Helsinque, a Oodi é mesmo uma biblioteca?

Se alguém me perguntasse: “Mikä Helsingissä miellytti minua eniten?

Eu responderia: “Eniten pidin Oodista, sen kirjastosta“.

Ela é realmente muito mais que uma biblioteca. A foto acima eu registrei para mostrar um pouco da sua arquitetura, mas as outras duas que foram extraídas da web são bem melhores, porque mostram de modo completo suas formas icônicas e possibilitam que o contraste com a neve torne mais viva a cor escolhida para a fachada.

Fonte: https://www.linkedin.com/pulse/biblioteca-central-de-helsinque-marcello-lopes-siczf

Fonte: https://ww3.rics.org/uk/en/modus/business-and-skills/surveying-stories/oodi-library-helsinki.html

Logo que entramos eu fotografei, sem a devida atenção, a placa de boas vindas. Agora escrevendo sobre a Oodi é que vejo a recomendação de não fazer registros fotográficos.  Ainda bem que só vi agora, porque adoro as fotos, elas acabam me servindo de guia para encontrar um fio da meada para os textos. Se tivesse prestado atenção na placa, eu teria ficado chateada de não poder fotografar ou teria fotografado e ficaria sentindo que cometi um pequeno delito.

Em vários sites turísticos havia a indicação de conhecer a Oodi. Revolvi perguntar à IA, a razão da sugestão e fiquei sabendo de muitas coisas interessantes. Primeiro que ela é uma biblioteca muito recente – foi inaugurada em 2018 – ano em que os finlandeses comemoraram o centenário da sua independência. Embora tenham declarado soberania política em relação à Rússia em 1917, viveram um ano de Guerra Civil, o que retardou a constituição do Estado filandês.

A biblioteca é um marco arquitetônico que está situado na praça Kansalaistori, bem em frente ao Parlamento finlandês (Eduskuntatalo) e isso não é casual, mas sim intencional para mostrar que o conhecimento e a igualdade de acesso são vistos como base da democracia.

No mundo todo, com a expansão sem limites do acesso à informação e ao conhecimento pela internet, as bibliotecas ficaram mais vazias e, em algumas situações, disfuncionais. Aqui e ali elas se ressignificam, mas no caso da Oodi, por sua juventude, a concepção já foi a de ir muito além de um “santuário” para os livros. Pelas informações que li na própria biblioteca, apenas 1/3 do seu espaço é dedicado a publicações em suporte papel. E mesmo neste 1/3 ela foi arquitetonicamente pensada para ser uma sala de estar.

As estantes enfileiradas são baixinhas e brancas, possibilitando visualização do conjunto do espaço e superando a ideia que temos das bibliotecas do passado, em que nos perdíamos ou nos escondíamos entre fileiras de muros de livros.

Tanto nas laterais das estantes, junto às janelas, há mesas e pequenas poltronas para acomodar os leitores que podem fazer os olhos oscilar das letras para as paisagens urbanas, como  nas duas pontas da extensa área há escadas para acomodar os que preferem ler refestelados.

Seu nome foi resultado de uma consulta pública. Oodi significa ode, ou seja, a biblioteca, metaforicamente, é concebida como um poema lírico, algo magnífico e grandioso. Para confirmar minha hipótese de que a Finlândia é uma nação de construção sólida da democracia, fiquei sabendo que o projeto da biblioteca foi debatido com a sociedade local e desde sua ideia inicial foram necessárias duas décadas para irem sendo incorporadas sugestões e demandas sociais.

As duas fotos que postei e mais a subsequente são do 3º. andar que é conhecido como o “paraíso dos livros”. Além das duas paredes laterais extensas e envidraçadas, uma delas com portas que dão acesso a um maravilhoso terraço, o teto é todo iluminado por clarabóias. Como o dia estava lindo e as temperaturas relativamente amenas, muitos leitores estavam acomodados nas mesas ao sol. Você já se imaginou lendo num terraço ao sol do meio dia, durante o verão, no Brasil?

Em algum momento da vida fiquei sabendo que as bibliotecas tinham que ser escuras para a luminosidade não estragar os livros. Eu me recordo de este ser um desafio constante entre funcionários e usuários da Biblioteca Nacional de Brasília, porque o projeto de Niemeyer, como sempre em concreto e vidro, favorece o calor interno e a grande luminosidade.

Por outro lado, sabemos que as temperatudas no Planalto Central do Brasil são muito superiores à da Escandinávia onde se situa a Finlândia, por isso o perigo da luz e do calor é sempre relativo a cada situação geográfica.

Olha eu aí no extremo mais alto do terceiro andar.

No extremo oposto, ainda no terceiro andar, há um setor dedicado às crianças que se organiza a partir das estantes com livros infantis e se alonga em vários outros ambientes que tornam o acesso e o uso pleno deste ambiente, favorecendo as mães acompanharem seus pimpolhos. Tem a área para estacionar carrinhos de bebê, prateleiras para deixar os sapatos da molecadinha, tatame para brincar como que quiser e até um trepa-trepa numa árvore estilizada para as crianças gastarem toda sua energia (imaginem a importância deste espaço no inverno, quando lá fora a neve cai sem parar).

O piso intermediário da biblioteca é conhecido como o “andar criativo”. Ali estão estúdios para edição, impressão em 3D, costura, ferramentas de corte a laser, espaços para música e videogame. Vi gente usando todos esses espaços com apoio de funcionários em número bastante expressivo neste ambiente público e gratuito, o que é fundamental para seu uso ser pleno e adequado.

Como aqui estamos nas longas férias de verão do hemisfério norte, as salas para jogar videogame estavam todas ocupadas.

No térreo, a biblioteca abre-se para uma praça extensa (vejam de novo as três primeiras fotos do prédio). Isso faz com que, no verão ao menos, pouco se presenta a separação entre o dentro e o fora. Os espaços são para convivência, leitura e eventos. Há cinemas e um restaurante. Neste andar, chamou atenção o multiculturalismo. Acho que muitos visitantes turistas permanecem mais neste piso, por isso havia gente de todo mundo, de todas as cores e religiões enquanto, no terceiro, deu para notar a prevalência dos loiros e muito brancos.

De todo modo a biblioteca, no seu conjunto, combina com o que vimos pelas ruas de Helsinque. Há muitas crianças e, o que mais me chamou atenção, são casais com filhos; há também os solteiros, os que parecem solitários, descasados ou viúvos, mas o número de carrinhos e de bebês pareceu visualmente o que predomina.

Chamou atenção as mulheres com a cabeça coberta, algumas com feições que indicam que são oriundas de outros países de prevalência muçulmana, mas vimos loirinhas que pareciam finlandesas, também com esses mesmos hábitos. Os indianos apareceram em muitos lugares e não imagino que sejam imigrantes, porque as vestimentas são muito originais ainda e, em outros países, onde eles também estão, como a Inglaterra, por exemplo, rapidamente se ocidentalizam nas roupas. Como turistas, o predomínio pelas feições e vozes que escutamos pelas ruas é, além dos indianos, os asiáticos dos olhinhos puxados. Deduzi que são chineses. Como cheguei a essa conclusão? Para mim, os japoneses estão sempre em grupo, apressados com seus passinhos curtos e seguindo um guia. Estão todos de chapeuzinho cata-ovo e tiram fotografias com máquinas poderosas.

Os chineses, de pele no geral mais morena, mais gordinhos, andam em casais, ou famílias pequenas. Estes parecem adotar menos as marcas de grife que aqueles. Pura impressão, mas turista é assim: um bicho metido a explicar o que acaba de começar a observar…

Quando íamos deixando a Oodi, vimos o mapa que está sendo preenchido pelos visitantes. Ao lado dele, cartelas com colantes vermelhos. Utilizamos um para deixar Presidente Prudente presente ali.

Para fechar esse capítulo dedicado a esta maravilhosa biblioteca, incluo as fotos da Catedral de Uspenski, a dos cristãos ortodoxos. Ela foi inagurada em 1868 e é um dos testemunhos do período de domínio russo. O nome siginfica, em eslavo antigo “dormição”, já que o templo foi dedicado ao descanso da mãe de Jesus.

Seu estilo arquitetônico é bizantino e, por ter sido edificada em tijolos vermelho escuro, acaba fazendo um contraponto com a catedral principal – branca e com cúpulas douradas. Ambas ocupam colinas, portanto de uma se vê a outra.

Li, em algum lugar, que os tijolos para a construção da Uspenski foram retirados da Fortaleza de Bomarsund, situada nas Ilhas Aland e destruída na Guerra da Crimeia. Fui verificar, no mapa, e as tais ilhas estão a mais de 300 km de Helsinque, em linha reta. Não dá para imaginar como fizeram o transporte desse material.

Além dessa história toda especial, a Uspenki me passou a imagem de uma edificação bonita, mas triste, que acabou sendo um contraponto, na arquitetura, na cultura e no que ela significa, à maravilhosa e contemporânea biblioteca.

 Após a visita à catedral de origem russa, seguimos pela área do porto e fotografei um dos navios que fazem a travessia para Tallinn…

…mas isso é conversa para o próximo texto.

Carminha Beltrão

Julho de 2026

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