Aqui registro minhas experiências como viajante (e como turista também). Alguns textos são contos e outros poucos relatos… Tem de tudo um pouco… O conceito central é escrever para mim, mas é maravilhoso saber que outros podem ler e gostar.
A visita a Alcântara foi muito pontual. Nosso desejo era conhecer uma das maiores pontes romanas que permanecem eretas e firmes.
A cidade passa certo ar de desolação, porque há muitos imóveis desocupados, alguns até em processo de deterioração.
Procurei verificar se ela tinha sido maior populacionalmente do que hoje, que tem 1.300 habitantes, mas não encontrei nenhuma informação confiável, já que os dados indicados em diferentes sites discrepavam entre si.
Na praça principal, em frente à igreja matriz que estava fechada como tantas outras que encontramos nesta viagem, imperava a estátua de São Padro de Alcântara. Gostei da representação estilizada dele, embora a obra de arte estivesse num patamar topográfico muito inferior ao da entrada da igreja o que a desvalorizava.
Para cumprir nosso objetivo em Alcântara, buscamos o caminho para a ponte que lhe dá fama pelo Google Maps. Não notamos que o filtro era o do “menor caminho” e não do “melhor caminho”. Assim, foi quase um rally para chegar a ela: passamos por ruas super estreitas, fizemos conversões cujo ângulo não era o mais adequado ao tamanho do carro e, por fim, enfrentamos um declive acentuado em curva fechada, para chegar a ela.
No vale, meio encaixado, o majestoso Rio Tejo, que tanto deve ter servido, aos romanos, como via de locomoção aquática, quanto como barreira para controlar o comércio e a entrada dos mercadores em Alcântara.
A altura da ponte impressiona e o sistema construtivo também, com o lindo portal que fazia as vezes de ponto de cobrança de impostos. Foi construída pelo Imperador Trajano. Está sustentada em 6 arcos, tem 194 metros de extensão, 61 metros de altura e 8 metros de largura. Está tão firme que passam veículos automotivos por ela.
Seu nome – Ponte de Alcântara – segundo li na web é do período muçulmano (Idade Média na Europa), pois “al-Qantarat” ( القنطرة)” significa “a ponte” em árabe.
De lá era possível ver alguns restos da muralha que, no passado, estava protegendo a cidade.
Gostei da estátua de São Pedro de Alcântara, da ponte romana e da muralha, mas curti mesmo foram as cegonhas que tomam conta dos cumes das maiores construções e ali protegem seus ninhos a passam a impressão de que são donas do pedaço.
Elas emitem um som muito alto que, segundo o que apurei, é “… produzido pela colisão do maxilar e da mandíbula. Este barulho, forte como o bater de castanholas, tem vários significados consoante o ritmo. Por exemplo, é lento durante o acasalamento e rápido enquanto sinal de alerta.”
Ao emitirem este som, as cegonhas estão glotorando (é óbvio que não conhecia o verbo glotorar, mas acabei encontrando no dicionário, para substituir o genérico piar que serve mais para os pintinhos. Risos). Quer saber como é este som?
As cegonhas são grandes e parecem fortes. Dá para imaginar que têm força para carregar bebês, mas é difícil aceitar como essa fábula foi se disseminar também no Brasil, onde não há cegonhas. A mim, quando era criança, não me ocorreu indagar onde estavam as cegonhas que traziam os recém-nascidos.
Por mais esforços do poder público que sejam realizados, por mais dinheiro da União Europeia que seja investido, ao passearmos pelos lugarejos, cuja importância histórica e o apelo turístico são menores, aquilatamos o tamanho do patrimônio que não será possível recuperar.
Em todas as cidades pequenas da Extremadura, alguns pueblitos, vimos construções desocupadas e muitas delas já em processo avançado de destruição. O que fazer? Não seria fácil defender a tese de mais investimento para a recuperação do patrimônio europeu ou asiático, quando, no Sul Global, as desigualdades são muitas, as formas de expropriação variadas e é preciso atender demandas mais urgentes como a de saciar a fome de uma parte das sociedades.
Capital da Comunidade Autônoma da Extremadura, Mérida que tem cerca de 60 mil habitantes. É menor que Cáceres, mas impressiona pelo patrimônio arquitetônico que herdou do período romano.
Foi fundada em 25 a.C. pelo Imperador Otávio Augusto, como núcleo urbano para viverem os soldados aposentados, o que explica seu nome que vem do latim Emerita sujo significado é aposentada ou veterana. Oficialmente, durante o domínio romano, chamava-se Augusta Emerita, sendo o primeiro nome homenagem a seu fundador.
Pela importância que teve durante aquele império, foi capital da província romana denominada Lusitana, que abrangia terras que hoje são espanholas e territórios atualmente portugueses.
Com o fim do império Romano, Mérida manteve sua importância durante o Reino Visogótico e, em 713, foi tomada pelos mulçumanos que a tornaram capital da Cora de Mérida. Somente em 1230 foi reconquistada pelos cristãos.
O patrimônio deixado pelos romanos está disperso na atual área central da cidade. Assim, diferentemente do que vimos em Cáceres e Trujillo, onde a cidade medieval está claramente distinta da cidade atual, no caso de Mérida, o que se tem é uma mescla, que surpreende o visitante. Muitas vezes, do nada, caminhando por uma rua comercial, chega-se a uma edificação de séculos de existência. Enquanto caminhamos, vamos constatando que a Mérida Romana está integrada à Mérida Hispânica.
Começamos o passeio pelo sítio arqueológico do poço romano de neve. Os romanos a transportavam das encostas mais elevadas da serra e a armazenavam tanto para preservar alimentos, como para, em caso de necessidade, descongelar e aumentar o estoque de água. A explicação do painel ajuda mais a entender a finalidade daquela construção, do que as formas materiais que restaram.
Na sequência, fizemos a visita ao maior parque arqueológico da cidade onde estão o circo e o anfiteatro romanos. Em frente a ele, há um museu que se encontrava em reforma. Fiquei muito impressionada como tamanho, grau de preservação e adornos que caracterizam essas duas construções, comparativamente a similares que tive oportunidade de conhecer na atuais Itália, Turquia e Grécia.
O anfiteatro está especialmente bem conservado, com a fachada posterior ao palco quase completa com suas colunas e cinco esculturas, uma ao meio e duas de cada lado.
Em outros sítios arqueológicos romanos ou gregos que conheci, áreas como a que se seguem eram as destinadas ao comércio. Em Mérida, não havia uma explicação para essas colunas, mas deduzi que podia ter sido essa a função deste espaço. Só não foi possível entender as razões que orientaram a desse brise de alumínio acima delas. Não servem nem para protegê-las do sol nem da chuva e, ademais, competem visualmente com as próprias colunas.
Entre o circo e o anfiteatro, algumas oliveiras estavam lá para nos fazer lembrar que estávamos no domínio climático do mediterrâneo. Aliás, este foi um ponto alto da visita à Extremadura: há olivais por todo lado, na área rural e muitas espécies adornado as cidades e os quintais.
O denominado Templo de Diana, cujo nome permanece, mesmo que as pesquisas arqueológicas mais recentes tenham descoberto que não era dedicado a ela, mas sim a Otávio Augusto, está igualmente integrado à cidade atual. As pessoas que ali vivem (e não apenas turistas) estão passando para ir ao trabalho ou às compras. Deveria ter feito um registro fotográfico das construções que estão lindeiras e são do século XIX hoje destinadas, em grande parte, a alojamentos para turistas, como a placa AT (alojamentos turísticos) indicava.
O arco de Trajano é outra herança romana que remanesce integrada à cidade atual. Fiquei imaginando os moradores dos prédios lindeiros, acordando, abrindo a janela e se deparando com 20 séculos olhando para eles.
Os romanos também deixaram sua marca na extensa ponte que ergueram sobre o Rio Guadiana
Por fim, para concluir nossa visita ao mundo romano de Mérida, fomos conhecer o aqueduto, que remanesce ereto cortando a paisagem contemporânea.
Além de Otávio Augusto, em Mérida, as homenagens são várias para Cayo Julio Cesar Augusto que parece ter sido um imperador de grande destaque.
No entanto, Mérida não vive só dos romanos. A presença árabe é importante.
Ao lado da maravilhosa ponte romana, temos a Alcazaba Árabe de Mérica, antiga cidadela mourisca, que funcionava como um forte importante onde habitavam tanto soldados como governador muçulmano da Mérida sob domínio. É uma construção portentosa, pouco adornada, mas situada estrategicamente ao lado da ponte.
Dentro da fortaleza, está a edificação onde morava o governador. Dela, além de parte das paredes laterais, ainda restam duas colunas e o adorno que, originalmente, estava em posição mais elevada. Uma parte delas das colunas não restou para sustentar o que, suponho, era símbolo do poder muçulmano sobre este território. Segundo as informações contidas nos painéis, os moradores de Mérida não aceitaram pacificamente o domínio árabe, razão pela qual a fortaleza era, de um lado, para demonstrar o poder e controle sobre a entrada da cidade, na sequência da ponte, de outro tinha a função de atacar os moradores da cidade, quando estes se rebelavam contra o dominador.
Do alto de muralha que cerca a fortaleza avista-se o Rio Guadiana e se pode supor a importância estratégica deste forte, no que se refere ao controle político sobre o território e econômicos sobre o comércio. Aliás, há os restos da muralha romana e a cinco ou seis metros dela, por fora, está a que foi erguida pelos árabes, ou seja, essa fortaleza se erigiu sobre escombros romanos.
Além da herança romana e da árabe, Mérida também tem um patrimônio hispânico considerável de construções do século XIX e começo do XX. Grande parte está em ruas tornadas exclusivas para pedestres, que estão adornadas com as árvores carregadinhas de cítricos (laranjas, limões sicilianos e mexericas). Acho que é proibido colher, porque não vi ninguém sequer tocar em uma das frutas que estavam maduras convidando ao pequeno delito. Consegui resistir e com medo dos carros com a inscrição Polícia Social, que rondavam por todo lugar, não colhi uma frutinha sequer.
O hotel da rede “Paradores de Espanha”, em Mérida, está situado na Plaza Mayor, onde outras edificações compõem o patrimônio hispânico desta cidade.
A herança árabe não está só na fortaleza. Aparece também nos prédios dos últimos dois séculos, quando a cidade já estava há tempos como parte do Estado espanhol. Também é sentida nos rendilhados que adornam grades e sobre relevos nas fachadas, mas igualmente por meio da presença de pequenas fontes nos espaços públicos.
O passeio em Mérida foi muito especial. A cidade mereceria mais um dia de permanência para que pudéssemos apreciar, com mais vagar, essas paisagens de mescla histórica, cultural e social.
As pesquisas sobre como funcionam a memória não são suficientes, ainda, para decifrar seus mecanismos. Muito se fala sobre seu funcionamento, no plano do senso comum, mas ainda resta muito a descobrir, cientificamente falando. Talvez isso explique, porque não são simples as investigações sobre a psiquê humana, talvez porque não seja muito bom saber tudo sobre ela.
O fato é que de algumas coisas e lugares nos lembramos muito bem e de outros há efetivo apagamento, ou quase isso. O maravilhoso Mia Couto disse que, às vezes, é melhor esquecer que lembrar. Por isso, algumas vezes sendo convidado a palestrar sobre a relação entre memória e identidade, preferiu dissertar sobre o esquecimento.
A foto que abre esse capítulo do meu diário de viagem retrata metaforicamente o largo muro que nos separa da imensidão de coisas que vivemos, escutamos e vimos, com uma pequena fresta para trazer à consciência algo que a memória nos libera.
Sobre Marvão, minha memória não queria liberar nada. Segundo meu marido, já estivemos nesta cidade murada, quando de uma viagem com nossos queridos amigos Marilu e Dióres.
O nome da cidade me dizia alguma coisa de longe, mas não conseguia me lembrar de uma imagem sequer sobre ela. Resolvemos, então, atravessar a fronteira entre Espanha e Portugal para voltar a ver Marvão, como se fosse a primeira vez para mim.
Que graça de cidade! Como eu pude me esquecer dela? Antes mesmo de entrar já era possível ver seu sítio urbano em acrópole, encravado nas rochas.
A foto que se segue é de um poster que encontrei afixado numa de suas ruelas e oferece uma visão área deste sítio urbano.
Estacionamos o carro num parking externo à muralha e adentramos pela Porta de Ródão, à qual se acede por um aclive íngreme. Não tem como não imaginar, no passado, agricultores, peregrinos e mercadores chegando até aqui a pé ou a cavalo. Não havia asfalto, nem automóvel, nem tênis Nike nos pés. Que dureza!
Dá para supor a importância de Marvão teve na Idade Média pelo fato de ela ter duas portas, ou seja, uma muralha dupla com um fosso interno. Ela compunha com outras cidades uma linha de 62 fortalezas que foram erigidas para defender a fronteira portuguesa a leste. Vejam o que se explica sobre elas:
Portugal continental é delimitado a norte e a este pelo território espanhol, sendo esta uma das mais antigas fronteiras da Europa.
A região fronteiriça, vulgarmente denominada “raia”, e a sua história estão associadas à reconquista na parte ocidental da Península Ibérica, e tem origem em acontecimentos determinantes como o Tratado de Zamora, de 1143, que assinala o nascimento de Portugal como reino independente, e o Tratado de Alcanizes, de 1297, que estabelece, no essencial, as fronteiras do nosso país.
A necessidade de assegurar a defesa e vigilância na região fronteiriça materializou-se num vasto conjunto de fortificações que são hoje testemunho de séculos de história e exemplares únicos de arquitetura militar do passado.
Veja o mapa, pois ele ilustra bem como essas fortalezas compunham uma verdadeira barreira de proteção ao Reino de Portugal, em sua porção continental. Compare com o mapa seguinte e verá a situação espacial de Marvão.
Antes de passar pelo umbral da porta principal, já víamos o casario branco.
Imagino que, na Idade Média, as casas não estavam pintadas de branco, mas fica muito mais gracioso assim. Já tínhamos curtido essa homogeneidade, pincelada pelos tons amarelos ou azuis das molduras de portas e janelas, em Óbidos, e agora estávamos aqui nos deliciando com essa paisagem do passado que se realiza numa transição para o presente, como os novos usos dos imóveis vão demonstrando e os sentidos dados à paisagem pelo turismo atestam.
Segundo as informações que busquei na web, conforme levantamento feito em 2021, Marvão tinha, na cidade, 398 habitantes e, no município, 3021. Está situada na região do Alentejo a 860 metros de altitude, incrustrada na Serra do Sapoio.
Esse tamanho demográfico e o frio ajudam a explicar porque a cidade estava quieta às 11h da manhã, mas quando a deixamos duas horas depois, com o sol mais quentinho, já estavam abertos os pequenos mercados de produtos regionais, uma ou duas lojinhas de lembranças (comprei dois cartões com desenhos estilizados de Marvão), um ateliê de arte que continha quadrinhos com dizeres de Saramago e sobre relevos de cortiça representando casarios ou gatos ou luas e uma outra bodega.
Encontramos um único estabelecimento de restauração aberto: um café chamado Lounge do Castelo. Poderia haver um nome mais contraditório? Misturar o castelo medieval com a americanização da linguagem é um pouco demais, sobretudo porque o café era hiper tradicional na sua decoração interna e no comportamento e vestimentas das duas mulheres que faziam o atendimento.
Será que elas falavam a mesma língua que eu? Tive dúvidas, tal era a frequência com que engoliam, ao menos, uma sílaba de cada palavra. Não diziam as coisas, mas gritavam. Super simpáticas, iam servindo e comendo pedacinhos de croissant ou de doces que estavam por ali.
Mesmo sem entender tudo que as duas portuguesas falavam, foi um alívio encontrar esse café aberto, pois tanto queríamos ir ao banheiro, como esquentar o corpo por dentro (uma xícara quentinha da deliciosa bebida e um croissant caíram muito bem).
Do café fomos direto à visita ao castelo e suas torres. O espaço estava bem-organizado para receber os turistas, que, naquela manhã de 3ª feira invernal, éramos nós dois e mais meia dúzia de chineses. É impressionante como eles nunca estão sozinhos ou em casais, são sempre grupos que se notabilizam pelo tamanho das objetivas de suas máquinas fotográficas. Olha eles aí embaixo.
Na entrada do conjunto museológico, estava uma escultura moderna, além da grua que dava apoio a uma reforma. Eu gosto da mistura entre o antigo e o novo.
A vista das paisagens a partir do alto era deslumbrante e compensava, por causa da luz do sol, o vento cortante que fazia. Imagino o horror que deveria ser passar a noite naquela guarita durante a Idade Média para avistar ao longe um possível inimigo.
A muralha está muito bem conservada e, num bom trecho, pode-se caminhar por ela.
Não muito longe do museu, ainda num patamar elevado da cidade está a edificação ocupada pelo Concelho (é assim mesmo que se escreve em Portugal e corresponderia à nossa Prefeitura Municipal). Tudo muito bem-organizado, limpo e conservado. Numa cidade de tão poucos habitantes, dezenas de carro pelas ruas e praças.
Chamou atenção o fato de que havia ao menos duas construções antigas em reforma com recuperação muito bem-feita do patrimônio arquitetônico. Paredões externos mantidos e reconstrução quase completa por dentro. Os pedreiros que estavam em trabalho eram afrodescendentes. Portugal é um país pequeno de cerca de 11 milhões de habitantes e, muitas vezes, demonstra estigmas em relação aos imigrantes e estrangeiros, como podemos acompanhar pelas notícias veiculadas pela mídia. No entanto, o fato é que precisa deles tanto para os trabalhos braçais, como para o turismo animando o mercado de AirBnB, hotéis e restaurantes, num país em que o patrimônio é maior que a população. Já li em algum lugar que há mais de um imóvel por pessoa (não é por família) neste país.
Pouco antes de deixar a cidade passamos por um pequeno jardim ao lado do complexo onde está o museu e pronto: um flash de memória funcionou. Lembrei-me que exatamente ali tínhamos feito um lanche em 2004, na tal viagem com nossos amigos. Marvão voltou do fundo da minha memória, por meio de um de seus cantinhos mais comuns.
Terminamos a visita e, para manter a tradição em Marvão, fizemos um pequeno lanche-almoço, numa área própria para pic nics que estava anexa ao parking (eu me achei péssima nesta foto).
Era 4 de fevereiro de 2025 e completávamos 47 anos de vida juntos. Parece que foi ontem, mas tanto temos a sensação que passou rápido como a de que fazem séculos que compartilhamos a vida, sempre curtindo as viagens. É assim que a memória funciona, simultaneamente comprimindo e alargando o tempo.
Nossa chegada à pequena Trujillo foi conturbada. Estávamos mortos de fome. Já é duro esperar o horário normal de almoço na Espanha, que começa às 14h, e, naquele dia, por causa do deslocamento desde Guadalupe, já eram mais de 15h.
Pelo TripAdvisor busquei os dois melhores restaurantes da cidade e para aceder a eles íamos por ruas estreitas, em trechos que mal o veículo conseguia passar, para na sequência lutar por uma vaga para estacionar o carro. Insucesso total! Ambos estavam fechados.
Fazer turismo na Europa durante o inverno tem seus pontos positivos: temperaturas baixas que convidam a caminhar e não se enfrenta filas para entrar nos museus ou para conseguir um lugar num restaurante. No entanto, tem seus lados negativos e um deles é que uma parte dos locais de visitação e restauração estão fechados.
Não havia mais tempo para escolhas. Sentamo-nos à mesa do primeiro bar café que encontramos aberto na Plaza Mayor de Trujillo, cuja nota, nas avaliações do Google Maps, era bem baixa. Com a forme que a gente estava, tudo pareceu bem razoável.
A maior parte dos que estavam ali preferiam as mesas externas. Para nós, a temperatura baixa levou-nos a uma das internas ao restaurante, o que me possibilitou ficar observando o movimento dos dois garçons que, simultaneamente, cuidavam do balcão (preparando cafés, tirando um chopp ou fazendo um drink) e das mesas internas e externas (levando e trazendo bandejas cheias).
A porta de entrada do restaurante só era aberta com um chute deles, pois as mãos estavam sempre ocupadas. Assim, enquanto esperávamos nosso prato, víamos a destreza e precisão com que colocavam a força certa no pé, de modo a que o ângulo e o tempo de abertura da porta fossem suficientes para eles passarem sem serem abalroados com a volta dela se fechando sobre eles. A madeira da porta estava desgastada no exato lugar onde eles a chutavam, o que nos leva a supor as centenas ou milhares de vezes em que a porta vem sofrendo ataques. Será que é disto que vou me lembrar mais de Trujillo? Talvez, mas há coisas mais importantes a serem registradas.
A cidade tem pouco mais de oito mil habitantes. Está situada no divisor de águas entre dois rios importantes – Tejo e Guadiana – o que significa que tinha uma situação geográfica estratégica no passado, pois possibilitava ver e controlar extensões importantes de terra, desde sua posição mais elevada.
Sua história remonta ao período pré-românico, quando era apenas um pequeno aglomerado e terá se chamado Turaca ou Turacia, segundo que li em sites da web. Depois disso, levou o nome de Turgalium (seu nome romano), Torgiela, Troxiello, Trugillo (estes de influência árabe) e, finalmente, Trujillo. Esta denominação atual espalhou-se pela América espanhola, já que esta cidade foi berço de personagens importantes que atravessaram o Atlântico em busca de terras novas, ouro e prata. Assim, há cidades chamadas Trujillo em Honduras (1525), Peru (1535), Venezuela (1556), Porto Rico (1801) e Colômbia (1922).
O patrimônio arquitetônico da cidade decorre, em grande medida, da riqueza trazida por estes desbravadores, entre os quais se destaca Francisco Pizarro, que dominou o Peru, em 1653, e Francisco Orellana, considerado o descobridor do Rio Amazonas.
Na Plaza Mayor de Trujillo está a estátua equestre de Pizarro e num dos vértices dela, situa-se o edifício público mais importante com a bandeira da Espanha. Antes desta, a cidade deve ter tido muitas outras bandeiras, como a romana, a árabe e as de senhores medievais que a dominaram.
Depois do domínio romano, na Era Medieval, a cidade recebeu vários codinomes: Ciudad Muy Noble, Muy Leal, Insigne y Muy Heroica.
Observe no mapa que incluo, a seguir, a Plaza Mayor com a Estátua de Pizarro que está fora da cidade histórica delimitada pelos muros, conformando um sítio urbano muito parecido com o de Cáceres, porque aqui também a praça principal está num patamar topográfico inferior à da cidade romana, árabe e medieval e fora de seus muros. Passado e presente, lado a lado, testemunhando influências e culturas diferentes.
Demonstrando a importância que a cidade teve, estão para contar história várias portas de entrada, a altura das torres da proteção e a existência de edificações de três ou quatro pavimentos erguidas em pedra.
Numa das edificações mais bonitas está instalado o Museo de los Descobridores.
Da porção mais elevada do sítio histórico, avista-se a cidade adentro e afora da muralha.
A muralha está muito bem conservada e se mantém em grande parte dos limites da cidade histórica (observem no mapa e vejam as fotos).
Como em toda cidade histórica, as ruas estreitas encantam e convidam ao passeio sem rumo. Algumas casinhas mais modestas pintadas de branco indicavam que há gente morando nesta porção histórica da cidade. Embora as construções mais portentosas sejam edifícios religiosos ou institucionais, havia alguns bem conservados, que pareciam ser segunda moradia de famílias abastadas.
Adorei as torres de edifícios religiosos e de palácios adornadas à moda árabe, mostrando que a reconquista feita pelos espanhóis de Castilla não foi completa, porque, como sempre, ficam os testemunhos do passado imortalizados nas formas arquitetônicas e no tecido urbano, moldado por ruas e praças.
Por fim, o destaque fica para a Iglesia de Santamaria La Mayor.
Ela é singela, pois não há nada de muito monumental na construção, mas as ogivas no texto e o retábulo central são lindos. Mais ouro da América para adornar as edificações da Europa.
Começar a conhecer a Extremadura por Cáceres levanta muito o nível de expectativa do turista. Partimos de carro para Guadalupe e Trujillo esperando algo muito especial. Fiquei frustrada com Guadalupe, mas agora passados três dias, olho de outros pontos de vista e já considero que valeu a pena.
Guadalupe é um “pueblo” de cerca de 1800 habitantes. Li na Web que em 2017 foi eleita como a “melhor e mais bela aldeia da Espanha”. Não sei quem votou, mas acho que os eleitores deste certame foram muito bondosos, em que pese algum charme de seu casario, que tem tanto elementos medievais como renascentistas, como o destaque representado pelo grande conjunto arquitetônico, onde está situado o Parador de Guadalupe, da rede de hotéis Paradores de Espanha que se aloja em prédios históricos.
Este hotel é composto por dois edifícios. Um do século XVI, no qual funcionou o Colégio de Gramática destinado aos filhos das famílias aristocráticas da região, onde se estudava também canto e teologia. Trata-se de uma construção de estilo árabe, o que faz com que seus pátios e a arquitetura interior sejam especialmente rebuscados. A outra edificação foi ocupada pelo Hospital de San Juan Bautista, do século XV, considerado um centro científico, pois ali monges exerciam medicina e formavam alunos em áreas correlatas.
Os dois edifícios eram de propriedade do monastério, que é lindeiro ao hotel, o que mostra que na passagem do Feudalismo para o Capitalismo, especialmente no que se caracteriza como Renascimento, a prática científica e a vida espiritual ainda não haviam se separado. Se quiser ver fotos do parador, acesse o link http://www.paradordeguadalupe.com/
Visitar este pequeno aglomerado urbano não se deveu nem ao parador nem à eleição de melhor e mais bela aldeia da Espanha, mas sim ao Real Monastério de Santa María Guadalupe. Sua história é longa. Fizemos a visita durante o dia e tivemos uma visão parecida à da foto que se segue. Pela outra, registrada à noite, tem-se uma ideia do conjunto que compreende essa instituição.
Trata-se de um monastério franciscano, cuja importância decorre de ser ele o guardião da imagem da Virgem de Guadalupe, considerada patrona da Extremadura e rainha da hispanidade. Sua construção teve início no século XIV e em função de mudanças políticas que geraram influências múltiplas, que incidiram sobre esta região, a construção foi declarada Patrimônio da Humanidade, pela Unesco, em 1993, e se caracteriza por uma mescla de estilos – gótico, mourisco, renascentista, barroco e neoclássico.
Se, no passado, o monastério era cuidado por mais de 50 monges, hoje eles são apenas oito, o que ajuda a explicar o tipo de recepção que se tem, quando se deseja visitar essa construção histórica.
Explico-me. Chegamos à cidade por volta de 12 horas e alguma coisa e logo ficamos sabendo que a última visita do dia seria 12h30. Apressamo-nos para comprar nossos ingressos, inclusive achando que seria uma visita guiada. Nada disso: seguíamos um funcionário que tinha um chaveiro com muitas e pesadas chaves e que apenas exercia o papel de abrir cada sala e nos deixar ficar ali por, no máximo 10 minutos. Com seu semblante mal humorado, comunicando que não via a hora de acabar a visita para ele ir almoçar e fazer sua siesta, ele e nos convidava a voltar ao corredor e nos dirigirmos à sala subsequente, o que mais rápido que nos fosse possível.
A visita transcorria, solenemente, triste, porque além da falta de simpatia dele, imperavam a poeira, que havia por todos os cantos, e a escuridão, já que para proteger as obras de arte da luz, todos os ambientes estavam na penumbra. Nada de iluminação indireta para aprecirmos melhor as obras de arte e documentos, nada de informações que valorizassem o patrimônio, nada de sistemas de museologia interativos, nada de tempo para ler as explicações amareladas pelo tempo. Tudo proibido ou apenas autorizado, conforme o ritmo que ele impunha com suas chaves, abrindo e fechando as portas.
Como a visita aos ambientes do monastério eram ligeiras, fiquei com a impressão de que vi tudo e não vi nada. Mesmo assim duas salas se destacaram.
A primeira foi a que abriga o Museu de Bordados, onde estão vestimentas religiosas e reais dos séculos XVI e XVII bordadas em ouro, provavelmente vindo da América. Nesta e em outras salas do monastério, não eram permitidas fotos, mas segue aqui um detalhe dos bordados que eu extraí da web.
A outra sala da qual gostei muito foi a do Museu dos Libros Miniados, onde estão lindas e enormes brochuras escritas e desenhadas a mão, finamente ornadas também em ouro. Destacava-se o Libro de Horas del Prior, que achei mais bonito do que ele aparece na foto que se segue, retirada do site https://monasterioguadalupe.com/arte-cultura/cantorales-y-libros-miniado/
Os entra e sai eram tão rápidos que acabei curtindo mais o corredor (com seus quadros enormes e jazigos dos principais religiosos que ali viviam) e o claustro que era lindo (mas ao qual não se tinha acesso porque os portões estavam chaveados).
O pequeno templo em estilo gótico, que ocupava o centro do claustro, era especialmente bonito.
A visita terminava com a ida ao “Camarín”, pequena saleta que está atrás do altar principal da igreja do monastério. Lá, um dos oito religiosos que cuidam deste patrimônio, contou a história de Nossa Senhora de Guadalupe, explicando que a imagem é preta, ainda que a santa que ela representa não o fosse. Segundo o padre, era uma mulher morena por causa do sol da Extremadura e como essa informação se repetia de geração a geração, a sua imagem foi sendo escurecida pelos seus crentes até se tornar, com o tempo, negra.
Na Wikipédia encontrei as seguintes informações:
É uma virgem sentada, feita em madeira de cedro. É de estilo românico ou proto-gótico. A escultura mede 59 centímetros e pesa 3.975 gramas. […]
Existem várias hipóteses sobre a etimologia da palavra “Guadalupe”, do árabe وادي اللب Wādi al-Lubb, que pode significar “rio dos lobos”, “rio de Ibn Lubb”, “rio do urso”, “rio de cascalho negro”, “rio de altramuces”, “rio escondido”, entre outros. O mais provável é que a palavra provenha do árabe (wad, “rio”). O prefixo guada – está presente em outros topônimos de origem árabe, como Guadarrama, Guadalquivir e Guadalajara.
O pesquisador francês Jacques Lafaye, especialista no tema da Virgem de Guadalupe no México, acrescenta que, embora o sufixo -lupe tenha sido interpretado como de origem latina (lupus, lobo), uma investigação filológica mais detalhada (al – artigo árabe) nos daria guad-al-lupe, que significaria mais precisamente “corrente encaixada” ou “rio oculto”.
Segundo uma antiga lenda, a imagem foi feita em um ateliê de escultura fundado na Palestina no século I por São Lucas Evangelista. Séculos depois, foi venerada em templos de Acaya e Bizâncio. Posteriormente, o papa Gregório Magno presenteou esta escultura a São Leandro, arcebispo de Sevilla visigoda. O arcebispo colocou a imagem em uma ermida nos arredores da cidade. Durante a invasão muçulmana de 711, os cristãos da cidade a colocaram em uma caixa e a esconderam junto ao rio Guadalupe, na região da serrania de las Villuercas, aos pés da serra de Altamira.
Depois das explicações que se assemelham ao texto acima, o padre virou, para os visitantes, a base giratória sobre a qual estava a imagem e o ouro reluziu diante dos nossos olhos.
Na sequência, finda a visita ao monastério, fomos à igreja e lá estava ela, a imagem, agora sendo vista no altar, no meio de um retábulo magnífico, com várias pinturas e outras imagens.
De longe, a Santa María Guadalupe que acabáramos de ver de perto, no Camarín, parecia até pequeneninha, como você verá leitor, na foto que se segue, onde ela ocupa a posição central na segunda fileira de baixo para cima.
A igreja chega a ser singela diante do altar tão majestosamente dourado. Nos fundos, no mezanino (acho que não se usa para igrejas esta nomenclatura, mas não conheço a certa), há dois grandes órgãos.
Saindo da igreja, lá estava, no centro da Plaza de Santa María de Guadalupe, a pequena fonte que um dia foi a pia batismal do monastério. O sol brilhava, contrastando com a meia luz que experimentamos lá dentro. Era como se eu tivesse atravessado o largo umbral que separa o século XIII do XXI.
Num café em frente, havia bem uma dezena de senhores e senhoras de mais de 70 anos (essa deve ser a idade média dos moradores desta aldeia) que curtiam o sol e uma boa caneca de cerveja, aparentemente indiferentes ao monastério que os espreitava.
[Dois parênteses: 1) 70 anos deve ser a idade média da aldeia, ao menos essa foi minha impressão, os jovens devem ter ido embora; b) eu tenho 69 anos e não me chamaria de senhora, mas acabo fazendo isso ao me referir aos outros, afinal somos apenas pessoas e não precisamos nos definir pela idades socialmente estabelecidas].
Fiquei sem graça de fazer uma foto deles, mas agora encontrei uma na web, que vai ajudar o leitor a conhecer o único point da Plaza de Santa María de Guadalupe.
Esta é uma cidade tão especial que não deu para contar tudo sobre ela em um capítulo deste diário de viagem. Vamos, então, agora entrar no coração do sítio histórico.
Uma das suas edificações mais portentosas é o Palácio Episcopal, cuja fachada sisuda é comandada pelo portal enorme.
Na Plaza de Santa Maria, onde encontramos um artista manuseando um instrumento bem peculiar, chamado Hand Pan (panela de mão). O som era agradável e resultava apenas do modo como ele passava a mão sobre uma superfície arredondada de metal. Perguntamos a ele qual o princípio que orientava aquele instrumento e ele sugeriu que a gente comprasse um CD que ele tinha à venda no qual fazia esta explicação. Achamos que não valia a pena, primeiro porque nem se tem mais Toca CDs e, depois, vai saber o que estava mesmo gravado por lá. Fizemos uma doação no chapéu que ele deixava estrategicamente no caminho dos passantes e lá seguimos virando uma nova esquina.
Continuamos a nos perder pelas ruelas, sempre estreitas, para chegarmos em seguida a um pequeno largo, o que em castelhano eles chamam de “plazuelas”, em torno das quais estão as construções maiores. No urbanismo português, do qual herdamos muita coisa, as praças e pracinhas espaços públicos com árvores, arbustos, bancos, estátuas e fontes… no urbanismo espanhol plazas e plazuelas são espaços livres para serem apropriados pelas pessoas. Gosto mais do urbanismo espanhol, quando se considera este aspecto.
Algumas edificações da Cáceres antiga são mais recentes e datam dos séculos XVIII ou XIX. Mesmo nestes casos, a história ainda conta, porque há elementos herdados do período árabe com os pátios internos, aspecto que se incorporou ao urbanismo espanhol e por consequência tem testemunhos na América espanhola. Entrei neste pequeno pátio de um dos palácios de Cáceres e me senti no México ou no Colômbia.
Atravessando a cidade toda, chega-se ao bairro judeu de Cáceres, situado no setor leste da cidade antiga. No geral, cidade histórica pareceu pouco ocupada por moradores de Cáceres, pois as edificações de grande porte ou se tornaram hotéis ou alojamentos turísticos ou parecem ser segunda residência de moradores de cidades maiores da Espanha. No bairro judeu, fiquei com a impressão que havia mais gente morando – vasinhos improvisados, cortinas para cortar o sol meridional, roupas penduradas na janela.
Neste bairro, visitamos um pequeno museu que conta a história de outras três torres, entre as quais apenas uma ainda está inteira. Elas foram erguidas, entre os séculos XI e XII, para proteger o poço que abastecia a cidade: a Cisterna de San Roque. Numa região semi-árida, os árabes sabiam muito bem a importância de guardar e proteger a água.
Desta torre, temos outras vistas: – a da área urbana que se expande a leste; – a da área rural que abraça Cáceres
No bairro judeu, também vimos um painel com a árvore que representa a rede de juderias que há na Espanha.
Já terminando a visita pelo sítio histórico, conhecemos o palácio da Fundação Mercedes e Carlos Ballestero, onde a coleção de quadros, louças e joias encanta.
Simplesmente adorei Cáceres. Perder-se nas suas ruas, o que não é difícil, porque o plano urbano é desordenado, logo é compensado pelo encontro de um novo cantinho ou de uma nova edificação, para, em seguida, já voltarmos a esquinas por onde já tínhamos passado, afinal a cidade não é grande.
Entre nos perdermos e nos acharmos, íamos curtindo tanto o patrimônio histórico como um banco, uma árvore ou um portão…
Terminamos o passeio, com um almoço no Restaurante Torre de Sande. Não vou descrever os pratos para não aguçar seu paladar, caro leitor, mas recomendo a visita, se um dia você for a Cáceres. E se for, preste atenção no pedaço de fachada de vários séculos, que está exposto no hall de entrada. A foto deste painel é a que está no começo deste capítulo do diário de viagem.
Situada na porção oeste da Espanha, na fronteira com Portugal, a Extremadura combina com o nome que tem. Parece mesmo uma região das extremidades do país Extrema e a arquitetura das cidades mais antigas, com seus tons cinzas-ocres, passa a ideia de uma paisagem urbana dura, o que se repete na área rural onde as rochas afloram em meio à vegetação pouco verde. No entanto, isso é apenas uma interpretação bobinha que eu fiz.
Fui verificar e constatei que esta nomenclatura começou a ser usada durante a Reconquista da grande porção da Península Ibérica, que havia sido dominada pelos árabes e que levava o nome de Al-Andalus. No século X, durante essa reconquista as terras situadas nas porções mais extremas eram assim chamadas e o vocábulo foi usado, pela primeira vez para nomear a região em torno de Viseu, hoje cidade portuguesa. Achei até um artigo que trata do tema (file:///C:/Users/Cliente/Downloads/3482-Texto%20del%20art%C3%ADculo-6772-1-10-20130206.pdf) em que se explica que a palavra significa os “extremas do Douro”.
À parte a curiosidade sobre o nome, o que interessa, neste diário de viagem, é registrar o passeio por essa região da Espanha que é uma de suas comunidades autônomas, cuja história é partilhada com Portugal, pois este território já foi parte da Província Romana da Lusitânia [Ah, esses romanos, como diria o Asterix. Eles fizeram esse Velho Mundo].
Nesta região, nasceram muitos que viajaram para explorar a América. Os textos turísticos falam de os “conquistadores do Novo Mundo”. É claro, que do nosso ponto de vista, podemos ter outro conceito, que não de conquista, sobre essa exploração do ouro e da prata de nosso subcontinente.
Parte dessas riquezas extraídas da América ajudou a financiar muitas das construções que estão na região, embora antes disso a situação geográfica desse território já favorecesse o comércio, o que explica por que suas cidades, fundadas ou não pelos romanos, têm um patrimônio arquitetônico muito bonito.
Começamos o passeio por Cáceres, uma das cidades principais da Extremadura, onde estamos hospedados.
Em 1227, ela foi conquistada por Afonso IX e cresceu em função de ser um território de livre comércio que passou a atrair as rotas de mercadores. Mais tarde, aristocratas também se estabeleceram na cidade e construíram palácios luxuosos. Consta que a competição entre essa elite comercial era tão ferrenha que os reis Isabel e Fernando mandaram demolir parte dessas edificações para acabar com a constante briga pelo poder que havia em Cáceres. No final do século XV, novas edificações foram erguidas e é este patrimônio que conhecemos hoje, embora alguns testemunhos dos séculos anteriores ainda remanesçam.
Atualmente, a cidade tem cerca de 80 mil habitantes. O sítio histórico é pouquíssimo habitado pelo que pude observar. Dentro da muralha há imóveis com a indicação “AT” (alojamiento turístico), poucos hotéis, entre eles o da rede “Paradores de Espanha”, alguns restaurantes, igrejas e museus. Não vi sequer uma lojinha de venda de bugigangas, o que torna a paisagem limpa e deixa a adorável impressão de que estamos vivendo um pouco do passado.
Chegamos no começo da noite e a lua, mesmo não sendo cheia, convidava para já perambular pela cidade mesmo sem a luz do sol.
No dia seguinte, começamos pela Plaza Mayor que, no caso desta cidade, fica fora do “casco” histórico. A ela se chega pelas duas vias comerciais mais importantes onde estão tanto as representantes das maiores redes como os comerciantes locais – Calle dos Pintores e Calle Gran Vía.
A Plaza Mayor está em leve declive, acompanhando o relevo, e a extensa área sem árvores ou mobiliário urbano fica disponível para ser apropriada pelos pedestres. Era domingo e havia gente de toda idade por todo lado.
Nesta praça, na lateral oposta à muralha, estão os cafés e restaurantes com suas mesas externas, para que os frequentadores aproveitem da vista maravilhosa.
Como a praça está num plano topográfico inferior ao da porção histórica, o que possibilita uma vista bonita da muralha e das principais edificações, entre elas a Torre do Bujaco, erguida pelos árabes, no século XII, sobre um sítio arqueológico romano. Ela mede 25 metros e é a maior entre as torres que protegem juntamente com a muralha a linda cidade histórica. Seu nome é derivado do califa Abu Ya’aqub (Abu Jacob) que foi seu construtor.
Na mesma face da Plaza Mayor, cem metros abaixo, outra torre testemunha o passado de Cáceres – a da Ermita de La Paz.
No entanto, somente a torre Bujaco está aberta para visitação e a partir dela se pode ver a cidade expandindo-se no horizonte.
Caminhando sobre uma parte da muralha, a que se tem acesso pela torre, chega-se a um sítio arqueológico do período romano.
A partir da mesma torre, entre um pilar e outro, a Plaza Mayor abaixo, dominando a estrutura espacial da cidade atual.
Já ia me esquecendo de voltar à parte “nova” da cidade para registrar a estátua de Leoncia Gómez que está na Plaza San Juan, perto da Gran Vía. Ela foi erguida em 1998 em homenagem a esta senhora que foi a última a vender pelas ruas de Cáceres o periódico Extremadura. Simpático né?
Escrevendo o diário de alguma outra viagem, já registrei que o retorno é sempre difícil. Tem o lado bom de voltar para casa, desfazer as malas, rever as pessoas que amamos, mas tem o lado ruim: uma pilha de trabalho nos esperando, tanto o que estava mesmo para ser feito adiante, como o que se acumulou durante o período, porque não tivemos fôlego, nem vontade, de dar andamento durante a viagem. O certo seria essas tarefas ficarem guardadas na gaveta, quando partimos para conhecer um outro país, mas nem sempre é possível contornar as agendas das demandas de outrem.
O resultado da volta atribulada é que perdemos a chance de degustar a viagem, de ter um tempo para relembrar os melhores e os piores lances, de deixar a poeira cair para fazer um balanço. Além disso, os últimos capítulos do diário da viagem ficam comprometidos. Em algumas delas, eles nunca foram escritos; em outras, foram rascunhados e nunca revisados. Aguardam um tempo futuro que, talvez, não chegue.
No caso desta viagem à Grécia, já se vão 28 dias desde a chegada. Eu já tinha tirado da cabeça que concluiria meus registros, mas me sento hoje para contar mais sobre nosso passeio pela Ilha de Rodes.
Já escrevi um pouco sobre o núcleo principal da ilha, sua maior cidade e a capital dela, situada no seu extremo norte – https://carminhabeltrao.com/2024/07/18/grecia-14-rodes/ – e hoje quero contar sobre o passeio que fizemos de carro e que nos possibilitou ter uma primeira visão de conjunto deste território tão charmoso. Vejam, no mapa, o percurso que fizemos em um dia que foi, especialmente, agradável.
Começamos contornando a costa, a partir do norte, indo na direção leste para conhecer Lindos. O nome tem tudo a ver. É lindo no plural!
Achei muito especial a combinação entre o sítio urbano em acrópole e a posição geográfica desenhada por uma baía e uma pequena península. Assim que descemos do carro, perto do que se poderia chamar de ‘a entrada da cidade antiga’, pudemos olhar a pequena praia – a Lindos Beach da foto anterior – e as embarcações, que no domingo, último dia de junho, estavam se movimentando. De longe, via-se que as lanchas e pequenos iates estavam com sua tripulação e seus passageiros a bordo. Na pequena faixa de areia, que a minha foto não captou, havia muitos guarda sóis.
O que eu chamei de entrada da cidade, nada mais era do que um pequeno pátio, com uma árvore frondosa ao meio, a ser circulada pelos carros e ônibus que tinham pouco mais que alguns minutos para deixar descer seus passageiros, pois os guardas adoravam usar o apito. E que apito! Chegava a ser irritante.
Na imagem de satélite podemos ver, ao sul da baía, a cidade. Agora, relembrando dela, posso imaginá-la estruturada por quatro camadas de tempo, que correspondem também a modos diversos de se produzir e viver no espaço: 1. No topo da colina, está a Lindos Acrópolis da imagem de satélite. Nos tempos clássicos, ali situava-se o templo de Atena Líndia (mais ou menos 300 a.C.), mas depois foi edificada uma fortaleza para defender a ilha dos otomanos (século XIV). É esta construção que se vê na porção topograficamente mais elevada da próxima foto, hoje apenas um sítio arqueológico para pesquisa e visitação turística.
2. Nas encostas da colina, está a cidade que se assentou durante o período medieval, com suas ruelas e pequenas construções, hoje ocupadas por cafés, restaurantes, lojas e tudo mais que os turistas adoram. Essa parte da cidade não aparece na foto anterior, mas é a área urbana maior da imagem de satélite. Adiante, você, leitor, vai nos ver andando por ela.
3. Ao pé da colina, entre a cidade medieval e a pequena praia, está a cidade moderna com suas construções sem telhados, todas pintadas de branco (essas sim aparecem na tal foto), o que torna o mar e o céu mais azul do que já são.
4. Por fim, a oeste da rodovia pela qual chegamos em Lindos, estão os hotéis, spas, casas de veraneio e suas piscinas, parte delas encrustadas nas elevações rochosas, o que lhes oferece uma vista do mar linda de morrer.
A charmosa Lindos (que em grego se chama Λινδος), em função de sua posição geográfica estratégica, foi um ponto de encontro entre o mundo grego e o fenício. Por ali, andaram também os romanos, os bizantinos e os otomanos. Até mesmo um grupo sobre o qual nunca tinha ouvido falar – os hospitalários – estiveram por ali e foram eles que construíram a fortaleza que ocupa o topo da colina. Vejam as informações que a Wikipédia traz sobre eles:
A Ordem de Malta ou Cavaleiros Hospitalários (oficialmente Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta) é uma organização internacional católica que começou como uma ordem beneditina fundada no século XI na Palestina, durante as Cruzadas, mas que rapidamente se tornaria numa ordem militar cristã, numa congregação de regra própria, encarregada de assistir e proteger os peregrinos àquela terra e de exercer a caridade. Tem como Santo Padroeiro São João Batista. Atualmente, a Ordem de Malta é uma organização humanitária reconhecida como entidade de direito internacional privado. A ordem dirige hospitais e centros de reabilitação. Possui 13 500 membros, 80 000 voluntários permanentes e 42 000 profissionais da saúde associados, incluindo médicos, enfermeiros, auxiliares e paramédicos.
A história de Lindos começa com os dóricos que ocuparam essa parte da ilha no século X a.C. Foi o núcleo de povoamento mais importante da ilha até ser superado pela atual capital Rodes, no século V a.C.
Foi uma delícia perambular pelas ruas da cidade medieval. Em vários trechos, o revestimento de pedras compondo desenhos era muito especial (embora fácil para escorregar) e ele tinha continuidade nos pisos dos cafés e restaurantes.
Lá do alto, a fortaleza nos espreitava e cada vez chegávamos mais perto dela, à medida que nos perdíamos naquele plano de ruas completamente caótico, ou melhor, acomodado no relevo como era possível.
De repente, a janela azul convidava-nos para uma pausa. O calor estava realmente intenso e nada melhor do que uma sorveteria.
O predomínio de cactos adornando as fachadas e as encostas pedregosas em tons de ocre indicavam a secura que deve predominar durante a maior parte do ano.
A combinação entre secura e calor intenso me desanimou. Sentei num degrau da ruela de acesso ao sítio arqueológico e decidi esperar pelo meu marido e pela minha amiga que, corajosamente, chegaram até lá e fizeram um bonito registro do conjunto da cidade de Lindos.
Na volta, perdemo-nos uns dos outros. Quem está acostumado aos planos urbanos ortogonais, com frequência não se dá bem nessa estrutura espacial medieval. Como nem todos estávamos com dados móveis, foram uns minutos de tensão, mas logo nos encontramos e uma maravilhosa sombra nos esperava.
Para me despedir de Lindos, fiz mais um registro da linda enseada, que é a foto que abre este capítulo. Fiquei com vontade de um dia voltar a esta cidade, mas isso dificilmente irá ocorrer…
Embora houvesse muitos restaurantes simpáticos em Lindos, como o calor estava intenso por volta de 13h pegamos a estrada e olhando as possibilidades no Google escolhemos uma parada bem avaliada – Votsalo Restaurant & Beach Bar – que está no sul da ilha. Bom demais: decoração, vista para o mar, comida saborosa e atendimento super simpático.
Retomamos a rodovia, agora do sul para o norte, contornando pelo oeste. O calor continuava extenuante. Nova parada, agora em Kamilos Skala, para mais um sorvete! Do bar onde nos sentamos, víamos a pequena praia de águas absolutamente transparentes.
O dia terminou no Butterflies Valley. Meu mal-estar decorrente do calor aumentou, permaneci no carro, tentando contornar a pressão baixa demais e os três foram fazer o passeio no parque. Gostaram, mas disseram que as borboletas só ficavam visíveis, porque a sombra das árvores era grande, quando voavam e o amarelo das asas se tornava visível… Quem será que teve a ideia de fazer essa escultura para o parque? As borboletas de verdade são especialmente mais bonitas.
De volta ao hotel, nada melhor do que um descanso para me refazer para a janta.
O dia seguinte foi de puro ócio. Praia pela manhã (não me canso de destacar a beleza do azul).
Tivemos tempo à tarde para comprar umas lembrancinhas antes de partir para viagem no dia seguinte. No final do dia, vimos o sol se pôr na área de entrada da baía em Rodes, onde, no passado, estava o Colosso.
De Rodes voamos para Zurique. Um aeroporto e tanto (o suíço e não o de Rodes), mas foi cansativo esperar oito horas pela conexão para o Brasil, sobretudo quando um expresso, fazendo a conversão do franco suíço para o real, alcança 40 reais…
A distância entre Creta e Rodes – 480 km – é maior do que aquelas que percorremos entre Atenas e Mikonos, Mikonos e Santorini, Santorini e Creta. Rodes, embora pertença político-administrativamente à Grécia, está mais próxima da Turquia, como vocês podem observar no mapa.
A opção da Agência Terra Mundi foi, então, propor o percurso por avião. Ok, de acordo, mas com o inconveniente de ter que acordar às 4h da manhã para começar a voar perto de 6h.
Já era nossa última etapa de viagem e, nestas horas, vivemos sensações dúbias: vale tudo e, ao mesmo tempo, já estamos quase no ponto de não aguentar mais. Abre mala, fecha mala, confere se não esqueceu nada, organiza os vouchers, será que o traslado vai funcionar? Isso cansa, a certa altura.
Pelo vidro da sala de embarque do aeroporto, que estava sujo, pudemos ver o sol nascer atrás do avião que nos levaria a Rodes.
Chegamos bem. É digno de conta o motorista da van, quase um microônibus, que nos levou do aeroporto ao hotel. Eficiente e muito simpático. Nasceu na ilha, morou um tempo de sua vida na Bélgica e em outros países, e depois voltou à terra natal.
Conversou conosco em francês, já que, para os quatro do grupo, essa língua é melhor do que o inglês. Ele é um verdadeiro entusiasta da ilha. Ia dirigindo e desfilando os elogios para o que ele considerava un paradis (um paraíso).
Mais de uma vez, ele destacou que a distância da Grécia continental e certo isolamento da ilha eram suas qualidades maiores, embora fosse preciso melhorar muita coisa para ampliar os turistas que, segundo ele, eram, sobretudo ingleses, alemães e europeus nórdicos. Para fazer um afago, completou que tem aumentado o interesse dos brasileiros.
Assim que chegamos, gostamos do Hotel Aquamare, que está a 150 metros da praia e não tão distante do centro histórico, que não pudéssemos ir a pé.
Em grego, Rodes é Ρόδος. Trata-se da maior ilha do conjunto chamado Dodecaneso. Ficou famosa no mundo, porque, no passado, ali estava o Colosso de Rodes. Hoje o turismo está muito apoiado no centro histórico da cidade principal, o qual é Patrimônio Histórico da Humanidade, segundo a Unesco, bem como em outros núcleos urbanos antigos e, principalmente, nas praias que estão sendo apropriadas pelos resorts, ainda que haja muito litoral que não foi ainda ocupado.
Rodes é uma ilha relativamente pequena – um pouco menos de 1400 km2 (lembram que a de Creta tinha mais de 8000 km2?) – e nela habitam cerca de 80 mil habitantes. A capital é homônima à ilha e se situa no seu extremo norte.
Como chegamos muito cedo, apenas tomamos café da manhã no hotel, porque ainda não era possível aceder ao apartamento. Saímos logo para conhecer o centro principal, percorrendo pouco mais de um quilômetro até chegarmos lá.
Pelo caminho, encontramos várias edificações que devem ser do final do século XIX e primeira metade do século XX, ocupadas por órgãos públicos. Elas estavam bem preservadas e, embora fossem arquitetonicamente muito diferentes, compunham um conjunto agradável.
Na praça, próxima ao pequeno porto, as pombas dominavam o território, sob o sol da manhã, e não deixavam, sequer, a estátua ficar em paz.
Era pouco mais de 10h da manhã e o sol já estava forte. Nosso grupinho se preparava para conhecer a cidade, enquanto outros remavam na baía. Nos pequenos iates, os tripulantes ainda deviam estar dormindo.
Não se trata de qualquer baía… Em sua entrada, no passado, estava a enorme escultura de 30 metros de altura, chamada o Colosso de Rodes, que foi destruída por um terremoto em 226 a.C. Tratava-se de uma representação de Hélio, o deus grego do sol.
De volta ao Brasil, lendo um pouco mais para completar o que vimos na viagem, fiquei sabendo que há o projeto de fazer uma nova estátua. A ideia foi de um grupo de arquitetos, engenheiros e arqueólogos, que propuseram uma nova versão com 120 metros, erigida com uma estrutura antiterremoto, dentro da qual haveria um museu e no topo, na cabeça do gigante, um farol com o formato de uma coroa.
Como Hélio é o deus o sol, os idealizadores preveem que a nova estátua será coberta de painéis solares dourados, o que a tornaria autossuficiente em termos de energia. O custo é 286 milhões de dólares. Será que eles vão conseguir? Se você, leitor, quiser contribuir com este projeto, terá seu nome cravado na estátua. É um baita custo e, a bem da verdade, não achei o protótipo bonito.
Antes mesmo de chegarmos ao centro antigo, visitamos uma igreja e, como em Meteora, pudemos apreciar a decoração do cristianismo ortodoxo, sempre muito colorida para compensar a falta de estátuas. Os lustres pareceram fora de lugar ou da época, como se não combinassem com seu entorno e com o tempo em que a igreja deve ter sido erguida. Eram grandes e imperavam dominando o corredor principal.
A entrada do mercado municipal lembrou-me um pouco as construções congêneres no mundo árabe. Ele está todo ocupado, atualmente, por boxes, onde se vende de tudo para os turistas. Alguns são bares e pequenos restaurantes. Nesses espaços, quase nada mais se escreve no alfabeto e na língua grega – tudo já está sendo passado para o alfabeto latino e para o inglês, havendo aqui ou ali os afrancesamentos – toilets.
Já comentei em algum outro capítulo que os gatos dominam na Grécia. Quase não vimos cachorros pelas ruas. Olha mais um aí.
Finalmente, chegamos às portas da old town. Fake! Mal entramos, vimos que após a passagem pelo portal, só encontramos um trailer que vendia uns sanduíches, à esquerda, escondido pelo muro. Achei um disparate, sobretudo porque caímos na mentira. Pela fotografia, dá para ver que não fomos os únicos, ou seja, outros entraram por este portal e tiveram que sair depois.
Ainda ladeamos mais um pouco a muralha, na qual as primaveras nos saudavam, até chegar à verdadeira entrada da old town.
Passando pelo primeiro portal, voltei os olhos para trás e me deparei com a visão do mar emoldurada pela muralha. Fiquei imaginando o que pensavam os moradores de Rodes, nos séculos passados, os quais em sua maioria, suponho que nunca ou pouco deixavam o perímetro da muralha. O que pensavam sobre aquele mar e onde ele levaria?
Fiquei contente de ter nascido na segunda metade do século XX, de viver num mundo e num período da história em que as viagens internacionais são mais fáceis e possíveis. Por fim, lembrei-me de que isso é possível para alguns, mas não para a maior parte das mulheres e homens do mundo contemporâneo pela desigualdade que o marca…
Rodes deve ter tido importância como cidade, no passado, uma vez que chegou a ter duas muralhas. Entrando no núcleo principal, chamou atenção o comércio elegante – joalherias, lojas de roupas de grife e restaurantes muito simpáticos – as primaveras também dominavam no paisagismo criado nesses ambientes.
Os toldos estavam por toda parte, porque o calor era realmente enorme. Qual a solução? Sentar para um almoço à sobra das árvores e se refrescar dando um brinde entre amigos. Com chopp, vinho rosé ou coca-cola – tim tim!!!
Adorei a minha salada de rúcula, tomate e o queijo grego feta, temperada com aceto e mel.
Após uns 12 dias na Grécia, ficamos mais liberados da programação da agência, porque tanto em Creta como em Rodes, nossa próxima parada, a agenda era livre! Optamos pelo aluguel de um carro – um Polo vermelho da VW (como fui me esquecer de tirar uma fotografia dele?). Fizemos um bom percurso pela parte central da ilha, compreendendo o litoral do norte e do sul.
Faltou muita coisa (compare o mapa anterior com o próximo), pois não acedemos suas porções leste e oeste, onde tem muita coisa para ser vista, como depois constatei no site https://dicadagrecia.com.br/creta/o-que-fazer-em-creta-na-grecia/. Ficou, então, a sensação de querer voltar um dia. Vai ser difícil, se o euro e o dólar continuarem tão caro em relação ao real, mas sonhar não faz mal.
Era domingo, à medida em que saíamos da capital, observávamos os bairros onde vivem os cretenses, havendo, na avenida principal, palmeiras como as que dominam a paisagem do Marrocos. Nesta via de saída, predominavam os estabelecimentos voltados à construção e à decoração. Olhando as vitrines, é fácil observar que as estéticas se globalizaram – tudo muito parecido com o que temos no Brasil!
O percurso na porção norte da ilha, assim que saímos de Heraklyon foi adorável. O sol estava brilhando, a estrada ora passava entre maciços rochosos, ora serpenteava a beira mar.
A grande surpresa foi Retimno. Fomos até lá, em função da indicação de um restaurante, mas ao chegar encontramos muito mais: a boa combinação entre um balneário moderno e um centro urbano antigo.
A cidade teve origem ainda no período minóico e chegou a ter alguma importância, uma vez que foram encontradas moedas próprias do que terá sido uma Cidade-Estado, as quais foram ali cunhadas. Hoje, o sentido deste espaço é todo outro, voltado às funções turísticas.
A avenida beira mar está ocupada por edifícios, alguns de apartamentos, outros pela hotelaria, os quais, num rápido olhar, pareceram destinados a esta enorme quantidade de turistas, que agora, no verão do hemisfério norte, saem desesperados atrás de sol e mar. Uma vista da praia dá ideia da organização espacial voltada a este nicho: a areia está integralmente tomada por guarda-sóis os quais, quando deixamos a cidade, por volta de 15h, estavam totalmente ocupados.
O charme mesmo, caso você deseje conhecer Retimno, está no núcleo original, a old town, como está indicado no mapa, ou palia póli, para fazer juz aos gregos. A foto abaixo oferece uma visão de conjunto da pequena baía, tendo ao fundo um forte ou cidadela e, ao seu sopé, a cidade que se espraiou deste núcleo e que hoje é vivamente frequentada.
Esta parte antiga de Retimno foi edificada no período de domínio veneziano sobre a ilha de Creta, embora haja prédios otomanos e outros mais aristocráticos do século XVI para cá.
Foi muito gostoso passear pelas ruas estreitas, cheias de gente e de locais charmosos. A graciosa fonte logo me chamou atenção. Agora pesquisando aqui e acolá, fico sabendo seu nome – Fonte de Rimondi – e que ela é do século XVII.
Para mim, toda a graça desta fonte decorreu do menininho que, cuidadosamente, tentava limpar o rosto e as sandálias que sujaram com um sorvete que ele tinha acabado de degustar. Quantas dezenas de pessoas beberam nesta fonte e aproveitaram de sua água para mil funções diferentes? Quem sabe, houve gente que lavou roupa nela, em algumas manhãs; em tardes de domingos, pode ser que mocinhas casadoiras tenham esperado pelo amado bem neste pátio; nas madrugadas, uns e outros talvez tenham curado seus pileques bebendo desta água.
As ruas estreitas, sombreadas pelos toldos das lojas, convidavam para um caminhar sem compromissos. Toca-se um objeto em exposição numa delas, pergunta-se o preço de alguma bugiganga em outra e, assim, exercitamos o maravilhoso esporte do turista que é o de flanar sem compromisso com uma agenda pré-estabelecida. Isso foi maravilhoso, porque estávamos cansados de cumprir os horários do nosso programa.
Observem que graça o carrinho com os vasos de flores nas laterais e manjericão em cima. As cestas com flores secas não ficavam atrás, no que se refere a este modo simples e charmoso de decorar os estabelecimentos e, ao mesmo tempo, fazer a ligação com o mundo da rua. E a janela do pequeno restaurante cuja decoração são os legumes – não é demais de bonitinho?
As salas internas eram maravilhosas com suas paredes de pedra, mostrando a idade da edificação. O teto em madeira também testemunhava que esse ambiente viu muita coisa na vida. Reparem no lustre, que me lembrou as joias desenhadas por Salvador Dali, expostas no museu em sua homenagem na pequena cidade de Figueres na Espanha.
Apesar da maravilha das salas do restaurante, optamos por almoçar no jardim interno, onde o microclima estava agradável e o silêncio atenuava o burburinho que tínhamos experimentado nas ruas. Um dos charmes deste espaço eram os guarda sóis de crochê.
De Ritimno atravessamos a ilha de norte a sul. Nesta parte central, há vários maciços bem elevados e a aridez se evidencia, embora, em termos de Grécia, Creta seja até um território relativamente úmido.
Contar para você, leitor, que estava um sol ardente não é suficiente. Como o clima na Grécia, durante o verão, é seco, a sensação de que vamos tostar ao sol parece que nos incendeia os miolos, no meio da tarde. Como minha pressão é, no geral, baixa, muitas vezes não conseguia acompanhar a programação, mas neste dia, a proposta foi adequada para a gente se refrescar. Paramos em Preveli para umas fotos e para um sorvete.
Voltamos à capital de Creta, onde estávamos hospedados, cruzando novamente a ilha e paramos para ver um longo vale, cujo rio secou… O vento cortava, o que ajudava a amenizar o calor.
Para compensar, nas cidades, as primaveras, que provavelmente são sempre regadas, estavam floridas por todo lugar, como esta última foto e a que abre este capítulo.