido a explicar o que acaba de começar a observar…

Quando íamos deixando a Oodi, vimos o mapa que está sendo preenchido pelos visitantes. Ao lado dele, cartelas com colantes vermelhos. Utilizamos um para deixar Presidente Prudente presente ali.

Para fechar esse capítulo dedicado a esta maravilhosa biblioteca, incluo as fotos da Catedral de Uspenski, a dos cristãos ortodoxos. Ela foi inagurada em 1868 e é um dos testemunhos do período de domínio russo. O nome siginfica, em eslavo antigo “dormição”, já que o templo foi dedicado ao descanso da mãe de Jesus.

Seu estilo arquitetônico é bizantino e, por ter sido edificada em tijolos vermelho escuro, acaba fazendo um contraponto com a catedral principal – branca e com cúpulas douradas. Ambas ocupam colinas, portanto de uma se vê a outra.

Li, em algum lugar, que os tijolos para a construção da Uspenski foram retirados da Fortaleza de Bomarsund, situada nas Ilhas Aland e destruída na Guerra da Crimeia. Fui verificar, no mapa, e as tais ilhas estão a mais de 300 km de Helsinque, em linha reta. Não dá para imaginar como fizeram o transporte desse material.

Além dessa história toda especial, a Uspenki me passou a imagem de uma edificação bonita, mas triste, que acabou sendo um contraponto, na arquitetura, na cultura e no que ela significa, à maravilhosa e contemporânea biblioteca.

 Após a visita à catedral de origem russa, seguimos pela área do porto e fotografei um dos navios que fazem a travessia para Tallinn…

…mas isso é conversa para o próximo texto.

Carminha Beltrão

Julho de 2026

Helsinque, a estátua e a pomba indiferente

Acabei o primeiro capítulo do diário de minha viagem à Finlândia, chamando atenção para algumas qualidades de Helsinque. Quero escrever, agora, um pouco sobre elas, mas apenas como testemunho de uma turista, sem qualquer intenção de precisão científica e nem de cuidado jornalístico, porque sei que são impressões parciais sobre uma realidade que, com certeza, é mais complexa do que pude apreender.

Meus cuidados de não passar uma ideia de que Helsinque seja, talvez, acima do que ela efetivamente o é decorrem, também, de eu conhecê-la no verão, quando tudo é muito mais alegre no Norte Global. As temperaturas baixas,  os cinzas e os ocres do céu e da vegetação, bem como os dias curtos convidam menos à vida fora de casa no inverno, enquanto, no verão, é preciso aproveitar cada minuto, por isso, a imagem que tenho de Helsinque é de muita luz, energia e movimento.

Mais importante do que a presença do verde e da água, para falar de espaço público urbano, valorizo a integração entre parques, praças, monumentos, calçadas e vias, o que é expresso por certa fluidez espaço-temporal.

Passamos de um ambiente ao outro, sem grandes obstáculos: nem grades, nem sistemas de segurança ostensivos, nem interdições, nem aviso para dizer que não podemos pisar na grama ou tomar sol de papo para o ar em qualquer lugar que um raio dele iluminar um cantinho da cidade. Todo mundo se apropria do espaço público. Há os que estão fazendo pic nic, os que caminham, descansam, tiram uma soneca, passeiam com seus bebês, procuram num mapa o próximo point onde visitar como turista…

Há, também os que apenas sentam num banco amarelo que ali estava generosamente para descansar as pernas. Neste dia, o pedômetro do meu celular registrou 12,5 km de caminhada por Helsinque.

As fotos não foram registradas num parque cercado por grades em algum setor residencial da cidade, mas estão no seu centro, na praça lindeira a 300 mestros da rua comercial principal, que é chamada de Boulevardi. Na imagem que se segue, a parte em tom amarelado é a de predomínio de comércio e serviços. Onde está assinalado Craft Corner Helsinki, está o parque chamado de Esplanadi representado em verde, o que corresponde a um jardim alongado entre duas ruas – a Eteläesplanadi e a Pohjoiesplanadi – que são bem comerciais. As fotos foram registradas aí. Imaginem vocês que estão me lendo – as pessoas apropriando-se plenamente deste espaço, entre duas ruas onde passam bondes, carros e do outro lado estão agências bancárias, sedes de empresas, prédios de apartamentos, hoteis, lojas etc.

Outro ponto alto da cidade são os modais de mobilidade urbana mais adotados. Faz-se muita coisa a pé e as calçadas são adequadas aos pedestres. Por onde andamos há a indicação das faixas para estes e para os que circulam de bike. Aliás, gente de toda idade vai e vem em duas rodas… Inclusive, vi uma pista para elas onde, suponho, outrora funcionava uma linha de trem.

Os bondes circulam, lado a lado, aos carros, pelas ruas principais da cidade. A 150 metros do nosso hotel passavam duas linhas que utilizamos para vir da Estação central e para ir ao porto. Não sem razão me ponho a perguntar por que os bondes saíram de circulação em São Paulo, no Rio e em outras cidades de nosso país? Não escolhemos no Brasil, complementar um modal de transporte com os demais, integrando-os, mas substituir um pelo outro, num eterno continuum entre desfazer e fazer de novo…

Fonte: https://dicasdaeuropa.com.br/seguro-viagem-para-finlandia/

Não é difícil explicar as nossas opções, afinal nossa história caracteriza-se por 500 anos de desigualdades socioeconômicas, e de muito pouco tempo de democracia, que volta e meia ameaça ser abatida novamente.

Isso significa que nossa sociedade deseja e mantém estratégias de diferenciação entre as classes sociais e aceita que a democracia exista mais para uns que para os outros. Hoje se fala muito de qualidade de vida e de sustentabilidade ambiental – ok isso é muito bom! No entanto, efetivamente, penso que as pessoas viverem a vida pública de modo pleno e com condições relativamente equitativas, do ponto de vista das diferentes classe sociais, é uma demostração de que há democracia. Assim, percebi Helsinque, uma cidade democrática.

Ah, já ia me esquecendo do título do capítulo. Por que o inventei? Porque bem no coração do Parque Esplanadi está a estatua de Johan Ludvig Runenberg. Pelo que li, ele é muito importante para a identidade nacional finlandesa. É seu principal poeta. Viveu entre 1804 e 1877. Segundo a Wikipédia:

Os seus textos combinam elementos de poesia da antiguidade, do romantismo e do realismo. A sua obra épica é considerada a mais grandiosa …  O seu primeiro poema “Nossa Terra” (“Vårt land” em sueco, “Maamme” em finlandês), tornou-se o hino nacional da Finlândia.

Passei pelo Runenberg várias vezes nestes quatro dias de Helsinque e, independentemente do horário e das condições do tempo, como toda boa estátua, ele se manteve ereto e incólume aos transeuntes que se apropriavam intensamente do parque. Um ou outro parava para uma foto, diante do monumento.

Apesar de ilustre, pelo que observei todos estes dias, Runenberg serve de puleiro e pinico para a pomba indiferente (a ele e a nós). Fico me perguntando quanto o poder público já deve ter gastado para limpar esse bronze valioso das fezes delas ou, ainda, produtos ou estratégias devem ter usado para que as aves folgadas fossem embora. Parece ter sido tudo em vão.

Carminha Beltrão

Julho de 2026

Helsinque, na pontinha da Finlândia

Meus olhos sempre dançam pelos mapas. É, em parte, vício de ofício, porque sou geógrafa, mas talvez seja também minha vontade de sempre conhecer lugares novos, pessoas parecidas comigo ou muito diferentes, paisagens que supreendam, enfim, o que está do lado de lá do meu mundinho.

No começo isso era feito em livros e atlas, hoje o Google Maps oferece tantos recursos que a dança ficou super agradável. É possível aumentar ou diminuir o foco, mudar as camadas de visualização, medir distâncias, encontrar o modal melhor de transporte ou as padarias ou restaurantes mais próximos, comparar a imagem atual às mais antigas da mesma área etc.

Mesmo gostando desta dança do olhar, nunca dei atenção à Finlândia, talvez porque não estivesse no meu horizonte a possibilidade de conhecer um pedacinho que fosse deste país, mas a oportunidade apareceu. Estou em Hensique e ela fica ali no extremo sul, quase caindo do mapa, como se quisesse esticar um braço até Tallinn, atravessando o Mar Báltico e ligando os finlandeses à Europa do Leste.

Quando foi fundada Helsinque, o território que hoje é a Finlândia fazia parte da Suécia. O rei deste país, Gustavo I, em 1550, tomou tal iniciativa para ocupar uma posição geografia estratégica onde pudesse instalar um porto que competisse com o de Tallinn na Estônia, que, então, dominava o comércio pelo Mar Báltico. A cidade permaneceu sem importância por muito tempo, mas no século XVIII foi dominada pelos russos e se tornou, em 1809, a nova capital do território “conquistado” que ganhou o status de um grão-ducado autônomo (mas nem tanto, porque estava sob o controle do Czar russo).

Como a antiga capital era Turku, que ficava mais próxima da Suécia, os russos prefiram situar o poder mais perto de São Petesburgo, então capital do seu império. Dê uma olhada na imagem que se segue e veja a posição de Estocolmo, Turku, Helsinque e São Petersburgo. Alexandre I, o czar que tomou essa decisão, entendia de situação geográfica estratégica, mesmo sem o Google Maps para ajudá-lo.

Foi desse jeito que Helsinque ganhou maior importância a partir de 1812 e vários investimentos realizaram-se para atribuir um ar mais monumental à cidade. As intervenções foram feitas no estilo neoclássico e hoje correspondem ao coração da cidade. Resultou muita coisa destas ações, e se destaca a Praça do Senado e a Catedral Luterana, primeiras visitas que fizemos nesta cidade.

A tal praça lembra em alguma medida as plazas mayores da Espanha: é extensa, plena de possibilidades de circulação e própria para se visualizar os poderes constituídos – neste caso, o legislativo e a Igreja.

A fachada que vimos a seguir corresponde à face que, na imagem de satélite anterior, está na parte inferior. Nela estão vários trucks com pequenas lanchonetes que servem às mesas estrategicamente situadas para se olhar para a catedral.

A simetria do conjunto arquitetônico em volta da praça denota a permanência do neoclássico que o czar russo quis deixar como marca para Helsinque. O azul do céu estava divino, agradavelmente combinado a temperaturas em torno de 25º C, bem diferentes do nosso verão tropical brasileiro.

Numa vista mais oblíqua, que extraí da Web, é possível ver que por ali passam os bondes que compõem o principal sistema coletivo de circulação motorizada na cidade.

Fonte: https://entrevodkaecachaca.blogspot.com/2014/11/catedral-ortodoxa-de-helsinki-e.html

Do outro lado, na posição superior da imagem de satélite está a magnífica Catedral de Helsinque (em finlandês Helsingin tuomiokirkko). Ela é luterana. A imensa escadaria dá destaque à posição topograficamente superior da igreja e, ao mesmo tempo, serve de descanso e ponto de observação para os turistas. Há os que distraidamente tentam realizar uma super foto da estátua central da praça. As três cúpulas finalizadas, com suas cruzes gregas em ouro, são o ponto alto da linda edificação.

Fonte: https://es.dreamstime.com/catedral-con-las-escaleras-finlandia-de-helsinki-image106553514

Helsinque passou por altos e baixos no século XX. Quando o czarismo caiu e se instalou o socialismo de Estado na Rússia, a Finlândia declarou independência no mesmo ano de 1917 e o país viveu uma guerra civil em 1918. Voltou a enfrentar a Rússia durante e 2ª Guerra Mundial e não chegou a ser ocupada por forças estrangeiras… Foi somente na segunda metade do século XX que houve a reconstrução dos estragos causadas pela guerra e sua modernização, em grande parte porque foi sede dos Jogos Olímpicos de Verão em 1952.

O país todo tem pouco mais de 5,6 milhões de habitantes, o que corresponde à metade da população do município de São Paulo. É, portanto, demograficamente pouco importante. Quase 1/3 mora na região metropolitana da capital.

Hoje, Helsinque é uma cidade que se caracteriza pela manutenção do período neoclássico em várias edificações no centro atual e em seus arredores….

….mas também pela arquitetura de vanguarda de vários de suas edificações, entre elas a pequena Capela do Silêncio Kamppi, toda em madeira e que, por se situar numa área de grande movimentação em frente a um shopping center, acaba exercendo mesmo o papel de um ambiente para uma pausa…

A singeleza da concepção interna e externa resulta dessa combinação linda ente a forma, a madeira, a concepção dos bancos e a entrada de luz.

Em termos econômicos, a Finlândia vem se notabilizando pelo foco na alta tecnologia, cujo símbolo mais internacional talvez seja a Nokia, mas também pelos investimentos públicos voltados às políticas sociais, que se revelam num ambiente urbano de qualidade, que pude observar, por meio de algumas características de Helsinque: poucas desigualdades socioeconômicas, o que é visível na paisagem; mobilidade urbana apoiada em transporte coletivo e em deslocamento por bicicletas, e que se tornou referência na Europa; qualidade e uso intenso do espaço público. Vou deixar essa conversa para o próximo capítulo deste diário de viagem.

Carminha Beltrão

Julho de 2026

Fonte da imagem de abertura do texto – https://www.magnific.com/br/vetores-premium/um-desenho-de-linha-continua-do-horizonte-da-cidade-de-helsinque-finlandia_66672642.htm

Little Havana: A Diáspora Cubana em Miami

Miami, jovem e bonita

Gostei bastante de Miami e, de certo modo, ela superou minhas expectativas. Imaginava que encontraria uma cidade voltada demais para o turista, com hordas deles andando pelas ruas, gente como nós que incomoda os que habitam na cidade. Talvez essa imagem que elaborei sobre Miami deva-se ao fato de ela ser a preferida de muitos brasileiros nos EUA.

Digo que a imaginava voltada demais, usando esse superlativo, porque ela é turística, é claro, mas nem tanto como eu imaginava ou isso não é perceptível em seu cotidiano. Talvez isso seja decorrência do fato de que muitos dos que a visitaram pela primeira vez, como turista, hoje são moradores da cidade, que tem cerca de 50% de seus residentes nascidos em outros lugares.

Fizemos um passeio de barco de pouco mais de uma hora, durante o qual o guia ofereceu informações de todo tipo, algumas delas bem pouco importantes, mas outras até curiosas, como a de que Miami é a única grande cidade dos EUA a ser fundada por uma mulher.

Ela se chamava Julia Tuttle e veio de Cleveland, onde era produtora de frutas cítricas e via nas terras desta península, ainda não ocupadas pelos “brancos”, muito potencial para a agricultura. Não é, então, por acaso, que as placas dos carros na Flórida tenham referência às laranjas e à luz do sol (desculpem o enquadramento mal feito da foto).

Evidentemente, ela não foi a primeira moradora deste território onde já tinham vivido nações indígenas e cujas terras tinham também sido reivindicadas pela Espanha, em 1536, embora esse passado espanhol pouco tenha prosperado.

A região era vista quase como um deserto, mas Julia acreditou nas possibilidades da fruticultura e teve a iniciativa de convencer um magnata do setor ferroviário a construir a Florida East Coast Railroad, o que potencializou sua posição portuária porque ligou a região às outras do país. Em 1896, segundo a Wikipédia, com pouco mais de 300 habitantes, ela foi reconhecida administrativamente como cidade. É, portanto, uma senhora muito jovem [Miami e não a Julia que, evidentemente, já faleceu, deixando herdeiros multimilionários em função de sua ação visionária]. Atualmente, ela é chamada de “mother of Miami”. Vejam a foto dela e se quiserem conhecer mais sobre essa história vejam o vídeo https://www.youtube.com/watch?v=yCdt1DsEieM

Fonte: https://floridatraveler.org/2018/08/05/women-who-changed-florida-my-honor-roll/

Embora componha uma aglomeração urbana grande, a população do município de Miami era, em 2020, por volta de 450 mil habitantes, o que não é muito. Além dos cubanos e seus descendentes que contam muito na composição demográfica, também há snow birds, como são chamados os que habitam as regiões frias dos EUA e, na condição de aposentados (ou ricos), optam por passar o inverno nesta cidade, fugindo das temperaturas baixíssimas do norte do país. São como pássaros que migram conforme as estações do ano.

O centro principal de Miami é parecido a tantos outros que vimos nos EUA, com edificações elevadas, prédios icônicos, calçadas largas e espaços públicos agradáveis. No entanto, observei uma diferença que precisaria ser confirmada por informações mais precisas: enquanto nas demais cidades de grande porte que visitamos – Denver, Dallas e Houston – a maior parte dos prédios, na área central, é voltada aos negócios, em Miami, pareceu-me que há mais moradia, o que teria a ver com sua situação litorânea e, também, com esse grande número de moradores que vieram de outros países ou de outros estados da federação para viver ali. Vejam que alguns prédios têm fachada tipicamente corporativa, mas outros têm varandas que, pelo mobiliário que as ocupa, denotam moradias.

A partir do mar, de onde a observamos no passeio de barco, Miami fica ainda mais bonita, com suas marinas e seu porto que, atualmente, já tem terminais de quatro grandes empresas internacionais de transatlânticos. Pelo que o guia explicou, cerca de 80 mil turistas, que viajam por esse modal, transitam diariamente por Miami.

Viram o tobogã no alto do navio?

Os iates são inúmeros e há tanto os que estão navegando como os ancorados em marinas e nas residências das Venezian Islands (escrevi sobre essas ilhas em outro capítulo deste diário de viagem – https://carminhabeltrao.com/2025/06/17/miami-beach-tem-um-que-de-extravagante/)

Havia também os que tranquilamente velejavam. Enfim, tanto Miami quanto Miami Beach passam a impressão que todos estão sempre de férias (embora saibamos muito bem que milhares de pessoas estão “trampando” para sustentar o turismo).

A maior parte se beneficia das vistas privilegiadas de Miami ou de Miami Beach. O guia desfilou um rosário de nomes de celebridades que têm imóveis ali, mas sinceramente não houve um entre os citados que eu conhecesse. Se me conhecessem, com certeza teriam me convidado para um drink olhando para a linda cidade (risos).

Aliás, as casas de Venezian Islands merecem destaque.

São muito bonitas, algumas já com 50 ou 60 anos, outras moderníssimas.

A maior parte se beneficia das vistas privilegiadas de Miami ou de Miami Beach.

Acho que eles não estão chateados de ter esse privilégio.

Se me conhecessem, com certeza teriam me convidado para um drink olhando para a linda cidade (risos).

Será?

A próxima foto é a que aparece, de cara, no Google, quando se digita Venezian Islands.

Com toda sua vitalidade, Miami continua a crescer. Havia vários prédios em construção, viadutos sendo ampliados e carros por todo lado.

Reparem no detalhe das varandas deste prédio que está em fase de acabamento. Ele tem o formato elíptico para suportar os ventos fortes que batem em Miami em parte do ano.

O prédio de que mais gostei é relativamente simples, do ponto de vista arquitetônico, mas que é adornado com pilares e painéis com pinturas. As fotos não fazem jus ao efeito que ele causa na paisagem.

Descemos do barco com fome e fomos atrás da indicação do TripAdvisor, relativa a um restaurante brasileiro perto do porto – Camila’s – e lá havia feijoada e picanha. Depois de exatos 30 dias fora do Brasil, a pedida foi ótima. A comida estava bem feita, o ambiente simples, mas super ajeitado e limpo. Recomendo.

Do nada, na volta para o estacionamento onde estava nosso carro, encontramos um veículo andando sozinho pela calçada. Era o entregador da Saprino’s Pizzaria. Curiosa a engenhoca, mas logo pensei que a consequência dessas máquinas é menos emprego e mais gente na rua. Miami tem menos homeless que São Francisco, mas não escapa dessa realidade contemporânea. A taxa de desemprego nos EUA está baixa, em torno de 5%, aliás equipara-se à brasileira que ficou um pouco abaixo desse patamar na última vez que divulgaram o dado, mas isso não significa que há trabalho para todos, porque muitas vezes falta mão de obra num setor em que se exige pessoal com determinado nível de especialização e sobra trabalhador que não se encaixa no perfil desejado.

Não bastasse o sistema complexo de vias e viadutos que cortam a cidade e a ligam a Miami Beach, há mais vias em construção para dar vazão ao grande número de carros que circulam na cidade, embora ela tenha um metrô e um pequeno trem de superfície, também funcionando em viaduto.

Passamos várias vezes por esse lugar para chegar em nossa residência temporária (AirBnB) em Little Havana, que está muito próximo do centro de Miami, mas esse tema fica para o próximo capítulo.

Carminha Beltrão

Junho de 2025

Key West – extremo sudeste dos EUA