Uzbequistão 1 – Turista ou viajante?

Fonte: https://www.estudopratico.com.br/significado-da-bandeira-do-uzbequistao/

Alguém já escreveu sobre a diferença entre um turista e um viajante.

O primeiro é aquele que faz a viagem com um programa definido por uma agência ou por profissional da área e que pretende conhecer alguns lugares, a partir de roteiro e cronograma muito parecidos ao que outros fazem nesses mesmos lugares. Ficam hospedados em hotéis que pertencem a grandes cadeias, várias vezes globalizadas. De algum modo, o turista passa pelos cenários que são preparados para ele e escuta as narrativas que, igualmente, são elaboradas para o estrangeiro. Talvez, ele, no geral, nem queira fazer diferente. Para alguns entre eles, são mais importante os registros fotográficos e sua exibição posterior no Instagram ou no Facebook, do que efetivamente conhecer os territórios e a gente antes desconhecidos.

O viajante, ao contrário, espera viver experiências, se possível muito próximas daquelas que os moradores do lugar vivem e, por isso, ele se abre para o que pode ocorrer de inusitado. Deseja desvendar, descobrir, encontrar o novo. Ele se deixa levar, prefere conhecer a vida local e, se tiver um programa ou roteiro prévio, o que sempre tem, por menos rígido que possa ser, está sempre pronto a alterá-lo e a aprender com o que se apresentar a cada dia de sua viagem.

Acho que já conheci alguns lugares no mundo como uma viajante, mas aqui no Uzbequistão sinto que vai ser difícil fugir da situação de turista.

Primeiramente, porque estamos, meu marido, um amigo e eu, viajando com uma agência e, assim, ficamos bastante reféns da programação proposta e dos guias que nos acompanham, os quais têm poder sobre nós, porque não apenas nos contam sobre o que há de melhor ou que pode parecer o melhor, como nos estimulam a frequentar e comprar nos lugares que são os indicados pelas agências ou onde eles ganham alguma comissão.

Em segundo lugar porque, embora já tenha estado na Rússia, que liderou a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), da qual o Uzbequistão fez parte, é a primeira vez que visito um país da Ásia Central, do grupo que eles mesmos chamam “países da família dos quistão”, sobre os quais, aliás, escutei, durante minha vida, muito poucas coisas.

Por último, acho que seria difícil ser uma viajante, radicalmente diversa de uma turista, num país em que a língua oficial é o uzbeque e a segunda língua, falada também por mais de metade da população, é o russo. As barreiras à comunicação limitam muito as oportunidades de se lançar ao novo e, assim, meu destino é ser turista por aqui, mas vou me esforçar para me aproximar de uma viajante, quando isso for possível.

O uzbeque é, segundo a Wikipédia, uma língua turcomana, que aliás não é só falada por aqui, onde é o idioma principal, mas também em outros países da Ásia, ainda que o seja por minorias étnicas que lá vivem, como o Tajiquistão, Afeganistão, Quirguistão, Cazaquistão, Turcomenistão e até mesmo na região Xinjiang na China.

Foi influenciada pelo persa, pelo árabe e, mais tarde, pelo russo. Ela pode ser escrita em mais de um alfabeto:

  • oʻzbek tilii ou oʻzbekcha no latino;
  • Ўзбек тили no cirílico;
  • أۇزبېك ﺗﻴﻠی no árabe.

Essa diversidade de influências e de alfabetos tem relação direta com a geopolítica a que esteve submetido o Uzbequistão. Inicialmente, a influência persa foi enorme, razão pela qual a pequena parte da elite que estudava escrevia o idioma no alfabeto árabe. Houve também influência uzbeque neste alfabeto gerando uma escrita baseada no árabe, mas com representação de letras vogais, o que não é próprio desta língua.

Por influência do que estava sendo feito na Turquia, a partir da década de 1920, o idioma passou a ser escrito no alfabeto latino, mas logo veio a entrada do país na URSS, em 1925, e Stalin obrigou a adoção do cirílico.

Com a independência do Uzbequistão, declarada em 1991, a latinização voltou a ser obrigatória, mas isso não se faz de uma hora para outra, quando diferentes gerações foram alfabetizadas em alfabetos diversos e tendo como segunda língua idiomas também diversos entre si. Por essa razão, a confusão por aqui é grande.

Pelo que consegui saber até agora, nos ambientes familiares, fala-se o uzbeque e nas escolas de formação inicial idem. Em ambientes religiosos, fala-se também esta língua, que nas escrituras sagradas muçulmanas está escrita no alfabeto árabe. Os mais velhos, no entanto, quando estavam na escola, além de aprenderam o russo, foram alfabetizados em sua própria língua, o uzbeque, mas no alfabeto cirílico. Quando seguiam nos estudos, uma segunda língua estrangeira valorizada era o francês, e essa tinha que ser aprendida com o alfabeto latino.

Hoje, com a influência ocidental, pós independência, toda a publicidade é feita com base neste alfabeto, porque as marcas globalizadas chegaram com toda força e, neste caso, o idioma de comunicação é o inglês. Enfim, aqui é uma efetiva Babel, mas pensando bem, acho que vivemos num mundo com histórias, alfabetos e idiomas muito diferentes e ficamos supondo que ele se homogeneíza com a globalização.  Será? Um pouco sim, mas nem tanto, como a listinha que se segue sugere:

Uzbek language (English), Lingua Uzbeca (Italiano) 

Oezbeeks (Nederlands)  Ouzbek (Français)  Usbekische Sprache (Deutsch)  

Língua usbeque (Português)  Узбекский язык (Русский)  

Idioma uzbeko (Español)  Język uzbecki (Polski)  

乌孜别克语 (中文)  Uzbekiska (Svenska)  Limba uzbecă (Română)  

ウズベク語 (日本語)  Узбецька мова (Українська)  

Узбекски език (Български)  우즈베크어 (한국어)  

Uzbekin kieli (Suomi)  Bahasa Uzbek (Bahasa Indonesia)  

Uzbekų kalba (Lietuvių)  Usbekisk (Dansk) 

 Uzbečtina (Česky)  

Özbekçe (Türkçe)  Узбечки језик (Српски / Srpski)  

Usbeki keel (Eesti)  Uzbečtina (Slovenčina) 

Üzbég nyelv (Magyar)  Uzbečki jezik (Hrvatski) 

ภาษาอุซเบก (ไทย)  Uzbeku valoda (Latviešu)  

Ουζμπεκική γλώσσα (Ελληνικά)  Tiếng Uzbek (Tiếng Việt) 

(fonte – http://www.mapnall.com/pt/language/Língua-usbeque_576.html)

A viagem para cá não é das mais fáceis, porque não há voos diretos a partir do Brasil. Optamos por viajar com a Turquish e fazer escala em Istambul, e isso significa que entre chegar ao Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, para fazer o check-in e desembarcar, em Tashkent, capital do país, foram praticamente 24 horas, vivenciando a situação de, neste intervalo, ver duas vezes o sol, já que viajando de oeste para leste, atravessamos oito fusos horários.

A viagem foi longa e cansativa, num avião lotado no trecho até Istambul, cheio de argentinos (acho que eles chegam a falar mais alto que nós brasileiros!) e com várias famílias de judeus ortodoxos que se levantavam, abriam e fechavam malas, vestiam uma espécie de manta, para rezar várias vezes durante o percurso.

Com o atraso da saída do Brasil, chegamos em cima da hora para a escala em Istambul, cujo aeroporto é enorme (e muito bonito). Isso significou atravessá-lo correndo e sermos praticamente os últimos a embarcar, para voar o trecho entre esta cidade e Tashkent, cuja chegada no aeroporto foi tranquila, pois os brasileiros não precisam de visto para entrar no país. Assim, a passagem pela aduana não foi complicada, também não tivemos que passar por Raio X e, como o aeroporto é pequeno, tudo foi fácil.

A situação geográfica do Uzbequistão é bem especial, porque é um país que têm fronteira seca dupla, ou seja, além de não ter acesso direto ao oceano, faz fronteira por todos os lados com países que também não têm litoral.

A primeira impressão de Tashkent, a capital, foi bem surpreendente. Ela tem 2.5 milhões de habitantes.  O aglomerado que lhe deu origem remonta aos últimos séculos antes de Cristo e foi um ponto importante da Roda da Seda.

Imaginava encontrar uma paisagem urbana e arquitetônica semelhante a que conheci em Moscou, já que o Uzbequistão teve muitos investimentos em construções durante o período de domínio soviético, o que, de fato, ocorreu, mas a cidade também cresceu muito a partir da Independência e nas partes mais centrais parece ter se distanciado do padrão arquitetônico que, via de regra, identificamos com o soviético – construções pesadas, com poucos adornos e de estética pouco agradável, pela prevalência radical do funcional sobre o belo.

Tashkent é bem moderna. Do período soviético, ficaram como herança importante as avenidas muito largas, com calçadas também espaçosas.

Por outro lado, os edifícios na área pericentral, onde está nosso hotel, são bem modernos e há muitos jardins e praças, o que me faz associá-la às cidades ocidentais, mais para as estadunidenses do que para as europeias, embora em muitas fachadas de edifícios haja arabescos ou adornos da cultura árabe.

Claro que, quando tratamos de edificações históricas, o ambiente urbano não é o mesmo, mas isso fica para um outro capítulo.

Carminha Beltrão

Abril de 2023

A traição

Ela nunca havia imaginado que, mesmo nesta estrada secundária, os restaurantes de postos de gasolina estivessem tão lotados na hora do almoço. O final de semana no sítio dos tios havia sido ótimo. Conversas, almoço de Páscoa, lembranças da família e as estrelas no céu, que eram possíveis de serem admiradas na área rural, fazendo sentir um gostinho de infância.

Agora, a volta à vida metropolitana significava enfrentar a fila para passar diante do buffet onde verduras, legumes, cereais e, depois, as carnes se enfileiravam, já mexidas por algumas dezenas de outros que por ali passaram na última hora.

A cada colherada, olhava para o canto do restaurante onde estavam os banheiros, na expectativa de que seu marido voltasse e ainda conseguisse se intrometer na fila, na sua frente, de modo a que pudessem sentar juntos para almoçar.

Nunca gostou de cenoura cozida, mas as opções eram tão poucas, que, diante da possibilidade de ter que comer chuchu, preferiu pegar mais uma colher do legume envolto em salsinha picada. Afinal era preciso encher o prato de alimentos pouco calóricos, antes de chegar ao arroz e ao feijão…. Ela vem há alguns anos querendo emagrecer, mas não tem jeito. Comer e beber uma cervejinha vêm sendo seus únicos prazeres já faz um tempo.

Quando chegou à balança, que indicou 830 gramas, adicionou à bandeja uma Brahma estupidamente gelada. Constatou que estava novamente postergando a dieta, mas sentiu-se aliviada, porque ele dirigiria os 200 km que restavam até a cidade onde moravam, razão pela qual ela podia beber um pouco. Olhou novamente para a entrada dos banheiros e nada dele aparecer…

Era, assim, nestas ocasiões em que ela insistia para estarem juntos, volta e meia, ele se demorava… e não havia como reclamar se seu intestino funcionava nas horas mais inesperadas.

Sentou-se e começou a comer. A cerveja desceu como veludo, suave, acariciando a garganta e, de algum modo, o coração. Não demorou cinco minutos para sua bexiga reclamar. Desde que entrara na menopausa, com 48 anos, entre beber e urinar eram apenas alguns minutos. Hesitou em se levantar da mesa, porque, se ele não chegasse, perderiam com certeza aquele lugar, perto do ventilador. O calor estava infernal, mas não daria para segurar muito tempo.

Pegou a bolsa e se dirigiu a passos rápidos para o banheiro, torcendo para não ter fila. Antes mesmo de entrar, suspendeu a túnica para abrir o zíper e adiantar a operação de se despir, que seria demorada, porque agora andava sempre com uma cinta calça, com a qual pretendia amenizar a protuberância da barriga que, após 4 filhos e muitas cervejas, estava cada vez maior e mais flácida.

Mal entrou no banheiro, deu-se conta que havia escolhido a porta errada. Seria engraçado, se não fosse trágico, pensou, ao se deparar com seu marido sem calças transando loucamente com um jovem musculoso e tatuado. Suspiravam tanto que nem se deram conta da chegada inoportuna.

Suas pernas amoleceram, o coração passou a bater mais rápido para compensar a pressão que caiu. As mãos se crisparam e as unhas feriam a pele fina e suada. Queria gritar, xingar, bater nele, mas não tinha forças para dar um passo, o que dizer para comandar a voz.

Em segundos, mudou de ideia. Não iria se humilhar, fazendo um escândalo, reforçando o tanto que já se sentia diminuída pela cena, que estava presenciando. Conseguiu dar alguns passos para trás e entrar agora na porta certa, a do banheiro feminino.

Encostou-se na parede gelada onde os ladrilhos antigos lhe causavam impressão de sujeira. Ficou aliviada de não haver ninguém por ali e correu para um dos cubículos onde se encerravam os vasos sanitários. Fechou rápido a porta, como se alguém, ao entrar, pudesse imediatamente ler no seu rosto tudo que estava sentindo.

O pequeno espaço não estava muito limpo, o odor do uso frequente a deixou mais tonta, o cesto cheio de papel higiênico usado causou náuseas, mas ela conseguiu baixar a cinta calça e, depois, a legging. Sentou-se, jogando todo o peso do corpo como se estivesse quase desmaiando.

Os últimos 30 anos passaram como um filme em flashs diante de seus olhos. O namoro com Ramiro, os conselhos de seus pais que não o achavam nada decidido para enfrentar a vida, suas iniciativas de levar adiante os pequenos comércios que foram montando no bairro – um bar, que virou um pequeno armazém…. o armazém que ficou sendo um pequeno supermercado, que se tornou loja de conveniência e, mais recentemente, entreposto de venda de gelo e carvão.

A cada crise, uma nova iniciativa, sempre dela, que paralelamente costurava ou cozinhava para fora, de modo a fazer algum dinheiro para enfrentar as despesas cotidianas da casa. Nunca entendia bem, porque parecia que o comércio ia bem, afinal tinham sempre clientes, mas o dinheiro que entrava no caixa nunca chegava.

Ela desconfiava que ele tivesse outras mulheres, chegou a pensar que poderia ser jogo, porque, vez ou outra, desparecia e voltava tarde da noite sempre com o bolso vazio, mesmo que o dia tivesse tido bom movimento comercial.

Com certeza o dinheiro estava sendo consumido em encontros como este que ela acabara de presenciar – jovens bonitos que se prestavam a transar com senhores maduros a troco de algum (ou será de muito?) dinheiro. Já tinha escutado histórias como esta.

Tirou o celular da bolsa, verificou que ele acabara de mandar um WhatsApp informando que estava no restaurante e não a encontrava. Não conseguia resolver como responder à mensagem. Passou pela sua cabeça não retrucar e sair andando pela estrada para nunca mais ter que olhar na cara dele… Mas estava sem dinheiro e sem cartão de crédito. Onde dormiria? Como chegaria em casa? E se não chegasse?

A raiva fez sua pressão arterial subir novamente. Começou a suar. O aperto do banheiro, o odor do local e a repugnância a Ramiro se misturavam como se ela fosse se afogar neste caldo de impressões, em que seus sentimentos se atolavam.

Tinha que fazer alguma coisa. Daqui a pouco seria anunciado no alto falante do restaurante que Ramiro procurava por Leonor e ela não queria passar pela vergonha de, ao sair do banheiro, ver todos os rostos se virarem para ela, só para confirmar se era a tal procurada pelo marido.

Pensou em ligar para sua filha Rosa, que ela queria que se chamasse Pamela, mas que Ramiro insistiu que levasse o nome da mãe dele. Arrependeu-se de não ter feito valer sua vontade. Alguns segundos depois, achou que, mesmo a filha tendo 24 anos, não era o caso de lhe contar algo assim por telefone. Se tivesse descoberto que Ramiro a traía com mulheres, estaria mais à vontade para chorar as pitangas para ela, mas ele estava se esfregando com um jovem que tinha provavelmente menos da metade de sua idade.

Lembrou-se da irmã Leocádia. Que ideia esta dos seus pais de darem, aos filhos, nomes iniciados com “L”? Depois de oito filhos, quando a nona nasceu, já não tinha mais opção que valesse a pena. Pobre Leocádia, viver em 2023 com um nome que mais parecia adequado a 1923. Era a mais jovem de todos e tinha uma cabeça aberta. A única entre as cinco mulheres irmãs que, ao perceber que o marido não valia um tostão, divorciou-se. Ela, Leonor, além de Leonice, Livramento e Linda, permaneciam tentando manter seus casamentos cada vez mais em frangalhos. E além de tudo, ela agora estava diante dessa verdade, que não conseguia decidir se deveria ser escancarada ou escondida a sete chaves.

Lembrou-se que, desde os 45 anos, não transava com Ramiro, que argumentava sempre que o cansaço dele e os sintomas da menopausa dela tiravam todo seu ânimo para a cama. Sua raiva aumentou, porque imaginou quantos jovens o pegaram por aí, em motéis, postos de gasolina, banheiros públicos etc. Lembrou quantas vezes se masturbou envergonhada de si mesma durante o banho. Esse prazer solitário nunca a satisfazia porque não compensava a indiferença dele, que doía, na carne e no coração.

Desistiu de telefonar para Leocádia, pois supôs que, rapidamente, ela acionaria um dos irmãos. Se chamasse Luiz, o mais velho, ele convocaria uma reunião de família para decidir como proteger a irmã e ter uma conversa séria com o sem vergonha do Ramiro… Ela passaria pelo vexame de tornar pública a sua situação.

Ocorreu-lhe telefonar para uma das amigas. Quem sabe alguém daria uma luz a ela que não conseguia, neste momento de choque, pensar com a cabeça, mas apenas com o fígado e o coração.

Talvez pudesse desabafar com Judith, sua vizinha de tantos anos. Juntas curaram os filhos de bebedeiras, enfrentaram filas no INSS, procuraram pelos preços mais baratos na Rua 25 de Março, quando tinham que comprar os presentes de Natal… Mas um assunto destes não era fácil. Era capaz de Judith comentar com seu marido Afonso. Não que Ramiro merecesse que ela se preocupasse com a reputação dele, mas estava mesmo era preocupada com a sua e não simpatizava com o esposo da amiga.

A raiva aumentou. Concluiu que estaria sendo mais fácil se tivesse pegado o marido com a Regina, considerada a gostosona do bairro, com seus vestidos de malha sempre justos e seu decote insinuante.

Lembrou de sua juventude, dos bailes no clube de Diadema, dos vestidos de viscose que faziam o efeito de uma seda, de como gostava de dançar e fazia sucesso no salão; a cintura fina, o gingado aprendido com o pai carioca, o perfume Cashemere  Bouquet que era parcimoniosamente usado nestas ocasiões… A raiva aumentou ainda mais, agora de modo mais contundente, porque não era possível voltar no tempo, não teria mais cintura fina, não deslizaria mais pelo salão com seus sapatos de salto alto…

Ia sair daquele banheiro, fazer de tudo para não esbofetear o Ramiro em público. Não poderia bater nele no carro, nem antes de chegarem em casa, afinal seria um perigo um acidente na rodovia… Não poderia também brigar com ele em casa, porque os filhos escutariam. Seria terrível para eles saber que o pai era gay. Seu pai, hoje com 78 anos, chamaria ele de veado, mas ela tinha que encontrar os termos certos, porque hoje não se fala mais assim e era capaz de, ainda por cima, sofrer um processo por calúnia.

Levantou-se, abriu a porta lentamente, foi até a pia e lavou o rosto onde as lágrimas corriam. Não tinha papel toalha para enxugá-lo, buscou um lenço de pano na bolsa e aproveitou para também suar o nariz.

Deixou o banheiro andando como um autômato. Ramiro estava acabando de almoçar tranquilamente. Seu ar de satisfação a incomodou mais ainda, mas não abriu a boca. Ao contrário do que ela teria feito, ele não perguntou por que ela se demorou no banheiro. A indiferença foi como mais uma fincada de um canivete que não parava de cortar sua pele, nos últimos 15 minutos.

Aguentou firme, antes de passar pelo caixa, quando pegou um pacote gigante de bala jujuba na expectativa de ocupar a boca mascando e não correr o risco de falar.

Se falasse, o que escutaria em troca? Que era isso mesmo, que ele gostava de jovens e homens? Que ela estava velha, que nunca gostou de sua pele, de seu cheiro? Pediria desculpas? Rogaria para que ela não contasse aos filhos, aos irmãos, aos vizinhos ou não estava nem aí? Contaria a ela com quem andou nos últimos anos? Acabaria dizendo que transou no pequeno armazém deles, atrás do balcão com um ou outro depois de baixar as portas? Ou ficaria absolutamente mudo, deixando-a, além de furiosa, desconcertada?

Os quilômetros passavam, a noite caía, os faróis começavam a incomodar no contrafluxo e ela não conseguia decidir onde e como entraria no assunto com ele. Nem conseguia supor o que faria de sua vida. Do que viveria se a pequena renda do comércio, que tinham, tivesse que se dividida para sustentar duas casas? Tinha que ter uma estratégia, desenhar um futuro qualquer por mais duro e solitário que ele pudesse ser, mas antes tinha que curar parte da dor imensa que sentia.

 Ao lembrar mais uma vez do prazer carnal que ele vinha sentindo há tempo e que ela havia presenciado hoje à tarde, concluiu que essa seria uma forma leve de traição, diante da dor maior de constatar que vicejou entre eles uma mentira que devia estar lá no começo, já na Lua de Mel.

Entendeu, então, qual é a cor verdadeira da traição: não tem muito a ver com o corpo, mas sim com a forma como uma parceria se desenvolve no tempo.

Deitou a cabeça no banco do carro, cochilou exausta e incapaz de qualquer decisão sobre “si”, depois de anos pensando que houvesse um “nós”.

Carminha Beltrão

Abril de 2023

Sardenha – Cagliari

Cagliari estende-se ao longo do Mar Mediterrâneo, na posição sul da Ilha da Sardenha. Seu relevo é movimentado e a cidade histórica, hoje chamada de Distrito do Castello, impressiona pelo patamar topográfico que ocupa muito acima do nível do mar.

Fonte: https://www.corriere.it/bello-italia/notizie/cagliari-castello-quartiere-rinato-0d1510d8-8348-11eb-98e0-a911bb2fb5b0.shtml

Fonte: https://www.shmag.it/insardegna/itinerari/11_10_2021/cagliari-a-spasso-per-il-bel-capoluogo-della-sardegna/

A fundação do primeiro aglomerado urbano neste sítio remonta a meados do milênio anterior ao nascimento de Cristo, segundo a Wikipédia. Embora houvesse assentamentos humanos por aí desde seis mil anos antes de Cristo, é com os fenícios que se constitui a feição de núcleo urbano, depois engrandecido pelo domínio romano.

Não é difícil compreender por que os primeiros moradores deste território escolheram este sítio urbano. Ele possibilitava que se avistasse a aproximação de qualquer inimigo que buscasse atacar a cidade pelo mar, tanto quanto se beneficiava do próprio relevo para proteger o assentamento, porque parte da “cidadela” já está protegida pelas alturas das escarpas do rochedo sobre o qual ela se assenta.

Grosso modo, a zona do Castello vai da Porta Cristina, ao norte, ao Bastione de Saint Rémy, ao sul; a Viale Regina Elena contorna a área a leste e um ponto importante para se ter acesso à cidade velha pelo oeste é a Torre dell’Elefante.

Tomando como referência o Bastione di Saint Rémy e a Cathedrale di Santa Maria Assunta e Santa Cecília, pode-se comparar o primeiro mapa com o segundo e observar alguns aspectos: – a proximidade que há entre o sítio histórico e o mar; – as áreas comerciais mais importantes atualmente, sombreadas em amarelo claro, estão em torno da cidade antiga, a sudeste e a sudoeste; – as áreas que se destinam a marinas no mar, onde centenas de embarcações parecem aguardar pacientemente o verão.

Aliás, Cagliari está toda abraçada e entremeada por águas, então é natural que a relação com o mar seja grande e que os sardos estejam sempre propensos a navegar.

Voltando ao Distrito do Castello, informo que, ainda hoje, para se circular a pé ou de carro pela zona é necessário entrar pelas portas que, no passado, tiveram a função de proteger a cidade e controlar a circulação de mercadores. Hoje, o fluxo que as atravessa é mediado por um semáforo, pois o tamanho é suficiente para a passagem de, apenas, um veículo…. Assim, ficamos nós com nosso mini Mini, locado para circular pela ilha, aguardando o verde aparecer para entrar na guest house, em que nos hospedaríamos, localizada justamente intramuros. Quando fiz a reserva pelo Booking.com, não podia imaginar a escolha que fizemos: ótima do ponto de vista de conhecer bem esse centro histórico, um pouco difícil, por outro lado, porque para se aceder à zona comercial atual da cidade, onde estão a maior parte dos bares e restaurantes e parte do patrimônio constituído por várias igrejas, era preciso vencer a pé muitas ladeiras e degraus (demoramos um pouco para descobrir que há elevadores públicos que ajudam bastante a vencer os enormes desníveis).

Passar pelas portas para entrar no Distrito do Castello era sempre agradável, mas nem sempre a presença dos carros facilitava o registro fotográfico.

Sempre que acedíamos ao sítio histórico pela sua porção leste, lá estava a imponente Torre do Elefante, com seu gigantesco portão de madeira suspenso, causando sempre a impressão que ele poderia cair sobre nossas cabeças a qualquer momento.

Enfim, o distrito é muito especial. O que no primeiro momento pareceu uma escolha inadequada, a de se hospedar numa área que atualmente não é propriamente central na cidade, uma vez que não era fácil encontrar um lugar para estacionar nosso Mini, foi, ao final, muito interessante porque pudemos andar pelas vias estreitas da zona histórica, observar que muitos prédios estão sendo recuperados (pelas vãos de janelas e portas se via que, por dentro, estão muito bem decorados) e notar que boa parte de seus moradores ou são pessoas idosas, que à noitinha víamos passeando com seus cachorros, ou imigrantes que ocupam os imóveis ainda não recuperados. Passei a observar os nomes dos proprietários, nos painéis metálicos em que estão as campainhas dos apartamentos e deduzi que uma parte deles, pelos sobrenomes, são europeus do norte que, suponho, adquirem um imóvel relativamente barato e têm acesso ao sol e ao mar azul do Mediterrâneo, em alguns meses do anos.

Foi caminhando em busca da cidade baixa, digamos assim, que vimos L’Osteria di Castello, um simpático restaurante ao qual se tem acesso após descer alguns degraus, para se chegar ao piso que deve ter sido, no passado, um porão, o que lhe dava a aparência de uma pequena caverna (veja, leitor, nas fotos, suas paredes seculares e a madeira que sustenta os andares superiores). Ali o perfume dos temperos da cozinha, as toalhas e guardanapos absolutamente brancos e, na sequência, uma boa taça de tinto agradam o corpo cansado do sobe e desce, imposto pelos desníveis, e aquecem o coração.

Como assinalado nos mapas, é no Distrito do Castello que está a catedral de Cagliari. Uma igreja bonita por fora, por ter sido erguida com a rocha calcária que domina a região e dá a sua fachada esta claridade que embeleza a composição e favorece o destaque das colunas e do dourado que emoldura as imagens santas. Com a torre iluminada à noite, achei que fica ainda mais bonita.

Por dentro, encanta igualmente, talvez porque, não tendo vitrais coloridos, a transparência dos vidros deixa a luz entrar livremente. Deduzi que os vitrais se perderam em ataques que a cidade sofreu durante a segunda Guerra Mundial, quando foi bombardeada em 1943. O altar é demarcado por escada e muretas de mármore e granito trabalhadas maravilhosamente, conformando verdadeiros rendilhados. Dois leões de bronze resguardam a entrada.

O teto também é lindo e os altares secundários nas laterais merecem igualmente destaque.

O piso, ah sempre o piso me chamando atenção. Adoro esse desnivelado que retrata o tempo acumulado, o desgaste diferenciado dos mármores e granitos, para nos fazer lembrar os milhares de pessoas de várias gerações que caminharam por ele.

Cagliari tem muito mais coisas para se ver, é claro. O que registro aqui resulta de uma seleção que como toda escolha tem perdas. Se você pensa em conhecer essa cidade não deixe de visitar a galeria que está ao pé do Bastione de Saint Rémy, reconstruído parcialmente após o bombardeio de 1943. Suas colunas altas compõem um ambiente agradável, por meio do qual podemos ver as bases rochosas da cidadela.

Bateu fome, vontade de dar uma pausa e de comer Cullurgiones, prato típico da Sardenha? Vá ao Niu, que ocupa um antigo convento, como as abóbodas do teto denunciam. Ele se localiza na atual área comercial da cidade, aos pés do Distrito do Castello.

Veja as explicações sobre este prato:

Os culurgiones são um tipo de massa recheada muito tradicional. Originária de Ogliastra, espalhou-se aos poucos por toda a região, tornando-se uma das receitas mais populares da Sardenha.

Os culurgiones assemelham-se a grandes raviólis recheados com batata e hortelã, todos acompanhados de muito queijo pecorino (mas os ingredientes podem variar de zona para zona).

No entanto, a característica que mais os distingue é o modo de fechá-los. A técnica se chama sa spighitta, e representa a forma do trigo. Na verdade, os culurgiones foram originalmente preparados como um presente, uma espécie de amuleto, que era dado a uma pessoa querida. O trigo representado nele nada mais era do que um sinal propiciatório de fartura.

Enfim, normalmente serve-se os culurgiones com molho de tomate ou então com manteiga e sálvia.

Fonte: https://descobrindoaitalia.com/10-pratos-tipicos-da-sardenha/#culurgiones

Fonte: https://www.salepepe.it/ricette/primi/pasta-fresca/culurgiones-casu-fruscu-sardegna/

Carminha Beltrão

Março de 2023

Sardenha – Uma ilha especial

A ilha da Sardenha, que é parte do território italiano, reflete muito a situação geográfica que ocupa. Encravada no Mar Mediterrâneo, é espaço natural e, simultaneamente, político de integração e circulação secular. A Sardenha está a oeste da Itália continental, ao sul da ilha francesa da Córsega e ao norte da Tunísia.

Se, na Antiguidade e na Idade Média, contava mais sua posição entre o Oriente e o Ocidente, pela principal via de comunicação que era este mar, na atualidade, vejo bem no meio do caminho entre a África e a Europa Ocidental, por onde trafegam imigrantes em busca de trabalho no Velho Mundo. Como estamos tratando da Sardenha e do Mar Mediterrâneo, não é demais lembrar que, há séculos, comercializa-se de tudo por este território.

Não se trata, fazendo um balanço agora, de um destino que eu escolheria de pronto, mas as circunstâncias nos trouxeram até aqui, como uma opção para completar a visita a Milão.

Esta ilha merece ser adjetivada como especial, porque reúne paisagens muito peculiares, história longeva e uma mistura de influências culturais que a singularizam. Aliás, alude-se a ela tanto em italiano (Sardegna) como em sardo, a língua autóctone (Sardigna), como ainda em catalão, para fazer jus à grande influência desta região da Espanha na linda ilha (Sardenya). Com essas características plurais, este território goza do estatuto de região autônoma da Itália, o que lhe dá certa independência administrativa e garante a proteção de suas particularidades, tanto da língua como de outros aspectos culturais.

Aliás, o sardo, por seu uma língua que remanesce do Império Romano, aproxima-se muito do latim, mas tem influências fenícias e etruscas. Ela se parece bastante com o basco, mas não é o único idioma da ilha, além do italiano, como mostra o mapa.

Nas placas indicando a toponímia dos lugares, podemos perceber a presença da península ibérica no linguajar cotidiano da ilha.

A cidade principal da ilha ocupa a posição sul e é capital. Chama-se Cagliari e tem pouco mais de 154 mil habitantes, praticamente 10% do total da ilha que alcança 1,6 milhão de habitantes. As outras cidades importantes são Sassari, Alghero, Ólbia, Nuoro e Oristano. Talvez, em outro capítulo desta série Diário de Viagem, eu escreva um pouco sobre Alghero e Cagliari.

A ilha, como um todo, tem perdido população, principalmente jovem que parte em busca de oportunidades melhores em outras regiões italianas, por isso o governo oferece subsídios para quem queira vir morar em cidades pequenas e investir na reforma de imóveis na Sardenha (https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2022/08/italia-paga-ate-r-75-mil-a-quem-se-mudar-para-ilha-da-sardenha.shtml).

Seu relevo é espetacular. A maior parte da costa é bastante recortada, o que conforma cabos e baías muito bonitas. Mais para o interior, a superfície é desenhada com colinas e montanhas. Algumas chegam aos mil metros de altura e seu pico mais elevado – a Punta La Marmora – alcança 1.834 m, o que é bastante para um território tão pequeno.

Fonte: https://www.atlantides.it/la-scoperta-della-vera-punta-la-marmora.html

A vegetação também é bem peculiar: não é densa, tampouco corresponde a um clima árido. Ora se beneficia da umidade, ora se prejudica pelo solo rochoso e pelos ventos fortes que cortam a ilha. Ela tem bastante semelhança ao que tínhamos observado em outras viagens na Ilha da Sicília, mas, principalmente, no paisagismo das cidades lembra também a Tunísia e o Marrocos, pelos palmeirais e fênix que estão por todo lado.

Fonte: https://jujunatrip.com/sardenha/

Fonte: https://br.depositphotos.com/49610905/stock-photo-santa-teresa-di-gallura-sardinia.html

Essa combinação de relevo e vegetação conforma, então, uma paisagem que poderia parecer rude, mas é suavizada, na minha opinião, por alguns fatores que exercem o papel de atenuadores. Primeiramente, a beleza do Mediterrâneo que cerca a ilha, cujos tons formam uma moldura lindíssima. As minhas fotos são menos bonitas que a realidade, porque não captaram a transparência da água e a variação de tons do azul para o verde, contrastando com faixas de pedras e de areias quase brancas.

Em segundo lugar, pela presença de muitas oliveiras, algumas centenárias, cujo verde acinzentado das folhas brilha quando o sol bate. Elas estão em várias propriedades tanto no norte, como no sul da ilha, mas também adornam cidades, cercadas de muretas com grafites, tanto quanto parques naturais que estão nos campos, mostrando que, a exemplo do outros países que margeiam o Mediterrâneo, as oliveiras são um patrimônio da ilha.

A fisionomia rude da ilha é enfeitada, também, pela gracinha dos rebanhos de ovinos que pastoreiam até mesmo nas estradas e são um símbolo da ilha, porque aparecem até mesmo nas camisetas de recordação, que estão a venda em tudo que é lojinha para turista. Olha a ovelha negra aí!

Fonte: https://www.cartolerialghero.com/t-shirt-etc/t-shirt-sardegna/

Gostei demais do perfume de alecrim que exala, por todo lado, porque há verdadeiras touceiras desta planta em qualquer canto, tão grandes, que estão floridas (eu nunca tinha visto alecrim florido). Elas também embelezam a ilha e tornam sua paisagem mais bem temperada.

Dizem que o ponto alto da Sardenha é o Arquipélago da Maddalena que fica ao norte, mas não o conhecemos, porque mutas coisas funcionam de modo incompleto antes do verão. Não se consegue, em março, fazer passeios de barco, ou visitar alguns museus ou mesmo conhecer alguns dos melhores restaurantes, que só funcionam a partir de abril. Os hotéis cinco estrelas e spas são muitos por aqui e destinados, principalmente aos europeus do norte.

À parte esses grandes equipamentos para o turismo, a ilha não transparece riqueza; ao contrário, se veem, aqui e ali, esforços para recuperação do patrimônio e melhoria da infraestrutura, mas se nota que o padrão médio de vida está abaixo do que se observa em grande parte da Itália (eu a identifiquei mais com a Calábria e a Ilha da Sicília, mas é preciso ter alguns dados para fazer alguma afirmação mais precisa).

Outra peculiaridade da ilha são os milhares de sítios arqueológicos que ela tem. No escritório de informações turísticas do Aeroporto de Cagliari, aliás muito bom e com uma funcionária muito bem-preparada, tivemos a informação de que são oito mil sítios, embora apenas uma parte muito pequena tenha passado por trabalhos de recuperação e tratamento museológico.

Visitamos alguns destes sítios arqueológicos, mas isso fica para outro capítulo deste diário.

Para finalizar, o primeiro mapa mostra o percurso inicial que fizemos na direção de Alghero, onde nos hospedamos nos três primeiros dias, incluindo os passeios feitos até Ólbia, Palau e arredores. O segundo representa nosso passeio na direção de Villasimius, durante os três dias que ficamos em Cagliari.

Carminha Beltrão

Março de 2023

Milão – Entre o sagrado e o profano

Haveria muitas coisas mais para caracterizar Milão: sua gente elegante, seus parques, suas edificações do século XIX, os antiquários, as novas galerias de design. No entanto, no meio de tantas maravilhas, gasto minhas linhas com Il Duomo di Milano e La Galleria Vitório Emanuelle II.

As duas competem pela atenção das centenas de turistas que cruzam La Piazza del Duomo (o grande quadrilátero onde se assinala o M de metrô) e em seus arredores gastam seu tempo e dinheiro todos os dias.

Na piazza há uma estação de metrô e quase nenhum outro obstáculo que sirva de anteparo à nossa visão sobre uma das entradas da Galleria, ao norte, e sobre a catedral a leste da praça.

É preciso ter muita fé e ser muito cristão para apostar na ideia de uma construção tão magnífica que demorou 600 anos para ser concluída. Hoje esse espaço pode ter pouco de “sagrado”, com tantos que entram mais para fotografar (e haja selfies) do que para rezar, mas afinal o que leva gente de todas as religiões do mundo, mais ateus e agnósticos, a visitá-la não deixa de encantar, como se estivéssemos contemplando, como um filme que percorre o tempo, as várias gerações que a pensaram como um espaço divino. Ademais, com ou sem religião, ela é tão linda que merece mesmo ser considerada sagrada por isso: pela força dos homens que a idealizaram e a ergueram.

Você, leitor, achou que, por opor, ao sagrado, a ideia de profano, eu iria falar das principais ruas onde, no passado, praticava-se a prostituição em Milão, ou quem sabe faria referência às festas de rua, que 40 dias antes da Páscoa, comemoravam, no passado, a vida mundana antes de entrar no período de sacrifícios que exigia a Quaresma. Nada disso, refiro-me ao profano do mundo contemporâneo, aquele que nos remete ao grande prazer da sociedade atual – o consumo. Penso que a Galleria é um bom exemplo deste profano, cuja insaciabilidade é extensa porque não encontra repouso no corpo cansado, porque se realiza na mente e nos valores.

O Duomo é considerado a terceira maior igreja católica do mundo. A primeira é a de São Pedro no Vaticano, a segunda, a Catedral de Sevilha. Impressiona em muitos sentidos diferentes. Seu nome oficial é Cattedrale Metropolitana della Natività della Beata Vergine Maria.

Sua construção teve início no final dos anos de 1300, por iniciativa de um arcebispo chamado Antonio da Saluzzo, com apoio do Duque Gian Galeazzo Visconti.

Ela é absolutamente imensa, com mais de 150 metros de comprimento e 100 de largura frontal. Para suportar a altura de igreja gótica, num tempo em que não havia concreto armado, ela é composta por cinco naves, cuja altura chega aos 45 metros. Para sustentar tamanha extensão, a catedral tem 40 pilares. Nestes registros fotográficos que fiz é possível observar uma boa parte dos pilares e a altura das ogivas.

Todos as informações disponíveis nos guias fazem referência ao fato de que o estilo gótico não era comum na Itália e nem o preferido da sociedade de então, mas acabou sendo o escolhido, em decorrência da influência francesa, que era grande no período.

Em meados do século XVIII, a fachada do Duomo se apresentava como na figura subsequente. Observando a imagem é possível notar que ela cresceu e se embelezou muito nos dois séculos seguintes, pois se ela foi considerada finalizada em 1813, continuou a conhecer mudanças, como suas portas que foram trocadas e está constantemente em manutenção. Basta buscar imagens dela no Google e se percebe que há fotos em que a fachada aparece em diferentes tons, dependendo da proximidade maior ou menor dos anos em que passou por limpeza.

Por Marc’ Antonio Dal Re – The whole series of 88 engravings is online here: http://www.storiadimilano.it/repertori/pres_dalre/dalre.html, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1709257

Fonte: https://www.gettyimages.it/immagine/duomo-di-milano

Nos folhetos que orientam os visitantess, há informações de que ela tem três mil estátuas entre as externas e as internas. Um dos seus ícones está na sua torre mais alta – a Madonina – uma Nossa Senhora toda dourada que é o ponto mais alto do centro de Milão, não podendo nenhum edifício, nesta área, ultrapassar sua altura.

Fonte: https://en.wikiarquitectura.com/building/duomo-di-milano/

A catedral tem cerca de 40 vitrais. As minhas fotos ficam muito aquém da maravilha que eles são, tanto em tamanho, como na qualidade dos desenhos e detalhes de encaixes entre os vidros e ferragens. Daria para passar o dia olhando para eles.

Se eu tivesse que escolher um detalhe que adorei, ficaria com o piso. São vários tipos e cores de mármores e granitos, maravilhosamente encaixados, compondo a geometria que se repete harmonicamente. Ao se andar pela catedral é maravilhoso sentir na sola dos sapatos os diferentes desgastes que cada uma dessas rochas teve no decorrer dos séculos – os mármores geralmente mais desgastados conformam os baixo relevos, enquanto os granitos compõem os alto relevos.

Bem ao lado dela, como expliquei no comecinho deste diário de viagem, está a Galleria Vitorio Emanuelle II, cujo portal principal aparece na foto que segue, do lado esquerdo.

Fonte: https://www.receitasdeferdi.com/roteiro-de-milao-o-duomo-de-milao

Ela foi inaugurada em 1877 e tem uma formato de cruz, composta por dois arcos altos que formam abóbodas de vidro e ferro. Bem no centro, no cruzamento de seus dois eixos, há mosaicos que representam os continentes Ásia, África, Europa e América.

A sua construção decorreu de um concurso público para o projeto de uma galeria que fizesse a ligação entre Il Duomo e a praça onde está o Teatro alla Scala de Milão (Fonte: https://www.milaonasmaos.it/10-curiosidades-sobre-a-galeria-vittorio-emanuele/). Quem venceu foi o engenheiro Giuseppe Mengoni, a quem a placa, ao lado do seu portal principal, memoriza e agradece. Li, neste mesmo site, que ele caiu de um andaime e faleceu na véspera de inauguração da galeria que projetou. Que trágico!

Ao longo de seus dois corredores enfileiram-se filiais das principais marcas internacionais. Para a maior parte dos que a atravessam são apenas vitrines para serem observadas, porque os preços de uma bolsa Gucci, um vestido Prada, uma mala Louis Vuitton ou um terno Armani não são para qualquer um…

Aliás, podendo ou não podendo comprar, a gente pode admirar e, sinceramente, achei que, no geral, a moda das grandes griffes anda exagerada: a maior parte das peças expostas pareciam mais uma alegoria, mais para performances do que algo que se possa vestir ou calçar e se viver normalmente.

Estas duas fotos possibilitam observar a delicadeza do mosaico que compõe o piso da galeria – ele é lindo! Veja os detalhes na próxima foto.

Se bater o cansaço e a fome depois de se deliciar com Il Duomo e La Galleria, não hesite entre o sacrifício que o sagrado sugeriria e o prazer que o profano permite, escolhendo o segundo. Fique com um agradável almoço no La Locando del Gatto Rosso, um simpático restaurante que fica na Vitório Emanuelle, tem preços bem razoáveis e uma comida bem gostosa.

Carminha Beltrão

Março de 2023

Milão – Parecida com São Paulo, mas diferente

Muitas vezes ouvi falar que Milão era a São Paulo da Itália. A comparação faz algum sentido, porque ambas são economicamente as mais importantes em seus países. Por outro lado, a minha primeira visita a essa cidade me diz que ela, também, é bem diferente da maior metrópole ao sul do Equador.

Ok, todos sabemos que ambas são cidades moldadas, no século XX, por um amplo processo de industrialização do tipo fordista. Também é verdade que se espraiam conformando uma grande mancha urbana metropolitana. No entanto, as formações socioespaciais que as engendraram são tão diferentes que o que poderia ser semelhança, pode também ser visto como diferença, ou colocando em outros termos: Se ambas são cidades industriais e importantes economicamente, por que não são mais parecidas?

Não sei. Precisaria ter um programa de estudos e pesquisa para arranhar alguma explicação melhor fundamentada, mas não custa, num diário de viagem que não tem compromisso científico, registrar minhas observações.

Milão é nome, ao mesmo tempo, de uma comuna de um milhão e quatrocentos mil habitantes, de uma área urbana com população de quatro milhões e trezentos mil habitantes e de uma região metropolitana que, pelas estimativas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), deve ultrapassar os sete milhões de habitantes.

A região metropolitana de São Paulo está chegando aos 23 milhões de habitantes, dos quais mais de 12 milhões vivem na cidade principal. Assim, a magnitude demográfica, em que pese ambas serem grandiosas, não é propriamente comparável.

No entanto, as duas aproximam-se no número de cidades que compõem a mancha metropolitana – a de São Paulo tem 39 sedes de municípios e a de Milão tem 40.

A extensão de seus tecidos urbanos é, por outro lado, bastante díspar – a área metropolitana de Milão tem 1.621 km2 e a de São Paulo 7.944 km2.

Fonte: Google Maps

Todavia, esses números querem dizer pouca coisa, todavia, se queremos entender a ‘alma’ dessas cidades [eu sei, caro leitor, que cidades não têm alma, aliás, nem sei se pessoas têm alma, quanto mais as cidades, mas uma figura de linguagem, às vezes, ajuda não é mesmo?].

Fundada pelos celtas, provavelmente por volta de 400 a.C. Milão foi dominada pelos romanos por volta de 200 a.C. que lhe deram o nome de Mediolanum (que significa no meio da planície). Quando ocorreu a divisão do Império Romano, ela se tornou a capital da porção oriente do império.  Cresceu nos séculos subsequentes e chegou a ser ter uma muralha extensa e uma estrutura urbana complexa antes de ser a grande capital industrial que é hoje. A planta que se segue, cuja data não está registrada no site de onde a extraí, mostra um pouco da grandeza que terá alcançado no passado, pela extensão da muralha que a cerca e pela densidade de ocupação que se depreende do grande número de edificações.

Fonte: https://blog.cavezzale.com/milao-tudo-o-que-voce-precisa-saber/

A segunda metade do segundo milênio depois de Cristo foi conturbada para Milão, que esteve sob vários domínios: o espanhol em 1500, o austríaco em 1700, além de ser ocupada por Napoleão I em 1796, que a declarou capital do Reino da Itália em 1805.

Aqui, aproveito para um parêntese. Napoleão, em Paris, encomendou ao grande arquiteto e escultor Antonio Canova que fizesse uma estátua sua. Parece que ele teria preferido uma imagem que o associaria a um guerreiro, mas o grande artista preferiu passar a ideia de um “Marte Pacificador”, que carrega na mão direita o “mundo”.  A majestosa escultura é conhecida como o “traseiro” mais bonito de Milão (fonte: https://www.facebook.com/Milao.nas.maos/posts/ 534608799950700/), o que não seria exagero porque pude constatar a beleza das formas moldadas, mas Bonaporte não gostou do resultado do trabalho de Canova e a obra ficou meio esquecida nos porões do Louvre, foi depois apossada por quem o venceu em Waterloo. A versão que está em Milão é uma das cinco cópias feitas pelo próprio Canova. Foi ela que hoje vi exposta na Pinacoteca di Brera (aliás, uma visita imperdível para quem vem a Milão). A original está em Londres.

Fonte da imagem: https://historia-arte.com/obras/napoleon-como-marte-pacificador

Impressiona muito sua imponência, dada pelos de mais de 3 metros de altura, pela altivez da postura e pela perfeição dos detalhes, mas digamos que não corresponde em nada a outras representações de Napoleão, que nem era alto, nem tinha um corpo tão parecido com o de David de Michelângelo. Observa, leitor, como ele está bonitão na estátua, e não se parece nem um pouco com a pintura que Paul Delaroche fez dele em 1845, em que a baixa estatura e a barriguinha se destacam.

Fonte: https://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/conheca-10-fatos-sobre-a-vida-de-napoleao-bonaparte/

Fechando o parêntese que nos faz refletir sobre o que o poder propicia a alguém, voltamos a alguns aspectos sobre Milão e não é demais lembrar que, mesmo sendo apenas a capital da Lombardia, norte da Itália, rivaliza com a capital do país, Roma. Ainda que perca para ela no que concerne à população, é mais importante economicamente. Seu crescimento industrial levou-a ao patamar de cidade mais desenvolvida do país, na segunda metade do século XX, após o difícil período da segunda guerra mundial, quando foi bombardeada gravemente.

Em função desse movimento de industrialização, ampliaram-se as oposições entre o norte e o sul da Itália, este, considerado “conservador e atrasado”.  Sem dúvida, a chegada de imigrantes estrangeiros e das regiões mais pobres do país propiciou o crescimento do mercado de consumo e reforçou a tendência de progresso material e social.  O PIB per capita de Milão é 1,6 vez maior que o média da União Européia e é por isso, também, uma cidade muito cara para seus moradores e para os turistas.

Se foi a atividade industrial que a notabilizou no pós-guerra, hoje a grande metrópole é mais identificada como centro financeiro e de inovação na moda e no design.

São Paulo, de outro lado, completará daqui a trinta e poucos anos, cinco séculos de vida, portanto as camadas de história que a compõem são menos densas que as de Milão. Não há dúvida que a influência da imigração, tanto as correntes desenhadas pelos que vieram do nordeste do Brasil, como as de estrangeiros, revelam similitude com a situação de Milão no século XX, razão pela qual as duas são caracterizadas, do ponto de vista social e cultural, como cosmopolitas.

Também São Paulo é, hoje, mais um centro financeiro do que apenas industrial. Se olhamos os rankings das principais bolsas de valores do mundo, a de São Paulo aparece, ora em 8º lugar (https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_bolsas_ devalores), ora em 19º. (https://vocesa.abril.com.br/mercado-financeiro/qual-e-a-capitalizacao-de-mercado-das-10-maiores-bolsas-do-mundo/). Não dá para confiar muito, mas como  Bolsa a de Milão não compõe a importante tríade europeia (Paris, Londres, Frankfurt) e nem aparece nessas classificações internacionais, São Paulo ocupa posição mais importante neste quesito, inclusive por ser definida como a cidade global mais importante do Hemisfério Sul.

Pode-se concluir, muito superficialmente, que São Paulo foi, em muitos aspectos, mais célere que Milão, porque cresceu e alcançou indicadores bastante positivos, no cenário nacional e internacional, em menos tempo de vida. Entretanto, é andando pelas ruas em Milão que se aquilata o avesso do crescimento paulistano. As desigualdades lá são menores, sem dúvida, e isso não tem rebatimento apenas na vida econômica, mas se reflete na vida social, política e cultural.

Em Milão há pobres, é claro, porque, com a globalização, inclusive, eles andam por todo lado em busca de trabalho e compõem a face nova do chamado “Primeiro Mundo”. Vi, aqui e ali, gente pedindo esmolas, mas em número menor e situações de rua bem menos precárias do que aquelas observadas em São Paulo, onde atualmente moram cerca de 48 mil pessoas em espaços públicos, segundo o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas

Também há gente sem trabalho, em Milão, porque a economia flutua, a tecnologia se expande e as pessoas tornam-se descartáveis.

Há decadência em parte do patrimônio arquitetônico da cidade, não obstante haja esforços enormes para a recuperação e manutenção da maior parcela dessa herança fabulosa que os séculos legaram, como se pode ver pelo grande número de fachadas que estão sendo limpas e recuperadas e pela mudança de usos, mas mantença dos principais elementos das construções mais antigas: um palacete residencial de outrora é sede de um banco hoje; edifícios de apartamentos do século XIX adaptam-se para hospedagens modernas, que combinam hotéis com AirBnB; uma mansão com jardins abriga uma fundação que cuida de arte; lojas no térreo dos edifícios mais bonitos são ocupadas por antiquários e boutiques. Nisso ela se distingue de São Paulo, onde vemos edifícios, casas, casarões e palacetes desvalorizados social e culturalmente, tanto no Centro Velho como nos Campos Elíseos, Brás e Bexiga; pouco restou das mansões dos barões do café e primeiros industriais na Avenida Paulista, outras construções sendo demolidas sem qualquer apreço pelo passado da cidade que Caetano Veloso batizou de Sampa.

Para resumir, a diferença entre as duas cidades está, na essência, na intensidade com que as mazelas transparecem na paisagem urbana, sobretudo porque, em Milão, há cultura por todo lado, há vida pública, há encontro entre os diferentes, ainda que as tensões estejam no ar. Esse viver na cidade de Milão esmaece as cores dos problemas urbanos que são, efetivamente, menores e menos profundos que os paulistanos.

Foi maravilhoso ver, em três dias, grupos de estudantes, da pré-escola ao ensino médio, escutando as explicações de seus professores sobre detalhes do patrimônio artístico e arquitetônico da cidade, ou simplesmente dirigindo-se para visitas nos museus de Milão.

As permanências misturam-se bem às transformações em Milão. O metrô se expande, sem que os bondes tenham sido retirados de circulação, como ocorreu em São Paulo.

Termino esse registro sobre Milão, com a maravilhosa tela “O Beijo”, de 1859, pintura de Francesco Hayez, de quem nunca tinha ouvido falar, mas cuja obra, também na Pinacoteca di Brera, me encantou.

Fonte: https://albalu.it/products/il-bacio-francesco-hayez-riproduzione-quadro-su-tela?variant

Carminha Beltrão

Março de 2023

L’Occitanie 2 – La métropole de Toulouse

Fonte da foto: https://visiterlafrance.fr/visiter-toulouse/

Há muitos modos de se fazer turismo e isto todo mundo sabe. Vamos fazendo escolhas que variam segundo várias condições: o país ou região que visitamos, o orçamento de que dispomos, o tempo livre para viajar, nossa idade e interesses culturais. Também colocamos na balança experiências vividas em outras viagens, oportunidades que aparecem e que abraçamos ou não.

Sou considerada uma pessoa organizada, que gosta de planejar o que vai fazer e isso é verdade. No entanto, no que se refere às viagens mais recentes, ainda que haja sempre um conjunto de ações que a antecedem – escolher a região e o trajeto; decidir se vamos nos hospedar em hotéis, AirBnB ou B&B; avaliar se é melhor ir de avião, trem, ônibus ou carro; ponderar se é uma viagem a dois ou com mais amigos etc. – tenho preferido apostar no inusitado o que, algumas vezes, pode ser também o incomum.

Essa busca do incomum tem a ver com, ao menos, duas constatações: – tenho que fazer escolhas muito especiais, porque o tempo que tenho adiante, em termos de vida, é menor do que aquele que já vivi e isso significa que é preciso selecionar, valorizar, intensificar a experiência, ao invés de multiplicá-la; – não é possível reter na memória tudo o que vivemos numa viagem, por isso a ideia de fazer o máximo de coisas num dia está completamente descartada, em favor da opção de se fazer algumas coisas interessantes, parar para tomar um café, apreciar a decoração de uma vitrine, curtir um céu azul, ficar por longos minutos olhando uma praça ou uma criança que se diverte sob o sol.

Como sou professora e pesquisadora no campo da Geografia Urbana tenho um interesse especial pelas cidades, de todos os tipos, tamanhos e funções, mas, ao mesmo tempo, eu me esforço para me despir de qualquer conhecimento científico que tenho sobre elas, o que é, evidentemente impossível, mas não custa tentar, não é mesmo? Assim, desculpem-me se, muitas vezes, estou escrevendo num tom professoral…

A Occitanie tem como cidade principal Toulouse, chamada na língua occitana de Tolosa. É considerada uma metrópole na hierarquia urbana francesa, embora seja um pouco menor do que aquelas áreas urbanas que definimos como tal no Brasil. Tudo é relativo, como bem sabemos. Tem pouco mais de um milhão de habitantes e ocupa a quinta posição no ranking francês.

Principais áreas urbanas francesasPopulação
Paris11.142.000
Lyon1.748.000
Marseille-Aix-en-Provence1.620.000
Lille1.073.000
Toulouse1.049.000
Bordeaux991.000
https://www.macrotrends.net/cities/20997/toulouse/population

Os dados mostram a onipresença parisiense na rede urbana francesa, ainda que, nos anos de 1960, tenha havido um grande programa governamental para promover descentralização, por meio da eleição de “métropoles de développement” com base na Teoria de François Perroux que visava investimentos públicos maciços em algumas cidades estrategicamente situadas, de modo a que elas atraíssem outros investimentos privados e, assim, pudesse se promover a desconcentração metropolitana da capital. Pois é, Toulouse foi uma das cidades escolhidas e a ela foram destinados investimentos para o desenvolvimento de um polo aeroespacial. Deu certo? Em parte, sim, porque as universidades e o institutos de pesquisa sediados em Toulouse vêm tendo resultados positivos nessa direção, ainda que Paris não tenha perdido, proporcionalmente, sua posição macrocefálica. No entanto, isso pouco interessa para o que eu quero contar aqui.

Toulouse é uma cidade en bric, como se faz referência, em francês, à sua arquitetura na área central fortemente caracterizada pelo tijolo à vista. O Capitolium, sua edificação mais importante, sede do governo regional, é marcante na paisagem urbana central, cuja grande praça é complementada por largas fachadas de outras edificações também em tijolo. Tal como a conhecemos hoje, essa construção teve início no século XVII, mas a história da cidade, bem como da própria praça, começa muito antes. Já no século II a.C., tornou-se um posto militar importante do Império Romano, Gallia Narbonensis. Com a queda o império, ficou sob o domínio do Reino Visigótico e mais tarde sob o poder dos francos. Muitos séculos depois, tornou-se capital do Condado de Toulouse e, em 1271, foi incorporada ao Reino da França.

Na face oposta à sede do governo, a fachada fica divertida com os bares e restaurantes que, no verão, abrem seus imensos guarda-sóis. Que línguas dominam o ambiente? O espanhol e o inglês.

Enquanto os franceses adoram a Provence, à leste da Occitanie, os espanhóis aproveitam a proximidade para curtir esta região, e os ingleses, para fugir do céu nublado que predomina na Ilha da Grã-Bretanha. 

Daria para escrever páginas sobre essa praça tão linda que, do ponto de vista do urbanismo, lembra muito as plazas mayores espanholas, pela harmonia arquitetônica que resulta da composição das suas quatro faces, pelo amplo espaço vazio central e pela vida social que nela se observa.

De fato, todo o centro histórico de Toulouse é caracterizado pelo bric, por isso ela é chamada de“Cidade rosada” (embora ficasse melhor o adjetivo ocre ou marron).Esta área pode ser circunscrita entre essa praça central, La Place du Capitole, onde também está o Thêatre du Capitole; a Basílica de Saint Sernin de Toulouse, com sua torre tão especial; e o Rio Garonne. Neste polígono, também estão as edificações mais antigas da Université de Toulouse e o patrimônio arquitetônico do Convento dos Jacobinos. Hoje grande parte deste espaço histórico ainda tem moradias, mas os térreos são ocupados por atividades comerciais e de serviços, com destaque para as culturais e as voltadas à restauração, principalmente de turistas – cafés, pequenos restaurantes, lojas de lembranças etc. O centro comercial principal, com as grandes redes – Zara, Fnac, Lafayette, C&A etc. etc. está a leste deste setor e, também, tem muitas edificações em tijolos à vista.

Google Maps

Da visita à basílica, ficam na memória, além da torre, o lindo portal lateral, com altos relevos muito bem esculpidos e a longa e elevada nave principal que, pela claridade, contrasta com os tons terrosos externos.

Não deu tempo de conhecer a Cité de L’Espace. Eu avisei, desde o começo, que a ideia era selecionar, mas fica o registro: ela foi construída em 1997 para democratizar os conhecimentos ligados à fabricação do Airbus que se associam à astronomia e à astronáutica.  

Carminha Beltrão

Julho de 2022

 

L’Occitanie 1 – Areia, Ocre e Dourada

https://www.dreamstime.com/stock-illustration-panoramic-window-ochre-tones-background-warm-colors-image64325356

Occitanie não é apenas relativa a uma marca de perfumes, cremes e cosméticos que, com a globalização, está por toda parte. É o nome de uma das regiões da França cuja cidade principal é Toulouse. Havia passado por ela, no verão europeu de 1995, vindo da Espanha, mas muito pouca coisa havia ficado na memória deste território tão cheio de história e cultura.

Agora, a escolha pela hospedagem na área rural e alguns dias para apreciar com calma suas paisagens, me puxaram da memória visual as lindas paisagens da Toscana. Acho que é isso: A Occitanie passa a ficar registrada no meu imaginário como uma região francesa, mas muito italiana.

Fonte: https://br.freepik.com/vetores-premium/mapa-multicolorido-de-franca-com-as-regioes_4935639.htm

Sua bandeira vermelha e amarela tem relação com a da Catalunha. No passado, as duas regiões compunham um mesmo território e os dialetos falados nele tinham a mesma origem linguística. Não sei a que se devem o vermelho e o amarelo, mas para mim, as cores oficiais da Occitanie deveriam ser areia, ocre e dourado. As rochas calcárias das construções, o trigo e os campos de girassóis compõem uma mescla de tons e subtons que encanta.

Não imaginava que fosse um região tão forte, do ponto de vista agrícola, mas acabo de verificar que é a mais importante da França, com suas 60 mil propriedades que compreendem 16% do total da produção do país (https://occitanie.chambre-agriculture.fr/chiffres-cles/agriculture-doccitanie/).

No mês de julho está acabando uma das colheitas anuais do trigo e a palha seca se espalha à medida que os grandes tratores fazem seu trabalho. Tudo mecanizado e se vê muito pouca gente trabalhando. Entremeios, estão os campos de girassóis que são de se apreciar de joelhos de tão lindos. O contraste do azul do céu ajudava a tornar os areias, ocres e dourados ainda mais vibrantes.

O enorme patrimônio arquitetônico que está fora e dentro das cidades impressiona pela diversidade e densidade das construções, pela cor clara das rochas calcárias, enfeitadas com os tons das janelas de madeira, ora pintadas de branco, ora de azul provençal, ora de verde.  Pelo que pude observar, grande parte das construções mais comuns são dos séculos XVII e XVIII. Alguns castelinhos remanescem dos séculos anteriores, e mais antigos ainda são os conventos e abadias edificados no período medieval, mas sobre estes escreverei algo em outro texto. Nota-se que há tanto imóveis ocupados pelo pequeno número de pessoas que ainda mora no campo, como também os que parecem ser segunda moradia, uma vez que estão elegantemente recuperados, com piscinas e vários carros estacionados nos finais de semana. Resta, ainda, um grande número de edificações desocupadas, precisando de recuperação.

Saint Felix Lauragais
Aragon

Na Occitanie, ficamos hospedados entre as villages Les Cassés (300 habitantes) e Saint-Felix-Lauragais (1.270 habitantes), onde Olivia nos recebeu, na sua propriedade “Laborde Pouzaque”. Ela adquiriu um grande galpão que, outrora, funcionava como: casa do proprietário rural; celeiro, onde se armazenava a colheita; e estábulo para os animais.

Ela nos contou que já morou em várias cidades francesas e, ultimamente, em Aix-em-Provence. Residiu também no nordeste dos Estados Unidos. Recentemente resolveu fazer um investimento grande, para recuperar a edificação e se mudar para um lugar tranquilo, de modo a se dedicar às suas pintuas, porque é artista plástica. A maior parte da construção é sua residência e há dois lofts para aluguel. Tudo muito bem refeito internamente, com conforto e, sobretudo, com o desfrute das lindas paisagens desta região, pois a grande edificação fica no topo de uma colina. As três primeiras fotos são do próprio AirBnB, as outras são minhas.

Laborde Pouzaque
Laborde Pouzaque
Laborde Pouzaque
Laborde Pouzaque
Laborde Pouzaque

Outra coisa maravilhosa da Occitanie, como aliás de toda a França, são as pequenas estradas, classificadas como departamentais. Optamos todo o tempo por viajar por elas evitando as autopistas, nas quais não podemos apreciar as paisagens, por causa dos panéis laterais colocados para proteger os moradores lindeiros do barulho. Em várias dessas estradinhas, alamedas formadas por árvores dos dois lados ajudavam a aliviar o calor que está intenso nessa época do ano.

Carminha Beltrão

Julho de 2022

Copenhagen 2

Não é sem razão que, num desenho sobre Copenhagen, apareça no primeiro plano um de seus canais. Compõem, ainda, a imagem embarcações, prédios coloridose torres. Temos aí os elementos principais de sua paisagem urbana.

As torres e cúpulas são muitas e de vários estilos e idades. Algumas são de igrejas, outras são de prédios públicos. Como, na parte mais antiga da cidade, as edificações não são muito altas, elas se destacam e acabam sendo ponto de referência para nos deslocarmos numa cidade cujo plano urbano guarda traços do período medieval e se entrelaça com os canais. Quem cresceu em cidades de plano urbano ortogonal precisa de estratégias para se movimentar em cidades cujo arruamento tem séculos e séculos e não foi necessariamente desenhada antes de ser inscrita no espaço.

As torres do prédio da City Hall (prefeitura) e do Centro de Arte Contemporânea destacam-se, a primeira por se encontrar numa das praças principais da cidade – “Rådhuspladsen” -, a segunda porque ocupa o que sobrou da Igreja de San Nicolás após o incêndio de 1795.

Na área antiga da cidade – Oresund – está o Observatório astronômico na torre redonda Rundetarn.  Uma das mais atrativas da cidade é a da Vor Frelsers Kirke, que está na Igreja de San Salvador, de 1680, no bairro Cristiânia (Christianshavn). Sua escada em espiral tem 398 degraus, entre os quais cerca de 150 são externos e levam ao topo da torre que está a 90 m de altura, onde a escada simplesmente termina, não levando a mais lugar nenhum. Nem contei os degraus, nem os subi, mas meu marido fez isso e de lá realizou registros fotográficos lindos, os quais reproduzo.

Entre as duas que se seguem, a torre da direita é do Palácio de Christiansborg. Quem assistiu a série da Netflix denominada Borgen, já conhece essa construção que reúne os poderes legislativo (Parlamento), executivo (Gabinete do Primeiro-Ministro) e judiciário (Supremo Tribunal). Aos que não assistiram a série, recomendo, porque ela diz muito sobre o modo de vida na Dinamarca e tem algum paralelo com sua ex-primeira ministra Mette Frederiksen, que assumiu esse cargo aos 41 anos de idade, em 2011.

As mais bonitas são douradas, como a desta igreja cristã que, à primeira vista, parecia otomana.

A grande cúpula circular localizada ao lado do Palácio Amalienborg, onde reside a família real, é da chamada Igreja de Mármore (Marmorkirke), cuja construção é inspirada na Basílica de São Pedro do Vaticano.

Foram quase dois séculos para sua construção.

Tem as torres muito diferentes, como a do prédio chamado Borsen. É composta por quatro dragões, cujas caudas estão entrelaçadas. Nossa representação de dragões não inclui animais tão alongados, por isso parece bastante engraçado que alguém tenha tido essa ideia.

O prédio foi construído em 1619, por Christian IV, o rei construtor. Trata-se de um bom exemplo do estilo renascentista dinamarquês e abrigava a antiga Bolsa de Valores da Dinamarca que, segunda consta, é a mais antiga do mundo. Os quatro dragões representam quatro países que Christian queria unir sob liderança do seu – Dinamarca, Suécia, Noruega e Finlândia.

Com tantas torres não foi sem surpresa que, na loja da Lego, no país de sua origem, a vitrine principal seja a que está na foto.

A história da empresa dos brinquedos LEGO está associada a uma origem humilde, na oficina de Ole Kirk Christiansen, um mestre carpinteiro da Dinamarca.

A inovação que trouxe à sua pequena empresa familiar prosperaria e se tornaria uma das mais respeitadas empresas do segmento de brinquedos no mundo. […]

Em 1947, Ole Kirk e seu filho Godtfred obtiveram amostras de tijolos plásticos que se encaixavam, produzidos pela empresa inglesa Kiddicraft.

Os chamados Kiddicraft Self-Locking Building Bricks foram projetados e patenteados por Hilary Harry Fisher Page, um cidadão britânico (Wikipédia)

Uma visão de conjunto do core da cidade mostra a imponência de três de suas principais torres – a do Borgen, a da Bolsa e da antiga igreja de San Nicolás, hoje museu.

https://www.hisour.com/pt/architecture-in-copenhagen-31373/

Ah, os canais de Copenhagen! Além da beleza que a mescla entre terra firme e água proporciona, encanta ver como os canais são apropriados por todos nesta cidade. Há o mais largo por onde é possível chegar um transatlântico, há os super estreitos, que se inserem mais no conjunto construído da cidade e em sua vida cotidiana.

As embarcações são de todo tipo: antigas e modernas, maiores e menores, a remo, a vela e motorizadas; há as que são casas, outras são bares e cafés. Tem para todo gosto. As chatas e largas, para poderem passar sob as pontes mais baixas que ligam as duas margens dos pequenos canais, são as que mais navegam levando, cada uma, mais de 200 turistas para passeios que duram uma hora e pouco. Em qualquer ponto das laterais dos canais, há pequenos pilares de ferro fundido aos quais qualquer um pode amarrar os barcos.

Se você, leitor, for bem relacionado poderá ser convidado a aproveitar as águas que banham Copenhagen a bordo do KDM, o iate real dinamarquês, que é de 1931 e serve como residência oficial e privada da família real.

Tanto tem sido usado para visitas oficiais a outros países, como para passeios mais próximos. Ele tem um porto que é servido por dois lindos gazebos brancos, onde se acomodam a família real e seus convidados à espera do embarque. Repare que o gazebo da direita tem na ponta do telhado a coroa, nele se acomoda a família real, enquanto no da esquerda, seus convidados aguardam a chegada do grande navio. 

Embora seja um porto particular e exclusivo da família real, ele está acessível a qualquer um e, pelo cais lindeiro, as pessoas passeiam e se apropriam de um espaço que é efetivamente público.

Se o dia estiver lindo, sugiro que você termine o passeio tomando uma Carlsberg, que também é um produto original da Dinamarca, no Christianshavns Café, que foi fundado em 1989, e que serve de tudo um pouco, tanto para os que vêm por terra, como para os que param seus barcos para encomendar um frisante tinindo de gelado.

Carminha Beltrão

Maio de 2022

Copenhagen 1

København. Assim é chamada, pelos dinamarqueses, esta cidade tão especial. Vem sendo considerada a melhor para se viver no mundo e tem ganhado prêmios na área de design. Foi eleita a Capital Verde da Europa. Merece! Tudo por aqui parece light e cult.

Há políticas claras na Dinamarca e, por conseguinte em sua capital, para eliminar todas as formas de emissão de carbono até 2025. A energia eólica é uma fonte importante e foi considerado prioritária, por meio de investimentos em usinas para essa finalidade, desde que a Europa sofreu os impactos da elevação do preço do petróleo pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) nos anos de 1970.

Cerca de 15% da energia elétrica do país é oriunda da palha e de outros resíduos biodegradáveis. A energia solar é outra frente de investimento importante. Além da modalidade de painéis fotovoltaicos, também é produzida por meio de lentes e espelhos. O valor dessa escolha está no fato de que o sol brilha, neste país onde as temperaturas médias (médias viu?) estão nos 10ºC, praticamente a metade dos dias de insolação em Lisboa ou Madri[i], para adotar dois exemplos europeus.

Os prédios mais recentes, por força de lei, são obrigados a ter telhados verdes, com dispositivos para coleta da água da chuva, o que auxilia na manutenção da qualidade do ar[ii].

Para atingir as metas propostas também foi construída a CopenHill, uma usina que gera energia a partir de resíduos. Seu projeto arquitetônico é muito bonito e compõe o skyline de Copenhagen.

O que mais chama atenção na Copen Hill? É que, além de tudo, oferece várias opções de lazer: tem uma pista de esqui, uma trilha para caminhada, uma de suas paredes serve à escalada e seu teto verde não apenas embeleza, como possibilita menos absorção de raios infravermelhos. Veja o prédio de outro ponto de vista.

Em decorrência dessas várias iniciativas e de outras, se, em 1990, a maior parte da energia provinha da queima do carvão, em 2019 mais da metade já era eólica.

Ter e usar carro é extremamente out, enquanto andar de bicicleta é in, por isso há imensos estacionamentos para este modal de transporte. A maioria são bikes de duas rodas, mas há também as de três, quando são servidas por uma pequena caçamba frontal onde se acomodam as crianças. A opção das bicicletas de aluguel que estão disponíveis por todo lado, também é muito adotada e, pelo observado, não apenas pelos turistas.

Depois de Amsterdã, Copenhagen é a cidade com maior proporção de uso da bicicleta como meio de locomoção. Estima-se que 50% de seus moradores têm esse modal de transporte como o principal e a cidade tem 400 km de ciclovias[iii]. É bom lembrar que isso se refere a uma população no país que não chega a 6 milhões de habitantes, por isso é bom lembrar que o 10º. lugar da China neste mesmo ranking[iv], com 37% da população pedalando para ir de um ponto ao outro é, em termos absolutos, muito importante.

O engraçado é imaginar que onde hoje está esta cidade olhando para o futuro, desejando tornar-se totalmente sustentável, a ocupação humana teve início em 12.000 a.C., aproveitando-se do fato de que, com o fim da era glacial, estas terras ficaram habitáveis. Vários aglomerados humanos ali estabeleceram-se, mas ainda desenvolvendo atividades de subsistência muito rudimentares.

A chegada dos vikings no século VIII mudou muita coisa. As conquistas que eles empreenderam, a capacidade de construir navios e explorar os mares, levaram à expansão comercial. Eu não assisti, mas já ouvi boas referências à Série Vikings da Netflix (ou na Netflix, pois não sei quem a produziu).

Como cidade, Copenhagen tem sua fundação datada em 1167. Hoje tem um pouco mais de 600 mil habitantes que compõem os quase dois milhões de sua região metropolitana.

Também consta que a Dinamarca tem a monarquia mais antiga do mundo, instaurada pelo viking Harald Blåtand, cujo apelido era Dente Azul. Foi ele quem conseguiu unificar o país ao se apoiar na Igreja e iniciar a entrada do Cristianismo no país e para isso construiu uma cidade – Jelling – um complexo real vinculando o passado pagão ao presente.  

Uma estrutura naviforme com 350 metros de comprimento abrangia o túmulo do pai, Gorm (o montículo mais alto), e a primeira igreja construída defronte deste, com a forma oblonga de navio característica da época. Uma paliçada rodeava o complexo. Durante algum tempo, acreditou-se que no montículo inferior também se alojava uma sepultura, mas a sua escavação revelou que nunca foi usado. As moradias serviam sobretudo de alojamento a guerreiros. Os quatro edifícios do extremo superior foram localizados segundo os dados arqueológicos; quanto ao restante, a localização é provável[v].

Os poderes reais são hoje bem menores do que aqueles que o Dente Azul tinha, uma vez que a rainha Margarida II não pode interferir na condução política ou econômica do país. Nascida em 1940, é rainha desde 1972 e é considerada uma monarca moderna. É artista plástica e suas ilustrações apoiaram a representação de O Senhor dos Anéis.

A ligação entre o passado e o presente não está apenas na continuidade da realeza que liga Harald Blåtand a Margarida II, pois outra referência está na tecnologia Bluetooth, cujo nome se refere ao primeiro rei e à sua força, bem como seu símbolo também. O “B” decorre da união de duas ruinas nórdicas (Hagall e Berkanan) que representam as letras H e B no nosso alfabeto.

A história da cidade de Copenhagen é cheia de altos e baixos, como aliás a de muitas outras no Velho Mundo. No século XV, a frota de navios do país já era considerável e a cidade se destacava por sua posição marítima. A coroa cobrava então pedágio aos navios que passavam por ali. Não é à toa que a palavra København significa “cidade dos mercadores”.

Entre os grandes líderes, além do citado Harald Blåtand, destaca-se o rei Cristian IV, que foi coroado em 1596 e  apelidado de o “rei construtor”, pelo número de monumentos que foram erguidos no seu reinado – Castelo de Frederisborg, Biblioteca Real, Castelo de Rosenborg e Torre Rundetaarn.

Em 1728, a cidade sofreu um incêndio e queimou por três dias, o que levou à destruição de toda a cidade medieval. Somente no século XIX retomou seu crescimento e um dos marcos da nova fase da cidade são os Jardins de Tivoli.

Durante as duas guerras do século XX, o país procurou ficar neutro, ainda que os alemães o tenham ocupado. Estrategicamente, os judeus já tinham se deslocado para a Suécia que politicamente mantinha posição neutra.

A Dinamarca ocupa a Península da Jutlândia e as Ilhas da Zelândia e Funen, e a capital posiciona-se bastante excentricamente a leste, a um pulinho da cidade sueca Malmö.

A situação geográfica da cidade interfere diretamente em seu sítio urbano entrecortado por canais que são seu charme. Desse ponto de vista, lembra um pouco de São Petersburgo.

Mas, sobre os canais e outros pontos turísticos da cidade, escrevo mais um pouco adiante.

Carminha Beltrão

Maio de 2022

Fontes das fotos e do mapa


[i] https://pt.euronews.com/2017/04/27/dinamarca-usa-o-sol-para-produzir-energia-eletrica-e-termica-numa-unica-central.

[ii] https://energiainteligenteufjf.com.br/meio-ambiente/copenhagen-a-cidade-mais-sustentavel-do-mundo/

[iii] https://www.tudosobrecopenhague.com/bicicleta

[iv] https://top10mais.org/top-10-paises-com-mais-bicicletas-por-habitantes-no-mundo/

[v] https://nationalgeographic.pt/historia/grandes-reportagens/370-fogo-do-norte