Grécia 2 – Parthenon, o máximo!

Uma das características que a Modernidade nos trouxe foi a tendência a comparar, hierarquizar, classificar, enfim, ver cada coisa, em cotejo com as outras, mesmo que se trate de histórias e culturas muito diferentes entre si.

Na Antiguidade, cada cultura era uma, porque as civilizações eram desenvolvidas sem grande influência umas sobre as outras, até chegarem os romanos e, por domínios, amarrarem num império tantas culturas e civilizações.

Com o Mercantilismo e a constituição das condições para o capitalismo, passamos a viver num sistema-mundo, em que tudo é visto em relação a um grande conjunto, cujas gêneses são muito diversas.

Assim, como modernos, somos levados a pensar o mundo como uma unidade e nele enquadrar o que não seria provavelmente enquadrável, a equiparar o que não deseja ser equiparado e nem pode sê-lo.

Com os monumentos históricos é isso aí todo o tempo. As viagens internacionais têm servido para comprovar esse ponto de vista. Em cada lugar que visitamos, há sempre alguém pronto a nos mostrar que ali é o mais em alguma coisa, ali tem um edifício, um bairro, uma experiência que é a melhor de todas.

O guia que nos levou a conhecer a Acrópole de Atenas logo informou que sua edificação principal – o Parthenon – era o mais importante entre todos os bens catalogados, como patrimônios da humanidade, pela Unesco. Fiquei desconfiada e fui buscar, na memória, outros que considero que poderiam se equiparar a este, ou seja, lá fui fazer a minha classificação. Logo vieram à mente vários que poderiam ser citados, mas decidi não morder o anzol, afinal estou defendendo a tese de que cada patrimônio tem seu valor intrínseco e não precisaria ser comparado aos demais.

Neste meio tempo, enquanto funcionava meu sistema de busca (e meu winchester anda lento), o guia veio com a informação taxativa: “Esta edificação é tão importante que é tomada como referência no logotipo da Unesco”. Bem, aí, parti do princípio que foram historiadores, arqueólogos e outros experts que decidiram por isso e fiquei um pouco mais convencida de que não era um trololó de guia grego defendendo as cores do seu país e o dim dim que ele ganha fazendo este trabalho duro de acompanhar mais de 50 pessoas para visitar este espaço tão magnânimo – a Acrópole – e seu edifício mais majestoso – o Parthenon. Ele é mesmo o máximo (o edifício e não o guia, é claro, embora este também tenha o seu valor)!

Enquanto subia a ladeira, sob o sol escaldante, voltei à ideia de História como um conjunto de narrativas que se elaboram sobre o passado e, mais uma vez, confirmou-se a constatação de que ela vai sendo contada, repetida, reproduzida e alterada aqui e ali. À medida que ele nos explicava a importância daquele espaço que estávamos pisando, não era possível deixar de considerar os séculos que nos antecediam, a grandeza dos que se dedicaram a erguer a acrópole, a destreza de seus arquitetos e artistas, mais se reforçava a importância das narrativas, mesmo que seja necessário escutá-las com respeito e relativizar, aqui ou ali, qualquer exagero que possa haver.

A Grécia e os gregos de hoje não são bem a Grécia e os gregos que ergueram esta cidade no alto do Monte Pentélico. Aqueles foram grandes, colonizaram o Mediterrâneo, fundaram cidades-estado, difundiram uma civilização, como já registrei no primeiro capítulo deste diário de viagem, mas tem um depois: foram minados pelos romanos e escravizados por eles; passaram por várias invasões quando o poder estava em Constantinopla; perderam território e, com isso, perderam parte das identidades que construíram na Antiguidade; miscigenaram-se fazendo com que o grego de hoje nem sempre lembre o perfil majestoso das esculturas que vimos nos museus; devem ter sofrido ou nem se deram conta quando parte da Filosofia e da Ciência que produziram perdeu-se em incêndios ou foi obliterada pelo Igreja Católica durante o período medieval; viram sua cultura estropiada pela ingleses, franceses e alemães, que ficaram com grande parte das esculturas e outras obras de arte, atualmente expostas em museus de outros países da Europa alimentando o turismo de lá; lutaram para ficar na União Europeia, como os primos pobres é claro, e para ter o euro como moeda; passaram por uma baita crise, em grande parte decorrente dos ajustes impostos por essa mesma União Europeia.

Bem, agora, com todo direito, estão aqui na condição de nos vender a sua história, ou o modo como convém elaborar narrativas para os turistas. É claro que têm correspondência com o que ocorreu, mas sempre com direito à interpretação. E as interpretações são muitas. Até eu tenho a minha.

Em grego, a Acrópole de Atenas, chama -se Ακρόπολη Αθηνών. Ela é tão importante que, mundo afora, é chamada apenas de “A Acrópole” embora haja outras na Grécia e em diversas partes do mundo, afinal situar cidades em elevações (do grego ἄκρος akros (‘extremo, cima’) y πόλις polis (‘cidade’), era muito importante na Antiguidade, na Idade Média e até na Moderna, quando a defesa dependia fortemente do sítio ocupado pelas cidades, afinal não havia nem aviação, nem Google Maps, nem GPS, ou seja, era preciso olhar de cima para poder se defender.

A escolha desta colina, para a construção da Acrópole, deveu-se menos à sua altura – 165 metros – e muito mais às suas escarpas rochosas, que possibilitam o acesso apenas por um dos lados, o que aumentava a proteção do assentamento.

Por este lado, subimos sob o sol estonteante. Havia já vários ônibus de turistas, quando o nosso estacionou, o que já dava para imaginar o que seria a visita.

Descemos em grupo, andando rápido, subindo a ladeira de acesso ao patamar elevado onde está a Acrópole e, entre uma cabeça e outra, com medo de cair, por pisar em falso numa pedra ou por ser ensanduichada entre a horda que me antecedia e a que me sucedia, ia fazendo umas fotos que não ficavam nada boas. Em que pese o guia ser alto e fofucho, portanto visível de longe, buscávamos enxergar a bandeirinha dele, que sempre estava vários metros na nossa frente. Perder-se ali seria um problema. Chegamos ao topo. Nesse meio tempo, alguém desmaiou e desceu carregado numa maca pela equipe de saúde que está à disposição (deve acontecer toda hora por causa do calor).

A análise de documentos indica que já havia, na Acrópole da Atenas Clássica, oliveiras que, aliás, estão pela cidade toda.

No cantinho da direita e na próxima foto está o balcão das Cariátides, com esculturas no lugar de colunas. Trata-se de réplicas porque as originais estão no Museu da Acrópole.

Os toques que o guia deu sobre vários detalhes me fizeram admirar o seu trabalho e pensar que talvez ele não ganhasse o que merecia. Não conseguia parar de olhar para o tênis dele azul turquesa com a sola amarelada, e ri baixinho imaginando que era pura estratégia para a gente ver ele de longe. Voltei a prestar atenção, mas já com vontade de me liberar daquela palestra.

Depois ele nos concedeu 30 minutos para enfrentar a fila do banheiro, comprar água e “sacar” fotos. O problema é que a mesma recomendação foi dada pelos outros guias para as dezenas e dezenas de pessoas que ali estavam.

Quando saio do banheiro, do nada, confirmo que os guias trabalham sincronizados porque consigo uma foto sem haver ninguém na frente.

O que eu achei da Acrópole e do Parthenon? Maravilhoso, sensacional, divino!, mas sinceramente não deu para curtir, porque não havia nem espaço, nem tempo, nem silêncio para tal.

A Acrópole foi construída por volta de 450 a.C. por Péricles. Foi dedicado a Athena, a deusa da cidade. Na Wikipédia há uma planta indicando seus principais vestígios arqueológicos, e nela se pode ver a posição ocupada pelo Parthenon.

  1. Partenon
  2. Antigo Templo de Atenas
  3. Erecteion
  4. Estátua de Atena Promacos
  5. Propileu
  6. Templo de Atena Nice
  7. Eleusinion
  8. Santuário de Artemisa Brauronia
  9. Calcoteca
  10. Pandrósio
  11. Arrefórion
  12. Altar de Atenas
  13. Santuário de Zeus Polieo
  14. Santuário de Pandion
  15. Odeão de Herodes Ático
  16. Stoa de Eumene
  17. Asclepeion
  18. Teatro de Dionísio
  19. Odeão de Péricles
  20. Temenos de Dionísio
  21. Aglaureion

Este edifício foi erguido entre 447 e 438 a.C., o que pode ser considerado um fenômeno, quando se observa seu tamanho e, sobretudo, começamos a imaginar como aquelas gigantescas rochas foram sobrepostas uma sobre as outras. Era rodeado por 17 colunas nas faces norte e sul e oito colunas nas faces leste e oeste. No dia seguinte, outra guia explicou que, em todas as edificações na Grécia clássica dois lados sempre têm o dobro do número de colunas dos outros dois mais uma [(8 x 2) + 1]. Neste caso, são 50 colunas no total. A largura das colunas varia um pouco, porque são calculadas para dar uma visão simétrica e não para serem simétricas, o que achei genial.

No interior do Parthenon estava a estátua da Athena, deusa da sabedoria, do artesanato e da guerra. Ela foi esculpida em madeira, coberta em ouro e marfim, por Phidias, considerado o Leonardo da Vinci da Antiguidade (foi o que foi dito e eu acreditei).

Essa escultura esteve no Partenon até o século V, quando muito do que havia ali se perdeu num incêndio. Há a hipótese de que ela foi removida para Constantinopla no século X.

Fiquei impressionada durante a visita mas, depois, aumentou minha admiração ao ler, na Wikipédia, como ocorreu a restauração deste sítio histórico e de seus monumentos, pensando tanto no passado como no futuro deste patrimônio:

O projeto de restauração da Acrópole começou em 1975 e agora está em conclusão. O objetivo da restauração era reverter a decadência de séculos de atrito, poluição, destruição decorrente do uso militar e restaurações passadas que foram feitas de maneiras equivocadas. O projeto incluiu a coleta e identificação de todos os fragmentos de pedra (até mesmo os pequenos) da Acrópole e suas encostas e a tentativa foi feita para restaurar o máximo possível usando material original reaproveitado (anastilose), com o novo mármore do Monte Pentélico usado com moderação. Toda a restauração foi feita usando pernos de titânio e foi projetada para ser completamente reversível, caso futuros especialistas decidam mudar as coisas. Foi utilizada uma combinação de tecnologia moderna de ponta e pesquisa extensiva e reinvenção de técnicas antigas.

Outras edificações compõem o conjunto majestoso da Acrópole, como pudemos ver no desenho de reconstituição da área, mas nem todas eu sei nomear. Mesmo assim vale a pena os registros fotográficos delas.

Achei por lá um moreno simpático.

Olhando, lá de cima, para a Atenas de hoje, escutamos atentamente as explicações do guia sobre a outra Atenas, a clássica. Era possível ver os contrapontos e pensar o que nós, mulheres e homens contemporâneos, queremos como cidades. A monumentalidade da antiga Atenas era estupenda diante da monotonia da arquitetura moderna da atual. A densidade comanda a forma de adensamento. Não haver hoje, nas cidades, distância suficiente para se apreciar a cidade é uma coisa que não me agrada – uma edificação ao lado da outra, porque cada m2 vale muito dinheiro. Isto vamos deixar para os turistas que nos visitarão daqui a dois ou três séculos?

Marcando o território grego atual e o direito deste povo de explorar turisticamente o seu patrimônio secular, estrategicamente fincada no território da Grécia Antiga, lá está a bonita bandeira grega. Este azul e branco tem tudo a ver com este país.

Carminha Beltrão

Junho de 2024

A Grécia não é um país

Fonte: https://pt.greecemap360.com/mapa-tur%C3%ADstico-da-gr%C3%A9cia

Não é muito adequado escrever meias verdades num blog, mas pode ficar sossegado, leitor, que não é fake news. Apenas queria, com este título, destacar que a Grécia não é apenas um país: É uma civilização!

Há muito tempo que eu queria conhecê-la, mas parece que este é parte daquele conjunto de sonhos que demoram para virar realidade, o que só aumenta a água na boca da gente. Primeiro, foi em 2003, quando imaginava que seria possível comemorar o aniversário de casamento por aqui – seria romântico não? Sim, mas a grana estava meio curta, os filhos ainda estavam cursando universidade e era preciso priorizar a educação deles. Depois foi em 2017, viagem planejada, passagens compradas e roteiros desenhados, mas apareceu um compromisso de trabalho daqueles para os quais não era possível dizer não…Novamente, desejo não satisfeito. Agora, aqui estamos meu marido, um casal de amigos e eu, e nem sei por onde começar para registrar esta experiência.

Vamos começar pelo básico: a Grécia não é um país demograficamente importante. Com pouco mais de 10 milhões de habitantes, a sua população é menor do que a do município de São Paulo. Também não é extenso. Passa um pouquinho dos 130 mil km2, o que significa que ganha de Portugal, mas perde longe da Itália. Comparar com o Brasil, nem pensar.

No entanto, a Grécia pode ser muito bem explicada pelas configuração e posição geográficas. Seu território é meio peninsular, meio insular e banhado pelos mares Egeu, Mediterrâneo e Jônico. O país não é grande, mas como o litoral é todo recortado ele mede mais de 11 mil km, o que é muita coisa, porque o brasileiro não chega aos 8 mil km. Como a Grécia tem mais de 1400 ilhas, é litoral para caramba. Muitas destas ilhas não estão habitadas – apenas umas 250 têm gente vivendo nelas – e isso faz deste país, um território cheio de reservas naturais. A vista aérea é um mosaico de áreas rochosas, áreas cobertas por vegetação e outras áreas urbanizadas, sobretudo no litoral. Esta configuração compõe um mosaico de ocre, verde e azul, entre a terra e a água que, desde a janelinha do avião, foi bonito de ver.

Do ponto de vista da posição geográfica, a Grécia se encontra na Europa, próxima da Ásia e da África. É como se estivesse no meio do mundo, afinal, fica bem ali: entre o Ocidente e o Oriente, ou melhor entre o Norte Global e o Sul Global para lembrar conceitos mais em voga para explicar as diferenças nos dias de hoje.

Eu sei muito bem que o mapa é, antes de tudo, um instrumento geopolítico e que podemos olhar para ele com outros países ocupando o centro da tela, mas quando faço isso com o Brasil, o Chile ou a Austrália, não aparece essa centralidade intercontinental que a Grécia tem.

Eu precisaria de capítulos e capítulos deste blog para sintetizar a história da Ελλάδα (ah, sim, ia esquecendo de informar que é assim que se escreve Grécia em grego). No entanto, não é este o espaço para isso, nem eu tenho competência para tal. Então, vamos ficar com um resuminho bem simples – um pouco de coisas que eu lembro de aulas que preparei no passado, e muito que li aqui e ali, nos últimos dias, na web.

O que se pode reconhecer como povo grego tem suas origens nos Minóicos (na ilha de Creta) e nos Micênicos (no continente). Este últimos venceram os primeiros, mas depois foram dominados pelos dóricos. Este período foi, mais ou menos, de 2000 a 800 a. C.

O auge desta civilização desenvolveu-se, na sequência, entre 800 e 338 a.C., quando se estruturaram cidades-estados, que foram se multiplicando pelo Mediterrâneo, difundindo a arte e a cultura gregas, seu alfabeto, a prática de esportes, a ideia de democracia e as bases da Filosofia.

Nos cem anos subsequentes, o declínio teve início, com o domínio macedônico e, por fim, a Grécia se tornou apenas um protetorado romano.

Esta civilização foi muito importante no processo de urbanização na Antiguidade, como o mapa seguinte mostra, porque sempre que uma cidade chegava a determinado tamanho demográfico, de modo a não prejudicar a democracia, pelo grande número de pessoas, parte de sua população deslocava-se para fundar uma nova cidade, daí a oposição entre Metrópolis – cidades mãe – e Neópolis – cidades novas. Desse modo, os gregos “colonizaram”, com suas cidades, o Mediterrâneo e difundiram sua civilização.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Gr%C3%A9cia_Antiga#/media/Ficheiro:Greek_Colonization_Archaic_Period-es.svg

Maria Beatriz Borba Florenzano[1] oferece pistas para se ter uma dimensão mais adequada do papel dos gregos no processo de urbanização. A autora informa que o tema das fronteiras nas cidades antigas era sempre tratado a partir da ideia de que era preciso avaliar até onde se podia ir, qual a extensão da área que uma cidade podia comandar, como medir um território sob domínio e proteção dela. Disso decorre que não havia separações rígidas entre os territórios de uma cidade-estado e outra, não se tratava de domínio como os romanos realizaram, mas de influência, sempre avaliando como difundir uma civilização, como convencer outrem sobre os princípios que defendiam.

Hoje os gregos não têm mais o mesmo papel e seu território é bem menor do que aquele da Grécia Clássica. As crises vividas por este país no século passado e começo do atual explica como houve uma diáspora grega. Embora pouco mais de 10 milhões de gregos vivam na Grécia, há 1,5 milhão nos Estados Unidos, 700 mil em Chipre, quase 400 mil na Austrália e número parecido na Alemanha… até mesmo no Brasil, havia, no começo do milênio, 50 mil gregos.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Gregos

Carminha Beltrão

Junho de 2024


[1] Florenzano, Maria Beatriz Borba. A cidade grega antiga em imagens: um glossário ilustrado. São Paulo: Laboratório de Estudos sobre a Cidade Antiga (Labeca), Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo: FAPESP, 2015.

Bolívia e Peru 28

Fonte: https://depositphotos.com/br/photos/balan%C3%A7a-justi%C3%A7a.html?qview=2344108Fonte: https://www.antiguidadesdomestre.com.br/peca.asp?ID=14989497

Chegamos há uma semana em Presidente Prudente, onde moro. Depois de ter concluído a viagem à Bolívia e ao Peru, diariamente lembranças voltam, do nada, como flashes.

Às vezes, elas ressignificam passagens que não pareceram tão interessantes, quando vividas. Em outras circunstâncias, elas ajudam a amenizar as dificuldades que apareceram e me fazem rir das situações que, na ocasião interpretei como chatas, e agora revelam-se engraçadas.

Não é sem cabimento que eu me pergunte ou você leitor pergunte a mim [mesmo que em silêncio]: Valeu a pena percorrer mais de sete mil quilômetros, quando poderia ter ido de avião, talvez até diminuindo custos? Não é cansativo demais tanto tempo longe de casa? Vale a pena conhecer a Bolívia ou o Peru se, afinal, tem outros países ou regiões mais bonitas no mundo?

Quero responder essa pergunta com a frase do líder espiritual Sri Sri Ravi Shankar: “A vida é uma combinação de destino e livre-arbítrio. A chuva é o destino, a possibilidade de se molhar ou não é escolha sua.”

Eu acrescentaria algo a ela, do tipo: cada uma de nós pode escolher que tipo de chuva vai tomar. Escolhemos nos molhar e o jeito como isso ocorreria.

Ir de avião ou de carro é diferente e, por isso, o que é vivido em decorrência dessa escolha é também diverso: nem melhor, nem pior, apenas de difícil comparação.

Esta foi a viagem que fizemos e quero registrar, neste balanço final, que adorei tê-la feito assim. Faria de novo, mesmo que suprimisse este ou aquele aspecto ou acrescentasse outros, afinal, a gente aprende com a experiência vivida.

O roteiro foi tão longo que, pelo Google Maps, não foi possível representá-lo num único mapa, porque ultrapassava os dez pontos permitidos. O ponto mais distante a que chegamos foi Cusco, no Peru. Assim, é como se o primeiro mapa representasse o percurso de ida: Presidente Prudente, Campo Grande, Corumbá, Santa Cruz de la Sierra, Cochabamba, La Paz, Copacabana, Cusco, indicando apenas as cidades onde pernoitamos.

E o segundo representa o de volta: Cusco, Puno, Oruro, Colchani – Salar de Uyuni, Potosí, Sucre, Santa Cruz de La Sierra, Corumbá, Campo Grande, Presidente Prudente.

Dois trechos de estrada foram percorridos duas vezes (na ida e na volta): – entre Puno e Cusco; – entre Santa Cruz de la Sierra, Corumbá, Campo Grande e Presidente Prudente. Queríamos evitar isso, quando elaboramos o roteiro, mas os trajetos ficariam mais longos e, em algumas situações, andaríamos 800 ou mais km sem termos uma boa cidade para pernoitar.

O que pareceu um ponto negativo, quando planejávamos a viagem, foi positivo ao realiza-la, porque em ambas as situações vimos, na volta, aspectos que não havíamos visto na ida (se, você leitor, leu o capítulo 27, sabe que a Santa Cruz de la Sierra da ida pareceu outra na volta…). 

Sem dúvida, tão bom quanto, na ida, atravessar as fronteiras para a Bolívia e o Peru, ainda mais que nas duas situações tivemos dificuldades e atrasos, como foi boa a sensação da travessia da fronteira entrando de volta no Brasil.

Quando chegamos em Presidente Prudente, no trigésimo dia de viagem, o painel do carro marcava 7.180,8 km. Uma marca e tanto!

Os pontos altos da viagem foram muitos e destaco alguns: – confrontar-se com a imponência e a diversidade dos Andes; – viver a loucura de La Paz, uma cidade nas alturas e num fosso ao mesmo tempo, com seu maravilhoso sistema de teleféricos; – rever Cusco, agora com mais calma e apreciando certos detalhes; – conhecer Potosi e seu maravilhoso espaço público; – deparar-se com o Salar de Uyuni, grandioso, magnificamente alvo e brilhante; – passar uns dias em Sucre (voltaria com certeza); – degustar a maravilhosa culinária peruana; – encontrar uma Bolívia menos pobre do que eu imaginava que ela fosse; – imaginar tudo que os incas, os quéchuas, os aymarás e outras nações indígenas viveram nessas terras e ver o que deixaram de legado para a humanidade; – constatar que a pilhagem colonial por lá foi tão severa como por aqui.

Há sempre déficits, porque de algum modo queremos realizar o desejo de conhecer tudo e viver todas as experiências, o que não é possível.

Por exemplo, fazendo uma retrospectiva, todas as cidades que conhecemos na Bolívia, exceção a Santa Cruz, compõem o bioma dos Andes. Gostaríamos de ter ido até Tarija, onde se produz o vinho de altitude, como eles aqui denominam o resultado da produção vinícola do país e conhecer, assim, o sul da Bolívia.

Teria sido maravilhoso entrar na Bolívia pela Amazônia brasileira e cruzar a floresta por aí, mas tememos que pudesse haver problemas na estrada por causa das chuvas intensas que costumam cair no verão. Durante a viagem, conhecemos um casal que entrou por lá e disse que o percurso estava maravilhoso.

Deixamos de conhecer Arequipa que era um dos objetos de desejo dessa expedição, porque entre as três tentativas seguidas de cruzar a fronteira entre a Bolívia e o Peru, somente a terceira teve sucesso, obrigando-nos a abreviar o tempo neste país.

Queria ter andando tranquilamente pelas feiras da Bolívia e não apenas ter passado por elas.

Teria sido bom encontrar restaurantes melhores em algumas cidades bolivianas, pois, ou eles são muito raros, ou não soubemos fazer a pesquisa adequada para chegar a eles, porque de fato nenhuma experiencia culinária foi marcante na Bolívia.

Deveria ter tido capacidade para, em algum ponto do percurso nos Andres, descer do carro, andar morro abaixo e molhar os pés em algum curso de água alimentado pelo degelo da cordilheira.

Gostaria de ter conversado com uma cholita e perguntado a ela como se sente com aquelas roupas ancestrais, sem parecer com isso uma intrometida (não que eu tivesse falado e parecido uma intrometida, porque nem tentei conversar).

Algumas das coisas vividas ficarão mais fortes na minha memória, se é que se eu pudesse controla-la, sem o inconsciente e o subconsciente me contrariarem.

Guardarei na memória o que pude observar do modo de vida campesino na Bolívia. Ficarei com a ideia de que este é um povo baixinho, gordinho e quentinho, porque faça sol ou faça frio estão hiper agasalhados.

Vou me lembrar que as mulheres são as que, majoritariamente, fazem os trabalhos de pastorear animais e realizar o comércio de suas produções agrícolas, tanto na Bolívia como no Peru.

Quero valorizar o esforço imenso que está sendo feito na Bolívia para valorizar a diversidade cultural e melhorar a economia.

Não quero esquecer que os peruanos estão muito avançados nos esforços arqueológicos e museológicos para manter viva a cultura pré-colombina.

Desejo que um dia, nestes dois países, haja maior cuidado com o descarte do lixo e não se veja uma garrafa pet ou um saquinho plástico nos acostamentos das rodovias ou nas calçadas das cidades.

Espero ter saúde física e mental para ainda realizar algumas outras viagens como esta.

Carminha Beltrão

Fevereiro de 2024

Bolívia e Peru 27

Tudo, na vida, depende do ponto de vista e do momento, a partir do qual observamos os lugares, os fatos e as situações.

A primeira cidade boliviana, que visitamos durante essa “expedição”, foi Santa Cruz de la Sierra, chamada por todos na Bolívia como Santa Cruz. Tínhamos tido dificuldades na fronteira o que retardou nossa chegada a ela em um dia. Mal chegamos, quisemos conhecer a praça central e gostamos muito desse espaço, pela presença de vida pública e por certa diversidade cultural, etária e socioeconômica que caracterizava o grupo de pessoas que ali estava no primeiro dia do ano de 2024 (ver https://wordpress.com/post/carminhabeltrao.com/3252).

Naquela ocasião, lembro-me bem, quantas diferenças marcantes encontrei entre aquela cidade boliviana e as brasileiras.

Normal! Por contraste, sendo a primeira a ser visitada, chamou mais atenção o que não “era espelho”, parafraseando Caetano Veloso, comparando São Paulo a outras cidades.

Agora, voltando para casa, Santa Cruz foi a última cidade boliviana, onde pernoitamos por dois dias, para conhecê-la um pouco mais, já que na ida a permanência foi muito curta. A sensação que tive é que ela não é tão diferente das brasileiras.

Para começar, vou resumir um pouco do trajeto. Para percorrer os 484 km entre Sucre e Santa Cruz levamos mais de 10 horas. Deixamos as terras altas do sistema andino e entramos na Bolívia tropical. São dois mundos diferentes, distinção que, na ida, talvez eu não tenha prestado tanta atenção.

O contraste entre o mundo cinza-ocre-marrom dos Andes e o verde-verdinho-verdíssimo da vegetação da Amazônia foi surpreendente, até porque na ida o percurso para sair da planície e chegar nos Andes foi por outra rodovia. Pareceu que, agora, esta distinção ficou mais clara.

A estrada ia contornando os obstáculos impostos pelo relevo, mas pouco a pouco as planuras iam ganhando espaço e o verde majestoso ia se impondo.

A estrada estava muito bem sinalizada e conservada, por isso a demora resulta mesmo da sinuosidade imposta pelo relevo e não de más condições rodoviárias.

Para a gente não esquecer mesmo que estávamos mudando de bioma, deixamos para trás o tempo seco, o céu ficou nublado e logo a chuva caiu.

Quando fomos nos aproximando de Santa Cruz, foram aparecendo os primeiros sinais de que ela é a “mais brasileira” das cidades bolivianas.

Se na Bolívia, de um modo geral, havia chamado atenção a importância do catolicismo, ainda que mesclado com representações e valores indígenas, estávamos a mais de 100 km de Santa Cruz e já começaram a aparecer as igrejas evangélicas. Na periferia de cada aglomerado havia uma ou duas. Na periferia de Santa Cruz, muitas. Muitos dos pequenos templos que observei pertenciam a igrejas fundadas no Brasil.

Outro ponto a ser destacado é que o trânsito em Santa Cruz está mais organizado que em La Paz para comparar duas cidades de tamanho semelhante.  O plano da cidade é mais cartesiano e não te dá a sensação de estar participando de um sistema imponderável e incontrolável, como ocorreu em La Paz. É certo que o sítio urbano contribui para isso, mas penso que há, também, um quê de cultural neste comportamento. São muitos carros grandes, SUVs e utilitários, mostrando a riqueza de Santa Cruz e seu alinhamento com uma economia mais globalizada.

As diferenças socioeconômicas pareceram mais acentuadas nesta cidade que no restante do país, porque vi gente pedindo dinheiro nos semáforos. Pode parecer contraditório, porque Santa Cruz é a cidade mais rica da Bolívia e a região que ela comanda é a que mais contribui para o PIB nacional. No entanto, também me pareceu uma cidade com custo de vida mais caro, justamente pelo crescimento econômico e oportunidades um pouco maiores de trabalho (o que nunca abrange a totalidade dos moradores). E nisso Santa Cruz também se parece com as cidades brasileiras. O Brasil ocupa a 14ª posição entre os mais desiguais do mundo e fica pior classificado neste ranking que a Bolívia (https://www.otempo.com.br/mundo/ranking-de-paises-com-maior-desigualdade-social-veja-a-posicao-do-brasil-1.3302472)

No período Evo Morales, a Bolívia era o país que mais crescia na América do Sul – https://www.bbc.com/portuguese/internacional-41753995 – mas isso não significa que a riqueza estivesse sendo distribuída (não achei muita informação sobre isso). Aliás, a desigualdade é a marca da América do Sul, onde, em 2020, os 10% mais ricos concentravam uma parcela maior da renda (37%) do que qualquer outro subcontinentee os 40% mais pobres recebiam a menor fatia (13%) (https://www.bbc.com/portuguese/brasil-51406474).

Outra semelhança? O número de motos. Ao contrário de outras cidades, onde predominam marcantemente vans e, em algumas situações, tuk tuks, em Santa Cruz pareceu que há uma classe média baixa que já tem acesso ao transporte privado individual, embora se veja que, entre a área urbana e a rural há transporte de trabalhadores por caminhão, como o da direita na foto.

No entanto, ainda que sejam muitos, a periferia não é feita apenas de veículos motorizados e características que vimos em La Paz também aparecem aqui, ainda que com menos intensidade, como o comércio em barracas nas ruas, quase competindo com os veículos.

A cidade vem crescendo muito e está organizada segundo cinco anéis (anillos), que são compostos por vias que estruturam o espaço urbano e o delimita por setores. Nos endereços é comum vir a referência a eles (depois do terceiro anel, antes do segundo anel etc.). No mapa estão bem delimitados em cinza o primeiro anel e o último, mas é possível ver os dois intermediários.

O que mais impressionou em Santa Cruz foi conhecer seu setor oeste, denominado Colinas de Urubó. Fomos até lá por indicação do maître do restaurante Fogo de Chão, um gaúcho de Viamão que foi para Santa Cruz a convite do franqueado que estava montando uma unidade da rede brasileira de churrascarias naquela cidade (outra semelhança – há muitas churrascarias em Santa Cruz).

Nós, que nunca tínhamos ido a uma unidade dessa rede no Brasil, lá estivemos em Santa Cruz (recomendo porque a carne estava maravilhosa). Conversando com ele e explicando que queríamos ver onde moravam os ricos da cidade ele nos indicou esse setor.

Um pouco antes depois de atravessamos a ponte que liga o quarto anel às “Colinas”, observamos o embrião de uma verticalização moderna, em concreto, vidro e com jardins verticais nas fachadas. Não se parece com a paisagem de muitas entre as cidades brasileiras?

No entanto, o que mais impressionou neste setor foi a sequência de espaços residenciais fechados. Tomamos a estradinha chamada Camiños de Urubó e fomos até o fim, observando um “condomínio” atrás do outro, de ambos os lados. Na volta, tivemos a paciência de contabilizar e o trajeto passa de 3 km – muros, concertinas e portarias de acesso aos residenciais.

Vejam nas fotos que os muros, as concertinas e as portarias predominam na paisagem urbana deste setor.

E aí, parece ou não com alguma coisa que vemos todo o tempo no Brasil?

Por último, é interessante destacar que Santa Cruz é conhecida, na Bolívia, como a cidade dos shopping centers. E lá fomos nós conhecer o Centro Comercial Ventura Mall, o mais badalado da cidade, pelas informações obtidas e até indicado entre as atrações turísticas da cidade. Tem três pavimentos, um supermercado grande e um boulevard anexo externo cheio de restaurantes (é lá que está a churrascaria Fogo de Chão). Tenho dificuldade de comparar ao tamanho dos brasileiros, mas para o porte da cidade, ele é muito grande.

O número de lojas brasileiras impressionou. Só no ramo de calçados estão, uma pertinho da outra: Arezzo, Schutz, Carmen Steffens, CS Club Kids.

Fonte: https://www.queroviajarmais.com/pontos-turisticos-santa-cruz-de-la-sierra/

Vendo Santa Cruz, pela segunda vez vejo que a influência brasileira vai muito além da expansão do agronegócio, tão significativa na Bolívia como no Paraguai.

Então, se você leitor quer conhecer cidades muito bolivianas terá que subir os Andes e alcançar seus altiplanos. Do contrário, Santa Cruz também tem seus encantos e é uma boa pedida, mas é menos surpreendente do que eu, pelo menos, desejo numa viagem.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 26

Um hotel muito especial em Sucre

Fonte: https://www.turbosquid.com/pt_br/3d-models/3d-cartoon-building-hotel-1550013

Alguém já escreveu que uma viagem é feita de circunstâncias. Algo como uma travessia antes e durante a qual, do mesmo modo que na vida, nunca somos capazes de prever todas as situações e controlar todas as variáveis.

As surpresas fazem as diferenças, tanto para o mal, como as dificuldades que tivemos nas fronteiras, já relatadas em outros capítulos deste diário, as quais acabamos absorvendo como aprendizados; como para o bem, a exemplo das maravilhosas paisagens andinas, alguns hotéis em que nos hospedamos e restaurantes onde comemos no decorrer desta “expedição”.

Tínhamos decidido que buscaríamos nos hospedar em bons hotéis ou alojamentos oferecidos pelo AirBnB para compensar dificuldades que poderíamos enfrentar, em decorrência do longo percurso de mais 7 mil km ou da ausência de boas paradas para alimentação durante os trajetos rodoviários,

Assim, foi agradavelmente surpreendente o apartamento reservado em Cochabamba, numa área residencial e de restaurantes aprazível; o segundo hotel em que estivemos em Cusco, o Hotel Boutique Tambo del Arriero; o retorno ao antigo Hotel Libertador, hoje GHL Hotel Lago Titicaca em Puno; o Cosmopolitano Boutique Hotel em Santa Cruz de la Sierra onde dormimos na ida e na volta; o Hostal Colonial Potosí, nesta cidade; o Palácio de Sal nos limites do Salar de Uyuni…

No entanto, nada se equiparou ao Parador Santa Maria La Real, em Sucre. Ele não foi o mais caro, nem tampouco o mais equipado em termos de infraestrutura e serviços oferecidos, mas o mais especial.

Desde a chegada, ele me agradou muito, porque gosto das iniciativas que valorizam o histórico e o cultural de uma região, lugar ou edificação, mesclando esses traços com as necessárias adaptações ao conforto que podemos ter e queremos no mundo atual.

Penso que, nesse hotel, este encontro entre passado e presente é feliz.

É bastante provável que essa sensação de bem estar tenha sido ampliada pelo fato de que, na manhã seguinte à nossa chegada, após já ter feito um passeio à Recoleta, bairro de Sucre, estava tranquilamente tomando o cafezinho das 10h30 no pátio do hotel, quando o senhor seu proprietário, Luiz Pedro Rodríguez Calvo, abordou-me, apresentando-se como um cavalheiro gentil e me perguntando se já conhecia as instalações do hotel.

Antes que eu pudesse aquiescer agradavelmente àquela visita guiada, já estava integralmente nela, à qual se juntou meu marido.

Ele andava ágil e rapidamente, de ambiente em ambiente, mostrando um detalhe aqui e outro acolá. Simultaneamente, contava a história do hotel.

Ele se origina da aquisição e integração de três imóveis residenciais que pertenceram a proprietários distintos, após a edificação ter abrigado originalmente o que se poderia chamar de poder judiciário, no período colonial.  

No próprio site do hotel há um histórico muito interessante:

La casona que alberga a El Hotel Parador Santa María La Real data de la segunda mitad del siglo XVIII y fue edificado sobre las dependencias y la huerta del palacio de la Real Audiencia de Charcas, la máxima autoridad judicial y administrativa de esta parte del imperio español en América.

La rehabilitación de la casona conservó intacta su arquitectura original preservándose todos sus detalles coloniales en una meticulosa restauración …

Fonte: https://www.parador.com.bo/historia

Os prédios adquiridos não se encontravam todos bem conservados, mas tinham um excelente potencial para a instalação de um parador confortável, bem decorado e cheio de cantinhos adoráveis, que sua esposa vislumbrava como adequado para um excelente hotel. Senhor Luís, até então, trabalhava no ramo bancário e resolveu avançar para um outro metier com essa iniciativa.

Segundo ele, depois da aquisição, foram necessários três anos de reformas, recuperando elementos originais, até porque as edificações adquiridas compõem a área central de Sucre, reconhecida como Patrimônio da Humanidade pela Unesco, o que significa que não pode haver descaracterização dos sistemas construtivos, das fachadas e de elementos outros da sua composição.

Com a junção das construções, alguns elementos, que são típicos da arquitetura colonial espanhola foram potencializados – três pátios internos, muitas varandas-corredores, maravilhosas estruturas em madeira para sustentar os telhados, escadas de pedra, vasos de barro tipo potes com plantas à sombra dos três pavimentos que o compõem etc.

Tudo isso mobiliado e decorado com peças que foram sendo adquiridas de vários modos e, se entendi bem, uma parte delas é oriunda do antiquário do Sr. Lourenço, que acabamos por visitar, na mesma tarde, por sugestão de Luís.

Se eu te convenci, por meio do capítulo 25 deste diário de viagem, que vale a pena conhecer Sucre, não perca a oportunidade de se hospedar neste parador.

Para começar a escrever mais sobre essa graça de hotel, vamos combinar, que chamar um hotel de ‘Parador”, como tem sido a tradição na língua espanhola, para hospedagens especialmente interessantes, é muito legal.

O que é um hotel, se não um lugar onde paramos para estar por uma ou algumas noites, durante um percurso? Para descansar e nos abrigar das intempéries, para termos privacidade e reparar nossas energias…

A fachada em branco com acabamentos em pedra compõe, sem muito destaque, a paisagem do centro histórico de Sucre. É capaz que você passando, a pé ou de carro, nem o notasse. Aliás, isso ocorreu conosco. Desse ponto de vista, é uma construção, embora grande, muito discreta, contribuindo para a harmonia das fachadas frontais que avançam até o limite das calçadas em toda a área central.

https://ibooked.com.br/pt/hotels/bolivia/sucre

Ao adentrar ao primeiro recinto, composto por recepção à esquerda e duas salinhas à direita, os tons ocres te abraçam, porque são quentes, e o valor histórico dos móveis e dos objetos de decoração te entretêm, de modo fácil, como um gesto de boas-vindas.

Não é uma boa ideia usar um antigo aparador de louças para fazer as vezes de balcão de recepção? Que tal a maravilhosa madona em prata que recebe os hóspedes? E o vaso de prata com flores artificiais tão bonitas que esquecemos o detalhe de serem fakes?

Na parede oposta, está o maravilhoso quadro, cuja moldura é tão trabalhada como ele. A pintura quase se amalgama com a própria parede em função de suas cores, não fosse o dourado brilhante para estabelecer a distinção.

Num cantinho ao lado, as poltronas e o móvel com bonitos entalhes, convidam à leitura de um bom livro ou jornais. Na Bolívia, chamou atenção a importância que ainda têm os impressos, quase desaparecidos do Brasil depois da difusão dos jornais digitais.

Pelo primeiro pátio, em que o azul anil reina, acede-se à sala do café da manhã que, em alguns dias da semana, faz as vezes de restaurante.

Este primeiro pátio interno é fechado com teto de vidro, uma solução adequada para manter e insolação e proteger das temperaturas mais baixas que dominam os altiplanos andinos.

Por este mesmo pátio, chegamos ao bar, no lado oposto ao restaurante, em desnível. No pequeno corredor, um móvel vitrine exibia alguns produtos à venda.

Fiquei em dúvida se o teto do bar em tijolo é o original de tão bem conservado que se encontrava. Vejam como é charmoso esse pequeno ambiente.

Fonte: https://www.booking.com/hotel/bo/parador-santa-maria-la-real.pt-br.html

Num outro cantinho, nada mais, nada menos do que um confessionário em madeira. Que pecados poderíamos confessar aos deuses num ambiente tão adorável? O da luxúria?

O ponto alto do hotel. na minha opinião, e que me teria passado despercebido não fosse a gentileza de Luís nos apresentar seu hotel, está no subsolo. Durante as reformas para recuperação das edificações descobriram que havia algo no porão. O maravilhoso corredor em pedras, onde acomodaram vitrines com lindas peças indígenas é um convite a se entrar na “cova”.

Fonte: https://www.booking.com/hotel/bo/parador-santa-maria-la-real.pt-br.html

À medida que se passa por ela, vamos conhecendo salas, recentemente decoradas que compõem, um restaurante especial, aberto apenas quintas, sextas e sábados. Perdemos, assim, a chance de comer nele, já que estivemos no hotel entre domingo e terça feira.  Tudo é caprichado nesses ambientes – as prateleiras com as taças de cristal, os objetos antigos à mostra como o garrafão verde que deve ter guardado muito vinho no passado, mesas de madeira estilo europeu com cadeiras forradas com tecidos étnicos dos indígenas da América do Sul, as salinhas ou cantinhos menores, com mesas para duas pessoas…

Gostamos demais do nosso apartamento, com duas janelas, uma das quais dando para a varanda que fica no terceiro piso. O teto também em abóbada de tijolos cortava o branco das paredes e da roupa de cama.

Além do pátio azul anil, outros dois estão na sequência, para os quais estão viradas as portas dos apartamentos. O frescor das plantas e da sombra agrada muito, porque mesmo estando nos Andes, ao meio do dia, as temperaturas se elevam um pouco e o sol é implacável.

Fonte: https://www.booking.com/hotel/bo/parador-santa-maria-la-real.pt-br.html

O hotel tem dois salões bastante grandes. Um dele estava sendo preparado para o casamento do filho mais jovem de Luís, que é o decorador do ambiente do subsolo e de outros do hotel. Um segundo salão é este das fotos, que também pode ser locado para eventos e no qual se destacam os adornos da parede, originais e oriundos da França. Vejam também na lateral o tapete gobelin francês. Na outra ponta do salão, móveis de escritório também muito bonitos (é verdade, leitor, que as fotos ficaram mal enquadradas, desculpe-me, mas Luís era rápido no tour ao hotel).

Ao final da visita, Luís nos sugeriu vivamente que, fossemos ver, naquela tarde, o pôr do sol na varanda que ficava acima do terceiro piso. Obedecemos, é claro. Chegando lá, encontramos um ambiente preparado e frequentado por jovens. Tivemos apenas dois minutos de inadaptação, porque era tudo tão agradável que sentamo-nos numa pequena mesa, tomamos um tinto e comemos uma pizza feita ali mesmo. Os garçons eram extremamente agradáveis. Discretamente fiquei observando a moçada, que, na vestimenta, é claro, não tem mais nada de cholitas.

Foi assim que vimos a noite chegar, admirando o perfil de Sucre e, especialmente, a torre de sua catedral iluminada.

O que eu quis registrar com esse capítulo de nossa “expedição” é que, na minha opinião, o que distingue um hotel não são as estrelas que ele tem, nem o preço da sua diária, mas o contexto que ele reflete, no tempo e no espaço, oferecendo ao hóspede um conjunto de circunstâncias.

Está na moda dizer que o que vale é a experiência, Aliás, você leu o texto do Ruy Castro na Folha, publicado em 27 de dezembro de 2023? Genial. O título é “Simples assim” e ele escreve um delicioso texto sobre as expressões que nos infernizaram no ano passado [https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2023/12/simples-assim.shtml].

Te tenho que cair nessa onda e afirmar que hospedar-se neste hotel foi uma ‘experiência’ muito especial. Dificilmente ela se repetirá se um dia eu puder voltar lá, mas que dá vontade de retornar, dá.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 25

O trecho entre Potosí e Sucre foi o menor que realizamos, em toda esta “expedição”. Foram apenas 155 km, mas, como pode ser visto pela previsão de tempo feita pelo Google Maps, não é um trecho fácil de ser percorrido. Saímos da cidade mais alta da Bolívia – Potosí com 4.090 m – e chegamos aos 2.790 de Sucre.

Muitas curvas, certa lentidão pela dificuldade de ultrapassar, mas muita beleza cênica para compensar.

A estrada ia serpenteando as montanhas, buscando caminho entre elas e o rio. Nós íamos curtindo aquela paisagem tão especial, sobretudo para quem mora em terras sem morros para vislumbrar.

À medida que nos afastávamos de Potosí, os cumes das montanhas eram menos pontiagudos, mas continuavam a se impor mostrando que estávamos ainda no domínio dos Andes.

A dificuldade para respirar tão sentida em La Paz, Puno, Oruro, Uyuni e Potosí ia aos poucos nos deixando e chegávamos na Capital Constitucional del Estado Plurinacional de Bolívia. É isso, a Bolívia tem uma capital administrativa e legislativa (La Paz) e outra constitucional (Sucre).

Não é o único país do mundo a ter essa situação. Seu vizinho Chile tem uma capital administrativa e judiciária (Santiago) e outra legislativa (Valparaíso). Na América Central, Honduras também tem duas capitais, mas ninguém ganha da África do Sul que tem três: Pretória (administrativa), Cidade do Cabo (legislativa) e Bloemfontein (judiciária).

Encontrei a explicação de que Sucre é capital de jure, que significa capital pela lei, pelo direito, mas La Paz é capital de facto, ou seja, é lá que se exerce o poder.

Sucre foi fundada em 1538, mas teve outros nomes antes – Charcas, La Plata, Chuquisaca. O rei espanhol Filipe II, em 1559, tornou-a a cidade de comando de um grande território que abrangia o Paraguai atual, o norte do Chile e o sudeste do Peru. Chegou a ser uma cidade importante, politicamente, mas também economicamente por causa da extração da prata de Potosí. Por isso, em 1624 foi nela fundada a Universidade São Francisco de Xavier.

Em 1825 foi declarada, em Sucre, a independência da Bolívia e, em 1839, ela se tornou capital do novo país. Se você, leitor, quiser conhecer um pouco dessa história, veja a série da Netflix denominada Bolívar, porque parte dela se passa nesta cidade e retrata esse momento.

Somente com a declínio da riqueza oriunda da prata é que a capital passou a ser administrativamente La Paz, em 1898, mas o título constitucional de capital permaneceu com Sucre.

Hoje é conhecida pelo codinome de cidade branca das Américas e merece esse apelido simpático, porque a quase totalidade das edificações de sua área central estão pintadas de branco.

Para o meu gosto, a cidade mais bonita da Bolívia, entre as que conheci, é Sucre. Foi adorável entrar nela, num domingo ensolarado, em que a praça central e todas as quadras lindeiras estavam fechadas ao trânsito de veículos para favorecer o uso do espaço público com atividades culturais.

Tivemos que dar muitas voltas para chegar ao Parador Santa Maria La Real, que é um hotel tão especial que merece um capítulo posterior.

O dia seguinte à nossa chegada, a segunda feira, 22 de janeiro, era feriado nacional – Dia do Estado Plurinacional – nomenclatura adotada com a Constituição de 2010. Um domingo e um feriado juntos favoreceram ver a cidade em festa, mas por outro lado, não conseguimos entrar em uma igreja sequer.

Na Plaza de Armas 25 de Mayo está a Catedral metropolitana de Sucre, denominada Basílica de Nuestra Señora de Guadalupe, uma edificação portentosa, pelo tamanho, mas ao mesmo tempo singela pelo predomínio do branco sobre os barrados de pedra.

Na mesma praça está a sede do governo municipal e, em outra face, o Museo del Tesoro, do qual não consegui fazer uma foto boa porque sua frente está muito arborizada, mas incluo um desenho dele.

Fonte: https://www.tripadvisor.com.br/Attraction_Review-g295432-d8447728-Reviews-Museo_del_Tesoro-Sucre

Adorei visitar este museu. São visitas orientadas de hora em hora, com poucas pessoas por vez e um guia muito bom. Ele ia de sala em sala explicando as formas de extração de metais e pedras preciosas e, na sequência, mostrando pedaços das rochas brutas e as diversas fases de refinamento subsequentes, até se chegar em pedras lapidadas ou em fios de ouro tão finos que mal eram visíveis a olho nu.

A pedra mais impressionante é a “geoda de Amatista”, pelo tamanho e pela perfeição das lanças pontiagudas internas que compõem o cristal.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Bolivianita

Outro ponto alto de Sucre, é o Parque Simon Bolívar, que deve ocupar o que corresponderia a umas três quadras completas. No caminho para ele, saindo da Plaza de Armas, já encontramos um obelisco na Plaza de la Libertad, que é engraçada porque você pode cruzá-la de carro, ladeando o portentoso mastro que ali está construído.

Nessa mesma praça, está o Teatro Gran Mariscal Sucre, que também impressionou pela beleza da fachada e a conservação do prédio.

Antes ainda de chegar ao parque (estou dando uma volta e tanto), está o edifício principal do poder judiciário e, do lado dele, de construção mais recente um outro prédio, que não tem nada a ver com o primeiro (parece a caixa forte do Tio Patinhas um pouco mais caprichada), e também abriga este poder boliviano.

A entrada do Parque é marcada por outro obelisco, um pouco menor, e dois arcos bonitos, que me lembraram os de alguns jardins de cidades francesas, mas dos quais gostei mais, por causa do branco, no lugar do granito que é o mais comum nos arcos, como nas terras francesas.

O parque estava uma verdadeira festa. Tinha gente andando de carrinho, de barco, muitos comendo e bebendo, outros correndo, e mais de um grupo dançando.

Voltando para o hotel, fomos nos deliciando com outras fachadas.

No dia seguinte, subimos algumas dezenas de degraus para chegar a um patamar mais elevado da cidade, onde está o Monastério de la Recoleta, indo atrás de visitar o Museo de Arte Indígena, que estava fechado por causa do feriado. Valeu a pena, mesmo assim, porque pudemos ter uma vista bonita da cidade, embora o tempo estivesse fechado neste dia.

Prometi, a mim mesma, não me olvidar de Sucre. É uma promessa fácil de cumprir.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 24

Potosí, gente e espaço público

Fonte: https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/o-brasil-varias-cores.htm

No ambiente universitário, no âmbito das Ciências Humanas, há um debate qualificado sobre a natureza e o sentido do espaço público no mundo contemporâneo.

Muitos procuram refletir sobre o tema, porque a relação e a distinção entre público e privado tem se alterado com o aparecimento de espaços de convívio coletivo, mas que são privados e controlados por sistemas de segurança e vigilância como os shopping centers; ou em decorrência da existência desses sistemas em praças e ruas, onde deveria prevalecer a esfera pública e o direito ao anonimato; outras vezes, tem sido objeto de atenção o muramento de áreas residenciais que reservam ruas, calçadas e praças que são juridicamente públicas, para uso de seus moradores ou daqueles autorizados por eles…

Isso tudo entra no debate sobre o tema e gera o aparecimento de muitos novos termos, nem sempre bem ajustados às respectivas realidades, como espaços semipúblicos, espaços públicos de uso restrito etc., que revelam o interesse de interpretar as novas formas de uso dos espaços.

Logo que cheguei a Postosi, percebi que poderia deixar a bibliografia sobre o tema de lado, embora esteja envolvida com pesquisas que incluem esse debate. Por que? Porque, nesta cidade, o espaço público é vivamente utilizado e, mesmo que haja a presença dos turistas, ele é dos potesinos.

É importante que os turistas não sejam tantos, embora os houvesse como nós brasileiros. A maioria era de europeus, pelo que depreendi das conversas que ecoavam aqui e ali. Digo que é bom que não fossem muitos porque, vamos combinar: turista é um bicho espaçoso e tem dificuldade de assumir que a cidade não é dele.

Nas várias praças – umas maiores, outras menores – havia de tudo e de todos: comerciantes ambulantes, idosos, crianças, descendentes de indígenas e de europeus, gente descansando, outros buscando trabalho e festa, muita festa.

Oruro é notória por ter o melhor carnaval da Bolívia. Pelo que vimos em cartazes, na propaganda pela TV e nas vitrines das lojas – a festa carnavalesca é grande nesta cidade, embora seja diferente do que nós, brasileiros, consideramos carnaval.

Potosí também demonstrou, nos dias em que lá estivemos que se prepara para o carnaval. A cada uma ou duas horas, um grupo de 10 a 30 pessoas saía pelas ruas dos centros apresentando-se. Iam uniformizados, às vezes uma camiseta, às vezes uma jaqueta, com o símbolo e o nome do grupo. Tocavam seus instrumentos (tuba, clarinete, bumbo, repique e trompete) e dançavam.

Ao mesmo tempo que era um desfile exibido, no sentido que faziam questão que os que estavam pelas ruas os observassem, era muito recatado, principalmente no modo de dançar e de se vestir. Em relação a este ponto, é compreensível porque Potosí é, segundo a divulgação que fizer, a cidade mais elevada da Bolívia, com seus mais de 4000 metros de altitude. Não dá para sair por aí de dorso de nu ou de peitos e pernas de fora.

Havia alguns dentre estes grupos que avançavam com um ou outro figurante fantasiado que poderia ser considerado o “destaque”. Algumas crianças ou adolescentes, puxando uns carrinhos que vinham cheios de enfeites em prata, também era parte da alegoria. Fiquei imaginando que, desde os tempos áureos de extração da parta em Potosí, esses desfiles devem ter ocorrido.

Não apenas os participantes eram recatados, mas o batuque também. Mais parecia com uma fanfarra paulista do que um samba carioca ou um frevo pernambucano, mas ainda assim era uma verdadeira festa ver esses “blocos” pela cidade, fazendo o trânsito parar pacientemente, na manhã de sábado.

Outra forma de festar no espaço público foi observada no sábado à tarde com os casamentos.

Os carros enfeitados com tules e flores lembraram-me o taxi preto do meu tio-avô Fernando. Quando eu era pequena, na cidade de São Paulo, nos dias de sábado, ele super lavava e lustrava seu veículo, para enfeitá-lo na sequência, atender encomendas de noivas.

São Paulo já era uma metrópole, no começo dos anos de 1960, mas havia essas práticas de carros enfeitados e arrastando latas pela cidade para, com o barulho, anunciar que passavam os noivos. Suponho que, no último rincão brasileiro, isso já tenha acabado. Que pena! Na boliviana Potosí, lá estavam os carros enfeitando o espaço público.

Alguns casamentos estavam ocorrendo na catedral basílica que tínhamos visitado com o guia Joaquín, no dia anterior, e na qual entramos agora pela porta principal, para observar um casório.

Outros devem ter ocorrido em outras igrejas. Talvez por ser um sábado de verão, antes ainda da quaresma, o número de noivas e seus familiares e convidados era grande nas duas praças principais e ruas lindeiras.

Passamos muitas vezes pelas praças principais nos dois dias que estivemos em Potosí, bem como percorremos suas ruas comerciais. Sempre havia muita gente por todo lado.

As cholitas também estavam lá, mas como falei muito delas em capítulos anteriores, não quero deixar a ideia de que todas as mulheres bolivianas usam este tipo de vestimenta, porque há as que já estão completamente americanizadas ou abrasileiradas no estilo de se vestir.

Esta moça vestida de branco é de origem indígena, mas tingiu os cabelos de loiro.

Na rua comercial de pedestres jovens perambulavam.

Dois senhores batiam o maior papo sentados no beiral da fonte.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024







Carminha
Beltrão

Janeiro
de 2024

Bolívia e Peru 23

Potosi – prata, passado e presente

A chegada a Potosi, numa sexta-feira, metade da tarde, foi marcada pelas dificuldades impostas por um plano urbano de ruas estreitas e de densidade construtiva alta: um imóvel ao lado do outro, ocupando o terreno até as calçadas estreitas. Não é para menos, porque aqui também as montanhas abraçam a cidade com tanta força que quase a “esganam”. Putz, essa metáfora não ficou nada legal – montanhas que esganam cidades – mas fica assim, porque foi a que ocorreu, deixando claro que não sou uma escritora, mas apenas uma escrevinhadora.

Ao deixarmos a estrada, começamos a descer, cruzando bairros empobrecidos, até chegar às ruelas mais antigas, aproximando-nos das construções mais bonitas que foram ocupadas pela elite no passado colonial de Potosi e, hoje, são destinadas a diversos usos institucionais, comerciais e de serviços. Também há, pelo que observei, quem ainda mora nesta área que foi a cidade do passado (vejam a representação de Potosi de 1758, que consta como uma cidade peruana) e hoje é o centro histórico da cidade do presente.

Fonte: https://www.alamy.es/imagenes/potosi-map.html?sortBy=relevant

Passamos pela porta do Hostal Colonial Potosi e, simplesmente, não pudemos parar na estreita Rua Hoyos, porque uma fila de carros, vans, minibus e motocicletas estava atrás de nós. Adiante, na Plaza 6 de Agosto, foi possível estacionar, provisoriamente, e já começarmos a nos apropriar dessa graça de cidade.

Este centro não apenas é bonito, testemunhando a riqueza que marca o passado de Potosi, como está extremamente bem cuidado. Em contraponto a uma Bolívia, onde há lixo por todo lado, esta área urbana estava agradavelmente limpa.

O contraste entre o branco e o cinza dos prédios institucionais e as fachadas revestidas de pedras das igrejas conformam um conjunto muito bem articulado, que se combina com um espaço público vivo e diverso.

Como outras cidades bolivianas, aqui o centro também se assenta numa bacia cercada por montanhas, com a diferença de que uma parte delas, em Potosi, já foi bastante desgastada pela extração da prata e do estanho, metais aos quais se vincula a história desta cidade. A elevação mais importante é o Cerro Potosi também chamado de Cerro Rico.

Em 1645, Potosi aparece numa representação holandesa como a principal fornecedora de prata do “Império Espanhol del Nuevo Mundo” e vejam o famoso cerro aí representado.

Potosi é, para o subcontinente sul-americano, muito longeva. É claro que, se comparamos com a Europa ou Ásia é uma cidade até nova, mas para nós deste continente ocidental é uma joia do ponto de vista histórico:

Foi fundada em 1546. Em 1611, já era a maior produtora de prata do mundo e tinha à volta de 150 000 habitantes. Alcançou seu apogeu durante o século XVII, tornando-se a segunda cidade mais populosa (atrás de Paris) e a mais rica do mundo, devido à exploração de prata enviada à Espanha. No entanto, em 1825, a maior parte da prata já se tinha esgotado e a sua população desceu até os 8 000 habitantes. No começo do século XX, a exploração de estanha se incrementou pela demanda mundial e, como consequência, Potosí voltou a experimentar um crescimento importante.

Após a chegada dos espanhóis à América e a dominação do povo inca, com a descoberta de Potosí e sua riqueza em prata, começou sua extração, utilizando-se, para isso, trabalho indígena, chegando cada extrator a levar 29 quilogramas de prata por dia, subindo pelas minas com este peso em uma bolsa atada ao pescoço.

Em razão das más condições de trabalho, muitos índios acabavam morrendo, por fome ou doenças, como pneumonia, acidentes, como soterramentos e quedas de grandes alturas. Frei Domingo de Santo Tomas, um padre que viveu à época, escreveu: “Não é prata o que se envia à Espanha, é o suor e sangue dos índios”.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Potos%C3%AD

Do mesmo modo que a maior parte da Bolívia atual, esta cidade pertencia até 1776 ao, então, Vice-Reinado do Peru e depois ao Vice-Reinado do Rio da Prata. Ser a segunda maior cidade do mundo no século XVII não é pouca coisa, mas ajuda a explicar o patrimônio da cidade.

A primeira visita foi à Catedral Basília Nossa Senhora de la Paz, que fica bem na lateral da Plaza 6 de Agosto, onde havíamos estacionado o carro na chegada.

Esta como tantas outras na Bolívia e na Peru (aliás, como também nas cidades coloniais brasileiras) encontrava-se com as portas fechadas. Visitar estas igrejas é, por vezes, condição de sorte, por vezes, de oportunidade: se é feriado, não está aberta à visitação; se não é, a porta está fechada porque é hora de almoço; se são 9h15 da manhã, a próxima visita guiada ocorrerá somente às 11h00; ser quer mesmo visitar, seja rápido porque logo vamos fechar…. Haja persistência.

No caso desta igreja, havia a indicação de que o acesso para visita ficava na rua lateral. Lá fomos nós, vimos uma escadaria para o subsolo com uma fila: não era ali, tratava-se apenas de acesso aos banheiros públicos.

Continuamos e chegamos à rua atrás da igreja, estreita, cuja calçada deveria ter 60 cm de largura, em alguns trechos, e lá havia a entrada para uma salinha, onde nos deparamos com um jovem que, depois, ficamos sabendo que se chamava Joaquim.

Não pareceu um nome muito boliviano (ou será que os portugueses passaram por lá) e perguntamos se ele sabia a razão dele. Disse que não e esclareceu que seu nome era composto – Joaquim Rolando. Conhecer o seu segundo nome não ajudou nada a entender a escolha e o engraçado é que nem Joaquim, nem rolando combinavam com o estilo jovem da roupa, do cabelo repicado com gel e da atitude dele, que nos vendeu os ingressos e nos guiou até a entrada para a igreja.

Saímos da salinha, descemos uns degraus até a rua, percorremos uns metros pela calçada, passamos por um portão e uma enorme porta de madeira, ambos com cadeados que pesam mais que do que o esperado. O guichê de venda de entradas ficou aberto e sem ninguém, enquanto ele nos acompanhou por meia hora.

Ufa, neste caso, tivemos sorte, porque se alguém chega antes de nós, teríamos encontrado o guichê sem ninguém e seria mais uma visita frustrada a uma igreja boliviana.

Valeu a pena. A igreja é muito linda com as paredes pintadas de branco e vários altares e colunas folheados a ouro. Na Bolívia, esse acabamento – folheado a ouro – é chamado de pan de oro. Achei engraçado e mesmo tendo perguntado depois, ao guia da Casa de la Moneda que também usou a mesma expressão, a razão de se nomenclaturar o folheado como pão, continuei sem saber o porquê.

As informações obtidas é de que boa parte das obras de arte desta igreja foram feitas por indígenas, como tantas outras do Peru de Bolívia. Vejam que na fisionomia das estátuas e pinturas, é possível observar traços das etnias autóctones. Além do mais, notem, também, que algumas estátuas tem cabelos, que são naturais e não sintéticos. São cabelos de indígenas. Nada de madonas, apóstolos ou anjinhos loiros.

Joaquim explicava pouco, mas respondia com atenção às nossas perguntas. Informou que estudou Turismo em Oruro e estava se especializando agora em pesquisa histórica.

Convidou-nos para subir ao campanário da igreja. Quando vi a altura dos degraus e ele informou que eram 90, desisti. Expliquei que ficaria ali sentadinha, esperando e apreciando a igreja.

Eliseu e ele me olharam com uma carinha de cachorro morto, deixando passar a ideia de que faziam questão que eu fosse. Vamos lá. Estávamos a mais 4 000 metros de altitude e não eram 90 degraus, mas 98 (teria sido mais honesto, ele ter arredondado para 100). Cheguei lá em cima com pouco ar e com o coração batendo mais forte, mas valeu a pena.

Primeiro, os sinos seculares eram espetacularmente grandes. Segundo Joaquim, vieram da Alemanha. Um deles pesava uma tonelada. Eram tão grandes, que não tínhamos distância suficiente, no espaço restrito do campanário, para fotografá-los, a não ser o menor dos três.

Em segundo lugar, a vista era simplesmente bárbara. Podia-se olhar para os quatro cantos da cidade. Apreciar o mar de telhadinhos e as ruas estreitas, olhar para as montanhas de outro ponto de vista, ter a visão aérea das duas praças principais e, por fim, apropriar-se de uma perspectiva de conjunto da cidade, o que foi muito bom.

Na torre lateral, vê-se o relógio (marcador dos tempos do homem moderno) e os sinos (marcadores dos tempos pré-capitalistas no mundo ocidental). Estes são os que, atualmente, continuam a badalar, mas já sincronizados a um sistema automático. Bem menores, lá estão eles para dizer que a Igreja ainda conta.

Apreciar a Plaza 6 de Agosto lá de cima, possibilitou constatar que ela é tão linda como vista de baixo, a qual curti sentadinha, no mesmo final de tarde, e diante do seu obelisco, no seguinte.

A descida do campanário foi mais fácil, leitor, mas não pense que é barbada não, porque a escada é escura, nem sempre há corrimãos e os degraus altos demais são estreitos para quem calça 37.

Logo adiante da basílica catedral, está o Colégio Nacional Pechincha (nome engraçado né?), cuja igreja lindeira está sendo reformada para se tornar um teatro público – alguma coisa como: cada um pode chegar e fazer a sua performance ou representação. Achei a ideia genial.

Potosi tem muitas outras igrejas bonitas, mas não tivemos a sorte de encontrar outras abertas. Aliás, chamou atenção que, além da denominada catedral basílica que visitamos, tem outra catedral, esta em devoção a São Francisco.

Fonte: https://es.wikipedia.org/wiki/Templo_y_exconvento_de_San_Francisco_%28San_Luis_Potos%C3%AD%29

Algumas igrejas de Potosi são singelas no tamanho, mas sempre chama atenção o maravilhoso trabalho com as pedras em altos relevos que devem ter dado muito trabalho e exigido muito tempo e vida de indígenas.

Uma visita recomendada em Potosi é a ida ao Mercado Municipal.

Sinceramente, fiquei decepcionada. Ele é grande e movimentado, isso é verdade, e já vale a pena conhecê-lo sob este ponto de vista, mas esperava boxes com venda de produtos artesanais bolivianos e, sobretudo, peças de prata, afinal estamos na capital mundial da prata. Nada disso, porque lá encontrei baldes de plástico, alimentos industrializados, capas para celular, calças jeans baratas e até camisas de futebol “verdadeiras cópias do original”.

Potosi tem tanta coisa interessante para se relatar que acabo de resolver que farei outro capítulo só para contar sobre seu espaço público.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 22

Os percursos entre o Oruro e o Salar de Uyuni (sentido norte para o sul) e, depois, entre o Salar e Potosi (sentido sul para nordeste) foram muito agradáveis nesta “expedição”. Primeiramente, cruzamos 380 km e, na segunda parte, foram mais 226 km. Mudamos pouco de altitude. Fomos de 3.735 m (Oruro) para 3600 m (Salar de Uyuni) e, depois, para 4.090 m (Potosi).

Mantivemo-nos, sempre, próximos da mesma altitude, em patamares elevados topograficamente, ainda que relativamente planos, na linha em que se assenta a rodovia.

Saímos da situação de viajar ensanduichados pelas montanhas e, agora, havia certa planura e avistávamos sempre, a 500 ou 2000 metros, os contrafortes dos Andes. A aridez da paisagem mostrava que ainda estávamos em domínios desérticos e semidesérticos.

Andamos quilômetros, sem ver uma árvore ou arbusto, no máximo, havia vegetações rasteiras que dificilmente alcançam o verde.

À medida que avançávamos pela estrada, mesmo estando sempre acima dos 3 500 metros de altitude, havia cursos d’água extensos e largos que se desenhavam no relevo, frequentemente, ladeando a rodovia. Estavam sempre secos ou com pequenos fios de água.

Fiquei me perguntando se são rios intermitentes e que, portanto, em período de chuvas, chegam a ser caudalosos ou se a ação humana e as mudanças trazidas pelo El Niño e La Niña ajudariam a explicar a secura recente destes cursos e ela é praticamente definitiva (até segundo aviso pelo menos).

Como em todos os países, sejam grandes ou pequenos, no transcorrer de algumas dezenas de quilômetros, observamos mudanças significativas, seja na paisagem natural, seja naquela que resulta da ação humana.

Nos dois trechos relativos a esse capítulo, a primeira surpresa decorreu da presença grande de lhamas ou seus congêneres: alpacas, guanacos e vicunhas. Eu me esforcei para fazer a distinção, mas nas estradas, elas nunca se parecem com as fotos que encontramos na web. Se quiser tentar, veja o site – https://www.peritoanimal.com.br/diferencas-entre-alpaca-e-lhama-23183.html.

Elas pastoreavam tanto nas áreas planas de deposição, perto do sopé das elevações dos Andes, como vinham até as margens da rodovia e nela entravam.

Além da lã que propiciam, do apelo turístico que representam, elas são criadas também por causa do valor da carne, parte da cultura andina e, aliás, provei tanto a carne de alpaca como de lhama e são muito saborosas.

Os pequenos rebanhos estavam sempre acompanhados de pastores. As mulheres são as mais presentes neste trabalho e, muitas vezes, estão acompanhadas pelos filhos.

Chama atenção que há as de pelo totalmente branco (com a poeira da secura dos Andes ficam bege), as de lã marrom e as que são preta e branco ou marrom e branco.

Durante todo o tempo da viagem, havia placas rodoviárias indicando para tomarmos cuidado e era mesmo necessário.

Logo depois de passar por essa madame da foto aí de cima, tivemos que brecar bruscamente para não atropelar outra, a marrom. Do nada, atravessou a rodovia.

A segunda surpresa foram as formas do relevo tão peculiares que encontramos e convidaram aos registros fotográficos, que nem sempre são fáceis de fazer, porque não é com frequência que a estrada tem acostamentos. 

Os dobramentos continuaram a aparecer deixando desenhos magníficos nas elevações. São tão impressionantes que parecem que foram feitos por computadores.

Quem foi o engenheiro que desenhou a linha de torres de energia elétrica bem aí para macular essa paisagem?

A terceira surpresa foram os cactos, que são a vegetação dominante, sobretudo entre Uyuni e Potosi (aparecem em outros trechos também). Eles são de alturas impressionantes e a camada de espinhos dá a ilusão, à distância, de um verde acinzentado, muito bonito.

Fonte: https://rove.me/pt/to/bolivia/blooming-cacti?gallery

Chegando a Potosi, cansados, o que encontramos? O hotel Colonial Potosi todo adornado com cactos. Um muito lindo estava na porta do nosso apartamento. Um muito lindo estava na porta do nosso apartamento. Dá para ver ele atrás da cadeira de ferro da esquerda?

Fonte: https://www.hostalcolonialpotosi.com.bo/el-hostal/

No próximo capítulo, a atenção será para Potosi.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 21

Ainda o maravilhoso Salar de Uyuni

Volto a relatar a experiência de conhecer o Salar de Uyuni. No capítulo anterior deste diário da “expedição” à Bolívia e Peru, talvez eu não tenha ajudado você, leitor, a imaginar a imensidão deste ambiente. Veja o tamanho que tem o salar, na imagem de satélite em que se representa o território boliviano, que não é pequeno, pois se trata do 5º maior país da América do Sul. Além do mais, o ambiente ocupado por ele está inserido na imensa área desértica que se situa nesta porção dos Andes.

Não apenas é o maior salar do mundo, como fica muito acima dos subsequentes neste ranking: 1º. Salar de Uyuni na Bolívia, com 10.582 km2; 2º. Salinas Grandes, na Argentina, com 6.000 km2; Chott el Jeridd, na Tunísia, com 5.000 km2.

Para uma comparação até boba, a 10ª Região Administrativa do Estado de São Paulo, cuja capital é Presidente Prudente, onde moro, tem um pouquinho mais que 11 mil km2, ou seja, o salar equipara-se, mais ou menos, ao total de mais de 50 municípios desta região. É grande demais.

Se fosse uma paisagem feia, a extensão incomodaria, mas é absolutamente lindo este salar, por isso é maravilhoso que ele seja grande e que eu possa conhecê-lo.

Há um trecho do salar que é chamado Playa Blanca, onde há o que restou de um antigo hotel também feito em sal que teve que ser fechado, por causa de problemas sanitários que provocavam poluição no salar. Ficou sendo uma parada para descanso e ida ao banheiro. Na frente, há inúmeras bandeiras de países fincadas. Olha eu aí com a do Brasil.

Fiquei em dúvida de postar essa foto, porque hoje se associa a nossa bandeira, que é de todos os brasileiros, apenas ao grupo que é partidário do ex-presidente do Brasil, no último mandato, mas penso que temos que desconstruir essa associação.

Dá para notar pela foto que a bandeira está incompleta? Várias delas estão assim pela ação do vento que não é brincadeira no deserto.

A porção mais linda do salar é, sem dúvida, aquela em que, acima da camada de sal, está depositada uma fina lâmina de água, fazendo a vez de um espelho. As fotos falam por si.

Muitas vezes, é difícil ver onde termina o salar e começa o céu.

Nosso guia Elliot gostava de fazer fotos de “ilusão”, pois a brancura do salar favorecia e ele fazia questão de vários registros. Alias, ele e todos os guias que estavam por ali com grupos menores (um casal como era o nosso caso) ou maiores (famílias numerosas, grupos de estrangeiros sob a batuta de uma agência, jovens que viajam ao estilo mochileiros).

Ele fez muitas fotos, as mais brincalhonas foram as com o dinossauro.

Veja, a seguir, a ginástica que Elliot fazia, deitado ao chão, com um pequerrucho dinossauro de plástico, orientando a posição que devíamos ficar para obter o efeito esperado.

Da foto seguinte, eu gostei demais. Equilibrando-me na vida e na mão do meu companheiro de tantos anos.

O número de carros com turistas no salar é grande – vejam os risquinhos que correspondem a pessoas andando para lá e para cá, curtindo a beleza deste espaço, como nós estávamos.

Por meio das próximas fotos, registrei um redemoinho de vento que estava se formando nas bordas do salar. É este tipo de fenômeno que leva a poeira para cima da grande superfície branca, formando, com o passar do tempo, as listinhas que constituem os blocos de sal.

Este é o carro da Hidalgo Tours, com o qual fizemos o passeio de cinco horas e meia no salar. Era alto, confortável e cheio de adesivo filme para cortar a insolação, que é altíssima.

Começamos às 14h e terminamos 19h30, mas, por volta das 18h30, o que parecia ser um enorme temporal começou a se formar no horizonte. Caíram uns pingos de água, corremos para o carro e, em 15 minutos, tudo passou.

Elliot disse que há, também, os tours de madrugada para se verem as estrelas, mas, normalmente, eles são opção, principalmente, dos coreanos.

As temperaturas, mesmo no verão do hemisfério sul, ficam abaixo de zero pela madrugada, por isso acho que prefiro a experiência diurna mesmo.

Quando o sol começa a pensar em ir embora, os carros vão se retirando do salar, mas foi possível ainda ver um lindo arco-íris.

Antes da volta para o hotel, a agência propicia em vinho com alguns petiscos para dizer tchau ao salar. Ou seria adeus?

A essa altura, já estávamos com a calça jeans completamente respingada de sal, apesar das botas de borracha que o hotel oferece, estávamos também descabelados pelo vento, mas extasiados de “beber” tanta beleza.

A agência capricha, leva mesinha, bancos, toalha e oferece uma garrafa do tinto Campos de Solana, que os bolivianos se orgulham de ser o melhor produzido no país. É caracterizado por ser um vinho de altitude, cuja produção é da região de Tarija, ao sudeste do país. Nós gostamos. Tim Tim!

Fecho o capítulo, com a última foto que fiz, já da janela do carro, quando voltávamos para o hotel.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024