Helsinque, na pontinha da Finlândia

Minimalist black line drawing of city skyline with gold accents

Meus olhos sempre dançam pelos mapas. É, em parte, vício de ofício, porque sou geógrafa, mas talvez seja também minha vontade de sempre conhecer lugares novos, pessoas parecidas comigo ou muito diferentes, paisagens que supreendam, enfim, o que está do lado de lá do meu mundinho.

No começo isso era feito em livros e atlas, hoje o Google Maps oferece tantos recursos que a dança ficou super agradável. É possível aumentar ou diminuir o foco, mudar as camadas de visualização, medir distâncias, encontrar o modal melhor de transporte ou as padarias ou restaurantes mais próximos, comparar a imagem atual às mais antigas da mesma área etc.

Mesmo gostando desta dança do olhar, nunca dei atenção à Finlândia, talvez porque não estivesse no meu horizonte a possibilidade de conhecer um pedacinho que fosse deste país, mas a oportunidade apareceu. Estou em Hensique e ela fica ali no extremo sul, quase caindo do mapa, como se quisesse esticar um braço até Tallinn, atravessando o Mar Báltico e ligando os finlandeses à Europa do Leste.

Quando foi fundada Helsinque, o território que hoje é a Finlândia fazia parte da Suécia. O rei deste país, Gustavo I, em 1550, tomou tal iniciativa para ocupar uma posição geografia estratégica onde pudesse instalar um porto que competisse com o de Tallinn na Estônia, que, então, dominava o comércio pelo Mar Báltico. A cidade permaneceu sem importância por muito tempo, mas no século XVIII foi dominada pelos russos e se tornou, em 1809, a nova capital do território “conquistado” que ganhou o status de um grão-ducado autônomo (mas nem tanto, porque estava sob o controle do Czar russo).

Como a antiga capital era Turku, que ficava mais próxima da Suécia, os russos prefiram situar o poder mais perto de São Petesburgo, então capital do seu império. Dê uma olhada na imagem que se segue e veja a posição de Estocolmo, Turku, Helsinque e São Petersburgo. Alexandre I, o czar que tomou essa decisão, entendia de situação geográfica estratégica, mesmo sem o Google Maps para ajudá-lo.

Foi desse jeito que Helsinque ganhou maior importância a partir de 1812 e vários investimentos realizaram-se para atribuir um ar mais monumental à cidade. As intervenções foram feitas no estilo neoclássico e hoje correspondem ao coração da cidade. Resultou muita coisa destas ações, e se destaca a Praça do Senado e a Catedral Luterana, primeiras visitas que fizemos nesta cidade.

A tal praça lembra em alguma medida as plazas mayores da Espanha: é extensa, plena de possibilidades de circulação e própria para se visualizar os poderes constituídos – neste caso, o legislativo e a Igreja.

A fachada que vimos a seguir corresponde à face que, na imagem de satélite anterior, está na parte inferior. Nela estão vários trucks com pequenas lanchonetes que servem às mesas estrategicamente situadas para se olhar para a catedral.

A simetria do conjunto arquitetônico em volta da praça denota a permanência do neoclássico que o czar russo quis deixar como marca para Helsinque. O azul do céu estava divino, agradavelmente combinado a temperaturas em torno de 25º C, bem diferentes do nosso verão tropical brasileiro.

Numa vista mais oblíqua, que extraí da Web, é possível ver que por ali passam os bondes que compõem o principal sistema coletivo de circulação motorizada na cidade.

Fonte: https://entrevodkaecachaca.blogspot.com/2014/11/catedral-ortodoxa-de-helsinki-e.html

Do outro lado, na posição superior da imagem de satélite está a magnífica Catedral de Helsinque (em finlandês Helsingin tuomiokirkko). Ela é luterana. A imensa escadaria dá destaque à posição topograficamente superior da igreja e, ao mesmo tempo, serve de descanso e ponto de observação para os turistas. Há os que distraidamente tentam realizar uma super foto da estátua central da praça. As três cúpulas finalizadas, com suas cruzes gregas em ouro, são o ponto alto da linda edificação.

Fonte: https://es.dreamstime.com/catedral-con-las-escaleras-finlandia-de-helsinki-image106553514

Helsinque passou por altos e baixos no século XX. Quando o czarismo caiu e se instalou o socialismo de Estado na Rússia, a Finlândia declarou independência no mesmo ano de 1917 e o país viveu uma guerra civil em 1918. Voltou a enfrentar a Rússia durante e 2ª Guerra Mundial e não chegou a ser ocupada por forças estrangeiras… Foi somente na segunda metade do século XX que houve a reconstrução dos estragos causadas pela guerra e sua modernização, em grande parte porque foi sede dos Jogos Olímpicos de Verão em 1952.

O país todo tem pouco mais de 5,6 milhões de habitantes, o que corresponde à metade da população do município de São Paulo. É, portanto, demograficamente pouco importante. Quase 1/3 mora na região metropolitana da capital.

Hoje, Helsinque é uma cidade que se caracteriza pela manutenção do período neoclássico em várias edificações no centro atual e em seus arredores….

….mas também pela arquitetura de vanguarda de vários de suas edificações, entre elas a pequena Capela do Silêncio Kamppi, toda em madeira e que, por se situar numa área de grande movimentação em frente a um shopping center, acaba exercendo mesmo o papel de um ambiente para uma pausa…

A singeleza da concepção interna e externa resulta dessa combinação linda ente a forma, a madeira, a concepção dos bancos e a entrada de luz.

Em termos econômicos, a Finlândia vem se notabilizando pelo foco na alta tecnologia, cujo símbolo mais internacional talvez seja a Nokia, mas também pelos investimentos públicos voltados às políticas sociais, que se revelam num ambiente urbano de qualidade, que pude observar, por meio de algumas características de Helsinque: poucas desigualdades socioeconômicas, o que é visível na paisagem; mobilidade urbana apoiada em transporte coletivo e em deslocamento por bicicletas, e que se tornou referência na Europa; qualidade e uso intenso do espaço público. Vou deixar essa conversa para o próximo capítulo deste diário de viagem.

Carminha Beltrão

Julho de 2026

Fonte da imagem de abertura do texto – https://www.magnific.com/br/vetores-premium/um-desenho-de-linha-continua-do-horizonte-da-cidade-de-helsinque-finlandia_66672642.htm

2 comentários em “Helsinque, na pontinha da Finlândia

  1. Oi Carminha, que bom que conheceu essa capital! Passamos rapidamente por aí quando fomos de Esrocolmo à São Petesburgo ( passando por Talim e Helsink) de navio com Mohamed e sua esposa Christina. Foi uma viagem muito bacana! Fiquei impressionada com o aquecimento no chão das ruas e os navios quebra gelo do porto!

    Um beijo, boa viagem e continue com seus relatos precisos!!

    Suzana

    1. oi Suzana, imagino que este passeio de navio deve ter sido bárbaro. Como é verão agora, não pude experimentar o chão aquecido… As experiências são sempre diferentes e ótimas, também por isso.

Deixe um comentário