Uzbequistão 11 – Khiva e os objetos que contam sua história

Como em todo mundo de influência árabe, não há clara distinção entre o espaço privado e o público, assim o comércio está por todo lado, em lojas, tendas, praças, ruas… Além das mercadorias que já havíamos visto em Tashkent, Samarqanda e Bukhara, aqui em Khiva chamou atenção a oferta de produtos resultantes da influência mongol e, mais recente russa, como os chapéus de pele que estavam expostos por todo lado.

Na visita ao museu, que ocupa a construção que outrora havia funcionado como madraça, fiquei fascinada pelas roupas tradicionais dos uzbeques. Por mim, teria no grande mercado de Khiva comprado uma ou duas réplicas, mas, aqui entre nós, estava sendo reprimida para não exagerar com compras que, depois, não caberiam na bagagem. Meu gosto pela decoração de ambientes, sempre me faz imaginar que ficaria maravilhoso pendurar em exemplar destes na parede…

A foto de um casamento no século XIX mostra que eles valorizavam as vestes e que pouca diferença havia, aos olhos estrangeiros ao menos, entre as roupas masculinas e as femininas. Ambas eram largas, serviam para agasalhar, eram sobrepostas a outras, mas, segundo as informações não se levavam roupas íntimas abaixo delas.

Adorei ver no museu os documentos históricos que atestavam a posse sobre uma dada extensão de terra, que eram gravados em pedras. Fico imaginando quantos escravos eram mobilizados para transportar estas escrituras.

Sobre os tapetes que estavam expostos no museu, nem vou falar muita coisa, além de informar que alguns levaram meses e meses para serem tecidos e, mesmo depois de dezenas, centenas de anos, continuam lindos.

As cerâmicas seculares não ficam atrás na beleza e no domínio da técnica para sua produção, sobretudo ao se imaginar que foram feitas há alguns séculos. As informações registradas no museu indicam que, antes de haver contato com a China, os tons utilizados eram variações do marrom ao ocre. O apreço pelo azul teve início com as trocas com os vizinhos de leste.

As botas de veludo bordadas usadas pelas mulheres ricas, especialmente em seus casamentos, também são muito lindinhas e os colares que elas portavam nas bodas eram enormes e podiam chegar a pesar mais de 15 kg, junto com pulseiras e brincos.

Os sapatos usados para o trabalho no campo ou para as grandes viagens eram mais rudes, mas não deixam de ter valor pelo trabalho manual que representam.

A foto que se segue ajuda a imaginar como era um ambiente utilizado pelos homens mais ricos para conversar, fazer negócios e tomar um chá. No apoio, sempre as lindas mesinhas pintadas em cores alegres.

Em Khiva, registrei a maravilha dos sobre relevos nas portas em madeira. Foi explicado a nós que os uzbeques mantêm a madeira passando sempre azeite para lubrificar (vou fazer o mesmo nos objetos de madeira que eu tenho). Também disseram que os mais ricos tinham suas portas com uma única folha, porque era mais difícil de ser rompida e eu achando as de duas mais bonitas… Algumas entre essas portas têm mais de seis séculos.

Quantas mãos terão tocado essas portas, através do tempo? O que terá ocorrido atrás delas? Quanta felicidade ou quanta tristeza, quanta opulência ou quanta exploração, quantas vidas e quantas mortes elas terão escondido do olhar alheio…

Carminha Beltrão

Maio de 2023

Uzbequistão 10 – Khiva em apenas 24 horas

Uma parte da população de Khiva vive dentro da muralha, ocupando construções antigas que compõem, lado a lado às grandes edificações históricas, um ambiente bastante homogêneo, em que os tons ocre predominam.

Essa população, no entanto, não pode alterar ou ampliar suas casas sem autorização do poder público, de modo a que seja verificado se está ou não havendo respeito às normas urbanísticas, que orientam as construções nesta área. Aliás, li em algum site que Khiva foi a primeira cidade uzbeque a ser reconhecida como Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

Muitas destas casas, hoje, oferecem hospedagem como guest houses aos turistas. Imaginei que deve ser interessante uma experiência como esta, ainda que a língua possa ser uma barreira para a comunicação entre quem oferece a hospedagem e quem se hospeda. Quando estivemos na África do Sul, tivemos essa oportunidade e foi bem legal, mas lá era mais fácil, porque mesmo os de origem africana falam o inglês.

Após a viagem longa que fizemos, descrita sucintamente no capítulo anterior, chegamos a esta cidade com a chuva caindo firme. Mesmo sabendo que ela ocupa um oásis no meio das áreas desérticas do Uzbequistão, imagino que deve ser tão incomum a pluviosidade em Khiva, que chovia na área social do hotel, onde há um teto retrátil, e no banheiro dos apartamentos pingava sem parar, a partir de um pequeno orifício no gesso do forro. Imagino que nada foi construído para estar preparado para receber chuva e caía muita água no dia 5 de maio de 2023.

Saímos para jantar e logo nos demos conta de que é preciso ter reservas. No primeiro restaurante, não pudemos ficar; no segundo, foi-nos autorizada a entrada, desde que saíssemos às 20h, porque havia uma reserva para aquela mesa, e eram 19h20.

Observando a maioria dos restaurantes uzbeques, noto que há sempre muita gente trabalhando, mas não há uma divisão e organização do trabalho que leve à eficiência. Eles não param de andar de um lado para o outro, são solícitos, mas nunca os pratos pedidos por nós chegam simultaneamente, de sorte que às vezes um já está acabando de comer, quando o outro tem seu pedido atendido.

A noite foi muito bem dormida, depois da expedição de travessia do deserto.

O passeio, no dia seguinte, começou com guarda-chuva, para depois continuar o dia todo com um céu nublado. Após as temperaturas elevadas que experimentamos em Samarqanda e Bukhara era um alívio poder caminhar sem sentir calor demais.

Há tanta coisa para ver em Khiva, no entanto, há para o olhar estrangeiro muita repetição – madraças, mesquitas, minaretes, mercados… Tanto assim que, à primeira vista, parece que nada vai encantar, porque já estamos com uma overdose de lugares, histórias, informações e experiências, mas não é bem assim porque a cidade é muito especial. Com certeza, essa sensação de fastio é decorrente de já estarmos na fase final da viagem.

O passeio por Khiva transcorreu em apenas um dia. Pareceu pouco, num primeiro momento, mas como a cidade é compacta e pudemos conhecer todos os monumentos andando a pé, o tempo rendeu.

Começamos o percurso pelo grande painel, em que com os mesmos tipos de azulejo que utilizam para as mais lindas decorações uzbeques, eles representaram o mapa da cidade histórica. O difícil foi conseguir fazer uma fotografia sem que houvesse uma cabeça na frente dele.

As muralhas aparecem na imagem de satélite que se segue e se pode ver, na seguinte, que a cidade histórica ocupa uma parte pequena da Khiva atual.

Mal adentramos na cidade, o minarete cuja construção não foi concluída logo chama atenção, porque sua forma assemelha-se mais a uma usina atômica, do que a uma construção cuja finalidade é avisar os horários de oração. Em que pese não ter sido finalizado, esse minarete, especialmente, encanta por ser totalmente coberto por azulejos. Ele foi planejado para ter 70m, mas ficou em 30 e poucos. Ainda assim, ele se destaca no horizonte urbano de Khiva.

Aonde quer que fôssemos, lá estava o minarete se destacando no conjunto da paisagem urbana.

Além dos minaretes que estão sempre perto delas, ao longe, é fácil se reconhecer as mesquitas, porque há muita gente por perto e dezenas de sapatos dos que entraram para a visita, aguardando na porta o retorno de seus donos.

A Mesquita de Juma (em uzbeque: Juma masjid / Жума масжид, que significa ‘Mesquita de sexta-feira’) foi edificada no século 10 e reconstruída em 1788.

Impressiona pelo seu tamanho, pois é um edifício extenso de apenas um andar (55 x 44 m), que é sustentado por 212 colunas de madeira que, enfileiradas geometricamente tanto no sentido horizontal como vertical, como, ainda, transversal. Seu minarete tem mais de 40 metros de altura.

Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Juma_Mosque_(Khiva)#/media/File:Friday_Mosque_of_Khiva.jpg

No caso da Mesquita Juma, vale a pena observar o trabalho das colunas de madeira, cuja parte inferior está sempre sobre uma rocha talhada de modo a que a umidade do solo não estrague, com o tempo, a parte superior.

A foto que abre esse capítulo do meu diário de viagem ao Uzbequistão foi feita para mostrar uma das colunas.

Destas colunas, apenas duas são originais, todas as demais são cópias dos registros que se tem das originais, que foram queimadas por Gengis Khan que, quando esteve em Khiva, no século XIII, colocou foto em quase tudo. Aliás, nem se pronuncia o nome deste senhor na cidade, tão desagradáveis são as lembranças que ele traz.

Havia muitos mulçumanos em visita a esta mesquita e todos faziam questão de tocar as colunas de madeira com as mãos.

Outro ponto alto de Khiva é o Palácio Tach Khaouli, cujo nome significa “casa de pedra”. Foi construído entre 1832 e 1841 por ordem de Allah Kuli Kahn. O primeiro arquiteto que não conseguiu manter o cronograma previsto foi executado por ordem dele. O palácio tem 150 quartos e nove pátios interiores, mas visitamos apenas uma parte dele, a destinada ao harém de Allah Kuli Khan, e aquela onde está seu trono.

Na foto que se segue, aparece o pátio do harém: do lado direito, os aposentos das quatro mulheres oficiais, do lado esquerdo uma porção de salas destinadas às concubinas; em frente, ao fundo a alcova onde ele se encontrava com a escolhida do dia. Na próxima subsequente, a tal da alcova.

Destacam-se os mosaicos que decoram as salas, os tetos e os pilares talhados em madeira com sobre relevos. Uma das salas mais bonitas é a do trono.

A madraça Allakuli Khan também chama atenção na paisagem urbana de Khiva. Alojava uma grande biblioteca que serve toda a população estudantil da cidade. Foi construída em 1834.

Fonte: https://www.lugaresincertos.com/inspiracao-viagem/visitar-fazer-khiva-cidade-magica-uzbequistao/

Depois do almoço, enfrentamos uns tantos degraus altos para chegar a um terraço elevado, onde um grupo tocava, com ajuda de uma caixa de som, música uzbeque. Fiquei até achando que era dublagem. De todo modo, poucos se interessavam pela música, porque a vista era linda.

Como em vários endereços visitados no Uzbequistão, em Khiva, também estavam as professoras organizando seus alunos em fila para a visita a algum monumento.

Em frente aos monumentos históricos de importância religiosa (quase todos), como uma das quatro portas que dão acesso à cidade antiga, sempre havia os uzbeques prontos para uma visita e uma foto de grupo.

Entre uma visita e outra, tanto turistas como autóctones checam as mensagens e as notícias nos smartphones.

Carminha Beltrão

Maio de 2023

Uzbequistão 9 – Chegando à Khiva de muitos tempos e muitas histórias

A viagem entre Bukhara e Khiva foi efetivamente uma expedição. Na véspera, o guia já nos preparou informando que deveríamos levar um lanche, porque não haveria “paradas técnicas” onde se vendesse algo para comer.

Partimos às 8h00 e chegamos 15h30, para atravessar 430 km. A primeira parte foi terrível, porque a rodovia estava em muito mal estado e, ademais, passávamos por áreas de suburbanização, com uma densidade de pessoas e veículos automotivos muito grande. Pela imagem de satélite, podemos ver a extensão do território desértico nesta porção da Ásia Central. No mapa que se segue, podemos ver que as cidades, como Bukhara e Khiva, ocupam os oásis que são e foram tão importantes para a produção de alimentos e obtenção de água.

Pelas informações obtidas, em 2024 deverá ser inaugurada ligação por trem de alta velocidade entre essas duas cidades. Hoje há apenas os trens herdados do período soviético. Talvez, tivesse sido melhor optar por este meio de transporte ferroviário, porque mesmo depois de a estrada melhorar em qualidade, nossa van não desenvolvia muita velocidade e, ademais, nosso motorista dirigia meio perigosamente, porque não obedecida as faixas e tampouco ficava à direita para os demais veículos ultrapassarem. Era boa gente, atencioso e educado, mas andar com ele nem sempre nos deixava tranquilos.

Aí está o registro fotográfico de nosso motorista e nosso guia. Adiante, a planura da planície desértica.

A vantagem do percurso de carro foram duas paradas: na primeira, para fotografarmos de perto a areia quase ocre constitutiva das áreas desérticas do Uzbequistão; na segunda, para ver um curso d’água importante, o rio Amu Dariá, que naquele trecho separa este país do Turcomenistão, ao sul.

Agora, o rio que delimita a fronteira com o Turcomenistão.

Esses pontinhos pretos correspondem a um rebanho de cabras que avistamos ao longe, para notar com no deserto perdemos noção das distâncias.

A grande desvantagem de percorrer esse trecho de estrada de carro: os dois banheiros que tive que enfrentar para aliviar a bexiga, um pior que o outro, ambos com a latrina turca e muito sujos…

Numa das paradas, três rapazes moradores desse território, onde a única atividade é a do pastoreio, solicitaram fazer fotos conosco. Autorizamos, mas depois quisemos entender a razão do pedido tão inusitado e o guia nos explicou que, para eles, ver turistas é ainda muito raro e somos muito diferentes com nossos rostos europeus.

A ponte sobre o rio Amu Dariá foi aguardada por meu marido que havia aprendido algo sobre este curso d’água no ginásio. Para o grupo, foi motivo de festa porque estávamos nos avizinhando de Khiva.

Ufa! Finalmente Khiva, também chamada de Khararizim ou de Quiva ou de Carizim. Em uzbeque eles falam Xiva (Хива, com h gutural lembrando o R); em persa, escreve-se خیوه.

Logo notamos que a cidade do passado está íntegra, com boa parte de sua muralha que é sempre refeita, porque o barro e a palha que são os materiais que lhes são constitutivos estão muito expostos às intempéries de tempo.

A umidade, embora sendo pouca por aqui, acaba minando o adobe e, aqui e ali, víamos o material sendo preparado para recompor as partes deterioradas.

No passado, nas laterais internas da muralha, eram enterradas as pessoas mais importantes do reinado.

Já ia esquecendo de registrar que, depois do esfacelamento império timúrico, poderes regionais se estabeleceram. Até a chegada do domínio czarista russo, Khiva, que domina uma região histórica importante, foi capital várias vezes.

Segundo a Wikipédia foi citado no século V a.C, pelo “geógrafo” grego Heródoto (já vi citações a ele como historiador e isso é compreensível, afinal na Antiguidade não havia a divisão de conhecimento como temos hoje e nem as disciplinas que lhes são constitutivas). Durante os séculos IX e X teve um desenvolvimento grande e, segundo estimativas de historiadores, poderia ter chegado a 800 mil habitantes. Passou no século seguinte pelos conflitos entre dinastias turcas e persas, mas o ponto mais trágico de sua história foi a devastação que viveu com a invasão das tropas de Gengis Khan. Pelas informações que se tem, embora o exército de Khiva fosse maior, a estratégia do fundador do Império Mongol foi cercar a cidade e impedir o abastecimento alimentar…. não demorou tanto para a população ficar à beira da morte por inanição e, assim, abrir as portas ao dominador que colocou fogo em quase tudo.

Foi justamente a fama de suas cerâmicas e azulejos que levou à recuperação de Khiva nos séculos seguintes e foi o reinado de Abdulgazi Badur (1643 a 1664) que tornou a cidade um centro cultural importante, com a construção de muitos edifícios religiosos, mas também um centro de comércio de escravos. Imaginem que há referências a cerca de um milhão de persas e um número desconhecido de russos vendidos em Khiva. Foi um reinado longevo que se manteve entre o século XVI e XX – Canato ou Império de Khiva

Como parte da invasão russa à Ásia Central, a cidade foi atacada e dominada em 1873, mas o reinado permanecia com alguma autonomia como um protetorado. Depois da Revolução Bolchevique, em 1920, a região se tornou República Popular Soviética da Corásmia que depois foi incorporada à República Socialista Soviética Uzbeque em 1924, o que levou ao declínio de Khiva.

Vejam a foto de um de seus últimos primeiro-ministros, hoje exposta no museu da cidade. Na sequência, um de seus últimos cã ou sultão ou rei, Maomé Raxim II, numa ilustração de livro de 1885. Eles tinham cara de mau ou faziam essa pose para serem representados.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Quiva

Ao adentrarmos no Hotel Zarafshon Boutique, logo nos deparamos com réplicas de alguém muito caro para o folclore uzbeque – as imagens de avôs e avós que sempre chegam trazendo alimentos, como uma representação do cuidado que se há entre gerações de uma mesma família. Aliás, nosso guia Bahkram, para nos explicar certas práticas sociais, sempre se referia a “mi abuelito” e “mi abuelita”, já que sua língua de comunicação conosco era o espanhol. Adorei esses bonecos símbolos do Uzbequistão. É claro que não compraria uma réplica para decorar minha casa, mas são uma simpatia, não são?

Olha eu descendo aí, na escada que dava acesso ao nosso apartamento no hotel.

Carminha Beltrão

Maio de 2023

Uzbequistão 8 – Bukhara, suas mercadorias e sua gente

Quando jogo no Google a expressão “mundo das mercadorias”, as vinte primeiras referências referem-se ao capitalismo e/ou à teoria marxista que desnudou o papel delas na construção objetiva e subjetiva do capitalismo.

Ok, é isso mesmo, no sentido científico que essa expressão tem ela se refere ao fato de que foi, no Ocidente, com a constituição deste modo de produção, que as mercadorias se tornaram centrais na vida da Sociedade, como condição e meio para a reprodução do capital.

No entanto, quando observamos boa parte das cidades asiáticas ou aquelas do norte da África, encontramos seus espaços urbanos centrais dominados pelo comércio, como se fossem, efetivamente, o mundo das mercadorias.

É impressionante como, no Uzbequistão, a cultura mulçumana secular, a influência árabe e persa, e a história associada à Rota da Seda permanecem como elementos centrais na vida cotidiana de sua gente, estruturando o uso dos espaços e do tempo, tendo o comércio como uma atividade central no mundo urbano.

Por onde passamos há gente comercializando algo, alguns nestes mesmos espaços estão produzindo artesanal ou semi artesanalmente suas mercadorias.

Ladeando a praça principal entrecortada por dois canais, está o bairro judeu, com sua sinagoga, em ruela estreita, na qual se enfileiram antigas casas de dois pavimentos que hoje são ocupadas por “hostais” ou por “hotéis boutiques”.  Aliás, aproveito para avisar que o conceito de hotel boutique aqui está meio alargado. Basta ser pequenininho para receber esse nome, quase como se popularizou no Brasil o conceito de pousadas: tem para todo gosto e de todo preço.

Na imagem que se segue, aparece a extensa praça central em formato triangular orgânico e, ao sul dela, está o bairro judeu com a sinagoga assinalada em vermelho, com a estrela de Davi, que simboliza o judaísmo.

Nas ruas do bairro judeu, concentram-se as atividades bancárias, de produção artesanal e o comércio da Bukhara turística. Desde agências e caixas onde se pode trocar dólares ou Euros por Som Uzbeque (UZS), passando por pequenas lojas onde se vendem tesouras, facas, pratos de outros produtos de metal trabalhado, por lojas de tapetes de vários tipos, por ateliês de pintura a mão, em que os artistas produzem e vendem seus produtos. Com uma pequena cifra em dólares, você sai com o bolso cheio de Sons. Será que é assim mesmo que se escreve o plural da moeda uzbeque?

É no mercado Toki Zargaro Dome, cuja entrada está à direita na próxima foto, que a mega oferta de produtos enche os nossos olhos de cores, nossos dedos de texturas e nossa mente de imaginação, mas também de dúvidas. Acho bárbara de linda essa edificação com suas cúpulas.

Fonte: https://gotosilkroad.com/city/sight/toki-zargaron-toki-sarrafon-toki-tilpak-furushon-trading-domes

Quem terá desenhado os tapetes? Se são produzidos milenarmente, desde quando começaram a ser tecidos à máquina também?

As echarpes são de fio de seda ou de lã de camelo mesmo, ou isso é trololó para turista? Haja camelo e bicho da seda!

Quais as diferenças e significados culturais de cada desenho dos quepes que os homens usam por aqui? Os solteiros usam os de mesmas cores que os mais idosos? Os mais ricos se diferenciam dos mais pobres?

As bijuterias são produzidas no Uzbequistão ou produzidas em série na China? As cores e os modelos são os mesmos que vi há alguns na Turquia, mas isto é olhar estrangeiro que simplifica porque não conhece a cultura local…

Os maravilhosos casacos bordados em seda são bordados à moda “suzanis” sobre os quais havia lido alguma coisa em vários blogs e sites?

E essa profusão de bonequinhas serão as que as meninas uzbeques brincam ou elas já preferem a réplicas da Frozen que minha neta tanto admira? Girafas amarelas e camelos branquinhos, será que atraem os meninos daqui?

Por que as romãs aparecem em tantos bordados uzbeques? Será uma fruta que cotidianamente é parte da dieta deste país?

Nas casas uzbeques, o que guardam nessas sacolinhas? As chaves, a carteira e, atualmente, o celular?

Será que, ainda hoje, nas casas uzbeques mais abastadas, o chá é servido nestes bules e taças?

Em várias tendas há jogos de xadrez para vender, será que eles querem agradar os turistas ocidentais ou será que ficou essa boa herança do domínio czarista e, depois, soviético sobre o Uzbequistão?

Os pratos e tigelas são tão lindos que tive dificuldade de escolher um para levar para o Brasil. A dúvida me paralisou.

Há uma profusão de ofertas que me deixa um pouco tonta, em decorrência do número de tendas pelas ruas, pequenas lojas e outras já mais sofisticadas onde se vendem os produtos mais elaborados. Ademais, a gentileza e um pouco de insistência exagerada dos vendedores também me deixa sem paciência depois da primeira meia hora. Gosto de negociar o preço, mas passado um tempinho, fico com vontade de voltar para o hotel e descansar porque essa densidade de vida urbana acaba fatigando.

Deixo também, neste capítulo do meu diário de viagem ao Uzbequistão, fotos da gente de Bukhara, cuja simpatia me pareceu maior ainda do que a dos uzbeques de Tashkent ou Samarqanda.

No geral, eu era motivo de observação dessa gente, mas demorei a entender a razão. Depois de um tempinho, algumas crianças e adolescentes, em mais de um lugar, pediram-me para fazer registros fotográficos e pelos gestos, compreendi a razão: meu cabelo pintado de azul. Imagino o impacto causado, numa sociedade em que as mulçumanas sequer mostram os cabelos.

Carminha Beltrão

Maio de 2023

Uzbequistão 7 – Bukhara, uma cidade de alma persa

Agora sim, eu estou numa cidade histórica do único jeito que eu imaginava que elas poderiam ser. Em Samarqanda, havia ficado decepcionada por não haver uma parte bem delimitada do espaço urbano que eu pudesse reconhecer como sítio histórico, já que as edificações mais importantes estão dispersas pelo atual espaço urbano e localizam-se, inclusive, fora da área urbana. Em Bukhara, ao contrário, há uma cidade histórica, cujas feições mantêm-se no plano urbano atual.

Como todas as parcelas de espaço urbano que remanescem do passado, elas são compostas, como bem conceituou Milton Santos tratando do espaço, como ‘acumulação desigual de tempos’.

A maravilha, no caso de Bukhara, é que as camadas recentes não apagaram o desenho urbano do passado, ou em outras palavras, os tempos recentes não são espessos como os de outrora. Assim canais, ruelas e edificações compõem testemunho do mundo pretérito que revelam coesão entre o traçado das vias, as ações dos homens de poder de então, a cultura e a arquitetura de uma sociedade que não existe mais como o foi. Seu centro histórico é extenso e pudemos ser turistas pedestres por boa parte do tempo.

Ela foi o coração da Ásia Central, do ponto de vista cultural, religioso e econômico, ademais de ser também um oásis em meio ao deserto de Kyzylkum. Provavelmente como núcleo de assentamento concentrado tem sua origem no século VI a.C. Após a conquista da Pérsia por Alexandre, no século IV a. C., o território de Bukhara passou a ser possessão grega; fez parte dos Impérios Cuchana e Heftalita; em 710 d.C., foi ocupada por tropas árabe-islâmicas, mas segundo pude ler, aqui e ali foi ao final do século IX, por ter se tornado capital da dinastia persa dos Samânidas e parada importante da Rota da Seda, viveu um período de riqueza cuja herança compõe o patrimônio arquitetônico e urbanístico que hoje é apreciado por milhares de pessoas.

Demograficamente é menor que as duas cidades visitadas até agora por nós – tem um pouco mais de 250 mil habitantes – e é capital da província de mesmo nome. Este território é habitado há cerca de cinco mil anos e seus habitantes falam o tadjique, um dialeto a partir do persa. Eu não consegui distinguir isso ao ouvi-los, pelas ruas, porque o som me parecia o mesmo do uzbeque.

O sítio urbano do passado com suas formas orgânicas e não geométricas parece ter influenciado a expansão da cidade, como as duas imagens mostram, já que a planta atual mantém a forma urbana do passado e se pode ver que a tendência a um plano radial mantém-se com a cidade histórica compondo o centro atual.

Fonte: https://sheherazade-tour.com/uzbekistan/bukhara

Começamos nosso passeio pela madraça Ulugbek que, hoje, não funciona como escola, mas é um verdadeiro ‘antro’ dos turistas, com suas lojinhas e, no período da noite, com seu show de dança uzbeque, com desfile de moda das confecções modernas que utilizam as estampas tradicionais deste país. Esse programa não foi grande coisa, a meu ver, por isso se você for a Bukhara e estiver em dúvida, aconselho a deixá-lo de lado.

O sol estava escaldante às 14h, quando começamos a visita e a incidência dele sobre a parte posterior do portal impediu que eu fizesse uma foto, mas segue a de um site.

Fonte: https://sheherazade-tour.com/uzbekistan/bukhara

O neto de Timur, sobre o qual já fizemos referência em outro capítulo, aquele chamado Ulugbek e que era astrônomo, foi quem ordenou a construção dessa madraça. Seu portal alto numa construção que não foi feita de pedras, tampouco de concreto, distingue essa edificação entre tantas outras madraças pela altura.

Os registros fotográficos seguintes são da parte interna, onde se destacam as decorações em cerâmica em cada uma das celas que antes serviam de moradia aos estudantes. Entre cada duas colunas, os desenhos são diferentes, mantendo-se as cores que o compõem.

Na sequência, na praça em frente à madraça, conhecemos o senhor Nasruddin Hodja, um filósofo que ficou conhecido, ao longo da Rota da Seda, por sua sabedoria. Viveu em Bukhara e foi aí imortalizado numa estátua, diante da qual turistas de muitos países e todas as idades querem fazer seus registros fotográficos. Suas histórias ficaram conhecidas desde a China até Istambul e, como misturam sabedoria com tolices ou brincadeiras, ele é considerado o Sancho Pancho do mundo uzbeque.

Fonte: https://www.saga.co.uk/magazine/travel/destinations/asia/central-asia/who-was-nasruddin-hodja

Logo ao lado estava um pátio, também cercado de celas, que servia de paragem para os mercadores da Rota da Seda. Segundo Bakhram, os mais ricos tinham o direito de entrar ali com seus camelos e os menos ricos tinham que deixá-los fora dos muros de Bukhara. O que vemos na foto é o espaço central, onde se acomodavam os animais, hoje ocupado por mesas de um café, e as celas, antes tomadas pelos viajantes mercadores, para descanso e, hoje, pelos produtos de todo tipo que ficam tentando os turistas.

Estamos hospedados no Zargaron Plaza Hotel e lá encontrei, num dos corredores, quadros com fotos que parecem ser deste mesmo lugar há mais de um século.

A foto me fez voltar no tempo e fiquei imaginando as tropas de camelos e, mais tarde de cavalos (observou a foto?) atravessando o deserto e chegando a essa parada. Suponho que as celas eram forradas de tapetes, que havia uma linda sala de banhos para oferecer descanso aos ricos moradores, que os alimentos a eles oferecidos eram os mais apreciados naquela cultura e que deveria haver lindas mulheres para satisfazer seus desejos em troca de moedas ou de presentes trazidos do Oriente

Deixando a área em volta da praça central de Bukhara, passamos pelo bairro judeu sobre o qual escreverei um pouco no próximo capítulo e chegamos à linda madraça Abdullazizkan.

Com certeza, minhas fotos ficaram aquém da beleza desta edificação porque, neste caso, aos azuis e turquesas combinam-se tons de rosa que tornam muito singular a decoração desta madraça em comparação a todas outras que já visitamos.

Bakhram, nosso guia, sempre informa que os bolcheviques abandonaram as construções do período pré-soviético, pela ligação delas com o muçulmanismo e isso faz sentido, embora eu tenha visto aqui e ali, algo escrito sobre o início dessa recuperação ainda no período soviético.

Pelo número de construções, pela singeleza dos materiais – tijolos e azulejos – os quais o próprio tempo ajuda a destruir, avalio que o trabalho feito é enorme e de qualidade, porque muitas edificações estão já recuperadas e disponíveis à visitação turística. A madraça Abdullazizkan ainda carece de investimentos e muito trabalho para se encontrar totalmente recuperada, porque parte dos seus sobre relevos e azulejos não está em boas condições, mas isso não significa que ela não impressione muito os visitantes.

Recentemente, quando as autoridades públicas começaram os trabalhos para modernizar a praça central de Bukhara, encontraram novo sítio arqueológico, cuja foto abaixo mostra a área destinada no passado aos banhos.

Há muita coisa para contar ainda, como descrever a maravilhosa residência de verão do Emir de Bukhara Sitorai-Mokhi-Hossa, construção do século XIX, decorada com uma mescla de elementos árabes, persas e russos, sobretudo de San Peterburgo, que reflete o estilo francês; ou ainda mostrar o que vi no Mausoléu de Chor  Bakr do século X; quem sabe faria referência ao túmulo da mãe de Bahoudin Naskhband… mas abandono a tarefa ao meio, porque são muitos detalhes.

Para dar um gostinho ao leitor deixo uma série de outras fotos sobre lugares, a respeito dos quais não escreverei nada.

Fiquei com vontade de um dia voltar a Bukhara, mas acho que isso dificilmente vai ocorrer. Que as linhas desse diário de viagem me auxiliem no futuro a reviver essa linda cidade.

Carminha Beltrão

Maio de 2023

Uzbequistão 6 – Samarqanda, uma cidade das mil e uma noites

A foto que fiz de uma pintura que estava no museu (por isso o reflexo das luzes no vidro da gravura) mostra a importância que Samarqanda deve ter tido no passado. A representação de sua feira (bazar em árabe) indica que ali se vendia de tudo, com destaque para os tapetes, e havia muita gente. Não há como uma atração ancestral não se exercer sobre nós, ao contemplarmos essa imagem.

Todos nós já ouvimos falar do livro “As mil e uma noites”. Alguns escutaram histórias contadas pelos mais velhos a partir dele, outros tiveram a chance de ler alguns contos em uma das muitas traduções que esta obra tem.

Eu ganhei, quando tinha uns sete anos, uma versão colorida para crianças, que foi presente de meu avô materno. Foi para mim um presente muito especial, inclusive porque ele sempre preferia trazer presentes para os netos homens, de modo que ganhar alguma coisa já era motivo de alegria.

Não me lembro bem das histórias, mas sim que elas eram deliciosamente cheias de fantasias e que aquele livro merecia estar na estante do lado do Atlas que me foi presenteado pela Tia Irma, porque ambos tinham capa dura e isso dava a uma publicação um status muito diferente das demais. Hoje, com a estante cheia de livros, pergunto-me o quanto esses primeiros tiveram influência no gosto pela leitura e pela Geografia, mas isso é tema para outra conversa…

Abro o site da Amazon e encontro à venda esta obra, com destaque para o fato de que é uma pequena coleção de capa dura, como o meu adorado exemplar do passado.

Fico curiosa, tentando me lembrar de alguma história do antigo livro e me deparo, então, com o resumo apresentado pela maior plataforma de venda de livros do mundo atual:

Decidido a matar todas as mulheres solteiras do reino, após ter descoberto a traição da sua mulher, o sultão Shahriar casa-se a cada noite com uma jovem diferente que será morta ao amanhecer. Mas a filha do grão-vizir, a impetuosa Sherazade, decide enfrentar o desafio e interromper esse ciclo vingativo, oferecendo-se para a noite seguinte. Noite que se multiplica, assim como as histórias de Sherazade, adiando sua morte indefinidamente. Até que passadas mil e uma noites, o sultão, apaixonado pela envolvente narradora, suspende a ordem cruel. Obra-prima da literatura oriental, As mil e uma noites ganhou destaque também no Ocidente a partir da versão do orientalista francês Antoine Galland, no qual esta edição é baseada. Galland selecionou as lendas mais curiosas e de enredo mais palpitante, traduzindo-as para o francês. O livro alcançou êxito extraordinário, sendo a partir daí traduzido para vários idiomas. Com apresentação de Malba Tahan, admirador da cultura árabe e um de seus principais divulgadores no Brasil, esta edição reúne as histórias exóticas e maravilhosas que vem povoando o imaginário de muitas gerações de leitores.

Levo um susto, porque nada deste enredo ficou na minha memória, reforçando a informação de que são tantas versões e traduções que sei lá o que efetivamente estava apresentado na minha versão para crianças. Ademais, a cada idade temos filtros que selecionam aspectos diferentes de uma dada narrativa e o pouco que me lembro remete mais a viagens fantásticas do que às noites de Sherazade.

Não faz mal, porque agora que estive em Samarqanda vou ler novamente a obra, tomando cuidado para ficar com a que é considerada a melhor tradução, a de um professor da USP, Mamede Mustafá Jarouche, por ser a única efetuada diretamente do árabe para o português (fonte: https://lugaresdememoria.com.br/samarcanda-a-cidade-de-mil-e-uma-historias/)

Historicamente, há uma associação entre esta cidade, Samarqanda, nascida sete séculos antes de Cristo, e o famoso livro, que, de fato, nem foi ambientado diretamente nela. Com certeza, são os minaretes, as mesquitas, as madraças e os mausoléus todos cobertos com mosaicos coloridos, numa profusão de tons mais sensíveis e vivos, do que as que vimos em Tashkent, que animam o imaginário coletivo a pensar que este é um lugar especial. Pelo menos assim estou pensando eu agora.

Há quem considere que por ter sido citada várias vezes no livro, esse clássico da literatura árabe está mais associado a Samarqanda do que a outras cidades da Rota da Seda. Escreveu Sylvia Leite no site acima citado que a segunda maior cidade uzbeque e a mais visitada pelos turistas integra o mesmo universo cultural, em que é narrada a história do sultão Shahriar e de sua Shahrazade.

Encontro aqui e ali mais informações e fico sabendo que Michel Foulcault considera que os saraus de Shahrazade destinados a afastar, noite após noite, a decisão do sultão de matá-la podem ser compreendidos como boa representação do esforço humano de não deixar a morte atrapalhar a vida.

Procuro mais um pouco no Google, para entender a associação entre a famosa obra e a cidade que não lhe serviu de palco, e encontro a seguinte informação:

Pela abordagem histórica que faz a um Oriente que julgamos já não existir, a obra Samarcanda, de Amin Maaluf, faz renascer no leitor todo o romantismo associado ao nome mágico desta cidade: as Mil e Uma Noites e as caravanas de camelos de passagem pela Rota da Seda, os bairros poeirentos onde se acotovelavam multidões de turbante, os palácios faustosos de emires cruéis e os seus haréns proibidos, os jardins paradisíacos, palcos de noitadas de vinho e poesia.

[…] o ambiente arcaico, as personagens de outros tempos estão lá. Há velhos de barbicha pontiaguda, casacão comprido e faca na faixa enrolada da cinta, bamboleando-se nas botas negras de cano alto dos cavaleiros. As mulheres, muçulmanas de lenços coloridos, usam vestidos de um estampado ziguezagueante sobre as calças tufadas e vendem legumes e fruta nos mercados, algumas ainda com as sobrancelhas unidas por um traço negro.

Fonte: https://comedoresdepaisagem.com/mil-e-uma-noites-samarcanda-usbequistao/

Fico buscando na Samarqanda atual os vestígios de As mil e uma noites do passado e, memo sabendo que as mudanças são muitas e inexoráveis, encontro aqui e ali, manifestações de um jeito alegre de ser e, simultaneamente, de maior apego às tradições nesta cidade, como se o passado de glórias e luxo, valesse mais que o presente.

Há mais mulheres vestidas com túnicas longas, coloridas e com as cabeças cobertas com lenços, comparativamente ao que observei em Tashkent, capital do Uzbequistão. O gosto pelos brilhos parece ser maior por aqui, uma vez que suas roupas são feitas de sedas ou veludos sedosos que brilham à luz do dia. Aliás elas se vestem com tecidos invernais mesmo que as temperaturas tenham chegado, hoje, aos 36 graus centígrados.

Muitas, entre as mais velhas, têm até os dentes cobertos de ouro, mas não havia como tentar fotografar uma delas: seria muito invasivo. Assim, cometo um pequeno delito e surrupio um registro disponível no site iStock.

Também reparo que há gente pelas ruas e não são somente turistas. É no Registan, a praça monumental de Samarqanda, que desfilam as mulheres uzbeques mais ou menos fiéis à cultura muçulmana. Ali estávamos no final da manhã e uma noiva circulava com suas amigas antes da cerimônia de seu casamento. O vestido branco, segundo nosso guia Barkhram é herança da influência russa, a cabeça coberta é respeito à tradição mulçumana e sobre o celular nas mãos dela não preciso explicar muito.

Mais tarde, esperando o show de luzes que ocorre todos os dias às 20h30, observei muitas jovens, moças e rapazes, vestidos à modo ocidental, sempre com camisetas e bolsas ostentando as peças mais chamativas das grandes marcas globais autênticas ou ‘legítimas’ cópias do original (Diesel, Pierre Cardin, Yves Saint Laurent), afinal  o Uzbequistão está cada vez mais invadido pelos produtos industriais da vizinha China, ainda que nosso guia tenha estabelecido uma hierarquia informando que as melhores confecções são as que vêm da Turquia, ficando as chinesas em segundo plano.

Havia, também, as outras sempre acompanhadas das mães, quando solteiras, e dos maridos e filhos, quando casadas, ainda trajadas à moda ‘antiga’.

Encantou-me uma delas, pela beleza do rosto que talvez tivesse passado despercebido se o corpo estivesse mais à mostra (não vai você leitor interpretar que estou defendendo que andem cobertas). Ela tinha um jeito infantil, ao brincar com o filho, e estava extremamente alegre e risonha, o que afasta um pouco da ideia de que a cultura muçulmana seria mais fechada e triste que outras. Queria ter feito um registro fotográfico melhor do seu rosto, mas não foi possível… de todo modo, cometi outro pequeno delito ao trazê-la para esse blog sem pedir-lhe autorização.

Ali estava ela, como outras uzbeques, no Registan, coração de Samarqanda, que na sua língua tanto pode ser escrito com alfabeto cirílico como latino (Регистон, Registon).

Se pensamos que essa praça foi o centro principal da vida urbana no império Timúrico e que permanece até hoje com tanta vida, não apenas para os turistas como para os moradores, acho que se trata de um exemplo de espaço público muito vivo.

A palavra, de origem persa, significa lugar arenoso ou desértico (Rēgistan, ریگستان), e é representativo do papel de Samarqanda como um oásis na Rota da Seda. No passado, ali ocorriam tanto proclamações reais, precedidas de avisos que eram feitos por meio de explosões em canos de cobre, como era um local de execuções públicas daqueles condenados à morte.

Não é acaso que essa praça seja o coração da cidade, pois além de ter muito espaço livre para se estar, nela estão dispostas três enormes edificações voltadas à mesma finalidade: ensinar o Corão, a bíblia dos muçulmanos. Hoje essas madraças não funcionam mais como tal e são essencialmente o lugar dos turistas, mas ter visto que os moradores também a escolhem para passear ou fazer seus registros fotográficos mostram que a espetacularização da vida pode ocorrer de modos diversos, cotidianamente, como para os moradores, ou excepcionalmente como para os turistas; estandartizados como os organizados pelas agências ou não, quase peregrinos como alguns viajantes escolhem conhecer os lugares; pagãos ou religiosos, cristãos, judeus, hindus ou mulçumanos num mesmo ambiente.

A grande praça e suas madraças são herança dos tempos de riqueza de Samarqanda, decorrentes da passagem de caravanas da Rota da Seda e da riqueza e poder de Timur. A primeira foi construída entre 1417 e 1420 (à esquerda na foto superior e em close na inferior) e se chama Ulugh Beg Madrasah, a segunda denominada Sher-Dor Madrasah foi edificada entre 1619 e 1636 (a da direita na foto de conjunto) e a última Tilya-Kori, entre 1646 e 1660 (está na parte central também da foto anterior).

Os pátios internos são muito agradáveis porque oferecem visão mais detalhada das cerâmicas que decoram as paredes e, ademais, propiciam que imaginemos como terão sido os espaços de estudo há quatro ou cinco séculos atrás.

As portas das celas onde moravam os estudantes são, em alguns casos, ainda originais e desenhadas, com entalhes que valorizam a simetria e as representações da natureza como folhas de plantas. Aí estão os elementos que são tão caros à decoração árabe antiga que não admitia a representação de humanos.

Gostei das três madraças, mas a que mais me impressionou foi a terceira, Tilya-Kori, com sua linda cúpula em verde (ou seria turquesa?) e sua sala de orações que é dourada (a parte superior inclusive é totalmente em ouro). Pelo número de celas que apareçam na fachada central deduzo que teve muitos estudantes do Corão que por ali passaram.

Na noite seguinte, voltamos ao Registan para apreciar o show de luzes (foi quando fotografei a linda uzbeque sobre a qual fiz comentários). A temperatura mais amena do que durante o dia, mas sem vento, o céu extremamente límpido e o ambiente com tantas vozes e línguas que parecia uma Babel tornaram o espetáculo bem agradável, ainda que um pouco longo para o meu gosto.

As músicas tocadas são as mais diversas, havendo tanto orientais como ocidentais. A mudança das cores e o ritmo da reflexão delas nas paredes das madraças buscam orientar o show, que era fotografado e filmado por algumas centenas de pessoas.

Foi uma noite ótima!

A mesquita de Bibi-Khanum, nome da primeira esposa de Timur, é outro monumento representativo do apogeu de Samarqanda. Foi concebida para ser uma das maiores mesquitas do mundo, grande o suficiente para 14 mil pessoas orarem simultaneamente. Sua denominação é homenagem a Sarai Mulque Canun, conhecida como Bibi (‘mãe’ em persa) Khanun (‘senhora’ também em persa), ou seja, Senhora Mãe.

Seu arco de entrada tem 35 metros e nesta mesquita estava o enorme Alcorão que havíamos visto antes em Tashkent, cujo tamanho se justifica, porque deveria ser lido do alto do minarete.

Há muitos folclores sobre essa enorme mesquita. Um deles é de que Timur, por estar sempre em expedições de conquista, confiara à sua esposa acompanhar os trabalhos do arquiteto responsável pelo projeto. Ele estava enamorado de Bibi-Khanun e a cada pedido seu de pequenas modificações no projeto exigia um beijo e ela aceitava fazer o singelo pagamento…. Beijo após beijo o projeto foi tão alterado que não suportou o passar dos anos, trincou e mais tarde desmoronou parcialmente. Em outros sites, li que o desmoronamento se deveu ao terremoto de 1897. Verdade ou mentira, as relações entre o arquiteto e Bibi, como ela é chamada aqui no Uzbequistão, são a explicação dada para o fato de que Timur mandou executar o arquiteto que conseguiu se escafeder, antes que a execução ocorresse.

O Mausoléu Guri Emir, onde está a tumba de Timur, séculos XIV e XV, é outro ícone da arquitetura que faz do Uzbequistão, hoje, um país muito visitado pelos turistas. Fotografei a maquete do complexo, que oferece uma visão melhor do conjunto. Neste complexo, viam-se não apenas os turistas estrangeiros, mas também muitos uzbeques e mulçumanos de outros países, mostrando que há também um turismo associado tanto ao poder político do passado como à religião, afinal, não estamos falando de reinados laicos. Assim, ao lado da presença quase relaxada dos turistas em seus trajes quase caricatos, havia gente que realizava a visita em poses de quase adoração.

Muitas coisas mais pude conhecer em Samarqanda, como o Observatório Ubugbek, do século XV, que foi construído por ordem da esposa de Timur, para seu neto que tinha interesse pelos astros e acabou se tornando um estudioso do tema. Neste Observatório, muitas pesquisas foram feitas e se chegou à conclusão sobre a curvatura da terra paralelamente a este feito na Europa. [E há gente no Brasil que recentemente começou a acreditar que a Terra é plana, por desconhecimento total das evidências científicas ou por oportunismo político].

Visitamos também o Complexo Arquitetônico Shakhi Sinda, construído entre os séculos IX a XV, mas vamos concluindo por aqui esse capítulo do meu diário de viagem ao Uzbequistão, com uma foto feita na madraça Tilya-Kori, o lugar que mais gostei em Samarqanda. Infelizmente não sou boa em selfies e não consegui posicionar o smartphone para ter como fundo os lindos dourados da decoração.

Carminha Beltrão

Abril de 2023

Uzbequistão 5 – Samarqanda, a capital do império

O percurso entre Tashkent e Samarqanda (estranho “q” sem “u” não é mesmo?) foi feito por trem de alta velocidade, uma herança do período russo.

As duas estações eram bonitas e bem conservadas e viajamos de modo muito eficaz,  com conforto e rapidez.

Foi bom sair da capital e ver como se organiza o espaço rural.

No que se refere às paisagens naturais, predominam os tons amarelados e ocres por causa do clima semiárido; nas áreas de agricultura, em função da irrigação, tudo está verde.

O país destaca-se pela produção de algodão, mas neste trecho o que mais havia era o cultivo do trigo, já que aquele será plantado no começo do verão no hemisfério norte, fazendo, portanto, alternância com o valioso cereal, com base no qual grande parte da humanidade alimenta-se cotidianamente com o pão.

Havia também, aqui ou ali, oliveiras e alguns homens pastoreando cabras ou ovelhas.

Chamaram atenção os lugarejos por onde passamos. Se chegarem a ter o estatuto administrativo de cidades, eles seriam pequenas cidades, mas a maior parte se assemelhava a aglomerados humanos ligados à vida rural. Viajamos por mais de meia hora, o que em TGV significa mais de 100 km, passando por áreas em que se mesclava ocupação adensada, como pequenos núcleos urbanos nos arrabaldes de metrópole (Tashkent tem cerca de 3 milhões de habitantes), com ocupação do tipo rural. Ao longo da ferrovia e, depois em trecho que descreverei em outro capítulo, pela rodovia, há sempre muito comercio, desde pequenas barracas que vendem frutas, legumes ou comida pronta, até armazéns de material de construção ou pequenas indústrias. Com menos gente, esse tipo de ocupação me fez rememorar a que eu vi na Índia. A distinção entre o urbano e o rural é menos clara no mundo asiático que no mundo, dito, ocidental.

Durante o percurso, também constatei o testemunho do período russo tanto nos conjuntinhos de casas geminadas, que se alongavam ao longo da ferrovia, tendo sempre na frente um pequeno terreno com cultivos diversos, como nos edifícios de poucos andares, mas com muitas unidades habitacionais, que estavam a uns 500 metros mais ou menos.

As fotos não ficaram nada boas, por causa da velocidade do trem e do seu vidro duplo que causava reflexo, mas oferecem uma rápida ideia do tipo de habitat que predomina.

Ao chegar a Samarqanda, confesso que fiquei bem decepcionada, porque todas as minhas expectativas eram de encontrar uma cidade histórica, no sentido que conhecemos como tal no mundo ocidental.

Imaginava que andaria pelo seu sítio histórico, vivenciaria as ruas do passado, poderia sentir um ambiente urbano antigo e, portanto, mais correspondente à escala humana que à dos carros.

Foram precisos três dias para passar de uma lógica espacial à outra e aceitar o diferente.

Como vou procurar mostrar neste e no próximo capítulo, a Samarqanda muito antiga é, em parte, o que está no museu e num sítio arqueológico ainda pouco pesquisado. No mais, trata-se, mais da recriação do passado de glória da cidade, com a reconstrução de várias edificações que remontam ao período de Timberlão e aos séculos subsequentes, que não compõem uma área única que pudesse ser reconhecida por mim como o centro histórico da cidade.

No mais, é uma cidade de cerca de 500 mil habitantes, com avenidas largas, tráfego intenso e construções que devem ser, em grande parte, dos últimos cinquenta anos. É capital da província (viloyatlar em uzbeque) de mesmo nome, o que lhe confere papeis administrativos. Como fica num vale mais fértil, pela sua posição entre duas cadeias de montanhas, o trecho entre Samarqanda e Tashkent distingue-se pela riqueza agrícola em contraponto a outras áreas desérticas do país.

As edificações da cidade revelam uma mistura entre as formas pesadas que caracterizam o período soviético; elementos da cultura europeia, trazidos também da Rússia, mas especialmente de São Petersburgo, Leningrado durante o período soviético; outros da cultura árabe e turcomana que são caros para o povo uzbeque.

Tudo isso está misturado na Samarqanda de hoje com os novos empreendimentos, como o Brilliant Centre, que me chamou atenção pelo nome e pela extensão da área a ser edificada. Neste caso, já se observa, na paisagem urbana, a influência urbana ou arquitetônica estadunidense. Resolvi até visitar as páginas do empreendimento e fiquei surpresa com a altura das torres de apartamentos que serão construídas.

Fonte: https://www.facebook.com/brilliantcity/

Fonte: https://www.facebook.com/brilliantcity/

Por enquanto, vamos deixar para lá essa a Samarqanda do futuro próximo e voltar ao passado.

Para entender por que ela é um destino turístico tão especial, é preciso sintetizar um pouco da sua história. Vou me apoiar no que li em vários sites, bem como no que contou nosso guia Bakhram, por isso a miscelânia que vou fazer não merece créditos científicos, mas serve “para dar uma geral”, como diríamos em português do Brasil.

Vamos lá: talvez tenha havido um aglomerado humano nesta área desde o século VIII a.C., no entanto não há ainda, segundo nosso guia, pesquisas arqueológicas suficientemente extensas e conclusivas sobre o tema, para afirmar quando a ocupação teve início. À parte, as controvérsias e dúvidas sobre essa origem, foi no tempo do Império Persa que este assentamento humano se tornou importante já como uma espécie de capital de um território regional.

Alexandre, o Grande, esteve por aqui e dominou essas terras e sua gente em 329 a.C. Depois o aglomerado foi governado por líderes iranianos, turcomanos e mongóis, neste último caso, no Reinado de Gengis Kan, em 1220.

Essa sequência de domínios, que também se reflete em influências políticas, nas formas de organização social e na cultura, no caso de Samarqanda, explica-se por sua ótima situação geográfica, pois está a meio caminho entre a China e o Mediterrâneo, o que a tornou um ponto importante na Rota da Seda, razão pela qual chegou a ser a maior cidade da Ásia Central.

O nome dado ao primeiro aglomerado sobre o qual há já algumas escavações feitas, é Afrosiab e seu sítio está incorporado na atual Samarqanda. Observando a foto do mapa exposto no Museu da Cidade Antiga Afrosiab (aliás, vale a visita), chama atenção a extensão da rota que ia do Extremo Oriente até a Europa e o norte da África (volte lá na fotografia do trem de alta velocidade que corre no Uzbequistão e observe que ele é batizado em homenagem à Afrosiab).

Faça um zoom na foto, se quiser ver, no oeste da representação cartográfica, a cidade de Istambul, que foi capital do Império Romano do Oriente e, por isso, neste mapa, está indicada como Rum (relativo a Roma); veja também Iskandariya, ou seja Alexandria no Egito e Damasq, a atual Damasco da Síria. No extremo leste da rota, lá está Xonballq, a atual Pequim. Vejam que Samarqand está bem no meio do caminho.

Além esta situação geográfica tão especial, no contexto geográfico asiático e, talvez, também por causa dela, em 1365, foi a escolhida pelo Rei Timur, o Tamerlão, para ser a capital do seu império (Timúrida).

Talvez, você leitor, como eu, nunca tivesse ouvido falar dele, mas veja no próximo mapa a extensão que esse senhor conseguiu dominar, compreendendo territórios que vão desde a Turquia até a Índia atual, incluindo o Irã, parte do Iraque, da Síria e dos países da família do “quistão”.

Fonte: https://furibe.com/timur-langtamerlan-la-dinastia-timurida/

Dá para compreender, então, por que ele é sempre lembrado pelos uzbeques e sua imagem está em pelo menos três estátuas gigantescas no país: uma em Tashkent (ver o finalzinho de https://carminhabeltrao.wordpress.com/2023/04/30/uzbequistao-2-a-tashkent-de-hoje/), outra em Timur, a cidade que tem seu nome, e a que está na foto que se segue, em Samarqanda.

Fonte: https://www.pinterest.es/pin/323203710756293123/

Foi ele que tornou gloriosa esta cidade, em função dos investimentos para a construção de seu mausoléu, o Gur-i-Amim, da Mesquita de Bibi Hanim (assim batizada em homenagem à sua primeira esposa), da Praça Reguistão, que corresponde ao que eles compreendem como centro histórico da cidade, além de outras obras monumentais.

Com o esfacelamento de seu império, que apenas durou cerca de 100 anos, pois as gerações seguintes dividiram o território e não tinham o espírito guerreiro de liderança de Timur, Samarqanda remanesceu, nos séculos subsequentes, mais em função de seu papel comercial, mas, entre 1925 e 1930, foi a capital da República Socialista Soviética, até que o poder administrativo passasse para a nova capital Tashkent.

Desde 2001, Samarqanda, que significa “cruzamento de culturas”, foi reconhecida como Patrimônio Mundial pela Unesco.

Aliás, para se compreender Samarqand é necessário observar os “5 Ms”, como eles falam por aqui – madraças, mesquitas, mausoléus, minaretes e mercados. Vamos escrever um pouquinho sobre isso tudo, mas principalmente mostrar as fotos que dizem mais que mil palavras. 

O mausoléu de Timur, denominado Gur-i-Amim, é uma das construções mais lindas da cidade e, segundo o que pude ler sobre ele, tem influência de diferentes culturas e civilizações do Islão. As paredes internas são ornadas com mosaico de faiança, produzidos com técnicas persas, as partes com inscrição fazem referência a Maomé e a Alá.

Adorei ver os estudantes em fila, preparando-se para visitar o mausoléu, com seus uniformes à moda antiga, calça ou saia e gravata preta junto com a camisa branca. As meninas numa fila, os meninos em outra, dando para notar que as classes não são mistas. Gostei também dos chapeuzinhos que portavam com eles.

A suntuosidade do mausoléu fica evidente em sua decoração interna. Segundo o guia, a parte inferior é apenas dourada e a superior é efetivamente de ouro. Aliás, em uma de suas explanações, ele informou que o país tem muitas jazidas deste metal precioso.

Lindo demais, não é?

Não me perguntem o que está escrito nas paredes do mausoléu, mas as letras do alfabeto árabe lembram, como disse uma querida amiga, bailarinas. No geral, são versos com princípios mulçumanos.

Durante muitos séculos, apenas escritos e desenhos geométricos eram utilizados na decoração das edificações; mais tarde vieram os desenhos associados à natureza, primeiro do mundo vegetal, folhas, galhos e flores, e, depois, do mundo animal, como leões e grandes pássaros, por exemplo.

A representação de figuras humanas, em desenhos ou pinturas, não era permitida entre os mulçumanos, razão pela qual, antes de haver fotografias, não ficaram registros da aparência de muitos dos grandes personagens da história destes povos. Aliás, no caso de Tamerlão, isso foi possível, por causa de um estudioso que, vindo do ocidente, e tendo conhecido o grande guerreiro e conquistador, fez um desenho dele que, séculos depois, foi recuperado possibilitando que haja alguma segurança sobre a imagem do Tamerlão, agora imortalizada em bronze em tamanhos excepcionalmente grandes, quando comparo as estátuas dele que estão em Tashkent e Samarqanda às que temos nas cidades do mundo ocidental.

Ainda na lista dos mausoléus, Samarqand destaca-se pela Necrópole de Shakhi-Zinda (ou Shohizinda ou Chah-e-Zindeh), erguida entre os séculos IX e XV. Para uma visão de conjunto, preferi duas fotos profissionais. Na sequência, estão as minhas. Vejam na primeira que, ao lado do monumento histórico, há um cemitério mais recente.

Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/92/500px_photo_%2856183834%29

Fonte: https://www.advantour.com/es/uzbekistan/samarcanda/shahi-zinda.htm

De fato, este complexo é uma necrópole edificada onde terá sido enterrado um primo do Profeta Maomé. Hoje é visitado tanto por turistas, como por peregrinos religiosos.

Este complexo é composto de duas pequenas mesquitas e cerca de vinte mausoléus. Ao final da visita ao complexo, entrei para visitar uma das duas pequenas mesquitas, com a cabeça coberta e com todo respeito, e lá encontrei outros turistas. Trata-se de um espaço de uns 30 ou 40 metros quadrados, portanto bem pequeno comparado a outra mesquitas que visitamos. A sala tinha bancos de todos os lados, o que era ótimo para se ter um apoio com a finalidade de fotografar o teto (são sempre lindas as cúpulas internamente). No que eu estava buscando o melhor ângulo, várias pessoas saíram e, dei-me conta, então, que se iniciava um canto dramático, como uma oração e, ali estava o senhor que cantava, outros que acompanhavam, um casal que julgo que são alemães, porque os vi conversando na saída, e essa escritora chinfrim, que lhes rabisca algumas linhas.

Fiquei discretamente observando, mas logo aquele que cantava percebeu que os três estranhos ao mundo muçulmano não acompanhavam seu canto com os gestos que os demais faziam (um passar de mãos no rosto e na cabeça, como se quisessem jogar fora ideias ou sentimentos…). Parou, então, de cantar e nos pediu, meio rispidamente, que saíssemos. Como eu poderia saber que era exatamente a hora da oração deles? Será que havia alguma inscrição na entrada, indicando horários de visita interditada, que me passou despercebida?

À parte esse episódio, que não deixou de ser pitoresco, registro que o estilo arquitetônico do complexo se assemelha ao de outros monumentos históricos com os azuis e verdes predominando nos azulejos das paredes e nas lindas cúpulas. Como sempre o contraste com os tijolos valoriza ainda mais o brilho deles. Acede-se a este ambiente por meio de uma enorme escadaria. Percorre-se uma viela interna, ao longo da qual, dos dois lados, há mausoléus.  

Tanto os portais como as cúpulas são muito bonitos e estão bem conservados. Internamente, o mausoléu que mais apreciei é o de Shodi Mulk Oko, que era sobrinha de Tamerlão. Disse nosso guia, que este é o único que tem iluminação natural, por meio de janelas no alto da edificação, porque a moça tinha medo de escuro. Se há veracidade nesta explicação, não sei, mas a entrada de luz distingue positivamente este dos demais mausoléus do complexo.

Sobre os demais “M” – especialmente maçadras e mesquitas – escrevo alguma coisa mais no próximo capítulo.

Carminha Beltrão

Abril de 2023

Uzbequistão 4 – Tashkent entre o Oriente e o Ocidente

Fonte: https://brainly.com.br/tarefa/38329488

Como eu já tinha escrito sobre a Tahkent de ontem e a de hoje, fiquei procurando um título que pudesse designar o que ainda desejo descrever agora sobre essa cidade.

Primeiramente, veio-me a ideia de algo como “Entre o passado e o presente”, já que quero contar tanto sobre a mesquita e o mercado, dois fatos sociais bastante longevos, como sobre um espaço chamado Magic City, significativamente ‘moderno’. Depois me ocorreu que pudesse ficar bem “A cidade que permanece, as paisagens e os conteúdos que se alteram”, mas logo achei muito parecido com algum artigo que, como pesquisadora da área urbana, eu pudesse ter escrito.

Ocorreu-me, então, “Tashkent entre o Oriente e o Ocidente”. Em todas estas opções, meu modo de organizar o pensamento neste título estava bem binário, mas fiquei com o último, mesmo sabendo que as coisas no mundo são mais relativas ou dialéticas do que quaisquer opostos podem exprimir.

Lembrei-me, na sequência, de algo que eu havia lido sobre esse assunto há um tempo e me deparei, após colocar a frase no Google, com muitas opções de links a partir dos quais o tema pode ser abordado. Fiquei com a de Boaventura Sousa Santos. Eu sei bem, caro leitor, que não é um bom momento para uma mulher citar o famoso cientista social português. Afinal, ele vem sendo acusado de assédio e não devemos reforçar quaisquer práticas deste tipo, mas depois me lembrei que seria melhor não condenar as suas ideias, em princípio, em função das hipóteses, bem fundamentadas ou não sobre as suas práticas.

Estou separando o homem das suas ideias? Não seria uma contradição? Talvez, mas como gosto das ideias dele, estou me dando esse direito. Aliás, adorei um texto sobre este assunto e personagem escrito por meu amigo Marcelo Lopes de Souza…

Tanto trololó para refletir sobre um título, mas é assim: quando começamos a escrever perdemos o controle sobre o modo como as palavras e as ideias vão se encadeando pelos dedos das nossas mãos. Avaliem vocês mesmos que me leem se eu não tenho razão de não deixar ficar na geladeira as ideias do Boaventura:

Tal como acontece com os pontos cardeais norte e sul, o oriente e o ocidente são muito mais que orientações geoposicionais; são dispositivos culturais, conceitos, metáforas, que exprimem imagens positivas ou negativas, que só se entendem ao espelho umas das outras. As imagens positivas envolvem ideias de superioridade, originalidade, fascínio, harmonia, civilização, beleza, grandeza; ao passo que as imagens negativas invocam o inverso desses qualificativos. As imagens assentam em binarismos, mas combinam por vezes ideias contraditórias como, por exemplo, fascínio e horror. A construção das imagens depende sempre do ponto de partida, oriental ou ocidental, de quem a faz. A longevidade da contraposição ocidente-oriente na cultura e nas relações internacionais é de tal ordem que se transformou num arquétipo, uma espécie de inconsciente colectivo jungiano que aflora na consciência sob múltiplas formas, sempre que as circunstâncias propiciem. Talvez estejamos a entrar no período em que este arquétipo irá ser provocado a aflorar; por essa razão, a relação ocidente-oriente merece ser revisitada.

 Boaventura Sousa Santos

 Fonte: https://sul21.com.br/opiniao/2022/05/o-oriente-e-o-ocidente-por-boaventura-de-sousa-santos/

Não tenho nem expertise para revisitar a relação ocidente-oriente, como propõe o autor, nem intenção de fazer isso neste texto, apenas quis escrever algumas palavras sobre esse título e ponto final. Vamos à Tashkent novamente.

Escrevi um pouco, no capítulo anterior deste Diário de viagem ao Uzbequistão, sobre Khaste Imon. Expliquei que este complexo compõe o que se poderia conceituar como cidade antiga, mas faltou fazer referência a um elemento muito importante desta área urbana que é a mesquita. Ao lado do mausoléu, da madraça e da biblioteca em construção, essa mesquita impõe-se na paisagem urbana do processo de renovação desta área, após a Independência Uzbeque em 1991.

Nosso guia turístico, que agora eu descobri que se chama Bakhram e não Bahram, disse que esta mesquita pode acolher até 4000 mulçumanos rezando ajoelhados, simultaneamente.

Inicialmente, tive que vestir uma túnica (tem um cabide com várias na entrada, mas eu não recomendo que adotem essa opção, porque elas cheiram a dezenas de visitantes anteriores) para cobrir os braços e a cabeça e mesmo assim não pude aceder ao local das orações, tanto porque não podemos perturbar a concentração de quem ora, como porque não há espaço reservado para as mulheres nesta mesquita e elas nunca compartilham o mesmo ambiente que os homens nestas ocasiões. Pelo biombo, dei uma olhadinha na sala de orações.

Aliás, não era somente eu que estava espiando.

Como em outras edificações do patrimônio arquitetônico uzbeque, predominam os azuis com pitadas de dourado. Aqui na mesquita o branco também comparece compondo uma paleta de cores que passa a ideia de tranquilidade, em contraste com o movimento de pessoas que estavam do lado de fora, sejam os turistas que sempre andam como se procurassem algo, sem perceber o que está ao lado, como os uzbeques que se apressam para realizar as tarefas do dia, entremeando o seu uso do tempo com as orações.

Os desenhos geométricos da decoração interna, combinados com representações da natureza, sobretudo flores e folhas, compõem um conjunto muito harmônico e, ao mesmo tempo, leve. Para mim, essa estética agrada muito embora eu não seja fã dos dourados no geral, mas penso que ela se distingue bastante do barroco brasileiro, por exemplo, em que o excesso de ouro mais impressiona do que sensibiliza.

Logo na entrada da mesquita há uma placa com a indicação dos cinco horários diários para oração. Perguntei ao guia se todos cumprem esse ritual diariamente e ele respondeu de modo reticente, explicando que sempre que possível isso era feito.

Em cada um destes horários, a oração deve demorar de um a três minutos. Não me perguntem o que está escrito em uzbeque na placa, apenas aprendi que cada um destes horários tem seu nome próprio.

A visita ao Mercado Oriental de Chorsu foi muito agradável. Nessas situações, aproximamo-nos mais da vida cotidiana local. Embora haja turistas perambulando por ali (eles estão por todo lado), os vendedores e parte grande dos que estão adquirindo alimentos são uzbeques.

O mercado é gigantesco, composto por uma grande construção circular, onde estão dispostas as bancas de carnes, temperos e doces; um anexo grande, no qual se acomodam os que vendem frutas, grãos, legumes e pães; dezenas de barracas num pátio externo, onde se vende de tudo um pouco, passando por roupas, eletrônicos vindos da Índia ou da China; tapetes produzidos industrialmente…

A variedade dos temperos me fez lembrar com saudades do Bazar de Istambul, que espero rever no final desta viagem, pois estaremos nessa cidade por dois dias. O mais utilizado na culinária uzbeque pelo que me foi explicado é o cominho, embora o açafrão em fios fininhos me pareça sempre o mais bonito.

O setor de pães é um dos maiores. Há várias mesas em que eles estão dispostos, havendo alguns mais temperados e outros menos. Nosso guia fez questão de comprar um para que pudéssemos experimentar e, embora a aparência dele, redonda e com casca bem lisa, passasse a ideia de um pão denso e pesado, a massa interna é muito leve.

Na lateral da área de vendas de pães, está o setor de produção, onde vários homens preparam a massa, esticam, atirando de um lado para o outro, como fazem os melhores pizzaiolos, para depois alçá-la com maestria ao teto do forno. Isso mesmo, embora seja um forno como os de pizza, a massa não é assada na “chão” do forno, mas sim no “teto” dele e isso já indica como a massa é leve.

Infelizmente, não consigo passar aqui, por meio desse diário, o delicioso perfume do pão assado, com leves temperos, que pairava pelo ar e aguçava a fome, já que era meio do dia.

As frutas e legumes impressionam pela qualidade. A maior parte é produzida em estufas, com muita irrigação, já que, embora a porção leste do Uzbequistão seja composta de uma planície fértil, a maior parte do território é árida ou semiárida. Fiquei me lembrando de outros mercados e feiras livres que já visitei ou frequentei e não me lembro de tanta limpeza, variedade e qualidade (talvez, as melhores feiras livres de São Paulo assemelhem-se a este mercado, nos dois últimos quesitos). Adorei os tomates que têm forma que é arrematada por um biquinho, como se fossem os seios de uma jovem.

Na maior parte das bancas trabalham mulheres, embora nas que vendem carnes sejam os homens. Ali, observei bem os tipos físicos do povo uzbeque e, embora haja alguns de pele amorenada e traços mais fortes, parecidos aos do turco, predominam as feições da porção mais centro-leste da Ásia. As mulheres, no geral, têm um rosto que lembra o tipo chinês, mas seus olhos, ainda que puxadinhos, são maiores e seus traços mais suaves. Acho que são tantas misturas que é difícil descrever. Algumas completamente trajadas obedecendo os princípios muçulmanos de se “guardarem seus segredos”, como sempre repete nosso guia que está orgulhoso de sua filha ter feito essa opção, outras já estão vestidas sem a cabeça e os braços cobertos, mas no geral todas são discretas no que se refere ao comprimento das saias ou exibição do colo e dos braços. Não importa a opção religiosa e de vestimenta, o celular está por toda parte.

Ao entardecer, por sugestão de nosso amigo João, fomos conhecer a Magic City, por onde havíamos passado pela frente, de van, durante o dia. Foi essa visita a que mais me sugeriu a tendência à ocidentalização da cultura uzbeque. No geral, Bakhram faz referência negativa à influência russa no Uzbequistão e isso é compreensível, afinal foram eles os dominadores durante cerca de 70 anos de URSS. Não houve referências negativas à guinada em direção às grandes marcas globalizadas, ao modo de vestir do Ocidente e até às fantasias que têm origem neste lado do mundo. Logo percebemos que a Magic City é o espaço de diversão da população local, pois embora houvesse turistas por ali, como nós, eram proporcionalmente poucos.

Logo na entrada da Magic City deparamo-nos com o grande aquário que imita a estética arquitetônica das edificações históricas do Uzbequistão, mas parou por aí. Na frente, num enorme palco, alguém do Partido Social-Democrata falava ao microfone fazendo referência ao plebiscito, que ocorreria em 30 de abril, para mudar aspectos da Constituição Uzbeque, sob o patrocínio da Pepsi-Cola.

As ruelas que adentravam à city remetiam a Veneza, à Itália ou outros países que, em muitas situações, eu nem consegui identificar quais são.

Marcas como L’Occitane, Nike ou Lego atraíam as famílias que por ali passeavam e que curtiam os fast foods também ocidentais. A foto que se segue é homenagem aos meus netos que adoram um Lego, como pareciam as crianças uzbeques que, encantadas, olhavam a vitrine.

Todos aguardavam o show de luzes e jatos de água sincronizados com as músicas que se sucediam – algumas estadunidenses, outras italianas (Bella ciao, por exemplo) e uma parte, que calculo que sejam uzbeques (estas se parecem com as que escutamos na Índia).

Fonte: https://www.afisha.uz/ru/gorod/2021/08/16/fontan-magic-city

Ali jantamos e passamos uma noite agradável, o que mostra que, dentro de todos nós, mora um desejo de Disneylização da vida.

Desculpem-me a palavra meio feia, mas o que pensei que fosse um neologismo, ao procurar por outra expressão melhor no Google, encontrei uma conceituação na Wikipédia e vi que os sociólogos já cunharam essa expressão:

No campo da sociologia, o termo disneyficaçãodisneyização ou ainda disneylização, descreve a transformação comercial das coisas (por exemplo, do entretenimento) ou de ambientes em algo simplificado, controlado e “seguro” — uma reminiscência da marca Walt Disney (como suas mídiasparques, etc.)

Acho que nunca mais terei a chance de voltar ao Uzbequistão, afinal essa é uma viagem longa e cara. Ademais, sempre há outros lugares novos para se conhecer. No entanto, se eu tiver essa chance, daqui a 10 anos, talvez, conclua que o Ocidente venceu.

Por outro lado, como nada é totalmente previsível, há que se “pagar para ver”, ou seja, esperar o tempo passar, ler e ter outros elementos para uma avaliação melhor; afinal esse é apenas o olhar superficial de uma turista que deseja sempre ser viajante.

Carminha Beltrão

Abril de 2023

Uzbequistão 3 – A Tashkent de ontem

A visita principal que os turistas fazem, em Tashkent, é a que compreende o complexo, que eles chamam de Khaste Imon. Podemos nomeá-la como cidade antiga ou histórica.

O espaço está super bem cuidado e com um paisagismo agradável, pois entre as construções históricas e as novas, há jardins com poucas espécies arbustivas, dominando as gramíneas, o que nos possibilita ter sempre um horizonte relativamente largo, ou seja, quando estou visitando uma das edificações, consigo ver as demais. Essa visão de conjunto que nunca temos nas cidades medievais, bem menos monumentais, agrada muito aqui em Tashkent.

Bahram, nosso guia, explicou-nos que, durante o período soviético, as edificações antigas, em função do caráter religioso da maioria, ficaram abandonadas e, em volta delas, havia casas com gente vivendo ali. A partir da independência, essas moradias foram sendo compradas, demolidas e, nos espaços reunidos para compor áreas maiores, foram sendo plantados os jardins e criados os caminhos que interligam as joias do patrimônio uzbeque. Paralelamente, as edificações foram sendo recuperadas e impressiona muito a capacidade que tiveram de em 32 anos, desde a Independência, de realizar esse trabalho que é demorado e custa caro.

A arquitetura histórica aqui do Uzbequistão me agrada muito, porque é linda a combinação entre os tijolos à vista, os azuis e os verdes dos azulejos que adornam fachadas e cúpulas, com toques de dourado. Os tijolos à vista são de uma cor mais amena, que os avermelhados que temos no Brasil, um tom entre o ocre claro e o acinzentado, em função da semi-aridez do clima da Ásia Central.

Como grande parte das construções perdeu-se com o tempo, em função de três aspectos ao menos – a pouca durabilidade dos tijolos, o descaso dos soviéticos e, por fim, o terremoto que abalou Tashkent em 1967 – o que vemos hoje é, em grande parte, reconstrução feita, tal e qual as originais, ainda que haja parcelas das paredes e dos azulejos que remanescem do passado. Internamente, a proporção da remodelação é menor, porque o tempo não atingiu tanto os materiais construtivos como externamente.

Começamos a visita ao complexo pelo Mausoléu do Sheikh Zaynudin Bobo que foi um sábio e divulgador da ordem sufi conhecida como Suhrawardiyya. Viveu durante o século XII, seu mausoléu foi construído no século XVI e reconstruído no final do século XIX. Trata-se de uma construção pequena, comparativamente às demais que compõem a área, mas é singela tanto pela composição arquitetônica como pela sua finalidade tão especial – dar abrigo a um sábio.

Se o pequeno mausoléu não impressiona muito por fora, encanta internamente pela delicadeza e qualidade dos acabamentos. No teto, os sobre relevos são lindos. Parte do forro, os batentes, as portas e as colunas são de madeira, e são, também, adornados com fina marquetaria. Dos lustres dourados, emana um ambiente caloroso e íntimo. No cantinho, uma mesinha e dois bancos, lindos pela combinação entre as cores.

É bonito saber que a homenagem a Zaynudin Bobo não se deveu apenas a seu conhecimento sobre o Alcorão, mas também porque tinha ele um “espírito científico”, como explicou Bahram.

Além de sua tumba, outras menores estavam ali e correspondiam a contemporâneos a eles que aprenderam consigo e os admiravam.

Neste mausoléu, está exposto um livro com o Alcorão, o Usamna Qur’na, original do século VII. As páginas são feitas de pele de carneiro e ele está protegido por um vidro para mantê-lo em condições térmicas estáveis. Não há autorização, sequer, para fotografar o documento histórico, mas sinceramente o que me interessou mesmo foi a decoração do pequeno ambiente.

O complexo ainda é formado por uma madraça antiga, outra em funcionamento, uma mesquita e uma biblioteca que está em construção.

Como mostra a foto com o guindaste trata-se de outra construção magnífica que deverá ser destinada, sobretudo, à guarda de documentos históricos, mas onde haverá também um acervo mais amplo, com obras contemporâneas.

As madraças são um ponto alto nas cidades antigas do Uzbequistão e o devem ser em outros países do mundo mulçumano, mas eu nunca tinha ouvido falar essa palavra, por isso fui atrás de uma definição mais precisa, do que a que o nosso guia ofereceu:

“Um madraçal ou uma madraça (em árabe: مدرسة; romaniz.: madrsâ; em francêsmédersa) é uma escola muçulmana ou uma casa de estudos islâmicos.

A palavra deriva do árabe madrsa, por vezes transliterada como madrassa ou madrasa, palavra que em árabe originalmente designava qualquer tipo de escolasecular ou religiosa (de qualquer religião), pública ou privada. Em línguas ocidentais como o inglês, o espanhol e o português, porém, é comum ser o vocábulo atualmente utilizado para se referir apenas às escolas religiosas islâmicas, também denominadas escolas corânicas.

Nessa acepção, um madraçal típico normalmente oferece duas possibilidades de estudo: hâfiz (memorização do Alcorão) e âlim (que proporciona o reconhecimento de pessoa erudita pela comunidade).

A base curricular habitual de uma madraça inclui cursos de língua árabe e o ensino da xaria (o Direito islâmico)tafsir (interpretação do Alcorão), hadith (narrações do profeta Maomé), mantiq (lógica) e história do Islão.”

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Madraça

Visitamos três madraças (em alguns sites eu vi escrito também madrassa) em Tashkent e elas são muito parecidas entre si. São, via de regra, uma construção quadrangular ou retangular com um grande pátio interno. Pelo portal principal acede-se a este pátio, para o qual se viram portas e janelas de todos os ambientes, já que elas não se voltam para fora, segundo nosso guia, para não distrair os estudantes.

As salas maiores são destinadas às orações (uma pequena mesquita), às aulas e aos professores que ali vivem, os quais possuíam além dos aposentos para descansar, uma espécie de antessala com estavam com seus estudantes. Como sou professora e pesquisadora, enxerguei-me no século XI ou XII num desses ambientes, e tive saudades de um passado que não experimentei, mas, em poucos segundos, lembrei-me do quanto é importante a universalização e a adoção do ensino laico e fiquei feliz de trabalhar hoje e ministrar aulas em salas maiores e para pessoas de todas as classes sociais.

Nas madraças, os cômodos menores, que eles chamam de celas (como nos conventos e monastérios católicas e nas prisões – qualquer semelhança é mera coincidência) são destinadas aos estudantes, que ali residiam enquanto faziam seus estudos. Algumas têm dois andares. Pelo número de celas e com a informação de que cada uma abrigava até dois alunos, logo constatamos que as maiores madraças tinham algo como 80 estudantes simultaneamente, mas a maioria não passava de 40.

Em Khaste Imon, visitamos a madraça Kafal Shohi. Na foto, com um zoom, você poderá ver, nas paredes de tijolos: – os originais que tem um tom pouco mais escuro; – os que foram adicionados para recompor as edificações, que são mais claros e homogêneos.

Bahram explicou-nos que, muitas vezes, os novos foram colocados na frente dos antigos, como uma segunda parede, para evitar que a original desmoronasse. A beleza dessas construções é demais, no entanto, o uso deste material deixa-as muito mais vulneráveis ao desgaste do tempo do que, por exemplo, as catedrais góticas erguidas em pedra.

As cúpulas encantam pelo tom lindo de verde esmeralda e pelo brilho que os ladrilhos proporcionam. Funcionam como imãs para o nosso olhar, adicionados os enfeites em ladrilhos desenhados que estão na coluna que as sustenta (ver na foto anterior) e o acabamento dourado no cume da própria cúpula.

Uma cela era pequena, como se pode ver na foto seguinte, e chama atenção como a porta era baixa, o que não sei se tem a ver com o fato de os humanos tinham, no passado, estatura menor ou com a concepção desse espaço como fechado ao mundo externo.

Também conhecemos, fora do complexo, duas outras madraças – Kudeldash e Abdulkarim. A primeira funciona hoje como escola, na qual tanto se pode estudar o Corão, como outras disciplinas, entre as quais, segundo nosso Bahram, inclui-se até as tecnológicas.

Nesta madraça, chamou atenção o fato de que havia celas com portas e janelas viradas para fora e que ela é uma das grandes com dois pavimentos.

Como está em funcionamento, não pudemos visitar o pátio interno, mas justamente no horário em que ali estávamos, escutando as explicações de Bahram e fazendo registros fotográficos, via-se o movimento de saída das aulas.

Alguns estudantes saiam e desciam a escadaria, em direção a outros destinos, mas a maioria se dirigia à mesquita ao lado (na foto à direita, é a construção em branco com as cúpulas verdes) para a oração do meio do dia. Em pouco tempo, dezenas de estudantes saíam da mesquita. Impressionou muito o número deles, alguns carregando embaixo do braço o pequeno tapete que levam consigo para se ajoelharem durante as orações.

A última madraça vista nesta cidade foi Abdulkarim, que fica afastada do centro histórico, numa área mais nova onde se localiza também a edificação que abriga a Câmara Legislativa Superior, que deduzi se tratar do Senado do Uzbequistão (a conferir).

Essa madraça é uma construção também de grande porte, com dois pisos, mas menos adornada que as outras. Já por volta de 14h30, com as temperaturas elevadas, seu pátio interno estava pouco movimentado, o que ajudou a fazer um registro fotográfico melhor.

Fonte: http://www.traveluzbekistan.uz/tour/index.php/en/sights-of-tashkent/915-abdul-kasim-madrasah

Do que eu não gostei das madraças? Da opção uzbeque de abrigar em cada cela um pequeno comércio voltado aos turistas. Eles retiram a opção de vivenciar esses espaços e podermos nos transpor no tempo ao passado, imaginando como ali viviam os estudantes, o que a visita a esta última madraça propiciou, já que por ser mais distante, ter menos turistas e ter sido visitada num horário de muito calor, favoreceu experimentar alguns instantes de calma, com os comércios fechados com seus comerciantes cochilando pelos cantos.

Bahram justiçou inúmeras vezes a presença desse tipo de estabelecimento, como uma condição para ajudar a financiar a reconstrução das madraças, mas não me convenceu com seus argumentos, porque acho que geram um trânsito tão grande de pessoas e uma descaracterização do ambiente que é mais prejudicial que benéfica. Enfim, os espaços de estudos viraram lugar da mercantilização (com tanto ensino privado no mundo atual, qualquer semelhança é mera coincidência). Olha que eu gosto de comprar artesanatos de outras culturas, mas a oferta era tanta e havia tal nível de estandardização, que não dava nem ânimo de selecionar algo que valesse a pena. Ademais, nada tem preço e você tem que perguntar ao vendedor, fazer a conversão e começar a regatear, um pouco em inglês, um pouco em sei lá que língua mais.  Isso dá um trabalho!

O dia 28 de abril de 2023 foi pleno de aprendizados. Nem consigo acabar esse diário em um só capítulo. A mesquita e o mercado ficam para o próximo.

Carminha Beltrão

Abril de 2023

Uzbequistão 2 – A Tashkent de hoje

Quando somos turistas, aprendemos sobre os lugares pelos olhos e pelas ideias dos guias. São eles que nos mostram os pontos selecionados para o roteiro, que nos descrevem o que lhes ensinou outrem, bem ou mal, e misturam tudo com uma pitada das suas opiniões, sempre confiantes, conscientemente ou não, de que pouco ou nada sabemos sobre seus países, o que lhes dá o direito de escolher as cores e os tons com os quais vão pintar o quadro.

Nosso guia chama-se Bahram. Estava na escola básica ainda durante o período soviético e, por isso, aprendeu o russo. Como era obrigatório cursar outra língua estrangeira, a ele coube o espanhol, ainda que preferisse o inglês. Mais tarde desejou, para sua formação no ensino superior, a Arquitetura, mas como isso não foi possível, acabou fazendo Línguas Estrangeiras e aperfeiçoando o espanhol.

Trabalhou como professor, o que se pode constatar pelo modo como procura ser didático nas explicações, e atualmente atua apenas como guia turístico, durante quase todo o ano, de domingo a domingo, exceto nos dois meses mais frios do ano (dezembro e janeiro), quando as temperaturas chegam aos 20 graus abaixo de zero e, nos dois meses mais quentes (junho e julho) quando, segundo ele, mesmo à noite as temperaturas chegam aos 40 graus. Terá ele exagerado?

Fonte: https://www.dadosmundiais.com/asia/uzbequistao/clima.php

Acho que não, porque o gráfico acima representa as temperaturas médias e, portanto, as máximas e mínimas podem se comportar bem acima e bem abaixo do que está aí registrado.

Bahram, ao falar sobre o Uzbequistão, ao qual sempre se refere como “o meu país” tem uma referência temporal básica – antes e depois dos soviéticos. A cada explicação, ele encontra neste antes ou depois alguma justificativa que sempre apresenta como a principal.

Quando perguntamos se a economia vai bem, ele explica que os mais velhos são saudosos do período em que faziam parte da URSS porque os impostos eram mais baixos. No entanto, rapidamente, ele defende o governo pós-independência, uma vez que era necessário ampliar o orçamento para construir o país. Buscaram recursos em outras fontes, afinal a torneira soviética foi fechada, mas isso também demorou um pouco a vir, porque a Unesco, por exemplo, segundo ele, queria primeiro saber se era possível “confiar no povo e no governo deste país”.

Essa instituição teve papel importante nas últimas três décadas, já que muito foi investido para recuperar o patrimônio arquitetônico e artístico que havia sido produzido até a segunda metade do século XIX, antes dos russos, ainda os czaristas da Família Romanov dominaram esse território, para “evitar que os ingleses, que já estavam na Índia, viessem atrás do algodão produzido pelos uzbeques”.

É possível imaginar a importância que tem essa recuperação, que inclui edificações de até sete séculos atrás, no processo de construir uma identidade nacional. Afinal, depois de inúmeros domínios, com destaque para os persas, esses povos que compõem a família dos “quistão” (Quirguistão, Tadjquistão, Turcomenistão, Cazaquistão e Uzbequistão) compuseram a URSS.

Paquistão e Afeganistão ficaram fora do controle imediato russo, mas em relação àqueles outros do grupo “quistão” foram os soviéticos que os separaram e os delimitaram com fronteiras, em muitas situações definiram novas cidades para serem capitais e reprimiram a cultura muçulmana que lhes antecedeu. Se antes viam-se como etnias irmãs que ocupavam há séculos um território, passaram a ficar separados e, segundo Bahram, essa foi a estratégia soviética para dominá-los.

Entender-se como nação e país independente exige assim, eu imagino, muito trabalho ideológico, do que se justifica o antes e o depois, o meu país e os dos outros, o uzbeque a as outras línguas, mesmo quando sabemos que esse foi, apenas, o dialeto escolhido para ser o idioma oficial, tendo sido outros preteridos.

Os mais velhos têm saudades do tempo em que os serviços públicos eram gratuitos, pois, por exemplo, estudar hoje numa universidade pública custa em média dois mil dólares ao ano e, numa particular, cinco vezes mais. O acesso à moradia própria, segundo ele, é difícil para a maior parte da população.

Repito aqui o que lhe disse meu amigo João: “Bem-vindos ao capitalismo”. Ainda assim, parece haver um sentimento, entre os uzbeques, que ultrapassa esses percalços, que é o da autonomia que a independência trouxe.

No caso específico de Tashkent, pareceu-me, pelas explicações, que esse sentimento é ainda mais forte. Como capital moderna do país (a anterior era Samarqanda) e que sofreu um grande terremoto em 1967, outro antes e depois frequente apareceu nas explicações de Bahram. Esta cidade representa muito do que tem sido investido em favor da criação de um novo país, hoje bastante ocidentalizado na paisagem e um pouco também nas práticas sociais.

Ainda assim, a herança soviética está presente, por meio de iniciativas que marcaram de forma profunda a cultura, com o alfabeto e a língua, e a estrutura urbana com as avenidas largas e o metrô.

Ele começou a ser projetado em 1969, logo após o terremoto, na primeira fase de reconstrução da cidade, para a qual acederam vários estrangeiros, como parte do processo de seu soerguimento. Hoje, os uzbeques que compreendem o grupo mulçumano compõem cerca de 90% da sociedade, mas há cristãos (de vários países do mundo), cristãos ortodoxos (os russos) e os judeus que, afinal, estão por todo o mundo.

Atualmente, o metrô tem 48 estações que servem a cidade e já teve início a expansão de uma linha que deve ir além da cidade central e servir por trem de superfície os bairros mais distantes.

Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Tashkent_Metro

Eu gostei do desenho das linhas, especialmente da circular interna e da externa que unem as linhas radiais. Especialmente a circular maior é muito importante porque possibilita que haja deslocamento de um bairro ao outro, sem passar pelo centro. É o que desejamos para São Paulo e mesmo para o transporte urbano por ônibus para as cidades brasileiras, mas está difícil de chegarmos lá.

Logo na nossa primeira tarde em Tashkent, ainda sem o apoio de Bahram, que apenas nos acompanhara do aeroporto ao hotel, fomos conhecer o metrô.

As estações são muito bonitas e lembram, neste aspecto, as de Moscou. Os lustres são suntuosos, as paredes são revestidas de mármore, os mosaicos coloridos e, nos tetos, os sobre relevos brancos rememoram a influência da cultura árabe.

Nos sopés das escadas rolantes, havia umas espécies de pequenas cabines, de onde uma funcionária vigiava o uso do equipamento e dava explicações a quem pedisse. Supus que pode ser alguma herança do período inicial, quando essas escadas deviam ser muito modernas ou perigosas para a maior parte da população.

Do ponto de vista de uma primeira aproximação com a sociedade, chamou atenção que, a cada vez que entramos no vagão (fizemos três pequenos trechos), os jovens rapidamente se levantavam e, com gestos, ao verem que não entendíamos sua fala uzbeque, insistiam para que nos sentássemos. Foi inevitável lembrar que esse tipo de atitude está desaparecendo no Brasil, ainda que eu sinta sempre aquele desagradável incômodo de tomar consciência que os outros me veem como “idosa”.

No dia seguinte, perguntamos a Bahram qual a mais bonita estação de metrô de Tashkent. Ele pensou um pouco para responder e disse: “Cosmonautas”. Fui procurar no Google e achei que ele tem bom gosto. Os medalhões nas laterais homenageiam os astronautas russos que cruzaram o espaço sideral, desde um pouco antes dela ser inaugurada.

Fonte: https://www.advantour.com/rus/uzbekistan/tashkent/metro.htm

Fonte: https://pt.dreamstime.com/estação-de-kosmonavtlar-tashkent-usbequistão-uzbequistão-julho-metropolitana

Olha aí meu marido e meu amigo tentando descobrir, por meio do mapa e das inscrições nas estações em alfabeto cirílico, para que lado deveríamos tomar o trem e onde descer.

Nas ruas, o trânsito em Tashkent é movimentado. A maior parte dos carros é relativamente moderna, mas nem sempre as regras são obedecidas, o que exige que os pedestres, em algumas situações, mesmo na faixa, tenham que acenar com a mão para avisar que estão passando.

Em volta do nosso hotel, o Hampton assinalado com o alfinete vermelho no mapa, toda a área urbana é muito cuidada.

Há uma sensação de segurança, tanto porque afirmam que não há qualquer tipo de violência no espaço público, como porque está tudo limpo e os jardins estão extremamente bem cuidados. Há vários prédios públicos, com atividades governamentais, museus, centros de eventos etc. Um deles praticamente ao lado do nosso hotel também mostra a herança árabe com seus sobre relevos na fachada.

Os heróis, eleitos pelos uzbeques, também estão pela cidade, como Amir Tamur que significa Rei Amur (mais conhecido como Tamerlão, que é o aportuguesamento de Tamur, o coxo, pois ele era manco). Viveu entre 1336 e 1405 e foi, de fato, um conquistador deste território. Sua origem é turco-mongólica e durante sua vida reuniu largas extensões de terra sob seu poder, as quais em muito ultrapassam o atual território uzbeque.

Com o passar dos dias aqui, vou verificando a enorme importância desse personagem na formação da identidade uzbeque.

Carminha Beltrão

Abril de 2023