Bolívia e Peru 10

O comércio e las cholitas

La Paz encanta porque é uma cidade cheia de vida. Muito do que se vê aqui, encontra-se por toda a Bolívia, mas a densidade humana, o sítio urbano marcado por desníveis imensos e a necessidade de todo mundo se virar para ganhar a vida tornam a vida pública tão intensa, que é magnífico observá-la.

Desde a origem das cidades, o comércio foi uma atividade importante para lhes explicar a gênese e justificar a existência e o crescimento. Essa função urbana permaneceu em diferentes períodos da história e de modos de produção, seja no Ocidente, seja no Oriente, nos países ricos ou nos pobres.

Estamos na América Latina e, quando analisamos esse subcontinente, enxergamos, neste espaço, uma unidade que o diferencia, por exemplo, da América Anglo-Saxônica, ou da África ao sul do Saara, ou da Ásia de Sudeste. No entanto, quando aproximamos a lente, as diferenças aparecem, com muita intensidade e a ideia de unidade latino-americana precisa ser matizada.

No caso brasileiro, é indubitável o papel que as feiras tiveram e, em algumas cidades do Nordeste, ainda têm. No sul do Chile, visitamos mercados imensos. Na Colômbia, também é importante o comércio de rua. Em Cuba, na Guatemala ou em El Salvador nem se fala. Entretanto, nada me pareceu tão intenso como a importância que o comércio tem na Bolívia.

Não há pedacinho de calçada em que não haja uma pequena barraca ou carrinho oferecendo alimentos ou uma lona com os produtos em exposição; não há bairro da cidade onde o comércio não esteja; não é possível pensar nos postulados de Le Corbusier que propugnou uma cidade com separação de funções no espaço.

Aqui, tudo é misturado e junto! Desse ponto de vista, a Bolívia se parece mais com o Vietnã do que com a Argentina ou o Brasil.

Nas ruas onde o comércio formal se estabelece, em lojas que estão funcionando regularmente, o comércio informal está bem em frente, na calçada e na rua, vendendo produtos semelhantes (talvez revendendo das lojas) ou completamente diferentes, como uma ação de complementaridade, por exemplo, lojas vendendo roupas e barracas na rua vendendo alimentos prontos para quem está fazendo compras.

Olhando de cima, a partir de registros feitos no percurso por teleférico, veem-se as barracas por toda parte, às vezes em esquinas, às vezes por ruas completas.

Há setores do comércio que são mais voltados aos turistas, como a rua dos paráguas, como é conhecida por causa da seus adornos.

Ou a rua Sagarnaga, uma das mais importantes, comercialmente falando, por meio da qual se chega à grande praça onde está a Igreja de São Francisco.

Se você for um dia a La Paz, não deixe de fazer a visita guiada a essa igreja, pois as obras de arte que estão no convento dos franciscanos e a própria construção merecem ser apreciados.

Eu gostei dos pátios internos, das galerias, do jardim onde os religiosos cultivavam temperos e árvores frutíferas, da torre com os sinos e das paredes azuis que distinguem uma parte da edificação.

Saindo do silêncio que o ambiente franciscano nos proporcionou, encontramos novamente o comércio, o barulho que lhe é peculiar e gente, mais gente, na enorme praça onde uma parte das pessoas transita, outras vendem e compram, e outras, apenas, ficam sentadas na escadaria esperando o tempo passar.

As rainhas deste comércio, que está por toda lado, são as cholitas, como aqui são chamadas as mulheres que, com origem ou moradia na área rural, ainda se vestem de modo tradicional.  Cholita é diminutivo de chola, que segundo a Wikipédia é

“…é uma denominação étnica referida a mulheres mestiças. O termo aplica-se de maneira contemporânea àquelas que utilizam vestimentas tradicionais estabelecidas durante o processo inicial de mestiçagem no atual território boliviano, e também se estende à outras mulheres mestiças e indígenas.”

É impressionante o quanto elas trabalham. Chegam cedo, descem das vans, abrem seus panos coloridos na calçada ou descobrem as pequenas barracas que já têm estabelecidas e passam o dia comercializando.

Em algumas situações cozinham por ali; em outras trazem alimentos naturais produzidos, sem agrotóxicos como destacou nosso guia Franz; vendem frutas descascadas; comercializam lenços de papel, cartões para celular e outras quinquilharias do mundo industrial…

Comem ali mesmo e, mais de uma vez, via que, após ao almoço, abaixam a cabeça sobre o próprio colo e tiram um cochilo.

Sinceramente, fiquei pensando o que fazem os homens por aqui, porque também na área rural, a pastagem de ovelhas ou alpacas, é responsabilidade delas.

JáJá algumas que se vestem de calça jeans, ou abrigo da Nike e usam tênis, mas são exceção. Neste caso, praticam o comércio, mas não merecem ser chamadas de cholitas.

A maioria está trajada com suas saias pregueadas, sob as quais usam enchimentos e várias anáguas coloridas. Com as duas tranças e a mercadoria ou o bebê que trazem nas costas em seus tecidos coloridos, que são vendidos por toda parte, compõem a paisagem urbana boliviana.

Achei engraçadas duas coisas. Primeiro que, mesmo com um calor grande no meio do dia, permanecem extremamente agasalhadas, pois além das saias com várias camadas, e o tal enchimento para alargar o corpo abaixo da cintura, várias delas estão com meias de lã e usam xales para completar o traje, ainda que seja verão.

Em segundo lugar, todas usam chapéus, porque o calor aqui é intenso e embora a maioria já tenha optado por modelos mais modernos, ainda há as que são fiéis ao de feltro marrom, tipo um chapéu coco. Este, a meu ver, nem protege do sol, porque a aba é curtinha, nem protege do frio, porque ele não entra efetivamente na cabeça, mas fica equilibrado sobre ela e a qualquer ventinho, elas erguem a mão para segurá-lo.

Nos dias de festas, como pude observar em El Alto, ocasião em que se dirigiam a uma festa religiosa, elas usam o mesmo traje, mas muito mais refinado. Algumas vezes com tecidos acetinados, coloridos, com algum tipo de brilho e joias. Não consegui fazer uma foto, mas reproduzo a que se segue que extraí do Pinterest (https://br.pinterest.com/pin/3377768464255956/)

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 9

La Paz e Mi Teleferico

Ficamos apavorados (sim esta é a palavra apavorados) na chegada à cidade de La Paz.

Antes mesmo de sairmos da rodovia, o trânsito já se adensava. Ao entrarmos na área urbana metropolitana, deparamo-nos com uma circulação de veículos caótica, por três motivos ao menos.

Em primeiro lugar, a topografia hiper acidentada da cidade não ajuda em nada a circulação, porque o plano urbano é complexo, as vias são estreitas e obedecem sempre ao imperativo do relevo.

Vejam na primeira imagem, os contrafortes da cordilheira à leste e a área central encaixada numa bacia. Na segunda imagem, observem o plano urbano do setor centro-oeste da cidade – ruas sem saída, estreitas e sinuosas.

Em segundo lugar, ninguém obedece a regras de trânsito, o que é o comum aqui na Bolívia, onde não se respeitam vias preferenciais, ultrapassa-se pela direita e semáforos parecem ser um enfeite, porque todos continuam a circular, mesmo se ele está vermelho.

Tudo isso em uma cidade com muitos veículos nas ruas, levando a inúmeros congestionamentos, o que aqui, eles chamam de tranqueros. Vejam o que o Google mostra às 10h30, e é possível imaginar como isto fica às 18h00.

Em terceiro lugar, o que tem relação com segundo ponto, há centenas de vans circulando pela cidade, cumprindo o papel de transporte coletivo. Elas trazem escrito, no vidro dianteiro, os roteiros que percorrem e, a cada vez que alguém acena, o motorista para em fila dupla ou tripla e azar o seu se estiver atrás dele. Se for uma rua de única mão, a única opção é esperar; se for uma avenida, é lutar para conseguir ultrapassá-lo pela direita ou pela esquerda.

Não fosse pouco, elas também ficam paradas em qualquer lugar para aguardar passageiros quando estão totalmente vazias. No domingo, passando por um bairro, onde havia uma festa religiosa que reunia centenas de pessoas e barracas onde se vendia de tudo, embora estivéssemos numa via de três mãos, as vans ocupavam duas vias e, de repente, paravam na terceira para atender alguém que queria voltar para casa ou descer.

Fonte: https://pegamosumaestrada.com.br/la-paz-bolivia-roteiro-de-3-dias-melhores-atracoes-e-dicas/

Devemos ter levado uma hora ou mais para nos deslocarmos por carro da rodovia até o apartamento que locamos pelo AirBnB na área pericentral da cidade. Uma loucura! Ruelas, curvas acentuadas, gente cruzando na frente do carro e nada de haver nem placas com os nomes das ruas, nem número na frente dos prédios. Não é à toa que quando nos passam um endereço, além das informações usuais, é comunicado o nome do prédio, assim, você pode encontrá-lo pelo letreiro que o nomeia na fachada, já que pelo número será difícil…

Fiquei pensando se já tinha enfrentado trânsito semelhante na vida. Dehli é pior, porque a densidade demográfica é enorme, há gente que mora nas ruas e os tuk tuk (principal meio de transporte na Índia) estão por toda parte, sem seguir quaisquer regras.  Aliás, por aqui, também vi alguns veículos deste tipo. Acho que, No Brasil, ele seria uma boa opção alternativa às motocicletas.

Fonte: https://indiasomeday.com/es/negociar-el-precio-de-los-tuk-tuk-en-india/

Marrakesh não fica atrás em termos de circulação urbana, mas como tudo, no mundo marroquino, é mais lento, há tempo para o motorista decidir entre aguardar ou encontrar caminho alternativo, quando alguém decide esticar um tapete para um turista ver, bem no meio da rua.

Nesses dois casos, só passamos apuros de observar, já que quem dirigia eram os motoristas das agências de turismo com as quais viajamos.

O Rio de Janeiro também não é para principiantes, afinal motoristas de ônibus e de táxis não gostam de esperar e o sítio urbano, entrecortado por morros e lagoas não ajuda. No entanto, conhecer já a cidade, facilita nossa vida de condutor.

Pois é, La Paz deve ser, então, na condição de motorista, a experiência mais difícil que já vivemos. Não foi à toa que, para fazer passeios por aqui, optamos por outros modais de transporte e preferimos deixar nosso carro guardadinho na garagem.

Todo este quadro, ajuda a entender, porque é uma maravilha o sistema de transporte coletivo e público que foi estruturado por teleféricos nesta cidade.

Quando visitei Medellin, na Colômbia, cidade que tem um sítio urbano também ocupando uma bacia entre montanhas, pude constatar a melhoria na circulação trazida por teleféricos. Aqui, em La Paz, esse sistema é ainda mais revolucionário, porque tem mais linhas e porque o relevo é ainda mais acentuado.

Acho justo que o site da empresa que oferece o serviço, traga logo na página de abertura, as frases “superando limites” e “transportando sonhos”. Acho que não é exagero, porque, para quem mora na periferia, neste caso nas áreas topograficamente mais altas e nas encostas mais íngremes, em sítios que muitas vezes carros não chegam, esse sistema de transporte é uma maravilha. Vejam o site da empresa, que nos foi dita que é pública: https://www.miteleferico.bo/.

São 10 linhas de teleféricos, que funcionam maravilhosamente. São estações modernas, cabines confortáveis (podem viajar entre 8 e 10 pessoas sentadas em cada um), o sistema está bem desenhado, havendo linhas radiais que levam ao centro, e outras transversais, que, no topo das serras, articulam uma linha à outra.

O sistema leva o nome de RIM – Red de Integración Metropolitana.

Ah, é verdade, já ia esquecendo de comentar que o município de La Paz, com outros municípios compõe uma área urbana bem considerável, sendo o mais importante deles El Alto. O nome tem a ver com o fato de, a oeste de La Paz, esta cidade estender-se por uma extensa área plana que está no topo das maiores elevações que circundam a área urbana.

Embora em outros capítulos deste diário de viagem, eu tenha feito referências à população estimada de Santa Cruz de la Sierra e de Cochabamba, agora passo dados mais oficiais. Eles já estão um pouco ultrapassados, porque se referem ao Censo de 2012, mas são suficientes para se ter uma visão de conjunto e ver que El Alto é inclusive mais populoso que La Paz.

PosiçãoCidadeDepartamentoPopulação
(
censo 2012)
1Santa CruzSanta Cruz1.453.549
2El AltoLa Paz848.840
3La PazLa Paz764.617
4CochabambaCochabamba630.587
5OruroOruro264.683
6SucreChuquisaca259.388
7TarijaTarija205.346
8PotosíPotosí189.652
9SacabaCochabamba169.494
10QuillacolloCochabamba137.029

Fonte: https://www.wikidata.pt-pt.nina.az/Lista_de_cidades_na_Bol%C3%ADvia_por_popula%C3%A7%C3%A3o.html

Voltando ao teleférico… Tivemos oportunidade de fazer um grande percurso compondo um arco que vai de sudeste ao sul, oeste, norte, pelas linhas verde, amarela, prateada, vermelha e laranja (deem uma olhada para ver a extensão do percurso que fizemos).

Fonte: https://urgente.bo/noticia/mi-telef%C3%A9rico-reduce-su-horario-de-funcionamiento-de-600-2200-de-lunes-s%C3%A1bado

Fiquei encantada pela limpeza das estações, pela arquitetura agradável, pela eficiência das conexões e, sobretudo, pela amplitude da visão que esse percurso me deu sobre a cidade. Além do mais chamar um sistema de transporte de Mi teleférico, é bonitinho demais.

Enquanto escrevo este texto, deparo-me com uma matéria que saiu na BBC Brasil sobre o tema – quem se interessar, vale a pena a leitura: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cpv6epy1n32o. Se lerem, verão que a minha opinião sobre teleférico em São Paulo não é apreciada pelos experts no tema.

As fotos que fizemos no percurso por teleférico, falam por si. Passamos por bairros de classe média e alta, alguns verticalizados, outros com espaços residenciais fechados, mais presentes no setor sul.

“Voamos” por cima de inúmeros bairros populares, que se caracterizam por não terem reboco nas paredes externas. Quando meu filho esteve nesta cidade, há algum tempo informaram que se paga menos imposto, se a casa não estiver rebocada. Perguntei ao guia que nos levou ao Valle de las Lunas e ele confirmou essa explicação.

O sistema, do ponto de vista da engenharia, é também surpreendente. Os pilares que sustentam as linhas estão assentados nos espaços mais difíceis: encostas íngremes, ajeitando-se entre construções que já existiam, passando a baixa altura em algumas partes e “nos céus” em outras. A informação que tivemos é que foi implantado por chineses e que os bolivianos estariam endividados por causa dos custos. Suponho que sim, mas ao mesmo tempo deve ser mais barato do que implantar uma linha de metrô.

Em São Paulo, por exemplo, algo semelhante cairia muito bem, para começar, com três linhas, suspensas sobre os rios Pinheiro, Tietê e Tamanduateí – nada de desapropriar terras, nada de “cavocar” o subsolo. No Rio de Janeiro ou em Belo Horizonte, onde a topografia é mais movimentada, nem se diga, a maravilha que seria. O Rio deu início a uma ação desta natureza, mas parou por aí.

A foto que se segue não ficou nada boa, mas faço questão de incluir neste relato, para que observem a “tripa” colorida que corresponde a uma escadaria que dá acesso às casas. Quem mora nelas não pode chegar de carro e mesmo havendo o teleférico têm que subir ou descer até a estação mais próxima.

Em vários lugares, a cabine do teleférico passa tão perto das casas que podemos entrar na intimidade doméstica delas. Ver mulheres lavando roupa, crianças brincando, gente chegando e saindo.

A estação El Alto está a 4095 metros de altitude. Na média, La Paz está a 3.600. Só essa informação é suficiente para avaliar a importância desse sistema de circulação urbana.

Desta estação, amplia-se ainda mais a visão do conjunto urbano, com La Paz bem encaixada na cuenca, como se chama em espanhol essas bacias acomodadas entre montanhas.

Passamos por um bairro que está todo colorido, por estímulo do poder público municipal e ação da “comunidade” do bairro. Ficaria maravilhosa La Paz, se essa iniciativa se multiplicasse, porque a cor de tijolo predominando deixa a paisagem um pouco triste, o que não combina com o espírito dos bolivianos.

O passeio foi tão completo, que vislumbramos os três cemitérios principais da cidade. O primeiro ao sul, um cemitério jardim, eu não fotografei. Os outros dois estão registrados a seguir. Observem que o primeiro deles é um cemitério vertical. Segundo Franz, o guia que nos acompanhou numa visita que ainda vou relatar em outro capítulo, este cemitério tem escadas disponíveis, para os que desejam colocar flores para seus mortos que ocupam o 5º. ou 6º. andar.

A hierarquia social também funciona para os mortos. O cemitério jardim que está no sul, onde predominam habitats de elite é o mais caro e bonito. O cemitério vertical é o mais utilizado pelos segmentos médios. O terceiro que aparece nas fotos seguintes e se espraia sobre o morro, é ocupado pelos mais pobres, segundo o Franz.

Adorei conhecer La Paz, por meio do Mi Teleferico.

Fonte: https://www.facebook.com/miteleferico/

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 8

Cruzando os Andes e chegando à La Paz

Fizemos a segunda parte da travessia dos Andes, percorrendo o trecho entre Cochabamba e La Paz, cidade onde estou escrevendo esse “capítulo” de meu diário de viagem à Bolívia e ao Peru, descrevendo o que vivemos há dois.

Não sei bem por que, depois de um dia cansativo de passeios em La Paz, que descreverei em outros capítulos, zapeando pela Netflix no apartamento alugado pelo AirBnB, onde estamos hospedados, encontramos o filme Sociedade da Neve. Ele é a aposta dos espanhóis para ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro. Clicamos e passamos duas horas e vinte minutos magnetizados pela película.

Fonte: https://javiu.blog/2024/01/05/005-2024-a-sociedade-da-neve/

Trata-se da filmagem do que alguns chamaram de a “Tragédia nos Andes”, outros de o “Milagre nos Andes”, representando o que sucedeu após a queda de um avião da Força Área Uruguaia, que, em 1972, levava um time de rugby e outros passageiros para Santiago do Chile. Eram 45 pessoas no total, das quais sobreviveram 16. Foi um acidente muito divulgado pela imprensa na época.

Alguns faleceram no momento em que o avião caiu sobre os Andes, cobertos de neve, outros morreram durante os 72 dias de luta para sobreviverem até encontrar socorro. Sim, foram eles que foram atrás de socorro, porque as ações de busca já tinham sido encerradas há algumas semanas.

Senti arrepios ao ver o filme e o recomendo. Primeiro, porque é uma película sensível e não cai em maniqueísmos sobre a pertinência ou não dos sobreviventes, a dada altura, passarem a se alimentar da carne dos corpos dos que faleceram.

Em segundo lugar, porque as imagens são lindas de morrer e os atores latino-americanos, nesta produção hispano-estadunidense, trabalham muito bem.

Por último e o que é mais importante para este relato, porque, pelo filme, constatamos a grandeza da natureza e de suas dinâmicas, sobretudo quando estamos tratando de altitudes como a desta cordilheira.

É claro, os Andes são exuberantes, como procurei mostrar no capítulo “Bolívia e Peru 6”, mas é, ao mesmo tempo, incrível imaginar as dificuldades que, no passado ou hoje, os seres humanos enfrentavam e enfrentam para atravessá-lo.

De boa, nós atravessamos por terra, portanto não estávamos num avião que não conseguiu concluir o trajeto proposto. Ufa! Que alívio.

Mesmo assim, sentimos a grandeza das forças naturais que erigiram essas paisagens tão maravilhosas.

Resta sempre um pouco de inveja, positiva é claro, dos corajosos que desafiam a natureza, pois é epopeica a experiência que vivem, como deve ser a relatada pelo alpinista inglês que escalou as maiores elevações da América do Sul. Pretendo ler este livro qualquer hora.

O trecho que percorremos perfaz 379 km, que levamos para atravessar um pouco mais do que as sete horas previstas pelo Google Maps.

Como se pode ver na imagem, foi na primeira parte que enfrentamos os aclives mais pronunciados, porque depois o percurso se desenvolve, pelo altiplano em que se encontra La Paz. Independente dos trechos mais ou menos íngreme da rodovia, todo o tempo estamos cercados de elevações e formações geológicas das mais impressionantes.

Ao contrário da travessia realizada para chegar a Cochabamba, aqui a cordilheira, em patamares mais elevados, mostra-se com toda sua força geomorfológica, já que a vegetação é escassa a não recobre as maravilhosas formas esculpidas pelo tempo, desde a Era Terciária. As fotos falam por si.  Mostram o tamanho dos veículos diante das elevações rochosa.

Fazem-nos rir com as placas de trânsito, solicitando que não ultrapassemos os 50 km por hora, como se isso fosse possível nos trechos mais acidentados.

Representam as camadas que se sobrepuseram e depois se dobraram, formando a cordilheira e mostrando uma sucessão de tempos geológicos.

As fotos também revelam a beleza dos vales que se escondem entre as serras; as encostas mais suaves que foram sendo degastadas durante milênios…

Ao contrário do território onde houve o acidente com o avião da Força Aérea Uruguaia, na fronteira entre a Argentina e o Chile, os Andes são menos inóspitos à vida humana na Bolívia. Por essa razão, havia lugarejos e gente por todo o percurso, ora ocupando vales entre montanhas, ora ocupando justamente as partes mais elevadas.

Em Tapacari, havia uma placa informando que estávamos a 4.102 m de altitude. Saindo do carro para uma foto ou outra, sentíamos tanto o vento frio como um pouco de falta de ar.

Afirmar que a vida é menos inóspita neste território não significa que a vida destes bolivianos deve ser fácil.

A fonte de renda para os que vivem nessas alturas, pelo que pude observar, advém da criação de ovelhas, da produção de algum artesanato muito elementar, da venda de combustível e de alguns alimentos que são oferecidos às margens da rodovia.

Perguntei-me o que levava tanta gente a viver nesse território, em que as dificuldades se apresentam cotidianamente, mesmo no verão.

Depois me lembrei que, provavelmente, a eles não foi dada oportunidade de qualquer escolha. Estão ali e pronto!

É necessário fazer o possível e sobreviver.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 7

Cochabamba

Fonte: https://www.istockphoto.com/es/vector/paisaje-urbano-edificio-abstracto-forma-simple-y-arte-de-estilo-moderno-dise%C3%B1o-gm1370453446-439999162

A primeira visão de Cochabamba foi surpreendente, porque a cidade está encaixada numa bacia entre as montanhas. Desculpem a falta de enquadramento da foto, mas foi o possível com o carro em movimento. A imagem do Google Maps com o relevo, que vem na sequência, mostra melhor a situação geográfica da cidade e possibilita vislumbrar como ela se acomoda entre as montanhas.

Cochabamba é a capital de um dos nove departamentos que compõem político-administrativamente a Bolívia. Situa-se no centro do território boliviano e, por isso, é o único que não faz fronteira com os países lindeiros.

Fonte: https://www.flickr.com/photos/thejourney1972/3473435847

A cidade tem uma população de cerca de 850 mil habitantes, mas a área urbana aglomerada alcança o 1,5 milhão e se chama Região Metropolitana de Kanata, composta também pelos munícipos de Sacaba, Quillacollo, Colchapirhua, Tiquipaya, Vinto y Sipe Sipe.

Ocupa a terceira posição na hierarquia urbana boliviana, depois das áreas comandadas por Santa Cruz de la Sierra e La Paz. Aliás, as três juntas compõem o que chamam de eixo troncal da economia do país

Essa capital regional é caracterizada como centro agropecuário, comercial e industrial. Foi assim que a encontrei descrita encontrei em mais de um site, ou seja, a economia tem o perfil que se pode qualificar como “de tudo um pouco”.

Achei que é uma cidade bonita, ainda que as características gerais das cidades latino-americanas marcadas por imensas desigualdades também estejam por aqui também.

É bem verticalizada e, quando se trata do centro e dos bairros que ocupam a área urbana mais consolidada, ela se parece com muitas cidades brasileiras do ponto de vista do plano urbano e do conjunto arquitetônico.

No entanto, quando chegamos às áreas mais periféricas, a arquitetura marcada por várias edificações de 3 ou 4 pavimentos é bem estranha para o meu senso estético. Os vidros são coloridos, os telhados cheios de recortes e as cores muito fortes. O difícil é fazer uma foto sem um veículo na frente… Talvez, eles queiram se inspirar na arquitetura de Fredy Mamani, que se notabiliza, aqui na Bolívia e internacionalmente, por inovar buscando valorizar as raízes da cultura de seu povo tanto nas edificações como nas decorações internas. A conferir…

Embora essas edificações, localizadas na periferia, tenham a fachada bem acabada, as laterais geralmente nem sempre estão rebocadas como a maioria das demais construções. Estas seriam as melhores construções na periferia porque a maior parte das habitações são menores e ocupam edificações que não estão rebocadas, fazendo com o anel externo da cidade tenha esse tom de tijolo.

A estrutura urbana da cidade é demarcada não apenas pela circunscrição das serras, mas também pela presença do lago Abalay, que, lamentavelmente, estava praticamente seco neste janeiro de 2024. Imagino que no inverno, com as neves que se acumulam nos Andes e o possível degelo, ele volte a ter água. Será?

A parte central, como a maior parte da área urbana, tem o plano ortogonal. A vida pública e parte da vida político-religiosa-institucional se desenrola em torno da praça central que se chama Plaza Metropolitana 14 de Septiembre. Ali se localizam prédios públicos, com suas varandas e arcadas nas calçadas, e a catedral em ocre, como outras igrejas que já vimos na Bolívia.

Passamos boa parte da manhã em torno desta praça. Havia muita gente por ali e nas ruas circundantes, fazendo comércio de rua, filas para órgãos públicos ou simplesmente não fazendo nada, como nós que nos sentamos no Plaza Café, que se localiza no primeiro piso de um bem conservado prédio colonial, e ficamos observando a vida urbana. É de lá o registro da cúpula da catedral.

Cochabamba é chamada de cidade jardim e acho que merece este codinome, porque está florida por todos os lados.

Os ônibus destinados ao transporte coletivo, na Bolívia, são um número à parte. Lembraram os que vimos em El Salvador e na Guatemala. Pequenos, antigos, nada bem conservados, mas alegres. Além de coloridos, vários deles eram nomeados, por qualitativos que dificilmente nós atribuiríamos a um ônibus – Amor, Passion, Loucura, Plazer, Virgen de Luján, Sexy etc.

Adorei! A partir de agora, vou começar a procurar um nome para o me carro. Pode ficar sossegado, leitor ou leitora, que eu não vou pintá-lo de várias cores, ainda que eu já tenha tido um Ka azul turquesa e um Punto vermelho, mas que ele vai ter nome vai.

A cidade de Cochabamba é “abraçada” por um Cristo. Parecido ao do Rio de Janeiro.

O acesso ao Cerro de San Pedro, onde ele se localiza, pode ser feito por uma escadaria por uma escadaria de 1399 degraus (é claro que nem tentei, mas havia muitos bolivianos que, suponho, pagavam promessas fazendo este percurso). Optamos pela segunda via, a estrada que serpenteia o cerro e lá chegamos, com facilidade.

Deveria ser 12h30, o sol brilhava e a varanda que cerca o pedestal da estrada estava cheia de gente. Desde o estacionamento até o patamar onde se ergue o Cristo, foram cerca de 130 degraus (esses eu não tinha jeito de não percorrer). A visão que se tem da cidade a partir deste ponto é maravilhosa.

Imagino que Cochabamba não seja uma cidade muito visitada por turistas estrangeiros, como parece ser o caso de La Paz, porque os frequentadores deste mirante eram, neste dia, sobretudo bolivianos de origem indígena, que estavam em família. Formavam grupos para fotos em frente à estátua ou se agrupavam num cantinho qualquer para comer alguma coisa. Ao contrário do que seria para nós um lanche – quase sempre um sanduíche – eles comiam em pequenas recipientes de plástico ou ágata onde havia uma refeição completa. Muitos abriam a sombrinha para se proteger do sol. Outros compravam enormes sacos de pipoca doce que eram compartilhados entre duas ou três pessoas.

As vestimentas dos homens são parecidas à da maior parte das que veríamos entre brasileiros. No grupo das mulheres, algumas já estão bem “modernizadas”, mas era grande o número das que se vestiam à moda tradicional. A Coca-Cola acompanhava as refeições da maioria deles.

Se você for um dia a Cochabamba não deixe de visitar o Palácio Portales, mantido pela Fondación Patino, tanto pela beleza da construção e de sua decoração interna, como pelos jardins e pela boa museologia que nos oferece uma visita guiada com muitas informações importantes.

Reproduzo aqui um pouco da história deste espaço tão especial:

Ubicado en la zona denominada Queru Queru, el Palacio Portales fue construido entre 1915 y 1927, actualmente está bajo la custodia de la Fundación Simón I. Patiño con cede en Ginebra y es el edifico que alberga al Centro pedagógico y cultural Simón I. Patiño desde 1968.
El arquitecto francés Eugène Bliault diseñó el proyecto del Palacio, y fue ejecutado empleando mano de obra artesanal y utilizando materiales de construcción traídos de Europa – especialmente mármoles y maderas. El Palacio es un ejemplo de estilo ecléctico, que respondía a comienzos del Siglo XX al gusto de las élites europeas. El eclecticismo se caracteriza por utilizar elementos pertenecientes a diferentes épocas y culturas. En el Palacio Portales los distintos estilos que lo componen se fusionan de tal manera entre ellos que el resultado es un conjunto de gran armonía e integración.

Fonte: https://centropatino.fundacionpatino.org/areas/palacio-portales/

Internamente, do que mais gostei foi da sala de jogos; do lado de fora chama atenção as imensas janelas com venezianas que, segunda a explicação da guia, é que justifica o nome do palácio. Por fim, é particularmente agradável a varanda, que se encontra na porção posterior à grande construção, onde hoje funciona uma casa de chá.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 6

Começando a subir os Andes  

Fonte: https://netnature.wordpress.com/2011/08/11/a-origem-e-a-caracterizacao-morfoclimatica-da-cordilheira-dos-andes/

Nós, brasileiros, sempre nos gabamos da extensão do nosso território, de nossa diversidade regional, da fartura de nossas bacias hidrográficas e, sobretudo, da esplêndida Amazônia. No entanto, vamos combinar que faz falta uma cordilheira de verdade.

Entre os maiores países do mundo – Rússia, Canadá, China, Estados Unidos e Brasil – somente nós não temos uma super cordilheira para chamar de nossa.

Daí a admiração que temos pelos Andes. É, em comprimento, a mais vasta do mundo, alcançando oito mil km de extensão, desde a Venezuela até a Patagônia. Em alguns trechos, alcança 160 km de largura de leste a oeste.

Aliás, uma das experiências incríveis de se atravessar os Andes é desconstruir a representação, que vem desde os desenhos que fazemos na escola básica, de que uma cordilheira é uma porção de picos enfileiradinhos.

Fonte: https://br.freepik.com/fotos-vetores-gratis/sol-cartoon/80

Atravessando os Andes na Bolívia, tanto quanto ao atravessá-lo da Argentina para o Chile, percebe-se que se trata de um mar de picos que conformam várias fileiras, muitas vezes separadas por áreas mais planas e elevadas que chamamos de altiplanos.

Essa cordilheira é tão importante, na América do Sul, que a partir dela constituíram-se culturas completas, com etnias, modos de vida e de sobrevivência que são peculiares ao seu território, tanto assim que se cunhou a expressão América Andina, para caracterizar parcelas das terras e da gente no Chile, Argentina, Peru, Bolívia, Equador e Colômbia.

As explicações para seu nome são muitas. Há a relativa à origem Aymara, que designaria “montanha que se ilumina”; há a gênese possível na palavra Quíchua Anti, referindo-se a uma “crista elevada”; pode-se ainda atribuir essa denominação a Antisuyu, relativa a uma parte do Império Inca, por meio da palavra Suyu que indica cadeia montanhosa (fonte: https://historialiteratura.com/2018/05/14/andes-montanhas-pudessem-falar/).

Neste mesmo blog, levanta-se a hipótese sobre o que nos contaria essa cordilheira, berço de tanta história e de culturas diversas:

“Se as montanhas pudessem falar, elas nos contariam uma história…” a frase anterior, adaptada, pertence à letra de If a mountain could talk da banda alemã Helloween.

Já tínhamos feito a travessia dos Andes, entre a Argentina e o Chile em duas passagens da cordilheira:  entre Mendoza e Santiago e entre Salta e San Pedro de Atacama.

Agora cruzamos essa cadeia em duas etapas. A primeira foi a que nos levou da altitude de 400 metros em Santa Cruz de la Sierra aos 2558 em Cochabamba. Vou descrever um pouco esse primeiro percurso (em outro capítulo do diário desta expedição escreverei sobre o segundo).

Saímos de Santa Cruz de la Sierra e ainda percorremos, por muitos quilômetros áreas relativamente planas. Na última terceira parte dos 481 km, começamos a subir a Cordilheira dos Andes e provavelmente chegamos à altitude mais elevada, do que a que se encontra Cochabamba, porque quilômetros antes de entrar na sua área urbana, passamos por declives.

O movimento na estrada era intenso, especialmente na parcela das maiores elevações da cordilheira. Não esperávamos que a rodovia estivesse tão boa, como a encontramos em alguns trechos, com destaque para aqueles que estão já duplicados e compõem uma autopista, que ameniza bastante a subida. Tanto o motor do carro como os nossos pulmões sentiram os aclives.

As paisagens são muito bonitas. No entanto, a combinação entre chuva fina, excesso de veículos na rodovia e falta de acostamento ou de mirantes, que possibilitassem bons registros fotográficos, deixou a sensação de que passamos, mas não degustamos suficientemente a experiência da travessia.

Foi neste trecho da viagem que alcançamos os primeiros 2.000 km desta “expedição” e, pelo velocímetro, podemos ver que não se podia alcançar grande velocidade, principalmente no trecho em que a rodovia não está duplicada, onde um caminhão segura uma fila de vários carros, que demoram para ter oportunidade de ultrapassagem. Foi tenso dirigir neste percurso.

Outra grande surpresa desta experiência de atravessar os Andes na Bolívia foi constatar o grande número de pequenos assentamentos humanos que há ao longo da rodovia. Parecem não ser muito povoados, mas mesmo assim algumas das construções têm três pavimentos.

De todo modo, a grande surpresa para mim, talvez porque estivesse influenciada pela lembrança das duas travessias anteriores, é que, neste trecho a cordilheira está coberta por uma densa vegetação e não se vê, portanto, as rochas afloradas.

Passamos pelo Lago Corani que tem 18 km2 e está a 2.700 metros de altitude.

As nuvens estavam baixas e nos impediam de apreciar o quadro completo composto pelas montanhas elevadas e pelo lago, mas mesmo assim, valeu a pena.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 5

Fonte: https://www.istockphoto.com/br/ilustra%C3%A7%C3%B5es/santa-cruz-de-la-sierra-bol%C3%ADvia

À medida que nos aproximávamos de Santa Cruz de la Sierra, o mundo dos agronegócios começou a imperar. A topografia plana, favorável à mecanização agrícola, as grandes extensões de terras que não devem ter custado caro favoreceram a ocupação agrícola do tipo moderno. A presença de grandes unidades agroindustriais reflete o perfil econômico da região e ajudam a entender porque esta cidade se tornou a maior demograficamente e a mais importante economicamente da Bolívia.

A chegada a Santa Cruz, como é simplesmente chamada por aqui esta cidade, impressionou pela extensão da área urbanizada e pela presença na rodovia de vários tipos de estabelecimentos voltados ao apoio deste agronegócio – venda de máquinas agrícolas e insumos de todo tipo, indústrias de beneficiamento agrícola, escritórios voltados a serviços agronômicos e veterinários etc.

Percorremos vários quilômetros passando pela aglomeração urbana, conformada pela cidade sede de 1,5 milhão de habitantes e por mais seis município compondo um conjunto de mais de 3,8 milhões.

Na periferia desta área, que qualificam como metropolitana, misturam-se casas pobres, além de carros e motos por todo lado. A foto não está boa, mas vejam que até um trator estava estacionado na rua. Aliás, chama atenção como a Bolívia é um país motorizado, ainda que uma parte grande da frota seja muito velha.

A cidade foi fundada em 1561 com a finalidade de apoiar as missões jesuíticas. Esses religiosos estiveram por toda a América, principalmente neste eixo que ligava as áreas de extração de metais preciosos ao porto de Buenos Aires. Quando estivemos em Córdoba, na Argentina, também visitamos edificações que resultaram deste tipo de missões.

Antes disso (sim há um antes dos brancos, dos católicos ou protestantes na América), a região era ocupada por índios da etnia Arwak, vindos do Caribe, os quais ocuparam esse território que, depois, foi conquistado pelos Guaranis, que deram muito trabalho à monarquia espanhola, que insistiu e obteve o domínio sobre grande parte deste subcontinente.

Chegamos cansados ao Hotel Boutique Cosmopolitano, que recomendamos a quem for a Santa Cruz. Ele é anexo a um café simpático com mesas à sombra de uma árvore, outras na área interna do café e mais algumas no pátio interno do hotel, para o qual dão os apartamentos modernos, bem equipados e agradavelmente decorados.

Numa das salas do café, há um mapa enorme da Bolívia no período colonial. O rapaz que nos serviu, na manhã seguinte, fez questão de destacar que Argentina, Paraguai, Peru, Chile e Brasil subtraíram terras bolivianas.

O fato é incontestável e simpaticamente ele nos acusou de ter tomado parte do Chaco Boliviano. Meu marido concordou com a tese de subtração do território boliviano pelos países vizinhos, mas contestou parte das informações, explicando que “adquirimos” o Acre e a tomada do Chaco não coube a nós…

Fui depois verificar e constatei que, em 1903, pelo Tratado de Petrópolis assinado pelos dois países, o território do Acre foi anexado ao Brasil, correspondendo a uma área de quase 190 mil km2.

De um jeito ou de outro, os bolivianos têm todo direito de se lembrar da enorme redução territorial pela qual passaram. O mapa era lindo e achei representativo que ele estivesse ali, naquele café moderninho e que o garçom conversasse sobre isso conosco. Garçons brasileiros entrariam em assunto semelhante com os fregueses?

Essa representação cartográfica foi elaborada em 1850 e o quadro exposto no café devia ter cerca de dois metros de altura.

O Hotel Boutique Cosmopolitano está bem na área central da cidade, que guarda o traçado em quadrícula, típico das colonizações espanhola e portuguesa.

A maior parte das construções antigas, voltadas hoje sobretudo ao comércio, têm, no frontal, varandas sustentadas por colunas de madeira ou de concreto, o que mostra a preocupação com a proteção do sol que é causticante por aqui (mas não na hora em que fizemos as fotos!).

A estrutura urbana desta parte central é comandada pela Plaza Metropolitana 24 de Septiembre, onde se localiza a Catedral Metropolitana e vários prédios institucionais. É uma praça especialmente bonita por causa da vida que há nela.

Fonte: https://es.m.wikipedia.org/wiki/Archivo:Catedral_de_Santa_Cruz_-_Bolivia.jpg

A recepcionista do hotel, ao perguntarmos o que mais valeria a pena ver em Santa Cruz, foi enfática ao apontar este espaço público, cuja beleza não está apenas nas edificações que a ladeiam, mas no uso diversificado que a sociedade dá a ele.

Aliás, isso sempre me chama atenção nas cidades de colonização espanhola na América, ao contrário das brasileiras que talvez tenham herdado, na forma de apropriação do espaço público, a cultura e o comportamento mais discreto ou menos vaidoso do português.

Havia gente por todo lado, de todas as idades e de diferentes condições socioeconômicas. Talvez, a elite não frequente mais este espaço, pelo que observei, mas havia desde famílias muito simples até outras vestidas com roupas de grife, que denotam pertencer à classe média.

O clima das festas de final de ano permanece, como a decoração natalina mostra

Há uma tradição na cidade de, nos finais de tarde e começo de noite, homens vestidos como garçons elegantes servem café aos que estão por ali. Havia vários e tanta gente em volta deles, aguardando para serem servidos, que não consegui fazer uma foto, por isso retirei a que se segue da internet.

Fonte: https://eldeber.com.bo/santa-cruz/el-cafecito-de-la-plaza-24-de-septiembre-ya-es-parte-de-la-tradicion-crucena_245513

As edificações que ladeiam esse espaço público também são servidas das galerias com arcadas para os pedestres. Estavam todas bem conservadas e pintadas de branco, contrastando com o tijolo da fachada da catedral. Numa das faces da praça, esse conjunto arquitetônico está ocupado por uma espécie de shopping center, que está bem integrado à rua, porque há tanto boxes internos como voltados para a galeria da calçada.

Chamou demais minha atenção o número de bolivianas que ainda se vestem à moda antiga, com suas saias rodadas e as duas tranças longas nas costas, na ponta das quais elas penduram uma espécie de pingente de lã.

Provavelmente, elas voltarão a este diário de “expedição” porque estão por toda parte. O que mais me instiga é que não apenas as mais idosas mantêm a tradição, mas há algumas que não devem ter chegado aos 30 anos e se vestem assim.

Para mostrar que a praça é de todos, também havia as muçulmanas de cabeça coberta.

No dia seguinte, saindo de Santa Cruz de la Sierra, pudemos observar melhor os contrastes que marcam a grande aglomeração urbana.

Nas áreas modernas da cidade, predominam arranhas céus de concreto e vidro, como no bairro Equipetrol, que é hoje o coração financeiro da cidade.

Fonte: https://www.skyscrapercity.com/threads/santa-cruz-de-la-sierra-fotos-no-vistas.647438/page-243

Nos arrabaldes, ainda se vê muita pobreza e precariedade, no que se refere às condições para a vida urbana, reforçando a tendência de grandes desigualdades que marcam as cidades latino-americanas.

A venda ou locação dos galões para a compra ilegal de combustível estão mesmo por todo lado, o que nos alivia, ao saber que não somos os únicos a cometer contravenções no país.

A motocicleta é um importante meio de locomoção para as famílias mais simples. Chegamos a ver quatro pessoas se locomovendo por veículos desse tipo, sempre com as mulheres, sentadas à moda antiga, com as duas penas na mesma lateral.

Se quiser conhecer um pouco sobre o urbanismo de Santa Cruz, veja o texto que está no link: https://www.duabitad.com/historiarq/cmo-evolucion-el-urbanismo-de-santa-cruz-de-la-sierra

Achei que deixamos a cidade sem ter tido oportunidade de conhece-la melhor. Isso nos anima a passar por aqui na volta e perambular um pouco mais.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 4

Finalmente entrando na Bolívia

Fonte: https://pt.dreamstime.com/ilustra%C3%A7%C3%A3o-de-desenhos-desenhados

Na manhã do primeiro dia de 2024, entramos pacificamente na Bolívia, tendo como primeiro destino Santa Cruz de la Sierra. Digo pacificamente, porque a passagem pela fronteira foi sem interceptações…

Na memória, ainda restavam relances da experiência do dia anterior, atrás de informações precisas e dos documentos necessários para passar a fronteira.

Para compensar um pouco a chatice pela qual tínhamos passado, constatamos que era mesmo necessário todos os papeis e carimbos atrás dos quais corremos, porque dois policiais nos pararam no percurso e olharam para eles com detalhe. Teria sido pior, ao menos psicologicamente, se não fossem necessários os papeis cuja obtenção nos roubou um dia do passeio.

A Natureza continuou a imperar a oeste do Rio Paraguai, espelhando as paisagens que tínhamos apreciado antes da fronteira, ainda no território brasileiro. Primeiro, o Chaco que se assemelhava, à primeira vista, ao Pantanal brasileiro.

Depois, o número de árvores aumentou e nos deparamos com uma formação que eu chamaria de Cerrado.

Nos últimos 150 km, à medida que nos aproximávamos de Santa Cruz, a agricultura começou a predominar nas extensas planuras. Na imagem de satélite que se segue, é possível observar as diferenças de biomas pelas quais passamos neste dia. Nos 2/3 iniciais saindo de Corumbá, áreas relativamente bem preservadas, com cobertura nativa; no último terço, chegando a Santa Cruz de la Sierra, as áreas de uso agrícola.

Não importam aqui as denominações – Chaco, Cerrado ou …. –, mas sim dizer que atravessamos áreas muito bonitas e, em certa medida, bem parecidas às que vislumbramos nos últimos 300 km antes da fronteira.

Ladeamos o Parque Nacional del Gran Chaco e a impressão é de que as características dos biomas naturais estão bastante respeitadas. Estávamos também ansiosos para ver as condições da estrada. Até El Carmen, o asfalto estava pouco conservado, não havia faixas demarcando as pistas, nem muitas placas de sinalização. Na própria pista ou nas suas laterais, a água se acumulava, mostrando o perfil de área de inundação do Chaco.

Atravessamos muitos quilômetros, vendo poucos assentamentos e, portanto, pouca gente. Aqui e ali, algum pequeno povoado com casinhas muito simples.

Já tinha ficado para trás El Carmen, quando vimos o primeiro posto de abastecimento de combustível. Rapidamente, percebemos que alguma coisa não iria acontecer da melhor maneira possível.

Haviam duas filas longas que logo se desdobraram em quatro filas, uma para cada bomba, embora fosse um pouco difícil compreender a lógica que comandava o caos de veículos entrando e saindo por todos os lados.

Meu marido se adiantou para perguntar se seria possível pagar com cartão de débito internacional e disseram que sim, sem maiores detalhes.

Finalmente, chegamos à bomba de abastecimento, quando fomos informados que não era possível abastecer carros com placas de outros países.

Como assim? Não é possível abastecer carros que vêm de outros países. As explicações não foram muito didáticas, mas depois viemos a entender que o combustível é subsidiado para os bolivianos e somente os que tem o registro no sistema (outro sistema!) e um número PIN poderiam ser abastecidos nos postos de forma legal.

Não ficamos muito convencidos que essa regra se aplicava aos estrangeiros, porque logo vimos vários bolivianos enchendo galões de combustível e em seguida abastecendo seus carros. Eles não têm registro no sistema? Seus carros não têm documentos? Não há postos com a frequência necessária e por isso há necessidade dos galões?

Tudo isso e mais um pouco são explicações plausíveis, porque logo ao lado do posto, há um quiosco com galões disponíveis, usados e velhos. Sim, usados porque não estão ali para venda, mas para aluguel, pelo preço de um peso boliviano (cerca de 70 centavos de real), com direito a empréstimo do funil, feito com pet de refrigerante.

Não é hilário? Quase surreal? Ali mesmo onde se vendem refrigerantes gelados e todo tipo de quinquilharia, misturando-se com frutas e com milho, estava o pau fincado próximo ao meio fio com praticamente uma dezena de galões, que eram locados e devolvidos em menos de 15 minutos.

Foi fácil constatar que, na Bolívia como no Brasil, há sempre um modo de se dar um jeitinho. Rimos da situação inusitada de abastecer o carro de modo ilegal e precário, ao lado do posto onde isso não poderia ocorrer de modo legal, mas ficamos preocupados com os quilômetros que tínhamos pela frente, razão pela qual prevenir seria melhor que remediar.

Mais ou menos no meio do trajeto, estava San José dos Chiquitos que, no dia anterior, tinha sido aventada como uma parada, caso conseguíssemos nos desvencilhar mais cedo da papelada na fronteira.

Olhando na Wikipedia fiquei sabendo que é capital da Província de Chiquitas, pertencente ao Departamento de Santa Cruz.

Foi fundada pelos jesuítas em 1697 e hoje é uma cidade de pouco mais de 20 mil habitantes, bastante pobre, mas com alguns hotéis para turistas interessados em visitar a área das missões e de se beneficiar de banhos.

Não cheguei a me inteirar que tipos de banhos são estes, mas supus que devem fazer bem, já que a poeira dominava o pequeno aglomerado, que, sinceramente pareceu pequeno para este tamanho demográfico.

Não tivemos tempo de nada, a não ser procurar um posto de combustível, que não encontramos, e de fazer nosso lanche à sombra de uma árvore numa rua qualquer. Propusemo-nos, nesta viagem, a não comer alimentos preparados em postos ou quioscos na estrada, para nos prevenirmos de bactérias e diarreias… Por essa razão, antes de pegar estrada, passamos em algum supermercado ou cafeteria que nos pareça limpa para comprar o lanche da viagem.

Agora que estou escrevendo esse texto, dou-me conta  que teria valido a pena gastar um tempinho para conhecer as construções mais antigas de San José de Chiquitos, mas estávamos focados em chegar em Santa Cruz antes de anoitecer. Quem sabe na volta, teremos chance de ver um pouco melhor esses testemunhos da história colonial boliviana, como esta edificação que a foto retrata.

Fonte: https://es.wikipedia.org/wiki/San_Jos%C3%A9_de_Chiquitos#

O bom das viagens é que mesmo nos preparando para selecionar os pontos que merecem visita, sempre nos surpreendemos com alguns lugares que nunca imaginamos conhecer e que estão ali, no meio do caminho. Assim, foi com San José dos Chiquitos (não é um nome bonitinho?).

Na segunda metade do trajeto, as paisagens começaram a se modificar um pouco. Uma linda serra estava diante de nós com formações bem especiais. Nem todas as fotos estão nítidas, porque não havia acostamento e os registros foram feitos com o carro em movimento (agora com a precaução de não levar o telefone celular para fora da janela e não o ver voar novamente como ocorreu no Mato Grosso do Sul). As imagens a seguir retratam um trecho especialmente bonito deste percurso.

A estrada serpenteava a serra, de modo muito parecido ao trajeto próximo à Serra da Bodoquena ainda no Brasil. Logo se constata que a Bacia Platina conforma um ambiente com bastante similaridade dos dois lados do Rio Paraguai.

À medida que nos aproximávamos de Santa Cruz de la Sierra o mundo dos agronegócios começou a imperar, mas isso fica para o próximo capítulo deste diário, pois a viagem foi longa, o calor intenso e os percalços com o abastecimento do veículo levavam a várias paradas. Levamos cerca de 10 horas para percorrer os 655 km.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 3

Fonte: https://www.educamaisbrasil.com.br/enem/geografia/globalizacao

Há pelo menos 30 anos a ideia de globalização foi incorporada à narrativa sobre o nosso tempo.

Primeiro, apareceu como uma expressão que, cunhada no discurso midiático, era capaz de traduzir rapidamente um conjunto de transformações no mundo, que ainda não estavam decifradas no plano científico.

Depois, vários pesquisadores do campo das Ciências Humanas, entre ele Milton Santos que aparece na imagem seguinte, propuseram teorias para explicar as mudanças pelas quais o capitalismo vinha passando.

Fonte da imagem: https://www.youtube.com/watch?app=desktop&v=_XNTrI8rAZI

Entre os estudiosos, há relativo consenso sobre o fato de que a globalização funciona para o capital, mas não se aplica totalmente ou de forma homogênea para a sociedade.

Primeiramente, porque os nacionalismos com todas as suas cores, das mais bonitas até as mais encardidas, continuam a exercer sua força na política e na cultura.

Depois, porque, para a Economia, é fundamental que as barreiras se arrefeçam, mas apenas na medida em que interessa aos grandes grupos econômicos.

Por fim, porque as relações entre países são estabelecidas nas fronteiras, no dia a dia, por gente, que não está interessada, nem em diminuir a burocracia, nem em resolver os problemas para quem quer passar daqui para ali.

Por isso, um casal, que toma todas as providências para expedir os documentos que são necessários para ir do Brasil para a Bolívia e circular neste país com um carro, leva exatamente oito horas para obter vistos e autorizações, e perde com isso o tempo que levaria para se deslocar até Santa Cruz de la Sierra no último dia de 2023.

Agora, passados dois dias, posso dar um tom pitoresco aos acontecimentos, mas foi uma verdadeira epopeia, que  vou resumir aqui.

Tudo começou numa noite não tão agradável na Pousada 4 Cantos.

Já pensou em conhecer o Pantanal? Em se hospedar em Corumbá? Ótimo, mas não se hospede nessa pousada, que tem um nome bonito, aparece em fotos razoáveis no Booking, mas efetivamente não passa de uma hospedaria mal cuidada, em que pese a gentileza das senhoras que nos serviam como se estivéssemos na cozinha da casa delas. E, de fato, estávamos!

Saímos 7h30 para enfrentarmos os mais de 600 km que nos esperavam. Passamos pela Polícia Federal brasileira e ninguém nos parou.

Passamos pela Polícia Boliviana e nada de nos interceptarem ou perguntarem alguma coisa.

Não era possível que fosse tão fácil…

Paramos para trocar dólares por pesos bolivianos e aproveitamos para perguntar por que a passagem era tão fácil e nos foi explicado que a maioria das pessoas que passam por esta fronteira seca são moradores de Corumbá, do lado brasileiro, e de Puerto Quijarro e Puerto Suárez, do lado boliviano.

Deduzi que são travessias cotidianas, que oscilam conforme o câmbio das moedas dos dois países e as oportunidades de trabalho e estudo aqui ou ali.

Nós que vamos atravessar o país deveríamos, então, voltar para o lado brasileiro e entrar na fila da “oficina” da Polícia Federal. Foi o que fizemos e, assim, já se passaram os primeiros 30 minutos da nossa epopeia.

Estacionamos o carro, ao lado dos carros dos policiais que chegavam, às 8h, para abrir o guichê e já havia uma pequena fila. Todos aparentavam ser bolivianos e supus que trabalham do lado brasileiro e queriam voltar para seu país para o Réveillon.

Entrou a primeira família em busca dos carimbos necessários e a porta de acesso aos guichês ficou entreaberta. Não se via qualquer movimento… Resolvi contornar o prédio e achei uma janela aberta, por onde se atendia a outra fila – a dos que queriam entrar no Brasil (aliás, era uma fila bem maior). Tudo parado.

Resolvi fazer sinais para que lá do outro lado do vidro dos guichês que estava a cerca de dois metros dessa janela, alguém olhasse para os pobres mortais do lado de fora, sob uma temperatura que já começava a se elevar.

Tive clara impressão que eles viam meus acenos, mas faziam de conta que não. Revolvi insistir, dei pequenos pulos, para aparecer com maior evidência no enquadramento da janela que era alta em relação ao piso, até que uma moça trajada como polícia federal e portando uma arma pesada demais para sua magreza, gentilmente saiu do ar condicionado e veio até a tal janela.

Explicou que o sistema estava fora do ar. Sempre os sistemas! Perguntei quanto tempo ficaríamos ali e ela disse para aguardar mais um pouco porque já estavam carregando o tal sistema. Agradeci, mas pedi que ela fosse até a porta entreaberta para explicar tudo isso para as trinta pessoas, mais ou menos, que aguardavam. Ela aquiesceu sem convicção, mas daqui a uns minutos apareceu por lá e repetiu oficialmente a explicação que eu já tinha difundido ao voltar.

Aproximei-me dela novamente e perguntei por que não havia um sistema de senhas, assim, podíamos sair da fila, que, aliás, estava a 3 metros da fosse séptica, que exalava odores desagradáveis, e nos sentarmos nuns bancos que estavam na sombra a alguns metros dali.

Ela respondeu: “Nunca pensamos nisso, porque o sistema nunca cai e a fila sempre anda rápido”… Foi irritante escutar que nunca pensaram nisso.

Permanecemos na fila, onde uma criança especial chorava sem parar (não é para menos, se até nós tínhamos dificuldades de entender o que estava acontecendo) e os vendedores de água, refrigerantes semigelados e batatas fritas não cansavam de oferecer seus produtos

Passados 30 ou 40 minutos, meu marido voltou na tal janela e já a encontrou fechada, justamente para que não pudéssemos mais aborrecê-los.

Daqui a pouco, a mesma moça sai pela porta e informa que o sistema estava “caído” em Brasília e não havia estimativa de recuperação dele… Perguntamos até que horas o guichê ficaria aberto e ela informou que até 18h. Alguém contrapôs a informação que, do lado boliviano (onde deveríamos passar na sequência), os guichês fechariam ao meio dia.

Foi desanimador… Lembramos que tivemos dificuldades de reservar hotel para o dia 30 de dezembro em Corumbá e já trememos de imaginar mais uma noite na Pousada 4 Cantos. Voltamos para a cidade e entramos no Hotel Nacional, o melhor por lá.

Perguntei ao recepcionista se havia apartamento para aquela noite. Ele respondeu de pronto que não. Insisti, ele resolveu abrir o sistema (outro sistema!) e achou um apartamento com duas camas de solteiro, que reservei imediatamente, já antevendo que o sistema da Polícia Federal demoraria a voltar a funcionar.

Esperamos 11h e voltamos para a fronteira. A fila estava andando. Que alívio! Na parede externa, havia um aviso mal colado com fita crepe sobre a lei brasileira que garante atendimento prioritário. Alguém entrou com um bebê no colo e resolvemos entrar na sequência. Eram três guichês. Eles estavam no ar condicionado e o aparelho que deveria refrescar o lado de cá do vidro estava ostensivamente desligado.

Alguém acabou o atendimento no guichê do meio e nos aproximamos, informando que tínhamos mais de 60 anos (como se precisasse, porque estava nas nossas caras que o temos).

Com um tom desagradável, o policial informou que iria nos atender, mas que ali na Polícia Federal quem faz as regras são eles e que não costumavam obedecer a lei de atendimento especial.

Um acinte! No entanto, resolvemos calar, ao invés de dar a resposta que ele merecia, já que pediu nossos passaportes. Inseriu os dados no sistema, folheou as páginas curioso, olhando para os carimbos de outros países que ali estavam registrados e com muito má vontade descarada, carimbou os nossos.

Saímos vitoriosos, mas penalizados com a fila que ainda deixamos para trás.

A passagem pela polícia boliviana foi rapidíssima. O prédio era mais simples, apenas um policial que rapidamente tirou fotos nossas e carimbou nossos passaportes. Outro alívio.

Por desencargo, resolvemos perguntar se estava tudo ok para entrar na Bolívia. Eram 12h e poderíamos ainda tentar chegar a Santa Cruz de La Sierra ou a San José de Chiquitos, onde havia disponibilidade nos hotéis, conforme consulta ao Booking.

O ânimo arrefeceu novamente, quando nos foi informado que precisávamos ir até a Aduana, por causa do veículo. Agora outro périplo começava. Meu marido passou pelo guichê com relativa rapidez, já que tínhamos trazido todos os documentos solicitados no site que havíamos consultado. Abriram um enorme portão, por onde deveria entrar o carro para a vistoria. Eu deveria ficar do lado de fora, pois apenas o motorista poderia entrar. Razoável, não fossem os 38 graus centígrados e a falta de um banquinho para se sentar do lado de fora. Acho que, depois de 30 minutos, minha cara estava tão triste que o rapaz me deixou entrar, justificando “para ficar com su marido!”.

Éramos o segundo carro de uma fila imaginária que acompanhávamos com ansiedade, já que o tal rapaz informou que, quando completasse cinco carros, a responsável pela vistoria viria.

Cinco, seis, sete carros e nada. Calor, sede e fome. Pedir um banheiro seria demais. Quando ela finalmente chega e começamos todos a abrir os capôs dos veículos e as portas para que ela olhasse se havia alimentos perecíveis, damo-nos conta que ela começa por onde bem entende e de segundo carro passamos à posição de penúltimo a ser vistoriado.

Novamente por desencargo de consciência foi perguntado se podíamos então circular tranquilamente na Bolívia e ela respondeu que era necessário ir até a Polícia de Trânsito de Puerto Quijarro ou, então, a de Puerto Suárez.

Novamente, lá fomos nós, ainda com os dados móveis funcionando e seguindo as orientações do Google Maps. Encontramos o escritório de Puerto Quijarro fechado.

Ao longo da avenida, o ânimo já era de festa, com as famílias assando “pollos” para o almoço em fogareiros na calçada.

Pegamos a rodovia para Puerto Suárez e fomos até o local indicado no mapa. O policial saiu da sala com ar condicionado, sem nos deixar entrar e indicou outro endereço no final da cidade.

Lá fomos nós. Chegamos e percebemos que era também uma cadeia. Por trás de um portão, que achei frágil demais, se antevia o corredor para o qual davam as celas. Um senhor veio, demonstrou que não sabia como fazer o documento solicitado.

Telefonou ao Coronel, na nossa frente que informou que o Munhoz sabia fazer o tal papel. Não vi Munhoz algum por perto. O mesmo senhor telefona para ele que já estava chegando e entra suado no corredor onde tentávamos em vão obter o que precisávamos.

Como se soubéssemos, o Munhoz explica: “Desde que uma parte deste prédio pegou fogo, esse serviço deixou de ser feito aqui e passou para a mesma avenida, onde está a aduana em Puerto Quijarro, bem em frente da qual haveria um “quiosco” onde o documento seria expedido.

Não acreditamos que a moça da Aduana não soubesse disso. Voltamos indignados pela rodovia e lá encontramos a salinha onde um simpático policial rapidamente digitou o documento, pediu para conferirmos as informações, carimbou, assinou e disse que custava 100 pesos bolivianos (cerca de 70 reais), que rapidamente pagamos sem obter qualquer recibo… Acho que era apenas para as “cervezas” do Réveillon.

Olhamos dez vezes a autorização e, mesmo tendo que ficar indignados, ficamos, isto sim, aliviados.

Eram 15h30. Desistimos de pegar a rodovia e voltamos para Corumbá, onde a reserva do Hotel Nacional nos foi valiosa. Vejam o mapa com os 65 km que percorremos atrás dos documentos e acrescentem mais 16 km, visto que não registrei a ida para fazer a reserva do hotel por volta das 11h da manhã.

Ufa!!! Cansei vocês leitores com essa chatice, mas imaginem como nós ficamos.

Entramos no quarto, ligamos o ar condicionado e dormimos por uma hora para descansar da loucura que vivenciamos.

Foi assim que vimos 2024 entrar em Corumbá e não em Santa Cruz de la Sierra como previsto.

Em que pese a confusão, o jantar no restaurante do hotel foi animado. Degustamos um vinho branco Chablis que nosso querido sobrinho Gustavo nos presenteou na véspera e pouco antes da meia noite fomos para a beira da piscina do hotel, onde jovens, crianças e mais velhos já bebiam e dançavam, embalados pela banda animada que tocava música boliviana.

Carminha Beltrão

Adeus 2023

Bolívia e Peru 2

Do Cerrado ao Pantanal

Fonte: https://app.estuda.com/questoes/?id=5607458

Num país extenso e diverso ambientalmente como o Brasil, de algum modo, vão se constituindo representações sobre o ambiente natural que hierarquizam os diferentes biomas e suas paisagens.

Quando estava cursando os antigos cursos Primário e Ginásio adorava as aulas de Geografia, sem imaginar que seria um dia geógrafa.

Lembro-me bem que as excelentes professoras que tive – Dona Miyako, no 2º ano do Externato Santa Cecília; Dona Maria da Paixão, no 4ª ano primário do Colégio Santa Amália; Dona Eli, professora de Geografia da 1ª série ginasial do mesmo colégio – demoravam-se nas descrições sobre a Amazônia, tecendo loas ao tamanho da sua bacia hidrográfica, à altura das árvores mais frondosas etc. etc.

Também dedicavam bastante tempo às referências à Mata Atlântica ou às coníferas do Paraná. No entanto, se bem me lembro, pouco tratavam do Cerrado e do Pantanal.

Sobre o Cerrado, destacavam elementos relativos à pobreza de seus solos e aos caules das árvores, pouco largos e sem oferecer madeiras de lei.

No que se refere ao Pantanal, frisavam a baixa densidade demográfica e a pecuária extensiva de baixa produtividade, visto que as áreas de inundação, no período chuvoso, restringiam o tamanho do rebanho e sua sobrevivência.

Quando estava na faculdade, aos poucos, essa visão começou a se alterar, até porque, com os avanços científicos de pesquisadores das universidades e da Embrapa, a área do Cerrado passou a ser valiosa para a agricultura de exportação associada ao agronegócio.

De todo modo, penso que remanesce a tendência de hierarquizar os biomas brasileiros dos mais para os menos importantes, o que me parece um equívoco, porque não podemos comparar territórios que são, em princípio, constituídos e caracterizados pelas diferenças.

Quando fui morar na França, em meados da década de 1990, algumas pessoas, ao saberem que eu era brasileira, faziam referência tanto à Amazônia como ao Pantanal e me dei conta assim que este bioma é tão valorizado internacionalmente como aquele. Aliás, talvez, seja esta uma das explicações para as diárias tão altas nos hotéis, que estão situados em territórios que favorecem a apropriação de suas belezas – eles são cotados em dólares ou euros…

Hoje, fazendo o percurso de 426 km entre Campo Grande e Corumbá, tenho a oportunidade de observar as paisagens maravilhosas que compõem essas duas grandes áreas naturais do país, ainda que já bastante alteradas pela ocupação humana e pela atividade agropecuária.

Saindo de Campo Grande, ainda predominam, por vários quilômetros, as grandes propriedades rurais, ocupadas pela pecuária predominantemente. Aos poucos, à medida em que nos distanciamos da cidade, as paisagens típicas do que se conhece como Cerradão ladeiam a estrada. O céu estava carregado e a sensação de calor era um pouco menor do que no dia anterior. Olhava para o painel do carro e as temperaturas oscilavam entre 33 e 35 graus.

Desde que comecei essa “expedição”, estou empenhada em fazer registros fotográficos os melhores possíveis, porque sei que nem a memória nem a retina vão guardar estas imagens.

Repentinamente, abri o vidro para colocar os braços para fora e me “aproximar” daquelas maravilhas. Senti o vento forte, anunciando a chuva.

Paft Puft! O celular voou longe, bateu numa pequena mureta que havia no acostamento e o carro seguiu por algumas dezenas de metros. Paramos, sem esperança de recuperar o aparelho, que poderia ter voado para o meio da mata. Olha aqui, olha ali e lá estava ele, com a capinha e a cobertura da tela danificados, mas imóvel, aguardando-me, caído no acostamento.

Corri e peguei o equipamento valioso que, nos dias de hoje, conecta-nos aos pequenos e grandes mundos que nos cercam. Percebi aliviada, que ele continuava a funcionar. Lá estava a galeria com as fotos, as mensagens de WhatsApp entrando, os avisos do Face, as reservas feitas pelas plataformas Booking e AirBnB, as carinhas dos três netos que compõem a tela de abertura do smartphone etc. etc. etc.

De repente, os pingos grossos começaram a cair e a chuva veio menos intensa do que o céu cinza prometia.

Saíamos do Cerrado e entrávamos no Pantanal. As planuras e as áreas de alagamento passaram a dominar a paisagem, entremeadas pelas elevações que compõem a Serra da Bodoquena. Embora a estrada pouco se movimente do ponto de vista da altitude, ela serpenteia com suas curvas as elevações que compõem a serra, alternando-se, como se passassem da esquerda para a direita da rodovia.

Quando a primeira grande área alagada apareceu, ao longo da rodovia, os jaburus, aves símbolos do Pantanal, com seus pescoços e partes internas das asas em preto, dançavam como se anunciassem que, aos poucos chegávamos à fronteira oeste do país e ao final de 2023.

A travessia do Rio Paraguai a algumas dezenas de quilômetros de Corumbá impressiona pela sua largura e também porque a ponte se eleva, conformando um leve arco, provavelmente para possibilitar a passagem sob ela de embarcações grandes.

Mesmo sendo o último sábado do ano, havia trabalhos de reparo na ponte e apenas uma fila de carros circulava por vez.

Do outro lado, enfileiravam-se os veículos que deixavam Corumbá com destino a outro ponto do país para o Réveillon. Para onde? Sei lá… Esta cidade teve na sua origem grandes relações com o Rio de Janeiro, a partir da navegação pela Bacia do Prata e, na sequência, de Buenos Aires à capital do Brasil pelo Atlântico… Até o sotaque da elite da cidade tinha algo de carioquês.

Fiz as contas e conclui que seriam muitos quilômetros se uma parte destes carros desejasse chegar ao litoral para ver nascer 2024. Talvez, para os de Corumbá, a centralidade tenha se deslocado para Campo Grande, que é hoje uma capital bonita e rica.

Apesar das inúmeras placas recomendando que se preserve o Pantanal, vimos vários animais abatidos às margens da rodovia, como resultado de atropelamentos.

Lamentamos que as rodovias brasileiras não sejam construídas com passagens inferiores, para que a fauna circule de um lado a outro.

Falta muito para se ter efetivamente uma política ambiental no país, em que pese a maravilha dos nossos biomas.

Carminha Beltrão

Dezembro de 2023

Bolívia e Peru 1

Fonte: https://pt.vecteezy.com/arte-vetorial/2898214-termometro-de-calor-40-graus-celsius

Às vezes tenho dificuldade de explicar, a um ou outro, por que resolvemos fazer uma viagem como esta. Serão alguns milhares de quilômetros de carro, por estradas que não são boas como as autopistas, que percorremos, quando viajamos pela Europa ou pelos Estados Unidos.

Alguns argumentam que teria sido melhor ir de avião até La Paz; outros perguntam se não é perigoso um casal de 73 e 68 anos sair por aí dirigindo por longas distâncias; há os que se admiraram e disseram que adorariam fazer igual, mas agradeceram, com certa reserva, o convite para nos acompanhar.

Todos sabemos que muitas escolhas que fazemos não são as mais racionais, mas, com certeza, pensando nelas, encontram suas raízes em valores ou desejos, que vamos acalentando durante a vida, seja no consciente, seja no inconsciente.

Há explicações objetivas, é claro: somos um casal de geógrafos e nada se compara a andar por aí, olhando o mundo.

Há outras não tão objetivas, como a de mostrar a nós mesmos que é possível se fazer coisas que a maioria pensa que não seria tão adequada à nossa idade.

Há o desejo de ter um mês inteiro sem trabalho, passando os dias por lugares que não conhecemos e revendo alguns que consideramos muito especiais em outras viagens…

Para que explicar?

Pensei em adjetivar essa viagem como uma “expedição”, mas observando, em dicionários, o efetivo sentido da palavra, hesitei:

Ato de fazer com que alguma coisa atinja o seu propósito: expedição de um documento. [Figurado] Conjunto de pessoas que viaja para determinado território para o analisar, geralmente com propósito empírico: expedição geológica.

fonte: https://www.dicio.com.br/expedicao/

Ok, não há dúvida que queremos atingir algum propósito, no entanto estamos longe da intenção de fazer essa viagem com o objetivo de analisar alguma coisa, o que geógrafos, como nós, fazemos sim, mas em outras viagens…

Pensando mais um pouco, não importa muito se estou sendo precisa ou não, ao apelidar nossa viagem assim, uma vez que, lá no fundo, espero que o espírito de uma “expedição” se aproprie de nós, durante essa experiência que estamos hoje começando a viver (desde que os quartos e banheiros que reservamos fiquem entre razoáveis e ótimos).

O primeiro trecho foi de 430 km entre Presidente Prudente e Campo Grande. Trata-se de um trajeto muito conhecido nosso, mas a sensação de começar a “expedição” e as férias trouxe um brilho novo para tudo.

As chuvas de verão deixaram o cerrado mais verde que o comum e mesmo as extensas áreas de pastagens chamavam atenção pela planura do relevo que possibilitava uma visão de conjunto muito agradável. Saímos às 14h00 e o calor estava estonteante. Durante a maior parte do percurso, o termômetro do carro indicava que, do lado de fora do veículo, a temperatura era de 40 graus centígrados. Mesmo com o carro em movimento, arrisquei o registro fotográfico para mostrar o tamanho do sol.

Carminha Beltrão

Dezembro de 2023

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