Descobrindo Palos de la Frontera: um charme andaluz

Feita a visita ao Museo de lo Descobrimiento e ao parque que o abriga, avaliamos que ainda havia tempo para esticar um pouco o passeio.

Não tínhamos grandes expectativas, mas optamos por aproveitar a oportunidade, já que, no dia seguinte, começaríamos o trajeto de retorno ao Brasil. Dificilmente voltaríamos àquela porção da Andaluzia, assim fomos conhecer o povoado ao qual se vinculava o porto de onde Colombo partiu para “descobrir” a América.

Chama-se Palos de la Frontera. Ainda bem que fizemos aproveitamos a chance, porque o pueblo é um charme!

Não foi fácil encontrar um cantinho para estacionar, mas assim que conseguimos, saímos a esmo fotografando as fachadas, as ruelas e os espaços públicos.

Alguns aspectos chamaram atenção.

O primeiro deles foi a presença de muçulmanas com a cabeça coberta. A proximidade com a África do Norte me fez supor que muita gente imigra do Magreb em busca de oportunidades de trabalho. No entanto, perguntei-me: por que para esta cidade tão pequena? Eu não tinha reparado nas ruas de Huelva mulheres trajadas à moda mulçumana, mas deve haver também. Fiquei, de todo modo, sem ter uma explicação.

Um terceiro aspecto que nos sensibilizou foi a limpeza das fachadas, todas pintadinhas, bem como os beirais de portas e janelas, a maioria de márbore branco, reluzindo.

Fiquei com a impressão que tanto capricho poderia ser resultado de algum incentivo do poder público. Entramos no imóvel onde funciona o escritório de turismo e perguntamos à funcionária, que lá estava, se havia alguma política deste tipo na cidade e ela respondeu algo como: “Ah, aquí en Palos tenemos una mujer como alcaldesa. Ella cuida mucho de la ciudad, pero la limpieza viene de ser así: nos gusta vivir aquí y tener una ciudad bonita.”

Se a informação dada é correta, é surpreendente tal espírico de comunidade e pertencimento ao pueblo.

O número de idosos foi outro ponto que chamou atenção. Eles andavam pelas ruas e aproveitavam o sol. que estava brilhando. Alguns sozinhos, outros com cuidadores. Aliás, essa não é uma peculiaridade de Palos, pois este foi um ponto também de destaque em outras cidades visitadas, afinal a Europa está envelhecida. No entanto, fiquei achando que em Palos de la Frontera eles são, ainda, mais numerosos.
 

Deparamo-nos com uma edificação muito peculiar, com apliques de louça em sobre relevo na fachada. Talvez um pouco enfeitado demais para o meu gosto, mas, sem dúvida, super caprichado e marcado pelas suas singularidades.

Entramos e uma jovem simpática foi informando que era o prédio do Ayuntamiento e que podia ser visitado. Havia uma pequena exposição de fotos, sempre duas a duas, mostrando a Palos fotografada por um estrangeiro na década de 1950 e a atual. Nas fotos do passado, muitas crianças, nas ruas de hoje não vi nenhuma.

A construção é a mesma de algumas décadas, mas passou por uma reforma que lhe adicionou toda uma ornamentação de ladrilhos coloridos. Nada que se escolheria para fazer na casa da gente, mas o conjunto alegre acaba compondo um ambiente agradável para se observar numa cidade pequena. Vai saber o que pensou o arquiteto ao propor essa reforma na edificação.

No pátio interno, onde está a escadaria que dá acesso aos gabinetes de trabalho, um enorme painel sobre o descobrimento da América.

Como no restante da cidade, tudo predominantemente branco e muito limpo.

Palos de la Frontera vangloria-se de ser a terra de Martin Alonso Pinzón, que ali nasceu em 1441 que acompanhou Colombo na viagem da descoberta da América, sendo o capitão da caravela Pinta. Ademais, teve influência enorme sobre a rainha Isabel na sua decisão de apoiar a empreitada ousada do navegador genovês. Olhem a casa dela abaixo.

Tudo está caprichado nesta cidadezinha. Cada escada, cada cantinho, cada praça.

A Plaza de España parece ser o coração do espaço público de Palos de la Frontera.

Ao final da rua principal, já se aproximando da área de onde, no passado, saíram as três embarcações famosas – Santa Maria, Pinta e Niña – está a igreja principal que não conhecemos por dentro (como sempre as visitas estão restritas a horários muito específicos).

E o que mais encontramos? Elas, as cegonhas.

Por fim, fica o registro que o povo de Palos de la Frontera tem do que se orgulhar, mas digamos que um pouco de modéstia não faria mal a eles.

Fevereiro de 2025

Carminha Beltrão

Andaluzia – Um porto e sua ligação com a América

Como comentei no capítulo anterior, Palos de la Frontera foi a razão principal de voltarmos à Andaluzia.

A história da América, da Espanha e, de certa forma, de Portugal tem tudo a ver com este pequeno povoado e seu porto.

Havíamos estamos em 2004 em Sagres e no cabo de São Vicente, extremo sudoeste do Algarve português, pontos do território que marcaram a preparação da viagem de Cabral, embora ele tenha partido do Porto de Lisboa em 9 de março de 1500.

Apenas 242 km separam esses dois pontos no território e hoje em menos de três horas se vai de um ao outro, mas no final do século XV essa distância não era pequena, embora os interesses que moviam as duas empreitadas eram muito semelhantes.

Agora com a visita a Palos, ligávamos de certa forma esses dois pontos da Península Ibérica ao que aconteceu nos últimos 500 anos na América Latina.

Ao contrário de certo vazio que havíamos encontrado em Sagres, além do vento e de algumas placas alusivas ao grande feito de Cabral, em Palos de la Frontera há um complexo museológico e turístico organizado para engrandecer a ousadia de Colombo.

Começamos pela avenida de entrada, com suas palmeiras fênix e chegamos ao pátio frontal do museu onde se vê um totem que não decifrei completamente, mas é bonito.

O museu é composto por uma edificação onde há painéis e uma sala de exposição de um vídeo sobre o descobrimento, que foi feito como se a história fosse contada pelas caravelas Niña e Pinta. Essa edificação é chamada de Muelle de las Carabelas, e tudo gira em torno do que ocorreu no último quartel do século XV e da reprodução das três valentes embarcações.

As informações contidas nos painéis são muito didáticas e oferecem uma síntese dos acontecimentos, sendo necessário descontar sempre um pouco dos exageros e patriotismos que costumam atravessar essas narrativas.

Talvez o leitor não tenha ânimo ou tempo para ler os painéis que reproduzo aqui, mas quis fazer o registro, porque eles contêm informações, as quais, se já soube, havia me esquecido de boa parte delas.

Por exemplo, visitando o museu fiquei sabendo que o navegador genovês Cristóvão Colombo se casou com uma portuguesa e morou nesse país, período em que apresentou seu projeto de atravessar o Atlântico à Coroa Lusitana, Rei João I, e não foi levado a sério.

A história não tem “se”, mas se João I tivesse levado Colombo a sério, não haveria América Espanhola e o português seria um idioma muito mais importante neste continente.

A representação cartográfica do caminho continental para as Índias que foi interrompido pela tomada de Constantinopla pelos turcos ajuda a lembrar que os interesses econômicos e políticos de descobrir um novo trajeto para se alcançar o Oriente eram grandes. Assim, os heroismos dos navegadores não são apenas resultado de iniciativas individuais ou de grupos, mas representam interesses muito maiores que ajudam a entender a lenta passagem do Feudalismo em direção ao Capitalismo.

Ao contrário de outros navegadores, que tentavam grandes empreitadas marítimas, Colombo não tinha muito estudo, mas era extremamente curioso e já sabia que havia erros nos mapas que então existiam.

Além de sua curiosidade,  ousadia e espírito aventureiro, Colombo tinha a experiência de outras viagens como as que fez pelo Mediterrâneo chegando à costa africana, a realizada até a Inglaterra contornando o litoral português e a travessia até a Islândia.

A vitrine com a reprodução dos instrumentos e ferramentas disponíveis para a grande viagem mostra quão rudimentares eram as condições para realizar a longa travessia que foi, afinal, bem empreendida.

Enquanto Cabral viajou com 13 caravelas, Colombo dispunha de apenas 3 embarcações – uma nau, a Santa Maria, e duas Caravelas, Pinta e Niña.

Se você gosta de Caetano e Gil, escute a música Las Tres Carabelas, de autoria dos espanhóis Augusto Algueró Jr, Augusto Algueró Senior e Santiago Guardia Moreu, no link https://www.youtube.com/watch?v=R40d0fIpkRM

Os mapas da primeira viagem à América e o das que se seguiram mostram que ele era um navegador de total sucesso para as condições disponíveis em seu tempo.

A pintura em que se representa a chegada do navegador em terra firme já era minha conhecida, com certeza de algum livro didático do ensino básico. Não sei se, na ocasião, apreciei tantos detalhes como agora, porque uma representação como esta oferece base para a elaboração de efetiva tese sobre como o domínio europeu se estabeleceu sobre a América.

Ainda que, no diário da viagem, haja registro de que Colombo, ao ser informado de que havia “terra à vista”, vestiu seus melhores trajes, é pouco provável que ele estivesse tal e qual aqui representado, porque no mesmo diário é informado que não havia água para limpeza de corpos e roupas e, mesmo que a pintura seja inodora (risos), é pouco provável que estivessem com os cabelos tão sedosos.

As réplicas das três embarcações são muito didáticas para se imaginar as dificuldades da travessia. Não eram grandes, embora a Santa Maria fosse um pouco maior, o que a tornava mais lenta. Olha ela aí.

Vejam, a partir dos seus respectivos conveses, a Pinta e a Santa Maria.

Os tripulantes não tinham qualquer conforto, a não ser o direito de dormir na parte coberta do convés (cuja altura não passava muito de 1,5m), o que era concedido aos mais importantes da tripulação, enquanto os demais se viravam a céu aberto, fizesse vento ou chuva. Olhem a reprodução do convés coberto da Santa Maria.

O trabalho com as velas não devia ser fácil também, porque qualquer erro tiraria as embarcações do rumo traçado e isso significava mais dias e menos víveres para a sobrevivência da tripulação que, em 10 de outubro de 1492, rebelou-se contra Colombo, já desiludida de chegar a qualquer lugar e demandando a volta à Espanha, antes de morressem naufragados ou de fome.

Olhem aí meu marido, curtindo a área das velas.

Nas duas próximas fotos, é possível ver como a Santa Maria (as da esquerda) era maior que a Niña, por ser nau e não caravela.

Do parque onde está o museu, avista-se Huelva (no fundo à direita) e a estátua de Colombo (também no fundo, à esquerda) que está a meio caminho entre esta cidade e Palos de la Frontera.

Depois fomos até lá e descobrimos que o Monumento a Colón foi um presente do povo estadunidense, aos espanhóis, em 1929.

Voltando a descrever o museu, registro que, em volta da pequena área onde estão as réplicas das embarcações, há um passeio com a reprodução de como viviam os indígenas na América, quando ali chegou Colombo.

Não confiei nem um pouquinho na qualidade deste trabalho museológico, porque notei vários estereótipos e clivagens culturais nessas representações. Enquanto os índios estavam representados totalmente nus, as índias apareciam com um tapa sexo (deveria ter feito um registro fotográfico), feito com um tecido branco que não tem nada a ver com a cultura americana de então. Os pequenos textos davam a entender que, apesar de bonitos e com cabelo que parecia de seda, os indígenas não trabalhavam, quase sugerindo que eram preguiçosos…

No mesmo complexo onde está o museu, há uma edificação para esportes e eventos de grande porte, o Foro Iberoamericano.

Em volta de todo o complexo há áreas com água, que eles chamam de humedales, onde parte da fauna aquática da região nada, indiferente aos feitos de Colombo.

 Por fim, o obelisco em homenagem à grande viagem de Colombo.

Valeu a visita!

Carminha Beltrão

Fevereiro de 2025

A Andaluzia de Huelva

Fonte do mapa: https://br.pinterest.com/pin/728809152206613118/

Passamos da Extremadura para a Andaluzia sem grandes contrastes paisagísticos, embora a região mais meridional da Espanha tenha mais palmeiras do que a ocidental.

Nossa ida a esta região, onde já estivemos várias vezes a trabalho ou a passeio – Sevilha, Córdoba, Granada, Cádiz – deveu-se a um desejo muito singular do meu marido: conhecer o porto de onde Colombo partiu para “descobrir” a América. Isso eu vou relatar, no próximo capítulo do meu diário de viagem, mas faço referência aqui para entenderem, por que passamos três noites em Huelva.

Veja a situação geográfica desta cidade no mapa obtido por imagem de satélite.

Nossa reserva tinha sido feita pelo Booking, para o Hotel Exe Tartessos, que fica muito bem situado, na Avenida Martin Alonso Pinzón, mas que foi difícil de encontrar, visto que, estando ele numa rua de pedestres, rodávamos em torno da quadra sem chegarmos à sua porta.

O ambiente de Huelva é extremamente agradável. Embora ela esteja a alguns quilômetros do Mar Mediterrâneo, às margens dos Rios Odiel e Tinto, nela há um clima praiano. As pessoas parecem mais leves, expansivas e coloridas do que nas outras cidades espanholas pelas quais passamos nos últimos 20 dias. Já no dia da chegada foi possível ver os cafés cheios de gente: alguns tomando um capuccino e comendo uma torta doce (recomendo 0 café La Tartería Las Alemanas para isso), outros já na cerveja ou vinho.

No dia seguinte, fizemos um passeio muito agradável por Huelva durante toda uma jornada, ao final da qual, olhando no APP Pedômetro, vimos que foram mais de 10 km.

Começamos pela própria rua do hotel, cujas construções com arcadas no térreo atribuem certa harmonia ao conjunto arquitetônico.

O prédio ocupado pelo Ayuntamiento (corresponderia à prefeitura para nós) guarda um recuo em relação a esta via principal, o que garante uma distância que favorece a apreensão de toda a fachada.

Neste largo, alguns homens trocavam ideias e logo chegou uma van trazendo painéis que anunciavam uma exposição de roupas andaluzes, que ocorreria justo naquela noite.

Ficamos animados porque, nas fotos os vestidos eram lindos. Eliseu resolveu, então, perguntar para o rapaz que parecia ser o “chefe” da montagem do tal desfile, como poderíamos comprar um ingresso.

Ele estava atarefado com um ar de azáfama, mas parou, deu uma olhada de cima a baixo em nós dois, que estávamos lá tão elegantes de tênis, jeans e jaqueta de nylon e, numa postura superior, explicou: “É uma exposição apenas para convidados do alcaide”. Não era preciso ser tão imperioso no olhar o no tom, como ele foi, por isso saímos rindo da situação e lamentando não termos o convite tão especial.

Chegando à Plaza de las Monjas de Huelva, vimos que o palmeiral banhado pelo sol causava uma sensação ótima e estava sendo aproveitado por muita gente que, naquela manhã invernal. Ele estava ali apenas curtindo o quentinho. Ao se chegar nesta praça, vindo pela Avenida Martin Alonso Pinzón, está a estátua de Cristóvão Colombo, numa dessas poses heroicas que os escultores tanto gostam de reproduzir, para agradar a freguesia.

As edificações que ladeiam a Plaza de las Monjas são, em grande parte, recobertas de tijolinhos ou pintadas em tons ocre, o que oferece alguma homogeneidade ao conjunto arquitetônico, constituído por essas fachadas. As varandas com suas ferragens e rendilhados à moda árabe também compõem a ambiência tão agradável.

Algumas quadras depois, na Plaza de la Merced, está a Catedral. Na praça, também, está situada a Santa Igreja Catedral de La Merced de Huelva, da qual gostei muito. Ao contrário de outros templos espanhóis e europeus, de um modo geral, que são do mesmo período, ela não é acinzentada, mas está toda pintada de branco por dentro.

O contraste entre o branco das paredes e na abóbada central, o granito avermelhado no piso e os altares e adornos de madeira enfeitados sobejamente com outro compõe um conjunto luminoso que trazia uma sensação muito boa.

Não é uma igreja majestosa, mas dá vontade de ficar ali sentada espreitando a luz e o ouvindo o silêncio.

Na saída, resolvi prestar mais atenção na torre com o sino, porque escutei um cantar altos de pássaros. Lá estavam elas de novo:  as cegonhas cuidando de seus ninhos e competindo com a cruz por um lugar ao sol.

O coreto, lembrando outros tempos deste espaço público, ocupava seu lugar como um adorno urbano que, talvez, possa parecer sem sentido hoje, mas cumpre o papel de testemunhar o passado, por meio de usos do espaço público que foram importantes na Modernidade europeia.

Dava para imaginar senhoras trajadas com chapéus e luvas portando sombrinhas, senhores com ternos, coletes e bengalas, crianças com vestidos de renda guipir branca, todos chegando para escutar uma banda ou pequena orquestra numa tarde de domingo.

Não foi difícil lembrar, com pena, da demolição do coreto de Presidente Prudente, onde moro. Sendo ela uma cidade de pouco mais de 100 anos é incrível constatar que quase nada resta de seu passado pouco longevo.

Continuamos nossa caminhada até o Muelle de la Companía del Riotinto onde há o que eles chamam de Paseo Marítimo de la Ría, de onde se avista o rio majestoso e ilhas em restinga que compõem uma reserva destinada à proteção de aves.

Não entendemos bem a razão dessa construção que é extensa tem três pisos, adentra na água com suas bases de ferro, muito madeira e milhares e milhares de parafusos. Ele não tem o papel de segurar as águas, tampouco serve de apoio a embarcações. Havia pouca gente andando por ali por volta de 11h da manhã, talvez por ser inverno e um dia de semana.

Retomamos a caminhada nos afastando um pouco do rio e voltando à cidade dos moradores, com o desejo de ir além dos pontos turísticos.

Já era menor o número de pessoas nos cafés. Chamou nossa atenção, diariamente durante esta viagem, o movimento desses estabelecimentos entre 9h30 e 11h30. Tiramos três conclusões: ninguém toma café da manhã em casa; – o poder aquisitivo médio é suficiente para esta escolha; – as pessoas ou estão aposentadas, ou não trabalham ou pouca gente começa a trampar cedo.

É descabido chegar a explicações deste tipo, eu sei, pois não tenho dados para essas conclusões, mas escrever relatos de viagem num blog não exige precisão não é mesmo, leitor? Com essas e outras, recomendo que não acredite em tudo que registro aqui.

Andamos mais um pouco e chegamos à maravilhosa edificação que foi erguida entre 1881 e 1883 para ser um hotel à altura do que mereceria Huelva. Veja a descrição contida num painel que se encontrava dentro do prédio.

Trata-se de uma construção em “U” que, internamente, tem uma fonte. Hoje, não é mais usada como hotel, chama-se Casa Cólon, também em homenagem a ele o grande personagem da história de Huelva. Pareceu ser, agora, um prédio público. Tem um anexo moderno, aos fundos, que é utilizado para eventos. Estava justamente acontecendo um Congreso Nacional de Hidrógeno Verde.

No pátio interno, acomodada entre duas palmeiras, havia uma laranjeira carregadinha de frutas.

Próxima parada: Museu de Huelva. Minutos antes de chegar já tínhamos decidido que não íamos entrar. Quando se está numa viagem, como a que fizemos neste fevereiro de 2025, passando por várias cidades e lugares, chega uma hora que não se deseja mais ver qualquer exposição de objetos, documentos ou obras de arte, porque tudo parece se embaralhar na nossa cabeça.

Mesmo assim quis fazer uma foto da fachada da construção que fora de uma família da elite de Huelva. Lá estava uma professora com seus alunos. Quando me viram, os jovens pararam de ouvir a docente e começaram a brincar comigo: algumas meninas deram tchau, outras fizeram coraçõezinhos com as mãos, outras poses; os meninos foram mais brincalhões ainda, com uma mímica indicando que cobrariam para serem fotografados. Confirmaram assim minha primeira hipótese de que a gente de Huelva é muito alegre e descontraída.

Andamos mais um tantão para conhecer uma vila operária de Huelva, que leva o nome de Bairro Reina Victória.  Na sua parte frontal, um pequeno parque e a escadaria de acesso às ruas onde estão as casas.

Foi espetacular ver aquele conjunto de residências tão bem preservado. Li depois na web que as casas compartilham os estilos neerlandês e andaluz, e foram projetadas pelo arquiteto Perez Carasa.

 Notamos pelo tamanho e pela fachada das construções, que o conjunto foi planejado com alguma diferenciação social que, talvez, correspondesse aos ofícios e funções de seus moradores. Algumas casas tinham dois pavimentos e ocupavam terreno maior, enquanto outras eram mais modestas. No entanto, o que chamou atenção é que não estavam separadas ou distantes entre si, pois numa mesma quadra havia casas de padrões bem diferentes entre si.

Ao final do dia, já com as pernas bambas, passamos pelo El Corte Inglés para um “almojanta” e para bisbilhotar os preços dos produtos ainda em campanha de “saldos de inverno”. Nesses passeios por magazines, a seção que curto mais é a das louças e panelas, que, no geral, na Europa, têm qualidade e design mais bonitos que os nossos. Mesmo assim, não comprei num uma tigelinha que fosse, preocupada com as dificuldades de acomodá-la nas malas.

Gostei de Huelva. Quando estou viajando, ao conhecer lugares novos sempre me pergunto se moraria ali. Pensei que gostaria sim de morar uns meses nesta cidade.

Fevereiro de 2025

Carminha Beltrão

Alcântara, uma ponte e as cegonhas na Extremadura

A visita a Alcântara foi muito pontual. Nosso desejo era conhecer uma das maiores pontes romanas que permanecem eretas e firmes.

A cidade passa certo ar de desolação, porque há muitos imóveis desocupados, alguns até em processo de deterioração.

Procurei verificar se ela tinha sido maior populacionalmente do que hoje, que tem 1.300 habitantes, mas não encontrei nenhuma informação confiável, já que os dados indicados em diferentes sites discrepavam entre si.

Na praça principal, em frente à igreja matriz que estava fechada como tantas outras que encontramos nesta viagem, imperava a estátua de São Padro de Alcântara. Gostei da representação estilizada dele, embora a obra de arte estivesse num patamar topográfico muito inferior ao da entrada da igreja o que a desvalorizava.

Para cumprir nosso objetivo em Alcântara, buscamos o caminho para a ponte que lhe dá fama pelo Google Maps. Não notamos que o filtro era o do “menor caminho” e não do “melhor caminho”. Assim, foi quase um rally para chegar a ela: passamos por ruas super estreitas, fizemos conversões cujo ângulo não era o mais adequado ao tamanho do carro e, por fim, enfrentamos um declive acentuado em curva fechada, para chegar a ela.

No vale, meio encaixado, o majestoso Rio Tejo, que tanto deve ter servido, aos romanos, como via de locomoção aquática, quanto como barreira para controlar o comércio e a entrada dos mercadores em Alcântara.

A altura da ponte impressiona e o sistema construtivo também, com o lindo portal que fazia as vezes de ponto de cobrança de impostos. Foi construída pelo Imperador Trajano. Está sustentada em 6 arcos, tem 194 metros de extensão, 61 metros de altura e 8 metros de largura. Está tão firme que passam veículos automotivos por ela.

Seu nome – Ponte de Alcântara – segundo li na web é do período muçulmano (Idade Média na Europa), pois “al-Qantarat” ( القنطرة)” significa “a ponte” em árabe.

De lá era possível ver alguns restos da muralha que, no passado, estava protegendo a cidade.

Gostei da estátua de São Pedro de Alcântara, da ponte romana e da muralha, mas curti mesmo foram as cegonhas que tomam conta dos cumes das maiores construções e ali protegem seus ninhos a passam a impressão de que são donas do pedaço.

Elas emitem um som muito alto que, segundo o que apurei, é “… produzido pela colisão do maxilar e da mandíbula. Este barulho, forte como o bater de castanholas, tem vários significados consoante o ritmo. Por exemplo, é lento durante o acasalamento e rápido enquanto sinal de alerta.”

Ao emitirem este som, as cegonhas estão glotorando (é óbvio que não conhecia o verbo glotorar, mas acabei encontrando no dicionário, para substituir o genérico piar que serve mais para os pintinhos. Risos). Quer saber como é este som?

As cegonhas são grandes e parecem fortes. Dá para imaginar que têm força para carregar bebês, mas é difícil aceitar como essa fábula foi se disseminar também no Brasil, onde não há cegonhas. A mim, quando era criança, não me ocorreu indagar onde estavam as cegonhas que traziam os recém-nascidos.

Por mais esforços do poder público que sejam realizados, por mais dinheiro da União Europeia que seja investido, ao passearmos pelos lugarejos, cuja importância histórica e o apelo turístico são menores, aquilatamos o tamanho do patrimônio que não será possível recuperar.

Em todas as cidades pequenas da Extremadura, alguns pueblitos, vimos construções desocupadas e muitas delas já em processo avançado de destruição. O que fazer? Não seria fácil defender a tese de mais investimento para a recuperação do patrimônio europeu ou asiático, quando, no Sul Global, as desigualdades são muitas, as formas de expropriação variadas e é preciso atender demandas mais urgentes como a de saciar a fome de uma parte das sociedades.

Fevereiro de 2025

Carminha Beltrão

Mérida na Extremadura, entre romanos, árabes e espanhóis

Capital da Comunidade Autônoma da Extremadura, Mérida que tem cerca de 60 mil habitantes. É menor que Cáceres, mas impressiona pelo patrimônio arquitetônico que herdou do período romano.

Foi fundada em 25 a.C. pelo Imperador Otávio Augusto, como núcleo urbano para viverem os soldados aposentados, o que explica seu nome que vem do latim Emerita sujo significado é aposentada ou veterana. Oficialmente, durante o domínio romano, chamava-se Augusta Emerita, sendo o primeiro nome homenagem a seu fundador.

Pela importância que teve durante aquele império, foi capital da província romana denominada Lusitana, que abrangia terras que hoje são espanholas e territórios atualmente portugueses.

Com o fim do império Romano, Mérida manteve sua importância durante o Reino Visogótico e, em 713, foi tomada pelos mulçumanos que a tornaram capital da Cora de Mérida. Somente em 1230 foi reconquistada pelos cristãos.

O patrimônio deixado pelos romanos está disperso na atual área central da cidade. Assim, diferentemente do que vimos em Cáceres e Trujillo, onde a cidade medieval está claramente distinta da cidade atual, no caso de Mérida, o que se tem é uma mescla, que surpreende o visitante. Muitas vezes, do nada, caminhando por uma rua comercial, chega-se a uma edificação de séculos de existência. Enquanto caminhamos, vamos constatando que a Mérida Romana está integrada à Mérida Hispânica.

Começamos o passeio pelo sítio arqueológico do poço romano de neve. Os romanos a transportavam das encostas mais elevadas da serra e a armazenavam tanto para preservar alimentos, como para, em caso de necessidade, descongelar e aumentar o estoque de água. A explicação do painel ajuda mais a entender a finalidade daquela construção, do que as formas materiais que restaram.

Na sequência, fizemos a visita ao maior parque arqueológico da cidade onde estão o circo e o anfiteatro romanos. Em frente a ele, há um museu que se encontrava em reforma. Fiquei muito impressionada como tamanho, grau de preservação e adornos que caracterizam essas duas construções, comparativamente a similares que tive oportunidade de conhecer na atuais Itália, Turquia e Grécia.

O anfiteatro está especialmente bem conservado, com a fachada posterior ao palco quase completa com suas colunas e cinco esculturas, uma ao meio e duas de cada lado.

Em outros sítios arqueológicos romanos ou gregos que conheci, áreas como a que se seguem eram as destinadas ao comércio. Em Mérida, não havia uma explicação para essas colunas, mas deduzi que podia ter sido essa a função deste espaço. Só não foi possível entender as razões que orientaram a desse brise de alumínio acima delas. Não servem nem para protegê-las do sol nem da chuva e, ademais, competem visualmente com as próprias colunas.

Entre o circo e o anfiteatro, algumas oliveiras estavam lá para nos fazer lembrar que estávamos no domínio climático do mediterrâneo. Aliás, este foi um ponto alto da visita à Extremadura: há olivais por todo lado, na área rural e muitas espécies adornado as cidades e os quintais.

O denominado Templo de Diana, cujo nome permanece, mesmo que as pesquisas arqueológicas mais recentes tenham descoberto que não era dedicado a ela, mas sim a Otávio Augusto, está igualmente integrado à cidade atual. As pessoas que ali vivem (e não apenas turistas) estão passando para ir ao trabalho ou às compras. Deveria ter feito um registro fotográfico das construções que estão lindeiras e são do século XIX hoje destinadas, em grande parte, a alojamentos para turistas, como a placa AT (alojamentos turísticos) indicava.

O arco de Trajano é outra herança romana que remanesce integrada à cidade atual. Fiquei imaginando os moradores dos prédios lindeiros, acordando, abrindo a janela e se deparando com 20 séculos olhando para eles.

Os romanos também deixaram sua marca na extensa ponte que ergueram sobre o Rio Guadiana

Por fim, para concluir nossa visita ao mundo romano de Mérida, fomos conhecer o aqueduto, que remanesce ereto cortando a paisagem contemporânea.

Além de Otávio Augusto, em Mérida, as homenagens são várias para Cayo Julio Cesar Augusto que parece ter sido um imperador de grande destaque.

No entanto, Mérida não vive só dos romanos. A presença árabe é importante.

Ao lado da maravilhosa ponte romana, temos a Alcazaba Árabe de Mérica, antiga cidadela mourisca, que funcionava como um forte importante onde habitavam tanto soldados como governador muçulmano da Mérida sob domínio. É uma construção portentosa, pouco adornada, mas situada estrategicamente ao lado da ponte.

Dentro da fortaleza, está a edificação onde morava o governador. Dela, além de parte das paredes laterais, ainda restam duas colunas e o adorno que, originalmente, estava em posição mais elevada.  Uma parte delas das colunas não restou para sustentar o que, suponho, era símbolo do poder muçulmano sobre este território. Segundo as informações contidas nos painéis, os moradores de Mérida não aceitaram pacificamente o domínio árabe, razão pela qual a fortaleza era, de um lado, para demonstrar o poder e controle sobre a entrada da cidade, na sequência da ponte, de outro tinha a função de atacar os moradores da cidade, quando estes se rebelavam contra o dominador.

Do alto de muralha que cerca a fortaleza avista-se o Rio Guadiana e se pode supor a importância estratégica deste forte, no que se refere ao controle político sobre o território e econômicos sobre o comércio. Aliás, há os restos da muralha romana e a cinco ou seis metros dela, por fora, está a que foi erguida pelos árabes, ou seja, essa fortaleza se erigiu sobre escombros romanos.

Além da herança romana e da árabe, Mérida também tem um patrimônio hispânico considerável de construções do século XIX e começo do XX. Grande parte está em ruas tornadas exclusivas para pedestres, que estão adornadas com as árvores carregadinhas de cítricos (laranjas, limões sicilianos e mexericas). Acho que é proibido colher, porque não vi ninguém sequer tocar em uma das frutas que estavam maduras convidando ao pequeno delito. Consegui resistir e com medo dos carros com a inscrição Polícia Social, que rondavam por todo lugar, não colhi uma frutinha sequer.

O hotel da rede “Paradores de Espanha”, em Mérida, está situado na Plaza Mayor, onde outras edificações compõem o patrimônio hispânico desta cidade.

A herança árabe não está só na fortaleza. Aparece também nos prédios dos últimos dois séculos, quando a cidade já estava há tempos como parte do Estado espanhol. Também é sentida nos rendilhados que adornam grades e sobre relevos nas fachadas, mas igualmente por meio da presença de pequenas fontes nos espaços públicos.

O passeio em Mérida foi muito especial. A cidade mereceria mais um dia de permanência para que pudéssemos apreciar, com mais vagar, essas paisagens de mescla histórica, cultural e social.

Carminha Beltrão

Fevereiro de 2025

Esquecimento e Memória: A Experiência em Marvão

As pesquisas sobre como funcionam a memória não são suficientes, ainda, para decifrar seus mecanismos. Muito se fala sobre seu funcionamento, no plano do senso comum, mas ainda resta muito a descobrir, cientificamente falando. Talvez isso explique, porque não são simples as investigações sobre a psiquê humana, talvez porque não seja muito bom saber tudo sobre ela.

O fato é que de algumas coisas e lugares nos lembramos muito bem e de outros há efetivo apagamento, ou quase isso. O maravilhoso Mia Couto disse que, às vezes, é melhor esquecer que lembrar. Por isso, algumas vezes sendo convidado a palestrar sobre a relação entre memória e identidade, preferiu dissertar sobre o esquecimento.

A foto que abre esse capítulo do meu diário de viagem retrata metaforicamente o largo muro que nos separa da imensidão de coisas que vivemos, escutamos e vimos, com uma pequena fresta para trazer à consciência algo que a memória nos libera.

Sobre Marvão, minha memória não queria liberar nada. Segundo meu marido, já estivemos nesta cidade murada, quando de uma viagem com nossos queridos amigos Marilu e Dióres.

O nome da cidade me dizia alguma coisa de longe, mas não conseguia me lembrar de uma imagem sequer sobre ela. Resolvemos, então, atravessar a fronteira entre Espanha e Portugal para voltar a ver Marvão, como se fosse a primeira vez para mim.

Que graça de cidade! Como eu pude me esquecer dela? Antes mesmo de entrar já era possível ver seu sítio urbano em acrópole, encravado nas rochas.

A foto que se segue é de um poster que encontrei afixado numa de suas ruelas e oferece uma visão área deste sítio urbano.

Estacionamos o carro num parking externo à muralha e adentramos pela Porta de Ródão, à qual se acede por um aclive íngreme. Não tem como não imaginar, no passado, agricultores, peregrinos e mercadores chegando até aqui a pé ou a cavalo. Não havia asfalto, nem automóvel, nem tênis Nike nos pés. Que dureza!

Dá para supor a importância de Marvão teve na Idade Média pelo fato de ela ter duas portas, ou seja, uma muralha dupla com um fosso interno. Ela compunha com outras cidades uma linha de 62 fortalezas que foram erigidas para defender a fronteira portuguesa a leste. Vejam o que se explica sobre elas:

Portugal continental é delimitado a norte e a este pelo território espanhol, sendo esta uma das mais antigas fronteiras da Europa.

A região fronteiriça, vulgarmente denominada “raia”, e a sua história estão associadas à reconquista na parte ocidental da Península Ibérica, e tem origem em acontecimentos determinantes como o Tratado de Zamora, de 1143, que assinala o nascimento de Portugal como reino independente, e o Tratado de Alcanizes, de 1297, que estabelece, no essencial, as fronteiras do nosso país.

A necessidade de assegurar a defesa e vigilância na região fronteiriça materializou-se num vasto conjunto de fortificações que são hoje testemunho de séculos de história e exemplares únicos de arquitetura militar do passado.

Fonte: https://fortalezasdefronteira.turismodeportugal.pt/

Veja o mapa, pois ele ilustra bem como essas fortalezas compunham uma verdadeira barreira de proteção ao Reino de Portugal, em sua porção continental. Compare com o mapa seguinte e verá a situação espacial de Marvão.

Fonte: https://fortalezasdefronteira.turismodeportugal.pt/

Antes de passar pelo umbral da porta principal, já víamos o casario branco.

Imagino que, na Idade Média, as casas não estavam pintadas de branco, mas fica muito mais gracioso assim. Já tínhamos curtido essa homogeneidade, pincelada pelos tons amarelos ou azuis das molduras de portas e janelas, em Óbidos, e agora estávamos aqui nos deliciando com essa paisagem do passado que se realiza numa transição para o presente, como os novos usos dos imóveis vão demonstrando e os sentidos dados à paisagem pelo turismo atestam.

Segundo as informações que busquei na web, conforme levantamento feito em 2021, Marvão tinha, na cidade, 398 habitantes e, no município, 3021. Está situada na região do Alentejo a 860 metros de altitude, incrustrada na Serra do Sapoio.

Esse tamanho demográfico e o frio ajudam a explicar porque a cidade estava quieta às 11h da manhã, mas quando a deixamos duas horas depois, com o sol mais quentinho, já estavam abertos os pequenos mercados de produtos regionais, uma ou duas lojinhas de lembranças (comprei dois cartões com desenhos estilizados de Marvão), um ateliê de arte que continha quadrinhos com dizeres de Saramago e sobre relevos de cortiça representando casarios ou gatos ou luas e uma outra bodega.

Encontramos um único estabelecimento de restauração aberto: um café chamado Lounge do Castelo. Poderia haver um nome mais contraditório? Misturar o castelo medieval com a americanização da linguagem é um pouco demais, sobretudo porque o café era hiper tradicional na sua decoração interna e no comportamento e vestimentas das duas mulheres que faziam o atendimento.

Será que elas falavam a mesma língua que eu? Tive dúvidas, tal era a frequência com que engoliam, ao menos, uma sílaba de cada palavra. Não diziam as coisas, mas gritavam. Super simpáticas, iam servindo e comendo pedacinhos de croissant ou de doces que estavam por ali.

Mesmo sem entender tudo que as duas portuguesas falavam, foi um alívio encontrar esse café aberto, pois tanto queríamos ir ao banheiro, como esquentar o corpo por dentro (uma xícara quentinha da deliciosa bebida e um croissant caíram muito bem).

Do café fomos direto à visita ao castelo e suas torres. O espaço estava bem-organizado para receber os turistas, que, naquela manhã de 3ª feira invernal, éramos nós dois e mais meia dúzia de chineses. É impressionante como eles nunca estão sozinhos ou em casais, são sempre grupos que se notabilizam pelo tamanho das objetivas de suas máquinas fotográficas. Olha eles aí embaixo.

Na entrada do conjunto museológico, estava uma escultura moderna, além da grua que dava apoio a uma reforma. Eu gosto da mistura entre o antigo e o novo.

A vista das paisagens a partir do alto era deslumbrante e compensava, por causa da luz do sol, o vento cortante que fazia. Imagino o horror que deveria ser passar a noite naquela guarita durante a Idade Média para avistar ao longe um possível inimigo.

A muralha está muito bem conservada e, num bom trecho, pode-se caminhar por ela.

Não muito longe do museu, ainda num patamar elevado da cidade está a edificação ocupada pelo Concelho (é assim mesmo que se escreve em Portugal e corresponderia à nossa Prefeitura Municipal). Tudo muito bem-organizado, limpo e conservado. Numa cidade de tão poucos habitantes, dezenas de carro pelas ruas e praças.

Chamou atenção o fato de que havia ao menos duas construções antigas em reforma com recuperação muito bem-feita do patrimônio arquitetônico. Paredões externos mantidos e reconstrução quase completa por dentro. Os pedreiros que estavam em trabalho eram afrodescendentes. Portugal é um país pequeno de cerca de 11 milhões de habitantes e, muitas vezes, demonstra estigmas em relação aos imigrantes e estrangeiros, como podemos acompanhar pelas notícias veiculadas pela mídia. No entanto, o fato é que precisa deles tanto para os trabalhos braçais, como para o turismo animando o mercado de AirBnB, hotéis e restaurantes, num país em que o patrimônio é maior que a população. Já li em algum lugar que há mais de um imóvel por pessoa (não é por família) neste país.

Pouco antes de deixar a cidade passamos por um pequeno jardim ao lado do complexo onde está o museu e pronto: um flash de memória funcionou. Lembrei-me que exatamente ali tínhamos feito um lanche em 2004, na tal viagem com nossos amigos. Marvão voltou do fundo da minha memória, por meio de um de seus cantinhos mais comuns.

Terminamos a visita e, para manter a tradição em Marvão, fizemos um pequeno lanche-almoço, numa área própria para pic nics que estava anexa ao parking (eu me achei péssima nesta foto).

Era 4 de fevereiro de 2025 e completávamos 47 anos de vida juntos. Parece que foi ontem, mas tanto temos a sensação que passou rápido como a de que fazem séculos que compartilhamos a vida, sempre curtindo as viagens. É assim que a memória funciona, simultaneamente comprimindo e alargando o tempo.

Carminha Beltrão

Fevereiro de 2025

Ruas Históricas de Trujillo: Um Passeio pelo Tempo

Nossa chegada à pequena Trujillo foi conturbada. Estávamos mortos de fome. Já é duro esperar o horário normal de almoço na Espanha, que começa às 14h, e, naquele dia, por causa do deslocamento desde Guadalupe, já eram mais de 15h.

Pelo TripAdvisor busquei os dois melhores restaurantes da cidade e para aceder a eles íamos por ruas estreitas, em trechos que mal o veículo conseguia passar, para na sequência lutar por uma vaga para estacionar o carro. Insucesso total! Ambos estavam fechados.

Fazer turismo na Europa durante o inverno tem seus pontos positivos: temperaturas baixas que convidam a caminhar e não se enfrenta filas para entrar nos museus ou para conseguir um lugar num restaurante. No entanto, tem seus lados negativos e um deles é que uma parte dos locais de visitação e restauração estão fechados.

Não havia mais tempo para escolhas. Sentamo-nos à mesa do primeiro bar café que encontramos aberto na Plaza Mayor de Trujillo, cuja nota, nas avaliações do Google Maps, era bem baixa. Com a forme que a gente estava, tudo pareceu bem razoável.

A maior parte dos que estavam ali preferiam as mesas externas. Para nós, a temperatura baixa levou-nos a uma das internas ao restaurante, o que me possibilitou ficar observando o movimento dos dois garçons que, simultaneamente, cuidavam do balcão (preparando cafés, tirando um chopp ou fazendo um drink) e das mesas internas e externas (levando e trazendo bandejas cheias).

A porta de entrada do restaurante só era aberta com um chute deles, pois as mãos estavam sempre ocupadas. Assim, enquanto esperávamos nosso prato, víamos a destreza e precisão com que colocavam a força certa no pé, de modo a que o ângulo e o tempo de abertura da porta fossem suficientes para eles passarem sem serem abalroados com a volta dela se fechando sobre eles. A madeira da porta estava desgastada no exato lugar onde eles a chutavam, o que nos leva a supor as centenas ou milhares de vezes em que a porta vem sofrendo ataques. Será que é disto que vou me lembrar mais de Trujillo? Talvez, mas há coisas mais importantes a serem registradas.

A cidade tem pouco mais de oito mil habitantes. Está situada no divisor de águas entre dois rios importantes – Tejo e Guadiana – o que significa que tinha uma situação geográfica estratégica no passado, pois possibilitava ver e controlar extensões importantes de terra, desde sua posição mais elevada.

Sua história remonta ao período pré-românico, quando era apenas um pequeno aglomerado e terá se chamado Turaca ou Turacia, segundo que li em sites da web. Depois disso, levou o nome de Turgalium (seu nome romano), Torgiela, Troxiello, Trugillo (estes de influência árabe) e, finalmente, Trujillo. Esta denominação atual espalhou-se pela América espanhola, já que esta cidade foi berço de personagens importantes que atravessaram o Atlântico em busca de terras novas, ouro e prata. Assim, há cidades chamadas Trujillo em Honduras (1525), Peru (1535), Venezuela (1556), Porto Rico (1801) e Colômbia (1922).

O patrimônio arquitetônico da cidade decorre, em grande medida, da riqueza trazida por  estes desbravadores, entre os quais se destaca Francisco Pizarro, que dominou o Peru, em 1653, e Francisco Orellana, considerado o descobridor do Rio Amazonas.

Na Plaza Mayor de Trujillo está a estátua equestre de Pizarro e num dos vértices dela, situa-se o edifício público mais importante com a bandeira da Espanha. Antes desta, a cidade deve ter tido muitas outras bandeiras, como a romana, a árabe e as de senhores medievais que a dominaram.

Depois do domínio romano, na Era Medieval, a cidade recebeu vários codinomes: Ciudad Muy Noble, Muy Leal, Insigne y Muy Heroica.

Observe no mapa que incluo, a seguir, a Plaza Mayor com a Estátua de Pizarro que está fora da cidade histórica delimitada pelos muros, conformando um sítio urbano muito parecido com o de Cáceres, porque aqui também a praça principal está num patamar topográfico inferior à da cidade romana, árabe e medieval e fora de seus muros. Passado e presente, lado a lado, testemunhando influências e culturas diferentes.

Fonte: https://trujilloteespera.com/wp-content/uploads/2021/11/Mapa-de-Trujillo-Trujillo-te-espera.pdf

Demonstrando a importância que a cidade teve, estão para contar história várias portas de entrada, a altura das torres da proteção e a existência de edificações de três ou quatro pavimentos erguidas em pedra.

Numa das edificações mais bonitas está instalado o Museo de los Descobridores.

Da porção mais elevada do sítio histórico, avista-se a cidade adentro e afora da muralha.

A muralha está muito bem conservada e se mantém em grande parte dos limites da cidade histórica (observem no mapa e vejam as fotos).

Como em toda cidade histórica, as ruas estreitas encantam e convidam ao passeio sem rumo. Algumas casinhas mais modestas pintadas de branco indicavam que há gente morando nesta porção histórica da cidade. Embora as construções mais portentosas sejam edifícios religiosos ou institucionais, havia alguns bem conservados, que pareciam ser segunda moradia de famílias abastadas.

Adorei as torres de edifícios religiosos e de palácios adornadas à moda árabe, mostrando que a reconquista feita pelos espanhóis de Castilla não foi completa, porque, como sempre, ficam os testemunhos do passado imortalizados nas formas arquitetônicas e no tecido urbano, moldado por ruas e praças.

Por fim, o destaque fica para a Iglesia de Santamaria La Mayor.

Ela é singela, pois não há nada de muito monumental na construção, mas as ogivas no texto e o retábulo central são lindos. Mais ouro da América para adornar as edificações da Europa.

Carminha Beltrão

Fevereiro de 2025

Guadalupe, a santa da Extremadura

Fonte: https://www.spain.info/pt_BR/lugares-interesse/real-mosteiro-santa-maria/

Fonte: https://www.spain.info/pt_BR/destino/guadalupe/

Fonte: https://monasterioguadalupe.com/arte-cultura/bordados/

É uma virgem sentada, feita em madeira de cedro. É de estilo românico ou proto-gótico. A escultura mede 59 centímetros e pesa 3.975 gramas. […]

Existem várias hipóteses sobre a etimologia da palavra “Guadalupe”, do árabe وادي اللب Wādi al-Lubb, que pode significar “rio dos lobos”, “rio de Ibn Lubb”, “rio do urso”, “rio de cascalho negro”, “rio de altramuces”, “rio escondido”, entre outros. O mais provável é que a palavra provenha do árabe (wad, “rio”). O prefixo guada – está presente em outros topônimos de origem árabe, como Guadarrama, Guadalquivir e Guadalajara.

O pesquisador francês Jacques Lafaye, especialista no tema da Virgem de Guadalupe no México, acrescenta que, embora o sufixo -lupe tenha sido interpretado como de origem latina (lupus, lobo), uma investigação filológica mais detalhada (al – artigo árabe) nos daria guad-al-lupe, que significaria mais precisamente “corrente encaixada” ou “rio oculto”.

Segundo uma antiga lenda, a imagem foi feita em um ateliê de escultura fundado na Palestina no século I por São Lucas Evangelista. Séculos depois, foi venerada em templos de Acaya e Bizâncio. Posteriormente, o papa Gregório Magno presenteou esta escultura a São Leandro, arcebispo de Sevilla visigoda. O arcebispo colocou a imagem em uma ermida nos arredores da cidade. Durante a invasão muçulmana de 711, os cristãos da cidade a colocaram em uma caixa e a esconderam junto ao rio Guadalupe, na região da serrania de las Villuercas, aos pés da serra de Altamira.

Fonte das duas fotos: https://www.cope.es/religion/vivir-la-fe/cultura-y-fe/noticias/historia-virgen-guadalupe-venerada-por-cristobal-colon-convertida-reina-hispanidad-20201009_936038

fonte: https://www.flickr.com/photos/rafaelgomez/47413291841/in/album-72157705970836301

Entre nos perdermos e nos acharmos em Cáceres

Esta é uma cidade tão especial que não deu para contar tudo sobre ela em um capítulo deste diário de viagem. Vamos, então, agora entrar no coração do sítio histórico.

Uma das suas edificações mais portentosas é o Palácio Episcopal, cuja fachada sisuda é comandada pelo portal enorme.

Fonte: https://gestor-eventos.caceres.es/es/plano-ruta-caceres-paso-paso

Na Plaza de Santa Maria, onde encontramos um artista manuseando um instrumento bem peculiar, chamado Hand Pan (panela de mão). O som era agradável e resultava apenas do modo como ele passava a mão sobre uma superfície arredondada de metal. Perguntamos a ele qual o princípio que orientava aquele instrumento e ele sugeriu que a gente comprasse um CD que ele tinha à venda no qual fazia esta explicação. Achamos que não valia a pena, primeiro porque nem se tem mais Toca CDs e, depois, vai saber o que estava mesmo gravado por lá. Fizemos uma doação no chapéu que ele deixava estrategicamente no caminho dos passantes e lá seguimos virando uma nova esquina.

Continuamos a nos perder pelas ruelas, sempre estreitas, para chegarmos em seguida a um pequeno largo, o que em castelhano eles chamam de “plazuelas”, em torno das quais estão as construções maiores. No urbanismo português, do qual herdamos muita coisa, as praças e pracinhas espaços públicos com árvores, arbustos, bancos, estátuas e fontes… no urbanismo espanhol plazas e plazuelas são espaços livres para serem apropriados pelas pessoas. Gosto mais do urbanismo espanhol, quando se considera este aspecto.

Algumas edificações da Cáceres antiga são mais recentes e datam dos séculos XVIII ou XIX. Mesmo nestes casos, a história ainda conta, porque há elementos herdados do período árabe com os pátios internos, aspecto que se incorporou ao urbanismo espanhol e por consequência tem testemunhos na América espanhola. Entrei neste pequeno pátio de um dos palácios de Cáceres e me senti no México ou no Colômbia.

Atravessando a cidade toda, chega-se ao bairro judeu de Cáceres, situado no setor leste da cidade antiga. No geral, cidade histórica pareceu pouco ocupada por moradores de Cáceres, pois as edificações de grande porte ou se tornaram hotéis ou alojamentos turísticos ou parecem ser segunda residência de moradores de cidades maiores da Espanha. No bairro judeu, fiquei com a impressão que havia mais gente morando – vasinhos improvisados, cortinas para cortar o sol meridional, roupas penduradas na janela.

Neste bairro, visitamos um pequeno museu que conta a história de outras três torres, entre as quais apenas uma ainda está inteira. Elas foram erguidas, entre os séculos XI e XII, para proteger o poço que abastecia a cidade: a Cisterna de San Roque. Numa região semi-árida, os árabes sabiam muito bem a importância de guardar e proteger a água.

Desta torre, temos outras vistas: – a da área urbana que se expande a leste; – a da área rural que abraça Cáceres

No bairro judeu, também vimos um painel com a árvore que representa a rede de juderias que há na Espanha.

Já terminando a visita pelo sítio histórico, conhecemos o palácio da Fundação Mercedes e Carlos Ballestero, onde a coleção de quadros, louças e joias encanta.

Simplesmente adorei Cáceres. Perder-se nas suas ruas, o que não é difícil, porque o plano urbano é desordenado, logo é compensado pelo encontro de um novo cantinho ou de uma nova edificação, para, em seguida, já voltarmos a esquinas por onde já tínhamos passado, afinal a cidade não é grande.

Entre nos perdermos e nos acharmos, íamos curtindo tanto o patrimônio histórico como um banco, uma árvore ou um portão…

Terminamos o passeio, com um almoço no Restaurante Torre de Sande. Não vou descrever os pratos para não aguçar seu paladar, caro leitor, mas recomendo a visita, se um dia você for a Cáceres. E se for, preste atenção no pedaço de fachada de vários séculos, que está exposto no hall de entrada. A foto deste painel é a que está no começo deste capítulo do diário de viagem.

Carminha Beltrão

Fevereiro de 2025

Cáceres: Um Passeio pelo Patrimônio da Extremadura

Fonte: https://www.minube.com/rincon/casco-antiguo-de-caceres-a85128

Situada na porção oeste da Espanha, na fronteira com Portugal, a Extremadura combina com o nome que tem. Parece mesmo uma região das extremidades do país Extrema e a arquitetura das cidades mais antigas, com seus tons cinzas-ocres, passa a ideia de uma paisagem urbana dura, o que se repete na área rural onde as rochas afloram em meio à vegetação pouco verde. No entanto, isso é apenas uma interpretação bobinha que eu fiz.

Fui verificar e constatei que esta nomenclatura começou a ser usada durante a Reconquista da grande porção da Península Ibérica, que havia sido dominada pelos árabes e que levava o nome de Al-Andalus. No século X, durante essa reconquista as terras situadas nas porções mais extremas eram assim chamadas e o vocábulo foi usado, pela primeira vez para nomear a região em torno de Viseu, hoje cidade portuguesa. Achei até um artigo que trata do tema (file:///C:/Users/Cliente/Downloads/3482-Texto%20del%20art%C3%ADculo-6772-1-10-20130206.pdf) em que se explica que a palavra significa os “extremas do Douro”.

À parte a curiosidade sobre o nome, o que interessa, neste diário de viagem, é registrar o passeio por essa região da Espanha que é uma de suas comunidades autônomas, cuja história é partilhada com Portugal, pois este território já foi parte da Província Romana da Lusitânia [Ah, esses romanos, como diria o Asterix. Eles fizeram esse Velho Mundo].

Fonte: https://br.pinterest.com/pin/760897299517102660/

Fonte: https://br.pinterest.com/pin/771804454877652716/

Nesta região, nasceram muitos que viajaram para explorar a América. Os textos turísticos falam de os “conquistadores do Novo Mundo”. É claro, que do nosso ponto de vista, podemos ter outro conceito, que não de conquista, sobre essa exploração do ouro e da prata de nosso subcontinente.

Parte dessas riquezas extraídas da América ajudou a financiar muitas das construções que estão na região, embora antes disso a situação geográfica desse território já favorecesse o comércio, o que explica por que suas cidades, fundadas ou não pelos romanos, têm um patrimônio arquitetônico muito bonito.

Começamos o passeio por Cáceres, uma das cidades principais da Extremadura, onde estamos hospedados.

Em 1227, ela foi conquistada por Afonso IX e cresceu em função de ser um território de livre comércio que passou a atrair as rotas de mercadores. Mais tarde, aristocratas também se estabeleceram na cidade e construíram palácios luxuosos. Consta que a competição entre essa elite comercial era tão ferrenha que os reis Isabel e Fernando mandaram demolir parte dessas edificações para acabar com a constante briga pelo poder que havia em Cáceres. No final do século XV, novas edificações foram erguidas e é este patrimônio que conhecemos hoje, embora alguns testemunhos dos séculos anteriores ainda remanesçam.

Atualmente, a cidade tem cerca de 80 mil habitantes. O sítio histórico é pouquíssimo habitado pelo que pude observar. Dentro da muralha há imóveis com a indicação “AT” (alojamiento turístico), poucos hotéis, entre eles o da rede “Paradores de Espanha”, alguns restaurantes, igrejas e museus. Não vi sequer uma lojinha de venda de bugigangas, o que torna a paisagem limpa e deixa a adorável impressão de que estamos vivendo um pouco do passado.

Chegamos no começo da noite e a lua, mesmo não sendo cheia, convidava para já perambular pela cidade mesmo sem a luz do sol.

No dia seguinte, começamos pela Plaza Mayor que, no caso desta cidade, fica fora do “casco” histórico. A ela se chega pelas duas vias comerciais mais importantes onde estão tanto as representantes das maiores redes como os comerciantes locais – Calle dos Pintores e Calle Gran Vía.

A Plaza Mayor está em leve declive, acompanhando o relevo, e a extensa área sem árvores ou mobiliário urbano fica disponível para ser apropriada pelos pedestres. Era domingo e havia gente de toda idade por todo lado.

Nesta praça, na lateral oposta à muralha, estão os cafés e restaurantes com suas mesas externas, para que os frequentadores aproveitem da vista maravilhosa.

Como a praça está num plano topográfico inferior ao da porção histórica, o que possibilita uma vista bonita da muralha e das principais edificações, entre elas a Torre do Bujaco, erguida pelos árabes, no século XII, sobre um sítio arqueológico romano. Ela mede 25 metros e é a maior entre as torres que protegem juntamente com a muralha a linda cidade histórica. Seu nome é derivado do califa Abu Ya’aqub (Abu Jacob) que foi seu construtor.

Na mesma face da Plaza Mayor, cem metros abaixo, outra torre testemunha o passado de Cáceres – a da Ermita de La Paz.

No entanto, somente a torre Bujaco está aberta para visitação e a partir dela se pode ver a cidade expandindo-se no horizonte.

Caminhando sobre uma parte da muralha, a que se tem acesso pela torre, chega-se a um sítio arqueológico do período romano.

A partir da mesma torre, entre um pilar e outro, a Plaza Mayor abaixo, dominando a estrutura espacial da cidade atual.

Já ia me esquecendo de voltar à parte “nova” da cidade para registrar a estátua de Leoncia Gómez que está na Plaza San Juan, perto da Gran Vía. Ela foi erguida em 1998 em homenagem a esta senhora que foi a última a vender pelas ruas de Cáceres o periódico Extremadura. Simpático né?

Carminha Beltrão

Fevereiro de 2025