
Na Europa, há algumas cidades termais que se notabilizaram, desde os séculos XVIII e XIX, por serem uma espécie de refúgio de verão para suas elites. Tivemos a oportunidade, em outras viagens, de conhecerduas delas.
Uma foi Karlovy Vary, na República Tcheca, que impressiona muito pela beleza arquitetônica e pelo entorno, pois está encaixada em um vale muito bonito.
Esta cidade ficou conhecida, no cinema, por dois filmes, ou pelo menos eu assisti dois, mas deve haver outros. Um deles é o 007 Casino Royale, que foi estrelado pelo Daniel Craig, um dos muitos James Bond de Hollywood. No filme, é como se o enredo se passasse em Montenegro, mas o filme, de fato, foi rodado em Karlovy Vary.
O outro filme chama-se As férias da minha vida e a personagem principal foi interpretada por Queen Latifah. Se você leitor não assistiu, assista, pois a atriz é ótima e consegue fazer uma história menor te prender à tela, mas também vale a pena, porque o filme valoriza o Grandhotel Pupp, que é a edificação mais bonita da cidade. Fiquei morrendo de vontade de um dia me hospedar nele…
Também tivemos a chance de conhecer Bath, na Inglaterra. Foi fundada já como uma cidade termal pelos romanos, no século I d.C, com o nome de Aguae Sulis. Até hoje permanece com importância turística, tanto pelo patrimônio arqueológico oriundo do Império Romano, como pela arquitetura georgiana mais recente.
Bath também foi cenário de filmes bem famosos como a versão dos Miseráveis, que foi estrelada por Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway, cuja cena em que Crowe se atira no Sena, foi de fato, filmada em Bath. Como a grande escritora Jane Austen viveu em Bath, seus livros foram ali ambientados e, por consequência, filmes baseados neles também foram rodados ali. Há ainda o filme A Duquesa ou a Feira das Vaidades, ou ainda O Fantástico Senhor Raposo, entre outros.
Apesar dessa filmografia importante, talvez você, leitor, tenha conhecido Bath pela relativamente recente série da Netflix, chamada de Bridgerton.
Puxa, a introdução ficou grande demais, vejo agora, mas queria apenas ter um jeito de começar a escrever algo sobre Baden bei Wien e nem sempre encontro logo um fio da meada, mas vamos ao que interessa neste capítulo.
O nome desta cidade significa em alemão: Banhos perto de Viena. Hoje, ela esta faz parte do que se poderia chamar de área metropolitana da capital austríaca, mas no passado estava completamente fora da cidade. De trem suburbano, são necessários apenas 30 minutos para chegar até lá.
Tem cerca de 26 mil habitantes, mas esse contingente chega a mais de 30 mil, quando se considera os vienenses que têm ali uma segunda moradia. Na web, há informações de que 400 mil turistas pernoitam ao ano em Baden bei Wien, que é, atualmente, apenas chamada de Baden. Há também os turistas como nós, que são a maioria, que passam apenas um dia na cidade.
Vejam aí no mapa que Baden está demarcada com um tracejado vermelho na porção sudeste, onde se assinala a localização de uma das casas de Beethoven.
Se tivesse que comparar diria que Baden é menos bonita e charmosa do que Bath e Kalorvy Vary, mas tem sua graça e é um excelente passeio de um dia.
Mal chegamos, saindo da estação, já nos deparamos com a primeira fonte (os austríacos apreciam muito esses artefatos urbanos). Nesse caso, me achou atenção porque a fonte comprova o ditado – “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura” – porque nos pontos em que os jatos de água batem, já se notam as reentrâncias na rocha.
Perguntei, à IA Gemini, qual o período do apogeu de Baden e a informação, a ser confirmada em outras fontes, ocorreu entre o final do século XVIII e se prolongou até 1929. Ele é dividido em duas partes, sendo a primeira chamada de período Biedermeier ou Era Imperial, quando Francisco I fez desta cidade sua residência oficial de verão, e os Habsburgos passavam aí essa temporada, todos os anos, trazendo consigo grande parte da aristocracia européia. Em 1812, a cidade sofreu um incêndio e foi reconstruída no estilo neoclássico. Penso que muitas das construções que achei bonitas na cidade correspondem a este período.

Um segundo período foi chamado de a “Era do Mundo de ontem” e correspondeu ao que se reconhece como a Belle Époque. Sem dúvida, a chegada do trem, facilitando o deslocamento a partir de Viena, ajudou a internacionalizar a cidade. Além disso, o Cassino atraía muita gente que se hospedava em hotéis de luxo e viviam a bailar operetas e valsas.
Durante a 1ª Guerra Mundial, Baden sediou o comando do exército austro-húngaro, o que fortaleceu sua importância, mas com a grande depressão de 1929 e, na sequência, a 2ª Guerra Mundial, houve um declínio grande.
O patrimônio do período áureo é que justificou Baden ser outorgada com a chancela de Patrimônio Mundial pela Unesco.
O Cassino ainda reina de modo imponente na paisagem urbana atual. Ele é cercado por jardins e tem um pavilhão dedicado à música.
Adorei a escultura moderna que está no jardim, tendo ao fundo a fonte, e com espreguiçadeiras disponíveis, ao lado, para quem quer pegar um solzinho.
Na praça central, onde está a prefeitura, há a Coluna da Peste (Dreifaltigkeitssäule), muito parecida com a que vimos bem no centro de Viena. Pelo que pude me informar, essas colunas são comuns na Europa Central e têm razões tanto religiosas como políticas. Geralmente, foram erguidas ao fim de um período epidêmico, que era visto como um castigo de Deus. Imperadores ou governantes locais faziam promessas para que a propagação do mal cedesse e erguer a coluna era a forma, ao mesmo tempo, de agradecer à Santíssima Trindade e de ser um símbolo do poder do catolicismo frente ao protestantismo. Do ponto de vista estético, elas são bem rebuscadas, mostrando a força do barroco europeu.
O Café Central estava lotado por volta de 11h – todo mundo curtindo o sol.
Outro ponto turístico da Baden atual é o seu Rosarium, que fica no Doblhoffpark. Ele se notabiliza por ter mais de 30 mil roseiras de 800 variedades, mas sinceramente elas não estavam tão bonitas, embora julho seja época da florada.
Gostei mais do parque de um modo geral, com seu lago, com o restaurante em frente.

Do que mais gostei em Baden? Sem dúvida, foi a visita ao pequeno museu dedicado a Beethoven. Ele está instalado na casa em que ele viveu nos verões de 1821 a 1823, período em que compôs a maior parte da 9ª Sinfonia. A casa não era, diante das mansões da época, nada de especial, mas adorei a visita por vários motivos. Em primeiro lugar porque, embora pequeno, o museu está bem-preparado. Tem salas em que você pode escutar tranquilamente com fones de ouvido as obras dele. Uma delas é integralmente dedicada a várias versões orquestradas e cantadas da 9ª Sinfonia. Você assiste ao vídeo, vê ao lado a imagem da partitura original e acompanha por softwares o movimento dos diferentes instrumentos que em cada momento são acionados na orquestra.
Também havia uma sala com a mesa solenemente posta, em que cada prato era adornado por um objeto associado à vida de Beethoven – seus óculos, seu tinteiro e até a arma com a qual seu sobrinho tentou suicídio (que lembrança triste!).
A sala principal da antiga casa de Beethoven está, hoje, ocupada por um piano, cuja foto abre esse texto. Ele não pertenceu a Beethoven, mas a um amigo seu, em cuja residência o grande compositor tocou muitas vezes.
Já nos dávamos por satisfeitos com tanta belezura musical que vivenciamos nessa visita, quando uma senhora magrinha nos perguntou em que língua podíamos conversar e começou a propor – Deutsch, English, Italian, French?
Propusemos o francês e ela começou a explicar que, naquela sala, em poucos minutos um importante pianista viria para conhecer o piano (observem que ele tem cinco pedais) e ensaiar o tom, conforme o pedal, em que as músicas de Beethoven poderiam ser tocadas. Falava enfaticamente para nos convencer de que deveríamos ficar e, é claro, lá ficamos.
A surpresa maior foi constatar que o tal pianista era coreano (aliás, veio no mesmo trem que a gente de Viena). E foi assim que tivemos um recital particular. A certa altura ele começou a dialogar conosco, por meio do celular, com a tradução do Google, para explicar que era apenas um ensaio e que estava gravando para poder comparar depois. Foi um presente, porque ele tocava muito bem. Dá para imaginar? A sala de visitas que foi habitada por Beethoven, o piano no qual ele tocou várias vezes, um pianista coreano e nós no cantinho, sentados, sentimo-nos para lá de especiais!
Gravei algumas partes e filmei outras discretamente, mas ao final, resolvemos também nos comunicar com ele perguntando se ele estava de acordo com a iniciativa nossa de fazer esse registro:
Nós filmamos você tocando. Você autoriza? Muito obrigada pelo maravilhoso concerto.저희가 연주하시는 모습을 촬영했습니다. 허락해 주시겠어요? 멋진 콘서트 정말 감사합니다. Ele respondeu que sim, com um sorriso simpático. Dava para imaginar que conheceríamos um coreano expert em Beethoven?
Queria colocar aqui no blog a gravação que eu fiz, mas meu pacote de uso da wordpress não me autorizou. Fui até a web para ver se descobria o nome dele e digitei “pianistas coreanos experts em Beethoven” e vieram algumas dezenas de opções. Não encontrei nenhum rosto parecido ao dele, em algum vídeo, mas reproduzo aqui outro coreano que interpreta o cécebre compositor, assim enquanto você lê o texto, escuta Seong-jin Cho, que foi o pianista que selecionei no YouTube, tocando o concerto n. 3.
Almoçamos bem num restaurante no centro de Baden – o Krennmayers – agradável com seu pequeno pátio lateral, onde nos sentamos.
Um pouco antes de ir embora, tomamos um café num lugarzinho simpático, cuja vitrine combinava com os tempos áureos da cidade.
Fiquei pensando o quanto o mundo está globalizado. Nesta estação termal, em que o jogo de chá da vitrine é um testemunho do ambiente do passado, ou seja da aristocracia do Império Húngaro- Austríaco e da representação social e política do catolicismo, vi loirinhas de pele alva trajadas como mulçumanas e tibetanos almoçando no jardim de um restaurante.
Ah, já ia me esquecendo de registrar que, em Baden, também foram feitos filmes famosos: – A carta anônima, estrelado por Bette Davis; – Mayerling, com Omar Sharif, Catherine Deneuve e Ava Gadner; – A Alma Imortal, sobre a vida de Beethoven, sobre o qual não encontrei um cartaz; – por fim, o filme alemão A comuna. Esses eu não vi, mas já estão na lista para que eu possa curtir um pouco mais Baden, daqui umas semanas.
Carminha Beltrão
Julho de 2026































