Tallinn, entre turistas, portas e flores

Resolvemos usar um dia da nossa permanência em Helsinque para conhecer Tallinn, capital da Estônia que está separada da Finlândia pelo Mar Báltico.

Isso exigiu toda uma preparação com procedimentos, verdadeiros protocolos, que o turista atual tem que dominar, mas nem sempre isso é fácil para todos. É preciso entrar no Google e descobrir quais empresas fazem a travessia ligando as duas cidades; perguntar para a AI Gemini qual é a melhor, em termos de custo x benefício; na sequência, entrar no site da empresa escolhida, verificar os horários, ser informado que, se baixar o APP pode, segundo eles, ser mais rápido; verificar que não é verdade, aff…; sair do APP e voltar para o site; atender as duas ou três solicitações de verificar códigos de segurança no e-mail, depois no celular, depois de novo não sei onde; resolver ir à recepção do hotel para a autóctone que lá está nos ajudar a conferir nossas opções; tomar a decisão de comprar os bilhetes; aguardar a rodinha girando, girando, girando; fazer o pagamento pelo Credicard, ser informado que será preciso usar para essa finalidade o VISA; esperar que a empresa do cartão autorize e receber um e-mail informando que a compra foi feita. Só que…. o cartão de embarque não chegou por esta via. C’est dommage! como diriam os franceses.

Foi assim que tivemos, ainda na véspera, que ir conhecer o terminal marítimo de Helsinque. Rapidamente constatamos que, quando se tem a oportunidade de conversar com gente (e não com o computador via IA), as coisas ficam mais simples: a loirinha de pele alva, em 30 segundos, explicou como fazer e mais 60 segundos foram necessários para sairmos à rua felizes da vida com nossos bilhetes em mãos; sim, bilhetes em papel, com tudo certinho, dia, horário, nosso nome completo, número de terminal etc.

O pior dessas experiências de insucesso digital é que ficamos, na dúvida, se acontece com todos ou apenas com a gente, por inabilidade ou condição geracional. O alívio, neste caso, foi observar que vários jovens estavam ali, perguntando para a loirinha como fazer, tanto quanto nós.

Na saída do Terminal, uma foto nossa espelhada no enorme mural de vidro que faz o front da sua edificação moderna.

No dia seguinte, estávamos nós lá de novo, agora para ir mesmo para Tallinn. Impressionou muito o nível de organização do embarque. Em algum capítulo deste blog, descrevi as terríveis experiências de embarque e desembarque em grandes navios que vivemos para fazer os percursos entre as ilhas gregas. Aqui tudo foi muito diferente. Nada de esperar no sol ardente e depois, atendendo a apitos estridentes, entrar todo mundo se empurrando, lado a lado com os carros, e puxando as malas por rampas deslizantes, para depois constatar que nos separamos de nossos partners de viagem, como ocorreu conosco no país do Sócrates (não o corinthiano, mas o filósofo).

Em Helsinque (e depois vimos que foi do mesmo modo em Tallinn na volta), os tubos de embarque eram largos, passava-se por catracas digitais que funcionavam mesmo se seu bilhete estivesse a 20 cm do leitor digital, os carros entravam por outra via, tudo estava limpo, aclimatado e on time.

A travessia demora duas horas. O navio tinha 10 andares, ficamos no oitavo, confortavelmente acomodados numa mesinha, havia tomadas para carregar os equipamentos por todos os lados e o acesso à internet era de boa qualidade, os banheiros limpíssimos, havia um free shop que ocupava dois andares e os preços eram realmente bons para alguns produtos…

O dia estava lindo. É difícil escolher entre o azul do céu e o do mar.

Ao chegamos em Tallinn, logo me chamou atenção algo que já havia observado em alguns pontos turísticos de Helsinque: além da língua autóctone, neste caso o estônio (sim, existe essa língua) e do inglês, considerada a forma mundial de comunicação, os avisos apareciam, também, em chinês. Eles vão tomar conta do mundo!

前往城市

Pronto, estamos do lado de fora do terminal, pisando no chão da Estônia.

A situação geográfica de Tallinn é muito parecida com a de Helsinque. Ambas estão estrategicamente posicionadas controlando o Báltico, por isso a competição entre elas sempre foi grande, sobretudo no período de grande circulação comercial pelo mar, ao final da Idade Média, começo da Moderna. Tallinn era, então, mais importante que Helsinque. Hoje a situação econômica e geopolítica delas se inverteu, mas, ainda assim, Tallinn tem sua importância e elas de algum modo se complementam.

Segundo a IA da Gemini, elas são interligadas estrategicamente por comporem a região de capitais gêmeas – Talsinki (contraindo Tallinn e Helsinque) – que funcionam como um hub digital na borda da Europa. Tallinn funciona segundo uma perspectiva ultraliberal e por isso é ágil para a realização de negócios. Helsinque corresponde mais ao modelo de Sociedade do Bem-estar Social, com forte valorização do planejamento de futuro. Enquanto na Estônia o salário médio é 1950 euros/mês, na Finlândia essa cifra é de 3900 euros/mês. Por causa disso, muitos que são de Tallinn trabalham de forma remota ou híbrida para a Finlândia e os finlandeses buscam serviços e produtos em Tallinn porque são mais baratos para eles. O interessante é que os dois governos estão trabalhando para unificar sistemas de impostos, saúde e previdência.

Mas essa é a situação atual. Justamente pela importância maior que teve, no final da Idade Média, é que Tallinn é especial para o turismo, hoje. Seu centro histórico foi classificado como Patrimônio Mundial da Unesco, suas ruas mantêm o calçamento original em pedras, parte da muralha está preservada bem como as torres de vigia.

Fizemos caminhada de dois quilômetros, entre o porto, onde havia um píer com alguns iates, e a cidade histórica. Passamos pelas áreas modernas de Tallinn que ocupam os terrenos entre a cidade antiga e o porto. Havia sedes de empresas, prédios de apartamentos, um grande shopping center e galerias menores com lojas elegantes. Pareceu-me que eram espaços do cotidiano dos moradores da capital da Estônia.

Como já destaquei, a Estônia é um país muito digitalizado. Foi nele que surgiu o Skype. Em Tallinn, o acesso wi-fi à internet é público e de alta velocidade, em qualquer ponto da cidade.

O espaço-tempo contemporâneo, no entanto, fica para trás, ao atravessarmos uma das portas da muralha, pois entramos no mundo medieval, não como ele foi efetivamente, mas cenarizado para nós, centenas de transeuntes de vários países do mundo, que aproveitando o verão vêm brincar de ver o passado. Havia muitos em grupos com uma guia carregando sua bandeirinha e parando para explicações longas, às quais poucos prestavam atenção. Havia outros casais de mais de 60, 70 anos, como nós, famílias com bebês nos carrinhos, routards com as mochilas nas costas… Gente com pouca roupa do corpo, outros com a túnica longa e a cabeça coberta. Uma babel!

O sol estava forte por volta de 14h e o estômago já reclamava pedindo almoço. Procura aqui, olha ali, consulta o celular e assim chegamos ao restaurante situado na Rataskaevu 16 (aliás o nome do restaurante é seu endereço), anunciado como de alta gastronomia a preços justos. A comida era apresentada como nórdica/estoniana contemporânea e o que quer que fosse isso, desejávamos apenas sair do sol, entrar, sentar-se e comer.

Fonte: https://aoitrip.jp/tallinn-food/

Não vou omitir que a chegada não foi simpática. Ficamos no balcão da entrada esperando o que parecia ser o proprietário acabar uma longa ligação telefônica para depois nos perguntar se tínhamos ou não reserva. Informamos que não, ele foi aos fundos do restaurante, observou que não havia mesa disponível, subiu ao mezzanino e chegou à mesma conclusão. Na sequência, olhou em volta no pequeno salão da entrada e indicou exatamente a mesa que estávamos namorando desde a chegada – justamente a da “janelinha” – mas, recomendando enfaticamente que devíamos deixá-la antes das 16h30, porque havia um reserva para ela neste horário. Isso é meio irritante em alguns países da Europa: eles manejam a disponibilidade das mesas segundo duas lógicas que não agradam os fregueses que estão presencialmente ali esperando por um lugar: ocupar todas as mesas de um dado setor, mesmo que haja outras melhores no lado oposto; ocupar as piores mesas, deixando sempre as melhores para depois… Que chatice!

O calor que fazia lá fora, a água com gás gelada que logo chegou à mesa, a construção de pedra com o forro em madeira original que tornava o ambiente tão acolhedor, a vista da pracinha, filtrada pelo vidro do garrafão que servia de abajur, nos ocupou observando um guia que informava detalhes sobre o poço medieval ali situado – em torno dele, mais 20 turistas de um grupo que mal prestavam atenção…

Tudo isso fez com que a permanência ali fosse boa, mas sinceramente foi a comida que chegou 20 minutos depois o ponto alto da visita a Tallinn.

Eliseu escolheu um risoto com frango. Não era feito com arroz, mas com um pequeno feijão verde super macio. Eu escolhi uma costelinha com legumes.

Quando a simpática garçonete trouxe a cerveja local para apreciarmos foi nos explicando a razão do rótulo e começamos a entender por que o poço em frente ao restaurante era uma das paradas dos turistas.

Segundo a IA da Gemini:

O nome da rua, Rataskaevu, significa “Poço da Roda”, em referência a um poço público medieval que ficava bem ali no cruzamento.  Segundo a lenda, os moradores medievais de Tallinn acreditavam piamente que um espírito maligno (ou o próprio diabo) morava no fundo do poço. Eles temiam que, se a criatura ficasse zangada, ela secaria toda a água da cidade ou envenenaria o poço com doenças. Para acalmar o demônio, a população local começou a fazer sacrifícios bizarros: eles jogavam gatos de rua vivos dentro do poço. Por causa dessa prática cruel e supersticiosa, a água acabou ficando completamente intragável, e o poço ganhou o apelido sombrio de “Cat’s Well” (Poço do Gato). O poço acabou sendo desativado e lacrado, mas uma réplica de madeira ainda marca o local exato hoje em dia

Em que pese toda essa lenda a cerveja é super gostosa, recomendo, e os dois pratos estavam super saborosos. Fui verificar na web e era um restaurante estrelado pelo Guia Michellin, mas com preços superacessíveis para o padrão europeu – dois pratos com dois copos de cerveja e água custaram 58 euros.

Olhem a minha cara de felicidade depois de comer.

Foi duro enfrentar o sobe e desce das ladeiras, típicas dos sítios das cidades medievais, após o almoço, mas lá fomos nós, ticando, como teria dito nosso amigo Dióres, os pontos que precisavam ser visitados. Passamos por ruelas, chegamos a mirantes, sentamo-nos em bancos de praças, entramos num café da Aliança Francesa para comer a sobremesa e entramos na igreja mais importante de Tallinn.

Um dos edifícios públicos mais bonitos me fez rememorar a Casa Rosada, sede do governo argentino, mas havia outros que testemunhavam que houve também construções estilo neoclássico, provavelmente do século XIX.

Torres havia por todo lado, porque o que mais tem em cidades medievais são igrejas.

A praça principal de Tallinn me lembrou a de Bruxelas, ambas bem denotativas do apogeu comercial que essas cidades viveram ao final do período medieval. Algumas fotos não estão nada bem enquadradas, eu sei, mas esqueci como corrigir isso no word.

Adorei as portas de Tallin, sempre bi ou tricolores.

Eram magníficas as bancas de flores, na saída da cidade medieval, por porta diferente da que entramos. Tive que chegar perto para ficar convencida que não eram artificiais. As rosas da primeira foto eram vendidas, cada unidade, a preços entre 1,5 e 3 euros, mas eram verdadeiramente lindas.

As hortênsias também estavam expostas em uma das barracas. Lindas demais, né?

Pelo caminho, floreiras de todo tipo.

Já voltando para o porto passamos por uma antiga zona de estaleiros navais que se transformou numa área cheia de lojas elegantes, bares e restaurantes.

E. para terminar, um touro nos aguardava na calçada.

As duas horas de retorno a Helsinque foram de descanso, mas mesmo assim chegamos cansados e tivemos que fazer mais 2 km a pé porque não conseguimos ter certeza se o bonde a ser tomado para a volta era o que estava na plataforma… Chegamos no hotel às 23h – foi um dia e tanto, mas sinceramente um pouco demais para uma única jornada. Voltei à minha tese de que agora só quero usar seis a sete horas do dia para bater perna quando estou em viagem de turismo.

Carminha Beltrão

Julho de 2026

Um comentário em “Tallinn, entre turistas, portas e flores

  1. Caríssima Carminha

    Tenho lido e gostado dos seus testos!

    Muito obrigado. E um forte abraço

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