Uzbequistão 4 – Tashkent entre o Oriente e o Ocidente

Fonte: https://brainly.com.br/tarefa/38329488

Como eu já tinha escrito sobre a Tahkent de ontem e a de hoje, fiquei procurando um título que pudesse designar o que ainda desejo descrever agora sobre essa cidade.

Primeiramente, veio-me a ideia de algo como “Entre o passado e o presente”, já que quero contar tanto sobre a mesquita e o mercado, dois fatos sociais bastante longevos, como sobre um espaço chamado Magic City, significativamente ‘moderno’. Depois me ocorreu que pudesse ficar bem “A cidade que permanece, as paisagens e os conteúdos que se alteram”, mas logo achei muito parecido com algum artigo que, como pesquisadora da área urbana, eu pudesse ter escrito.

Ocorreu-me, então, “Tashkent entre o Oriente e o Ocidente”. Em todas estas opções, meu modo de organizar o pensamento neste título estava bem binário, mas fiquei com o último, mesmo sabendo que as coisas no mundo são mais relativas ou dialéticas do que quaisquer opostos podem exprimir.

Lembrei-me, na sequência, de algo que eu havia lido sobre esse assunto há um tempo e me deparei, após colocar a frase no Google, com muitas opções de links a partir dos quais o tema pode ser abordado. Fiquei com a de Boaventura Sousa Santos. Eu sei bem, caro leitor, que não é um bom momento para uma mulher citar o famoso cientista social português. Afinal, ele vem sendo acusado de assédio e não devemos reforçar quaisquer práticas deste tipo, mas depois me lembrei que seria melhor não condenar as suas ideias, em princípio, em função das hipóteses, bem fundamentadas ou não sobre as suas práticas.

Estou separando o homem das suas ideias? Não seria uma contradição? Talvez, mas como gosto das ideias dele, estou me dando esse direito. Aliás, adorei um texto sobre este assunto e personagem escrito por meu amigo Marcelo Lopes de Souza…

Tanto trololó para refletir sobre um título, mas é assim: quando começamos a escrever perdemos o controle sobre o modo como as palavras e as ideias vão se encadeando pelos dedos das nossas mãos. Avaliem vocês mesmos que me leem se eu não tenho razão de não deixar ficar na geladeira as ideias do Boaventura:

Tal como acontece com os pontos cardeais norte e sul, o oriente e o ocidente são muito mais que orientações geoposicionais; são dispositivos culturais, conceitos, metáforas, que exprimem imagens positivas ou negativas, que só se entendem ao espelho umas das outras. As imagens positivas envolvem ideias de superioridade, originalidade, fascínio, harmonia, civilização, beleza, grandeza; ao passo que as imagens negativas invocam o inverso desses qualificativos. As imagens assentam em binarismos, mas combinam por vezes ideias contraditórias como, por exemplo, fascínio e horror. A construção das imagens depende sempre do ponto de partida, oriental ou ocidental, de quem a faz. A longevidade da contraposição ocidente-oriente na cultura e nas relações internacionais é de tal ordem que se transformou num arquétipo, uma espécie de inconsciente colectivo jungiano que aflora na consciência sob múltiplas formas, sempre que as circunstâncias propiciem. Talvez estejamos a entrar no período em que este arquétipo irá ser provocado a aflorar; por essa razão, a relação ocidente-oriente merece ser revisitada.

 Boaventura Sousa Santos

 Fonte: https://sul21.com.br/opiniao/2022/05/o-oriente-e-o-ocidente-por-boaventura-de-sousa-santos/

Não tenho nem expertise para revisitar a relação ocidente-oriente, como propõe o autor, nem intenção de fazer isso neste texto, apenas quis escrever algumas palavras sobre esse título e ponto final. Vamos à Tashkent novamente.

Escrevi um pouco, no capítulo anterior deste Diário de viagem ao Uzbequistão, sobre Khaste Imon. Expliquei que este complexo compõe o que se poderia conceituar como cidade antiga, mas faltou fazer referência a um elemento muito importante desta área urbana que é a mesquita. Ao lado do mausoléu, da madraça e da biblioteca em construção, essa mesquita impõe-se na paisagem urbana do processo de renovação desta área, após a Independência Uzbeque em 1991.

Nosso guia turístico, que agora eu descobri que se chama Bakhram e não Bahram, disse que esta mesquita pode acolher até 4000 mulçumanos rezando ajoelhados, simultaneamente.

Inicialmente, tive que vestir uma túnica (tem um cabide com várias na entrada, mas eu não recomendo que adotem essa opção, porque elas cheiram a dezenas de visitantes anteriores) para cobrir os braços e a cabeça e mesmo assim não pude aceder ao local das orações, tanto porque não podemos perturbar a concentração de quem ora, como porque não há espaço reservado para as mulheres nesta mesquita e elas nunca compartilham o mesmo ambiente que os homens nestas ocasiões. Pelo biombo, dei uma olhadinha na sala de orações.

Aliás, não era somente eu que estava espiando.

Como em outras edificações do patrimônio arquitetônico uzbeque, predominam os azuis com pitadas de dourado. Aqui na mesquita o branco também comparece compondo uma paleta de cores que passa a ideia de tranquilidade, em contraste com o movimento de pessoas que estavam do lado de fora, sejam os turistas que sempre andam como se procurassem algo, sem perceber o que está ao lado, como os uzbeques que se apressam para realizar as tarefas do dia, entremeando o seu uso do tempo com as orações.

Os desenhos geométricos da decoração interna, combinados com representações da natureza, sobretudo flores e folhas, compõem um conjunto muito harmônico e, ao mesmo tempo, leve. Para mim, essa estética agrada muito embora eu não seja fã dos dourados no geral, mas penso que ela se distingue bastante do barroco brasileiro, por exemplo, em que o excesso de ouro mais impressiona do que sensibiliza.

Logo na entrada da mesquita há uma placa com a indicação dos cinco horários diários para oração. Perguntei ao guia se todos cumprem esse ritual diariamente e ele respondeu de modo reticente, explicando que sempre que possível isso era feito.

Em cada um destes horários, a oração deve demorar de um a três minutos. Não me perguntem o que está escrito em uzbeque na placa, apenas aprendi que cada um destes horários tem seu nome próprio.

A visita ao Mercado Oriental de Chorsu foi muito agradável. Nessas situações, aproximamo-nos mais da vida cotidiana local. Embora haja turistas perambulando por ali (eles estão por todo lado), os vendedores e parte grande dos que estão adquirindo alimentos são uzbeques.

O mercado é gigantesco, composto por uma grande construção circular, onde estão dispostas as bancas de carnes, temperos e doces; um anexo grande, no qual se acomodam os que vendem frutas, grãos, legumes e pães; dezenas de barracas num pátio externo, onde se vende de tudo um pouco, passando por roupas, eletrônicos vindos da Índia ou da China; tapetes produzidos industrialmente…

A variedade dos temperos me fez lembrar com saudades do Bazar de Istambul, que espero rever no final desta viagem, pois estaremos nessa cidade por dois dias. O mais utilizado na culinária uzbeque pelo que me foi explicado é o cominho, embora o açafrão em fios fininhos me pareça sempre o mais bonito.

O setor de pães é um dos maiores. Há várias mesas em que eles estão dispostos, havendo alguns mais temperados e outros menos. Nosso guia fez questão de comprar um para que pudéssemos experimentar e, embora a aparência dele, redonda e com casca bem lisa, passasse a ideia de um pão denso e pesado, a massa interna é muito leve.

Na lateral da área de vendas de pães, está o setor de produção, onde vários homens preparam a massa, esticam, atirando de um lado para o outro, como fazem os melhores pizzaiolos, para depois alçá-la com maestria ao teto do forno. Isso mesmo, embora seja um forno como os de pizza, a massa não é assada na “chão” do forno, mas sim no “teto” dele e isso já indica como a massa é leve.

Infelizmente, não consigo passar aqui, por meio desse diário, o delicioso perfume do pão assado, com leves temperos, que pairava pelo ar e aguçava a fome, já que era meio do dia.

As frutas e legumes impressionam pela qualidade. A maior parte é produzida em estufas, com muita irrigação, já que, embora a porção leste do Uzbequistão seja composta de uma planície fértil, a maior parte do território é árida ou semiárida. Fiquei me lembrando de outros mercados e feiras livres que já visitei ou frequentei e não me lembro de tanta limpeza, variedade e qualidade (talvez, as melhores feiras livres de São Paulo assemelhem-se a este mercado, nos dois últimos quesitos). Adorei os tomates que têm forma que é arrematada por um biquinho, como se fossem os seios de uma jovem.

Na maior parte das bancas trabalham mulheres, embora nas que vendem carnes sejam os homens. Ali, observei bem os tipos físicos do povo uzbeque e, embora haja alguns de pele amorenada e traços mais fortes, parecidos aos do turco, predominam as feições da porção mais centro-leste da Ásia. As mulheres, no geral, têm um rosto que lembra o tipo chinês, mas seus olhos, ainda que puxadinhos, são maiores e seus traços mais suaves. Acho que são tantas misturas que é difícil descrever. Algumas completamente trajadas obedecendo os princípios muçulmanos de se “guardarem seus segredos”, como sempre repete nosso guia que está orgulhoso de sua filha ter feito essa opção, outras já estão vestidas sem a cabeça e os braços cobertos, mas no geral todas são discretas no que se refere ao comprimento das saias ou exibição do colo e dos braços. Não importa a opção religiosa e de vestimenta, o celular está por toda parte.

Ao entardecer, por sugestão de nosso amigo João, fomos conhecer a Magic City, por onde havíamos passado pela frente, de van, durante o dia. Foi essa visita a que mais me sugeriu a tendência à ocidentalização da cultura uzbeque. No geral, Bakhram faz referência negativa à influência russa no Uzbequistão e isso é compreensível, afinal foram eles os dominadores durante cerca de 70 anos de URSS. Não houve referências negativas à guinada em direção às grandes marcas globalizadas, ao modo de vestir do Ocidente e até às fantasias que têm origem neste lado do mundo. Logo percebemos que a Magic City é o espaço de diversão da população local, pois embora houvesse turistas por ali, como nós, eram proporcionalmente poucos.

Logo na entrada da Magic City deparamo-nos com o grande aquário que imita a estética arquitetônica das edificações históricas do Uzbequistão, mas parou por aí. Na frente, num enorme palco, alguém do Partido Social-Democrata falava ao microfone fazendo referência ao plebiscito, que ocorreria em 30 de abril, para mudar aspectos da Constituição Uzbeque, sob o patrocínio da Pepsi-Cola.

As ruelas que adentravam à city remetiam a Veneza, à Itália ou outros países que, em muitas situações, eu nem consegui identificar quais são.

Marcas como L’Occitane, Nike ou Lego atraíam as famílias que por ali passeavam e que curtiam os fast foods também ocidentais. A foto que se segue é homenagem aos meus netos que adoram um Lego, como pareciam as crianças uzbeques que, encantadas, olhavam a vitrine.

Todos aguardavam o show de luzes e jatos de água sincronizados com as músicas que se sucediam – algumas estadunidenses, outras italianas (Bella ciao, por exemplo) e uma parte, que calculo que sejam uzbeques (estas se parecem com as que escutamos na Índia).

Fonte: https://www.afisha.uz/ru/gorod/2021/08/16/fontan-magic-city

Ali jantamos e passamos uma noite agradável, o que mostra que, dentro de todos nós, mora um desejo de Disneylização da vida.

Desculpem-me a palavra meio feia, mas o que pensei que fosse um neologismo, ao procurar por outra expressão melhor no Google, encontrei uma conceituação na Wikipédia e vi que os sociólogos já cunharam essa expressão:

No campo da sociologia, o termo disneyficaçãodisneyização ou ainda disneylização, descreve a transformação comercial das coisas (por exemplo, do entretenimento) ou de ambientes em algo simplificado, controlado e “seguro” — uma reminiscência da marca Walt Disney (como suas mídiasparques, etc.)

Acho que nunca mais terei a chance de voltar ao Uzbequistão, afinal essa é uma viagem longa e cara. Ademais, sempre há outros lugares novos para se conhecer. No entanto, se eu tiver essa chance, daqui a 10 anos, talvez, conclua que o Ocidente venceu.

Por outro lado, como nada é totalmente previsível, há que se “pagar para ver”, ou seja, esperar o tempo passar, ler e ter outros elementos para uma avaliação melhor; afinal esse é apenas o olhar superficial de uma turista que deseja sempre ser viajante.

Carminha Beltrão

Abril de 2023

Uzbequistão 3 – A Tashkent de ontem

A visita principal que os turistas fazem, em Tashkent, é a que compreende o complexo, que eles chamam de Khaste Imon. Podemos nomeá-la como cidade antiga ou histórica.

O espaço está super bem cuidado e com um paisagismo agradável, pois entre as construções históricas e as novas, há jardins com poucas espécies arbustivas, dominando as gramíneas, o que nos possibilita ter sempre um horizonte relativamente largo, ou seja, quando estou visitando uma das edificações, consigo ver as demais. Essa visão de conjunto que nunca temos nas cidades medievais, bem menos monumentais, agrada muito aqui em Tashkent.

Bahram, nosso guia, explicou-nos que, durante o período soviético, as edificações antigas, em função do caráter religioso da maioria, ficaram abandonadas e, em volta delas, havia casas com gente vivendo ali. A partir da independência, essas moradias foram sendo compradas, demolidas e, nos espaços reunidos para compor áreas maiores, foram sendo plantados os jardins e criados os caminhos que interligam as joias do patrimônio uzbeque. Paralelamente, as edificações foram sendo recuperadas e impressiona muito a capacidade que tiveram de em 32 anos, desde a Independência, de realizar esse trabalho que é demorado e custa caro.

A arquitetura histórica aqui do Uzbequistão me agrada muito, porque é linda a combinação entre os tijolos à vista, os azuis e os verdes dos azulejos que adornam fachadas e cúpulas, com toques de dourado. Os tijolos à vista são de uma cor mais amena, que os avermelhados que temos no Brasil, um tom entre o ocre claro e o acinzentado, em função da semi-aridez do clima da Ásia Central.

Como grande parte das construções perdeu-se com o tempo, em função de três aspectos ao menos – a pouca durabilidade dos tijolos, o descaso dos soviéticos e, por fim, o terremoto que abalou Tashkent em 1967 – o que vemos hoje é, em grande parte, reconstrução feita, tal e qual as originais, ainda que haja parcelas das paredes e dos azulejos que remanescem do passado. Internamente, a proporção da remodelação é menor, porque o tempo não atingiu tanto os materiais construtivos como externamente.

Começamos a visita ao complexo pelo Mausoléu do Sheikh Zaynudin Bobo que foi um sábio e divulgador da ordem sufi conhecida como Suhrawardiyya. Viveu durante o século XII, seu mausoléu foi construído no século XVI e reconstruído no final do século XIX. Trata-se de uma construção pequena, comparativamente às demais que compõem a área, mas é singela tanto pela composição arquitetônica como pela sua finalidade tão especial – dar abrigo a um sábio.

Se o pequeno mausoléu não impressiona muito por fora, encanta internamente pela delicadeza e qualidade dos acabamentos. No teto, os sobre relevos são lindos. Parte do forro, os batentes, as portas e as colunas são de madeira, e são, também, adornados com fina marquetaria. Dos lustres dourados, emana um ambiente caloroso e íntimo. No cantinho, uma mesinha e dois bancos, lindos pela combinação entre as cores.

É bonito saber que a homenagem a Zaynudin Bobo não se deveu apenas a seu conhecimento sobre o Alcorão, mas também porque tinha ele um “espírito científico”, como explicou Bahram.

Além de sua tumba, outras menores estavam ali e correspondiam a contemporâneos a eles que aprenderam consigo e os admiravam.

Neste mausoléu, está exposto um livro com o Alcorão, o Usamna Qur’na, original do século VII. As páginas são feitas de pele de carneiro e ele está protegido por um vidro para mantê-lo em condições térmicas estáveis. Não há autorização, sequer, para fotografar o documento histórico, mas sinceramente o que me interessou mesmo foi a decoração do pequeno ambiente.

O complexo ainda é formado por uma madraça antiga, outra em funcionamento, uma mesquita e uma biblioteca que está em construção.

Como mostra a foto com o guindaste trata-se de outra construção magnífica que deverá ser destinada, sobretudo, à guarda de documentos históricos, mas onde haverá também um acervo mais amplo, com obras contemporâneas.

As madraças são um ponto alto nas cidades antigas do Uzbequistão e o devem ser em outros países do mundo mulçumano, mas eu nunca tinha ouvido falar essa palavra, por isso fui atrás de uma definição mais precisa, do que a que o nosso guia ofereceu:

“Um madraçal ou uma madraça (em árabe: مدرسة; romaniz.: madrsâ; em francêsmédersa) é uma escola muçulmana ou uma casa de estudos islâmicos.

A palavra deriva do árabe madrsa, por vezes transliterada como madrassa ou madrasa, palavra que em árabe originalmente designava qualquer tipo de escolasecular ou religiosa (de qualquer religião), pública ou privada. Em línguas ocidentais como o inglês, o espanhol e o português, porém, é comum ser o vocábulo atualmente utilizado para se referir apenas às escolas religiosas islâmicas, também denominadas escolas corânicas.

Nessa acepção, um madraçal típico normalmente oferece duas possibilidades de estudo: hâfiz (memorização do Alcorão) e âlim (que proporciona o reconhecimento de pessoa erudita pela comunidade).

A base curricular habitual de uma madraça inclui cursos de língua árabe e o ensino da xaria (o Direito islâmico)tafsir (interpretação do Alcorão), hadith (narrações do profeta Maomé), mantiq (lógica) e história do Islão.”

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Madraça

Visitamos três madraças (em alguns sites eu vi escrito também madrassa) em Tashkent e elas são muito parecidas entre si. São, via de regra, uma construção quadrangular ou retangular com um grande pátio interno. Pelo portal principal acede-se a este pátio, para o qual se viram portas e janelas de todos os ambientes, já que elas não se voltam para fora, segundo nosso guia, para não distrair os estudantes.

As salas maiores são destinadas às orações (uma pequena mesquita), às aulas e aos professores que ali vivem, os quais possuíam além dos aposentos para descansar, uma espécie de antessala com estavam com seus estudantes. Como sou professora e pesquisadora, enxerguei-me no século XI ou XII num desses ambientes, e tive saudades de um passado que não experimentei, mas, em poucos segundos, lembrei-me do quanto é importante a universalização e a adoção do ensino laico e fiquei feliz de trabalhar hoje e ministrar aulas em salas maiores e para pessoas de todas as classes sociais.

Nas madraças, os cômodos menores, que eles chamam de celas (como nos conventos e monastérios católicas e nas prisões – qualquer semelhança é mera coincidência) são destinadas aos estudantes, que ali residiam enquanto faziam seus estudos. Algumas têm dois andares. Pelo número de celas e com a informação de que cada uma abrigava até dois alunos, logo constatamos que as maiores madraças tinham algo como 80 estudantes simultaneamente, mas a maioria não passava de 40.

Em Khaste Imon, visitamos a madraça Kafal Shohi. Na foto, com um zoom, você poderá ver, nas paredes de tijolos: – os originais que tem um tom pouco mais escuro; – os que foram adicionados para recompor as edificações, que são mais claros e homogêneos.

Bahram explicou-nos que, muitas vezes, os novos foram colocados na frente dos antigos, como uma segunda parede, para evitar que a original desmoronasse. A beleza dessas construções é demais, no entanto, o uso deste material deixa-as muito mais vulneráveis ao desgaste do tempo do que, por exemplo, as catedrais góticas erguidas em pedra.

As cúpulas encantam pelo tom lindo de verde esmeralda e pelo brilho que os ladrilhos proporcionam. Funcionam como imãs para o nosso olhar, adicionados os enfeites em ladrilhos desenhados que estão na coluna que as sustenta (ver na foto anterior) e o acabamento dourado no cume da própria cúpula.

Uma cela era pequena, como se pode ver na foto seguinte, e chama atenção como a porta era baixa, o que não sei se tem a ver com o fato de os humanos tinham, no passado, estatura menor ou com a concepção desse espaço como fechado ao mundo externo.

Também conhecemos, fora do complexo, duas outras madraças – Kudeldash e Abdulkarim. A primeira funciona hoje como escola, na qual tanto se pode estudar o Corão, como outras disciplinas, entre as quais, segundo nosso Bahram, inclui-se até as tecnológicas.

Nesta madraça, chamou atenção o fato de que havia celas com portas e janelas viradas para fora e que ela é uma das grandes com dois pavimentos.

Como está em funcionamento, não pudemos visitar o pátio interno, mas justamente no horário em que ali estávamos, escutando as explicações de Bahram e fazendo registros fotográficos, via-se o movimento de saída das aulas.

Alguns estudantes saiam e desciam a escadaria, em direção a outros destinos, mas a maioria se dirigia à mesquita ao lado (na foto à direita, é a construção em branco com as cúpulas verdes) para a oração do meio do dia. Em pouco tempo, dezenas de estudantes saíam da mesquita. Impressionou muito o número deles, alguns carregando embaixo do braço o pequeno tapete que levam consigo para se ajoelharem durante as orações.

A última madraça vista nesta cidade foi Abdulkarim, que fica afastada do centro histórico, numa área mais nova onde se localiza também a edificação que abriga a Câmara Legislativa Superior, que deduzi se tratar do Senado do Uzbequistão (a conferir).

Essa madraça é uma construção também de grande porte, com dois pisos, mas menos adornada que as outras. Já por volta de 14h30, com as temperaturas elevadas, seu pátio interno estava pouco movimentado, o que ajudou a fazer um registro fotográfico melhor.

Fonte: http://www.traveluzbekistan.uz/tour/index.php/en/sights-of-tashkent/915-abdul-kasim-madrasah

Do que eu não gostei das madraças? Da opção uzbeque de abrigar em cada cela um pequeno comércio voltado aos turistas. Eles retiram a opção de vivenciar esses espaços e podermos nos transpor no tempo ao passado, imaginando como ali viviam os estudantes, o que a visita a esta última madraça propiciou, já que por ser mais distante, ter menos turistas e ter sido visitada num horário de muito calor, favoreceu experimentar alguns instantes de calma, com os comércios fechados com seus comerciantes cochilando pelos cantos.

Bahram justiçou inúmeras vezes a presença desse tipo de estabelecimento, como uma condição para ajudar a financiar a reconstrução das madraças, mas não me convenceu com seus argumentos, porque acho que geram um trânsito tão grande de pessoas e uma descaracterização do ambiente que é mais prejudicial que benéfica. Enfim, os espaços de estudos viraram lugar da mercantilização (com tanto ensino privado no mundo atual, qualquer semelhança é mera coincidência). Olha que eu gosto de comprar artesanatos de outras culturas, mas a oferta era tanta e havia tal nível de estandardização, que não dava nem ânimo de selecionar algo que valesse a pena. Ademais, nada tem preço e você tem que perguntar ao vendedor, fazer a conversão e começar a regatear, um pouco em inglês, um pouco em sei lá que língua mais.  Isso dá um trabalho!

O dia 28 de abril de 2023 foi pleno de aprendizados. Nem consigo acabar esse diário em um só capítulo. A mesquita e o mercado ficam para o próximo.

Carminha Beltrão

Abril de 2023

Uzbequistão 2 – A Tashkent de hoje

Quando somos turistas, aprendemos sobre os lugares pelos olhos e pelas ideias dos guias. São eles que nos mostram os pontos selecionados para o roteiro, que nos descrevem o que lhes ensinou outrem, bem ou mal, e misturam tudo com uma pitada das suas opiniões, sempre confiantes, conscientemente ou não, de que pouco ou nada sabemos sobre seus países, o que lhes dá o direito de escolher as cores e os tons com os quais vão pintar o quadro.

Nosso guia chama-se Bahram. Estava na escola básica ainda durante o período soviético e, por isso, aprendeu o russo. Como era obrigatório cursar outra língua estrangeira, a ele coube o espanhol, ainda que preferisse o inglês. Mais tarde desejou, para sua formação no ensino superior, a Arquitetura, mas como isso não foi possível, acabou fazendo Línguas Estrangeiras e aperfeiçoando o espanhol.

Trabalhou como professor, o que se pode constatar pelo modo como procura ser didático nas explicações, e atualmente atua apenas como guia turístico, durante quase todo o ano, de domingo a domingo, exceto nos dois meses mais frios do ano (dezembro e janeiro), quando as temperaturas chegam aos 20 graus abaixo de zero e, nos dois meses mais quentes (junho e julho) quando, segundo ele, mesmo à noite as temperaturas chegam aos 40 graus. Terá ele exagerado?

Fonte: https://www.dadosmundiais.com/asia/uzbequistao/clima.php

Acho que não, porque o gráfico acima representa as temperaturas médias e, portanto, as máximas e mínimas podem se comportar bem acima e bem abaixo do que está aí registrado.

Bahram, ao falar sobre o Uzbequistão, ao qual sempre se refere como “o meu país” tem uma referência temporal básica – antes e depois dos soviéticos. A cada explicação, ele encontra neste antes ou depois alguma justificativa que sempre apresenta como a principal.

Quando perguntamos se a economia vai bem, ele explica que os mais velhos são saudosos do período em que faziam parte da URSS porque os impostos eram mais baixos. No entanto, rapidamente, ele defende o governo pós-independência, uma vez que era necessário ampliar o orçamento para construir o país. Buscaram recursos em outras fontes, afinal a torneira soviética foi fechada, mas isso também demorou um pouco a vir, porque a Unesco, por exemplo, segundo ele, queria primeiro saber se era possível “confiar no povo e no governo deste país”.

Essa instituição teve papel importante nas últimas três décadas, já que muito foi investido para recuperar o patrimônio arquitetônico e artístico que havia sido produzido até a segunda metade do século XIX, antes dos russos, ainda os czaristas da Família Romanov dominaram esse território, para “evitar que os ingleses, que já estavam na Índia, viessem atrás do algodão produzido pelos uzbeques”.

É possível imaginar a importância que tem essa recuperação, que inclui edificações de até sete séculos atrás, no processo de construir uma identidade nacional. Afinal, depois de inúmeros domínios, com destaque para os persas, esses povos que compõem a família dos “quistão” (Quirguistão, Tadjquistão, Turcomenistão, Cazaquistão e Uzbequistão) compuseram a URSS.

Paquistão e Afeganistão ficaram fora do controle imediato russo, mas em relação àqueles outros do grupo “quistão” foram os soviéticos que os separaram e os delimitaram com fronteiras, em muitas situações definiram novas cidades para serem capitais e reprimiram a cultura muçulmana que lhes antecedeu. Se antes viam-se como etnias irmãs que ocupavam há séculos um território, passaram a ficar separados e, segundo Bahram, essa foi a estratégia soviética para dominá-los.

Entender-se como nação e país independente exige assim, eu imagino, muito trabalho ideológico, do que se justifica o antes e o depois, o meu país e os dos outros, o uzbeque a as outras línguas, mesmo quando sabemos que esse foi, apenas, o dialeto escolhido para ser o idioma oficial, tendo sido outros preteridos.

Os mais velhos têm saudades do tempo em que os serviços públicos eram gratuitos, pois, por exemplo, estudar hoje numa universidade pública custa em média dois mil dólares ao ano e, numa particular, cinco vezes mais. O acesso à moradia própria, segundo ele, é difícil para a maior parte da população.

Repito aqui o que lhe disse meu amigo João: “Bem-vindos ao capitalismo”. Ainda assim, parece haver um sentimento, entre os uzbeques, que ultrapassa esses percalços, que é o da autonomia que a independência trouxe.

No caso específico de Tashkent, pareceu-me, pelas explicações, que esse sentimento é ainda mais forte. Como capital moderna do país (a anterior era Samarqanda) e que sofreu um grande terremoto em 1967, outro antes e depois frequente apareceu nas explicações de Bahram. Esta cidade representa muito do que tem sido investido em favor da criação de um novo país, hoje bastante ocidentalizado na paisagem e um pouco também nas práticas sociais.

Ainda assim, a herança soviética está presente, por meio de iniciativas que marcaram de forma profunda a cultura, com o alfabeto e a língua, e a estrutura urbana com as avenidas largas e o metrô.

Ele começou a ser projetado em 1969, logo após o terremoto, na primeira fase de reconstrução da cidade, para a qual acederam vários estrangeiros, como parte do processo de seu soerguimento. Hoje, os uzbeques que compreendem o grupo mulçumano compõem cerca de 90% da sociedade, mas há cristãos (de vários países do mundo), cristãos ortodoxos (os russos) e os judeus que, afinal, estão por todo o mundo.

Atualmente, o metrô tem 48 estações que servem a cidade e já teve início a expansão de uma linha que deve ir além da cidade central e servir por trem de superfície os bairros mais distantes.

Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Tashkent_Metro

Eu gostei do desenho das linhas, especialmente da circular interna e da externa que unem as linhas radiais. Especialmente a circular maior é muito importante porque possibilita que haja deslocamento de um bairro ao outro, sem passar pelo centro. É o que desejamos para São Paulo e mesmo para o transporte urbano por ônibus para as cidades brasileiras, mas está difícil de chegarmos lá.

Logo na nossa primeira tarde em Tashkent, ainda sem o apoio de Bahram, que apenas nos acompanhara do aeroporto ao hotel, fomos conhecer o metrô.

As estações são muito bonitas e lembram, neste aspecto, as de Moscou. Os lustres são suntuosos, as paredes são revestidas de mármore, os mosaicos coloridos e, nos tetos, os sobre relevos brancos rememoram a influência da cultura árabe.

Nos sopés das escadas rolantes, havia umas espécies de pequenas cabines, de onde uma funcionária vigiava o uso do equipamento e dava explicações a quem pedisse. Supus que pode ser alguma herança do período inicial, quando essas escadas deviam ser muito modernas ou perigosas para a maior parte da população.

Do ponto de vista de uma primeira aproximação com a sociedade, chamou atenção que, a cada vez que entramos no vagão (fizemos três pequenos trechos), os jovens rapidamente se levantavam e, com gestos, ao verem que não entendíamos sua fala uzbeque, insistiam para que nos sentássemos. Foi inevitável lembrar que esse tipo de atitude está desaparecendo no Brasil, ainda que eu sinta sempre aquele desagradável incômodo de tomar consciência que os outros me veem como “idosa”.

No dia seguinte, perguntamos a Bahram qual a mais bonita estação de metrô de Tashkent. Ele pensou um pouco para responder e disse: “Cosmonautas”. Fui procurar no Google e achei que ele tem bom gosto. Os medalhões nas laterais homenageiam os astronautas russos que cruzaram o espaço sideral, desde um pouco antes dela ser inaugurada.

Fonte: https://www.advantour.com/rus/uzbekistan/tashkent/metro.htm

Fonte: https://pt.dreamstime.com/estação-de-kosmonavtlar-tashkent-usbequistão-uzbequistão-julho-metropolitana

Olha aí meu marido e meu amigo tentando descobrir, por meio do mapa e das inscrições nas estações em alfabeto cirílico, para que lado deveríamos tomar o trem e onde descer.

Nas ruas, o trânsito em Tashkent é movimentado. A maior parte dos carros é relativamente moderna, mas nem sempre as regras são obedecidas, o que exige que os pedestres, em algumas situações, mesmo na faixa, tenham que acenar com a mão para avisar que estão passando.

Em volta do nosso hotel, o Hampton assinalado com o alfinete vermelho no mapa, toda a área urbana é muito cuidada.

Há uma sensação de segurança, tanto porque afirmam que não há qualquer tipo de violência no espaço público, como porque está tudo limpo e os jardins estão extremamente bem cuidados. Há vários prédios públicos, com atividades governamentais, museus, centros de eventos etc. Um deles praticamente ao lado do nosso hotel também mostra a herança árabe com seus sobre relevos na fachada.

Os heróis, eleitos pelos uzbeques, também estão pela cidade, como Amir Tamur que significa Rei Amur (mais conhecido como Tamerlão, que é o aportuguesamento de Tamur, o coxo, pois ele era manco). Viveu entre 1336 e 1405 e foi, de fato, um conquistador deste território. Sua origem é turco-mongólica e durante sua vida reuniu largas extensões de terra sob seu poder, as quais em muito ultrapassam o atual território uzbeque.

Com o passar dos dias aqui, vou verificando a enorme importância desse personagem na formação da identidade uzbeque.

Carminha Beltrão

Abril de 2023

Uzbequistão 1 – Turista ou viajante?

Fonte: https://www.estudopratico.com.br/significado-da-bandeira-do-uzbequistao/

Alguém já escreveu sobre a diferença entre um turista e um viajante.

O primeiro é aquele que faz a viagem com um programa definido por uma agência ou por profissional da área e que pretende conhecer alguns lugares, a partir de roteiro e cronograma muito parecidos ao que outros fazem nesses mesmos lugares. Ficam hospedados em hotéis que pertencem a grandes cadeias, várias vezes globalizadas. De algum modo, o turista passa pelos cenários que são preparados para ele e escuta as narrativas que, igualmente, são elaboradas para o estrangeiro. Talvez, ele, no geral, nem queira fazer diferente. Para alguns entre eles, são mais importante os registros fotográficos e sua exibição posterior no Instagram ou no Facebook, do que efetivamente conhecer os territórios e a gente antes desconhecidos.

O viajante, ao contrário, espera viver experiências, se possível muito próximas daquelas que os moradores do lugar vivem e, por isso, ele se abre para o que pode ocorrer de inusitado. Deseja desvendar, descobrir, encontrar o novo. Ele se deixa levar, prefere conhecer a vida local e, se tiver um programa ou roteiro prévio, o que sempre tem, por menos rígido que possa ser, está sempre pronto a alterá-lo e a aprender com o que se apresentar a cada dia de sua viagem.

Acho que já conheci alguns lugares no mundo como uma viajante, mas aqui no Uzbequistão sinto que vai ser difícil fugir da situação de turista.

Primeiramente, porque estamos, meu marido, um amigo e eu, viajando com uma agência e, assim, ficamos bastante reféns da programação proposta e dos guias que nos acompanham, os quais têm poder sobre nós, porque não apenas nos contam sobre o que há de melhor ou que pode parecer o melhor, como nos estimulam a frequentar e comprar nos lugares que são os indicados pelas agências ou onde eles ganham alguma comissão.

Em segundo lugar porque, embora já tenha estado na Rússia, que liderou a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), da qual o Uzbequistão fez parte, é a primeira vez que visito um país da Ásia Central, do grupo que eles mesmos chamam “países da família dos quistão”, sobre os quais, aliás, escutei, durante minha vida, muito poucas coisas.

Por último, acho que seria difícil ser uma viajante, radicalmente diversa de uma turista, num país em que a língua oficial é o uzbeque e a segunda língua, falada também por mais de metade da população, é o russo. As barreiras à comunicação limitam muito as oportunidades de se lançar ao novo e, assim, meu destino é ser turista por aqui, mas vou me esforçar para me aproximar de uma viajante, quando isso for possível.

O uzbeque é, segundo a Wikipédia, uma língua turcomana, que aliás não é só falada por aqui, onde é o idioma principal, mas também em outros países da Ásia, ainda que o seja por minorias étnicas que lá vivem, como o Tajiquistão, Afeganistão, Quirguistão, Cazaquistão, Turcomenistão e até mesmo na região Xinjiang na China.

Foi influenciada pelo persa, pelo árabe e, mais tarde, pelo russo. Ela pode ser escrita em mais de um alfabeto:

  • oʻzbek tilii ou oʻzbekcha no latino;
  • Ўзбек тили no cirílico;
  • أۇزبېك ﺗﻴﻠی no árabe.

Essa diversidade de influências e de alfabetos tem relação direta com a geopolítica a que esteve submetido o Uzbequistão. Inicialmente, a influência persa foi enorme, razão pela qual a pequena parte da elite que estudava escrevia o idioma no alfabeto árabe. Houve também influência uzbeque neste alfabeto gerando uma escrita baseada no árabe, mas com representação de letras vogais, o que não é próprio desta língua.

Por influência do que estava sendo feito na Turquia, a partir da década de 1920, o idioma passou a ser escrito no alfabeto latino, mas logo veio a entrada do país na URSS, em 1925, e Stalin obrigou a adoção do cirílico.

Com a independência do Uzbequistão, declarada em 1991, a latinização voltou a ser obrigatória, mas isso não se faz de uma hora para outra, quando diferentes gerações foram alfabetizadas em alfabetos diversos e tendo como segunda língua idiomas também diversos entre si. Por essa razão, a confusão por aqui é grande.

Pelo que consegui saber até agora, nos ambientes familiares, fala-se o uzbeque e nas escolas de formação inicial idem. Em ambientes religiosos, fala-se também esta língua, que nas escrituras sagradas muçulmanas está escrita no alfabeto árabe. Os mais velhos, no entanto, quando estavam na escola, além de aprenderam o russo, foram alfabetizados em sua própria língua, o uzbeque, mas no alfabeto cirílico. Quando seguiam nos estudos, uma segunda língua estrangeira valorizada era o francês, e essa tinha que ser aprendida com o alfabeto latino.

Hoje, com a influência ocidental, pós independência, toda a publicidade é feita com base neste alfabeto, porque as marcas globalizadas chegaram com toda força e, neste caso, o idioma de comunicação é o inglês. Enfim, aqui é uma efetiva Babel, mas pensando bem, acho que vivemos num mundo com histórias, alfabetos e idiomas muito diferentes e ficamos supondo que ele se homogeneíza com a globalização.  Será? Um pouco sim, mas nem tanto, como a listinha que se segue sugere:

Uzbek language (English), Lingua Uzbeca (Italiano) 

Oezbeeks (Nederlands)  Ouzbek (Français)  Usbekische Sprache (Deutsch)  

Língua usbeque (Português)  Узбекский язык (Русский)  

Idioma uzbeko (Español)  Język uzbecki (Polski)  

乌孜别克语 (中文)  Uzbekiska (Svenska)  Limba uzbecă (Română)  

ウズベク語 (日本語)  Узбецька мова (Українська)  

Узбекски език (Български)  우즈베크어 (한국어)  

Uzbekin kieli (Suomi)  Bahasa Uzbek (Bahasa Indonesia)  

Uzbekų kalba (Lietuvių)  Usbekisk (Dansk) 

 Uzbečtina (Česky)  

Özbekçe (Türkçe)  Узбечки језик (Српски / Srpski)  

Usbeki keel (Eesti)  Uzbečtina (Slovenčina) 

Üzbég nyelv (Magyar)  Uzbečki jezik (Hrvatski) 

ภาษาอุซเบก (ไทย)  Uzbeku valoda (Latviešu)  

Ουζμπεκική γλώσσα (Ελληνικά)  Tiếng Uzbek (Tiếng Việt) 

(fonte – http://www.mapnall.com/pt/language/Língua-usbeque_576.html)

A viagem para cá não é das mais fáceis, porque não há voos diretos a partir do Brasil. Optamos por viajar com a Turquish e fazer escala em Istambul, e isso significa que entre chegar ao Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, para fazer o check-in e desembarcar, em Tashkent, capital do país, foram praticamente 24 horas, vivenciando a situação de, neste intervalo, ver duas vezes o sol, já que viajando de oeste para leste, atravessamos oito fusos horários.

A viagem foi longa e cansativa, num avião lotado no trecho até Istambul, cheio de argentinos (acho que eles chegam a falar mais alto que nós brasileiros!) e com várias famílias de judeus ortodoxos que se levantavam, abriam e fechavam malas, vestiam uma espécie de manta, para rezar várias vezes durante o percurso.

Com o atraso da saída do Brasil, chegamos em cima da hora para a escala em Istambul, cujo aeroporto é enorme (e muito bonito). Isso significou atravessá-lo correndo e sermos praticamente os últimos a embarcar, para voar o trecho entre esta cidade e Tashkent, cuja chegada no aeroporto foi tranquila, pois os brasileiros não precisam de visto para entrar no país. Assim, a passagem pela aduana não foi complicada, também não tivemos que passar por Raio X e, como o aeroporto é pequeno, tudo foi fácil.

A situação geográfica do Uzbequistão é bem especial, porque é um país que têm fronteira seca dupla, ou seja, além de não ter acesso direto ao oceano, faz fronteira por todos os lados com países que também não têm litoral.

A primeira impressão de Tashkent, a capital, foi bem surpreendente. Ela tem 2.5 milhões de habitantes.  O aglomerado que lhe deu origem remonta aos últimos séculos antes de Cristo e foi um ponto importante da Roda da Seda.

Imaginava encontrar uma paisagem urbana e arquitetônica semelhante a que conheci em Moscou, já que o Uzbequistão teve muitos investimentos em construções durante o período de domínio soviético, o que, de fato, ocorreu, mas a cidade também cresceu muito a partir da Independência e nas partes mais centrais parece ter se distanciado do padrão arquitetônico que, via de regra, identificamos com o soviético – construções pesadas, com poucos adornos e de estética pouco agradável, pela prevalência radical do funcional sobre o belo.

Tashkent é bem moderna. Do período soviético, ficaram como herança importante as avenidas muito largas, com calçadas também espaçosas.

Por outro lado, os edifícios na área pericentral, onde está nosso hotel, são bem modernos e há muitos jardins e praças, o que me faz associá-la às cidades ocidentais, mais para as estadunidenses do que para as europeias, embora em muitas fachadas de edifícios haja arabescos ou adornos da cultura árabe.

Claro que, quando tratamos de edificações históricas, o ambiente urbano não é o mesmo, mas isso fica para um outro capítulo.

Carminha Beltrão

Abril de 2023

A traição

Ela nunca havia imaginado que, mesmo nesta estrada secundária, os restaurantes de postos de gasolina estivessem tão lotados na hora do almoço. O final de semana no sítio dos tios havia sido ótimo. Conversas, almoço de Páscoa, lembranças da família e as estrelas no céu, que eram possíveis de serem admiradas na área rural, fazendo sentir um gostinho de infância.

Agora, a volta à vida metropolitana significava enfrentar a fila para passar diante do buffet onde verduras, legumes, cereais e, depois, as carnes se enfileiravam, já mexidas por algumas dezenas de outros que por ali passaram na última hora.

A cada colherada, olhava para o canto do restaurante onde estavam os banheiros, na expectativa de que seu marido voltasse e ainda conseguisse se intrometer na fila, na sua frente, de modo a que pudessem sentar juntos para almoçar.

Nunca gostou de cenoura cozida, mas as opções eram tão poucas, que, diante da possibilidade de ter que comer chuchu, preferiu pegar mais uma colher do legume envolto em salsinha picada. Afinal era preciso encher o prato de alimentos pouco calóricos, antes de chegar ao arroz e ao feijão…. Ela vem há alguns anos querendo emagrecer, mas não tem jeito. Comer e beber uma cervejinha vêm sendo seus únicos prazeres já faz um tempo.

Quando chegou à balança, que indicou 830 gramas, adicionou à bandeja uma Brahma estupidamente gelada. Constatou que estava novamente postergando a dieta, mas sentiu-se aliviada, porque ele dirigiria os 200 km que restavam até a cidade onde moravam, razão pela qual ela podia beber um pouco. Olhou novamente para a entrada dos banheiros e nada dele aparecer…

Era, assim, nestas ocasiões em que ela insistia para estarem juntos, volta e meia, ele se demorava… e não havia como reclamar se seu intestino funcionava nas horas mais inesperadas.

Sentou-se e começou a comer. A cerveja desceu como veludo, suave, acariciando a garganta e, de algum modo, o coração. Não demorou cinco minutos para sua bexiga reclamar. Desde que entrara na menopausa, com 48 anos, entre beber e urinar eram apenas alguns minutos. Hesitou em se levantar da mesa, porque, se ele não chegasse, perderiam com certeza aquele lugar, perto do ventilador. O calor estava infernal, mas não daria para segurar muito tempo.

Pegou a bolsa e se dirigiu a passos rápidos para o banheiro, torcendo para não ter fila. Antes mesmo de entrar, suspendeu a túnica para abrir o zíper e adiantar a operação de se despir, que seria demorada, porque agora andava sempre com uma cinta calça, com a qual pretendia amenizar a protuberância da barriga que, após 4 filhos e muitas cervejas, estava cada vez maior e mais flácida.

Mal entrou no banheiro, deu-se conta que havia escolhido a porta errada. Seria engraçado, se não fosse trágico, pensou, ao se deparar com seu marido sem calças transando loucamente com um jovem musculoso e tatuado. Suspiravam tanto que nem se deram conta da chegada inoportuna.

Suas pernas amoleceram, o coração passou a bater mais rápido para compensar a pressão que caiu. As mãos se crisparam e as unhas feriam a pele fina e suada. Queria gritar, xingar, bater nele, mas não tinha forças para dar um passo, o que dizer para comandar a voz.

Em segundos, mudou de ideia. Não iria se humilhar, fazendo um escândalo, reforçando o tanto que já se sentia diminuída pela cena, que estava presenciando. Conseguiu dar alguns passos para trás e entrar agora na porta certa, a do banheiro feminino.

Encostou-se na parede gelada onde os ladrilhos antigos lhe causavam impressão de sujeira. Ficou aliviada de não haver ninguém por ali e correu para um dos cubículos onde se encerravam os vasos sanitários. Fechou rápido a porta, como se alguém, ao entrar, pudesse imediatamente ler no seu rosto tudo que estava sentindo.

O pequeno espaço não estava muito limpo, o odor do uso frequente a deixou mais tonta, o cesto cheio de papel higiênico usado causou náuseas, mas ela conseguiu baixar a cinta calça e, depois, a legging. Sentou-se, jogando todo o peso do corpo como se estivesse quase desmaiando.

Os últimos 30 anos passaram como um filme em flashs diante de seus olhos. O namoro com Ramiro, os conselhos de seus pais que não o achavam nada decidido para enfrentar a vida, suas iniciativas de levar adiante os pequenos comércios que foram montando no bairro – um bar, que virou um pequeno armazém…. o armazém que ficou sendo um pequeno supermercado, que se tornou loja de conveniência e, mais recentemente, entreposto de venda de gelo e carvão.

A cada crise, uma nova iniciativa, sempre dela, que paralelamente costurava ou cozinhava para fora, de modo a fazer algum dinheiro para enfrentar as despesas cotidianas da casa. Nunca entendia bem, porque parecia que o comércio ia bem, afinal tinham sempre clientes, mas o dinheiro que entrava no caixa nunca chegava.

Ela desconfiava que ele tivesse outras mulheres, chegou a pensar que poderia ser jogo, porque, vez ou outra, desparecia e voltava tarde da noite sempre com o bolso vazio, mesmo que o dia tivesse tido bom movimento comercial.

Com certeza o dinheiro estava sendo consumido em encontros como este que ela acabara de presenciar – jovens bonitos que se prestavam a transar com senhores maduros a troco de algum (ou será de muito?) dinheiro. Já tinha escutado histórias como esta.

Tirou o celular da bolsa, verificou que ele acabara de mandar um WhatsApp informando que estava no restaurante e não a encontrava. Não conseguia resolver como responder à mensagem. Passou pela sua cabeça não retrucar e sair andando pela estrada para nunca mais ter que olhar na cara dele… Mas estava sem dinheiro e sem cartão de crédito. Onde dormiria? Como chegaria em casa? E se não chegasse?

A raiva fez sua pressão arterial subir novamente. Começou a suar. O aperto do banheiro, o odor do local e a repugnância a Ramiro se misturavam como se ela fosse se afogar neste caldo de impressões, em que seus sentimentos se atolavam.

Tinha que fazer alguma coisa. Daqui a pouco seria anunciado no alto falante do restaurante que Ramiro procurava por Leonor e ela não queria passar pela vergonha de, ao sair do banheiro, ver todos os rostos se virarem para ela, só para confirmar se era a tal procurada pelo marido.

Pensou em ligar para sua filha Rosa, que ela queria que se chamasse Pamela, mas que Ramiro insistiu que levasse o nome da mãe dele. Arrependeu-se de não ter feito valer sua vontade. Alguns segundos depois, achou que, mesmo a filha tendo 24 anos, não era o caso de lhe contar algo assim por telefone. Se tivesse descoberto que Ramiro a traía com mulheres, estaria mais à vontade para chorar as pitangas para ela, mas ele estava se esfregando com um jovem que tinha provavelmente menos da metade de sua idade.

Lembrou-se da irmã Leocádia. Que ideia esta dos seus pais de darem, aos filhos, nomes iniciados com “L”? Depois de oito filhos, quando a nona nasceu, já não tinha mais opção que valesse a pena. Pobre Leocádia, viver em 2023 com um nome que mais parecia adequado a 1923. Era a mais jovem de todos e tinha uma cabeça aberta. A única entre as cinco mulheres irmãs que, ao perceber que o marido não valia um tostão, divorciou-se. Ela, Leonor, além de Leonice, Livramento e Linda, permaneciam tentando manter seus casamentos cada vez mais em frangalhos. E além de tudo, ela agora estava diante dessa verdade, que não conseguia decidir se deveria ser escancarada ou escondida a sete chaves.

Lembrou-se que, desde os 45 anos, não transava com Ramiro, que argumentava sempre que o cansaço dele e os sintomas da menopausa dela tiravam todo seu ânimo para a cama. Sua raiva aumentou, porque imaginou quantos jovens o pegaram por aí, em motéis, postos de gasolina, banheiros públicos etc. Lembrou quantas vezes se masturbou envergonhada de si mesma durante o banho. Esse prazer solitário nunca a satisfazia porque não compensava a indiferença dele, que doía, na carne e no coração.

Desistiu de telefonar para Leocádia, pois supôs que, rapidamente, ela acionaria um dos irmãos. Se chamasse Luiz, o mais velho, ele convocaria uma reunião de família para decidir como proteger a irmã e ter uma conversa séria com o sem vergonha do Ramiro… Ela passaria pelo vexame de tornar pública a sua situação.

Ocorreu-lhe telefonar para uma das amigas. Quem sabe alguém daria uma luz a ela que não conseguia, neste momento de choque, pensar com a cabeça, mas apenas com o fígado e o coração.

Talvez pudesse desabafar com Judith, sua vizinha de tantos anos. Juntas curaram os filhos de bebedeiras, enfrentaram filas no INSS, procuraram pelos preços mais baratos na Rua 25 de Março, quando tinham que comprar os presentes de Natal… Mas um assunto destes não era fácil. Era capaz de Judith comentar com seu marido Afonso. Não que Ramiro merecesse que ela se preocupasse com a reputação dele, mas estava mesmo era preocupada com a sua e não simpatizava com o esposo da amiga.

A raiva aumentou. Concluiu que estaria sendo mais fácil se tivesse pegado o marido com a Regina, considerada a gostosona do bairro, com seus vestidos de malha sempre justos e seu decote insinuante.

Lembrou de sua juventude, dos bailes no clube de Diadema, dos vestidos de viscose que faziam o efeito de uma seda, de como gostava de dançar e fazia sucesso no salão; a cintura fina, o gingado aprendido com o pai carioca, o perfume Cashemere  Bouquet que era parcimoniosamente usado nestas ocasiões… A raiva aumentou ainda mais, agora de modo mais contundente, porque não era possível voltar no tempo, não teria mais cintura fina, não deslizaria mais pelo salão com seus sapatos de salto alto…

Ia sair daquele banheiro, fazer de tudo para não esbofetear o Ramiro em público. Não poderia bater nele no carro, nem antes de chegarem em casa, afinal seria um perigo um acidente na rodovia… Não poderia também brigar com ele em casa, porque os filhos escutariam. Seria terrível para eles saber que o pai era gay. Seu pai, hoje com 78 anos, chamaria ele de veado, mas ela tinha que encontrar os termos certos, porque hoje não se fala mais assim e era capaz de, ainda por cima, sofrer um processo por calúnia.

Levantou-se, abriu a porta lentamente, foi até a pia e lavou o rosto onde as lágrimas corriam. Não tinha papel toalha para enxugá-lo, buscou um lenço de pano na bolsa e aproveitou para também suar o nariz.

Deixou o banheiro andando como um autômato. Ramiro estava acabando de almoçar tranquilamente. Seu ar de satisfação a incomodou mais ainda, mas não abriu a boca. Ao contrário do que ela teria feito, ele não perguntou por que ela se demorou no banheiro. A indiferença foi como mais uma fincada de um canivete que não parava de cortar sua pele, nos últimos 15 minutos.

Aguentou firme, antes de passar pelo caixa, quando pegou um pacote gigante de bala jujuba na expectativa de ocupar a boca mascando e não correr o risco de falar.

Se falasse, o que escutaria em troca? Que era isso mesmo, que ele gostava de jovens e homens? Que ela estava velha, que nunca gostou de sua pele, de seu cheiro? Pediria desculpas? Rogaria para que ela não contasse aos filhos, aos irmãos, aos vizinhos ou não estava nem aí? Contaria a ela com quem andou nos últimos anos? Acabaria dizendo que transou no pequeno armazém deles, atrás do balcão com um ou outro depois de baixar as portas? Ou ficaria absolutamente mudo, deixando-a, além de furiosa, desconcertada?

Os quilômetros passavam, a noite caía, os faróis começavam a incomodar no contrafluxo e ela não conseguia decidir onde e como entraria no assunto com ele. Nem conseguia supor o que faria de sua vida. Do que viveria se a pequena renda do comércio, que tinham, tivesse que se dividida para sustentar duas casas? Tinha que ter uma estratégia, desenhar um futuro qualquer por mais duro e solitário que ele pudesse ser, mas antes tinha que curar parte da dor imensa que sentia.

 Ao lembrar mais uma vez do prazer carnal que ele vinha sentindo há tempo e que ela havia presenciado hoje à tarde, concluiu que essa seria uma forma leve de traição, diante da dor maior de constatar que vicejou entre eles uma mentira que devia estar lá no começo, já na Lua de Mel.

Entendeu, então, qual é a cor verdadeira da traição: não tem muito a ver com o corpo, mas sim com a forma como uma parceria se desenvolve no tempo.

Deitou a cabeça no banco do carro, cochilou exausta e incapaz de qualquer decisão sobre “si”, depois de anos pensando que houvesse um “nós”.

Carminha Beltrão

Abril de 2023

Sardenha – Cagliari

Cagliari estende-se ao longo do Mar Mediterrâneo, na posição sul da Ilha da Sardenha. Seu relevo é movimentado e a cidade histórica, hoje chamada de Distrito do Castello, impressiona pelo patamar topográfico que ocupa muito acima do nível do mar.

Fonte: https://www.corriere.it/bello-italia/notizie/cagliari-castello-quartiere-rinato-0d1510d8-8348-11eb-98e0-a911bb2fb5b0.shtml

Fonte: https://www.shmag.it/insardegna/itinerari/11_10_2021/cagliari-a-spasso-per-il-bel-capoluogo-della-sardegna/

A fundação do primeiro aglomerado urbano neste sítio remonta a meados do milênio anterior ao nascimento de Cristo, segundo a Wikipédia. Embora houvesse assentamentos humanos por aí desde seis mil anos antes de Cristo, é com os fenícios que se constitui a feição de núcleo urbano, depois engrandecido pelo domínio romano.

Não é difícil compreender por que os primeiros moradores deste território escolheram este sítio urbano. Ele possibilitava que se avistasse a aproximação de qualquer inimigo que buscasse atacar a cidade pelo mar, tanto quanto se beneficiava do próprio relevo para proteger o assentamento, porque parte da “cidadela” já está protegida pelas alturas das escarpas do rochedo sobre o qual ela se assenta.

Grosso modo, a zona do Castello vai da Porta Cristina, ao norte, ao Bastione de Saint Rémy, ao sul; a Viale Regina Elena contorna a área a leste e um ponto importante para se ter acesso à cidade velha pelo oeste é a Torre dell’Elefante.

Tomando como referência o Bastione di Saint Rémy e a Cathedrale di Santa Maria Assunta e Santa Cecília, pode-se comparar o primeiro mapa com o segundo e observar alguns aspectos: – a proximidade que há entre o sítio histórico e o mar; – as áreas comerciais mais importantes atualmente, sombreadas em amarelo claro, estão em torno da cidade antiga, a sudeste e a sudoeste; – as áreas que se destinam a marinas no mar, onde centenas de embarcações parecem aguardar pacientemente o verão.

Aliás, Cagliari está toda abraçada e entremeada por águas, então é natural que a relação com o mar seja grande e que os sardos estejam sempre propensos a navegar.

Voltando ao Distrito do Castello, informo que, ainda hoje, para se circular a pé ou de carro pela zona é necessário entrar pelas portas que, no passado, tiveram a função de proteger a cidade e controlar a circulação de mercadores. Hoje, o fluxo que as atravessa é mediado por um semáforo, pois o tamanho é suficiente para a passagem de, apenas, um veículo…. Assim, ficamos nós com nosso mini Mini, locado para circular pela ilha, aguardando o verde aparecer para entrar na guest house, em que nos hospedaríamos, localizada justamente intramuros. Quando fiz a reserva pelo Booking.com, não podia imaginar a escolha que fizemos: ótima do ponto de vista de conhecer bem esse centro histórico, um pouco difícil, por outro lado, porque para se aceder à zona comercial atual da cidade, onde estão a maior parte dos bares e restaurantes e parte do patrimônio constituído por várias igrejas, era preciso vencer a pé muitas ladeiras e degraus (demoramos um pouco para descobrir que há elevadores públicos que ajudam bastante a vencer os enormes desníveis).

Passar pelas portas para entrar no Distrito do Castello era sempre agradável, mas nem sempre a presença dos carros facilitava o registro fotográfico.

Sempre que acedíamos ao sítio histórico pela sua porção leste, lá estava a imponente Torre do Elefante, com seu gigantesco portão de madeira suspenso, causando sempre a impressão que ele poderia cair sobre nossas cabeças a qualquer momento.

Enfim, o distrito é muito especial. O que no primeiro momento pareceu uma escolha inadequada, a de se hospedar numa área que atualmente não é propriamente central na cidade, uma vez que não era fácil encontrar um lugar para estacionar nosso Mini, foi, ao final, muito interessante porque pudemos andar pelas vias estreitas da zona histórica, observar que muitos prédios estão sendo recuperados (pelas vãos de janelas e portas se via que, por dentro, estão muito bem decorados) e notar que boa parte de seus moradores ou são pessoas idosas, que à noitinha víamos passeando com seus cachorros, ou imigrantes que ocupam os imóveis ainda não recuperados. Passei a observar os nomes dos proprietários, nos painéis metálicos em que estão as campainhas dos apartamentos e deduzi que uma parte deles, pelos sobrenomes, são europeus do norte que, suponho, adquirem um imóvel relativamente barato e têm acesso ao sol e ao mar azul do Mediterrâneo, em alguns meses do anos.

Foi caminhando em busca da cidade baixa, digamos assim, que vimos L’Osteria di Castello, um simpático restaurante ao qual se tem acesso após descer alguns degraus, para se chegar ao piso que deve ter sido, no passado, um porão, o que lhe dava a aparência de uma pequena caverna (veja, leitor, nas fotos, suas paredes seculares e a madeira que sustenta os andares superiores). Ali o perfume dos temperos da cozinha, as toalhas e guardanapos absolutamente brancos e, na sequência, uma boa taça de tinto agradam o corpo cansado do sobe e desce, imposto pelos desníveis, e aquecem o coração.

Como assinalado nos mapas, é no Distrito do Castello que está a catedral de Cagliari. Uma igreja bonita por fora, por ter sido erguida com a rocha calcária que domina a região e dá a sua fachada esta claridade que embeleza a composição e favorece o destaque das colunas e do dourado que emoldura as imagens santas. Com a torre iluminada à noite, achei que fica ainda mais bonita.

Por dentro, encanta igualmente, talvez porque, não tendo vitrais coloridos, a transparência dos vidros deixa a luz entrar livremente. Deduzi que os vitrais se perderam em ataques que a cidade sofreu durante a segunda Guerra Mundial, quando foi bombardeada em 1943. O altar é demarcado por escada e muretas de mármore e granito trabalhadas maravilhosamente, conformando verdadeiros rendilhados. Dois leões de bronze resguardam a entrada.

O teto também é lindo e os altares secundários nas laterais merecem igualmente destaque.

O piso, ah sempre o piso me chamando atenção. Adoro esse desnivelado que retrata o tempo acumulado, o desgaste diferenciado dos mármores e granitos, para nos fazer lembrar os milhares de pessoas de várias gerações que caminharam por ele.

Cagliari tem muito mais coisas para se ver, é claro. O que registro aqui resulta de uma seleção que como toda escolha tem perdas. Se você pensa em conhecer essa cidade não deixe de visitar a galeria que está ao pé do Bastione de Saint Rémy, reconstruído parcialmente após o bombardeio de 1943. Suas colunas altas compõem um ambiente agradável, por meio do qual podemos ver as bases rochosas da cidadela.

Bateu fome, vontade de dar uma pausa e de comer Cullurgiones, prato típico da Sardenha? Vá ao Niu, que ocupa um antigo convento, como as abóbodas do teto denunciam. Ele se localiza na atual área comercial da cidade, aos pés do Distrito do Castello.

Veja as explicações sobre este prato:

Os culurgiones são um tipo de massa recheada muito tradicional. Originária de Ogliastra, espalhou-se aos poucos por toda a região, tornando-se uma das receitas mais populares da Sardenha.

Os culurgiones assemelham-se a grandes raviólis recheados com batata e hortelã, todos acompanhados de muito queijo pecorino (mas os ingredientes podem variar de zona para zona).

No entanto, a característica que mais os distingue é o modo de fechá-los. A técnica se chama sa spighitta, e representa a forma do trigo. Na verdade, os culurgiones foram originalmente preparados como um presente, uma espécie de amuleto, que era dado a uma pessoa querida. O trigo representado nele nada mais era do que um sinal propiciatório de fartura.

Enfim, normalmente serve-se os culurgiones com molho de tomate ou então com manteiga e sálvia.

Fonte: https://descobrindoaitalia.com/10-pratos-tipicos-da-sardenha/#culurgiones

Fonte: https://www.salepepe.it/ricette/primi/pasta-fresca/culurgiones-casu-fruscu-sardegna/

Carminha Beltrão

Março de 2023

Sardenha – Uma ilha especial

A ilha da Sardenha, que é parte do território italiano, reflete muito a situação geográfica que ocupa. Encravada no Mar Mediterrâneo, é espaço natural e, simultaneamente, político de integração e circulação secular. A Sardenha está a oeste da Itália continental, ao sul da ilha francesa da Córsega e ao norte da Tunísia.

Se, na Antiguidade e na Idade Média, contava mais sua posição entre o Oriente e o Ocidente, pela principal via de comunicação que era este mar, na atualidade, vejo bem no meio do caminho entre a África e a Europa Ocidental, por onde trafegam imigrantes em busca de trabalho no Velho Mundo. Como estamos tratando da Sardenha e do Mar Mediterrâneo, não é demais lembrar que, há séculos, comercializa-se de tudo por este território.

Não se trata, fazendo um balanço agora, de um destino que eu escolheria de pronto, mas as circunstâncias nos trouxeram até aqui, como uma opção para completar a visita a Milão.

Esta ilha merece ser adjetivada como especial, porque reúne paisagens muito peculiares, história longeva e uma mistura de influências culturais que a singularizam. Aliás, alude-se a ela tanto em italiano (Sardegna) como em sardo, a língua autóctone (Sardigna), como ainda em catalão, para fazer jus à grande influência desta região da Espanha na linda ilha (Sardenya). Com essas características plurais, este território goza do estatuto de região autônoma da Itália, o que lhe dá certa independência administrativa e garante a proteção de suas particularidades, tanto da língua como de outros aspectos culturais.

Aliás, o sardo, por seu uma língua que remanesce do Império Romano, aproxima-se muito do latim, mas tem influências fenícias e etruscas. Ela se parece bastante com o basco, mas não é o único idioma da ilha, além do italiano, como mostra o mapa.

Nas placas indicando a toponímia dos lugares, podemos perceber a presença da península ibérica no linguajar cotidiano da ilha.

A cidade principal da ilha ocupa a posição sul e é capital. Chama-se Cagliari e tem pouco mais de 154 mil habitantes, praticamente 10% do total da ilha que alcança 1,6 milhão de habitantes. As outras cidades importantes são Sassari, Alghero, Ólbia, Nuoro e Oristano. Talvez, em outro capítulo desta série Diário de Viagem, eu escreva um pouco sobre Alghero e Cagliari.

A ilha, como um todo, tem perdido população, principalmente jovem que parte em busca de oportunidades melhores em outras regiões italianas, por isso o governo oferece subsídios para quem queira vir morar em cidades pequenas e investir na reforma de imóveis na Sardenha (https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2022/08/italia-paga-ate-r-75-mil-a-quem-se-mudar-para-ilha-da-sardenha.shtml).

Seu relevo é espetacular. A maior parte da costa é bastante recortada, o que conforma cabos e baías muito bonitas. Mais para o interior, a superfície é desenhada com colinas e montanhas. Algumas chegam aos mil metros de altura e seu pico mais elevado – a Punta La Marmora – alcança 1.834 m, o que é bastante para um território tão pequeno.

Fonte: https://www.atlantides.it/la-scoperta-della-vera-punta-la-marmora.html

A vegetação também é bem peculiar: não é densa, tampouco corresponde a um clima árido. Ora se beneficia da umidade, ora se prejudica pelo solo rochoso e pelos ventos fortes que cortam a ilha. Ela tem bastante semelhança ao que tínhamos observado em outras viagens na Ilha da Sicília, mas, principalmente, no paisagismo das cidades lembra também a Tunísia e o Marrocos, pelos palmeirais e fênix que estão por todo lado.

Fonte: https://jujunatrip.com/sardenha/

Fonte: https://br.depositphotos.com/49610905/stock-photo-santa-teresa-di-gallura-sardinia.html

Essa combinação de relevo e vegetação conforma, então, uma paisagem que poderia parecer rude, mas é suavizada, na minha opinião, por alguns fatores que exercem o papel de atenuadores. Primeiramente, a beleza do Mediterrâneo que cerca a ilha, cujos tons formam uma moldura lindíssima. As minhas fotos são menos bonitas que a realidade, porque não captaram a transparência da água e a variação de tons do azul para o verde, contrastando com faixas de pedras e de areias quase brancas.

Em segundo lugar, pela presença de muitas oliveiras, algumas centenárias, cujo verde acinzentado das folhas brilha quando o sol bate. Elas estão em várias propriedades tanto no norte, como no sul da ilha, mas também adornam cidades, cercadas de muretas com grafites, tanto quanto parques naturais que estão nos campos, mostrando que, a exemplo do outros países que margeiam o Mediterrâneo, as oliveiras são um patrimônio da ilha.

A fisionomia rude da ilha é enfeitada, também, pela gracinha dos rebanhos de ovinos que pastoreiam até mesmo nas estradas e são um símbolo da ilha, porque aparecem até mesmo nas camisetas de recordação, que estão a venda em tudo que é lojinha para turista. Olha a ovelha negra aí!

Fonte: https://www.cartolerialghero.com/t-shirt-etc/t-shirt-sardegna/

Gostei demais do perfume de alecrim que exala, por todo lado, porque há verdadeiras touceiras desta planta em qualquer canto, tão grandes, que estão floridas (eu nunca tinha visto alecrim florido). Elas também embelezam a ilha e tornam sua paisagem mais bem temperada.

Dizem que o ponto alto da Sardenha é o Arquipélago da Maddalena que fica ao norte, mas não o conhecemos, porque mutas coisas funcionam de modo incompleto antes do verão. Não se consegue, em março, fazer passeios de barco, ou visitar alguns museus ou mesmo conhecer alguns dos melhores restaurantes, que só funcionam a partir de abril. Os hotéis cinco estrelas e spas são muitos por aqui e destinados, principalmente aos europeus do norte.

À parte esses grandes equipamentos para o turismo, a ilha não transparece riqueza; ao contrário, se veem, aqui e ali, esforços para recuperação do patrimônio e melhoria da infraestrutura, mas se nota que o padrão médio de vida está abaixo do que se observa em grande parte da Itália (eu a identifiquei mais com a Calábria e a Ilha da Sicília, mas é preciso ter alguns dados para fazer alguma afirmação mais precisa).

Outra peculiaridade da ilha são os milhares de sítios arqueológicos que ela tem. No escritório de informações turísticas do Aeroporto de Cagliari, aliás muito bom e com uma funcionária muito bem-preparada, tivemos a informação de que são oito mil sítios, embora apenas uma parte muito pequena tenha passado por trabalhos de recuperação e tratamento museológico.

Visitamos alguns destes sítios arqueológicos, mas isso fica para outro capítulo deste diário.

Para finalizar, o primeiro mapa mostra o percurso inicial que fizemos na direção de Alghero, onde nos hospedamos nos três primeiros dias, incluindo os passeios feitos até Ólbia, Palau e arredores. O segundo representa nosso passeio na direção de Villasimius, durante os três dias que ficamos em Cagliari.

Carminha Beltrão

Março de 2023

Milão – Entre o sagrado e o profano

Haveria muitas coisas mais para caracterizar Milão: sua gente elegante, seus parques, suas edificações do século XIX, os antiquários, as novas galerias de design. No entanto, no meio de tantas maravilhas, gasto minhas linhas com Il Duomo di Milano e La Galleria Vitório Emanuelle II.

As duas competem pela atenção das centenas de turistas que cruzam La Piazza del Duomo (o grande quadrilátero onde se assinala o M de metrô) e em seus arredores gastam seu tempo e dinheiro todos os dias.

Na piazza há uma estação de metrô e quase nenhum outro obstáculo que sirva de anteparo à nossa visão sobre uma das entradas da Galleria, ao norte, e sobre a catedral a leste da praça.

É preciso ter muita fé e ser muito cristão para apostar na ideia de uma construção tão magnífica que demorou 600 anos para ser concluída. Hoje esse espaço pode ter pouco de “sagrado”, com tantos que entram mais para fotografar (e haja selfies) do que para rezar, mas afinal o que leva gente de todas as religiões do mundo, mais ateus e agnósticos, a visitá-la não deixa de encantar, como se estivéssemos contemplando, como um filme que percorre o tempo, as várias gerações que a pensaram como um espaço divino. Ademais, com ou sem religião, ela é tão linda que merece mesmo ser considerada sagrada por isso: pela força dos homens que a idealizaram e a ergueram.

Você, leitor, achou que, por opor, ao sagrado, a ideia de profano, eu iria falar das principais ruas onde, no passado, praticava-se a prostituição em Milão, ou quem sabe faria referência às festas de rua, que 40 dias antes da Páscoa, comemoravam, no passado, a vida mundana antes de entrar no período de sacrifícios que exigia a Quaresma. Nada disso, refiro-me ao profano do mundo contemporâneo, aquele que nos remete ao grande prazer da sociedade atual – o consumo. Penso que a Galleria é um bom exemplo deste profano, cuja insaciabilidade é extensa porque não encontra repouso no corpo cansado, porque se realiza na mente e nos valores.

O Duomo é considerado a terceira maior igreja católica do mundo. A primeira é a de São Pedro no Vaticano, a segunda, a Catedral de Sevilha. Impressiona em muitos sentidos diferentes. Seu nome oficial é Cattedrale Metropolitana della Natività della Beata Vergine Maria.

Sua construção teve início no final dos anos de 1300, por iniciativa de um arcebispo chamado Antonio da Saluzzo, com apoio do Duque Gian Galeazzo Visconti.

Ela é absolutamente imensa, com mais de 150 metros de comprimento e 100 de largura frontal. Para suportar a altura de igreja gótica, num tempo em que não havia concreto armado, ela é composta por cinco naves, cuja altura chega aos 45 metros. Para sustentar tamanha extensão, a catedral tem 40 pilares. Nestes registros fotográficos que fiz é possível observar uma boa parte dos pilares e a altura das ogivas.

Todos as informações disponíveis nos guias fazem referência ao fato de que o estilo gótico não era comum na Itália e nem o preferido da sociedade de então, mas acabou sendo o escolhido, em decorrência da influência francesa, que era grande no período.

Em meados do século XVIII, a fachada do Duomo se apresentava como na figura subsequente. Observando a imagem é possível notar que ela cresceu e se embelezou muito nos dois séculos seguintes, pois se ela foi considerada finalizada em 1813, continuou a conhecer mudanças, como suas portas que foram trocadas e está constantemente em manutenção. Basta buscar imagens dela no Google e se percebe que há fotos em que a fachada aparece em diferentes tons, dependendo da proximidade maior ou menor dos anos em que passou por limpeza.

Por Marc’ Antonio Dal Re – The whole series of 88 engravings is online here: http://www.storiadimilano.it/repertori/pres_dalre/dalre.html, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1709257

Fonte: https://www.gettyimages.it/immagine/duomo-di-milano

Nos folhetos que orientam os visitantess, há informações de que ela tem três mil estátuas entre as externas e as internas. Um dos seus ícones está na sua torre mais alta – a Madonina – uma Nossa Senhora toda dourada que é o ponto mais alto do centro de Milão, não podendo nenhum edifício, nesta área, ultrapassar sua altura.

Fonte: https://en.wikiarquitectura.com/building/duomo-di-milano/

A catedral tem cerca de 40 vitrais. As minhas fotos ficam muito aquém da maravilha que eles são, tanto em tamanho, como na qualidade dos desenhos e detalhes de encaixes entre os vidros e ferragens. Daria para passar o dia olhando para eles.

Se eu tivesse que escolher um detalhe que adorei, ficaria com o piso. São vários tipos e cores de mármores e granitos, maravilhosamente encaixados, compondo a geometria que se repete harmonicamente. Ao se andar pela catedral é maravilhoso sentir na sola dos sapatos os diferentes desgastes que cada uma dessas rochas teve no decorrer dos séculos – os mármores geralmente mais desgastados conformam os baixo relevos, enquanto os granitos compõem os alto relevos.

Bem ao lado dela, como expliquei no comecinho deste diário de viagem, está a Galleria Vitorio Emanuelle II, cujo portal principal aparece na foto que segue, do lado esquerdo.

Fonte: https://www.receitasdeferdi.com/roteiro-de-milao-o-duomo-de-milao

Ela foi inaugurada em 1877 e tem uma formato de cruz, composta por dois arcos altos que formam abóbodas de vidro e ferro. Bem no centro, no cruzamento de seus dois eixos, há mosaicos que representam os continentes Ásia, África, Europa e América.

A sua construção decorreu de um concurso público para o projeto de uma galeria que fizesse a ligação entre Il Duomo e a praça onde está o Teatro alla Scala de Milão (Fonte: https://www.milaonasmaos.it/10-curiosidades-sobre-a-galeria-vittorio-emanuele/). Quem venceu foi o engenheiro Giuseppe Mengoni, a quem a placa, ao lado do seu portal principal, memoriza e agradece. Li, neste mesmo site, que ele caiu de um andaime e faleceu na véspera de inauguração da galeria que projetou. Que trágico!

Ao longo de seus dois corredores enfileiram-se filiais das principais marcas internacionais. Para a maior parte dos que a atravessam são apenas vitrines para serem observadas, porque os preços de uma bolsa Gucci, um vestido Prada, uma mala Louis Vuitton ou um terno Armani não são para qualquer um…

Aliás, podendo ou não podendo comprar, a gente pode admirar e, sinceramente, achei que, no geral, a moda das grandes griffes anda exagerada: a maior parte das peças expostas pareciam mais uma alegoria, mais para performances do que algo que se possa vestir ou calçar e se viver normalmente.

Estas duas fotos possibilitam observar a delicadeza do mosaico que compõe o piso da galeria – ele é lindo! Veja os detalhes na próxima foto.

Se bater o cansaço e a fome depois de se deliciar com Il Duomo e La Galleria, não hesite entre o sacrifício que o sagrado sugeriria e o prazer que o profano permite, escolhendo o segundo. Fique com um agradável almoço no La Locando del Gatto Rosso, um simpático restaurante que fica na Vitório Emanuelle, tem preços bem razoáveis e uma comida bem gostosa.

Carminha Beltrão

Março de 2023

Milão – Parecida com São Paulo, mas diferente

Muitas vezes ouvi falar que Milão era a São Paulo da Itália. A comparação faz algum sentido, porque ambas são economicamente as mais importantes em seus países. Por outro lado, a minha primeira visita a essa cidade me diz que ela, também, é bem diferente da maior metrópole ao sul do Equador.

Ok, todos sabemos que ambas são cidades moldadas, no século XX, por um amplo processo de industrialização do tipo fordista. Também é verdade que se espraiam conformando uma grande mancha urbana metropolitana. No entanto, as formações socioespaciais que as engendraram são tão diferentes que o que poderia ser semelhança, pode também ser visto como diferença, ou colocando em outros termos: Se ambas são cidades industriais e importantes economicamente, por que não são mais parecidas?

Não sei. Precisaria ter um programa de estudos e pesquisa para arranhar alguma explicação melhor fundamentada, mas não custa, num diário de viagem que não tem compromisso científico, registrar minhas observações.

Milão é nome, ao mesmo tempo, de uma comuna de um milhão e quatrocentos mil habitantes, de uma área urbana com população de quatro milhões e trezentos mil habitantes e de uma região metropolitana que, pelas estimativas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), deve ultrapassar os sete milhões de habitantes.

A região metropolitana de São Paulo está chegando aos 23 milhões de habitantes, dos quais mais de 12 milhões vivem na cidade principal. Assim, a magnitude demográfica, em que pese ambas serem grandiosas, não é propriamente comparável.

No entanto, as duas aproximam-se no número de cidades que compõem a mancha metropolitana – a de São Paulo tem 39 sedes de municípios e a de Milão tem 40.

A extensão de seus tecidos urbanos é, por outro lado, bastante díspar – a área metropolitana de Milão tem 1.621 km2 e a de São Paulo 7.944 km2.

Fonte: Google Maps

Todavia, esses números querem dizer pouca coisa, todavia, se queremos entender a ‘alma’ dessas cidades [eu sei, caro leitor, que cidades não têm alma, aliás, nem sei se pessoas têm alma, quanto mais as cidades, mas uma figura de linguagem, às vezes, ajuda não é mesmo?].

Fundada pelos celtas, provavelmente por volta de 400 a.C. Milão foi dominada pelos romanos por volta de 200 a.C. que lhe deram o nome de Mediolanum (que significa no meio da planície). Quando ocorreu a divisão do Império Romano, ela se tornou a capital da porção oriente do império.  Cresceu nos séculos subsequentes e chegou a ser ter uma muralha extensa e uma estrutura urbana complexa antes de ser a grande capital industrial que é hoje. A planta que se segue, cuja data não está registrada no site de onde a extraí, mostra um pouco da grandeza que terá alcançado no passado, pela extensão da muralha que a cerca e pela densidade de ocupação que se depreende do grande número de edificações.

Fonte: https://blog.cavezzale.com/milao-tudo-o-que-voce-precisa-saber/

A segunda metade do segundo milênio depois de Cristo foi conturbada para Milão, que esteve sob vários domínios: o espanhol em 1500, o austríaco em 1700, além de ser ocupada por Napoleão I em 1796, que a declarou capital do Reino da Itália em 1805.

Aqui, aproveito para um parêntese. Napoleão, em Paris, encomendou ao grande arquiteto e escultor Antonio Canova que fizesse uma estátua sua. Parece que ele teria preferido uma imagem que o associaria a um guerreiro, mas o grande artista preferiu passar a ideia de um “Marte Pacificador”, que carrega na mão direita o “mundo”.  A majestosa escultura é conhecida como o “traseiro” mais bonito de Milão (fonte: https://www.facebook.com/Milao.nas.maos/posts/ 534608799950700/), o que não seria exagero porque pude constatar a beleza das formas moldadas, mas Bonaporte não gostou do resultado do trabalho de Canova e a obra ficou meio esquecida nos porões do Louvre, foi depois apossada por quem o venceu em Waterloo. A versão que está em Milão é uma das cinco cópias feitas pelo próprio Canova. Foi ela que hoje vi exposta na Pinacoteca di Brera (aliás, uma visita imperdível para quem vem a Milão). A original está em Londres.

Fonte da imagem: https://historia-arte.com/obras/napoleon-como-marte-pacificador

Impressiona muito sua imponência, dada pelos de mais de 3 metros de altura, pela altivez da postura e pela perfeição dos detalhes, mas digamos que não corresponde em nada a outras representações de Napoleão, que nem era alto, nem tinha um corpo tão parecido com o de David de Michelângelo. Observa, leitor, como ele está bonitão na estátua, e não se parece nem um pouco com a pintura que Paul Delaroche fez dele em 1845, em que a baixa estatura e a barriguinha se destacam.

Fonte: https://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/conheca-10-fatos-sobre-a-vida-de-napoleao-bonaparte/

Fechando o parêntese que nos faz refletir sobre o que o poder propicia a alguém, voltamos a alguns aspectos sobre Milão e não é demais lembrar que, mesmo sendo apenas a capital da Lombardia, norte da Itália, rivaliza com a capital do país, Roma. Ainda que perca para ela no que concerne à população, é mais importante economicamente. Seu crescimento industrial levou-a ao patamar de cidade mais desenvolvida do país, na segunda metade do século XX, após o difícil período da segunda guerra mundial, quando foi bombardeada gravemente.

Em função desse movimento de industrialização, ampliaram-se as oposições entre o norte e o sul da Itália, este, considerado “conservador e atrasado”.  Sem dúvida, a chegada de imigrantes estrangeiros e das regiões mais pobres do país propiciou o crescimento do mercado de consumo e reforçou a tendência de progresso material e social.  O PIB per capita de Milão é 1,6 vez maior que o média da União Européia e é por isso, também, uma cidade muito cara para seus moradores e para os turistas.

Se foi a atividade industrial que a notabilizou no pós-guerra, hoje a grande metrópole é mais identificada como centro financeiro e de inovação na moda e no design.

São Paulo, de outro lado, completará daqui a trinta e poucos anos, cinco séculos de vida, portanto as camadas de história que a compõem são menos densas que as de Milão. Não há dúvida que a influência da imigração, tanto as correntes desenhadas pelos que vieram do nordeste do Brasil, como as de estrangeiros, revelam similitude com a situação de Milão no século XX, razão pela qual as duas são caracterizadas, do ponto de vista social e cultural, como cosmopolitas.

Também São Paulo é, hoje, mais um centro financeiro do que apenas industrial. Se olhamos os rankings das principais bolsas de valores do mundo, a de São Paulo aparece, ora em 8º lugar (https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_bolsas_ devalores), ora em 19º. (https://vocesa.abril.com.br/mercado-financeiro/qual-e-a-capitalizacao-de-mercado-das-10-maiores-bolsas-do-mundo/). Não dá para confiar muito, mas como  Bolsa a de Milão não compõe a importante tríade europeia (Paris, Londres, Frankfurt) e nem aparece nessas classificações internacionais, São Paulo ocupa posição mais importante neste quesito, inclusive por ser definida como a cidade global mais importante do Hemisfério Sul.

Pode-se concluir, muito superficialmente, que São Paulo foi, em muitos aspectos, mais célere que Milão, porque cresceu e alcançou indicadores bastante positivos, no cenário nacional e internacional, em menos tempo de vida. Entretanto, é andando pelas ruas em Milão que se aquilata o avesso do crescimento paulistano. As desigualdades lá são menores, sem dúvida, e isso não tem rebatimento apenas na vida econômica, mas se reflete na vida social, política e cultural.

Em Milão há pobres, é claro, porque, com a globalização, inclusive, eles andam por todo lado em busca de trabalho e compõem a face nova do chamado “Primeiro Mundo”. Vi, aqui e ali, gente pedindo esmolas, mas em número menor e situações de rua bem menos precárias do que aquelas observadas em São Paulo, onde atualmente moram cerca de 48 mil pessoas em espaços públicos, segundo o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas

Também há gente sem trabalho, em Milão, porque a economia flutua, a tecnologia se expande e as pessoas tornam-se descartáveis.

Há decadência em parte do patrimônio arquitetônico da cidade, não obstante haja esforços enormes para a recuperação e manutenção da maior parcela dessa herança fabulosa que os séculos legaram, como se pode ver pelo grande número de fachadas que estão sendo limpas e recuperadas e pela mudança de usos, mas mantença dos principais elementos das construções mais antigas: um palacete residencial de outrora é sede de um banco hoje; edifícios de apartamentos do século XIX adaptam-se para hospedagens modernas, que combinam hotéis com AirBnB; uma mansão com jardins abriga uma fundação que cuida de arte; lojas no térreo dos edifícios mais bonitos são ocupadas por antiquários e boutiques. Nisso ela se distingue de São Paulo, onde vemos edifícios, casas, casarões e palacetes desvalorizados social e culturalmente, tanto no Centro Velho como nos Campos Elíseos, Brás e Bexiga; pouco restou das mansões dos barões do café e primeiros industriais na Avenida Paulista, outras construções sendo demolidas sem qualquer apreço pelo passado da cidade que Caetano Veloso batizou de Sampa.

Para resumir, a diferença entre as duas cidades está, na essência, na intensidade com que as mazelas transparecem na paisagem urbana, sobretudo porque, em Milão, há cultura por todo lado, há vida pública, há encontro entre os diferentes, ainda que as tensões estejam no ar. Esse viver na cidade de Milão esmaece as cores dos problemas urbanos que são, efetivamente, menores e menos profundos que os paulistanos.

Foi maravilhoso ver, em três dias, grupos de estudantes, da pré-escola ao ensino médio, escutando as explicações de seus professores sobre detalhes do patrimônio artístico e arquitetônico da cidade, ou simplesmente dirigindo-se para visitas nos museus de Milão.

As permanências misturam-se bem às transformações em Milão. O metrô se expande, sem que os bondes tenham sido retirados de circulação, como ocorreu em São Paulo.

Termino esse registro sobre Milão, com a maravilhosa tela “O Beijo”, de 1859, pintura de Francesco Hayez, de quem nunca tinha ouvido falar, mas cuja obra, também na Pinacoteca di Brera, me encantou.

Fonte: https://albalu.it/products/il-bacio-francesco-hayez-riproduzione-quadro-su-tela?variant

Carminha Beltrão

Março de 2023

L’Occitanie 2 – La métropole de Toulouse

Fonte da foto: https://visiterlafrance.fr/visiter-toulouse/

Há muitos modos de se fazer turismo e isto todo mundo sabe. Vamos fazendo escolhas que variam segundo várias condições: o país ou região que visitamos, o orçamento de que dispomos, o tempo livre para viajar, nossa idade e interesses culturais. Também colocamos na balança experiências vividas em outras viagens, oportunidades que aparecem e que abraçamos ou não.

Sou considerada uma pessoa organizada, que gosta de planejar o que vai fazer e isso é verdade. No entanto, no que se refere às viagens mais recentes, ainda que haja sempre um conjunto de ações que a antecedem – escolher a região e o trajeto; decidir se vamos nos hospedar em hotéis, AirBnB ou B&B; avaliar se é melhor ir de avião, trem, ônibus ou carro; ponderar se é uma viagem a dois ou com mais amigos etc. – tenho preferido apostar no inusitado o que, algumas vezes, pode ser também o incomum.

Essa busca do incomum tem a ver com, ao menos, duas constatações: – tenho que fazer escolhas muito especiais, porque o tempo que tenho adiante, em termos de vida, é menor do que aquele que já vivi e isso significa que é preciso selecionar, valorizar, intensificar a experiência, ao invés de multiplicá-la; – não é possível reter na memória tudo o que vivemos numa viagem, por isso a ideia de fazer o máximo de coisas num dia está completamente descartada, em favor da opção de se fazer algumas coisas interessantes, parar para tomar um café, apreciar a decoração de uma vitrine, curtir um céu azul, ficar por longos minutos olhando uma praça ou uma criança que se diverte sob o sol.

Como sou professora e pesquisadora no campo da Geografia Urbana tenho um interesse especial pelas cidades, de todos os tipos, tamanhos e funções, mas, ao mesmo tempo, eu me esforço para me despir de qualquer conhecimento científico que tenho sobre elas, o que é, evidentemente impossível, mas não custa tentar, não é mesmo? Assim, desculpem-me se, muitas vezes, estou escrevendo num tom professoral…

A Occitanie tem como cidade principal Toulouse, chamada na língua occitana de Tolosa. É considerada uma metrópole na hierarquia urbana francesa, embora seja um pouco menor do que aquelas áreas urbanas que definimos como tal no Brasil. Tudo é relativo, como bem sabemos. Tem pouco mais de um milhão de habitantes e ocupa a quinta posição no ranking francês.

Principais áreas urbanas francesasPopulação
Paris11.142.000
Lyon1.748.000
Marseille-Aix-en-Provence1.620.000
Lille1.073.000
Toulouse1.049.000
Bordeaux991.000
https://www.macrotrends.net/cities/20997/toulouse/population

Os dados mostram a onipresença parisiense na rede urbana francesa, ainda que, nos anos de 1960, tenha havido um grande programa governamental para promover descentralização, por meio da eleição de “métropoles de développement” com base na Teoria de François Perroux que visava investimentos públicos maciços em algumas cidades estrategicamente situadas, de modo a que elas atraíssem outros investimentos privados e, assim, pudesse se promover a desconcentração metropolitana da capital. Pois é, Toulouse foi uma das cidades escolhidas e a ela foram destinados investimentos para o desenvolvimento de um polo aeroespacial. Deu certo? Em parte, sim, porque as universidades e o institutos de pesquisa sediados em Toulouse vêm tendo resultados positivos nessa direção, ainda que Paris não tenha perdido, proporcionalmente, sua posição macrocefálica. No entanto, isso pouco interessa para o que eu quero contar aqui.

Toulouse é uma cidade en bric, como se faz referência, em francês, à sua arquitetura na área central fortemente caracterizada pelo tijolo à vista. O Capitolium, sua edificação mais importante, sede do governo regional, é marcante na paisagem urbana central, cuja grande praça é complementada por largas fachadas de outras edificações também em tijolo. Tal como a conhecemos hoje, essa construção teve início no século XVII, mas a história da cidade, bem como da própria praça, começa muito antes. Já no século II a.C., tornou-se um posto militar importante do Império Romano, Gallia Narbonensis. Com a queda o império, ficou sob o domínio do Reino Visigótico e mais tarde sob o poder dos francos. Muitos séculos depois, tornou-se capital do Condado de Toulouse e, em 1271, foi incorporada ao Reino da França.

Na face oposta à sede do governo, a fachada fica divertida com os bares e restaurantes que, no verão, abrem seus imensos guarda-sóis. Que línguas dominam o ambiente? O espanhol e o inglês.

Enquanto os franceses adoram a Provence, à leste da Occitanie, os espanhóis aproveitam a proximidade para curtir esta região, e os ingleses, para fugir do céu nublado que predomina na Ilha da Grã-Bretanha. 

Daria para escrever páginas sobre essa praça tão linda que, do ponto de vista do urbanismo, lembra muito as plazas mayores espanholas, pela harmonia arquitetônica que resulta da composição das suas quatro faces, pelo amplo espaço vazio central e pela vida social que nela se observa.

De fato, todo o centro histórico de Toulouse é caracterizado pelo bric, por isso ela é chamada de“Cidade rosada” (embora ficasse melhor o adjetivo ocre ou marron).Esta área pode ser circunscrita entre essa praça central, La Place du Capitole, onde também está o Thêatre du Capitole; a Basílica de Saint Sernin de Toulouse, com sua torre tão especial; e o Rio Garonne. Neste polígono, também estão as edificações mais antigas da Université de Toulouse e o patrimônio arquitetônico do Convento dos Jacobinos. Hoje grande parte deste espaço histórico ainda tem moradias, mas os térreos são ocupados por atividades comerciais e de serviços, com destaque para as culturais e as voltadas à restauração, principalmente de turistas – cafés, pequenos restaurantes, lojas de lembranças etc. O centro comercial principal, com as grandes redes – Zara, Fnac, Lafayette, C&A etc. etc. está a leste deste setor e, também, tem muitas edificações em tijolos à vista.

Google Maps

Da visita à basílica, ficam na memória, além da torre, o lindo portal lateral, com altos relevos muito bem esculpidos e a longa e elevada nave principal que, pela claridade, contrasta com os tons terrosos externos.

Não deu tempo de conhecer a Cité de L’Espace. Eu avisei, desde o começo, que a ideia era selecionar, mas fica o registro: ela foi construída em 1997 para democratizar os conhecimentos ligados à fabricação do Airbus que se associam à astronomia e à astronáutica.  

Carminha Beltrão

Julho de 2022