Com pouco mais de 5 mil habitantes, Melk é um lugarejo muito especial. Resolvemos fazer um bate e volta a esta cidade, saindo de Viena e levamos cerca de uma hora. Pela janela do trem, o verão nos brindava com uma paisagem agrícola – o trigo já foi colhido e o milho está na fase final de crescimento.
Dois aspectos distinguem Melk: – funcionar como uma porta de entrada para o Vale do Wachau, área famosa por seus vinhedos e por ter sido declarada Patrimônio Mundial pela Unesco; – ter sua história e vida urbana associada à Abadia de Melk (Stift Melk). O vale e a abadia são, além de tudo, serpenteados pelo emblemático Rio Danúbio.
Antes de ouvir falar desse rio nas aulas de Geografia, no antigo Ginasial, já conhecia a valsa que Strauss compôs em 1866, pois na época aprendia piano (um dos insucessos da minha vida).
Pelo que li, ela não ganhou repercussão no século em que foi composta, mas depois acabou se tornando famosa a tal ponto que, hoje, funciona como um segundo hino nacional da Áustria. Cliquem no link para escutá-la de novo.
Descemos na estação ferroviária de Melk e começamos nosso passeio tomando um caminho que levava até ao rio. Primeiro passamos por um canal dele e, na sequência, andamos às suas margens. Ali encontramos embarcações de porte relativamente grande que realizam cruzeiros pelo Danúbio, passando inclusive por diferentes capitais europeias – Budapeste, Bratislava, Viena etc. As cabines são servidas por varandas, há uma grande área no último andar com ambientes para aproveitar o sol. Supomos, depois, que parte dos turistas com quem cruzamos durante o dia eram passageiros destes cruzeiros.
Andando mais um quilômetro e pouco voltamos à cidade por um caminho em que havia muita gente se locomovendo por bike.
O vale, pela beleza das paisagens, convida a este tipo de deslocamento. Havia solitários, casais apaixonados, pais e filhos e muita gente, mas muita gente mesmo com mais de 60 anos (alguns na casa dos quase 80) com sua indumentária própria para o ciclismo apreciando um dia de verão.
Aliás, o número de bicicletas estacionadas na praça principal de Melk é demonstrativo da importância deste modal de circulação por ali.
Desde que saímos da estação ferroviária, seja durante a travessia da cidade, seja voltando do rio, a enorme abadia esteve sempre dominando magnanimamente a paisagem. Isso impressiona demais, porque me ponho a imaginar como há 900 anos escolheram tão bem a situação geográfica dessa edificação. O domínio sobre o território não era, como hoje, feito pelas plataformas digitais e pelos satélites, mas era mensurado pela distância até onde a vista alcançava e por isso a posição geográfica elevada, topograficamente falando, era estratégica.
É bem provável que, quando o Marquês Leopoldo II doou um dos seus castelos aos monges beneditinos, não imaginava que, no século XXI, ele fosse um dos locais mais visitados da Áustria (até brasileiros andam por essas bandas!).
A abadia funciona como um centro religioso, mas também cultural, por mais de 900 anos. Passou por mudanças, é claro, pois a construção original medieval foi totalmente refeita nas primeiras décadas do século XVIII, como um símbolo da vitória do catolicismo frente à Reforma Protestante. Além disso, as invasões napoleônicas e a ocupação nazista também trouxeram transtornos à vocação da abadia, mas sabemos que o tempo é isso, é transformação. Vendo os turistas caminharem, em grupos ou não, registrando fotografias com seus celulares, escutando mensagens, conversando em vídeos, fico imaginando o olhar de espanto que teria um monge beneditino do século X que tivesse a chance de viver uma experiência “De Volta para o Futuro”, como no filme estrelado por Michael Fox e Christopher Lloyd.
A cidade vive aos pés da abadia e sempre olhando para ela topograficamente, porque realmente a colina é elevada; economicamente, porque gira em torno do turismo que ela proporciona; e simbolicamente, porque é como se um milênio pesasse sobre os ombros de Melk.
Impressiona seu tamanho e sua arquitetura típica do barroco europeu. Para uma visão de conjunto, vejam a foto que fiz de um painel exposto na abadia.
Almoçamos no restaurante que fica na colina ao lado da abadia. Nada especial, mas a comida estava bem-feita. A maior parte das mesas estava ocupada por turistas, é óbvio, entre os quais se descavam neste dia, os italianos, falantes e espaçosos como é natural para quem tem, em sua história, o prestígio do maior império do mundo antigo.
Em frente ao restaurante, uma pequena fonte moderna oferecia um microclima mais fresco num dia de muito calor.
Acabamos não fazendo a visita guiada completa na abadia, mas um dos destaques é sua biblioteca que, segundo informações, foi a que inspirou aquela descrita no livro “O nome da Rosa” de Umberto Eco, depois imortalizada no filme estrelado por Sean Connery.
Vários painéis mostravam o trabalho de recuperação do prédio e das obras entre as quais estão vários manuscritos medievais e logo se percebe que há muito investimento público para que se mantenha esse patrimônio.
Os jardins que circundam a abadia são enormes. Vejam que, na planta que se segue, a construção principal, esta que está nas fotos, ocupa uma pequena parte da representação na porção direita, em preto.
A abadia é composta por vários pavilhões, alguns dos quais ladeados por corredores avarandados, cujos pisos em diferentes tipos de granito, brilha de tanto desgaste do tempo – quantos andaram por eles nos séculos que marcam a história dessa construção?
A igreja da abadia é suntuosamente ornada em ouro. Não era possível fazer fotos, mas seguem algumas que extraí da web.
Fonte das duas fotos: https://pt.dreamstime.com/fotos-de-stock-abadia-de-melk-igreja-%C3%A1ustria-image22808113
O centro histórico de Melk (Altstadt) é muito charmoso e, atualmente, pelo que observei, está voltado para o turismo – são restaurantes, pequenos hotéis, cafés, lojas de souvenires instalados nos térreos de casarões, que mostram que os vinhedos propiciaram a formação de uma classe abastada desde o século XIX, quando suponho que, pelo estilo arquitetônico, a maioria delas tenha sido construída. Assim, embora seja nomeada como uma cidade medieval, o que sobra desta era é apenas o traçado das ruas, pois as edificações são dos últimos dois séculos em sua maioria, exceção o grande prédio da abadia que é do XVIII.
Do nada, paro para olhar a vitrine de uma loja que vendia bugigangas de todo tipo e vejam o que encontrei exposto por lá.
Chamou muito minha atenção que, do mesmo modo que era muito nas pequenas cidades da Alsácia Lorena na França, em Melk, várias casas, que foram de famílias importantes, têm, na fachada, placas que são chamadas de Enseignes de Fer Forgé (insígnias de ferro forjado) ou placas de Guilda que tinham, no passado, o objetivo de informar o ofício, a crença ou a fonte da riqueza dos que ali habitavam.


Como terminamos o dia antes de pegar o trem de volta?
Experimentando os doces austríacos numa mesa disposta na principal rua, cujo traçado foi desenhado pelos homens e mulheres que, no período medieval, andavam por ali.


Carminha Beltrão
Julho de 2026



























Caríssima Carminha
Muito obrigado por mais esta matéria…, sobre lugares e paisagens maravilhosas!