Bolívia e Peru 20

Salar de Uyuni

Cheguei ao capítulo 20 deste diário de viagem “Expedição à Bolívia e Peru”. Resolvi procurar pelo significado deste número e encontrei o seguinte:

Na numerologia, o número 20 é considerado um número de dualidade e equilíbrio. Ele representa a cooperação, a diplomacia, a harmonia e a parceria. Também está associado à intuição e à sensibilidade.

Fonte: https://loja.ibrath.com/blogs/o-que-significa-o-numero-20/o-que-significa -o-numero-20

Não que eu seja supersticiosa, mas achei a descrição uma boa metáfora para designar o Salar de Uyuni, ponto do nosso roteiro de viagem, que mais amei até agora. É provável que, no decorrer deste capítulo (e talvez seja necessário mais um), eu não consiga demonstrar por que este maravilhoso ambiente tem as mesmas características do número 20, mas vou me esforçar.

Imagine você, que está lendo esse blog agora, que durante o processo de formação da Cordilheira dos Andes, por meio do dobramento de placas tectônicas que se encontraram, uma parte da água do Pacífico, subiu junto com as elevações que se erguiam. Inicialmente, formou-se um imenso lago, mas com temperaturas altas e pouca chuva, ele secou e deu origem a este salar.

Pelo que li na web, em mais de um site, trata-se do mais alto deserto de sal do mundo, com 10 mil e tantos quilômetros quadrados, e está a mais de 3.600 metros acima do nível do mar. O brilho que ele tem e a lisura de sua camada externa serviram de orientação para os astronautas da Apollo 11, em 1969.

Não bastasse toda essa imensidão de sal e a beleza da camada fina de água que, em parte dele se acumula, formando um verdadeiro espelho, essa área contém cerca de 60% das reservas de lítio de mundo.

Dois dias depois de estarmos lá, vejo uma reportagem na Folha de São Paulo, informando que este salar foi eleito símbolo do turismo na Bolívia. Não é para menos. Se quiser conhecer mais sobre esse encanto da natureza, veja https://www1.folha.uol.com.br/folha/turismo/noticias/ult338u4783.shtml .

Pusemos a nos perguntar, meu marido e eu, que lugares do mundo tínhamos visitado cujo impacto da natureza nos deixou de queixo caído e lembramos de alguns: Perito Moreno, na Argentina; Deserto de Atacama, no Chile; Cataratas do Iguaçu, na fronteira entre o Brasil e a Argentina; o Grande Canyon nos Estados Unidos… e agora o Salar de Uyuni na Bolívia. Lembramos, então, que todos ficam na América.

É claro que já viajamos mais por este continente que pelos outros, mas acho que mesmo descontando esse aspecto, podemos afirmar que, na Europa, encantamo-nos com as maravilhas feitas pelos homens, mas na América, a Natureza caprichou muito.

Que fique claro que eu estou puxando a sardinha para o nosso lado e que não há qualquer imparcialidade na minha opinião, mas para não parecer demais, lembro que também adorei a graciosidade da Baía de Halong no Vietnã, considero que pouca coisa se compara às pradarias cheias de animais na África do Sul ou ao maravilhoso deserto que conhecemos a leste do Marrocos, ou, ainda, aos fiordes na Noruega…. E ainda falta tanto para conhecer.

Acho que a visita ao Salar de Uyuni também impressionou, porque ali é o encontro de duas situações naturais muito peculiares – o salar e o deserto – o que podemos associar à “dualidade e equilíbrio” para fazer referência ao número 20.

O mesmo acontece com o seu vizinho, o Atacama, mas o salar chileno tem 1/3 do tamanho de Uyuni.

Quando comecei a escrever este capítulo, há alguns minutos, pensei: “Carminha, seja econômica, não escreva muito, pois as fotos do salar falam por si”, mas como sou uma escrevinhadora, já preenchi duas laudas, incomodando você leitor, ao invés de ir logo ao ponto. Vamos a ele.

Assim, que entramos de veículo 4 x 4, no salar, a homogeneidade da superfície já impressiona demais.

No entanto, aos poucos vamos vendo que, no salar, não há apenas o sal que restou da evaporação da água do Pacífico, mas também camadas de pó que o vento desértico joga sobre essa superfície. Essa sobreposição de camadas vai solidificando o material que está ali depositado e que, depois, pode ser recortado compondo verdadeiros blocos que funcionam como tijolos.

É assim, por exemplo, que foi construído o hotel Palácio do Sal, onde nos hospedamos.

E é, com este material, que os moradores do povoado Colchani (procurem no mapa anterior, à direita da área do salar), também construíram uma série de esculturas que são visitadas pelos turistas logo na entrada do salar.

Aliás, por meio delas, vê-se de modo mais claro as listinhas que correspondem à alternância entre o sal puro e o sal misturado com a poeira do deserto.

Segundo nosso guia, Elliot (não me pergunte por que um boliviano se chama Elliot, porque eu perguntei a ele, que me respondeu que não faz a menor ideia), a Coreia é um dos países, do qual vêm mais turistas para conhecer o salar. No comportamento, no que se refere a fazer registros fotográficos, eles são iguais aos vizinhos japoneses: adoram poses e se esquecem que têm outros na fila para fazer suas fotos. Eram os únicos com sombrinha e faziam muito bem porque o sol era efetivamente de deserto.

Apesar de, ao longe, oferecer uma impressão de superfície completamente lisa, o salar é composto de hexágonos de sal, como eles chamam as células que são desenhadas com sobressalências, por onde evapora a água que continua a existir sob a camada de sal, que se petrificou a ponto de suportar a circulação de, pelos menos, cinquenta veículos (se bem observei o número de veículos que levavam turistas).

O salar é tão imenso, que a cordilheira ao fundo fica pequena, quando a observamos a partir dele.

A brancura do salar também ajuda a gente a prestar mais atenção nos desenhos das nuvens, possibilitando paralelo com a cooperação e a parceria associadas ao número 20.

Apenas numa pequena área do salar, a água brota do subsolo, como se estivesse borbulhando, embora cinco cm ao lado das bordas das pequenas crateras, o piso continue firme o suficiente para suportar o peso de um adulto.

Vou voltar ao salar, no próximo capítulo deste diário, porque as fotos da parte mais bonita ainda estão por vir. Agora quero incluir, algumas imagens do hotel Palácio de Sal, porque acho que a hospedagem nele vale a pena, pelo conforto e pela peculiaridade da construção ser feita de sal.

E este é o teto do nosso apartamento. A foto foi tirada da cama.

Por meio da foto da fachada, é possível ver as abóbadas que compõem os apartamentos e que, por dentro, estão alicerçadas nos blocos de sal.

Fonte: https://www.lanacion.com.ar/revista-lugares/uyuni-como-nacio-el-primer-hotel-de-sal-del-mundo-con-5-estrellas-nid10082022/

Fonte: https://www.es.kayak.com/Uyuni-Hoteles-Hotel-Palacio-De-Sal.389256.ksp

São ou não são ambientes que estimulam nossa intuição e sensibilidade?

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 19                       

Oruro

Fonte: https://www.istockphoto.com/es/search/2/image?mediatype=illustration&phrase=oruro+bolivia

O percurso entre Puno (Peru) e Oruro (Bolívia) foi marcado por uma passagem tranquila pela fronteira, em Desaguadero, o mesmo lugar onde, uma semana antes, tivemos dificuldades de obter os documentos para a entrada do nosso carro. Sair de um país sempre é mais fácil do que entrar, eu sei, mas de todo modo, sentimos uma sensação de alívio.

Ainda no Peru, as paisagens diferiam um pouco das que tínhamos apreciado antes, porque o tipo de habitat rural era peculiar e me agradava pela existência de muros entre as propriedades feitos de pedra. De algum modo, lembrei das paisagens rurais da Inglaterra, embora a arquitetura e os materiais das pequenas casas em nada lembrassem as inglesas.

Próximo à estrada, as habitações eram bastante pobres, mas não demonstravam qualquer situação de miséria.

Durante todo o trajeto, as elevações dos Andes nos acompanhavam, menos acentuadas do que no trecho anterior, do ponto de vista da altitude, mas bastante desenhadas pelos processos geomorfológicos milenares.

Em alguns trechos, a montanha estava terraceada para o desenvolvimento da agricultura e me perguntei se esse trabalho teria sido feito pelas nações indígenas, antes mesmo da chegada dos espanhóis.

A chegada em Oruro foi tranquila. A cidade tem mais de 260 mil habitantes e, como outras na Bolívia, está ladeada por montanhas. Neste caso, a cordilheira está a oeste e uma área plana estende-se à leste. Ao sul, o Lago Uru Uru, que não pudemos ver, porque praticamente secou.

Segundo a explicação de um motorista de táxi, quando começou a cair o nível do Titicaca, optaram por fechar as comportas do rio que ligava os dois lagos e o de Oruro praticamente secou. Vejam, na foto que fizemos do alto do morro que, ao longe, se vê muito pouca água na área que ocupava o lago.

A cidade tem sua origem associada à mineração. Quando foi fundada oficialmente, em 1606, já havia 15 mil pessoas aí assentadas – espanhóis, negros e indígenas das etnias uru, quéchua e aimará.

Perto da praça central havia uma espécie de outdoor com a explicação sobre a sua origem, logo acima de uma estátua dedicada à força da mulher, que aparece um pouquinho na parte inferior da foto. Não tive presença de espírito de fotografá-la, mas registro que, lamentavelmente, a imagem é de uma mulher branca, europeia, e não das que dominam as ruas em Oruro, nitidamente quéchuas ou aimarás.

A cidade cresceu em ritmos que oscilaram conforme o preço da prata. Era chamada antes de Vila Real de São Felipe de Áustria, segundo li na Wikipédia, e se notabilizou porque, em 1781, foi nela que se deu o primeiro grito libertador da América Latina, a partir da seguinte frase:

“Amigos paisanos e companheiros: em nenhuma ocasião, poderemos dar melhores provas de nosso amor à pátria, se não nesta. Não estimemos em nada nossas vidas. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Oruro

Foi interessante ler sobre esse passado de Oruro, porque na mesma praça onde ficava o Hotel Eden By Blue Bay, onde nos hospedamos, havia uma manifestação pacífica, mas contundente, com música, altos falantes e discursos, que começou na manhã do dia 14 de janeiro, varou a noite e estava firme no dia seguinte, quando deixamos a cidade.

Acabei fazendo algum paralelo e ficando com a imagem que o povo de Oruro é lutador. O protesto agora não era contra os reis de Espanha nem visavam a independência, mas em defesa dos trabalhadores de obras e contra Paola Condori.

Tentei descobrir direitinho quem é a Paola, mas não ficou muito claro. Parece que ela é a engenheira que comanda obras no município e contra a qual os trabalhadores associados ao Sindicato Mixto lutavam. Do outro lado da rua, os policias assistiam à sombra, calmamente.

Bom, já que eu escrevi o nome do hotel que se localiza na praça central, preciso fazer dois comentários: – não vale a pena se hospedar lá quando fores a Oruro (não que haja outras opções melhores), porque o preço é alto e o serviço fraquinho; – vejam a arquitetura do prédio, para lá de pós-moderna, porque sobre a construção colonial ergue-se um prédio de vidro, com elevador panorâmico.

Já tinha visto outras combinações deste tipo – manutenção da edificação antiga, geralmente de valor histórico e construção da nova – tanto em São Paulo como em Curitiba, mas sinceramente, a solução encontrada aqui ficou para lá de esquisita. Além de tudo, internamente, o hotel não é nem colonial, nem moderno. Escadas redondas de granito misturam-se a jardineiras com flores de plástico. 

Desde que começamos essa “expedição”, Oruro é, do nosso roteiro de cidades escolhidas para visitação, a que menos gostei. Ela tem um certo ar de decadência e muito lixo por todo lado, mas como tudo na vida, ela tem seus lados positivos.

A praça central denominada 10 de Febrero é agradável. O prédio do governo departamental de Oruro localiza-se nela e é bem bonito, com suas arcadas à moda hispânica.

Numa elevação a uns 500 metros (foi duro subir até lá) está o Santuário de la Virgen de Socavon que, para mim, destacou-se pelo azul do seu teto.

Logo ao lado deste santuário estava a estação de teleférico que deveria nos levar ao alto do morro, onde no começo dos anos de 2000 foi inaugurado um monumento para a mesma virgem.

Tivemos a informação de que o moderno sistema de transporte só funcionava às quartas-feiras, aos sábados e domingos, e era uma terça-feira. Lá fomos nós de taxi, o que foi ótimo, porque o motorista respondia às nossas perguntas e acabou reforçando, com suas explicações, a primeira impressão nossa de que a cidade não vai bem. No entanto, além de rapidamente demonstrar que era bem de “direita” e pessimista, suas interpretações batiam sempre na mesma tecla: “Os políticos na Bolívia não valem nada, são todos corruptos”. Não que ele não possa ter alguma razão, mas uma explicação como esta nem sempre é suficiente.

A mulher da foto não tenho ideia de quem seja, mas como o fluxo de pessoas que cruzavam por ali era grande, o jeito foi ficar com ela na frente da virgem.

O bom de subir o morro foram as fotos da cidade que pudemos registrar.

E foram lindas vistas, com as explicações do Eliseu sobre a expansão urbana.

A altitude de Oruro – 3.735 metros – atingiu-me de cheio, pois tive grande dificuldade de caminhar, quando havia aclives ou declives, alguns dos quais com escadarias imensas, pois imediatamente meu coração disparava.  Vejam o tamanho da escadaria que dá acesso ao Farol de Concupata. Fiquei quietinha no degrau inferior, aguardando…

Eliseu aproveitou mais e, inclusive, visitou o Museu de Minería, um túnel de uma antiga mina de estanho, 30 metros abaixo da superfície, com apetrechos dos mineradores (pequenos vagões, calculadoras, teodolitos, escafandros, vestimentas de vários tipos etc) e duas estátuas do “tio de la mina”, uma espécie de protetor religioso dos trabalhadores deste metiê, que aparentava um velho, de cara escurecida pelos gases do subsolo, mas de boa índole. Lá, o guia informou que deve haver, aproximadamente, 250 km de túneis de antigas minas, que se interligam, abaixo da cidade de Oruro.

Do que eu mais gostei em Oruro? Do Typica Café. Fica numa rua comercial do centro tradicional. Está instalado numa casa com um pátio interno. A fachada não é nada chamativa, mas entramos, em busca de um cafezinho às 11h da manhã, após uma visita que não foi grande coisa no Museu Simon Patiño de Oruro. Lembram que escrevi sobre o museu da fundação que leva o seu nome em Cochabamba? Valeria a pena umas linhas sobre este senhor, mas ficará para outro capítulo, porque as histórias sobre ele estão por toda a Bolívia.

Gostamos tanto do café, com seus móveis antigos, cardápio variado e serviço atenciosa, que voltamos ao entardecer e ali ficamos por um bom tempo, eu escrevendo algum capítulo deste diário, Eliseu olhando notícias na internet…

Não é um charme este lugar? Se fores a Oruro, não deixes de passar pelo Typica Café.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 18

De Cusco fomos a Puno, a cidade mais importante às margens do Titicaca, pelo lado peruano. Foi um revival, porque já tínhamos estado nesta cidade, com um grupo de amigos, há uma década e resolvemos ficar no mesmo hotel, que continua ótimo, mas agora, adquirido por uma empresa colombiana, chama-se GHL Hotel Lago Titicaca Puno e não mais Hotel Libertador Lake Titicaca.

O trajeto feito para chegar a Puno foi agradável. A estrada não é uma Brastemp, mas está bastante boa. Além do mais as paisagens, que já descrevi no capítulo 12 deste diário de expedição, são magníficas.

Gostei de ter passado por Juliaca, uma cidade que não é turística e tem cerca de 270 mil habitantes, porque assim pude ver uma cidade “normal” do Peru que não tenha passado por todos as influências, que a análise científica chama, hoje, de ‘turistificação do espaço’.

Impressionou muito o movimento comercial da cidade. As lojas estavam abertas, mas também havia barracas nas calçadas e carrinhos que se movimentavam vendendo de tudo. Era sábado.

Impressiona muito, tanto no Peru como na Bolívia, a importância que tem o transporte por vans. Já escrevi sobre isso, no capítulo sobre La Paz e reforço aqui, descrevendo rapidamente Juliaca: a maior parte das vias está tomada por esses veículos que fazem tanto percursos urbanos, como interurbanos, visto que os agricultores que vêm vender seus produtos na cidade também utilizam esse modal, como já tínhamos observado nas rodovias onde as vans estão e param a qualquer aceno [Aproveitem para reparar, nas fotos, a confusão que é a fiação elétrica por aqui – deve ter muito gato].

Em Juliaca, também, os tuk tuks são importantes no transporte urbano, pelo que observei para as distâncias menores. Fazem filas perto das áreas comerciais, à espera dos fregueses.

Também há cholitas no Peru, mas elas são em menor número e não usam a saia com várias camadas de anáguas e enchimentos. Ademais, observando bem, parece que as peruanas são menos gorditas que as bolivianas.

Acho que é melhor voltar ao foco deste capítulo – Puno – se não fico fazendo aula de Geografia Urbana em diário de viagem e, portanto, que é de férias e não de trabalho…

A vista do Lago Titicaca que tínhamos, a partir do nosso apartamento no hotel, estava deslumbrante no final do dia 13 de janeiro de 2024, quando chegamos. O sol se pondo, a água brilhando, e os tufos de junco flutuando.

No dia seguinte, quando acordamos a paisagem iluminada pelo sol era igualmente bárbara.

Da nossa janela, também vimos guanacos (ou seriam alpacas?) pastoreando no jardim do hotel.

Observando o hotel de longe, achei que o arquiteto da edificação deve ter tido a intenção de fazê-lo parecer a um transatlântico. Essa forma possibilita que todos os apartamentos tenham vista para o lago. Da outra feita, ficamos num apartamento virado para a face da cidade. Agora estávamos observando a face que tem, ao fundo, as ocupações dos Uros, sobre as quais escrevo alguma coisa logo mais. Agora, vejam a localização do hotel numa pequena península ao norte da baía.

Por cima, até que não parece tanto um transatlântico, mas vejam pela lateral.

Gostei demais de rever o hotel. A decoração é agradável, os ambientes convidam a permanecer e, além de tudo, os objetos que adornam os espaços são muito bonitos. As fotos que se seguem estão incluídas, especialmente, para a Christina que tem memória ótima e curtiu esse hotel, na viagem anterior.

Ok, o hotel está uma delícia de bom, mas vamos ao que interessa em Puno: o passeio pelo lago. Ele é contratado já nos hotéis da cidade. Observei que, se alguém chegar, sem o intermédio de uma agência, terá alguma dificuldade de ter acesso a uma embarcação.

Os preços do passeio são altos, penso que calculam sempre em dólares ou euros, porque os principais turistas por aqui vêm do Hemisfério Norte.

Nosso guia se chamava Carlos e veio nos pegar com um táxi na porta do hotel. Em 15 minutos chegamos ao pequeno porto.

Aos poucos, conversando com ele, vimos que o passeio contratado tinha muitas variáveis intervenientes, que não são explicadas pela mocinha peruana, bem maquiada, que, numa sala bem decorada do hotel, vende o pacote para a gente.

Sim, era verdade que o passeio era privado, ou seja, iríamos só nos dois na lancha a motor, mas Carlos explicou que não podemos escolher a lancha, pois elas pertencem a uma associação da comunidade de Uros e são eles que decidem. Conversa daqui, conversa dali, e um rapaz disse que a nossa lancha era a número 8.

Elas ficam atracadas, umas ao lado das outras. Apenas duas delas estão acessíveis a partir do pequeno cais. Para chegar as demais você vai pulando de lancha em lancha. Assim, chegamos na oitava…

Não tive presença de espírito de pedir para Carlos fazer o registro fotográfico dos nossos pulos, pois sairiam flashs engraçados. Também vejo agora consultando o arquivo das fotos que não fiz uma do barco. Não valia nada a pena. Era velho, o motor rangia alto e o vidro era alto demais para quem se sentava nos bancos que estavam na parte envidraçada. Solução? Subir para a parte superior e ficar se equilibrando, conforme barcos maiores cruzavam pelo nosso e faziam verdadeiras ondas, como se estivéssemos no mar.

Os barcos navegam em raias entre as fileiras de tufos de junco. Carlos explica que por causa do El Niño, o nível do lago baixou 1,5m e isso exigem que a navegação, nesta área perto de Puno, seja feita com mais cuidado. No centro do lago, esse 1,5m a menos não faz tanta diferença, mas nas margens sim.

Aos poucos, lá estávamos nós perto das ilhas dos Uros.

Vejam o que a Wikipédia explica sobre eles:

Os Uros ou Urus (Em uru: Qhas Qut suñi) são uma etnia que habita uma vasta região entre a Bolívia e o Peru.

Na Bolívia estão hoje cerca de 2600 indígenas que se estabeleceram nas bordas de rios e lagos. Do lado peruano são cerca de 2 mil Uros, que vivem principalmente no local denominado Ilhas Flutuantes dos Uros, sobre o Lago Titicaca ou às margens dele, próximo a cidade de Puno. Em princípio, os Uros falavam seu próprio idioma, o uruquilla, mas devido a terem assimilado a cultura dos Aimarás, pelos quais foram dominados por longo período, perderam sua língua própria.

A existência dos Uros naquela região já se verifica desde a era pré-colombiana, quando desenvolveram a habilidade de habitarem sobre as ilhas flutuantes, tendo em vista maior segurança. Desde tempos remotos, os Uros sobrevivem através da pesca, da caça de aves e da coleta de ovos de aves. Ultimamente têm se aplicado ao turismo, onde apresentam seu peculiar modo de vida e seu artesanato. Indivíduos Uros, especialmente os que não atuam no turismo, têm como atividade laboral o trueque, forma de comércio informal em que comunidades tradicionais trocam mercadorias em feiras próprias para esse fim. Dessa forma, esses Uros trocam seu .

Os Uros possuem uma relação especial com o Lago Titicaca. De acordo com historiadores, para não serem escravizados, esses indígenas se embrenharam em meio a vegetação de totora no interior do Titicaca, escondendo-se em balsas. Posteriormente, tiveram a engenhosidade de construir plataformas artificiais, hoje comumente chamadas de ilhas flutuantes, com o abundante junco que predomina no lago.

Carlos informou que essa nação indígena tem, perante o governo peruano, o estatuto de independentes. Não pagam impostos, têm suas normas próprias e o direito de dar continuidade às suas práticas centenárias. Como estive há dez anos visitando essas mesmas ilhas, senti que as mudanças são muitas.

Em primeiro lugar, naquela ocasião, fiquei com a impressão que eram algumas ilhas. Hoje são 150. Como elas não são ilhas que se constituem naturalmente, porque dependem de haver o trabalho de acumular o junco em camadas pelos que as desejam ocupar, deduzi que o negócio do turismo estava sendo rentável e mais ilhas foram sendo “construídas”, formando hoje um “colar” delas.

Carlos explicou que as grandes embarcações que, ainda, continuam a ser feitas em junco, hoje são “recheadas” de garrafas pets vazias de modo a diminuir a quantidade daquela matéria prima e tornar o barco mais leve.

As lanchas com turistas não param de chegar e este volume de turismo levou, sem bem observei, a um adensamento da ocupação e várias iniciativas. Por exemplo, já há uma ilha com as implantações voltadas à comunidade, como um campo de futebol, em que os meninos se divertiam nesta manhã de domingo.

Algumas das construções sobre as ilhas, já não são feitas de junco, mas sim de madeira com telhado de zinco. O governo peruano, considerando que era importante, promoveu um programa de banheiros para as ilhas. Carlos explicou que eles usam a pequena casinha para guardar coisas e não se acostumaram a esta prática sanitária. Vejam na foto, as caixas d’água sobre as tais construções.

Segundo ele, ainda, hoje 50 das 150 ilhas são ocupadas por hotéis, que eles qualificam como lodges. Nós mesmos tínhamos reserva em um deles, mas tivemos que cancelar quando houve a mudança de cronograma face às dificuldades para passar na fronteira peruana com o carro.

Algumas ilhas são mais bonitas, olhando de longe.

No entanto, descemos naquela cuja embarcação para: a da família do condutor do barco.

Tudo muito simples. Ali moram cinco famílias. Cada uma ocupa uma “cabana” de um cômodo e uma segunda que faz as vezes de cozinha. Eu preferi não entrar na cabana, porque o degrau era alto, a porta baixa e o cheiro de umidade interno poderia me fazer marear o estômago. Todo o tempo que você está ali, tanto eles como Carlos, de modo gentil, querem te induzir a comprar artesanato, nem sempre bonito. É um pouco constrangedor porque já pagamos caro pelo passeio, eles recebem percentual da agência, é um deles que dirige o barco e, portanto, já estamos quites.

Os bordados tem seu valor, mas estavam menos bonitos do que os que estão nas fotos da internet.

Fonte: https://www.fragatasurprise.com/2010/11/ilhas-uros-peru.html

Da outra vez que fui a Uros comprei um pano preto, bordado em laranja e vermelho (parecido com este que está no colo da mulher à direita. Agora para não sermos simpáticos, ficamos um barquinho parecido com este abaixo, mas bem menos elaborado. É assim, no mundo da publicidade: as fotos e representações são mais espetaculares que a realidade.

Fonte: https://www.tripadvisor.com.br/LocationPhotoDirectLink-g298442-d318207-i113381920

Fiquei bastante decepcionada como fato de o povo Uros, embora viva com base naquilo que a Natureza oferece, do ponto de vista do seu habitat, tem também com ela uma relação bastante predatória. Havia garrafas pets boiando em torno das ilhas. Na hora em que já íamos para a nossa ‘maravilhosa’ lancha, eles nos mostraram com orgulho, o flamingo que tinham “caçado” e que mantinham em cativeiro para qualquer dia traçar e um cachorro que dormia numa sobra e que também iria virar almoço. Pensando bem, como seria diferente? Eles não são agricultores, mas pescadores e caçadores… Será que é por causa da caça deles que, diferentemente da vez anterior, não vimos flamingos no Titicaca?

Valeu a pena rever Uros? Claro que sim, pela possibilidade de comparação entre as duas experiências, pela chance de rever o Titicaca. Além disso, no final da visita, paramos numa ilha que tem o papel de sede da comunidade, para tomar um café (simplesmente horrível) e uma coca (como em todo lugar do mundo, para ver que até os Uros se globalizam e ficam sob influência das transnacionais). Encetamos, então, uma conversa com Carlos sobre a política no Peru.

Ele fez referência hiper negativa a Fujimori e sua filha que, agora, insiste em concorrer nas eleições. Elogiou, de passagem, Lula. Disse que houve uma melhoria, ainda que pequena, no que se refere a maior respeito aos povos de origem nas nações indígenas anteriores à chegada dos espanhóis. Aliás, aproveitei para fazer mentalmente comparações e buscando na memória observações feitas durante esta “expedição” e achei (só achei, precisaria de mais informações para ter uma opinião mais abalizada) que o avanço foi maior na Bolívia, onde se veem outdoors e imagens por todo lado, valorizando esses grupos, o que parece ter sido o maior feito de Evo Morales, quando foi presidente deste país.

Carlos também explicou que a decisão governamental de fechar muitas universidades privadas sem qualidade levou à diminuição do acesso ao ensino superior para os que trabalham. Em Puno, há uma instituição superior pública, com um mega estádio e ele explicou que é difícil acesso a uma vaga. Estabeleci algum paralelo com o Brasil de 15 ou 20 anos atrás, porque hoje sobram vagas nas universidades públicas brasileiras.

Ficou todo animado quando soube que somos professores universitários. Disse que estudava francês, com a expectativa de um dia ir estudar na Sorbonne. Fizemos, então, referência a termos feito pós-doutorado lá e ele ficou em êxtase. Pediu que mandássemos livros em PDF a ele e perguntou muitas coisas.

Fiquei pensando se ele com 33 anos, já com dois filhos e com um emprego de guia freelancer teria chance de ir para a França. Depois, lembrei da história de muitos de nossos alunos e na nossa própria história e conclui que, sim, se houver ensino público de qualidade, essa chance aparecerá. Olha ele aí.

Logo em seguida, Eliseu remeteu a ele PDFs de vários livros que tinha em seu computador. Até agora ele não reagiu!

Ao final do passeio, vislumbramos a cidade se estender pela montanha. Descemos no pequeno cais e Carlos e o motorista, que já era outro, deixaram-nos no centrinho de Puno, que estava animado, mas a catedral, como grande parte das igrejas que pretendemos conhecer por dentro nesta viagem, estava fechada.

Comemos por ali, passeamos no calçadão e voltamos para o hotel. Como? De Tuk Tuk porque não podíamos perder a chance de experimentar.

O banco dos passageiros era apertadinho e estava separado do motorista por uma grade que quase não me dava distância suficiente para fazer uma self.

Fomos aos trancos e barrancos, porque as rodas pequenas do veículo são super sensíveis ao asfalto todo esburacado de Puno. Chegamos rindo no hotel e, ainda, deu para fotografar o corajoso veículo.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 17

Copacabana, mas não a carioca

Tivemos a oportunidade de ladear o Lago Titicaca (Titikaka para os indígenas) por mais de um dia durante essa expedição, assim como pudemos apreciá-lo a partir de Copacabana, na Bolívia, e de Puno, no Peru.

As explicações sobre a origem e significado do nome são muitas, mas a mais aceita é de que o termo quer dizer “Pedra do Puma”, misturando palavras Quíchua e Aimará, duas nações indígenas importantes na ocupação deste território.

Nos dois países – Bolívia e Peru – há sempre falas elogiosas ao lago mais alto do mundo. Ele é bonito mesmo. Não escrevi sobre ele, nos dias em que, pela primeira vez, estava lhe vislumbrando, porque fui atrapalhada pela premência de descrever a epopeia da passagem pela aduana…

Agora já na volta de Cusco, curtindo esse lago novamente, achei que não podia deixar de fazer esse capítulo e o seguinte em homenagem a essa enorme lâmina d’água que paira sobre os Andes, solene, em contraponto a uma paisagem bastante árida, que marca esse altiplano, onde as chuvas não são abundantes.

Constitui uma área de 8.372 km2 com uma profundidade média de 107 m e é navegável. É tão extenso que tem quatro ilhas importantes dentro dele: Taquile, Sol, Luna e Suriqui. Está a 3.800 metros de altitude.

Saindo de La Paz em direção à Copacabana, a sensação de altura já nos tocava, tanto pela enorme diferença de altitude entre esta cidade (3.400m) e a que está justaposta a ela, El Alto (4.100m), como porque, ao sairmos pela autopista de oeste, que possibilita  circulação menos meândrica, do que a experimentada na chegada, vislumbramos elevações que, mesmo no verão, mantêm neve em seu cume.

Em direção a Copacabana, mal deixamos a região metropolitana, já vemos o Titicaca à nossa esquerda.

Planejando o caminho pelo Google Maps, não chegamos a perceber que havia um momento do percurso em que a rodovia se interrompe. É no Estreito de Tiquina, vejam no mapa como o lago quase chega a se dividir em dois, neste ponto.

Deparamo-nos com um sistema de balsa, tanto precário quanto eficiente. Como assim? Pois é, apesar da simplicidade da balsa que era puxada por um barco a motor, para lá de Bagdá, achei que o serviço era bom. Claro que para chegar a essa opinião, houve todo um processo de relativização da situação.

Tendo perguntado, soubemos que cada transfer custava 80 bolivianos (cerca de 55 reais). Caso não quiséssemos esperar por um segundo carro, poderíamos pagar o preço integral e atravessarmos sozinhos. Foi assim que fizemos. A rapidez e a simplicidade do sistema acabaram levando a certa agilidade que caracterizo como eficiência.

Cada balsa era composta de tábuas largas de madeira que pareciam apenas sobrepostas, sem estarem presas, à estrutura inferior a elas. A falta de uma tábua ou outra dava medo, é claro, mas lá fomos nós.

Às margens do lago, algumas mulheres lavavam roupa, tranquilamente, aparentemente sem prestar atenção nos turistas, que pareciam ser os que predominantemente atravessavam o lago.

Como o seguro morreu de velho, sugeri a Eliseu, que saíssemos logo de dentro do carro, porque se aquela balsa se partisse em dois ou virasse, iria o carro sem a gente dentro, o que poderia ser mais fácil para tentar nadar…

Lá fiquei, vivendo aquela travessia, ao mesmo tempo, perigosa, em função do meio de navegação, e agradável, pela linda cor da água e o do céu. O único banco disponível era a tampa da caixa de ferramentas, a um triz de um dos muitos orifícios no piso da embarcação.

Não é um azul demais de lindo?

Outras balsas cruzavam e me dei conta que se tivesse pipocas comigo teria tido a chance de ver as aves voarem acima da nossa. Os pássaros são como os bolivianos, adoram uma pipoca doce. Aqui elas são vendidas em qualquer lugar e são crocantes e deliciosas.

Feita a travessia, voltamos a subir e a distância que nos separava de Copacabana foi vencida por um trecho de estrada maravilhoso, sobre as montanhas. Pena que não havia qualquer chance de parar o veículo, por falta de acostamento. Teria possibilitado fotos mais bonitas.

Quem teve a ideia de plantar essa fileira de árvores no cume desta pequena serra?

Aqui e ali os carneiros pastoreavam tão espremidos entre a estrada e as montanhas ou ribanceiras, que subiam por vezes no asfalto e eu tinha a impressão que não escaparíamos de atropelar um deles.

O mapa turístico, disposto na rodovia, mostrava que havia muita coisa para ver por ali, mas seguimos em frente dispostos a chegar antes do entardecer em nosso destino.

Chegamos em tempo de nos acomodar no Hotel Rosário, situado numa leve encosta em frente ao lago e na pequena cidade.

Que tal o pôr do sol que fotografamos da varanda do nosso apartamento? A foto do começo do capítulo foi feita minutos antes.

O hotel era ótimo – agradavelmente decorado com elementos da cultura inca e bem confortável.

Copacabana vale a visita? Chega, ao menos, aos pés do charme da Copacabana carioca? É difícil incorporar duas cidades tão diferentes, mas na minha opinião, não. Trata-se de uma cidade pequena que invade o lago com dezenas de embarcações, inclusive essas que no Brasil chamamos de “banana bolt” visando a locação para turistas. A linha de barracas e o grande número de pessoas vendendo bugigangas impedem que se curta a linda paisagem lacustre.

Dali passamos a fronteira para o Peru, em Yuncuyo, o que já descrevi no capítulo 12 deste diário de expedição (https://carminhabeltrao.com/2024/01/11/bolivia-e-peru-12/) e, ainda continuamos por uns km a ladear o Titicaca.

Em alguns trechos haviam placas indicando a existência de praias. Entramos num desses atalhos, percorremos um ou dois km e nos deparamos com uma faixa larga de areia linda, mas, infelizmente, com muito lixo deixado por grupos que, suponho, frequentam aquele espaço nos finais de semana.

Vamos acabar o capítulo com uma imagem mais bonita do lago, não é mesmo?

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 16

Fonte: https://depositphotos.com/br/vectors/lugares.html

Cusco não vive só no passado, como pode parecer no último post que fiz, cheio de imagens de igrejas e museus. Há os lugares do presente, que apoiam a vida do turismo que, hoje, é a base econômica da cidade.

Entre os lugares que conhecemos aqui, também faço minha seleção, para falar da Cusco contemporânea.

Adorei o Restaurante Morena, que exigia antecedência e reservas para sentar-se em uma de suas mesas, mas valia a pena.

É o tipo de restaurante do qual gosto. Bem decorado, agradável, com boa comida, sem ser metido a besta, ou seja, sem grandes formalidades. A primeira refeição foi tão boa que voltamos no dia seguinte, sempre conseguindo sentarmo-nos à janelinha tão especial que possibilita ver o espaço público da Plaza de las Armas.

Os bancos do bar, logo na entrada, eu achei super bonitos. Vou tentar copiar com a habilidade do marceneiro Luiz Carlos de Anhumas.

Gostamos tanto que fomos duas vezes a este restaurante. Eu sempre escolho os pratos mais exóticos, como a carne de alpaca e o cuy (uma espécie de preá do altiplano andino). Eliseu gosta de reafirmar sua auto visão de ser um “homem das massas” e escolheu nhoque.

Já está com água na boca? Tem mais.

O cuy é saboroso, mas só recomendo para quem tem paciência de retirar fiapos de carne entre os ossinhos. O gosto da carne não é nem de porco, nem de galinha. Acho que ficaria mais próximo do pato. As batatinhas assadas à esquerda e o milho à direita estavam ótimos.

As flores que acompanham os pratos são comestíveis e gostosas.

A sobremesa foi tão deliciosa como linda, pois o bolo de chocolate com sorvete na casca de cacau ficou muito especial.

A limonada não poderia ser servida de modo mais charmoso que este, não é mesmo?

Outro lugar especial em Cusco foi o Hotel Boutique Tambo del Arriero.  Nas duas primeiras noites ficamos no Hotel Hacienda, que não recomendo por causa do excesso de grupos de turismo que dominam a recepção, dificultando a nosotros obtermos alguma informação ou sermos atendidos.

Como resolvemos passar mais um dia em Cusco, deixamos o Hacienda e encontramos lugar na mesma rua, no Tambo. Alojado num antigo casarão de dois pisos com dois pátios internos, compõem um ambiente extremamente agradável. Sintetiza uma boa mistura de elementos da arquitetura colonial cusquenha que tem influência hispânica, com objetos e mantas da cultura inca ou de outras nações indígenas.

Ficamos no amplo apartamento 102.

A recepção sempre com flores naturais e compondo um ambiente fresquinho era um oásis quando chegávamos da rua onde, apesar das temperaturas relativamente baixas no começo e no final do dia, quando a altitude é 3400 metros, o sol torna-se implacável.

Os pátios internos eram convidativos para a permanência e os vasos em barro, verdadeiros potes com plantas nativas compunham um conjunto muito agradável.

O café da manhã era ótimo e todos da recepção aos serviços de alimentação e limpeza eram super agradáveis.

O que um hóspede quer? Segundo um grande amigo que já se foi, ele quer carinho. Pois é, no Tambo você tem carinho.

Os lugares de compras em Cusco também são convidativos, embora seja necessário pensar duas vezes. O que é muito barato, via de regra, é já totalmente industrializado e, muitas vezes, não têm qualidade. O que tem qualidade não custa nada barato.

É grande o número de lojas de roupas de lã de alpaca pertencentes a redes que também estão em Lima e outras cidades. Adorei, na loja em que estivemos para comprar algumas peças, ver a foto das alpacas. Fiquei com remorso de ter degustado a carne de uma no dia anterior.

Até aqui escrevi sobre a Cusco dos turistas, mas ela é muito mais que isso e como professora de Geografia Urbana, também gosto das outras Cuscos.

 Trata-se de uma cidade de quase 430 mil habitantes, segundo a contagem feita em 2017.

Como já escrevi, foi capital do Império Inca. Atualmente é o nome dado a uma das 25 regiões do Peru e é composta de 13 províncias.

A cidade tem seu lado B, como tudo na vida. Ele é constituído de uma extensiva área residencial destinada sobretudo aos mais pobres, embora haja bairros ocupados por classes média e alta.

Os bairros mais populares têm o mesmo padrão construtivo que vimos em La Paz: imóveis sempre inacabados e prontos para continuar a subir. Todos eles deixam os ferros que estão nas colunas de concreto prontos para receber mais um ou vários pavimentos.

Alguns chegam a alcançar até a 8 andares sem elevador. Isso é bom, porque ninguém terá flacidez ou celulite. [risos]

Logo na entrada da cidade está a estátua de Tupac Amaru. Espero que eu não esteja fazendo confusão, mas deve ser o Túpac Amaru II que, de acordo com a Wikipédia, era mestiço, viveu entre 1738 e 1781. Nascido José Gabriel Condorcanqui Noguera, tinha origem nobre, mas assumiu sua ascendência indígena e conduziu uma rebelião anticolonial.

Os morros apertam o vale, por onde se estende a cidade e até o final dela.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 15

Cusco: arte e cultura

Fonte: https://pt.vecteezy.com/arte-vetorial/20600215

Cusco é uma cidade que tem lugares que são bem especiais.

Como essa é nossa segunda vez nesta cidade, optamos pelo usufruto de um tempo mais lento, sem qualquer intenção de ver ou rever tudo que os guias ou sites turísticos recomendam.

Assim, foi possível “degustar” mais os lugares, mais do que apenas ir ticando uma lista infinda de visitas a serem feitas.

Começamos pela Iglesia de la Companhia de Jesús, situada na Plaza de las Armas, também conhecida como Mayor.

Ela está construída no mesmo terreno em que estava antes o palácio inca Amarucancha. Segundo a Wikipédia, os jesuítas chegaram em Cusco em 1571 e foram autorizados a se apropriar de Amarucancha que, a esta altura, era dos herdeiros de Pizarro, o espanhol que primeiro dominou Cusco. A primeira igreja foi demolida pelo terremoto de 1650 e logo depois teve início a construção da atual edificação. 

Fonte: https://es.wikipedia.org/wiki/Iglesia_de_la_Compa%C3%B1%C3%ADa_(Cuzco)#/media

Não se trata de uma construção suntuosa, mas há dentro dela altares, retábulos e imagens que encantam pelo folheado em ouro e pela mescla de traços europeus e traços indígenas, nas fisionomias e corpos representados.

Na sala lateral à igreja havia uma exposição de presépios – um mais lindo que o outro – sendo que os que mais me interessaram foram os que expressavam esta mescla de civilizações que caracteriza Cusco.

No dia seguinte, para não ter uma overdose de igrejas no mesmo dia, revimos a Catedral de Cusco, que havíamos conhecido minuciosamente com o guia que nos acompanhou há 10 anos.

Ele era professor universitário no campo da Antropologia e Arqueologia, e foi excelente nas explicações que nos oferecia.

Ao entrarmos no recinto, constatamos que não nos lembrávamos de muita coisa. Senti uma certa sensação de perda por não reter tanta coisa interessante que aprendemos. Li em algum lugar que retemos cerca de 10% apenas do que lemos ou vivemos e que ficaríamos loucos se conseguíssemos reter tudo.

Desse ponto de vista, é bom rever os lugares, para reativar parte dos 90% que foram olvidados. Adoro o verbo olvidar e suas derivações substantivas e  adjetivas porque acho que ele é mais que esquecer… que seria a tradução mais imediata, mas não sei explicar bem por que sinto essa diferença.

Efetivamente, esta igreja é grandiosa. O número de altares laterais, a magnificência do coro talhado em madeira, a beleza das imagens e das pinturas… É difícil até entender por que, por exemplo, não é tão famosa como a Notre Dame.

Por ser um cartão de visitas da Cusco espanhola, talvez esteja melhor preservada do que a dos jesuítas. Foi o que deduzi ao observar que o folheado de ouro dever ter sido recuperado recentemente, as madeiras estavam lustrosas, o chão limpíssimo.

Não era permitido fazer registros fotográficos, o que não concordo, porque se eles não forem efetuados com flash não prejudicam as obras expostas. Ademais, nem havia uma lojinha ao final da visita para se comprar os cartões que substituem as fotos, como ocorre em visitas similares na Europa, por exemplo.

Pronto, lá estava eu novamente cometendo delitos. Já não basta as maracutaias para obter combustível na Bolívia, eu estava fazendo sorrateiramente algumas fotos. Nem todas ficaram enquadradas, é claro, porque era preciso fazer uma ginástica grande para esconder o celular da visão de outrem.

Adorei o Cristo, praticamente negro, entre Maria e José alvos. Segundo informações, a maior parte das pinturas e estátuas foram feitas por indígenas, por isso são anônimas e revelam a mestiçagem que marcou a invasão espanhola na América andina.

Essa magnífica catedral levou um século para ser construída e foi concluída em 1654, apesar de sua abóbada ter sofrido um pouco com o terremoto de quatro anos antes.

Os registros fotográficos que incluo aqui são parte pequena do que há dentro dela para ser visto. Copio na sequência duas fotos da sala reservada ao coro, no meio da igreja. Vejam os detalhes. É um espaço maravilhoso e não é possível imaginar quantos artesãos e quantos anos foram necessários para se fazer essa beleza. O coro é mais lindo que o da Catedral de Amiens, famoso pelos detalhes.

Fonte: https://www.machupicchu.biz/la-catedral-del-cusco

Fonte: https://en.m.wikipedia.org/wiki/File:Siller%C3%ADa_del_coro,_Catedral_de_Lima,_Peru.jpg

A terceira visita que fizemos em Cusco foi ao Palácio Episcopal.

Seu terreno já era ocupado antes dos incas em Cusco. No século XVI, o espanhol Rodrigo de Orgóñez aí construiu uma mansão que, depois, se tornou a casa do bispo, que era irmão de sua mulher. A bela edificação teve outros proprietários e usos até chegar ao museu atual.

A visita vale pelas maravilhosas pinturas, que também foram feitas por indígenas e pela graciosidade da capela.

A pintura que mais gostei foi a que se segue, por ter alguma relação com minha profissão. É a representação do Reitor e da “árvore universitária” em 1794.

Fiquei pensando o quanto nós, brasileiros, demoramos para ter ensino superior. A Universidade do Rio de Janeiro, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi criada em 1920 e a Universidade de São Paulo é de 1934, ou seja, apenas a primeira completou um século.

Pelas consultas que fiz, sempre aqui e ali, conforme o Google me leva, a mais antiga é a de São Domingos (1538), seguida por San Marcos no Peru (1551), México (1553), Bogotá (1662), Cusco (1692), Havana (1728) e Santiago (1738). Voltando ao Palácio Episcopal, olhem a beleza do altar da capela.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 14                 

Cusco de novo – gente e lugares

Já argumentei, no capítulo anterior, o quanto considero Cusco especial. Não é o caso de repetir argumentos. Por outro lado, penso que sempre podemos nos perguntar por que uma cidade nos agrada mais que as outras. Ou, ainda, por que uma cidade agrada a uns e nem tanto a outros.

Uma primeira resposta rápida seria a de que somos mesmo diferentes e valorizamos aspectos que não são sempre os mesmos. Estou de acordo com ela. No entanto, acho que tem outra resposta possível, que não se opõe à primeira, mas pode complementá-la e que eu, especialmente, valorizo muito.

Tudo depende das circunstâncias: quando a conhecemos, em que etapa da vida, sob que condições de maior ou menor conforto, quem estava conosco, quais experiências vivemos, como passamos o tempo aqui ou ali.

Pois é, para mim, as duas experiências em Cusco foram interessantes, com gente de quem gosto, em lugares agradáveis e em momentos muito bons da minha vida.

Nesta cidade, há muita gente diferente oferecendo ao espectador (o turista é sempre um espectador) uma diversidade de culturas e de tipos, compartilhando o mesmo espaço. Em segundo lugar, aqui tem lugares que são bem especiais.

Adoro ficar sentada num banco da praça e me colocar a imaginar o tipo de negociação que a moça alta e loira, parecendo uma europeia nórdica, estava estabelecendo com a cusquenha que lhe tentava vender alguma bijuteria. Um vendedor, numa loja, me disse que os europeus olham muito e compram pouco. Aproveitou para me adular e dizer que, ao contrário, os brasileiros compram muito. Verdade!? Levei duas mantas bonitas desta loja, uma das quais ilustra o começo deste capítulo.

O que será que ia conversando o casal de peruanos que me deram a impressão de aproveitar o horário de almoço do trabalho para colocar o papo em dia?

A senhora que cuidava do jardim com esmero é funcionária da municipalidade ou apenas alguém que faz esse trabalho de modo voluntário?

Quantos chapéus ela vende num dia ensolarado como este?

Voltando cabisbaixa para casa, por ter vendido pouco, ou a trouxa às costas quase vazia é sinal de bons negócios?

Avó, filha e neto ou mãe e dois filhos? Ou será que a de calça amarela não tem nada a ver com a criança e o menino?

De tudo um pouco – chapéus, gorros, luvas, xales – assim o freguês não escapa.

Nas costas, sempre carregam algo, se são peruanas ou bolivianas, seja um bebê, sejam as mercadorias para vender, sejam os alimentos que vão ser levados para casa. O tecido com o qual fazem esse apoio para carregar de tudo já é vendido no tamanho certo para se ser adaptado a elas e suficiente para dar um nó forte na frente.

Se passarmos horas na Plaza Mayor, dezenas de histórias podem ser imaginadas não importando, nessa situação, se são verossímeis ou não, absurdas ou quase reais, fantásticas ou absolutamente comuns.

O que importa é se deixar levar pelo ócio que nos possibilita imaginar qualquer coisa sem ter compromisso com a verificação dos fatos.

Como sua pesquisadora de profissão, esse direito me é dado quando estou em férias como agora. Viva o ócio!

Fonte: https://mariatrusa.org/blog/sabes-cual-es-la-importancia-del-ocio-y-sus-beneficios/

Termino este capítulo, como comecei: com gente.

Como toda cidade turística, Cusco também tem representações, estereotipadas ou não, de sua cultura. Lá estavam as moças vestidas de modo bem tradicional, com um chapéu que chega a ser engraçadinho, conquistando turistas para uma foto.

Olha eu aí com elas. Deu para comprovar que, na média, as bolivianas são baixinhas mesmo, já que eu não me destaco por ser alta!

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 13

Fonte: https://www.inkanmilkyway.com/pt-br/blog/praca-das-armas-cusco/

Por onde começar? Tudo que eu falar sobre Cusco, ficará aquém da maravilha de síntese histórica e cultural, que essa cidade é expressão.

Representativa do Império Inca, Cusco foi, por dois séculos, a sua capital, do ponto de vista administrativo, militar e religioso. Sua situação geográfica no Vale do rio Huatanay, assentando-se sobre uma planície entre montanhas, o que, para este império significava o “céu na terra”.

Entre os séculos XII e XV, 13 imperadores incas governaram a partir desta cidade. Quando os espanhóis chegaram e os dominaram, sobre as fundações da cidade inca, ergueram a sua. Por isso, essa cidade é considerada símbolo da mescla, ou da mestiçagem, entre a cultura andina autóctone e a que se impôs pelo domínio hispânico.

Não é demais lembrar que, embora eu mesma tenha qualificado a presença inca como autóctone, nos séculos VIII e IX, os Wari já haviam ocupado este território e, antes deles, outras tribos e nações.

O que resulta hoje como patrimônio e representação é a relação ou a tensão entre a cultura inca e a hispânica. Desse ponto de vista, embora Cusco me leve a comparações com Ouro Preto ou Olinda, para citar dois exemplos brasileiros de cidades históricas, ela tem um patrimônio muito mais muldimensional e multicultural.

A imagem que abre este capítulo corresponde a Cusco, ainda sob o comando inca, em 1470. Vejam que já era um cidade grande e densa do ponto de vista das construções, mas que foi arrasada pelos espanhóis.

Muitos dos edifícios pré-incas foram destruídos e substituídos por palácios incas, como o Palácio Huayna Qapac ou o Palácio Wiracocha. Havia também outros edifícios, como Accla Wasi (casa das mulheres escolhidas), Suntur wasi (arsenal) e Yachay Wasi (casa do conhecimento), bem no centro havia um “Ushno”, uma espécie de pirâmide truncada e muitos outros edifícios na área Oriental.

O chão desta praça pré-hispânica estava cheio de areia trazida da costa por ordem do imperador Pachacuteq. O nível ou elevação do piso era pelo menos 1 metro mais profundo que o nível atual.

Fonte: https://www.inkanmilkyway.com/pt-br/blog/praca-das-armas-cusco/

Enquanto Pizarro, no século XVI, esteve sob o comando de Cusco, ela era um centro importante da presença hispânica nos Andes, mas a sua saída deste território, pelo que pude ler, deixou a cidade em certo ostracismo, o que foi se recuperando, aos poucos, a partir da ‘redescoberta” de Machu Pichu, em 1911, e de sua transformação em sítio arqueológico e lugar de visitação turística importantes, já que a distância entre a cidade em tela e este “santuário arqueológico” é de cerca de 100 km.

A Unesco declarou Cusco como Patrimônio da Humanidade em 1983. Ouro Preto recebeu esse título em 1980, Olinda em 1982, o centro da Cidade do México em 1987, Sucre na Bolívia em 1991, Cartagena na Colômbia em 1984, o que me leva a crer que foram do último quartel do século XX as iniciativas para reconhecimento da importância cultural e artística na América Latina.

Entre esses exemplos que citei, só falta conhecer Sucre, o que deverá ocorrer ainda nesta “expedição”. Todas as demais considero muito representativas de tempos históricos importantes para determinadas sociedades e culturas, hoje apropriadas pelo turismo com seu potencial e com suas mazelas.

No entanto, talvez, seja Cusco a mais significativa da simbiose cultural que ela representa, já que, em alguns casos, as nações indígenas que ocupavam o território antes da chegada dos portugueses e espanhóis não tinham vida urbana e, portanto, não havia a cidade do colonizador, sobre a cidade primeira. No caso da cidade do México, Teotihuacán, um dos símbolos da Civilização Asteca, está na região metropolitana, mas não ocupa o mesmo sítio da atual capital.

A Cusco que vejo hoje é também uma mescla de mais de uma experiência que vivi. Estive aqui pela primeira vez há cerca de 10 anos. Orientei, com prazer, a tese de doutorado de Rita de Cássia Andrade que versou sobre essa cidade e, por meio dela, aprendi um pouco sobre a sua histórica social e sua geografia urbana. Li textos aqui e ali que me deixam reminiscências, que, é claro, sempre resultam de uma seleção que a memória de cada um de nós opera, mais involuntária do que voluntariamente. As minhas lembranças são todas positivas e se reavivam agora.

Quanta coisa há para se ver em Cusco, mas seleciono como sua representação atual mais emblemática a Plaza de Armas, também nomeada, em alguns mapas, como Plaza Mayor, com seus arcos e sacadas de madeira, projetadas no primeiro piso, como ‘binóculos’ para se olhar o espaço público.

Se, no passado, essas varandas eram ocupadas por famílias da elite hispano-peruana, hoje alojam cafés, pubs e restaurantes, onde o direito de se sentar numa mesa nestas adoráveis janelinhas, tem que ser precedido de reserva e da disponibilidade para pagar preços um pouco mais altos do que em outros sítios, mas vale a pena. Os balcones como eles chamam são espaços especiais para se olhar essa cidade.

O cuidado com os jardins floridos, que já tínhamos visto em praças bolivianas, também está por aqui.

Curto jogar meu olhar sobre esta praça, ora andando por ela, sentada num dos bancos, fotografando a vida pública que ali se desenrola e meu parceiro querido, ou mirando-a pela grade da janela do Starbucks e pela varanda do Restaurante Morena.

Também posso fazer de binóculo o Google Maps, aproximando escalas e possibilidades de olhar, para entender essa cidade: rede urbana, município, centro histórico, Plaza Mayor de Cusco.

De qualquer ponto da praça e mesmo um pouco longe dela, a Catedral domina a paisagem no seu estilo renascentista, segundo o que li. Como outras igrejas, que vimos por aqui, tanto nesta cidade como em outras, a visão é dominada pelo granito vermelho que recobre as fachadas.

Aliás, a Plaza de las Armas conta com outras duas igrejas também revestidas por este granito: – a mais antiga, situada à esquerda da catedral e praticamente justaposta a ela, é chamada El Triunfo porque foi erigida sobre arsenal inca para demonstrar a vitória espanhola; – a da Companhia Jesuítica, chamada Capela de Jesus, Maria e José, fica à direita.

Nas ruas estreitas, que acedem a esta praça o comércio se desenvolve, pequenas agências de turismo vendem pacotes de todo tipo, gente oferece massagens a preços módicos (fiquei desconfiada), localizam-se tanto pequenos hostales, como hotéis boutiques ou de grandes redes. Há até os que valorizam a hospedagem do público LGBTQI+.

Adoro o desenho das pedras compondo um piso por onde milhões de pessoas em algumas centenas de anos têm passado.

Face à altitude de Cusco, subir essas ladeiras é uma dificuldade para nós. No entanto, vê-se que elas dão acesso às áreas mais periféricas que se expandiram a partir do núcleo histórico, pois a cidade sobe os morros.

Para fazer a foto que se segue e mudar nosso ponto de vista, enfrentamos uma das ladeiras. O coração dispara, o ar falta, mas valeu a pena, inclusive para ver os cusquenhos no seu dia a dia. Vejam, à direita, o casal que se beijava sob os capuzes dos agasalhos.

Por fim, a demonstração da nacionalidade peruana em um dos contrafortes da serra que abraça o núcleo histórico de Cusco.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 12

Entrando no Peru em direção a Cusco

Como escrevi no capítulo anterior deste diário de viagem, a entrada no Peru foi cheia de peripécias, quase uma epopeia. Assim, a passagem por este portal que demarca a fronteira foi muito emblemática para nós.

Já tínhamos estado no Peru há cerca de 10 anos, numa viagem especial, pela Agência Latitudes, com amigos mais que especiais. Éramos 16 pessoas. Conhecemos Lima, Puno, Cusco e Machu Pichu, fazendo os percursos maiores por avião, um deles por ônibus de turismo e também percorremos o Vale Sagrado dos Incas por trem.

Agora estamos vivendo a experiência de conhecer uma parte do Peru profundo, aquele onde vivem os peruanos no seu cotidiano, por estarmos atravessando o país de carro, parando aqui e ali, ainda que os pontos escolhidos por nós, para passar duas ou três noites, sejam essencialmente turísticos.

De um jeito ou de outro, somos sempre estrangeiros e o nosso olhar tem esse ponto de vista, mas vale a pena registrar que, dependendo de como você faz a viagem, sua perspectiva se modifica.

O Peru é parecido com a Bolívia, todos sabemos. Antes de os espanhóis chegarem por aqui, os incas e outras nações autóctones construíram civilizações e constituíram territórios, políticos e culturais, que não reconheciam as fronteiras que hoje separam os Estados-nação latino-americanos.

Essa identidade entre povos dos dois países, parece-me mais importante, ainda, por estarmos circulando sobre o altiplano dos Andes, que compõe um bioma, explicativo também pelo conjunto de condições de vida que se oferecem a seus ocupantes.

Fonte: https://www.historiadomundo.com.br/inca/mapa-do-imperio-inca.htm

Assim, modos de se vestir, de garantir o sustento, de desenvolver agricultura e comércio, assim como paisagens dos dois lados da fronteira, têm semelhanças entre si.

Ademais, entre os países de domínio espanhol, na América, eles chegaram a compor a Confederação Peru-Boliviana, entre 1836 e 1839:

…constituida por tres estados: el Estado Nor-Peruano, el Estado Sud-Peruano —estados que surgieron de la división de la República Peruana, a causa de la Guerra civil de 1834 y la guerra entre Salaverry y Santa Cruz— y el Estado Boliviano. Los límites geográficos variaron con el tiempo, con la consolidación territorial de Tarija y la ocupación de territorios de Salta y Jujuy; también contaba con territorios indígenas, que eran autónomos de facto, como Iquicha. Todo bajo el mando supremo del maris, de Andrés de Santa Cruz, quien asumió el cargo de Supremo Protector en 1836, mientras era presidente de Bolivia (1829-1839).

Fonte: https://es.wikipedia.org/wiki/Confederaci%C3%B3n_Per%C3%BA-Boliviana

Pelo mapa podemos ver que essa confederação incluía o atual estado do Acre, cujas terras foram adquiridas, pelo Governo brasileiro, no começo do século XX. O Estado Boliviano, então, tinha acesso ao Pacífico…

Fonte: https://historiauniversal.org/historia-del-peru-la-confederacion-peru-boliviana-1836-1839/

Reconhecidas identidades e semelhanças, há também disputas e diferenças que são visíveis. A área rural dos dois países nestes trechos andinos da nossa viagem está marcada por uma ocupação importante, mas ela é muito mais densa no Peru do que na Bolívia. De algum modo, essa densidade ocupacional reflete a diferença demográfica entre os dois Estados Nação: a Bolívia tem cerca de 12 milhões de habitantes e o Peru alcança os 34 milhões.

Entre Cochabamba e La Paz e entre esta cidade e a fronteira, encontramos assentamentos humanos por todo o percurso. Agora fazendo o trecho entre Kasani e Cusco, a intensidade da ocupação é muito maior, há mais áreas agricultadas e muito mais criação de ovelhas e gado leiteiro, do que vimos na Bolívia.

Essa densidade de ocupação maior, observada no Peru, também tem nuances, pois tomando como referência o trecho percorrido, podemos dizer que nos 150 km mais próximos de Kasani e nos 150 km mais próximos de Cusco essa ocupação é muito maior: praticamente, durante todo o percurso não se faz 10 km sem passar por algum tipo de assentamento humano que reúne algumas dezenas de famílias, às vezes centenas ou milhares. No trecho intermediário deste trajeto representado, a ocupação é menor e a paisagem andina prevalece quase intocada.

Também chama atenção, comparando os dois países, a melhor sinalização nas estradas e cidades do Peru, que já está mais preparado para o turismo, havendo sempre iniciativas para valorizar as identidades regionais, mas também para reforçar a unidade peruana. Vejam essa dupla intenção na placa que se segue.

Eu adoro esse símbolo adotado pelo país, porque ele é moderno e, ao mesmo tempo, preserva no “P” os labirintos que se referem a culturas indígenas pretéritas:

La P hace una obvia alusion a las lineas Nazca, pero no unicamente a esto sino a algo que se repite en varias culturas preincas e incas que es el tema de la espiral. Es un simbolo que no solo se observa y es reconocido en el Peru, sino que es un simbolo universal que refleja continuidad. La logomarca consiste en una linea continua que genera esta espiral que en distintas culturas siempre está presenta y que forma una P de Peru asi como una @ que es simbolo de modernidad. La palabra Peru se forma con la misma linea continua simbolizando continuidad e infinitud. También puede interpretarse como una huella digital, simbolo de identidad. Es un icono que recoje muchos de los atributos que los Peruanos tienen que ofrecer al mundo.

Fonte: https://brandemia.org/peru-estrena-una-estupenda-marca-pais

Aviso você, leitor, que todas as observações que faço são muito superficiais e carecem de leitura e pesquisa para que sejam atestadas em sua veracidade, mas a impressão que tenho é que o Peru busca se organizar.

A rodovia estava em bom estado e, ademais, uma série grande de pontes sobre pequenos ou médios cursos de água também estavam, no percurso que fizemos, todas com a mesma estrutura metálica, cor de laranja. Outras estavam em construção, razão pela qual, volta e meia havia pequenos desvios.

Algumas vezes se via, ao lado da ponte nova, a antiga ainda de pedra, que suponho, tem muitas dezenas de anos.

A estrada está assentada em um vale demarcado por elevações significativas dos Andes de um lado e de outro. Nos trechos em que ele é mais largo, sempre tem gente vivendo. Muitas vezes, as áreas de cultivo ladeiam a rodovia e as casas estão já no início dos aclives das grandes montanhas.

Pensei que pode haver duas razões para isso. A primeira resultaria da necessidade de ocupar toda a área plana com a agricultura, afinal, no altiplano de uma cordilheira, o espaço para cultivar é restrito.

Em segundo lugar, o vento neste vale é forte e as casas estando mais próximas das montanhas mais elevadas ficariam mais protegidas das intempéries e correntes. Para fazer a próxima foto, eu fiz um zoom máximo, visando aproximar a área onde estavam as casas.

Do ponto de vista do cultivo, predominam as áreas de produção de milho, cholo para eles.

Por todo lado, há pedaços de rochas que devem rolar da cordilheira e que a população autóctone reúne para uso posterior. Há muitas divisões entre pequeníssimas propriedades feitas de muros de pedras, como há casas, cuja fundação tem esse material. Os fragmentos de rocha de tamanho médio também são usados para segurar os telhados, quando eles são de zinco ou alumínio, garantindo que não saiam voando, quando as rajadas de vento sopram.

Há trechos em que a rodovia fica mais apertada entre as elevações e, em algumas ocasiões, ali se estabelece uma cidade ou pueblo maior. Quando isso acontece a estrada vira cidade e não é possível continuar o caminho sem passar por ela. Assim foi com Pomata, logo no começo de nosso percurso.

Essa cidade surpreendeu pela beleza de sua igreja principal, que é grandiosa e tem a fachada toda trabalhada em sobre relevos, alguns dos quais mesclam elementos do imaginário católico ao do indígena. Vejam os detalhes na terceira foto, na sequência.

Adorei, também, observar que a rodovia acompanha um rio de águas movimentadas que alimentarão a Bacia Amazônica. Dá para acreditar?

O percurso feito por nós, por duas vezes, na ida para Cusco, em 10 de janeiro, e na volta, em 13 de janeiro de 2024, em direção a Puno, foi composto por duas regiões importantes turisticamente no Peru.

A primeira é chamada de “Região dos Cânions”, onde está o Lago Titicaca, Arequipa (que desapareceu do nosso roteiro) e Puno. A outra é chamada de “Terra dos Incas”, destacando-se Cusco e Machu Pichu, sendo que esta última, conhecemos na viagem anterior.

No entanto, do ponto de vista de cidades importantes na rede urbana peruana, há no meio do caminho Juliaca, cujo aeroporto serve de base para os turistas que vão curtir o Titicaca, hospedando-se em Puno.

Segundo informações, obtidas em sites diferentes, esta cidade ainda não alcança os 300 mil habitantes, mas chamou minha atenção pelo movimento comercial.

Tal como observado em cidades bolivianas, a feira cumpre papel importante no cotidiano da vida peruana, a menos em cidades como Juliaca, embora tenhamos visto o mesmo na periferia de Cusco, o que adiante poderei comentar.

Estacionados, aguardando fregueses, há dezenas de tuk tuks em Juliaca, que, aqui no Peru, são chamados de moto táxis.

Termino, com essa imagem dos Andes, onde se vê traçadas, nas encostas, as raias que devem ter sido desenhadas, por séculos, pelo degelo ou pelo rolamento de frações de rochedos da cordilheira.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 11

A entrada no Peru não foi fácil. O fato de estarmos com um carro locado da empresa Kinto Share, associada da Toyota no Brasil e presente também na Bolívia, não facilitou em nada nossa passagem pela fronteira.

Saímos cedo de La Paz, no dia 8 de janeiro de 2024, animados para chegar em Cusco (cada vez vejo menos a grafia Cuzco), passando por Desaguadero, o que corresponde a 113 Km.

Gastamos, ao menos uma hora e meia, para vencer o trânsito da região metropolitana, saindo de La Paz e atravessando El Alto, mas depois encontramos uma estrada livre, em boas condições e com lindas paisagens.

Passamos por Tiwanaku, onde há ruínas arqueológicas importantes, mas desistimos de fazer a visita pelo tempo necessário, face à nossa preocupação de termos ainda que vencer os trâmites fronteiriços e, depois, fazer mais 160 km até a cidade de Puno.

Sabíamos que a estrada era tortuosa e, portanto, não alcançaríamos velocidade alta. Pelo que vimos em folhetos e na internet, a visita às ruínas vale a pena, mas ficou sem ser feita… Acho que já estávamos adivinhando o que viria.

Antes de alcançarmos Desaguadero, a paisagem dominada pelo Lago Titicaca (ou Titikaka) já nos animava, tal a sua extensão e pelo azul da água que se mistura com o azul do céu.

A passagem pela Aduana boliviana foi fácil, porque estávamos já com o documento de circulação do carro obtido na fronteira com o Brasil.

Atravessamos a ponte que faz a ligação entre os dois países e chegamos à barreira constituída pelo que chamam de “Controles Integrados Bolívia – Peru”.

Esse serviço coloca no chinelo os que são oferecidos na fronteira Brasil – Bolívia, marcada pela pouca articulação, desorganização e falta de informação, como eu já descrevi em capítulo anterior desse “diário de expedição” – “Globalização, pero no mucho” disponível em: https://wordpress.com/post/carminhabeltrao.com/3176.

Num mesmo prédio, grande, bem iluminado e sinalizado, com várias vagas para estacionamento, estão a Polícia de Imigração boliviana e a peruana, em guichês lado a lado. Em anexo, o serviço da Aduana para verificação de bagagens e veículos. Tudo fácil e rápido. Em vinte minutos tínhamos, no passaporte, os carimbos de saída da Bolívia e entrada no Peru.

Fomos para a fila da verificação do veículo e logo fomos interceptados por agente da Polícia peruana, que se dizia também advogado, e nos abordou para explicar que nosso documento de locação do veículo não era suficiente para que entrássemos no país.

Ele tinha razão, na minha opinião. O tal documento trata mais das nossas obrigações para a devolução do carro e seu usufruto, do que explicitava o direito sobre o uso do veículo. Argumentamos, mas em vão. Ele contra-argumentava frisando que era preciso um papel que dissesse que tínhamos “poder” de dirigir o automóvel em outro país que não o Brasil. Demoramos a entender o que ele queria nos explicar, mas deduzimos que seria o poder sobre o carro, mesmo não sendo proprietários dele.

Nenhum comportamento inadequado do policial, tampouco sugestão de que algum suborno resolvesse o problema. Aconselhou-nos a voltar a La Paz e tentar novos documentos da empresa e/ou passar pela embaixada brasileira.

Voltamos cabisbaixos pela fileira de centenas de caminhões, a maior parte de combustível, entremeados por alguns tuk tuks que levam pessoas para lá e para cá, que aguardavam a verificação dos respectivos documentos.

Antes, porém, passamos pela Imigração e novos carimbos de saída do Peru e entrada na Bolívia. Em outras palavras, entramos e saímos dos dois países no mesmo dia e no intervalo de menos de uma hora.

Paramos na volta para almoçar num restaurante agradável na entrada de Tiwanaku, no qual degustamos uma deliciosa truta na chapa. Havia outras duas mesas ocupadas, por pequenos grupos de turistas e o guia, nas quais o idioma falante era o inglês.

Com o estômago cheio e desanimados, lá pegamos nós o caminho de volta a La Paz, após avisarmos, pela plataforma do Booking, ao hotel em Puno, que não chegaríamos mais naquela noite.

Fomos para o Hotel El Rey, na capital, reservado de última hora, e mais uma vez enfrentamos o trânsito da região metropolitana.

No dia seguinte, após “mil” mensagens para a Toyota em Presidente Prudente, à qual se associa o serviço da locadora, obtivemos um novo documento que foi, depois, impresso e carimbado na agência da Locadora Kinto em La Paz. O Rodrigo que nos atendia, por WhatsApp (telefonemas e mensagens) foi incansável, desde a véspera, que era um domingo, mas penso que, realmente, a empresa não tem prática em locação para saída do veículo do Brasil.

Voltamos animados para a fronteira, agora com um contrato assinado digitalmente pela empresa e novamente fomos barrados, já que ele não estava chancelado por um cartório ou coisa do tipo.

Em suma, percebemos que são precauções adequadas que o governo peruano toma contra roubos de carro, cuidados que o governo boliviano parece não ter.

Novamente fizemos o trecho de volta para a capital, agora hospedando-nos no Hotel Madero, perto da Plaza de los Estudiantes, o qual recomendamos para quem for a La Paz.

Passaram pela nossa cabeça duas opções: – abolir a ida ao Peru, a qual, aliás, era a mais indicada, depois de duas tentativas frustradas; – a outra era tentar a validação daquele documento na Embaixada do Brasil.

Ficamos com a segunda, mesmo que relativamente pessimistas sobre as possibilidades.

Às 9h00 em ponto do dia seguinte, 9 de janeiro de 2024, chegamos à Embaixada brasileira em La Paz e fomos informados que devíamos ir ao Consulado… Ok, era ao lado, num prédio elegante, mas só abriria às 9h30. Plantamo-nos na recepção e fomos os segundos a terem direito de ser atendidos.

Fonte: https://es.wikipedia.org/wiki/Archivo:Embajada_de_Brasil_en_La_Paz,_Bolivia.jpg

A funcionária era uma boliviana que morou dez anos no Brasil. Boliviana loira e de cabelo encaracolado, o que não é comum. Gentil, atenciosa, mas cética quanto ao que poderia ser feito em nosso favor. Sugeriu que fôssemos à empresa, explicamos que já tínhamos ido. Lembrou que o documento deveria ter vindo com o reconhecimento de um cartório brasileiro. Contra-argumentamos que o consulado era território brasileiro na Bolívia e ali essa chancela poderia ser dada. Ela dizia que não.

Praticamente desistimos, mas ela ficou tão penalizada que se dispôs a ir falar com o Vice-cônsul que, após 10 minutos, veio até nós. Era um carioca que tinha o semblante cansado da burocracia. Foi, assim, que o interpretei.

Explicou as limitações que o consulado tem em situações como esta, mas se dispôs a oferecer uma cópia autenticada do documento que tínhamos em mãos que, a bem da verdade, também não era o original porque foi encaminhado pela internet…

Novas providências: para tal, era preciso ir a um banco e pagar cinco dólares pela cópia. Eliseu foi ao mais próximo, onde a funcionária aproveitou para solicitar a ele que contribuísse com uma campanha humanitária que estava em curso. Como discordar numa situação como aquela?

Voltando ao consulado, foi mostrado o depósito e solicitada a cópia. A gentil funcionária pediu que voltássemos às 11h30 para pegar.

Eliseu reagiu rapidamente: “Não é possível! Por que a cópia não pode ser feita e assinada agora?” Ela olhou para a cara dele, pouco amigável àquela altura, e foi ao encalço da assinatura. Por volta de 10h30, saímos do consulado com o papel na mão.

Pondera daqui, pondera dali, lembramos que não era bem um documento chancelado como, na fronteira, havia sido solicitado, mas apenas uma cópia autenticada pelo consulado e tivemos dúvidas se valeria a pena nova ida até a fronteira.

Acho que meu sangue espanhol valeu nessa hora e minha tendência a não desistir facilmente prevaleceu, embora soubesse que a possibilidade era pequena.

Eliseu teve uma ideia, então: mudar de ponto de passagem na fronteira, como um modo de não nos encontrarmos mais com o gentil policial-advogado tão cioso da obtenção do documento correto.

Foi assim que saímos pela terceira vez de La Paz, agora em direção a Copacabana. Vejam, no mapa, que este ponto da fronteira está um pouco mais ao norte que Desaguadero e escondido nos meandros do Lago Titicaca e suas ilhas.

Ao mesmo tempo em que íamos em direção à terceira tentativa, preparávamos o “espírito” e o planejamento da viagem para a hipótese de não entrar no Peru.

Para chegar em Copacabana, fizemos um lindo percurso que vou contar em outro capítulo deste diário.

Por volta das 17h, antes de nos acomodarmos no hotel Rosário reservado para passar a noite em frente ao lago, resolvemos ir à Aduana Peruana a pouco menos de 20 km dali.

Fomos sinceros ao contar que já tínhamos tentado passar pela fronteira, mas omitimos o fato de que havia sido duas vezes. Fomos logo informando que trazíamos um documento com chancela do Consulado do Brasil, sem explicar bem que tipo de selo foi o que se imprimiu no documento, simplesmente o de uma cópia reconhecida.

O primeiro policial olhou e resolveu entrar no container-caminhão que servia de escritório aos funcionários da Aduana Peruana. Mostrou para uma policial que estava acima dele na hierarquia, pelo que presumimos. Ela faz cara de descrença e balbuciou que achava que não serviria, mas resolveu ir direto ao chefe, que olhou o selo do Consulado e enfaticamente em 10 segundos disse: Vale!

Fomos dormir com essa primeira impressão de que seria possível.

Acordamos cedo e passamos pela Imigração primeiramente, onde outros preenchimentos e formulários foram necessários. Tudo rápido e antes das 9h00 estávamos diante dos mesmos funcionários do dia anterior. Éramos o segundo carro na fila. O primeiro era uma super Hillux dirigida por um argentino que viajava com três filhos homens jovens. Pretendiam ir até Machu Picchu.

Nesse meio tempo, o da espera, resolvi fazer uma foto da placa da fronteira e me dei conta que estava sem celular. Eliseu tinha ido com ele até o pequeno quiosque para imprimir os tais formulários de imigração e, na pressa, tinha deixado o aparelho por lá.

Voltou correndo, percorrendo a pé uns 200 metros enquanto eu ficava guardando lugar na fila para verificação do carro. Antes que ele voltasse aliviado com o aparelho na mão (o dono da bodeguita poderia ter ficado com o smartphone), o policial da Aduana peruana já tinha verificado tudo no carro e até fotografado o número do chassi.

Ficamos mais uns minutos na fila e o mesmo policial chefe do dia anterior preencheu um formulário no computador lentamente e nos entregou o papel de circulação do veículo no Peru, impresso (uma impressão horrível pois a tinta estava fraca), assinado e carimbado.

Pronto, estávamos empoderados! Entramos vitoriosos no carro, onde eu fiz um “Hip Hip Urra” duas vezes em voz alta. Eliseu me recomendou baixar o tom, antes que eles nos escutassem e pedissem o documento de volta.

Vitória!

Fonte: https://br.freepik.com/vetores-premium/desenho-de-pessoas-pequenas-com-a-palavra-vitoria_18761359.htm

Com um enorme saco de pipocas para o almoço, fotografamos a placa de boas-vindas e pegamos a estrada para Cusco.

Foram mais 530 km sobre os quais escrevo alguma coisa depois.

Enquanto os percorríamos, mentalmente refazíamos o roteiro previsto para o Peru, que incluía Puno, Cusco e Arequipa. Invertemos a prioridade. Perdemos a reserva em Puno em função das três noites que passamos entre La Paz e Copacabana e deixamos esta cidade para a volta. Agora, precisávamos ir para Cusco, onde também já tínhamos perdido um dia da reserva, mas ainda tínhamos duas noites pagas.

Era preciso fazer algum corte no roteiro inicialmente desenhado.

Foi assim que Arequipa sumiu do mapa. Não do mapa do Peru, mas do nosso mapa de viagem.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024