Já havíamos estado na capital da Áustria por duas vezes. A primeira, em 2006, por ocasião de numa viagem que realizamos do Leste para o Centro da Europa, começando em Budapeste, passando por Praga, Viena, Dresden e chegando a Berlim.
Foi um percurso muito agradável, porque estávamos de ônibus com uma guia espanhola que, além de muito didática, fugia um pouco dos scripts estritamente turísticos e tinha muita paciência com nossas perguntas sobre como viviam realmente os moradores daqueles países e cidades.
Voltamos alguns anos depois, em 2012, para participar do International Congress of Americanists (ICA), que se autointitula como o mais antigo do mundo. Já participamos algumas vezes deste evento, em diferentes cidades, inclusive em 2006 em Sevilha, antes da viagem pelo Leste-Centro da Europa.
Nesta segunda estada em Viena, em 2012, esticamos com nossos amigos Denise e Renato, para conhecer Salzburgo, Stuttgart e Munique. Sem dúvida, um dos pontos positivos da minha profissão – professora universitária – são as oportunidades de conhecer outros países, interagir com pesquisadores de outras universidades e, assim, além de intercambiar ideias, viajar por aí.
Agora, estamos de volta a Viena, para apresentar um trabalho no RC 21 – Inequalities in the City. Olds issues, new challenges. Ao contrário do ICA, criado em 1875, e que reúne pesquisadores do grande campo das humanidades, voltados aos temas mais diversos, o RC21 é um evento criado recentemente, em 2021, e que tem um foco mais específico – compreender as desigualdades no mundo urbano. Ótimo porque os problemas e os desafios são mesmo enormes nas cidades!
Ele transcorreu na Universidade de Viena, instituição secular, cuja sede ocupa um prédio lindo, ao qual se acessa pela Estação Schottentor da linha U2 do metrô. Quando viemos para a realização do ICA, eu já tinha me encantado com os painéis que a universidade dedica aos seus principais pesquisadores. Esse encantamento também me envolveu em Toronto, no Canadá, onde a cidade é enfeitada, ao final do ano letivo, com painéis enormes dedicados aos melhores professores daquele período, segundo a avaliação dos seus alunos.
No Brasil, no geral, painéis com fotos e homenagens são voltados aos seus gestores. Há, exceções honrosas, como a da biblioteca da Unesp, Campus de Presidente Prudente, que leva o nome de Dióres Santos Abreu, um grande pesquisador, um grande leitor, um grande professor.
Não acho que o trabalho dos gestores de instituições universitárias não seja importante, afinal, muito depende da liderança deles e das lutas políticas que empreendem e são necessárias para haver mudanças significativas. Então, eles merecem, em algumas situações, a foto no painel que fica para a história. O problema é estar nessa tribuna de honra não é seletivo, todo mundo que ocupa um cargo de reitor ou diretor vai conquistar a posição de figurinha carimbada. Isso não se pode afirmar dos bons professores e bons pesquisadores, aqueles que, afinal, desempenham o papel essencial da universidade.
Fecho o parêntese e volto à Universidade de Viena: logo no saguão central que funciona como um hall de entrada e distribuição para vários braços do prédio, está o painel dedicado aos que são dessa instituição e foram agraciados com um prêmio Nobel.
É um painel bonito feito com barras de vidro temperado e já, por ocasião da outra visita, eu o havia fotografado. A novidade é que ele foi ampliado com o registro de uma jovem professora brindada recentemente com o Nobel de Química.
O prédio foi construído na segunda metade do século XIX, enquanto a Universidade de Viena é de 1365, segundo levantei na Web. Foi fundada em pelo Duque Rodolfo IV é a segunda mais antiga do mundo das línguas saxônicas (a mais antiga é de Praga de 1348).
Esta edificação, onde se realizou o congresso, foi construído na segunda metade do século XIX para abrigar a biblioteca Central, a Reitoria e outras funções da instituição. Sua construção foi parte do chamado projeto urbano da Ringstraße, que incluiu os prédios do Parlamento, Prefeitura e Ópera e que foi pensado para que o Império Austro-Húngaro reforçasse seu prestígio político e simbólico.
Vejam, no mapa, que ele está ladeado por um grande jardim, que o separa do prédio ocupado pelo Parlamento.
A imagem seguinte mostra a estrutura da construção, composta por três blocos: um principal que tem ao centro um amplo pátio interno e dois laterais, onde se situam a maior parte das salas de trabalho.
Gostei demais dos corredores-galerias que contornam o pátio central e fico imaginando quantos professores e estudantes passearam por este espaço, antes que estivéssemos ali para dialogar sobre desigualdades urbanas.
Ficamos com a impressão de que eram, sobretudo, encontros entre professores que já se conheciam antes. Víamos mais ou menos sempre as mesmas duplas ou trios e grande parte das pessoas andava sozinha, observando aquele ambiente tão bonito ou, simplesmente, checando mensagens no celular. Nós mesmos, durante os três dias, só conversamos com uma amiga da Universidade Federal Fluminense, outro da Universidade de São Paulo e uma terceira da Universidade do México. Foram em vão nossos esforços de dar continuidade à conversa, após nossa sessão de apresentação, com um colega que trabalha na Universidade do Chile. Ele é nascido na Alemanha, desenvolve pesquisas sobre economia regional latino-americana, comunicava-se muito bem em inglês, mas acabou abusando do que poderíamos qualificar como certo ar de superioridade… ou seja, foi gentil em relação à nossa proposta de trocar e-mails e textos, mas rapidamente apressou o passo e se juntou a um grupo conhecido, sem qualquer esforço para continuar o diálogo conosco.
Por que destaco esse ponto? Porque embora houvesse pesquisadores do mundo todo, minha avaliação é de que as decisões e, portanto, o programa (temas e convidados para as palestras principais, mesas redondas etc.) era definido pelos do Norte Global, ainda que desigualdades mesmo, quem as conhece somos nós do Sul Global.
Na sessão de abertura, informaram que foram submetidos 2500 trabalhos (dos quais 35% no último dia previsto para tal). Foram aceitos pouco mais de 800 textos para apresentação e o congresso tinha cerca de 1000 participantes. Como se vê, de cada três trabalhos propostos, um foi aceito para apresentação e, mesmo assim, não se pode dizer que foi um encontro pequeno, embora perto do ICA que costuma reunir cinco mil participantes, digamos que era um evento de médio porte.
O Brasil submeteu 132 propostas, ficando em 6ª posição no que se refere a este quesito, mas eles não divulgaram quantas foram aprovadas por país… Tive a impressão olhando o programa que não houve muita proporcionalidade entre o número de submissões e o de aprovações, segundo os países, pois o número de trabalhos de brasileiros não pareceu corresponder a 1/3 de 132. Ok, esse critério quantitativo não deveria mesmo ser o mais adequado, mas fiquei na dúvida se não é a identidade da comissão científica (predominantemente do Norte Global) com determinados temas mais afeitos a suas realidades, o que conduziu as escolhas. São suposições que, talvez, eu nem devesse registrar, mas como esse texto não tem compromisso com qualquer nível de acuidade científica, tenho direito de levantar hipóteses.
A principal palestra foi proferida por Mario L. Small, um professor estadunidense, alto (apesar do sobrenome), negro, superelegante e que trabalha no Departamento de Sociologia da Columbia University. Ele se comunicava com bom humor. Apoiava-se em slides que não conseguíamos ler, porque eram quadros cheios de números pequenos. Entremeava sua análise com pequenas piadas, que não foram entendidas muito facilmente pelos não anglofônicos de nascença…
O interessante é que, para tratar o tema eleito por ele – Large-ScaleData and Understanding Economic Inequality –, fez referência à sua pesquisa realizada no Central Park, no coração de Mahattan, em Nova York. Sabemos que também há desigualdades no coração do capitalismo e como há, mas nada que se pareça com aquelas observadas na Índia, na Bolívia ou no Congo, para não dizer que não falei de flores… Ops que não falei do Brasil. Aliás, fica o registro do título da nossa apresentação: “The elite in middle Brazilian cities: spatial proximity and social distance”, em que analisamos as narrativas de entrevistados da classe média e da elite, mostrando as identidades entre eles em Ribeirão Preto e Chapecó, com o objetivo de mostrar como desigualdades urbanas acentuadas, geram formas diversas de confirmar as diferenças entre nós (classe média e elite) e os outros (os pobres). É um dos resultados da pesquisa FragUrb financiada principalmente pela Fapesp. Vejam Eliseu apresentando nosso trabalho.
Voltando à palestra de boas-vindas, fiquei pensando que, mesmo com todos os esforços para se produzir, nas últimas duas décadas, uma episteme mais autônoma – conceituada como decolonial – lá estávamos nós batendo palmas para o professor dos EUA. Ele merecia nosso respeito e, portanto, as palmas, é claro, mas sinceramente, eu esperava uma palestra mais engajada e que fizesse um painel mais global sobre as desigualdades. Eu sei que as deles são menores que as nossas, mas isso é mais uma razão para a visão ter que ser mais abrangente e mostrar essas distinções.
De todo modo, foi uma abertura muito simpática, porque o Reitor falou em nome da universidade, os organizadores contaram um pouco dos bastidores do evento e a palestra fluiu polarizando a atenção do público. Essa cerimônia compôs um tempo de pouco mais de uma hora e meia (nós brasileiros, levaríamos três horas, inclusive porque não teríamos começado na hora).
Não fosse por outras razões, já foi uma maravilha conhecer a sala onde ocorreu esta abertura, que suponho seja uma espécie de salão nobre. Do nada, tive o ímpeto de olhar para o teto e me deparei com pinturas de Gustav Klimt – ele mesmo o grande pintor austríaco que nasceu nos subúrbios de Viena em 1862 e morreu nesta cidade em 1918, com apenas 55 anos. Não foi preciso ninguém dizer que eram dele porque seu estilo é inconfundível, com as pinceladas em dourado. As fotos que registrei já enquanto saíamos da sala ficam aquém da sua belezura.
A organização do evento foi ótima. Por razões de sustentabilidade, eles nos entregam uma sacolinha de algodão vazia, sem um caderninho para anotar, sem o programa impresso, sem folhetos onde se indicam restaurantes, sem nada. Para que a sacolinha? Já não chega nos restaurantes, termos que acessar os cardápios por QR Code… Fico com saudades dos primeiros congressos de que participei, quando recebia o livro de resumos e podia grifar as sessões que me interessavam mais. Eu sei que é importante ser politicamente correto, do ponto de vista ambiental, mas sinceramente me canso de andar todo tempo buscando informações no celular, cuja bateria, nestes dias em Viena, eu preferia guardar para consultar o Google Maps, escolher o que visitar no final do dia ou para fazer fotos.
À parte esse detalhe, tudo correu super bem. As sessões começavam e terminavam no horário previsto, os computadores e multimídias funcionavam, as salas estavam bem-preparadas. Essa é a escadaria que levava às salas onde as comunicações estavam se realizando.
Os coffee breaks da manhã e da tarde, bem como o brunch servido no almoço eram gostosos e suficientes para todos. Essas pausas agradáveis nos possibilitavam aproveitar os corredores-galerias e o pátio interno, numa Viena ensolarada, como a vimos durante toda a semana.
Sobre o hotel em que nos hospedamos, vale a pena tecer umas linhas. Ele foi reservado pelo Booking, a partir de uma avaliação que tomou como referência a relação entre preço razoável e boa localização. Chama-se The Social Hub Viena. Localiza-se na Estação Praterstern do Metrô, portanto a três estações da principal, pela linha U1 e a três estações da universidade pela linha U2.
O interessante é que, embora muito perto do coração da cidade, o hotel fica numa avenida em que predomina a combinação entre algumas edificações antigas como a que sedia a empresa de transporte OBB e prédios novos ou cujas fachadas passam por modernização com murais.
É bem diferente de outros hotéis em que já me hospedei. No andar térreo, há algumas ilhas onde recepcionistas atendem vários tipos de demandas, desde auxiliar os que precisam fazer o check-in num dos computadores disponíveis até providenciar uma balança para pesar malas. Neste mesmo ambiente tem ilhas para quem quer trabalhar, sofás redondos para quem quer ver TV deitado, redes que fazem o papel de chão entre o térreo e o subsolo, pequenas salinhas envidraçadas, geladeiras com bebidas disponíveis (desde que passe seu Visa ou Credicard, é claro), expositores de produtos à venda etc. etc. etc. O hotel oferece academia, aula de pilates, de ioga, lavanderia, porta bicicletas e outras coisinhas mais. Alguns andares são servidos por cozinhas que podem ser usadas pelos hóspedes para preparar refeições completas.
O apartamento é grande e seria excelente não fosse a ideia do decorador de colocar cortinas e pintar parte dos móveis e das paredes de preto. Já imaginaram procurar um tênis preto num móvel todo preto, num ambiente também pintado desta cor? A gente se sentia todo tempo na semiescuridão. À parte este detalhe, em função do ambiente espaçoso, da proximidade da estação de metrô que era também de trens regionais e da maravilha do café da manhã, recomendo este hotel. Ele tem um detalhe: não aceita hospedagens de curta duração – um ou dois dias. Como ficaríamos sete noites ele foi adequado…
Fico, hoje, por aqui.
Carminha Beltrão
Julho de 2026
















Ótima descrição da universidade Carminha! Ainda continuamos admirando as belezas cultivadas na Europa, não? Temos muito que cultivar e aprender com eles. Mas percebi sua preocupação , que é minha também, do leve desprezo dos europeus e americanos pelas nossas produções. Seremos sempre, para eles, os outros menores…
Um beijo e ótima continuação de viagem!
PS. Vá na quadra de museus de Viena, há quadros incríveis e meio chocantes de Egon Schiele