L’Occitanie 1 – Areia, Ocre e Dourada

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Occitanie não é apenas relativa a uma marca de perfumes, cremes e cosméticos que, com a globalização, está por toda parte. É o nome de uma das regiões da França cuja cidade principal é Toulouse. Havia passado por ela, no verão europeu de 1995, vindo da Espanha, mas muito pouca coisa havia ficado na memória deste território tão cheio de história e cultura.

Agora, a escolha pela hospedagem na área rural e alguns dias para apreciar com calma suas paisagens, me puxaram da memória visual as lindas paisagens da Toscana. Acho que é isso: A Occitanie passa a ficar registrada no meu imaginário como uma região francesa, mas muito italiana.

Fonte: https://br.freepik.com/vetores-premium/mapa-multicolorido-de-franca-com-as-regioes_4935639.htm

Sua bandeira vermelha e amarela tem relação com a da Catalunha. No passado, as duas regiões compunham um mesmo território e os dialetos falados nele tinham a mesma origem linguística. Não sei a que se devem o vermelho e o amarelo, mas para mim, as cores oficiais da Occitanie deveriam ser areia, ocre e dourado. As rochas calcárias das construções, o trigo e os campos de girassóis compõem uma mescla de tons e subtons que encanta.

Não imaginava que fosse um região tão forte, do ponto de vista agrícola, mas acabo de verificar que é a mais importante da França, com suas 60 mil propriedades que compreendem 16% do total da produção do país (https://occitanie.chambre-agriculture.fr/chiffres-cles/agriculture-doccitanie/).

No mês de julho está acabando uma das colheitas anuais do trigo e a palha seca se espalha à medida que os grandes tratores fazem seu trabalho. Tudo mecanizado e se vê muito pouca gente trabalhando. Entremeios, estão os campos de girassóis que são de se apreciar de joelhos de tão lindos. O contraste do azul do céu ajudava a tornar os areias, ocres e dourados ainda mais vibrantes.

O enorme patrimônio arquitetônico que está fora e dentro das cidades impressiona pela diversidade e densidade das construções, pela cor clara das rochas calcárias, enfeitadas com os tons das janelas de madeira, ora pintadas de branco, ora de azul provençal, ora de verde.  Pelo que pude observar, grande parte das construções mais comuns são dos séculos XVII e XVIII. Alguns castelinhos remanescem dos séculos anteriores, e mais antigos ainda são os conventos e abadias edificados no período medieval, mas sobre estes escreverei algo em outro texto. Nota-se que há tanto imóveis ocupados pelo pequeno número de pessoas que ainda mora no campo, como também os que parecem ser segunda moradia, uma vez que estão elegantemente recuperados, com piscinas e vários carros estacionados nos finais de semana. Resta, ainda, um grande número de edificações desocupadas, precisando de recuperação.

Saint Felix Lauragais
Aragon

Na Occitanie, ficamos hospedados entre as villages Les Cassés (300 habitantes) e Saint-Felix-Lauragais (1.270 habitantes), onde Olivia nos recebeu, na sua propriedade “Laborde Pouzaque”. Ela adquiriu um grande galpão que, outrora, funcionava como: casa do proprietário rural; celeiro, onde se armazenava a colheita; e estábulo para os animais.

Ela nos contou que já morou em várias cidades francesas e, ultimamente, em Aix-em-Provence. Residiu também no nordeste dos Estados Unidos. Recentemente resolveu fazer um investimento grande, para recuperar a edificação e se mudar para um lugar tranquilo, de modo a se dedicar às suas pintuas, porque é artista plástica. A maior parte da construção é sua residência e há dois lofts para aluguel. Tudo muito bem refeito internamente, com conforto e, sobretudo, com o desfrute das lindas paisagens desta região, pois a grande edificação fica no topo de uma colina. As três primeiras fotos são do próprio AirBnB, as outras são minhas.

Laborde Pouzaque
Laborde Pouzaque
Laborde Pouzaque
Laborde Pouzaque
Laborde Pouzaque

Outra coisa maravilhosa da Occitanie, como aliás de toda a França, são as pequenas estradas, classificadas como departamentais. Optamos todo o tempo por viajar por elas evitando as autopistas, nas quais não podemos apreciar as paisagens, por causa dos panéis laterais colocados para proteger os moradores lindeiros do barulho. Em várias dessas estradinhas, alamedas formadas por árvores dos dois lados ajudavam a aliviar o calor que está intenso nessa época do ano.

Carminha Beltrão

Julho de 2022

Copenhagen 2

Não é sem razão que, num desenho sobre Copenhagen, apareça no primeiro plano um de seus canais. Compõem, ainda, a imagem embarcações, prédios coloridose torres. Temos aí os elementos principais de sua paisagem urbana.

As torres e cúpulas são muitas e de vários estilos e idades. Algumas são de igrejas, outras são de prédios públicos. Como, na parte mais antiga da cidade, as edificações não são muito altas, elas se destacam e acabam sendo ponto de referência para nos deslocarmos numa cidade cujo plano urbano guarda traços do período medieval e se entrelaça com os canais. Quem cresceu em cidades de plano urbano ortogonal precisa de estratégias para se movimentar em cidades cujo arruamento tem séculos e séculos e não foi necessariamente desenhada antes de ser inscrita no espaço.

As torres do prédio da City Hall (prefeitura) e do Centro de Arte Contemporânea destacam-se, a primeira por se encontrar numa das praças principais da cidade – “Rådhuspladsen” -, a segunda porque ocupa o que sobrou da Igreja de San Nicolás após o incêndio de 1795.

Na área antiga da cidade – Oresund – está o Observatório astronômico na torre redonda Rundetarn.  Uma das mais atrativas da cidade é a da Vor Frelsers Kirke, que está na Igreja de San Salvador, de 1680, no bairro Cristiânia (Christianshavn). Sua escada em espiral tem 398 degraus, entre os quais cerca de 150 são externos e levam ao topo da torre que está a 90 m de altura, onde a escada simplesmente termina, não levando a mais lugar nenhum. Nem contei os degraus, nem os subi, mas meu marido fez isso e de lá realizou registros fotográficos lindos, os quais reproduzo.

Entre as duas que se seguem, a torre da direita é do Palácio de Christiansborg. Quem assistiu a série da Netflix denominada Borgen, já conhece essa construção que reúne os poderes legislativo (Parlamento), executivo (Gabinete do Primeiro-Ministro) e judiciário (Supremo Tribunal). Aos que não assistiram a série, recomendo, porque ela diz muito sobre o modo de vida na Dinamarca e tem algum paralelo com sua ex-primeira ministra Mette Frederiksen, que assumiu esse cargo aos 41 anos de idade, em 2011.

As mais bonitas são douradas, como a desta igreja cristã que, à primeira vista, parecia otomana.

A grande cúpula circular localizada ao lado do Palácio Amalienborg, onde reside a família real, é da chamada Igreja de Mármore (Marmorkirke), cuja construção é inspirada na Basílica de São Pedro do Vaticano.

Foram quase dois séculos para sua construção.

Tem as torres muito diferentes, como a do prédio chamado Borsen. É composta por quatro dragões, cujas caudas estão entrelaçadas. Nossa representação de dragões não inclui animais tão alongados, por isso parece bastante engraçado que alguém tenha tido essa ideia.

O prédio foi construído em 1619, por Christian IV, o rei construtor. Trata-se de um bom exemplo do estilo renascentista dinamarquês e abrigava a antiga Bolsa de Valores da Dinamarca que, segunda consta, é a mais antiga do mundo. Os quatro dragões representam quatro países que Christian queria unir sob liderança do seu – Dinamarca, Suécia, Noruega e Finlândia.

Com tantas torres não foi sem surpresa que, na loja da Lego, no país de sua origem, a vitrine principal seja a que está na foto.

A história da empresa dos brinquedos LEGO está associada a uma origem humilde, na oficina de Ole Kirk Christiansen, um mestre carpinteiro da Dinamarca.

A inovação que trouxe à sua pequena empresa familiar prosperaria e se tornaria uma das mais respeitadas empresas do segmento de brinquedos no mundo. […]

Em 1947, Ole Kirk e seu filho Godtfred obtiveram amostras de tijolos plásticos que se encaixavam, produzidos pela empresa inglesa Kiddicraft.

Os chamados Kiddicraft Self-Locking Building Bricks foram projetados e patenteados por Hilary Harry Fisher Page, um cidadão britânico (Wikipédia)

Uma visão de conjunto do core da cidade mostra a imponência de três de suas principais torres – a do Borgen, a da Bolsa e da antiga igreja de San Nicolás, hoje museu.

https://www.hisour.com/pt/architecture-in-copenhagen-31373/

Ah, os canais de Copenhagen! Além da beleza que a mescla entre terra firme e água proporciona, encanta ver como os canais são apropriados por todos nesta cidade. Há o mais largo por onde é possível chegar um transatlântico, há os super estreitos, que se inserem mais no conjunto construído da cidade e em sua vida cotidiana.

As embarcações são de todo tipo: antigas e modernas, maiores e menores, a remo, a vela e motorizadas; há as que são casas, outras são bares e cafés. Tem para todo gosto. As chatas e largas, para poderem passar sob as pontes mais baixas que ligam as duas margens dos pequenos canais, são as que mais navegam levando, cada uma, mais de 200 turistas para passeios que duram uma hora e pouco. Em qualquer ponto das laterais dos canais, há pequenos pilares de ferro fundido aos quais qualquer um pode amarrar os barcos.

Se você, leitor, for bem relacionado poderá ser convidado a aproveitar as águas que banham Copenhagen a bordo do KDM, o iate real dinamarquês, que é de 1931 e serve como residência oficial e privada da família real.

Tanto tem sido usado para visitas oficiais a outros países, como para passeios mais próximos. Ele tem um porto que é servido por dois lindos gazebos brancos, onde se acomodam a família real e seus convidados à espera do embarque. Repare que o gazebo da direita tem na ponta do telhado a coroa, nele se acomoda a família real, enquanto no da esquerda, seus convidados aguardam a chegada do grande navio. 

Embora seja um porto particular e exclusivo da família real, ele está acessível a qualquer um e, pelo cais lindeiro, as pessoas passeiam e se apropriam de um espaço que é efetivamente público.

Se o dia estiver lindo, sugiro que você termine o passeio tomando uma Carlsberg, que também é um produto original da Dinamarca, no Christianshavns Café, que foi fundado em 1989, e que serve de tudo um pouco, tanto para os que vêm por terra, como para os que param seus barcos para encomendar um frisante tinindo de gelado.

Carminha Beltrão

Maio de 2022

Copenhagen 1

København. Assim é chamada, pelos dinamarqueses, esta cidade tão especial. Vem sendo considerada a melhor para se viver no mundo e tem ganhado prêmios na área de design. Foi eleita a Capital Verde da Europa. Merece! Tudo por aqui parece light e cult.

Há políticas claras na Dinamarca e, por conseguinte em sua capital, para eliminar todas as formas de emissão de carbono até 2025. A energia eólica é uma fonte importante e foi considerado prioritária, por meio de investimentos em usinas para essa finalidade, desde que a Europa sofreu os impactos da elevação do preço do petróleo pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) nos anos de 1970.

Cerca de 15% da energia elétrica do país é oriunda da palha e de outros resíduos biodegradáveis. A energia solar é outra frente de investimento importante. Além da modalidade de painéis fotovoltaicos, também é produzida por meio de lentes e espelhos. O valor dessa escolha está no fato de que o sol brilha, neste país onde as temperaturas médias (médias viu?) estão nos 10ºC, praticamente a metade dos dias de insolação em Lisboa ou Madri[i], para adotar dois exemplos europeus.

Os prédios mais recentes, por força de lei, são obrigados a ter telhados verdes, com dispositivos para coleta da água da chuva, o que auxilia na manutenção da qualidade do ar[ii].

Para atingir as metas propostas também foi construída a CopenHill, uma usina que gera energia a partir de resíduos. Seu projeto arquitetônico é muito bonito e compõe o skyline de Copenhagen.

O que mais chama atenção na Copen Hill? É que, além de tudo, oferece várias opções de lazer: tem uma pista de esqui, uma trilha para caminhada, uma de suas paredes serve à escalada e seu teto verde não apenas embeleza, como possibilita menos absorção de raios infravermelhos. Veja o prédio de outro ponto de vista.

Em decorrência dessas várias iniciativas e de outras, se, em 1990, a maior parte da energia provinha da queima do carvão, em 2019 mais da metade já era eólica.

Ter e usar carro é extremamente out, enquanto andar de bicicleta é in, por isso há imensos estacionamentos para este modal de transporte. A maioria são bikes de duas rodas, mas há também as de três, quando são servidas por uma pequena caçamba frontal onde se acomodam as crianças. A opção das bicicletas de aluguel que estão disponíveis por todo lado, também é muito adotada e, pelo observado, não apenas pelos turistas.

Depois de Amsterdã, Copenhagen é a cidade com maior proporção de uso da bicicleta como meio de locomoção. Estima-se que 50% de seus moradores têm esse modal de transporte como o principal e a cidade tem 400 km de ciclovias[iii]. É bom lembrar que isso se refere a uma população no país que não chega a 6 milhões de habitantes, por isso é bom lembrar que o 10º. lugar da China neste mesmo ranking[iv], com 37% da população pedalando para ir de um ponto ao outro é, em termos absolutos, muito importante.

O engraçado é imaginar que onde hoje está esta cidade olhando para o futuro, desejando tornar-se totalmente sustentável, a ocupação humana teve início em 12.000 a.C., aproveitando-se do fato de que, com o fim da era glacial, estas terras ficaram habitáveis. Vários aglomerados humanos ali estabeleceram-se, mas ainda desenvolvendo atividades de subsistência muito rudimentares.

A chegada dos vikings no século VIII mudou muita coisa. As conquistas que eles empreenderam, a capacidade de construir navios e explorar os mares, levaram à expansão comercial. Eu não assisti, mas já ouvi boas referências à Série Vikings da Netflix (ou na Netflix, pois não sei quem a produziu).

Como cidade, Copenhagen tem sua fundação datada em 1167. Hoje tem um pouco mais de 600 mil habitantes que compõem os quase dois milhões de sua região metropolitana.

Também consta que a Dinamarca tem a monarquia mais antiga do mundo, instaurada pelo viking Harald Blåtand, cujo apelido era Dente Azul. Foi ele quem conseguiu unificar o país ao se apoiar na Igreja e iniciar a entrada do Cristianismo no país e para isso construiu uma cidade – Jelling – um complexo real vinculando o passado pagão ao presente.  

Uma estrutura naviforme com 350 metros de comprimento abrangia o túmulo do pai, Gorm (o montículo mais alto), e a primeira igreja construída defronte deste, com a forma oblonga de navio característica da época. Uma paliçada rodeava o complexo. Durante algum tempo, acreditou-se que no montículo inferior também se alojava uma sepultura, mas a sua escavação revelou que nunca foi usado. As moradias serviam sobretudo de alojamento a guerreiros. Os quatro edifícios do extremo superior foram localizados segundo os dados arqueológicos; quanto ao restante, a localização é provável[v].

Os poderes reais são hoje bem menores do que aqueles que o Dente Azul tinha, uma vez que a rainha Margarida II não pode interferir na condução política ou econômica do país. Nascida em 1940, é rainha desde 1972 e é considerada uma monarca moderna. É artista plástica e suas ilustrações apoiaram a representação de O Senhor dos Anéis.

A ligação entre o passado e o presente não está apenas na continuidade da realeza que liga Harald Blåtand a Margarida II, pois outra referência está na tecnologia Bluetooth, cujo nome se refere ao primeiro rei e à sua força, bem como seu símbolo também. O “B” decorre da união de duas ruinas nórdicas (Hagall e Berkanan) que representam as letras H e B no nosso alfabeto.

A história da cidade de Copenhagen é cheia de altos e baixos, como aliás a de muitas outras no Velho Mundo. No século XV, a frota de navios do país já era considerável e a cidade se destacava por sua posição marítima. A coroa cobrava então pedágio aos navios que passavam por ali. Não é à toa que a palavra København significa “cidade dos mercadores”.

Entre os grandes líderes, além do citado Harald Blåtand, destaca-se o rei Cristian IV, que foi coroado em 1596 e  apelidado de o “rei construtor”, pelo número de monumentos que foram erguidos no seu reinado – Castelo de Frederisborg, Biblioteca Real, Castelo de Rosenborg e Torre Rundetaarn.

Em 1728, a cidade sofreu um incêndio e queimou por três dias, o que levou à destruição de toda a cidade medieval. Somente no século XIX retomou seu crescimento e um dos marcos da nova fase da cidade são os Jardins de Tivoli.

Durante as duas guerras do século XX, o país procurou ficar neutro, ainda que os alemães o tenham ocupado. Estrategicamente, os judeus já tinham se deslocado para a Suécia que politicamente mantinha posição neutra.

A Dinamarca ocupa a Península da Jutlândia e as Ilhas da Zelândia e Funen, e a capital posiciona-se bastante excentricamente a leste, a um pulinho da cidade sueca Malmö.

A situação geográfica da cidade interfere diretamente em seu sítio urbano entrecortado por canais que são seu charme. Desse ponto de vista, lembra um pouco de São Petersburgo.

Mas, sobre os canais e outros pontos turísticos da cidade, escrevo mais um pouco adiante.

Carminha Beltrão

Maio de 2022

Fontes das fotos e do mapa


[i] https://pt.euronews.com/2017/04/27/dinamarca-usa-o-sol-para-produzir-energia-eletrica-e-termica-numa-unica-central.

[ii] https://energiainteligenteufjf.com.br/meio-ambiente/copenhagen-a-cidade-mais-sustentavel-do-mundo/

[iii] https://www.tudosobrecopenhague.com/bicicleta

[iv] https://top10mais.org/top-10-paises-com-mais-bicicletas-por-habitantes-no-mundo/

[v] https://nationalgeographic.pt/historia/grandes-reportagens/370-fogo-do-norte

O Ex-libris e Orleans

Não fosse o Ex-libris provavelmente eu não escreveria nada sobre Orleans, ainda que a cidade seja extremamente agradável e o final de semana tenha sido ótimo.

Acho que não estava esperando nada muito especial. Talvez porque, quando dissemos a um amigo francês que íamos passar o final de semana nesta cidade, ele fez uma expressão ao mesmo tempo indagativa e de reprovação, como se perguntasse a razão da escolha e, simultaneamente, já fosse dizendo, antes com o rosto e, em seguida, com as palavras que não valia tanto a pena.

O nosso critério não foi dos mais adequados para se selecionar um lugar interessante, eu admito, visto que pesamos o custo baixo da passagem de trem e a oportunidade de ir a uma cidade perto de Paris que ainda não conhecíamos, tendo apenas o final de semana para isso.

Passamos por ele, por volta de 12h30, num domingo em que tudo estava fechado e o frio estava gelando. Olhei pelo vidro e vi alguém que arrumava as mesas e em seguida acendia as luzes.

Ao meu lado estava a informação, numa plaquinha, que o estabelecimento estaria aberto 7/7 jours, ou seja, todos os dias da semana, das 13h às 20h. Continuamos a caminhada pela rue Royale, considerada a mais bonita de Orleans (cujos edifícios têm suas arcadas, cobrem as calçadas e mostram suas vitrines bem arrumadas), até chegar ao rio Loire. Aventamos a hipótese de voltar mais tarde, mas sem grande convicção.

A rue Royale é a principal e liga o centro de Orleans ao rio Loire, que banha a cidade e a divide em duas. O primeiro mapa dá uma visão de conjunto urbano e o zoom do segundo possibilita ver essa rua em continuidade à ponte.

Extraído do Google Maps
Extraído do Google Maps

Caminhando às margens do rio, demos boas-vindas ao sol que pouco depois das 13h revolveu dar as caras, o que tirou os moradores de dentro de casa. Ficamos lamentando que não haja tantas intervenções urbanas, com a construção de calçadões e a instalação de bancos e luminárias, ao longo de nossos rios, no Brasil. Seria ótimo, pois favoreceria esses tipos de passeio. É muito bom ver os moradores se apropriando desses espaços. Havia gente de todas as idades e de nacionalidades diferentes como os biotipos denotavam. Alguns de patinete ou skate, outros de bike, a maioria a pé, como nós.

No meio do passeio encontramos espreguiçadeiras que estavam ali à disposição. Voltadas para o rio, ofereciam a linda vista e o sol, aquecendo o rosto e o corpo para amenizar as temperaturas baixas.

Enquanto ficava ali, jacarezando como diriam os mais brincalhões, pensei na rue Royale e imaginei o rei entrando por ela na cidade, com parte da corte francesa, em várias carruagens. Talvez os nativos ficassem embaixo das arcadas para saudá-los.

Mais tarde fui olhar na Wikipédia, de onde retirei a foto superior em que a rua está iluminada à noite, e fiquei sabendo que é uma via do século XVIII. Sua abertura foi autorizada por Luís XV, em 1752, em documento em que foi recomendado que as fachadas fossem uniformes e as arcadas simétricas. Assim foi feito.

Extraído da Wikipédia

Depois da Revolução Francesa, essa via teve seu nome trocado para rue d’Egalité, mas recuperou adiante sua nomenclatura original. Sofreu durante a segunda guerra mundial com o bombardeio de 1940, seguido de incêndio, quando mais da metade das fachadas foi destruída. Depois, foi restaurada e segue elegante, sendo agora o eixo por onde circula um tranway, que liga o centro da cidade ao outro lado do rio, por onde as áreas urbanas mais recentes se estendem.

Voltando ao tema que origina esse texto, bem aí, na rue Royale está essa casa de chá convidativa à leitura, de que tanto gostei. Não era possível evitar: depois do passeio ao longo do rio, resolvemos ir até ela. Valeu a pena. Às vezes é difícil explicar por que um lugarzinho encanta tanto a gente. Quando penso nisso, tenho um duplo e contraditório desejo: revisitá-lo outras vezes ou nunca mais voltar para guardar na memória, quase intacta, a sensação tão boa que a primeira visita possibilitou.

Gostei tanto que fiquei com aquela inveja das boas, que não fazem mal a quem se inveja, porque são de admiração.

Perguntei-me como seu proprietário teve a ideia. Imaginei que pode ter sido mero acaso, decorrência de ser o dono do imóvel, não conseguir alugá-lo, razão pela qual acabou abrindo um negócio…; ou que tinha muitos móveis, livros e louças e não sabia o que fazer com eles, então…; talvez sua mãe tenha sido a primeira proprietária e por herança ele teve que continuar o negócio…; ou, muito solitário, pensou em alguma coisa que propiciasse ver pessoas diferentes todos os dias…; quem sabe teve no passado um bom emprego em Paris, mas tendo sido despedido ou tendo ficado cansado do mundo empresarial, resolveu chutar o balde e fazer uma coisa diferente…

Não importa o que o levou à abertura, se proprietário ou empregado, quais as razões que explicam essa escolha. Importa que ali está o Ex-libris[1], um lugar especial.

É pequeno sem ser apertado como 99% dos cafés na França são; tem um mobiliário agradável, sem parecer que saiu da capa de uma revista de decoração de interiores. Misturando algumas relíquias em termos de móveis e objetos com o vermelho, o ambiente fica despido de qualquer sisudez que a decoração antiga poderia levar a ter.

É composto de dois ambientes. Da cozinha que ocupa um pequeno canto no lado oposto à escada circular, é possível observar tanto a primeira sala, cuja porta dá para as arcadas da rua Royale, como a segunda, mais reservada, pois está separada pelas portas de vidro. Em cima, está no mezzanino, que não parece ser de acesso ao público, e que acho que pode ser onde o proprietário mora.

Os pequenos sofás acomodados na sala do fundo, tanto quanto as poltronas que ladeiam as mesinhas da primeira sala convidam à permanência. Um piano, pequenas escrivaninhas e mesinhas compõem o conjunto, com tantos objetos que teríamos distração para muitas horas se quiséssemos observar o valor histórico ou o charme de cada um.

Os móveis nos quais as louças estão expostas não tem nada de muito especial, mas compõem com elas um conjunto que remete ao passado, ao mesmo tempo em que traz uma boa sensação de conforto.

Pedimos um chocolate quente e uma fatia de bolo de limão. Ele trouxe numa bandeja de prata antiga e escolheu uma faiança branca (hoje se diria off White) e preta, que era um luxo de mimosa.  Aliás, o cardápio era singelo: dois tipos de torta doce, chás, chocolate e café.

Tocou o telefone celular, me levantei para me afastar um pouco e atender nosso neto, que queria saber de que países vieram seus avós e bisavós para uma lição da escola. O proprietário, de longe, vendo que eu falava outra língua, veio até mim, perguntando se era italiano. Eu expliquei que era português. Perguntou onde eu morava em Portugal, voltei às explicações, informando que era brasileira. Brésilienne? indagou com o olhar de admiração. Deve ter pensado “Ela vem de muito longe”. Voltou até a cozinha trazendo, em seguida, dois bules, um mais lindo que o outro, informando que eram os mais antigos do seu salão. Eu virei o celular e os mostrei ao Theo que, com seus oito anos, deve ter achado insólita a situação, afinal queria apenas saber de onde vieram seus antepassados.

Nas estantes, que abraçavam os ambientes, havia todos os tipos de livros. Eu me deliciei com um de decoração, encadernação bonita, papel couchet e fotos maravilhosas; Eliseu ficou com uma espécie de pequena enciclopédia dos 1.000 melhores filmes de todos os tempos e achou absurdo que não houvesse menção ao Pagador de Promessas que, afinal, ganhou o prêmio do Festival de Cannes, na França.

Havia publicações de todo tipo. Virei o rosto para o alto, logo ao lado da mesa onde ficamos, e encontrei Mozart ao lado de Gabriel Garcia Marques, e ali estava justamente o meu livro preferido: Cem Anos de Solidão.

Sobre cada mesa, havia um sininho de louça com o qual podíamos chamar o proprietário, que era também o garçon, o cozinheiro e estava antes das 13h limpando e arrumando tudo. O móvel que acomodava o aquecimento também era um charme…

Passamos umas duas horas ali, curtindo esse ambiente tranquilo e fazendo um tipo de turismo que é o de que mais gosto ultimamente – o dos detalhes, aquele que te propicia o inusitado. Como diriam as agências mais capricadas de hoje em dia: “viagens que oferecem experiências”. Neste caso, nada organizado por uma agência, mas resultado da sorte e de algum senso de oportunidade.

Com essa escolha, curtir a casa de chá e leitura, não chegamos a visitar o que vários sites recomendavam – a casa onde morou Joana D’Arc – hoje museu mas, passando por ela, aproveitamos para fotografá-la, bem como a estátua em sua homenagem, na praça principal de Orleans.

No final da tarde de domingo, o largo espaço público, em torno da estátua, estava cheio de gente. Aos pés da heroína francesa, indiferentes a ela, jovens treinavam manobras especiais em seus skates. Adoro essa mescla de tempos diferentes e modos diversos de usar o espaço!

No entanto, não é só do Ex-Libris e de Joana D’Arc que vive Orleans. Sua catedral está entre as cinco mais importantes da região central da França, pelo estilo gótico, pela altura da nave central, pelas pinturas e vitrais, alguns dos quais dedicados à grande heroína.

É difícil acreditar que a ergueram, apenas calculando a sobreposição das pedras, segundo ângulos tão perfeitos que a ogiva se manteria, sem haver ainda concreto armado e ferro fundido na construção. O gótico sempre impressiona!

No dia seguinte à visita à catedral, andando por uma das ruas da cidade, olhei para o lado e vi sua fachada lateral, em que uma torre central se destaca. Achei essa mais bonita que a principal, talvez pelo enquadramento dado pela pequena rua.

Caminhar pelas ruas de Orleans é muito agradável. O centro histórico está numa colina levemente acima do nível do rio, de sorte que não há aclives pesados. Ademais, o passeio é feito sem obstáculos, porque grande parte das ruas se tornou prioritária para pedestres. Por estarem revestidas de pedras graníticas muito desgastadas pelo tempo, é como se a sola dos nossos sapatos deslizasse tornando o passeio suave.

Algumas construções são bem antigas, feitas em enxaimel, outras devem ser do século XIX ou começo do XX. No conjunto estavam bem preservadas e tornavam mais atraente o passeio pelas ruas que se estreitam e se alargam conforme a disposição das casas.

Em frente à Catedral, abre-se a Rua Jeanne D’Arc (ela de novo), bastante imponente pela visão que oferece da magnífica igreja. Ao longo dela, o comércio se estende, com calçadas que convidam à caminhada. Em seu leito outra linha de tramway se impõe, e mais uma vez nota-se claramente a preferência pelos pedestres e pelo transporte público na definição dos usos dos espaços urbanos.

Na Place de Martroi, onde está a estátua da heroína no cavalo, essa rua se encontra com a Royale e o largo espaço livre possibilita que apreciemos o carrossel, uma marca das cidades francesas, e algumas construções muito bonitas que foram residências e agora são ocupadas por atividades comerciais e de serviços, integralmente ou, ao menos, no térreo.


Também gostei muito de visitar o museu instalado no Hotel Groslot, onde antes funcionava a prefeitura de Orleans. O mobiliário está bem preservado e os lindos vasos de faiança, que adornam a sala principal, chamaram atenção, ao lado dos desenhos dos papéis de parede e das grades.

No mais, na semana que todos se preparam para o fim oficial do inverno, Orleans já estava com os canteiros preparados para dar boas-vindas à primavera, com destaque para as amendoeiras.

Carminha Beltrão

Março de 2022

[1] “Ao contrário do que muitos pensam, o ex-líbris não é uma marca do autor em sua obra, mas uma etiqueta que se coloca dentro dos livros, como sinal de propriedade. Bastante utilizada por livreiros a partir do século XVI, o ex-líbris é um desenho que, eventualmente acompanhado por alguma frase em latim, identifica o proprietário do livro. Não raro, os motes continham um jogo de palavras, do tipo ‘Libro libertas’ ou ‘Seja livre o homem por meio dos livros’. Além de denotar preocupação artística, o ex-líbris tinha e tem por objetivo identificar o dono do volume em caso de desvio ou furto. Ainda hoje, na Europa, colecionam-se e permutam-se “ex-líbris” e, no Brasil, fundou-se no Rio de Janeiro, há poucos anos, a Sociedade de Amadores Brasileiros de Ex-líbris.” Fonte: https://biblioteca.pucrs.br/curiosidades-literarias/voce-sabe-o-que-e-ex-libris/

Diário de Paris. Experiência 7. Uma metrópole cosmopolita?

Fonte: http://arpenpe.org/?p=5130

Desde o século XX, o fato metropolitano passou a alterar o mundo urbano, em vários países, tornando as grandes cidades ambientes com maior complexidade e propiciando aos seus moradores visões de mundo e modos de vida que não tinham sido experimentados antes.

Compreender este tipo de espaço e suas particularidades passou a ser um desafio difícil de ser enfrentado, tanto pela Sociedade, de um modo geral, como pelos pesquisadores. Muito tem se escrito sobre as metrópoles – livros, artigos, teses, dissertações, inclusive matérias na grande e na pequena mída -, mas fazendo um balanço ainda precisamos avançar mais.

Sobre algumas características, que se associam às metrópoles,  há consensos: a ideia de anonimato, a de diversidade cultural, aquela afeita à amplitude da vida política, além da constatação que oferecem oportunidades econômicas, mas impõem dificuldades cotididianas.

Às “mais mais” do mundo – Nova York, Paris, Londres, Tokyo – associa-se o cosmopolitismo metropolitano e mesmo na periferia do capitalismo, como em São Paulo ou na Cidade do México, ondas e ondas de imigrantes aportam novas formas de estar e se comportar, obrigando os “autóctones” a se defrontar com o diferente, o que deveria favorecer a construção de uma perspectiva plural de mundo.

No entanto, pensando bem, essa construção nem sempre se faz de modo efetivamente cosmopolita. Quando procuramos esta palavra nos dicionários, encontramos dois significados principais – 1) ideal daqueles que veem o mundo inteiro como sua pátria; 2) comportamento dos que se abrem a culturas diferentes daquela de seu país.

Lendo textos científicos, observando o cotidiano urbano de espaços metropolitanos ou simplesmente acompanhando notícias divulgadas pela mídia, amplia-se a frequência de atos de intolerância, algumas vezes expressos como violência, bem como múltiplas formas de estigmatização e tendência a buscar a separação social e espacial, justamente quando a globalização, cantada como o fim das barreiras nacionais, ou o cosmopolitismo, visto como oportunidade de conhecer e reconhecer o outro, deveria nos levar à direção oposta.

As migrações internacionais que sempre estiveram presentes na vida francesa, intensificaram-se muito nas últimas décadas, tendo se alterado a composição demográfica da França e, especialmente, da região metropolitana de Paris, maior bacia de empregos do país, o que, às vezes, remete à ideia de uma verdadeira Torre de Babel.

A “Pequena” Torre de Babel, de Pieter Bruegel O Velho, 1563, hoje no Museu Boijmans Van Beuningen. Extraído de: https://www.wikiart.org/pt/pieter-bruegel-o-velho/a-pequena-torre-de-babel-1563

Hoje a proporção de imigrandes e descendentes é crescente, comparativamente àquela parte que se auto-considera “os franceses”, embora isso também pudesse ser colocado em questão, afinal desde os romanos as trocas internacionais e a miscigenação torna difícil reconhecer tipos nacionais “puros” (para brincar, acrescento que, a não ser nas manias, é claro). Os dados relativos à população que vive na França, segundo o lugar de nascimento e nacionalidade, em 2020, são emblemáticos. Dos 67 milhões que moram neste país, 6,8 milhões são imigrantes, sendo que, dentre estes, 2,5 milhões já se naturalizaram. Há 800 mil que nasceram na França, mas como são filhos de estrangeiros não tem nacionalidade deste país, compondo um total de mais de 5 milhões que tem o estatuto de estrangeiros (vejam o gráfico da direita).

Fonte : Insee, estimations de population.

Essa composição demográfica tem significados políticos e socioespaciais muito particulares. Para um brasileiro, talvez seja difícil supor a situação de alguém que nasce num país e não tem direito à sua nacionalidade, mas na França, como algures, é a ascendência que define esse direito, embora os estrangeiros, nascidos aqui ou não, possam alcançar esse estatuto também, depois de maiores de idade, se cumprirem certas exigências (e bota exigência nisso).

O que quero registrar é que se continua a ser um estrangeiro por muito tempo, mesmo quando já não se deseja mais ser reconhecido como tal, quando as saudades da terra natal se dissiparam, ou mesmo quando não se tem a identidade do outro país, por nunca ter vivido fora da França ou por ter vindo muito pequeno para cá.

É essa tendência, a de aumento de estrangeiros, que tem levado, nas últimas décadas, a dinâmicas de encrustamento de grupos étnicos em algumas cidades da região metropolitana bem como em bairros ou setores da sua cidade principal.

Isso revela que aqui, como por todo lado, o cosmopolitanismo não pode ser pensado a não ser como devir, inclusive em função dos retrocessos recentes, como mostra o debate eleitoral na França, em que as simpatias por um ou outro candidato são fortemente influenciadas por suas posições favoráveis ou não ao acolhimento social dos imigrantes em situação social difícil.

As barreiras políticas são resconstruídas como barreiras espaciais.

Paris é uma cidade com grande harmonia arquitetônica, alcançada desde o século XIX, quando as leis de urbanismo hausmmaniano começaram a delinear um perfil para a paisagem urbana da Paris metropolitana. A altura máxima era então 37 metros, o que equivalia a seis andares, em média. Isso garantia que, nos boulevards, a altura dos prédios correspondesse à largura das avenidas, o que possibilitava iluminação e ventilação.

Fonte: https://www.conexaoparis.com.br/paris-deve-contruir-torres-ou-nao/

Nas últimas décadas, tem sido recebida, de forma polêmica,  a tendência à construção de torres muito altas na cidade. Em 2005, o prefeito fez uma enquete, entre os parisienses, e 69% responderam que era contrários a edificações muito altas.

Mesmo assim, várias torres já tinham sido erguidas e outras continuaram a crescer, em La Défense (a oeste de Paris) ou mesmo no 13º. arrondissement. Quer saber o que é um arrondissement? Veja o mapa e observe que são os setores de organização espacial de Paris, adotados até pelos moradores para identificar onde moram, muitas vezes, mais do que o próprio nome do bairro.

http://expressoparis.com/entenda-os-arrondissements-de-paris/

Entre a Porte de Ivry e a Porte de Choisy, ao sul de Paris (Rive Gauche do Sena), justamente no seu 13º. arrondisement, como ia começar a explicar, estão os chineses, no Quartier Asiatique (bairro asiático) ou na Chinatown francesa, como alguns preferem. Atualmente, eles também  predominam em Beleville, na Rive Droite do Sena. Dessas duas áreas se afastam os “franceses”. 

O 13º. arrondisement concentra vários edifícios muito altos, pouco apreciados pelos nativos, desde a contrução deles, razão pela qual quando opaís teve que receber exilados vietnamitas, em decorrência da Guerra do Vietnã, essa área foi a escolhida para abrigá-los, o que nucleou esse setor chamado de asiático. Impressiona muito a alteração da paisagem de quem olhar para o sul, a partir do centro, havendo no primeiro plano, a Paris haussmaniana, depois as primeiras torres, e mais ao fundo, as mais elevados que já estão próximas à “cintura de Paris” como são chamados seus limites, demarcados pela via rápida periférica, que cerca a cidade e a separa não apenas administrativamente, mas no plano das representações sociais, do restante da região metropolitana.

Fonte: https://www.lepoint.fr/societe/une-elue-du-13e-arrondissement-dans-un-logement-de-la-ville-de-paris

Fonte: https://vontadedeviajar.com/chinatown-de-paris/

Além do bairro oferecer muitas opções para se degustar a comida dessa parte da Ásia (veja as opções em https://www.parismania.com.br/roteiros-bairros-e-ruas-de-paris/bairro-chines-em-paris), há os ocidentais que se dobram à lingua da maior potência econômica dos nossos dias, como mostra a fachada do MacDonad’s. Já experimentamos o Tricotin e o Hao Hao e gostamos mais deste segundo, embora, como 98% dos restaurantes na França, ele seja super apertado.

O bairro asiático também é particularizado pela arte de rua que levou, para esse setor da cidade, as galerias voltadas à divulgação de artistas pop e contemporâneos. Os grandes murais aliviam a paisagem de concreto e vidro que predomina no 13º. e atraem nosso olhar, desviando-se da tendência de olhar para dezenas e dezenas de janelas, que correspondem a pequenos apartamentos onde deve morar muita gente.

Fonte: https://itinerrance.fr/inauguration-du-projet-boulevard-paris-13/

Fonte: https://itinerrance.fr/inauguration-du-projet-boulevard-paris-13/

Fonte: https://district13artfair.com/le-13eme-arrondissement-un-musee-a-ciel-ouvert-a-paris/

Ao norte do Sena, conhecida como um pedacinho da África em Paris, está a área do Château Rouge, não muito longe do famoso Moulin Rouge, antes cabaré hoje sala de espetáculos. Ali está a Rua Goutte d’Or e o grande mercado africano, chamado Dejean.

Fonte: http://fonte192.blogspot.com/2014/07/um-pedacinho-da-africa-em-paris.html

Esse pedacinho da cidade pode ser qualificado, como diria uma grande amiga nossa, como “exotique”, tanto assim que ele vem sendo objeto até de ações da parte da Semaest, uma entidade voltada à organização e animação dos bairros, com base em seu comércio de proximidade, neste caso, favorecendo o artesanato, as atividades inovadoras e étnicas, visando a melhoria de vida de seus moradores

Fonte: https://www.semaest.fr/fileadmin/webmaster-fichiers/actualites/parcours-proximite-semaest-chateau-rouge-paris-18.pdf

São os jovens os responsáveis, pelo que posso observar, pela construção de novas identidades, a partir da condição decorrente do processo de imigração e da aceitação sempre inconclusa do imigrante na realidade francesa. Eles fazem isso, combinando elementos tradicionais com modernos, o que inclui a influência estadunidense na jovem moda africana, o que é divulgada nas redes sociais dos moradores do Château Rouge.

Fonte: https://www.facebook.com/maisonchateaurouge/photos/a.1691488884419140/2797324523835565

Fonte: https://www.lemondeduwax.com/collection-exclusive-jordan-x-la-maison-chateau-rouge-en-novembre-2019/

Fonte: https://www.lemondeduwax.com/collection-exclusive-jordan-x-la-maison-chateau-rouge-en-novembre-2019/

Andando pelo Boulevard Barbès, em Paris, parece que estamos em outros lugares do mundo: lojas  com tecidos africanos, outras com saris indianas ou com hijabs muçulmanas. Aqui e ali vitrines com muitas jóais, algumas verdadeiras outras nem tanto, lojas de instituições que remetem dinheiro para o exterior, como a Western Union ou a Wise, além de muita comida apimentada. Gente, muita gente!

Tudo isso está misturado ao barulho das ruas, mostrando que a discrição parisiense caiu por terra e todo mundo se comporta como um estrangeiro que ali, ao menos, está em casa, mesmo longe de suas origens.

Fonte: https://www.pinterest.fr/pin/385268943115881711/

São muitas as transformações vividas por esse bairro, desde que se iniciou a tendência à concentração de imigrantes. No lugar de lojas tradicionais da Paris da primeira metade do século XX, funcionou durante mais de 70 anos, uma dos magazines mais populareas de Paris – a Tati – que fechou as portas durante a pandemia, em 2020, e cujo público de consumidores principal eram os imigrantes, ainda que uma ou outra francesa metida a chique frequentasse esse espaço (sempre de óculos escuros é claro). Quando morei em Paris, em 1995, estive mais de uma vez por aí, com uma super amiga do peito, para comprar uma toalha de mesa, uns pares de meias e algum utensílio kitsch que foram, na época, de muita valia.

No antigo cinema, onde antes se via dois filmes com apenas um ingresso (é fácil imaginar que tipo de filme era projetado), improvisou-se, recentemente uma feira de “soldes”, tornando no mínimo insólita a cena – cortinas de veludo vermelho, adornos e brasões dourados para vender pares de tênis por dez euros.

Em maio de 2021, dezenas de muçulmanos nos arredores da rue Barbès se manifestaram contra o bombardeio israelense na Faixa de Gaza e foram de perto observados pela polícia, que resolveu acabar com a “bagunça”.

Fonte: https://actu.fr/ile-de-france/paris_75056/videos-la-manifestation-pour-la-palestine-dispersee-par-la-police-a-paris-heurts-autour-de-barbes_41873524.html

Na estação Barbès-Rochecouart  do Metrô, sempre plena de gente, a presença deles é frequente, justificada pela necessidade de combater os vendedores ambulantes de cigarro contrabandeado ou de matéria prima para outros cigarros. No entanto, sabemos todos, que venda ilegal de cigarros e de drogas tem por todo lado e, neste caso, o que influencia a ostensividade da presença policial é o próprio bairro.  Como pude presenciar no último sábado, é inadequada a forma como a abordagem é feita, bem como a revista em alguns jovens muçulmanos.

Esse quadro de diferenças culturais, que se tornam políticas, no sentido de direitos restringidos para os imigrantes, tem sua face socioeconômica, é claro. O mapa das rendas salariais médias em Paris mostra que os estratos socioeconômicos menos favorecidos estão no norte, fora dos limites municipais, mas como um vetor de expansão a partir dos 18º., 19º. e 20º. arrondissements, onde estão Château Rouge, Barbès e Belleville. Além dos limites, estão Saint-Denis, Bagnolet, Montreuil, cidades da região metropolitana, nas quais também a população imigrante se aloja. A situação do bairro asiático, no 13º. é um pouco melhor.

Fonte: https://www.wikiwand.com/pt/Paris

Entre diferenças e desigualdades, ainda falta muito para essas mãos se apertarem.

Fonte: https://www.maesmundoafora.com/direito-leis-e-documentacao-mundo-afora

Carminha Beltrão

21 de fevereiro de 2022.

Diário de Paris. Experiência 6. Chartres.

Embora a Região Metropolitana de Paris, denominada Île de France, seja extensa, Chartres já está fora de seus limites. No entanto, hoje, essa cidade centenária integra-se à grande metrópole, a uma hora de trem regional, compondo o que foi conceituado pelo urbanista François Ascher como ‘metápolis’, que compreende o espaço metropolitana, mais um anel que vai além dele, composto por áreas urbanas e rurais que estão sob sua influência direta na vida cotidiana.

A 91 km de Paris, Chartres está se tornando uma das escolhas de moradia da classe média alta de Paris, que pode viver sem estar todos os dias no centro da metrópole, mas, ao mesmo tempo, tem facilidade para chegar até lá, se for preciso.

Fonte: https://www.illico-travaux.com/agence/illico-travaux-chartres/

Falar em Chartres significa, imediatamente, remeter à sua catedral que, ao lado das catedrais de Reims e Amiens, é um grande símbolo da arquitetura gótica na França. Seu nome oficial é Cathédrale Notre-Dame de Chartres e já tem mais de 800 anos. Sua construção teve início em 1145 e foi concluída em 1221, mas teve que ser reconstruída após ter sofrido um incêndio em 1194. Tem mais de 10 mil m2 e sua inigualável nave central tem 130 m de comprimento, atingindo essa nave 37 m de altura, que impressiona ao lembrarmos que isso foi feito apenas com o cálculo da justaposição das pedras, visto que não havia concreto armado, tampouco se utilizava ferro fundido em construções.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Catedral_de_Chartres#/media/Ficheiro:Monografie_de_la_
Cathedrale_de_Chartres_-_10_Facade_Meridionale_-_Gravure.jpg

Fonte: https://www.acamminare.com/catedral-de-chartres-franca-guia-completo-para-visitar/

Tudo impressiona nessa catedral: ela tem 3.500 estátuas, 9.000 personagens representados em altos relevos, vitrais, esculturas e pinturas. Suas 176 vidraças compõem o maior acervo de vitrais dos séculos XII e XIII. É objeto de grande curiosidade para os visitantes seu labirinto de 13 metros de diâmetro, o qual ocupa a nave principal.[i] Se você quiser, pode tentar chegar ao centro dele pela figura que está abaixo da foto, mas já adianto que é preciso paciência.

Fonte: https://cienciaconfirmaigreja.blogspot.com/2013/01/o-labirinto-das-catedrais-simbolismos-e.html

Externamente, o fato de que suas duas torres são completamente diferentes entre si foi o que mais chamou minha atenção. Gera um pouco de incômodo inicial, porque sempre se espera equilíbrio na arquitetura gótica, mas, depois, a gente assimila como um charme adicional.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Catedral_de_Chartres#/media/Ficheiro:Monografie_de_la_Cathedrale_de_Chartres_-_04_Facade_occidentale_-_Gravure.jpg

Sua entrada principal é maravilhosa pela riqueza dos sobrerrelevos esculpidos. Esta catedral foi catalogada como Patrimônio Mundial pela Unesco.

Fonte: https://www.acamminare.com/catedral-de-chartres-franca-guia-completo-para-visitar/

Fonte: https://www.historiadasartes.com/sala-dos-professores/catedral-de-chartres/#jp-carousel-5748

As fotos que eu fiz não são profissionais e a grande quantidade de turistas que visitavam a catedral torna-se uma dificuldade adicional para um bom click, mas servem para se ter uma ideia de sua beleza. As duas primeiras foram registradas a partir do outro lado do Rio Eure que corre por fora da antiga muralha. Foram tomadas da janela do apartamento que alugamos pelo AirBnB: a primeira no entardecer do dia anterior do dia 4 de fevereiro e a segunda na manhã do dia seguinte. As demais fotos ajudam a ter uma ideia da beleza da catedral que está, no momento, passando por recuperação que, ao clarear suas paredes seculares, deixa a luz que entra pelos vitrais iluminar, ainda mais, sua beleza.

Os vitrais são, de fato, lindíssimos, mas a mim chamam mais atenção as esculturas em alto relevo que ornam paredes internas e externas. Fico imaginando o tempo necessário para aque, a partir de uma rocha matriz, muitos homens dias e dias esculpirem estátuas e arabescos conformaram paredes imensas, tanto externas como internas, marcadas por um efetivo rendilhado, que me fazem agora ficar de boca aberta. Teria passado pela cabeça deles há mais de oito séculos, a quantas pessoas encantariam com seu trabalho? Provavelmente não, mas encantam!



A maior parte das esculturas é consagrada à história da Virgem Maria, mas há algumas cenas de cotidiano da Idade Média. Os escultores foram os mesmos de Versalhes, durante certo tempo, porque esse trabalho se prolongou muito além das vidas de seus artífices, pois a última fase do trabalho foi concluída em 1716.

No entanto, não é só de sua catedral que vive Chartres, ou que se vive nela. Ela tem cerca, atualmente, de 40 mil hatitantes é a cidade principal do Departamente Eure-et-Loire. Muito antes de a França existir como Estado Nacional unificado, essa cidade já era um núcleo urbano. Inicialmente chamava-se Artricum (palavra derivada do rio Autura, o atual Eure), depois foi elevada à condição de Civitas (que na hierarquia urbana romana gozava de maior importância), passando a chamar-se Carnutes, de onde se originou seu nome atual. Tinha aqueduto, anfiteatro, fórum e vários templos.

Em 858, foi incendiada pelos normandos que não chegaram a dominar a cidade. Durante a Idade Média foi sede de condado governado pelos Condes de Blois, Champagne e mais tarde Châtillon. Nos séculos XII e XIII, face à força e riqueza da igreja, ela viveu um período de apogeu, no que se refere ao seu patrimônio arquitetônico.

Sua história é longeva e cheia de idas e vindas, porque foi vendida à Coroa Francesa em 1286, no Reinado de Luis IX, foi entregue à família Orleans, mas em 1417 caiu nas mãos de ingleses, tendo sido recuperada em 1432, foi atacada por protestantes na sequência, mas recuperada por Henrique IV (1553-1610), aliás o único rei francês que foi aí coroado, exatamente na catedral famosa. Suponho que o ataque a que se refere a placa com o nome de uma das ruas de Chartres, é justamente o sofrido pelos protestantes. Não é ótimo uma rua que se chama “Rua da Brecha”, para fazer referência a uma ‘brecha’ aberta na muralha, por ocasião do ataque sofrido pela cidade?

Aliás, o que não faltam, na história de Chartres, são ataques. Durante a Revolução Francesa, a catedral foi atacada por uma multidão em ato anti-religão e, nessa ocasião, as placas de bronze que adornavam o centro do labirinto foram retiradas e derretidas para se fazer armas com fins militares.

Essa sobreposição de tempos e estilos traz muita graça para Chartres e torna o passeio por ela extremamente agradável: casas em enxaimel, como a que abriga o Centro de Turismo da cidade, estão lado a lado de construções do século XX e já convivendo com edifícios de vidro e concreto atuais.

Outra delícia em Chatres é percorrer o Rio Eure, que corre por fora da antiga muralha. Ao longo dele, até o século XX, localizavam-se indústrias têxteis e de vitrais. Hoje estão moradias tranquilas, alguns sobrados que devem ter sido recuperados e, talvez, sejam ocupados hoje pelos parisienses que resolveram sair da metrópole; outros pequenos prédios destinados a segmentos médios; um outro restaurante.

Se quiser uma dica de restaurante, com boa relação custo x benefício, sugiro a Brasserie Le Cathédrale. Achamos esquisito porque cathédrale, em francês como em português, é uma palavra feminina e seria La Cathédrale, mas enfim aí está a fachada dele.

Eu ia fazer, ainda, referência às bonitas vitrines do comércio de Chartres, mas vou deixar isso para um capítulo especial sobre o tema, misturando as fotos daqui a outras cidades da metrópole parisiense. Para encerrar, os vitrais modernos que mantêm a tradição de Chartres, enfeitando seu espaço público, e as pombinhas que passeiam, calmamente, no que sobrou da muralha que protegia a Chartres medieval. Apenas aproveitam o sol do inverno, uma raridade por aqui, sem saber dos séculos a partir dos quais essas pedras olham para elas.

Carminha Beltrão

Paris, 5 de fevereiro de 2022.


[i] Fontes das informações do texto: https://pt.wikipedia.org/wiki/Catedral_de_Chartres; https://www.guiaviagem.org/chartres; https://www.historiadasartes.com/sala-dos-professores/catedral-de-chartres/.

Diário de Paris. Experiência 5. Les cafés

Se há alguma coisa que é muito parisiense são seus cafés (pronuncia-se cafê). Podemos mesmo dizer que, sem as centenas de cafés que a cidade tem, ela seria outra completamente diferente.

Os cafés parisienses são tão especiais e diversos que é até difícil escrever sobre eles de maneira precisa. Depois de alguma experiência por aqui, ainda não consegui distingui-los, por isso toda explicação que eu der é apenas um esforço de aproximação.

Vamos começar pelos cafés que são restaurantes: servem refeições completas das mais simples às mais sofisticadas. Exceção feita aos muito chiques, todos oferecem uma formule, composta geralmente por três pratos (entrada, prato principal e sobremesa) acompanhada de uma taça de vinho ou um café (olha ele aí), englobados num preço único, que atualmente varia de 18 a 50 euros mais ou menos.

Nos mais chiques de Paris, o horário mais concorrido é o da tarde, onde vários casais, pequenos grupos de amigos e amigas, ou gente sozinha senta-se para tomar um chá ou outra bebida quente, conversar um pouco ou ler um livro (aumenta o número dos que ficam só nas redes sociais pelo celular – inclusive eu).

Nessa categoria – cafés que são também restaurantes – o mais famoso, talvez, seja o Café de La Paix, que fica pertinho da Ópera Garnier, a mais tradicional e imponente de Paris. Ele abriu suas portas em 1862 e está instalado no térreo de uma edificação estilo arquitetônico Napoleão III. Li isso num dos inúmeros sites que fazem referência aos principais cafés de Paris, mas em seguida quis aprender quais são as características desse estilo e não achei nada muito elucidativo. Você deve estar perguntando por que escrevo, então, essa informação e tenho que te dizer que nem sei a razão.

No site do Café de La Paix tem a informação de que o preço médio da refeição é 70 euros. Bastante, mas menos do que os restaurantes mais caros do Brasil, embora a decoração interna mostre que é um ambiente bem especial. Sobre a comida: nunca experimentei! Para não dizer que nunca pus os pés nele, tomamos um café há certo tempo atrás com um casal amigo, antes de assistirmos um balé no L’Opéra.

O Café de Flore é outro bem badalado na categoria ‘caféqueétambémrestaurante’. Por sua localização, no Boulevard Saint Germain, nas proximidades da Sorbonne, era o café dos intelectuais, mas fico com a impressão que, hoje, ele é muito mais o café dos turistas.

Também é antigo (1884), mas lendo um pouco sobre sua história, fiquei sabendo que nos primeiros 50 anos sua reputação não era das melhores, visto que tanto radicais de esquerda como de direita gostavam de debater suas ideias aí e nem sempre os ânimos ficavam sob controle. Mesmo assim, havia quem fizesse pose para uma foto especial na frente dele.

Dentre seus mais famosos frequentadores da metade do seculo XX estão os existencialistas – o casal Sartre e Simone de Beauvoir, Albert Camus, Raymond Aron e Mauricie Merleau-Ponty. Com a produção bibliográfica desse quarteto e a feita posteriormente a partir deles e sobre eles daria para se preencher muitos metros de estantes e já foram escritas dezenas de teses e feitos centenas de debates.

O Café Deux Magots aparece também em várias listas, principalmente quando o objetivo delas é dar dicas aos turistas. Tem suas tradições como os outros dois citados, porque data de 1888, mas os preços são mais módicos (https://menuonline.fr/deux-magots).

Estivemos nele uma vez em 1995, para um café com um amiga brasileira. Aqui e ali ouvíamos conterrâneos conversando porque, naquela época, nossa moeda estava bem forte. Em um dado momento, apreciando aquele café em ambiente tão famoso, vimos dois jovens brasileiros levantarem, falando alto e se movimentando em direção a uma mesa mais discreta no fundo. Lá estava Jô Soares que olhou para os dois, quando eles lhe pediram um autógrafo, baixou a cabeça, resmungou alguma coisa e continuou a ler alguma coisa como se não fosse com ele. Era bem a época do Programa Jô Onze e Meia e eu fiquei decepcionada com a falta de simpatia dele. Hoje, distante daquela situação, fico pensando quantas vezes brasileiros devem pará-lo, em vários cantos do mundo, para lhe pedir um autógrafo e concluo que ele tem direito de negar de vez em quando. Muito recentemente li o livro do Jô – uma autobiografia desautorizada (volume 1) e adorei: passou aquela lembrança sobre uma suposta falta de educação dele. Adoro essa foto dele que está na capa do livro.

Os cafés brasseries formam um segundo grupo. Estão por toda cidade e, se estou observando bem, presentes em maior número quanto mais se anda em direção à periferia perisiense ou de sua região metropolitana. Neles são servidas especialmente bebidas, com ênfase nas alcóolicas. No que se refere à alimentação, o foco são as pequenas refeições, disponíveis em cardápios ou cartazes com poucas opções.

Os cafés brasseries estão por todo lado, perto das estações de metrô ou dos pontos de ônibus, nos endereços mais e menos turísticos, em todos os bairros e quase sempre na esquina mais próxima. Caracterizam-se por permanecer abertos um grande número de horas durante o dia. Muitas vezes têm, na fachada virada para a rua, uma banca que vende frutos do mar.

Ao tentar me informar sobre as principais características dessas várias categorias de estabelecimentos, encontrei uma artigo apresentando as diferenças entre cafés, brasseries e bistrôs[1]. Entre as brasseries, que também servem cafés, a mais famosa é a Brasserie Lipp, cujo proprietário Claude Guittar explica que o nome se deve ao fato, de que, no século XIX e começo do XX, fabricava-se cerveja nesses estabelecimento, pois essa bebida começava, então, a se popularizar na França. A Lipp é de 1880 e mantém o mobiliário original. Vejam que ela não pertence à categoria das brasseries populares que são a maioria e o mesmo observo em relação à Bouillion Chartier, também famosa e do final do século XIX.

Na foto da Lipp, os dois cartazes mostram que aspectos que associamos ao que se chamou no passado de Terceiro Mundo, estão por todo lado: um informa que a brasserie não se responsabiliza por vestimentas e objetos deixados no vestiário (espaço logo na entrada dos cafés onde se penduram casacos, guarda chuvas, cachecóis e outros apetrechos) e não se aceitam cheques!

Para fechar o grupo dos cafés brasseries, nada melhor do que fazer referência ao Le Procope, o mais antigo em funcionamento em Paris e, como seu próprio nome diz, é também um restaurante. Na foto pode se ver que ele vende frutos do mar e frutas, o que mostra que as divisões são meramente informativas da origem dos estabelecimentos e não do que são hoje.

Ele é de 1686 e entre seus ilustres frequentadores das primeiras décadas estavam Rousseau, Diderot e Verlaine. Comemorei um dos aniversários de meu casamento nele e fiquei, na ocasião, sensibilizada de imaginar que naquelas cadeiras e mesas também houve debates homéricos sobre o sentido da Revolução Francesa.

Um terceiro grupo, por fim, são os café tabac, que além de servir bebidas alcóolicas e não alcóolicas e algum tipo de lanche rápido, vendem também jornais, revistas, cigarros, charutos, fumo para cachimbo, jogos de loteria e até, pela experiência mais recente, recebem um primeiro depósito em contas de bancos virtuais. Para ser um café tabac, é preciso ter autorização governamental e, na França toda, há mais de 13 mil desses estabelecimentos.

Fonte: https://asialyst.com/fr/2016/02/17/les-chinois-font-un-tabac-quand-les-wenhzou-passent-derriere-le-comptoir-des-pmu-parisiens/

Com mais de 130 anos o Café Tabac Cuivre, hoje, está separado em dois estabelecimentos, mas continua na Place Gambetta.

Os franceses estão preocupados com o fato de que grande parte dos tradicionais cafés tabacs de Paris estão hoje nas mãos de imigrantes chineses[1], como aliás ocorre com mercearias e até algumas padarias que também têm sido compradas por imigrantes, às vezes paquistaneses, às vezes indianos, coreanos etc. O fato é que esses estabelecimentos que ficam abertos muitas horas no dia, de segunda a domingo, hoje, se adequam mais às jornadas de trabalho que esses grupos estão dispostos a fazer do que aos franceses, com suas semanas curtas e tendência a seis horas de trabalho ao dia, com finais de semana livres.

Nas mãos de franceses ou estrangeiros, os cafés são formados por uma mescla de funções (e eu nem falei dos cafés bistrôs – ou bistrots) e dificilmente encontramos um estabelecimento que é apenas um café mesmo.

O que interessa é o significado deles na vida cotidiana da cidade, de seus moradores e visitantes. Os cafés são frequentados em todos os horários do dia e em todos os dias da semana. Há aqueles que já começam sua jornada diária num café, tomando um expresso ou um chocolate acompanhado de um delicioso croissant. Alguns farão uma pausa no meio da manhã, para um segundo café ou, se o frio estiver pesado, para um conhaque ou um calvados. Há os que entram no café ao sair do trabalho ou do metrô, os que chegam de bicicleta ou a pé, os que tomarão um copo de vinho ou de cerveja, depois do trabalho. Há os aposentados, já os cheios de trabalho e os que ainda não têm empregos. Todo mundo, no docorrer de um dia ou de uma semana, vai entrar num café, nem que seja porque apertou a vontade de fazer pipi e pagar por uma água ou um drink para ter acesso ao banheiro é a solução.


Classificados num ou noutro grupo, os cafés, além de uma “história” especial, têm sua “geografia” própria. Muitos são compostos de um salão mais reservado e interno ao estabelecimento, onde só podem permanecer os que vão fazer refeições completas; há com frequência uma ala envidraçada, onde ficam os que vão comer ou beber alguma coisa, mas querem conversar, por isso, no geral as cadeiras são dispostas em volta das mesas, umas de frente para as outras; e o melhor acontece quando os café invadem as calçadas e essa parte merece análises particulares. As cadeiras estão sempre dispostas duas para cada mesa, viradas para a rua. Até tem casais que se sentam ali, mas é mais comum gente que está sozinha.

Não importa se faz frio ou calor, embora no verão essas mesas sejam as mais disputadas; não interessa se, para ficar 5 minutos ou passar três horas, o que é comum aqui mesmo que se peça apenas um café; tanto faz se é para bater papo ou ficar calado, ler um livro ou fumar um cigarro.

Numa situação ou noutra, o objetivo é passar um tempo observando a vida: e tem coisa melhor do que ficar olhando Paris?

Carminha Beltrão

Paris, 23 de janeiro de 2022


[1][1] https://madame.lefigaro.fr/cuisine/quelles-sont-les-differences-entre-brasserie-bistrot-et-cafe-160519-165104.

As fotos sem fonte foram registradas por mim.

Diário de Paris. Experiência 4. A metrópole e a polêmica da vacina.

Melun
Paris não é, afinal, apenas Paris. Compõe uma extensa área urbana, a qual comanda, e que está inserida, por sua vez, na região denominada Île-de-France. Ao contrário do que ocorre com outras regiões metropolitanas, a cidade principal, Paris, compreende apenas 17% do total demográfico do conjunto: tem pouco mais de dois milhões e cem mil habitantes e a Île-de-France compreende doze milhões e quase trezentos mil habitantes[1]. Apenas a título de comparação, dos 21 milhões que habitam a região metropolitana de São Paulo, mais de 50% estão na cidade mãe.
[1] www.paris.fr

Esta grande região não está totalmente urbanizada como a imagem de satélite que se segue mostra. Nela, a cidade de Paris ocupa uma parte pequena em torno do pontinho preto assinalado logo abaixo do seu nome, e em volta desta área estende-se a mancha urbana, composta por áreas urbanizadas de outros tantos municípios. A île-de-France tem, ainda, bosques e pequenas florestas e um pouco de agricultura ainda é praticada na região.

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Resolvemos conhecer um dos pontos mais distantes da região metropolitana e fomos até Melun, que está marcada com a gota vermelha no próximo mapa. Ela está 40 km a sudeste de Paris e ocupa um sítio demarcado por um dos meandros do Rio Sena. Sempre ele majestoso e serpenteando a grande área urbana.

Antes de descermos na estação do Réseau Express Régional (RER) imaginávamos, em função da distância, que chegaríamos num pequeno vilarejo, mas ao descortinarmos a cidade, vimos edifícios e uma área urbana extensa. Consultamos o “Santo Google” e ficamos sabendo que lá moram 40 mil habitantes.

Para ter uma ideia de como é sua posição em relação ao conjunto metropolitano, veja o mapa das linhas de trens regionais de Paris. Ao final da linha verde está Melun, assinalada com um círculo em pink.

Melun foi fundada pelos Romanos na Antiguidade e era chamada de Melodunum. Depois da queda do Império, durante a Idade Média, vinculou-se à Diocese de Sens e manteve alguma importância pela sua situação geográfica ao longo do Sena, especialmente por razões defensivas e pelo fornecimento de trigo para a capital. Sua situação geográfica reforçou-se, a partir de 1847, por estar às margens da ferrovia que foi construída para ligar Paris a Lyon e a Marselha.

A paisagem é muito especial, tanto pelo rio como porque a cidade está circundada por áreas verdes. O céu muito azul, entrecruzado pelos “rastros” dos aviões de Orly compõe o cenário.

Esta cidade no finalzinho da área metropolitana de Paris  já teve moradores ilustres, como Louis Pasteur e Paul Cèzanne. Em decorrência das funções que desempenhou, ao longo da história, esse núcleo urbano nos arrabaldes da região metropolitana tem um pequeno patrimônio arquitetônico, que julgo que tenha importância histórica.

Fotografei algumas edificações, representativas de diferentes séculos, mas não sei  muito bem o significado de cada uma delas. Ficam como registro.

Depois de vários dias muito frios e com o céu completamente nublado, o sábado 15 de janeiro de 2022, quando fizemos este passeio, estava ensolarado e convidava à caminhada sem compromisso. A ida, tendo em vista as conexões necessárias de tramway, metrô e RER, foi mais demorada do que o esperado e ao chegarmos em Melun, o comércio já estava quase todo fechado. Mesmo assim, estava super agradável seu centro comercial, especialmente passear pela rua de pedestres até chegarmos a um pequeno café restaurante às margens de um braço pequeno do Sena, onde almoçamos.

Tudo indicava um final de passeio tranquilo, talvez até demais, quando nos deparamos com uma passeata, que devia ser composta por umas cem pessoas, que animadamente desciam pela Rue de L’Éperon e pararam diante do prédio da Prefeitura.

O motivo do movimento? Protestos contra a obrigatoriedade da vacina anti-Covid e do Passe Sanitário para o acesso a vários espaços[1].


[1] Trata-se de documento unificado para toda a União Europeia comprovatório, ao menos, de duas doses da vacina. Com os comprovantes que trouxemos do Brasil, facilmente obtivemos o passe numa das farmácias autorizadas para tal em Paris.

Esse é um movimento forte aqui na França, que deve abarcar quase 20% da sociedade, conforme li há alguns dias na imprensa. É difícil, muitas vezes, entender suas razões, principalmente porque sou totalmente favorável à vacinação. No entanto, tenho que admitir que, mesmo com alguns matizes políticos atravessando a polêmica, não se trata de nada irracional ou absurdo, como muitas vezes encontramos nos discursos sobre esse assunto no Brasil. Os argumentos centrais giram em torno dos seguintes pontos: a) foi inadequada a decisão do governo Macron de comprar apenas a vacina da Pfizer, dando a essa empresa praticamente o monopólio no fornecimento das vacinas e não oferecendo à Sociedade outras opções, sendo que citam sempre a Coronavac, ao destacarem esse aspecto; b) não houve pesquisa suficiente para se ter certeza que é seguro se vacinar; c) há excesso de exigência de testes comprobatórios de que o indivíduo está negativo para Covid e isso custa muito caro; d) uma parcela, que parece ser a mais importante, defende a ideia de que, numa sociedade marcada pelo apreço à liberdade, é absurdo exigir o “Passe Sanitário” para se frequentar restaurantes, cinemas e museus, o que levaria à segregação do grupo que optou por não se vacinar.

Sem dúvida, na minha percepção de estrangeira, o que significa pouco informada, o fato de que o presidente defende radicalmente a vacina e que ele é identificado como de centro-direita, leva a que simpatizantes de Marine Le Pen[1], de ultra-direita, tanto quanto outros de gauche, considerem autoritária a posição estatal e se neguem à vacinação.

As estatísticas vêm mostrando, no entanto, que, em que pesem as manifestações que vêm ocorrendo aos sábados (Melun é um pequeno exemplo, porque nas mais importantes cidades francesas, muita gente foi para as ruas), a maior parte dos franceses apoia as medidas do governo, especialmente a obrigatoriedade de máscaras no transporte público e o Passe Sanitário em ambientes fechados.

A orientação para início da vacina em crianças de 5 a 11 anos levanta nova onda de argumentos contrários, mas o aumento do número de contaminados, agora em janeiro, com a variante Omicron, reforça a posição da maioria de que o governo está certo. O fato é que a Assembleia Nacional, mesmo depois de várias emendas e de amenizar as exigências, em alguns pontos, consegue manter a linha de ação do governo. Mesmo em pequenos cafés ou bistrôs em que entramos, o passe é solicitado e registrado pelos garçons por meio de um leitor ótico.

O registro principal é que, mesmo em Melun, tão distante de Paris, há um pouco da metrópole e muito da sociedade francesa e seu apreço às liberdades individuais.

Carminha Beltrão

Paris, 17 de janeiro de 2022


[1] “Marion Anne Perrine Le Pen, mais conhecida como Marine Le Pen (Neuilly-sur-SeineAltos do Sena5 de agosto de 1968), é uma advogada e política de extrema-direita da França. Deputada do Parlamento Europeu de 2004 a 2017, foi eleita presidente da Frente Nacional em 16 de janeiro de 2011, em substituição a seu pai, Jean-Marie Le Pen. Nos últimos anos vem impondo-se na vida política, obtendo recordes de audiência na televisão, com um talento oratório que faz recordar o de seu pai. Seu pai, em 2002, conseguiu chegar ao segundo turno junto com Jacques Chirac. Com esta finalidade, Marine Le Pen adotou temas ligados ao sucesso de seu pai: oposição à imigração, retorno da pena de morte e denúncia da “casta política” e dos “eurocratas” de Bruxelas. Assim como o pai, gosta das frases trabalhadas e de provocar. Recentemente, comparou a ocupação nazista às rezas dos muçulmanos nas ruas, por falta de locais de oração. Seus discursos contra os muçulmanos são semelhantes a posições defendidas pela direita populista e a direita em outros países europeus, como SuíçaPolônia e Holanda.” Extraído de https://pt.wikipedia.org/wiki/Marine_Le_Pen.

Diário de Paris – Experiência 3 – Vida de estudante

Fonte: https://www.europe1.fr/societe/une-campagne-de-levee-de-fonds-record-pour-sorbonne-universite-3679973

Antes de dar título a este capítulo do Diário de Paris, fiquei me perguntando que aspectos justificariam qualificar a vida que estamos levando, meu marido eu, como de estudantes, se na verdade, já somos o que se classificaria aqui como pesquisadores sêniores. Passei em revista o nosso cotidiano nos últimos dez dias e acho que não é demais esse título, ainda que, se eu tivesse pouco mais de 20 anos e não mais de 60 que tenho, a minha vida de estudante seria outra e voltamos àquela afirmação da “Experiência 1” de que nada se repete ou acontece do mesmo modo como ocorreria a outrem ou em outro tempo. De todo modo, aqui vão alguns destaques.

Penso que me sinto numa vida de estudante por morar na Cité Universitaire de Paris. No Brasil, as cidades universitárias são os próprios câmpus das universidades. A de Paris é um pouco diferente e isso tem a ver com sua longa história. Fundada em 1170 (em alguns fontes aparece 1257), por iniciativa da Escola da Catedral de Notre Dame, tem sua estruturação associada ao crescimento urbano da própria cidade e da região metropolitana que é nucleada por Paris.

As edificações que a compõem espalham-se pelo espaço urbano e revelam tempos diferentes da arquitetura e da estruturação espacial, bem como as lutas estudantis que levaram a modificações profundas. Durante vários séculos, em que pese seu crescimento, compunha uma única universidade. A partir de 1968, em grande medida em decorrência do movimento levado a cabo pelos estudantes (“barricadas de Paris”[1]), ela passou por uma ampla reestruturação, dividindo-se em várias universidades e se periferizando, por meio da abertura de unidades, fora da cidade principal do espaço metropolitano, para atender a população que morava mais distante. Entre 1968 e 2019, havia, então 13 Universidades de Paris. Quando estive aqui pela primeira vez em 1995, estava fazendo pós-doutorado na Paris I, Pantheón-Sorbonne, considerada a mais prestigiada, mas também a mais conservadora.

Foi uma grande experiência porque também frequentava a Paris XII, em Créteil, e podia fazer comparações entre os modos de organização espacial e administrativa dessas duas universidades.

Em 2019, houve a fusão da Universidades Paris Descartes (Paris V) e Denis Diderot (Paris VII), gerando a Universidade de Paris Diderot, onde estou agora trabalhando como pesquisadora. Aliás falar do espaço que essa universidade ocupa hoje na cidade pode vir a ser objeto de outro capítulo desse diário.

O prédio principal que, ao menos simbolicamente, oferece alguma unidade a essas universidades é o da Sorbonne, ponto turístico da cidade, localizado na Rive Gauche[2].

Sorbonne

Toda essa divagação sobre a história da universidade, para explicar que não há um câmpus, mas vários, e que nos mais antigos entres, em que os prédios nem sequer estão reunidos numa mesma área ou bairro da cidade, como é o caso da Paris I – Sorbonne.

Assim, o que se chama oficialmente de Cité Internationale Universitaire de Paris (https://www.ciup.fr/) não tem qualquer edificação voltada ao ensino ou à pesquisa diretamente. É uma ampla área, ao sul da cidade, em frente ao Parc Montsouris, onde há vários prédios voltados à moradia de estudantes e pesquisadores.

Nossa “vida de estudante” caracteriza-se, antes de mais nada, por compartilhar esse ambiente, onde jovens e não tão jovens de vários cantos do mundo, vivenciam uma experiência internacional. No plano da cité, a Maison du Brésil, onde estamos morando, ocupa a posição 7L.

Fonte: https://www.ciup.fr/
Fonte: Google Maps

São mais de 40 “maisons” que constituem um patrimônio arquitetônico muito especial, porque a maior parte delas têm características de seus países. Ademais, o que vais se deve valorizar é justamente  o potencial de encontro entre os diferentes e de trocas políticas e culturais, o que é muito especial.

Fonte: https://www.ciup.fr/

A Maison du Brésil foi inaugurada em 1959 e foi construída com recursos do Ministério da Educação. O projeto foi encomendado a Lucio Costa, o urbanista que projetou Brasília, e a responsabilidade sobre a construção foi destinada a seu amigo, Le Corbusier, talvez o mais importante arquiteto francês do século XX. Este fez modificações grandes no projeto inicial, o que redundou numa colaboração, que é considerada conflituosa, pelo menos da parte de Lucio, que viu seu projeto alterado e o nome de Le Corbusior consta como o do arquiteto principal. Essa contenda não tira desse prédio o caráter de representativo da arquitetura moderna do século passado, uma vez que é feito em concreto armado, compondo um jogo de estruturas, vidros coloridos e vão livres no térreo.


A Maison du Brésil é uma das poucas construções da Cité que fazem parte do “inventário de monumentos históricos franceses”, desde 1985[3]. Nada mais emblemático do Brasil moderno, do que sua arquitetura e o sorriso de Juscelino.

Fonte: http://www.maisondubresil.org/le-batiment/historique/

Fonte: http://www.maisondubresil.org/le-batiment/historique/

O prédio passou por uma reforma, ao final dos anos de 1990, mas nada do projeto original pôde ser alterado. Com isso, ele é bonito, mas nem tudo é muito funcional ou confortável por aqui. Começa pelo concreto que está por tudo e esfria o ambiente, o que se acentua, com o piso de ardósia do térreo, razão pela qual o aquecimento parece, sempre, não ser suficiente para quem vem do um país tropical.

Nas paredes, não se pode colocar nem um mísero pendurador de toalhas no banheiro, cuja porta é de alumínio, modernosa, mas barulhenta e gelada. Os móveis desenhados especialmente para a maison, são bacanas, mas a cama é muito baixa. O estúdio que ocupamos e os demais não têm utensílios domésticos, o que faz com que nossa vida de estudante fique, radicalmente, ainda mais vida de estudante, com apenas uma panela, dois pratos, dois copos, duas taças, dois bowls, dois jogos de talheres e um abridor de vinho, parte doado por nossa amiga brasileira que mora na Maison Marie Curie, parte comprado por nós. Não é apenas economia, mas sobretudo não faz sentido equipar todo um imóvel por apenas três meses, que é o tempo que temos garantido aqui. Depois é uma interrogação.

Ocupamos o estúdio 400, no 4o. andar, com 24 metros quadrados, que corresponde à penúltima e à última janelas à direita.

Perto de nós, estão outras maisons que também acho bonitas, como a da Suécia, a da Suíça (que aliás parece com a do Brasil, porque foi desenhada por Le Corbusior), a do Estados Unidos, a da Dinamarca, a do Japão e da Índia.


Entre as construções mais novas, destaca-se a Maison de la Tunisie, pela arquitetura de vanguarda, cujo detalhe do rendilhado aparece logo abaixo.

Morar num espaço destes, multi racial e multi cultural, leva-me a imaginar os percursos que tantos aqui fazem para se aperfeiçoarem científica e intelectualmente. Escuta-se todo tipo de história, desde aqueles que permanecem com boa ajuda de seus países, até os que vivem todas as restrições imaginadas e trabalham, enquanto estudam.

De um jeito ou de outro, a Cité traduz um pouco do espírito cosmopolita francês e o fato de ter um bonito jardim e estar em frente a um dos quatro parques mais importantes da cidade oferece oportunidades de qualidade de vida a todos: pesquisadores e estudantes, pobres e bem . Desse ponto de vista o espaço é democrático.

O câmbio da nossa moeda, atualmente (6,5 reais para comprar um dolar) e as restrições impostas por Paulo Guedes para a remessa de dinheiro, que tornam o saque do nosso próprio salário, aqui excessivamente taxado pelo Brasil, faz com que, nesse momento, comparativamente às outras estadas aqui em Paris, a nosso cotidiano de pesquisadores se pareça muito, reafirmando mais uma vez, com uma vida de estudante.

Carminha Beltrão

Paris, 7 de janeiro de 2022

[1] Na noite de 10 de maio de 1968, em poucas horas em Paris, foram erguidas 60 barricadas, sem qualquer plano prévio ou estratégia coerente. Na manhã de 11, após a brutal repressão policial, os estudantes apelam à greve geral a partir de 13 de maio. Extraído de: https://www.esquerda.net/dossier/noite-das-barricadas-ha-50-anos-em-paris/54977.

[2] Aqui tudo se localiza, inicialmente, por meio dessa divisão – Rive Gauche (lado esquerdo do rio Sena e ao sul dele) e Rive Droite (lado direito do rio Sena e ao norte dele na cidade de Paris). Há múltiplos significados historicamente atribuídos para esses dois lados da cidade, mas se pode dizer, para resumir, que, tudo que tem mais prestígio artístico e intelectual associa-se à Rive Gauche, especialmente a um dos seus setores o Quartier Latin.

Diário de Paris – Experiência 2 – Parques e comércio de vizinhança

Jardin des Tuileries

Vamos começar 2022 bem, destacando as maravilhas de Paris, para compensar meu relato “Diário de Paris – Experiência 1” em que pesei a mão mais nas mudanças para pior que constatei na cidade. Há aspectos maravilhosos, que atravessam o tempo e contrabalançam muito as alterações recentes que não são tão positivas, e é preciso falar deles também.

Para começar, nada melhor do que brindar o espaço público da cidade, cheio de oportunidades em termos de infraestrutura e equipamentos, espaços verdes, vida cultural e possibilidades de encontro com o outro. Os parques, que são muitos, continuam bem cuidados e cheios de gente: alguns correm, outros estão deitados na grama, outrem apenas lê ou olha o celular, há os que passeiam com os cachorros e os que levam as crianças para gastar energia ou tomar sol.

Evidentemente que há certa distinção socioespacial, na medida em que são tantos parques distribuídos por vários setores da cidade e da sua região metropolitana – Île de France – que a diferenciação que se observa entre os bairros tem rebatimento neles, mas ainda assim, vê-se que tanto os nativos, sejam mais ricos ou mais pobres, como os imigrantes e os turistas, apropriam-se cotidianamente deles, nem que seja atravessando-os para aceder a uma estação de metrô ou de trem.

Perto de onde estamos morando, está o Parc Montsouris[1]. Foi implantado durante o governo de Napoleão III e foi parte da política desenvolvida pelo prefeito Haussmann visando higienizar a cidade, visto que este setor ao sul havia, desde o século XVI. sido destinado tanto ao depósito de sucatas de guerras, quanto de ossadas decorrentes de cemitérios desativados, fazendo que todo o bairro fosse também ocupado por funções menos “respeitadas” como os cabarés e os prostíbulos. Sabemos que os interesses de Napoleão III e Haussmann iam além de embelezar a cidade e as posições controversas sobre os efeitos de suas ações são muitas, mas deixemos essa polêmica para outros textos.

Desde sua inauguração, em 1869, os moradores da cidade e visitantes dispõem dessa área verde que compõe com outras três, os grandes parques da cidade (Vincennes a leste, Boulogne a oeste e Buttes-Chaumont ao norte).

A representação pictórica da época da inauguração mostra sua localização justaposta à quinta muralha da cidade e que o tecido urbano não se estendia além dela. A imagem de satélite da região metropolitana, mostra a extensão da área urbana atual e a localização privilegiada do parque. No lugar da quinta muralha estão hoje os Boulevards des Maréchaux e logo adiante o Boulevard Périphérique, que coincide com os limites do município de Paris. Na terceira figura, está a localização do parque em frente à Cité Universitaire, onde estou morando agora.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Parque_Montsouris#/media/Ficheiro:Vue_du_parc_de_Montsouris,_ca._1853%E2%80%9370.jpg
Fonte: Google Maps
Fonte: Google Maps

Nem pensava em escrever tanto sobre esse parque, mas já que registrei algumas informações e imagens, ele fica de exemplo do que essas áreas representam para a cidade e, sobretudo, a forma intensa como elas são apropriadas.

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é image-5.png
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=PMsiLmkKbZM

Outra maravilha que a cidade mantém é o intenso e diversificado comércio de vizinhança. Sim, é verdade, as grandes superfícies comerciais e de serviços, como hipermercados e shopping centers também chegaram por aqui, mas não fizeram desaparecer o pequeno comércio, o que não é casual, mas resulta da combinação de vários fatores, entre os quais destaco alguns que considero relevantes: a) a tradição francesa de comprar em pequenos estabelecimentos perto de casa e não utilizar veículos particulares para ir mais longe; b) o urbanismo e suas leis que impedem que grandes áreas comerciais sejam instaladas na cidade mais densamente ocupada, razão pela qual os Carrefours, Auchans e Casinos de grande porte estão sempre além da Périphérique e ao longo de rodovias; c) a sapiência e o sentido de oportunidade de indianos, paquistaneses, chineses e bangaleses, que não se confrontaram com a tradição, mas sim compraram pontos comerciais pequenos de franceses e abriram novos, o que faz com que, num raio máximo de 500 metros, todo mundo encontre uma mercearie (mercearia), uma boulangerie (padaria), uma boucherie (açougue) ou uma quincaillerie (lojas onde tem de tudo um pouco, desde móveis para montar, passando por ferramentas, eletrodomésticos até chegar a um simples parafuso), ou ainda as lojas de produtos regionais etc.

Isso faz com Paris seja especialmente preparada para o pedestre, o que aliás é comum na Europa, mas especialmente valorizado nesta cidade.

O que eu mais gosto nestes estabelecimentos é que, mesmo se modernizando no mobilário, nas portas que se abrem automaticamente, nas esquadrias de alumínio e nos grandes vidros, eles mantêm um pouco do passado, mantendo as formas de escrita mais antigas em seus letreiros na fachada e a arrumação interna dos produtos que favorece aos fregueses ver o que tem a venda e quanto custa.

Paris tem outras maravilhas, mas vou deixar para falar sobre elas outro dia, afinal, temas como o transporte público e os cafés merecem um capítulo à parte.

Carminha Beltrão

Paris, 1 de janeiro de 2022

[1]https://www.paris.fr/equipements/parc-montsouris-1810