Helsinque, a estátua e a pomba indiferente

Acabei o primeiro capítulo do diário de minha viagem à Finlândia, chamando atenção para algumas qualidades de Helsinque. Quero escrever, agora, um pouco sobre elas, mas apenas como testemunho de uma turista, sem qualquer intenção de precisão científica e nem de cuidado jornalístico, porque sei que são impressões parciais sobre uma realidade que, com certeza, é mais complexa do que pude apreender.

Meus cuidados de não passar uma ideia de que Helsinque seja, talvez, acima do que ela efetivamente o é decorrem, também, de eu conhecê-la no verão, quando tudo é muito mais alegre no Norte Global. As temperaturas baixas,  os cinzas e os ocres do céu e da vegetação, bem como os dias curtos convidam menos à vida fora de casa no inverno, enquanto, no verão, é preciso aproveitar cada minuto, por isso, a imagem que tenho de Helsinque é de muita luz, energia e movimento.

Mais importante do que a presença do verde e da água, para falar de espaço público urbano, valorizo a integração entre parques, praças, monumentos, calçadas e vias, o que é expresso por certa fluidez espaço-temporal.

Passamos de um ambiente ao outro, sem grandes obstáculos: nem grades, nem sistemas de segurança ostensivos, nem interdições, nem aviso para dizer que não podemos pisar na grama ou tomar sol de papo para o ar em qualquer lugar que um raio dele iluminar um cantinho da cidade. Todo mundo se apropria do espaço público. Há os que estão fazendo pic nic, os que caminham, descansam, tiram uma soneca, passeiam com seus bebês, procuram num mapa o próximo point onde visitar como turista…

Há, também os que apenas sentam num banco amarelo que ali estava generosamente para descansar as pernas. Neste dia, o pedômetro do meu celular registrou 12,5 km de caminhada por Helsinque.

As fotos não foram registradas num parque cercado por grades em algum setor residencial da cidade, mas estão no seu centro, na praça lindeira a 300 mestros da rua comercial principal, que é chamada de Boulevardi. Na imagem que se segue, a parte em tom amarelado é a de predomínio de comércio e serviços. Onde está assinalado Craft Corner Helsinki, está o parque chamado de Esplanadi representado em verde, o que corresponde a um jardim alongado entre duas ruas – a Eteläesplanadi e a Pohjoiesplanadi – que são bem comerciais. As fotos foram registradas aí. Imaginem vocês que estão me lendo – as pessoas apropriando-se plenamente deste espaço, entre duas ruas onde passam bondes, carros e do outro lado estão agências bancárias, sedes de empresas, prédios de apartamentos, hoteis, lojas etc.

Outro ponto alto da cidade são os modais de mobilidade urbana mais adotados. Faz-se muita coisa a pé e as calçadas são adequadas aos pedestres. Por onde andamos há a indicação das faixas para estes e para os que circulam de bike. Aliás, gente de toda idade vai e vem em duas rodas… Inclusive, vi uma pista para elas onde, suponho, outrora funcionava uma linha de trem.

Os bondes circulam, lado a lado, aos carros, pelas ruas principais da cidade. A 150 metros do nosso hotel passavam duas linhas que utilizamos para vir da Estação central e para ir ao porto. Não sem razão me ponho a perguntar por que os bondes saíram de circulação em São Paulo, no Rio e em outras cidades de nosso país? Não escolhemos no Brasil, complementar um modal de transporte com os demais, integrando-os, mas substituir um pelo outro, num eterno continuum entre desfazer e fazer de novo…

Fonte: https://dicasdaeuropa.com.br/seguro-viagem-para-finlandia/

Não é difícil explicar as nossas opções, afinal nossa história caracteriza-se por 500 anos de desigualdades socioeconômicas, e de muito pouco tempo de democracia, que volta e meia ameaça ser abatida novamente.

Isso significa que nossa sociedade deseja e mantém estratégias de diferenciação entre as classes sociais e aceita que a democracia exista mais para uns que para os outros. Hoje se fala muito de qualidade de vida e de sustentabilidade ambiental – ok isso é muito bom! No entanto, efetivamente, penso que as pessoas viverem a vida pública de modo pleno e com condições relativamente equitativas, do ponto de vista das diferentes classe sociais, é uma demostração de que há democracia. Assim, percebi Helsinque, uma cidade democrática.

Ah, já ia me esquecendo do título do capítulo. Por que o inventei? Porque bem no coração do Parque Esplanadi está a estatua de Johan Ludvig Runenberg. Pelo que li, ele é muito importante para a identidade nacional finlandesa. É seu principal poeta. Viveu entre 1804 e 1877. Segundo a Wikipédia:

Os seus textos combinam elementos de poesia da antiguidade, do romantismo e do realismo. A sua obra épica é considerada a mais grandiosa …  O seu primeiro poema “Nossa Terra” (“Vårt land” em sueco, “Maamme” em finlandês), tornou-se o hino nacional da Finlândia.

Passei pelo Runenberg várias vezes nestes quatro dias de Helsinque e, independentemente do horário e das condições do tempo, como toda boa estátua, ele se manteve ereto e incólume aos transeuntes que se apropriavam intensamente do parque. Um ou outro parava para uma foto, diante do monumento.

Apesar de ilustre, pelo que observei todos estes dias, Runenberg serve de puleiro e pinico para a pomba indiferente (a ele e a nós). Fico me perguntando quanto o poder público já deve ter gastado para limpar esse bronze valioso das fezes delas ou, ainda, produtos ou estratégias devem ter usado para que as aves folgadas fossem embora. Parece ter sido tudo em vão.

Carminha Beltrão

Julho de 2026

2 comentários em “Helsinque, a estátua e a pomba indiferente

  1. Delícia de descrição e sábia! Como sempre. É de chorar quando compararmos nossos espaços públicos brasileiros e em especial paulistas com esses que descreve. Imagine o Vale do Anhambagabú em Sampa, bem tratado para o povo? Beijos e boa viagem!

    1. Isso mesmo Suzana, chego a ficar deprê porque muita coisa poderia ser melhor. O Anhangabaú já passou por vários projetos de revitalização urbana e nenhum realmente feito para favorecer a apropriação deste espaço. É difícil aceitar que temos inteligência para propor e incapacidade política de fazer acontecer… ou falta de vontade política.

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