Dallas, o olho do Texas

Embora a maior cidade do Texas seja Houston e a capital do estado seja Austin, Dallas é a mais famosa.

Talvez esse fato seja explicado pela série televisiva Dallas que teve muito sucesso entre 1978 e 1991; pode ser que seja pelo assassinato de John Kennedy em novembro de 1963, o que marcou a história da cidade. Os dois acontecimentos notabilizaram-na nacional e internacionalmente.

Fonte: https://www.britannica.com/topic/Dallas-American-television-series

Sobre o assassinado de Kennedy, as fotos impressionam muito. Na primeira, o casal sorri enquanto, em carro aberto, passa acenando para os moradores de Dallas; na segunda, o presidente já foi alvejado e Jackie o segura e, de algum modo, encobre-o para o caso de haver mais tiros; por fim, ele já está caído no banco e ela ajuda o guarda costas a entrar no conversível e dar proteção a eles. Os que assistiam o cortejo presidencial já estão ao chão para evitar serem também alvos.

Fonte das duas fotos: https://www.megacurioso.com.br/artes-cultura/120407-17-imagens-raras-e-chocantes-do-dia-do-assassinato-de-john-kennedy.htm

Fonte: https://www.tapaaosal.pt/assassinato-de-john-f-kennedy/

A Dallas que conheci hoje guarda, em seu imaginário, essas duas representações – uma que é ficção e a outra que é fato – mas, ao mesmo tempo, já é outra Dallas, a dos negócios e não apenas os afeitos ao petróleo, como é o caso da família dos Ewings da série, donos da Petróleo Ewing Oil e do rancho Southfork, mas aqueles relativos à inovação tecnológica, especialmente informática que é ramo de destaque no Texas.

A cidade tem mais de 1,3 milhão de habitantes e compreende uma extensão muito impressionante, porque as áreas com construções são entremeadas por áreas verdes compondo um tecido urbano que alcança algumas dezenas de quilômetros, antes de se chegar ao centro da cidade.

Ademais, Dallas está conurbada com Fort Worth que tem quase um milhão de habitantes, embora entre as duas, o percurso demande quase 50 minutos de carro, porque a cidade estendida é parceira do automóvel – quando mais distante se habita, mais se depende deste veículo que é a “alma” do estadunidense. Comparativamente ao modelo de cidade europeu, a dos Estados Unidos notabiliza-se pela pouca presença proporcional do transporte público – todas as classes sociais podem ter acesso ao carro e a grande maioria das pessoas faz essa opção para se deslocar.

A chegada na cidade já impressionou pela quantidade de autopistas e viadutos, compondo um sistema de circulação rápida que, se não fosse o Google Maps para nos orientar direitinho onde converter e quando permanecer na mesma via, a gente ficaria louquinho.  Apesar de tantas vias rápidas, havia congestionamentos.

Ficamos nos lembrando quando viajávamos com o mapa impresso, procurando os nomes das vias, entre as letrinhas pequenas, e íamos por ensaio e erro, ou seja, acertando aqui e voltando para tentar outro caminho acolá. Comparando a situação de hoje com aquela de antes nos surpreendemos de lembrar que dava certo. Dava, se a gente não estivesse entrando em Dallas, porque, se estivesse, tenho minhas dúvidas.

Andando de automóvel ou a pé, a todo momento que se olha para a paisagem da área central vemos edifícios modernos. Nosso filho mais novo, não sem razão, perguntou: “O que vocês vão ver em Dallas? Ver arranha-céus?” Parece que sim.

Dedicamos grande parte do dia para passear pelo centro. Assim que estacionamos nosso carro num parking, começamos a escutar vozes em protesto, por meio de um som altíssimo que nos dava a impressão de serem centenas de pessoas. Fomos nos dirigindo ao local: eram no máximo duas dezenas de pessoas, uma mulher que no microfone cantava as palavras de ordem e os demais que repetiam. Eram palestinos, protestavam contra Trump e a Suprema Corte, pelas medidas que levaram a deportação de estrangeiros. Especialmente, gritavam pela volta de uma mulher cujas fotos traziam em cartazes. Três horas depois ao passarmos novamente por perto do local, ainda permaneciam lá e a voz da mulher já estava completamente rouca.

Impressiona a atual política do governo de Trump, sobretudo quando se está no Centro-sul e no Oeste dos Estados Unidos onde a proporção de imigrantes é enorme. Em todos os lugares pelos quais passamos, eles estão realizando trabalho mais pesado – construção civil, reparos nas vias públicas, cuidados com os jardins, atendimento em supermercados, bares e restaurantes, serviços de segurança, limpeza de vidros nas alturas etc. Ademais, estamos na América e retirando os descedentes das nações indígenas nativas, o que estaticamente pouco importante, todos nós somos resultado da imigração. Segundo o software de inteligência artificial disponível no Google: “A população indígena nos Estados Unidos, de acordo com o censo de 2020, representa cerca de 0,9¨% da população total. Se considerarmos os descendentes misturados com outras etnias, esse número aumenta para quase 2,9%”

O passeio pelo centro de Dallas foi muito agradável, por causa das calçadas largas, das ruas sem excesso de trânsito e dos espaços públicos – pequenas praças e cantinhos onde há cadeiras e mesas para se ficar por um tempo.

Essas poltronas brancas, por exemplo, estão ao lado de um grande edifício, num ambiente lateral, que parece compor seu terreno privado, mas que está acessível ao público.


 

O espaço público de Dalas também tem mobiliário urbano e instalações lúdicas que possibilitam uma relação de brincadeira entre a cidade e o transeunte, como as bolas flutuando na água casa ou o maravilhoso olho, que está no começo deste capítulo de viagem. Ele é de uma boutique com vitrines elegantes e preços altos, que expõe a obra de arte em sua área externa.

Flanamos principalmente pela Main Street, mas também por outras ruas porque fomos e voltamos à procura dos pontos recomendados a serem visitados. Entre eles, é claro, estava o memorial ao Kennedy que, sinceramente, do ponto de vista arquitetônico não nos agradou. A minha foto não ficou boa, por isso reproduzo a do TripAdvisor.

Fonte: https://www.getyourguide.com/john-f-kennedy-memorial-plaza-l133877/

Internamente às colunas de concreto justapostas há apenas uma lápide em granito preto com o nome do presidente.

É um jazigo simbólico, porque ele está enterrado, de fato, em Arlington no estado da Virgínia. Por que foi enterrado aí? Foi essa a pergunta que me fiz e encontrei a seguinte explicação:

O Cemitério Nacional de Arlington, em Arlington, Virgínia, é o mais conhecido e tradicional cemitério militar dos Estados Unidos, fundado no antigo terreno de Arlington House, o palácio da esposa do comandante das forças confederadas da Guerra Civil Americana, General Robert Lee, Mary Anna Lee, descendente da mulher de George Washington, primeiro Presidente dos Estados Unidos (Fonte: Wikipédia)

A área por onde passava o presidente, quando foi alvejado, é marcada por essa construção de estilo bem mais antigo, que é conhecida como Red House. Pelos painéis em granito com explicações sobre o fato, que havia numa pequena praça em frente, fiquei sabendo que o carro passava por uma via lateral a este prédio, já concluindo o cortejo pelo centro principal, quando ocorreu o assassinato.

A cerca de 200 metros da esquina fatídica está o distrito denominado Historic West End, marcado por construções em tijolo à vista do século XIX, quando esta parte da cidade era caracterizada pela presença de atividades industriais e de armazenamento. Hoje, recuperada e refuncionalizada, serve de moradia, pois algumas das construções foram adaptadas para apartamentos, mas tem também pequenas oficinas e escritórios e muitas áreas de estacionamento. Por ali, se mantém os trilhos originais dos bondes por onde hoje corre um trem de superfície que tem muitos vagões e é bastante silencioso.

Visitamos a Tour Reunion, um ícone de Dallas. Gostei das instalações e da visita propiciada pela ascensão ao seu penúltimo andar permitido à visitação (no último, apenas um restaurante).

A esfera metálica que rodeia a abóbada no alto e os cabos de aço que compõem a estrutura atrapalham um pouco os registros fotográficos, mas paciência.

De lá se vislumbram as duas pontes principais da cidade, o complexo de vias e viadutos que está justo ao lado da área central e a presença de verdes entremeando o tecido urbano.


Termino o capítulo, uma foto dessas flores bonitas que estão por todo lado aqui no Texas. Elas se parecem com a russélia, que temos no Brasil, mas é mais bonita porque as hastes são mais firmes e as flores então ficam para cima, mas se mexem com qualquer ventinho.

Carminha Beltrão

Junho de 2025

Do Colorado ao Texas, passando pelo Novo México

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2022-04/perfuracao-e-producao-de-petroleo-aumentam-nos-estados-unidos

A chegada a Amarillo, após um percurso longo foi reconfortante, ainda mais que mudamos de fuso horário e “perdemos” uma hora, ou seja, ao invés de chegarmos às 17h, chegamos às 18h.

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=f2bRWAV78IE

Carminha Beltrão

Junho de 2025

Denver: arte e espaço público

Embora os espanhóis, no século XVI, tivessem procurado outro no território que compreende, hoje, o estado de Colorado e nada tenham encontrado, no século XIX, o metal precioso foi achado e levas de mineiros acorreram em busca de riqueza. Assim, uma parte dos Estados Unidos que era praticamente despovoada tornou-se demograficamente importante.

Adorei a visita ao Dever Art Museum, cujo painel de entrada ilustra o começo deste texto. O prédio é icônico e no site indicado a seguir vocês encontram fotos mais bonitas que a minha e informações sobre a equipe que é responsável por esta linda edificação

(https://www.archdaily.com/80309/denver-art-museum-daniel-libeskind).

Este prédio da foto compõe um complexo cultural, com mais duas edificações com obras de arte e uma outra, mais antiga, que abriga a principal biblioteca de Denver. Esse complexo está na área central, muito perto do capitólio (vou escrever alguma coisinha sobre ele logo mais) e da área onde estão as principais instituições associadas ao poder Judiciário no estado do Colorado. Para ligar duas dentre estas edificações, há uma galeria de vidro que passa por cima da rua e na qual duas esculturas apreciam a vida, uma olhando para a cidade e a outra para nós que passávamos de um ambiente ao outro do museu.

Observem o que a escultura vê da janela.

É justamente o fato de o museu estar integrado ao espaço público que me fez dar nome a este capítulo de meu diário de viagem. É adorável ir andando pela rua e ver que o museu vai além dos edifícios e está presente no espaço público também, com esculturas que estão dispostas em frente ao lindo prédio e logo adiante na praça-parque que o integra a outras edificações, algumas públicas e uma delas de apartamentos de classe média.

Nada mais designativo da arte contemporânea do que a escultura que está bem diante do museu. A foto não é boa, do ponto de vista de que não deixei nada para referência e, por isso, não é possível imaginar como essa vassoura e pá de lixo são grandes.

Outras obras estão lá entremeando os prédios do complexo cultural.

O museu embora seja denominado de arte moderna, tem obras de vários movimentos e diferentes países. Entre as exposições temporárias, por exemplo, chamou atenção uma denominada “Fases Lunares” que é composta de grandes potes brancos que eram usados pela elite coreana nos séculos XVII e XVIII. À primeira vista parecia monótona aquela sala, mas lendo os painéis, sabendo que esses potes eram usados para várias finalidades e que o nome da exposição faz referência ao fato de que, embora aparentemente iguais, os potes, como a lua, nunca são idênticos, porque argilas e queimas diferentes tornam o esmalte dos vasos distintos entre si, relativamente ao formato e aos tons do branco ao que se chama hoje de nude.

Passeamos pelas salas com obras do século XVIII e XIX, de pintores ingleses e holandês; do século XIX e principalmente XX, com pintores estadunidenses; pela pequena galeria de quadros dos impressionistas. O que mais chamava o olhar dos que passavam era o de Van Gogh apesar de ser um dos menores da sala, porque brilhava de longe.

O que mais gostei foi das obras de arte das coleções da África e da América, todas mostrando a cultura de seus povos ancestrais. Até vaso marajoara havia por lá. Deixo o registro de algumas delas.

Adorei os pentes africanos.

O colar de prata e turquesa pertence à nação navaja e a pesquisa indica que deve ter sido feito no decorrer do século XIX. O artista é anônimo.

Também adorei as várias obras que são de artistas contemporâneos que buscam recuperar a arte de seus ancestrais, adotando técnicas e/ou materiais e/ou cores e/ou formas que eram utilizados por eles. Esta vestimenta, por exemplo, foi usada recentemente numa apresentação de balé e foi confeccionada por uma artista, recuperando a arte das roupas usadas em cerimônias e festas na África.

A maravilhosa instalação que se segue é feita por guirlandas de flores de tecido. No cantinho esquerdo da foto, objetos feitos por mulheres das Ilhas Bikini. A bolsinha ficou conhecida no mundo inteiro, segundo a informação contida no museu, porque Jackie Kennedy, quando lá esteve, foi presenteada com uma dessas e passou a usá-la em várias cerimônias oficiais para dar visibilidade a esta tessitura de palha tão fina, delicada e perfeita, que parece ter sido feita por máquinas.

Numa das salas estavam expostas obras de arte feita com crochê e tricô, fazendo uma mistura interessante entre essas técnicas longevas de tecer e os personagens representados aludindo-se, pelo que eu senti, a bonecos de desenhos animados ou ilustrações atuais.

O traje completo de um indígena que vivia no Colorado chamou atenção pelos detalhes coloridos sobrepostos à vestimenta e aos sapatos de couro.

Por fim, a obra que mais gostei no museu, tanto pelo efeito cênico que ela provoca, como pela técnica que lhe dá origem. Trata-se de um painel, cujo tamanho deve ser 5 x 6 metros. Acho que a foto não é suficiente para causar o impacto que ele me causou.

Adorei a mescla entre o cinza prateado, o vermelho queimado e o marrom, bem como as dobras que o tecido faz.

Fiquei mais impressionada ainda ao chegar perto e verificar que ele é feito de tirinhas costuradas em tecido (as vermelhas à direita na foto), entremeadas por tirinhas de alumínio de embalagens de bebidas (as prateadas e com inscrições de marcas que estão à esquerda no detalhe que se segue).

No térreo do prédio principal do museu, há uma lojinha, como é corrente no mundo todo hoje em dia. Havia réplicas maravilhosas de vasos, xícaras, mantas, esculturas, pôsteres de quadros etc. Tudo absolutamente caro. Se a intenção era popularizar a arte, não cumpre o objetivo.

Deixamos o museu com a alma lavada, como diriam os antigos, porque a beleza faz muito bem para o espírito.

Logo adiante nos deparamos com o Colorado State Capitol que está edificado numa pequena colina que o posiciona acima do nível topográfico médio da área central. Acho que gostei mais do capitólio de Sacramento pela sua brancura, mas este é, sem dúvida, mais portentoso. Segue a foto que fiz e a do seu site oficial.

Fonte: https://capitol.colorado.gov/

Tínhamos vontade de conhecer tanta coisa em Denver que não fizemos a visita ao prédio, mas gostamos de estar em seus arredores e ver os jardins que serviam de “casa” para alguns homeless que estavam aproveitando o sol da manhã. O jardim é grande, eles eram poucos e não quis que ficassem identificados, por isso só a vegetação aparece na foto e, na seguinte, o esquilo que também mora nesta praça.

Dali seguimos para a 16th Street, a principal rua comercial do centro de Denver. Ao longo dela, estão galerias e pequenos malls com lojas, cafés, restaurantes de fast food principalmente. Trata-se de uma rua, em grande trecho, preparada para os pedestres, mas não apenas para eles passarem e comprarem, mas sobretudo para eles estarem. Havia bancos e mesas ao longo de todo percurso e ali se via gente de todas idades, gêneros, raças e condições socioeconômicas. O horário do almoço não favorecia permanecer ao sol, mas alguns ali estavam às 13h e outros transitavam de bicicleta ou patinete.

Também nesta rua, está a torre que se segue. Pelo mapa seria da Union Station, mas estou em dúvidas, porque já cansados, após 6 ou 7 horas em que fizemos a pé mais de 7 km, não encontramos a fachada desta estação de trens que seria um point a ser visitado.

Almoçamos num restaurante situado na 16th street, cuja comida não tinha nada de especial, como aliás é o mais comum nos EUA.

Tudo isso faz parte do que é chamado de LoDo (Lower Downtown, ou seja, centro baixo).

Por fim, conhecemos a Larimer Square, com suas construções em estilo vitoriano, a maior parte delas com tijolos aparentes. As boutiques pequenas tinham vitrines caprichadas e, na maior parte dos casos, preços proibitivos para uma brasileira, que paga quase seis reais por um dólar.

A parte mais bonita da rua não passa de uma quadra, mas ali também o espaço público é muito valorizado.

Sempre há o que fica sem ser visto, como a Union Station e o Cherry Creek North, que é descrito como um paraíso do consumo, pois são 16 quarteirões com lojas, galerias e restaurantes, apenas as de griffe são 160.

Para terminar o capítulo com arte, deixo registros de outras obras que estão pela cidade.

Carminha Beltrão

Junho de 2025

Chegando ao Colorado

De Nevada a Utah: ainda atravessando o Great Basin Desert

Pela Rodovia US 50 continuamos a atravessar o maior deserto dos EUA. Ele é denominado Great Basin Desert (Deserto da Grande Bacia) e compreende territórios dos estados de Oregan, Idaho, Nevada, Utah, Wyoming, Colorado e Califórnia, abrangendo mais de 409 mil km2. É muita terra! Seu solo é arenoso e com muitos cascalhos.

Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Great_Basin#/media/File:Great_Basin_map.gif

Em função dessas características do quadro natural é também um deserto urbano, pois as cidades que têm alguma relevância estão muito distantes entre si. Por exemplo, entre Reno e Salt Lake City são 830 km, entre Reno e Las Vegas, 711 km. Entre elas, os núcleos urbanos que existem são muito pequenos e foi assim que fomos parar em Ely (pronuncia-se Íly), que tem pouco mais de três mil habitantes e muito cassino, é claro, porque ainda estamos em Nevada.

A cidade encontra-se a pouco mais de 1900 m de altitude e está cercada por montanhas e muita aridez. Nossa opção de hospedagem (até parece que havia muitas) foi no Hotel Nevada and Gambling Hall que, para minha surpresa, é destacado na Wikipédia, no verbete sobre a cidade:

Apesar da sua importância histórica, ele não é nenhuma maravilha, mas era o possível.

A partir dele fotografei a main street de Ely, para um lado e para o outro, o que te ajuda, leitor, a constatar que a cidade não é muito grande, pois é possível ver o fim dela em ambas as direções.

No térreo, o hotel mantém parte de sua memória como é o caso da placa indicando o local da cafeteria e, pelo que observei, as máquinas de jogo já estão prontas para ir para o museu.

Adorei as fotos e o desenho do ator e cineasta Clint Eastwood, na coluna logo na entrada do hotel. Quem simbolizaria melhor o velho oeste estadunidense?

Quanto mais quilômetros percorríamos neste dia, maior era a sensação de que estávamos diante de uma mega tela de cinema, a cores e ao vivo. Quantos westerns ou mesmo filmes com enredos mais contemporâneos já assistimos, nos quais víamos paisagens como as que se seguem? Lembrei de Erin Brockovich com Julia Roberts; Bagdad Café com Marianne Sägebrecht e Carol Christine Hilaria Pounder; Thelma & Louise com Geena Davis e Susan Sarandon e, por fim, Paris Texas com Nastassja Kinski, para não entrar na lista dos de far west que é imensa.

Observem o azul do céu, limpo e sem uma única nuvem.

Vez ou outra, cruzávamos com um veículo, para lembrar que a estrada é solitária, como seu codinome anuncia, mas há quem ande por ela.

No sopé das Rochosas encontramos, num dado trecho, muitas torres de energia eólica. Elas pouco se moviam, mas imaginei que, no inverno, o vento deve correr solto ao longo da cadeia montanhosa.

Um ponto alto do percurso, entre Nevada e Utah, ainda bem próximo a Ely, foi a visita ao Great Basin Visitor Center, cuja recepção principal está na próxima foto e as imagens que registrei logo, na sequência. Em algumas delas, vemos que, mesmo com clima desértico, há vegetação, inclusive, arbórea, habitando o parque.

O parque é enorme. Percorremos de carro apenas um trajeto entre os muito indicados para serem feitos, alguns em veículos comuns, outros em 4 x 4, outros ainda a pé e, por fim, os que exigem habilidades para escalar. Vejam no mapa o percurso assinalado em vermelho na porção norte: foi este que realizamos parcialmente.

Fonte: https://www.parkrangerjohn.com/great-basin-national-park/

O que mais ocorreu neste dia? Fizemos um rápido pic nic de almoço em Hinckley, cuja população está acima dos 600 habitantes, mas sempre abaixo dos 700, desde 1990. Por que paramos neste lugar? Porque não havia outro por quilômetros e quilômetros, mas foi interessante observar suas casas e um pouco do cotidiano daquele pequeno povoado.

Quem não viu um filme em que os personagens namoram ou espiam a rua a partir de uma varanda como esta? Olhem o detalhe das cadeiras de balanço.

Era o sábado, 31 de maio de 2025, e parte importante da população estava saindo do culto na Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Estamos em Utah.

Vejam o que a IA do Google informa sobre essa religião:

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, frequentemente chamada de Igreja Mórmon, tem uma forte presença em Utah devido à sua história e à sua sede global em Salt Lake City. Muitos membros da igreja residem no estado, e Utah possui um grande número de templos mórmons. A igreja tem uma grande influência na cultura e na vida política de Utah.

Segundo a BBC News Brasil, em 1947:

…o religioso e historiador Brigham Young (1801-1877) chegou, com um grupo de adeptos da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, na região do Vale do Lago Salgado. Ali fundaria Salt Lake City. Era uma terra árida, com feições nada atraentes nem convidativas. Os integrantes da caravana, contudo, estavam exaustos. A viagem, com paradas em assentamentos, principalmente onde hoje é a cidade de Omaha, Nebraska, já levava mais de um ano (fonte: https://www.bbc.com/portuguese/geral-62255091)

De Hinckley, após o lanche, sem nada gelado para beber porque não encontramos um café, bar ou mercadinho na cidade, seguimos para Green River, onde iríamos dormir, percorrendo 530 km pelo deserto. A partir de Salina deixamos a US 50 e tomamos a autopista US 70. Vejam que passamos por vales, onde observamos o desenvolvimento da agricultura com irrigação. Aliás, já tínhamos notícia de que os mórmons vêm se dedicando, desde que chegaram à região, ao desenvolvimento de técnicas e equipamentos para irrigação, afinal, tinham que transformar solo pedregoso e terra fértil.

À medida que nos aproximávamos do nosso destino, os tons acinzentados que tínhamos visto na maior parte do deserto foram substituídos por formas de relevo impressionantes, e por tons terra ocre, que nos fizeram lembrar do Grand Cannyon. Não vou escrever nada, porque as fotos mostram (em parte, porque ficam aquém do que os olhos viram) a belezura que apreciamos.
 

O brilho do sol é maravilhoso para tornar as paisagens exuberantes, mas após um dia de viagem, nossos olhos estavam cansados de tanta luminosidade. Chegar ao hotel em Green River foi ótimo. Quando saímos do carro às 17h30, o calor era ainda intenso.

Estou acabando de escrever esse capítulo do meu diário de viagem no começo do dia 1 de junho e a previsão para hoje é de temperaturas entre 62 e 95 graus fahrenheit, ou seja, entre 16 e 35 graus centígrados. Seguimos para Denver.

Carminha Beltrão

Maio de 2025

A estrada mais solitária dos EUA

Fonte: https://br.freepik.com/fotos-premium/percevejo-vermelho-sobre-mapa-dos-eua-do-estado-de-nevada-renderizacao-3d_18224189.htm

Agora, estamos cruzando Nevada pela rodovia US 50, cujo codinome é “a estrada mais solitária dos Estados Unidos”.

Assim que vimos esse apelido, ficamos curiosos e já aviso que, se eu não entendi o codinome de Reno, rapidamente compreendi o da estrada. Fez todo sentido ela ser assim chamada, porque percorremos quilômetros e quilômetros sem ver cidades, agricultura ou gado na área rural e havia poucos veículos circulando.

Nossa intenção era dormir em Eureka, mas daqui a alguns parágrafos, conto porque mudamos de intenção. Primeiro quero descrever um pouco a sensação da travessia do deserto (veja o mapa que se segue), que pareceu diferente, por ocasião do percurso realizado em 2011, mais ao sul, entre Flagstaff, no Arizona, e Las Vegas, em Nevada.

Agora estamos mais ao norte e, por isso, cruzamos relevos mais movimentados. Do que me lembro, ao sul, a paisagem era ocre, enquanto na porção norte do estado de Nevada, por onde circulamos agora, a paisagem varia do cinza ao marrom chocolate.

Quando estamos dentro do carro, sob o ar condicionado, estas cores nos enganam, porque passam a ideia de que as temperaturas estão amenas, mas quando se abre a porta do veículo, o bafo quente dá um tranco na gente. Entre a máxima do dia e a mínima durante a noite, tem dado 20 graus centígrados de diferença.

Já havíamos percorrido vários quilômetros, quando as cores mudaram e percebemos que havia imensas áreas de depósito de sal, mostrando que, no passado ali estava o oceano. Nada parecido em extensão e brancura com o que tínhamos visto na Bolívia, no Salar de Uyuni (ver https://carminhabeltrao.com/2024/01/18/bolivia-e-peru-20/ e https://carminhabeltrao.com/2024/01/18/bolivia-e-peru-20/), mas havia muito sal acumulado, sobretudo em valas e fissuras do relevo.

Andamos mais um pouco e nos deparamos com morros de areia e planícies onde elas devem ter sido depositadas pelo vento. Estávamos no coração do deserto.

Mais adiante, estivemos frente a frente com elevações mais altas, onde a neve ainda remanesce nos picos, apesar do calor de 35 graus centígrados.

Dizer que se percorre a estrada de forma completamente solitária também não é verdade. Cruzamos com outros veículos. Sobressaem-se alguns caminhões, motorhomes, trailers e outros equipamentos voltados ao lazer, como os barcos (será que estavam indo para o Lake Tahoe?). Fiquei com a ideia de que ninguém que circulava pela rodovia, morava na região. Aliás, não se viam casas ou lugarejos, então é compreensível que essa seja uma rodovia de passagem e não de “ficagem”.

Aliás, a quantidade e variedade de motorhomes que há circulando nesta região sudoeste dos EUA chama atenção. Vimos de todos os tamanhos e tipos: alguns moderníssimos e gigantescos, outros parecendo do “tempo do onça”, são adaptações dos antigos ônibus escolares estadunidenses ou parecem mais furgões de transporte de animais, mas juro que verifiquei e estavam sendo “habitados” por gente.

Até os amantes das bikes encontramos pela estada mais solitária dos EUA.

O grande acontecimento de nossa passagem pela rodovia US 50 foi tomar consciência do que era efetivamente a cidade de Eureka. Para começar, fica a pergunta: cidade?

Fico envergonhada, porque dois geógrafos, observando apenas a distância entre um ponto e outro e a média de quilômetros que queríamos fazer num dia, fomos escolhendo as cidades em que dormiríamos na porção mais oeste da nossa “expedição”, sem prestar atenção em outras variáveis e, assim, escolhemos Eureka.

No caminho, pelo Booking, comecei a escolher algum hotel. Havia? Nada que se pudesse chamar efetivamente de hotel. Então decidimos prolongar o percurso do dia e seguir até Ely, parando em Eureka apenas para almoçar. Que desolação! O aglomerado de casas tem pouco mais de 300 habitantes. A maior parte dos imóveis está desocupada e, alguns deles, caindo aos pedaços.

Corremos para o TripAdvisor para saber quais eram as melhores opções para comer, Não havia Eureka no estado de Nevada nesta plataforma. Fomos então pedir socorro ao Google Maps, que indicava três ou quatro locais para restauração. Da nota melhor para a pior, uma a uma as opções estavam fechadas, ou porque só abriam para o jantar ou porque pararam de funcionar mesmo.

Sob o sol intenso, chegamos no Owl Club Bar and Steakhouse. O nome é pomposo, as fotos no Google são até razoáveis, mas o leitor não tem noção do que encontramos lá: um lugar escuro, mas até onde eu podia enxergar, bastante sujo. A  solução foi pedir um sanduíche que veio com o pão de forma quente e o presunto e o queijo semi congelados. Deu para curtir o bacon fritinho e seco e as batatas fritas….Para você ter uma ideia do que era, veja o objeto decorativo que ampara o sal e a pimenta em cada mesa.

Ao ir ao banheiro, adivinhem o que encontrei na sala ao lado: um mini cassino!!! Observem o estado do carpete!!!

Mesmo sendo minúscula, Eureka tem uma unidade da Maçonaria.

Para ter um motivo para registrar um elogio a Eureka, passamos, após o lanche, num café chamado Eureka Depot e tudo estava super bonitinho, o serviço era simpático e o expresso foi bem tirado. Até me esqueci de fazer um registro fotográfico, mas agora reproduzo uma foto dele que extrai da web.

Fonte: = https://www.yelp.com/biz_photos/eureka-depot-eureka-2?select=nF91v6YPWSPA54HP_NaOjg

Seguimos aliviados para Ely, na expectativa de encontrar um ambiente urbano mais equipado, mas isso fica para o próximo capítulo…

Carminha Beltrão

Maio de 2024

A maior pequena cidade do mundo

Atravessando a Califórnia

Fonte: https://lalarebelo.com/es/sanfrancisco/

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Corrida_do_ouro_na_California

Certos vales da Califórnia

Fonte da imagem: https://www.foodandwine.com/top-wines-of-2024-8761014

Nossos primeiros cinco dias nos EUA foram em São Francisco, mas não houve tempo, nesse interregno, para escrever sobre essa cidade charmosa. Talvez, faça isso ao final da viagem…

Hoje, quero escrever um pouco sobre a principal área vinícola do país – a que se desenvolveu em Sodoma Valley e Napa Valley. Para conhecer esta região, tomamos a rodovia no sentido norte e fizemos este passeio por meio de uma agência de viagem. Se íamos beber vinho, não havia como ir dirigindo.

Uma boa surpresa do passeio foi o motorista-guia que nos conduziu. Já demonstrou que era brincalhão desde a nossa entrada no ônibus. Gostamos, de cara, do seu inglês límpido e sem contrações em demasia. Foi fácil entender a razão, quando ele nos contou que nasceu na França, morou na Argentina e veio depois para os EUA. Seu nome? Jorge. Que figura! Alto, cabelos fartos e totalmente brancos, dirigia calmamente, enquanto ia nos explicando tudo que se via no percurso, desde o centro de São Francisco até chegarmos nas vinícolas. Volta e meia uma tirada para ninguém reclamar de monotonia.

Foi boa a sensação de novamente passar pela Golden Gate. Depois de mais de vinte anos, que tinha vindo a São Francisco, havia me esquecido do quanto ela é bonita e extensa. Na ida, a névoa encobria suas porções mais elevadas.

O trânsito no contrafluxo – das cidades da aglomeração urbana para o centro de São Francisco – estava intenso e ele explicou que o motivo principal eram os preços elevados dos imóveis nesta cidade, o que empurrava muita gente para a vida nos subúrbios distantes ou nas pequenas cidades de seu entorno.

A Golden Gate Bridge foi construída para ligar um lado ao outro da entrada da baía de São Francisco, por isso ela se chamar “Ponte do Portão Dourado”, já que efetivamente ela possibilita a transposição deste “portão”.

 Foi inaugurada em 1937 e representa, em grande medida, o apogeu econômico que a cidade vivia. Foi durante muito tempo a mais extensa (2700 metros) e mais alta do mundo (pouco mais de 220 metros acima do mar), mas mesmo tendo perdido esta posição no pódio mundial continua muito visitada e fotografada.

Além das vias por onde circulam os carros, ela tem duas passarelas – uma de cada lado – para servir aos pedestres. Apesar do seu comprimento e da cerração, havia muita gente atravessando a pé.

As duas fotos que se seguem extraídas da Wikipédia, dão uma visão melhor dessa graça de ponte – num dia de sol e num de nevoeiro.

São Francisco é uma cidade em que o vento é muito forte todo o tempo. Há parques bonitos como o Yerba Buena, por exemplo, mas, no geral, ela não me pareceu muito arborizada, por isso, quando tomamos a rodovia, a paisagem verde já começou a encantar, ainda que inicialmente se mesclasse com o ocre das rasteiras.

Logo chegamos ao verde mais pleno e, na sequência, às videiras.

O plantio de uvas nesta região remonta ao século XIX, favorecido pelo clima mediterrâneo e pela presença de água, numa grande região da América do Norte em que os climas semi-áridos e desérticos predominam.

Do ponto de vista comercial, a produção passou a ter mais destaque em meados dos anos de 1970, quando os vinhos aí produzidos ficaram melhor posicionados em certames de degustação às cegas que vinhos franceses.

Nossa primeira visita foi à Roche Winery, cujas plantações de uva e os canteiros floridos embelezam tanto quanto as oliveiras.

Foi pena que os cachinhos de uvas mal tinham deixado de ser flor.

E lá fomos nós para as explicações sobre o processo de produção do vinho.

Como ninguém é de ferro, íamos aproveitando para degustar, um por um: Branco Seco, Prosecco, passando pelo Rosé, para chegar ao Pinot Noir e, depois, ao Merlot.

Você, leitor, já assistiu ao filme Sideways? Não? Então, assista, porque é muito bom.

Por causa dessa película, filmada justamente neste vale tão especial, o Pinot Noir passou a ter muito prestígio, porque ele é motivo central dos elogios de um dos personagens.

Li, na internet, que um estudo da Universidade de Sonoma mostrou que as vendas do Merlot caíram 2% por ano, logo depois do lançamento do filme, em favor do Pinot. Os produtores de vinho da região chamam este movimento de “efeito Sideways”.

Adorei o espaço desta vinícola, especialmente a mesa em torno da oliveira.

Visitamos mais duas vinícolas e entre elas almoçamos num agradável restaurante mexicano na cidade de Sonoma, mas não vou detalhar tudo isso…

Com tanta degustação e paisagens tão especiais, chegamos saciados de volta a São Francisco, no final da tarde. Por sorte, novamente, o congestionamento estava no contrafluxo: os que foram trabalhar voltavam para suas casas.

Olha ela aí de novo, agora sem cerração encobrindo seu cume. Logo, na sequência, o skyline de São Francisco e um de seus famosos bondes, com meu pedido de desculpas pelas manchas das fotos, afinal o vidro do ônibus não estava muito limpo.

Carminha Beltrão

Maio de 2025

Atravessando os Estados Unidos da América