Grécia 5 – Delfos, o umbigo do mundo

Fonte: https://brasilescola.uol.com.br/mitologia/apolo.htm

Delfos é uma pequena cidade grega, onde nos hospedamos, quando viemos de Olímpia. Tem apenas algumas poucas ruas, cujo traçado foi desenhado entre montanhas e um extenso vale onde a agricultura é praticada de modo intenso.

É um lugar simpático e convidativo para um período de descanso. No entanto, nosso objetivo, como turistas que vêm de longe, era conhecer o que restou da Delfos antiga.

Antes mesmo de chegamos ali, quando ainda estávamos conhecendo Olímpia e ouvindo sobre seus jogos famosos, já percebi que aquilo que os gregos chamam de “jogos” é um conjunto amplo de atividades que vão além do mundo dos esportes ou da sorte. Aliás, a seara dos esportes também precisa de um pouco de sorte e, para os viciados em jogos, isso passa a ser um esporte…

Embora houvesse jogos esportivos em Delfos, que eram realizados dois anos antes e depois dos Olímpicos, sua fama não está associada nem a eles, nem a jogos de azar (que nem sei se existiam na Grécia Antiga), mas sim às competições de música e poesia que ocorriam durante este certame denominado Jogos Píticos.

Eram realizados em honra a Apolo e era ele a razão de tudo, porque neste sítio, nas encostas do Monte Parnaso, estava o famoso oráculo de Delfos situado dentro do Templo erguido para este grande deus.

A importância do santuário era tão grande e recebia tantos peregrinos que havia o que se poderia chamar de um “pré-santuário”, um ambiente também sagrado, em que se ficava orando e aguardando por algum tempo, por vezes dias, até se poder aceder ao grande sítio. Vejam que era gracioso esse “pré-santuário”, situado numa escarpa íngreme.

Segundo a lenda e sempre há uma lenda, o oráculo maior era destinado à adoração da Deusa Têmis e era guardado pela serpente Píton. Apolo ali chegou e matou a serpente, dividindo-a em duas, tomando para si o oráculo e notabilizando, com o passar dos anos, este lugar como sendo de orações e de competição artística, que atraía não apenas gregos, mas outros povos, o que o levou a ser reconhecido como “centro do universo” (omphalos), mas que hoje, de modo brincalhão, é também chamado de o “umbigo do mundo”.

No sítio arqueológico, tem uma rocha esculpida para representar essa centralidade metaforicamente associada ao umbigo, mas nossa guia explicou que não é antiga, ou seja, foi ali colocada já no período moderno da Grécia. Pensando bem, não achei nada graciosa essa pequena escultura.

A cada dia me convenço mais de que os gregos tinham autoestima elevada e pensavam grande. Seus deuses eram os mais poderosos, suas estátuas eram as maiores e mais belas, seu santuário era o centro do universo, seu idioma é o que deu origem e sentido etimológico a vários outros etc. Sempre as explicações são majestosas e, é claro, têm correspondência em fatos e evidências, mas é preciso considerar que esta civilização transcorreu, historicamente falando, entre os séculos XIV a.C. e V d.C., tendo, portanto, sincronia parcial às civilizações antigas do Egito (de 3.200 a 600 a.C.) da Índia (de 1500 a 500 a.C.)  e da China (desde 1500 a 221 a.C.), para lembrar outras grandes sociedades da Antiguidade, que também são autoras de grandes feitos.

Voltemos a Delfos, onde estava ele, o filho de Zeus, Apolo, considerado dos mais importantes na mitologia grega e vejam que ele era mesmo demais, quase um Posto Ipiranga, porque servia para tudo. Assim, é descrito na Wikipédia:

… deus da divina distância, que ameaçava ou protegia desde o alto dos céus, sendo identificado como o sol e a luz da verdade.  Fazia os homens conscientes de seus pecados e era o agente de sua purificação ritual; presidia sobre as leis da Religião e sobre as constituições das cidades, era o símbolo da inspiração profética e artística, sendo o patrono do mais famoso oráculo da Antiguidade, o Oráculo de Delfos, e líder das musas. Era temido pelos outros deuses e somente seu pai e sua mãe podiam contê-lo. Era o deus da morte súbita, das pragas e doenças, mas também o deus da cura e da proteção contra as forças malignas. Além disso era o deus da Beleza, da Perfeição, da Harmonia, do Equilíbrio e da Razão, o iniciador dos jovens no mundo dos adultos, estava ligado à Natureza, às ervas e aos rebanhos, e era protetor dos pastores, marinheiros e arqueiros.  

Com tanta importância que Apolo teve, ficamos serelepes para enfrentar a subida para aceder a seu santuário. Atrás do nosso grupo de 50 e poucas pessoas, vinha um de adolescentes franceses com seus dois professores.

O sítio arqueológico está muito bem estruturado, já com várias colunas recompostas e situadas em seus lugares de origem, oferecendo uma visão do conjunto do que deveria ser a visitação aqui na Grécia Antiga.

Chegamos ao teatro grego, onde se dava a parte artística dos Jogos Píticos.

O relevo acentuado traz uma graça adicional a este santuário, uma vez que as edificações vão se posicionando em patamares topográficos diferentes e vão oferecendo ao visitante (do passado e de hoje) perspectivas bonitas para olhar a paisagem, tanto a natural como a construída pelos gregos.

É muito importante que recursos públicos e privados sejam continuamente destinados às pesquisas arqueológicas e reconstituições de sítios, edificações e obras de arte, porque se trata de um trabalho muito minucioso e que demanda tempo e técnica. Vejam a recomposição destas colunas e seu frontal superior. Pode-se ver, pelas cores das rochas, os fragmentos do passado (mais escurecidos pelo tempo) e a composição em cópia dos novos (mais claros), de modo a poder reerguer parte da edificação e nos remeter ao passado.

Delfos era tão importante para os gregos, que, quando um escravo obtinha sua liberdade, pagando a seu dono por isso, o registro de sua liberdade era inscrito nas rochas deste santuário. Assim, à medida em que caminhávamos, víamos que a base das grandes construções e de estátuas que estiveram espaço estão todas gravadas com esses registros.

Fiquei me perguntando sobre as diferenças essenciais entre os peregrinos de então e nós, turistas, que, de algum modo, somos peregrinos modernos em busca de viver experiências. Rapidamente me lembrei que chegamos de ônibus, com ar-condicionado e estávamos com tênis confortáveis nos pés. Não precisei ir muito longe para imaginar homens e mulheres deslocando-se a pé ou em lombo de animais, por dias e dias, para adorar Apolo e concluir que diferenças há, embora sejamos todos peregrinadores, como minha amiga e eu, ou como ela e seu marido.

Carminha Beltrão

Junho de 2024

Grécia 4 – Olímpia e, depois, uma ponte

Fonte: https://sportsjob.com.br/olimpiadas-2021-falta-menos-de-1-mes/

1: Propileo noreste

2: Pritaneo

3: Filipeo

4: Hereo

5: Pelopio

6: Ninfeo de Herodes Ático

7: Metroo

8: Zanes

9: Cripta (sendero con arcos, hacia el estadio).

10: Estadio

11: Pórtico del Eco

12: Edificio de Ptolomeo II y Arsinoe

13: Estoa de Hestia

14: Edificio helenístico

15: Templo de Zeus

16: Altar de Zeus

17: Exvoto de los aqueos

18: Exvoto de Micito

19: Niké de Peonio

20: Gimnasio

21: Palestra

22: Teecoleón

23: Heroon

24: Taller de Fidias (descubierto en excavaciones arqueológicas) y basílica paleocristiana

25: Baños del Cládeo

26: Baños griegos

27: Hostal

28: Hostal

29: Leonideo

30: Baños del sur

31: Buleuterio

32: Estoa Sur

33: Villa de Nerón

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Est%C3%A1tua_de_Zeus_em_Ol%C3%ADmpia

Fonte: https://es.wikipedia.org/wiki/Olimpia

Fonte: https://pt.linkedin.com/pulse/ponte-rion-antirion-grega-feita-para-resistir-westphal-junior

Grécia 3 – Corinto, Epidauro e Micenas

Fonte: http://desenho-classico.blogspot.com/2016/02/teatro-grego.html

Não há opção sem perda. Decidimos conhecer a Grécia por meio de uma agência de viagem – a Terramundi – que organizou o roteiro de acordo com algumas escolhas que fizemos. Queríamos que houvesse uma parte da viagem pelo continente, de modo a conhecer o período clássico ou antigo da civilização grega, além de Atenas que já é ponto que não pode faltar em qualquer roteiro. Desejávamos, também, conhecer algumas ilhas para satisfazer nosso imaginário, sempre estimulado pelas inúmeras fotos que já vimos na vida, retratando as lindas paisagens insulares do Egeu e do Mediterrâneo.

As vantagens de se optar pelos pacotes organizados por agências são muitas: há sempre alguém nos atendendo para fazer os traslados, facilitar a entrada nos museus e sítios arqueológicos, escolher e reservar os hotéis e decidir onde parar para um café.

Por outro lado, tem as desvantagens: os horários rígidos; as paradas com filas para ir ao banheiro; a necessidade de esperar pelo grupo e obedecer, atentamente, às orientações dos guias; a impossibilidade de se sentar num café e olhar a vida, sem ter horário para cumprir etc.

No dia 19 de junho de 2024, deixamos Atenas em direção a Olímpia. Talvez eu volte a escrever sobre Atenas porque, no capítulo anterior deste diário, registrei apenas a experiência da visita à Acrópole.

Perto da praça Sintagma (Plateia Syntagmatos), a mais importante da cidade, reuniram-se turistas vindo de diversos hotéis para tomar o ônibus, com o qual faríamos o percurso continental do nosso roteiro. Ele é confortável, mas 54 pessoas é gente demais para compartilhar espaços, tempos e satisfazer vontades. Vamos lá, com paciência, mas um carro alugado, para se parar e fazer fotos das lindas paisagens onde bem quiséssemos teria sido muito bom e, com certeza, uma experiência diferente…

Neste dia, o trajeto compreendia o trecho entre Atenas e Olímpia. Deem uma olhada no mapa. Demoramos bem mais do que as 3h51 previstas pelo Google Maps, porque fomos fazendo paradas para começar a conhecer o país.

Saímos da região Ática (em roxo no mapa), onde está a capital, para entrar no Peloponeso (em verde quase azul). Como podem observar, o Peloponeso está numa enorme península, que estava ligada por um istmo ao continente, até ser aberto o Canal de Corinto.

Fonte: https://portaltriptips.com.br/grecia/

Segundo o que li em mais de um site, o nome desta região peninsular deriva de Pelopos Nisos, que significa Ilha de Pélope, em homenagem ao herói lendário que era assim chamado. Na obra de Homero esse território é referenciado como Argos, que hoje corresponde a uma cidade. Nele, teve origem e se desenvolveu, durante o II milênio a.C., a civilização micênica, anterior à grega e constitutiva dela.

O trajeto foi muito bonito, pois, desde que saíamos de Atenas, já víamos elevações no relevo e as planuras e início das encostas estavam, sempre, cobertas de oliveiras.

Para atravessarmos o Peloponeso de leste a oeste, passamos pelas elevações que dominam a parte central desta península e, pela foto e pela imagem de satélite, pode-se ver que as paisagens são semiáridas. Aliás, pelo relatado, não é fácil a obtenção de água, tanto nesta região como em Ática.

Depois de hora e pouco, chegamos ao Canal de Corinto, que é incrivelmente profundo, porque o relevo está elevado neste ponto. Parece ser estreito, mas pela segunda foto pode-se ver melhor que a embarcação não é tão pequena como parece na primeira.

Este canal de 6,3 km liga o Golfo de Corinto ao Mar Egeu. Com sua abertura, a península de Peloponeso pode ser considerada uma ilha.

Segundo a Wikipédia (sempre ela), a primeira iniciativa de “…construir um canal na região aconteceu no ano de 67, em uma tentativa realizada pelo imperador romano Nero, que ordenou a seis mil escravos escavarem a região usando pás. No ano seguinte, Nero morreu e seu sucessor, Galba, abandonou o projeto, por ser caro demais.”

O projeto foi retomado e o canal construído entre 1881 e 1893, evitando que as grandes embarcações do século XIX e grande parte do século XX tivessem que dar a volta de cerca de 700 km pelo sul da península.

Hoje é um canal estreito para os grandes cargueiros internacionais, mas segue sendo usado por navios e barcos turísticos. Pelo que li, 11 mil embarcações atravessam este canal a cada ano. Olha eu aí, fazendo uma selfie.

Mais algumas dezenas de quilômetros e chegamos a Epidauro (em grego Ἐπίδαυρος, em latim Epidauros), que foi uma cidade importante na Grécia Antiga, por ter um santuário dedicado a Esculápio, deus da Medicina, razão pela qual atraía doentes de todo o mundo.

O que escrevo aqui em algumas poucas linhas, nossa guia explicava detalhadamente em 15 a 30 minutos de preleção, a cada parada, no seu castelhano muito bom porque não sentíamos sotaque forte. Ficamos sempre nos perguntando se ela imaginava que iríamos guardar tantos detalhes de sua explicação. Deduzimos que ela apenas estava comprometida em “hablar de mi país”, como sempre frisava.

A cidade, fundada pelos jônicos e depois dominada pelos dóricos, foi sempre uma aliada de Esparta que fica a uns 150 km a sudoeste. Perdeu importância com o domínio romano.

O que conhecemos em Epidauro foi o seu maravilhoso teatro o qual, segundo a guia, é o mais bem conservado da Grécia Antiga. Adorei este teatro grego, construído cerca de 400 anos antes de Cristo. Já havia visitado outro, também erguido pelos gregos, na Ilha da Sicília, mas este realmente estava completo.

A acústica dele é perfeita e, segundo o que li, isso se deve em grande parte à distância em que se encontra da cidade, o que foi proposital, para nenhum ruído atrapalhar a perfeita escuta de todos os expectadores, desde que haja silêncio na plateia.

Sob a civilização grega, ele era destinado a apresentações artísticas musicais ou de encenação, tanto dramáticas como cômicas. Segundo a guia, havia uma primeira fileira onde se sentavam os políticos, que eram sempre objeto de piadas e de ironias, ou seja, a democracia era exercida pelo direito de criticá-los, mas nem tanto, razão pela qual os artistas estavam sempre com máscaras.

Depois, com os romanos, este teatro também foi utilizado para “luchas sangrentas” como ela destacou, de modo irônico, demonstrando claramente que a subjugação dos gregos pelos romanos na Antiguidade não foi engolida até hoje.

Não consegui fazer uma foto tão boa do teatro, por isso reproduzo aqui uma vista aérea disponível na WEB e, na sequência, os registros fotográficos feitos pelo nosso grupinho – dois casais.

Fonte: https://br.pinterest.com/pin/17803361019888237/

Subimos até o último nível e, de fato, era possível ouvir quem falava no centro do teatro. Ele é todo construído em mármore e o encaixe dos blocos de rocha é bem feito porque a construção está quase perfeita.

Dali fomos a Micenas (mais 45 km), uma cidadela construída pelos gregos que foi uma potência militar tão importante, que o interregno de 1600 a 1100 a.C. é nomeado como Período Micênico, dada a liderança desta cidade na civilização grega.

Como tudo aqui na Grécia, sempre há alguma referência na mitologia:

Micenas teria sido fundada por Perseu, neto do rei Acrísio de Argos, pela sua filha, Dânae. Tendo matado acidentalmente o seu avô, Perseu não herdou o trono de Argos. Em contrapartida, procedeu à troca de domínios com o seu primo, Megapentes, que ficou com Argos enquanto que Perseu passou a reinar em Tirinte, tendo, posteriormente, procedido à fortificação de Micenas.

Perseu, casado com Andrómeda, depois de ter tido dela vários filhos, entrou em guerra com Argos, onde foi morto por Megapentes.[5] O seu filho, Electrião, viu a sucessão disputada pelos Táfios, filhos de Ptérelas. Estes reclamavam para si o trono por pertencerem à linhagem dos Perseidas através do seu bisavô Mestor, irmão de Eléctrion. Como este último não abdicou aos interesses dos Táfios, estes vingaram-se procedendo ao roubo de grande parte dos rebanhos reais, que levou os filhos de Eléctrion a entrar num combate que resultou na morte de todos os contendores. Eléctrion decidiu, então, seguir para a guerra, confiando a sua filha Alcmena ao seu sobrinho Anfitrião, que lhe havia resgatado as cabeças de gado. Anfitrião, contudo, mata acidentalmente o seu tio e é obrigado a purificar-se do seu acto, seguindo para o exílio. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Micenas)

Vocês pensam que a história acaba aqui? Nada disso, seguem-se várias gerações e mortes, com as quais não vou cansar vocês, mas se alguém que lê este blog deseja conhecer mais, há uma imensa literatura disponível neste mesmo link.

O sítio arqueológico de Micenas é extenso, mas pouco há das edificações antigas.

A grande exceção é a tumba do Rei Agamenão, também conhecida como Tesouro de Atreu, porque as pesquisas indicam que havia inúmeros objetos de ouro e prata, os quais foram objeto de saque pelos romanos, quando estes dominaram os gregos. Vemos a entrada da tumba e seu interior das duas próximas fotos.

Vale demais a visita ao seu Museu Arqueológico que está situado ao lado do sítio histórico. Reparem que as cerâmicas têm semelhança com as de nações indígenas da América do Sul, tanto nas formas (ânforas para água, urnas para os mortos, imagens masculinas e femininas), como nas pinturas que as adornam.

Imaginam o que está na próxima foto? Uma pinça. Não sabemos se as mulheres de Micenas faziam as sobrancelhas, mas já conheciam a importância de um bom equipamento para retirar pelos indesejáveis.

A paisagem da região? Também dominada pelas oliveiras.

Carminha Beltrão

Junho de 2024





Grécia 2 – Parthenon, o máximo!

Uma das características que a Modernidade nos trouxe foi a tendência a comparar, hierarquizar, classificar, enfim, ver cada coisa, em cotejo com as outras, mesmo que se trate de histórias e culturas muito diferentes entre si.

Na Antiguidade, cada cultura era uma, porque as civilizações eram desenvolvidas sem grande influência umas sobre as outras, até chegarem os romanos e, por domínios, amarrarem num império tantas culturas e civilizações.

Com o Mercantilismo e a constituição das condições para o capitalismo, passamos a viver num sistema-mundo, em que tudo é visto em relação a um grande conjunto, cujas gêneses são muito diversas.

Assim, como modernos, somos levados a pensar o mundo como uma unidade e nele enquadrar o que não seria provavelmente enquadrável, a equiparar o que não deseja ser equiparado e nem pode sê-lo.

Com os monumentos históricos é isso aí todo o tempo. As viagens internacionais têm servido para comprovar esse ponto de vista. Em cada lugar que visitamos, há sempre alguém pronto a nos mostrar que ali é o mais em alguma coisa, ali tem um edifício, um bairro, uma experiência que é a melhor de todas.

O guia que nos levou a conhecer a Acrópole de Atenas logo informou que sua edificação principal – o Parthenon – era o mais importante entre todos os bens catalogados, como patrimônios da humanidade, pela Unesco. Fiquei desconfiada e fui buscar, na memória, outros que considero que poderiam se equiparar a este, ou seja, lá fui fazer a minha classificação. Logo vieram à mente vários que poderiam ser citados, mas decidi não morder o anzol, afinal estou defendendo a tese de que cada patrimônio tem seu valor intrínseco e não precisaria ser comparado aos demais.

Neste meio tempo, enquanto funcionava meu sistema de busca (e meu winchester anda lento), o guia veio com a informação taxativa: “Esta edificação é tão importante que é tomada como referência no logotipo da Unesco”. Bem, aí, parti do princípio que foram historiadores, arqueólogos e outros experts que decidiram por isso e fiquei um pouco mais convencida de que não era um trololó de guia grego defendendo as cores do seu país e o dim dim que ele ganha fazendo este trabalho duro de acompanhar mais de 50 pessoas para visitar este espaço tão magnânimo – a Acrópole – e seu edifício mais majestoso – o Parthenon. Ele é mesmo o máximo (o edifício e não o guia, é claro, embora este também tenha o seu valor)!

Enquanto subia a ladeira, sob o sol escaldante, voltei à ideia de História como um conjunto de narrativas que se elaboram sobre o passado e, mais uma vez, confirmou-se a constatação de que ela vai sendo contada, repetida, reproduzida e alterada aqui e ali. À medida que ele nos explicava a importância daquele espaço que estávamos pisando, não era possível deixar de considerar os séculos que nos antecediam, a grandeza dos que se dedicaram a erguer a acrópole, a destreza de seus arquitetos e artistas, mais se reforçava a importância das narrativas, mesmo que seja necessário escutá-las com respeito e relativizar, aqui ou ali, qualquer exagero que possa haver.

A Grécia e os gregos de hoje não são bem a Grécia e os gregos que ergueram esta cidade no alto do Monte Pentélico. Aqueles foram grandes, colonizaram o Mediterrâneo, fundaram cidades-estado, difundiram uma civilização, como já registrei no primeiro capítulo deste diário de viagem, mas tem um depois: foram minados pelos romanos e escravizados por eles; passaram por várias invasões quando o poder estava em Constantinopla; perderam território e, com isso, perderam parte das identidades que construíram na Antiguidade; miscigenaram-se fazendo com que o grego de hoje nem sempre lembre o perfil majestoso das esculturas que vimos nos museus; devem ter sofrido ou nem se deram conta quando parte da Filosofia e da Ciência que produziram perdeu-se em incêndios ou foi obliterada pelo Igreja Católica durante o período medieval; viram sua cultura estropiada pela ingleses, franceses e alemães, que ficaram com grande parte das esculturas e outras obras de arte, atualmente expostas em museus de outros países da Europa alimentando o turismo de lá; lutaram para ficar na União Europeia, como os primos pobres é claro, e para ter o euro como moeda; passaram por uma baita crise, em grande parte decorrente dos ajustes impostos por essa mesma União Europeia.

Bem, agora, com todo direito, estão aqui na condição de nos vender a sua história, ou o modo como convém elaborar narrativas para os turistas. É claro que têm correspondência com o que ocorreu, mas sempre com direito à interpretação. E as interpretações são muitas. Até eu tenho a minha.

Em grego, a Acrópole de Atenas, chama -se Ακρόπολη Αθηνών. Ela é tão importante que, mundo afora, é chamada apenas de “A Acrópole” embora haja outras na Grécia e em diversas partes do mundo, afinal situar cidades em elevações (do grego ἄκρος akros (‘extremo, cima’) y πόλις polis (‘cidade’), era muito importante na Antiguidade, na Idade Média e até na Moderna, quando a defesa dependia fortemente do sítio ocupado pelas cidades, afinal não havia nem aviação, nem Google Maps, nem GPS, ou seja, era preciso olhar de cima para poder se defender.

A escolha desta colina, para a construção da Acrópole, deveu-se menos à sua altura – 165 metros – e muito mais às suas escarpas rochosas, que possibilitam o acesso apenas por um dos lados, o que aumentava a proteção do assentamento.

Por este lado, subimos sob o sol estonteante. Havia já vários ônibus de turistas, quando o nosso estacionou, o que já dava para imaginar o que seria a visita.

Descemos em grupo, andando rápido, subindo a ladeira de acesso ao patamar elevado onde está a Acrópole e, entre uma cabeça e outra, com medo de cair, por pisar em falso numa pedra ou por ser ensanduichada entre a horda que me antecedia e a que me sucedia, ia fazendo umas fotos que não ficavam nada boas. Em que pese o guia ser alto e fofucho, portanto visível de longe, buscávamos enxergar a bandeirinha dele, que sempre estava vários metros na nossa frente. Perder-se ali seria um problema. Chegamos ao topo. Nesse meio tempo, alguém desmaiou e desceu carregado numa maca pela equipe de saúde que está à disposição (deve acontecer toda hora por causa do calor).

A análise de documentos indica que já havia, na Acrópole da Atenas Clássica, oliveiras que, aliás, estão pela cidade toda.

No cantinho da direita e na próxima foto está o balcão das Cariátides, com esculturas no lugar de colunas. Trata-se de réplicas porque as originais estão no Museu da Acrópole.

Os toques que o guia deu sobre vários detalhes me fizeram admirar o seu trabalho e pensar que talvez ele não ganhasse o que merecia. Não conseguia parar de olhar para o tênis dele azul turquesa com a sola amarelada, e ri baixinho imaginando que era pura estratégia para a gente ver ele de longe. Voltei a prestar atenção, mas já com vontade de me liberar daquela palestra.

Depois ele nos concedeu 30 minutos para enfrentar a fila do banheiro, comprar água e “sacar” fotos. O problema é que a mesma recomendação foi dada pelos outros guias para as dezenas e dezenas de pessoas que ali estavam.

Quando saio do banheiro, do nada, confirmo que os guias trabalham sincronizados porque consigo uma foto sem haver ninguém na frente.

O que eu achei da Acrópole e do Parthenon? Maravilhoso, sensacional, divino!, mas sinceramente não deu para curtir, porque não havia nem espaço, nem tempo, nem silêncio para tal.

A Acrópole foi construída por volta de 450 a.C. por Péricles. Foi dedicado a Athena, a deusa da cidade. Na Wikipédia há uma planta indicando seus principais vestígios arqueológicos, e nela se pode ver a posição ocupada pelo Parthenon.

  1. Partenon
  2. Antigo Templo de Atenas
  3. Erecteion
  4. Estátua de Atena Promacos
  5. Propileu
  6. Templo de Atena Nice
  7. Eleusinion
  8. Santuário de Artemisa Brauronia
  9. Calcoteca
  10. Pandrósio
  11. Arrefórion
  12. Altar de Atenas
  13. Santuário de Zeus Polieo
  14. Santuário de Pandion
  15. Odeão de Herodes Ático
  16. Stoa de Eumene
  17. Asclepeion
  18. Teatro de Dionísio
  19. Odeão de Péricles
  20. Temenos de Dionísio
  21. Aglaureion

Este edifício foi erguido entre 447 e 438 a.C., o que pode ser considerado um fenômeno, quando se observa seu tamanho e, sobretudo, começamos a imaginar como aquelas gigantescas rochas foram sobrepostas uma sobre as outras. Era rodeado por 17 colunas nas faces norte e sul e oito colunas nas faces leste e oeste. No dia seguinte, outra guia explicou que, em todas as edificações na Grécia clássica dois lados sempre têm o dobro do número de colunas dos outros dois mais uma [(8 x 2) + 1]. Neste caso, são 50 colunas no total. A largura das colunas varia um pouco, porque são calculadas para dar uma visão simétrica e não para serem simétricas, o que achei genial.

No interior do Parthenon estava a estátua da Athena, deusa da sabedoria, do artesanato e da guerra. Ela foi esculpida em madeira, coberta em ouro e marfim, por Phidias, considerado o Leonardo da Vinci da Antiguidade (foi o que foi dito e eu acreditei).

Essa escultura esteve no Partenon até o século V, quando muito do que havia ali se perdeu num incêndio. Há a hipótese de que ela foi removida para Constantinopla no século X.

Fiquei impressionada durante a visita mas, depois, aumentou minha admiração ao ler, na Wikipédia, como ocorreu a restauração deste sítio histórico e de seus monumentos, pensando tanto no passado como no futuro deste patrimônio:

O projeto de restauração da Acrópole começou em 1975 e agora está em conclusão. O objetivo da restauração era reverter a decadência de séculos de atrito, poluição, destruição decorrente do uso militar e restaurações passadas que foram feitas de maneiras equivocadas. O projeto incluiu a coleta e identificação de todos os fragmentos de pedra (até mesmo os pequenos) da Acrópole e suas encostas e a tentativa foi feita para restaurar o máximo possível usando material original reaproveitado (anastilose), com o novo mármore do Monte Pentélico usado com moderação. Toda a restauração foi feita usando pernos de titânio e foi projetada para ser completamente reversível, caso futuros especialistas decidam mudar as coisas. Foi utilizada uma combinação de tecnologia moderna de ponta e pesquisa extensiva e reinvenção de técnicas antigas.

Outras edificações compõem o conjunto majestoso da Acrópole, como pudemos ver no desenho de reconstituição da área, mas nem todas eu sei nomear. Mesmo assim vale a pena os registros fotográficos delas.

Achei por lá um moreno simpático.

Olhando, lá de cima, para a Atenas de hoje, escutamos atentamente as explicações do guia sobre a outra Atenas, a clássica. Era possível ver os contrapontos e pensar o que nós, mulheres e homens contemporâneos, queremos como cidades. A monumentalidade da antiga Atenas era estupenda diante da monotonia da arquitetura moderna da atual. A densidade comanda a forma de adensamento. Não haver hoje, nas cidades, distância suficiente para se apreciar a cidade é uma coisa que não me agrada – uma edificação ao lado da outra, porque cada m2 vale muito dinheiro. Isto vamos deixar para os turistas que nos visitarão daqui a dois ou três séculos?

Marcando o território grego atual e o direito deste povo de explorar turisticamente o seu patrimônio secular, estrategicamente fincada no território da Grécia Antiga, lá está a bonita bandeira grega. Este azul e branco tem tudo a ver com este país.

Carminha Beltrão

Junho de 2024

A Grécia não é um país

Fonte: https://pt.greecemap360.com/mapa-tur%C3%ADstico-da-gr%C3%A9cia

Não é muito adequado escrever meias verdades num blog, mas pode ficar sossegado, leitor, que não é fake news. Apenas queria, com este título, destacar que a Grécia não é apenas um país: É uma civilização!

Há muito tempo que eu queria conhecê-la, mas parece que este é parte daquele conjunto de sonhos que demoram para virar realidade, o que só aumenta a água na boca da gente. Primeiro, foi em 2003, quando imaginava que seria possível comemorar o aniversário de casamento por aqui – seria romântico não? Sim, mas a grana estava meio curta, os filhos ainda estavam cursando universidade e era preciso priorizar a educação deles. Depois foi em 2017, viagem planejada, passagens compradas e roteiros desenhados, mas apareceu um compromisso de trabalho daqueles para os quais não era possível dizer não…Novamente, desejo não satisfeito. Agora, aqui estamos meu marido, um casal de amigos e eu, e nem sei por onde começar para registrar esta experiência.

Vamos começar pelo básico: a Grécia não é um país demograficamente importante. Com pouco mais de 10 milhões de habitantes, a sua população é menor do que a do município de São Paulo. Também não é extenso. Passa um pouquinho dos 130 mil km2, o que significa que ganha de Portugal, mas perde longe da Itália. Comparar com o Brasil, nem pensar.

No entanto, a Grécia pode ser muito bem explicada pelas configuração e posição geográficas. Seu território é meio peninsular, meio insular e banhado pelos mares Egeu, Mediterrâneo e Jônico. O país não é grande, mas como o litoral é todo recortado ele mede mais de 11 mil km, o que é muita coisa, porque o brasileiro não chega aos 8 mil km. Como a Grécia tem mais de 1400 ilhas, é litoral para caramba. Muitas destas ilhas não estão habitadas – apenas umas 250 têm gente vivendo nelas – e isso faz deste país, um território cheio de reservas naturais. A vista aérea é um mosaico de áreas rochosas, áreas cobertas por vegetação e outras áreas urbanizadas, sobretudo no litoral. Esta configuração compõe um mosaico de ocre, verde e azul, entre a terra e a água que, desde a janelinha do avião, foi bonito de ver.

Do ponto de vista da posição geográfica, a Grécia se encontra na Europa, próxima da Ásia e da África. É como se estivesse no meio do mundo, afinal, fica bem ali: entre o Ocidente e o Oriente, ou melhor entre o Norte Global e o Sul Global para lembrar conceitos mais em voga para explicar as diferenças nos dias de hoje.

Eu sei muito bem que o mapa é, antes de tudo, um instrumento geopolítico e que podemos olhar para ele com outros países ocupando o centro da tela, mas quando faço isso com o Brasil, o Chile ou a Austrália, não aparece essa centralidade intercontinental que a Grécia tem.

Eu precisaria de capítulos e capítulos deste blog para sintetizar a história da Ελλάδα (ah, sim, ia esquecendo de informar que é assim que se escreve Grécia em grego). No entanto, não é este o espaço para isso, nem eu tenho competência para tal. Então, vamos ficar com um resuminho bem simples – um pouco de coisas que eu lembro de aulas que preparei no passado, e muito que li aqui e ali, nos últimos dias, na web.

O que se pode reconhecer como povo grego tem suas origens nos Minóicos (na ilha de Creta) e nos Micênicos (no continente). Este últimos venceram os primeiros, mas depois foram dominados pelos dóricos. Este período foi, mais ou menos, de 2000 a 800 a. C.

O auge desta civilização desenvolveu-se, na sequência, entre 800 e 338 a.C., quando se estruturaram cidades-estados, que foram se multiplicando pelo Mediterrâneo, difundindo a arte e a cultura gregas, seu alfabeto, a prática de esportes, a ideia de democracia e as bases da Filosofia.

Nos cem anos subsequentes, o declínio teve início, com o domínio macedônico e, por fim, a Grécia se tornou apenas um protetorado romano.

Esta civilização foi muito importante no processo de urbanização na Antiguidade, como o mapa seguinte mostra, porque sempre que uma cidade chegava a determinado tamanho demográfico, de modo a não prejudicar a democracia, pelo grande número de pessoas, parte de sua população deslocava-se para fundar uma nova cidade, daí a oposição entre Metrópolis – cidades mãe – e Neópolis – cidades novas. Desse modo, os gregos “colonizaram”, com suas cidades, o Mediterrâneo e difundiram sua civilização.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Gr%C3%A9cia_Antiga#/media/Ficheiro:Greek_Colonization_Archaic_Period-es.svg

Maria Beatriz Borba Florenzano[1] oferece pistas para se ter uma dimensão mais adequada do papel dos gregos no processo de urbanização. A autora informa que o tema das fronteiras nas cidades antigas era sempre tratado a partir da ideia de que era preciso avaliar até onde se podia ir, qual a extensão da área que uma cidade podia comandar, como medir um território sob domínio e proteção dela. Disso decorre que não havia separações rígidas entre os territórios de uma cidade-estado e outra, não se tratava de domínio como os romanos realizaram, mas de influência, sempre avaliando como difundir uma civilização, como convencer outrem sobre os princípios que defendiam.

Hoje os gregos não têm mais o mesmo papel e seu território é bem menor do que aquele da Grécia Clássica. As crises vividas por este país no século passado e começo do atual explica como houve uma diáspora grega. Embora pouco mais de 10 milhões de gregos vivam na Grécia, há 1,5 milhão nos Estados Unidos, 700 mil em Chipre, quase 400 mil na Austrália e número parecido na Alemanha… até mesmo no Brasil, havia, no começo do milênio, 50 mil gregos.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Gregos

Carminha Beltrão

Junho de 2024


[1] Florenzano, Maria Beatriz Borba. A cidade grega antiga em imagens: um glossário ilustrado. São Paulo: Laboratório de Estudos sobre a Cidade Antiga (Labeca), Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo: FAPESP, 2015.

Bolívia e Peru 28

Fonte: https://depositphotos.com/br/photos/balan%C3%A7a-justi%C3%A7a.html?qview=2344108Fonte: https://www.antiguidadesdomestre.com.br/peca.asp?ID=14989497

Chegamos há uma semana em Presidente Prudente, onde moro. Depois de ter concluído a viagem à Bolívia e ao Peru, diariamente lembranças voltam, do nada, como flashes.

Às vezes, elas ressignificam passagens que não pareceram tão interessantes, quando vividas. Em outras circunstâncias, elas ajudam a amenizar as dificuldades que apareceram e me fazem rir das situações que, na ocasião interpretei como chatas, e agora revelam-se engraçadas.

Não é sem cabimento que eu me pergunte ou você leitor pergunte a mim [mesmo que em silêncio]: Valeu a pena percorrer mais de sete mil quilômetros, quando poderia ter ido de avião, talvez até diminuindo custos? Não é cansativo demais tanto tempo longe de casa? Vale a pena conhecer a Bolívia ou o Peru se, afinal, tem outros países ou regiões mais bonitas no mundo?

Quero responder essa pergunta com a frase do líder espiritual Sri Sri Ravi Shankar: “A vida é uma combinação de destino e livre-arbítrio. A chuva é o destino, a possibilidade de se molhar ou não é escolha sua.”

Eu acrescentaria algo a ela, do tipo: cada uma de nós pode escolher que tipo de chuva vai tomar. Escolhemos nos molhar e o jeito como isso ocorreria.

Ir de avião ou de carro é diferente e, por isso, o que é vivido em decorrência dessa escolha é também diverso: nem melhor, nem pior, apenas de difícil comparação.

Esta foi a viagem que fizemos e quero registrar, neste balanço final, que adorei tê-la feito assim. Faria de novo, mesmo que suprimisse este ou aquele aspecto ou acrescentasse outros, afinal, a gente aprende com a experiência vivida.

O roteiro foi tão longo que, pelo Google Maps, não foi possível representá-lo num único mapa, porque ultrapassava os dez pontos permitidos. O ponto mais distante a que chegamos foi Cusco, no Peru. Assim, é como se o primeiro mapa representasse o percurso de ida: Presidente Prudente, Campo Grande, Corumbá, Santa Cruz de la Sierra, Cochabamba, La Paz, Copacabana, Cusco, indicando apenas as cidades onde pernoitamos.

E o segundo representa o de volta: Cusco, Puno, Oruro, Colchani – Salar de Uyuni, Potosí, Sucre, Santa Cruz de La Sierra, Corumbá, Campo Grande, Presidente Prudente.

Dois trechos de estrada foram percorridos duas vezes (na ida e na volta): – entre Puno e Cusco; – entre Santa Cruz de la Sierra, Corumbá, Campo Grande e Presidente Prudente. Queríamos evitar isso, quando elaboramos o roteiro, mas os trajetos ficariam mais longos e, em algumas situações, andaríamos 800 ou mais km sem termos uma boa cidade para pernoitar.

O que pareceu um ponto negativo, quando planejávamos a viagem, foi positivo ao realiza-la, porque em ambas as situações vimos, na volta, aspectos que não havíamos visto na ida (se, você leitor, leu o capítulo 27, sabe que a Santa Cruz de la Sierra da ida pareceu outra na volta…). 

Sem dúvida, tão bom quanto, na ida, atravessar as fronteiras para a Bolívia e o Peru, ainda mais que nas duas situações tivemos dificuldades e atrasos, como foi boa a sensação da travessia da fronteira entrando de volta no Brasil.

Quando chegamos em Presidente Prudente, no trigésimo dia de viagem, o painel do carro marcava 7.180,8 km. Uma marca e tanto!

Os pontos altos da viagem foram muitos e destaco alguns: – confrontar-se com a imponência e a diversidade dos Andes; – viver a loucura de La Paz, uma cidade nas alturas e num fosso ao mesmo tempo, com seu maravilhoso sistema de teleféricos; – rever Cusco, agora com mais calma e apreciando certos detalhes; – conhecer Potosi e seu maravilhoso espaço público; – deparar-se com o Salar de Uyuni, grandioso, magnificamente alvo e brilhante; – passar uns dias em Sucre (voltaria com certeza); – degustar a maravilhosa culinária peruana; – encontrar uma Bolívia menos pobre do que eu imaginava que ela fosse; – imaginar tudo que os incas, os quéchuas, os aymarás e outras nações indígenas viveram nessas terras e ver o que deixaram de legado para a humanidade; – constatar que a pilhagem colonial por lá foi tão severa como por aqui.

Há sempre déficits, porque de algum modo queremos realizar o desejo de conhecer tudo e viver todas as experiências, o que não é possível.

Por exemplo, fazendo uma retrospectiva, todas as cidades que conhecemos na Bolívia, exceção a Santa Cruz, compõem o bioma dos Andes. Gostaríamos de ter ido até Tarija, onde se produz o vinho de altitude, como eles aqui denominam o resultado da produção vinícola do país e conhecer, assim, o sul da Bolívia.

Teria sido maravilhoso entrar na Bolívia pela Amazônia brasileira e cruzar a floresta por aí, mas tememos que pudesse haver problemas na estrada por causa das chuvas intensas que costumam cair no verão. Durante a viagem, conhecemos um casal que entrou por lá e disse que o percurso estava maravilhoso.

Deixamos de conhecer Arequipa que era um dos objetos de desejo dessa expedição, porque entre as três tentativas seguidas de cruzar a fronteira entre a Bolívia e o Peru, somente a terceira teve sucesso, obrigando-nos a abreviar o tempo neste país.

Queria ter andando tranquilamente pelas feiras da Bolívia e não apenas ter passado por elas.

Teria sido bom encontrar restaurantes melhores em algumas cidades bolivianas, pois, ou eles são muito raros, ou não soubemos fazer a pesquisa adequada para chegar a eles, porque de fato nenhuma experiencia culinária foi marcante na Bolívia.

Deveria ter tido capacidade para, em algum ponto do percurso nos Andres, descer do carro, andar morro abaixo e molhar os pés em algum curso de água alimentado pelo degelo da cordilheira.

Gostaria de ter conversado com uma cholita e perguntado a ela como se sente com aquelas roupas ancestrais, sem parecer com isso uma intrometida (não que eu tivesse falado e parecido uma intrometida, porque nem tentei conversar).

Algumas das coisas vividas ficarão mais fortes na minha memória, se é que se eu pudesse controla-la, sem o inconsciente e o subconsciente me contrariarem.

Guardarei na memória o que pude observar do modo de vida campesino na Bolívia. Ficarei com a ideia de que este é um povo baixinho, gordinho e quentinho, porque faça sol ou faça frio estão hiper agasalhados.

Vou me lembrar que as mulheres são as que, majoritariamente, fazem os trabalhos de pastorear animais e realizar o comércio de suas produções agrícolas, tanto na Bolívia como no Peru.

Quero valorizar o esforço imenso que está sendo feito na Bolívia para valorizar a diversidade cultural e melhorar a economia.

Não quero esquecer que os peruanos estão muito avançados nos esforços arqueológicos e museológicos para manter viva a cultura pré-colombina.

Desejo que um dia, nestes dois países, haja maior cuidado com o descarte do lixo e não se veja uma garrafa pet ou um saquinho plástico nos acostamentos das rodovias ou nas calçadas das cidades.

Espero ter saúde física e mental para ainda realizar algumas outras viagens como esta.

Carminha Beltrão

Fevereiro de 2024

Bolívia e Peru 27

Tudo, na vida, depende do ponto de vista e do momento, a partir do qual observamos os lugares, os fatos e as situações.

A primeira cidade boliviana, que visitamos durante essa “expedição”, foi Santa Cruz de la Sierra, chamada por todos na Bolívia como Santa Cruz. Tínhamos tido dificuldades na fronteira o que retardou nossa chegada a ela em um dia. Mal chegamos, quisemos conhecer a praça central e gostamos muito desse espaço, pela presença de vida pública e por certa diversidade cultural, etária e socioeconômica que caracterizava o grupo de pessoas que ali estava no primeiro dia do ano de 2024 (ver https://wordpress.com/post/carminhabeltrao.com/3252).

Naquela ocasião, lembro-me bem, quantas diferenças marcantes encontrei entre aquela cidade boliviana e as brasileiras.

Normal! Por contraste, sendo a primeira a ser visitada, chamou mais atenção o que não “era espelho”, parafraseando Caetano Veloso, comparando São Paulo a outras cidades.

Agora, voltando para casa, Santa Cruz foi a última cidade boliviana, onde pernoitamos por dois dias, para conhecê-la um pouco mais, já que na ida a permanência foi muito curta. A sensação que tive é que ela não é tão diferente das brasileiras.

Para começar, vou resumir um pouco do trajeto. Para percorrer os 484 km entre Sucre e Santa Cruz levamos mais de 10 horas. Deixamos as terras altas do sistema andino e entramos na Bolívia tropical. São dois mundos diferentes, distinção que, na ida, talvez eu não tenha prestado tanta atenção.

O contraste entre o mundo cinza-ocre-marrom dos Andes e o verde-verdinho-verdíssimo da vegetação da Amazônia foi surpreendente, até porque na ida o percurso para sair da planície e chegar nos Andes foi por outra rodovia. Pareceu que, agora, esta distinção ficou mais clara.

A estrada ia contornando os obstáculos impostos pelo relevo, mas pouco a pouco as planuras iam ganhando espaço e o verde majestoso ia se impondo.

A estrada estava muito bem sinalizada e conservada, por isso a demora resulta mesmo da sinuosidade imposta pelo relevo e não de más condições rodoviárias.

Para a gente não esquecer mesmo que estávamos mudando de bioma, deixamos para trás o tempo seco, o céu ficou nublado e logo a chuva caiu.

Quando fomos nos aproximando de Santa Cruz, foram aparecendo os primeiros sinais de que ela é a “mais brasileira” das cidades bolivianas.

Se na Bolívia, de um modo geral, havia chamado atenção a importância do catolicismo, ainda que mesclado com representações e valores indígenas, estávamos a mais de 100 km de Santa Cruz e já começaram a aparecer as igrejas evangélicas. Na periferia de cada aglomerado havia uma ou duas. Na periferia de Santa Cruz, muitas. Muitos dos pequenos templos que observei pertenciam a igrejas fundadas no Brasil.

Outro ponto a ser destacado é que o trânsito em Santa Cruz está mais organizado que em La Paz para comparar duas cidades de tamanho semelhante.  O plano da cidade é mais cartesiano e não te dá a sensação de estar participando de um sistema imponderável e incontrolável, como ocorreu em La Paz. É certo que o sítio urbano contribui para isso, mas penso que há, também, um quê de cultural neste comportamento. São muitos carros grandes, SUVs e utilitários, mostrando a riqueza de Santa Cruz e seu alinhamento com uma economia mais globalizada.

As diferenças socioeconômicas pareceram mais acentuadas nesta cidade que no restante do país, porque vi gente pedindo dinheiro nos semáforos. Pode parecer contraditório, porque Santa Cruz é a cidade mais rica da Bolívia e a região que ela comanda é a que mais contribui para o PIB nacional. No entanto, também me pareceu uma cidade com custo de vida mais caro, justamente pelo crescimento econômico e oportunidades um pouco maiores de trabalho (o que nunca abrange a totalidade dos moradores). E nisso Santa Cruz também se parece com as cidades brasileiras. O Brasil ocupa a 14ª posição entre os mais desiguais do mundo e fica pior classificado neste ranking que a Bolívia (https://www.otempo.com.br/mundo/ranking-de-paises-com-maior-desigualdade-social-veja-a-posicao-do-brasil-1.3302472)

No período Evo Morales, a Bolívia era o país que mais crescia na América do Sul – https://www.bbc.com/portuguese/internacional-41753995 – mas isso não significa que a riqueza estivesse sendo distribuída (não achei muita informação sobre isso). Aliás, a desigualdade é a marca da América do Sul, onde, em 2020, os 10% mais ricos concentravam uma parcela maior da renda (37%) do que qualquer outro subcontinentee os 40% mais pobres recebiam a menor fatia (13%) (https://www.bbc.com/portuguese/brasil-51406474).

Outra semelhança? O número de motos. Ao contrário de outras cidades, onde predominam marcantemente vans e, em algumas situações, tuk tuks, em Santa Cruz pareceu que há uma classe média baixa que já tem acesso ao transporte privado individual, embora se veja que, entre a área urbana e a rural há transporte de trabalhadores por caminhão, como o da direita na foto.

No entanto, ainda que sejam muitos, a periferia não é feita apenas de veículos motorizados e características que vimos em La Paz também aparecem aqui, ainda que com menos intensidade, como o comércio em barracas nas ruas, quase competindo com os veículos.

A cidade vem crescendo muito e está organizada segundo cinco anéis (anillos), que são compostos por vias que estruturam o espaço urbano e o delimita por setores. Nos endereços é comum vir a referência a eles (depois do terceiro anel, antes do segundo anel etc.). No mapa estão bem delimitados em cinza o primeiro anel e o último, mas é possível ver os dois intermediários.

O que mais impressionou em Santa Cruz foi conhecer seu setor oeste, denominado Colinas de Urubó. Fomos até lá por indicação do maître do restaurante Fogo de Chão, um gaúcho de Viamão que foi para Santa Cruz a convite do franqueado que estava montando uma unidade da rede brasileira de churrascarias naquela cidade (outra semelhança – há muitas churrascarias em Santa Cruz).

Nós, que nunca tínhamos ido a uma unidade dessa rede no Brasil, lá estivemos em Santa Cruz (recomendo porque a carne estava maravilhosa). Conversando com ele e explicando que queríamos ver onde moravam os ricos da cidade ele nos indicou esse setor.

Um pouco antes depois de atravessamos a ponte que liga o quarto anel às “Colinas”, observamos o embrião de uma verticalização moderna, em concreto, vidro e com jardins verticais nas fachadas. Não se parece com a paisagem de muitas entre as cidades brasileiras?

No entanto, o que mais impressionou neste setor foi a sequência de espaços residenciais fechados. Tomamos a estradinha chamada Camiños de Urubó e fomos até o fim, observando um “condomínio” atrás do outro, de ambos os lados. Na volta, tivemos a paciência de contabilizar e o trajeto passa de 3 km – muros, concertinas e portarias de acesso aos residenciais.

Vejam nas fotos que os muros, as concertinas e as portarias predominam na paisagem urbana deste setor.

E aí, parece ou não com alguma coisa que vemos todo o tempo no Brasil?

Por último, é interessante destacar que Santa Cruz é conhecida, na Bolívia, como a cidade dos shopping centers. E lá fomos nós conhecer o Centro Comercial Ventura Mall, o mais badalado da cidade, pelas informações obtidas e até indicado entre as atrações turísticas da cidade. Tem três pavimentos, um supermercado grande e um boulevard anexo externo cheio de restaurantes (é lá que está a churrascaria Fogo de Chão). Tenho dificuldade de comparar ao tamanho dos brasileiros, mas para o porte da cidade, ele é muito grande.

O número de lojas brasileiras impressionou. Só no ramo de calçados estão, uma pertinho da outra: Arezzo, Schutz, Carmen Steffens, CS Club Kids.

Fonte: https://www.queroviajarmais.com/pontos-turisticos-santa-cruz-de-la-sierra/

Vendo Santa Cruz, pela segunda vez vejo que a influência brasileira vai muito além da expansão do agronegócio, tão significativa na Bolívia como no Paraguai.

Então, se você leitor quer conhecer cidades muito bolivianas terá que subir os Andes e alcançar seus altiplanos. Do contrário, Santa Cruz também tem seus encantos e é uma boa pedida, mas é menos surpreendente do que eu, pelo menos, desejo numa viagem.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 26

Um hotel muito especial em Sucre

Fonte: https://www.turbosquid.com/pt_br/3d-models/3d-cartoon-building-hotel-1550013

Alguém já escreveu que uma viagem é feita de circunstâncias. Algo como uma travessia antes e durante a qual, do mesmo modo que na vida, nunca somos capazes de prever todas as situações e controlar todas as variáveis.

As surpresas fazem as diferenças, tanto para o mal, como as dificuldades que tivemos nas fronteiras, já relatadas em outros capítulos deste diário, as quais acabamos absorvendo como aprendizados; como para o bem, a exemplo das maravilhosas paisagens andinas, alguns hotéis em que nos hospedamos e restaurantes onde comemos no decorrer desta “expedição”.

Tínhamos decidido que buscaríamos nos hospedar em bons hotéis ou alojamentos oferecidos pelo AirBnB para compensar dificuldades que poderíamos enfrentar, em decorrência do longo percurso de mais 7 mil km ou da ausência de boas paradas para alimentação durante os trajetos rodoviários,

Assim, foi agradavelmente surpreendente o apartamento reservado em Cochabamba, numa área residencial e de restaurantes aprazível; o segundo hotel em que estivemos em Cusco, o Hotel Boutique Tambo del Arriero; o retorno ao antigo Hotel Libertador, hoje GHL Hotel Lago Titicaca em Puno; o Cosmopolitano Boutique Hotel em Santa Cruz de la Sierra onde dormimos na ida e na volta; o Hostal Colonial Potosí, nesta cidade; o Palácio de Sal nos limites do Salar de Uyuni…

No entanto, nada se equiparou ao Parador Santa Maria La Real, em Sucre. Ele não foi o mais caro, nem tampouco o mais equipado em termos de infraestrutura e serviços oferecidos, mas o mais especial.

Desde a chegada, ele me agradou muito, porque gosto das iniciativas que valorizam o histórico e o cultural de uma região, lugar ou edificação, mesclando esses traços com as necessárias adaptações ao conforto que podemos ter e queremos no mundo atual.

Penso que, nesse hotel, este encontro entre passado e presente é feliz.

É bastante provável que essa sensação de bem estar tenha sido ampliada pelo fato de que, na manhã seguinte à nossa chegada, após já ter feito um passeio à Recoleta, bairro de Sucre, estava tranquilamente tomando o cafezinho das 10h30 no pátio do hotel, quando o senhor seu proprietário, Luiz Pedro Rodríguez Calvo, abordou-me, apresentando-se como um cavalheiro gentil e me perguntando se já conhecia as instalações do hotel.

Antes que eu pudesse aquiescer agradavelmente àquela visita guiada, já estava integralmente nela, à qual se juntou meu marido.

Ele andava ágil e rapidamente, de ambiente em ambiente, mostrando um detalhe aqui e outro acolá. Simultaneamente, contava a história do hotel.

Ele se origina da aquisição e integração de três imóveis residenciais que pertenceram a proprietários distintos, após a edificação ter abrigado originalmente o que se poderia chamar de poder judiciário, no período colonial.  

No próprio site do hotel há um histórico muito interessante:

La casona que alberga a El Hotel Parador Santa María La Real data de la segunda mitad del siglo XVIII y fue edificado sobre las dependencias y la huerta del palacio de la Real Audiencia de Charcas, la máxima autoridad judicial y administrativa de esta parte del imperio español en América.

La rehabilitación de la casona conservó intacta su arquitectura original preservándose todos sus detalles coloniales en una meticulosa restauración …

Fonte: https://www.parador.com.bo/historia

Os prédios adquiridos não se encontravam todos bem conservados, mas tinham um excelente potencial para a instalação de um parador confortável, bem decorado e cheio de cantinhos adoráveis, que sua esposa vislumbrava como adequado para um excelente hotel. Senhor Luís, até então, trabalhava no ramo bancário e resolveu avançar para um outro metier com essa iniciativa.

Segundo ele, depois da aquisição, foram necessários três anos de reformas, recuperando elementos originais, até porque as edificações adquiridas compõem a área central de Sucre, reconhecida como Patrimônio da Humanidade pela Unesco, o que significa que não pode haver descaracterização dos sistemas construtivos, das fachadas e de elementos outros da sua composição.

Com a junção das construções, alguns elementos, que são típicos da arquitetura colonial espanhola foram potencializados – três pátios internos, muitas varandas-corredores, maravilhosas estruturas em madeira para sustentar os telhados, escadas de pedra, vasos de barro tipo potes com plantas à sombra dos três pavimentos que o compõem etc.

Tudo isso mobiliado e decorado com peças que foram sendo adquiridas de vários modos e, se entendi bem, uma parte delas é oriunda do antiquário do Sr. Lourenço, que acabamos por visitar, na mesma tarde, por sugestão de Luís.

Se eu te convenci, por meio do capítulo 25 deste diário de viagem, que vale a pena conhecer Sucre, não perca a oportunidade de se hospedar neste parador.

Para começar a escrever mais sobre essa graça de hotel, vamos combinar, que chamar um hotel de ‘Parador”, como tem sido a tradição na língua espanhola, para hospedagens especialmente interessantes, é muito legal.

O que é um hotel, se não um lugar onde paramos para estar por uma ou algumas noites, durante um percurso? Para descansar e nos abrigar das intempéries, para termos privacidade e reparar nossas energias…

A fachada em branco com acabamentos em pedra compõe, sem muito destaque, a paisagem do centro histórico de Sucre. É capaz que você passando, a pé ou de carro, nem o notasse. Aliás, isso ocorreu conosco. Desse ponto de vista, é uma construção, embora grande, muito discreta, contribuindo para a harmonia das fachadas frontais que avançam até o limite das calçadas em toda a área central.

https://ibooked.com.br/pt/hotels/bolivia/sucre

Ao adentrar ao primeiro recinto, composto por recepção à esquerda e duas salinhas à direita, os tons ocres te abraçam, porque são quentes, e o valor histórico dos móveis e dos objetos de decoração te entretêm, de modo fácil, como um gesto de boas-vindas.

Não é uma boa ideia usar um antigo aparador de louças para fazer as vezes de balcão de recepção? Que tal a maravilhosa madona em prata que recebe os hóspedes? E o vaso de prata com flores artificiais tão bonitas que esquecemos o detalhe de serem fakes?

Na parede oposta, está o maravilhoso quadro, cuja moldura é tão trabalhada como ele. A pintura quase se amalgama com a própria parede em função de suas cores, não fosse o dourado brilhante para estabelecer a distinção.

Num cantinho ao lado, as poltronas e o móvel com bonitos entalhes, convidam à leitura de um bom livro ou jornais. Na Bolívia, chamou atenção a importância que ainda têm os impressos, quase desaparecidos do Brasil depois da difusão dos jornais digitais.

Pelo primeiro pátio, em que o azul anil reina, acede-se à sala do café da manhã que, em alguns dias da semana, faz as vezes de restaurante.

Este primeiro pátio interno é fechado com teto de vidro, uma solução adequada para manter e insolação e proteger das temperaturas mais baixas que dominam os altiplanos andinos.

Por este mesmo pátio, chegamos ao bar, no lado oposto ao restaurante, em desnível. No pequeno corredor, um móvel vitrine exibia alguns produtos à venda.

Fiquei em dúvida se o teto do bar em tijolo é o original de tão bem conservado que se encontrava. Vejam como é charmoso esse pequeno ambiente.

Fonte: https://www.booking.com/hotel/bo/parador-santa-maria-la-real.pt-br.html

Num outro cantinho, nada mais, nada menos do que um confessionário em madeira. Que pecados poderíamos confessar aos deuses num ambiente tão adorável? O da luxúria?

O ponto alto do hotel. na minha opinião, e que me teria passado despercebido não fosse a gentileza de Luís nos apresentar seu hotel, está no subsolo. Durante as reformas para recuperação das edificações descobriram que havia algo no porão. O maravilhoso corredor em pedras, onde acomodaram vitrines com lindas peças indígenas é um convite a se entrar na “cova”.

Fonte: https://www.booking.com/hotel/bo/parador-santa-maria-la-real.pt-br.html

À medida que se passa por ela, vamos conhecendo salas, recentemente decoradas que compõem, um restaurante especial, aberto apenas quintas, sextas e sábados. Perdemos, assim, a chance de comer nele, já que estivemos no hotel entre domingo e terça feira.  Tudo é caprichado nesses ambientes – as prateleiras com as taças de cristal, os objetos antigos à mostra como o garrafão verde que deve ter guardado muito vinho no passado, mesas de madeira estilo europeu com cadeiras forradas com tecidos étnicos dos indígenas da América do Sul, as salinhas ou cantinhos menores, com mesas para duas pessoas…

Gostamos demais do nosso apartamento, com duas janelas, uma das quais dando para a varanda que fica no terceiro piso. O teto também em abóbada de tijolos cortava o branco das paredes e da roupa de cama.

Além do pátio azul anil, outros dois estão na sequência, para os quais estão viradas as portas dos apartamentos. O frescor das plantas e da sombra agrada muito, porque mesmo estando nos Andes, ao meio do dia, as temperaturas se elevam um pouco e o sol é implacável.

Fonte: https://www.booking.com/hotel/bo/parador-santa-maria-la-real.pt-br.html

O hotel tem dois salões bastante grandes. Um dele estava sendo preparado para o casamento do filho mais jovem de Luís, que é o decorador do ambiente do subsolo e de outros do hotel. Um segundo salão é este das fotos, que também pode ser locado para eventos e no qual se destacam os adornos da parede, originais e oriundos da França. Vejam também na lateral o tapete gobelin francês. Na outra ponta do salão, móveis de escritório também muito bonitos (é verdade, leitor, que as fotos ficaram mal enquadradas, desculpe-me, mas Luís era rápido no tour ao hotel).

Ao final da visita, Luís nos sugeriu vivamente que, fossemos ver, naquela tarde, o pôr do sol na varanda que ficava acima do terceiro piso. Obedecemos, é claro. Chegando lá, encontramos um ambiente preparado e frequentado por jovens. Tivemos apenas dois minutos de inadaptação, porque era tudo tão agradável que sentamo-nos numa pequena mesa, tomamos um tinto e comemos uma pizza feita ali mesmo. Os garçons eram extremamente agradáveis. Discretamente fiquei observando a moçada, que, na vestimenta, é claro, não tem mais nada de cholitas.

Foi assim que vimos a noite chegar, admirando o perfil de Sucre e, especialmente, a torre de sua catedral iluminada.

O que eu quis registrar com esse capítulo de nossa “expedição” é que, na minha opinião, o que distingue um hotel não são as estrelas que ele tem, nem o preço da sua diária, mas o contexto que ele reflete, no tempo e no espaço, oferecendo ao hóspede um conjunto de circunstâncias.

Está na moda dizer que o que vale é a experiência, Aliás, você leu o texto do Ruy Castro na Folha, publicado em 27 de dezembro de 2023? Genial. O título é “Simples assim” e ele escreve um delicioso texto sobre as expressões que nos infernizaram no ano passado [https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2023/12/simples-assim.shtml].

Te tenho que cair nessa onda e afirmar que hospedar-se neste hotel foi uma ‘experiência’ muito especial. Dificilmente ela se repetirá se um dia eu puder voltar lá, mas que dá vontade de retornar, dá.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 25

O trecho entre Potosí e Sucre foi o menor que realizamos, em toda esta “expedição”. Foram apenas 155 km, mas, como pode ser visto pela previsão de tempo feita pelo Google Maps, não é um trecho fácil de ser percorrido. Saímos da cidade mais alta da Bolívia – Potosí com 4.090 m – e chegamos aos 2.790 de Sucre.

Muitas curvas, certa lentidão pela dificuldade de ultrapassar, mas muita beleza cênica para compensar.

A estrada ia serpenteando as montanhas, buscando caminho entre elas e o rio. Nós íamos curtindo aquela paisagem tão especial, sobretudo para quem mora em terras sem morros para vislumbrar.

À medida que nos afastávamos de Potosí, os cumes das montanhas eram menos pontiagudos, mas continuavam a se impor mostrando que estávamos ainda no domínio dos Andes.

A dificuldade para respirar tão sentida em La Paz, Puno, Oruro, Uyuni e Potosí ia aos poucos nos deixando e chegávamos na Capital Constitucional del Estado Plurinacional de Bolívia. É isso, a Bolívia tem uma capital administrativa e legislativa (La Paz) e outra constitucional (Sucre).

Não é o único país do mundo a ter essa situação. Seu vizinho Chile tem uma capital administrativa e judiciária (Santiago) e outra legislativa (Valparaíso). Na América Central, Honduras também tem duas capitais, mas ninguém ganha da África do Sul que tem três: Pretória (administrativa), Cidade do Cabo (legislativa) e Bloemfontein (judiciária).

Encontrei a explicação de que Sucre é capital de jure, que significa capital pela lei, pelo direito, mas La Paz é capital de facto, ou seja, é lá que se exerce o poder.

Sucre foi fundada em 1538, mas teve outros nomes antes – Charcas, La Plata, Chuquisaca. O rei espanhol Filipe II, em 1559, tornou-a a cidade de comando de um grande território que abrangia o Paraguai atual, o norte do Chile e o sudeste do Peru. Chegou a ser uma cidade importante, politicamente, mas também economicamente por causa da extração da prata de Potosí. Por isso, em 1624 foi nela fundada a Universidade São Francisco de Xavier.

Em 1825 foi declarada, em Sucre, a independência da Bolívia e, em 1839, ela se tornou capital do novo país. Se você, leitor, quiser conhecer um pouco dessa história, veja a série da Netflix denominada Bolívar, porque parte dela se passa nesta cidade e retrata esse momento.

Somente com a declínio da riqueza oriunda da prata é que a capital passou a ser administrativamente La Paz, em 1898, mas o título constitucional de capital permaneceu com Sucre.

Hoje é conhecida pelo codinome de cidade branca das Américas e merece esse apelido simpático, porque a quase totalidade das edificações de sua área central estão pintadas de branco.

Para o meu gosto, a cidade mais bonita da Bolívia, entre as que conheci, é Sucre. Foi adorável entrar nela, num domingo ensolarado, em que a praça central e todas as quadras lindeiras estavam fechadas ao trânsito de veículos para favorecer o uso do espaço público com atividades culturais.

Tivemos que dar muitas voltas para chegar ao Parador Santa Maria La Real, que é um hotel tão especial que merece um capítulo posterior.

O dia seguinte à nossa chegada, a segunda feira, 22 de janeiro, era feriado nacional – Dia do Estado Plurinacional – nomenclatura adotada com a Constituição de 2010. Um domingo e um feriado juntos favoreceram ver a cidade em festa, mas por outro lado, não conseguimos entrar em uma igreja sequer.

Na Plaza de Armas 25 de Mayo está a Catedral metropolitana de Sucre, denominada Basílica de Nuestra Señora de Guadalupe, uma edificação portentosa, pelo tamanho, mas ao mesmo tempo singela pelo predomínio do branco sobre os barrados de pedra.

Na mesma praça está a sede do governo municipal e, em outra face, o Museo del Tesoro, do qual não consegui fazer uma foto boa porque sua frente está muito arborizada, mas incluo um desenho dele.

Fonte: https://www.tripadvisor.com.br/Attraction_Review-g295432-d8447728-Reviews-Museo_del_Tesoro-Sucre

Adorei visitar este museu. São visitas orientadas de hora em hora, com poucas pessoas por vez e um guia muito bom. Ele ia de sala em sala explicando as formas de extração de metais e pedras preciosas e, na sequência, mostrando pedaços das rochas brutas e as diversas fases de refinamento subsequentes, até se chegar em pedras lapidadas ou em fios de ouro tão finos que mal eram visíveis a olho nu.

A pedra mais impressionante é a “geoda de Amatista”, pelo tamanho e pela perfeição das lanças pontiagudas internas que compõem o cristal.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Bolivianita

Outro ponto alto de Sucre, é o Parque Simon Bolívar, que deve ocupar o que corresponderia a umas três quadras completas. No caminho para ele, saindo da Plaza de Armas, já encontramos um obelisco na Plaza de la Libertad, que é engraçada porque você pode cruzá-la de carro, ladeando o portentoso mastro que ali está construído.

Nessa mesma praça, está o Teatro Gran Mariscal Sucre, que também impressionou pela beleza da fachada e a conservação do prédio.

Antes ainda de chegar ao parque (estou dando uma volta e tanto), está o edifício principal do poder judiciário e, do lado dele, de construção mais recente um outro prédio, que não tem nada a ver com o primeiro (parece a caixa forte do Tio Patinhas um pouco mais caprichada), e também abriga este poder boliviano.

A entrada do Parque é marcada por outro obelisco, um pouco menor, e dois arcos bonitos, que me lembraram os de alguns jardins de cidades francesas, mas dos quais gostei mais, por causa do branco, no lugar do granito que é o mais comum nos arcos, como nas terras francesas.

O parque estava uma verdadeira festa. Tinha gente andando de carrinho, de barco, muitos comendo e bebendo, outros correndo, e mais de um grupo dançando.

Voltando para o hotel, fomos nos deliciando com outras fachadas.

No dia seguinte, subimos algumas dezenas de degraus para chegar a um patamar mais elevado da cidade, onde está o Monastério de la Recoleta, indo atrás de visitar o Museo de Arte Indígena, que estava fechado por causa do feriado. Valeu a pena, mesmo assim, porque pudemos ter uma vista bonita da cidade, embora o tempo estivesse fechado neste dia.

Prometi, a mim mesma, não me olvidar de Sucre. É uma promessa fácil de cumprir.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 24

Potosí, gente e espaço público

Fonte: https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/o-brasil-varias-cores.htm

No ambiente universitário, no âmbito das Ciências Humanas, há um debate qualificado sobre a natureza e o sentido do espaço público no mundo contemporâneo.

Muitos procuram refletir sobre o tema, porque a relação e a distinção entre público e privado tem se alterado com o aparecimento de espaços de convívio coletivo, mas que são privados e controlados por sistemas de segurança e vigilância como os shopping centers; ou em decorrência da existência desses sistemas em praças e ruas, onde deveria prevalecer a esfera pública e o direito ao anonimato; outras vezes, tem sido objeto de atenção o muramento de áreas residenciais que reservam ruas, calçadas e praças que são juridicamente públicas, para uso de seus moradores ou daqueles autorizados por eles…

Isso tudo entra no debate sobre o tema e gera o aparecimento de muitos novos termos, nem sempre bem ajustados às respectivas realidades, como espaços semipúblicos, espaços públicos de uso restrito etc., que revelam o interesse de interpretar as novas formas de uso dos espaços.

Logo que cheguei a Postosi, percebi que poderia deixar a bibliografia sobre o tema de lado, embora esteja envolvida com pesquisas que incluem esse debate. Por que? Porque, nesta cidade, o espaço público é vivamente utilizado e, mesmo que haja a presença dos turistas, ele é dos potesinos.

É importante que os turistas não sejam tantos, embora os houvesse como nós brasileiros. A maioria era de europeus, pelo que depreendi das conversas que ecoavam aqui e ali. Digo que é bom que não fossem muitos porque, vamos combinar: turista é um bicho espaçoso e tem dificuldade de assumir que a cidade não é dele.

Nas várias praças – umas maiores, outras menores – havia de tudo e de todos: comerciantes ambulantes, idosos, crianças, descendentes de indígenas e de europeus, gente descansando, outros buscando trabalho e festa, muita festa.

Oruro é notória por ter o melhor carnaval da Bolívia. Pelo que vimos em cartazes, na propaganda pela TV e nas vitrines das lojas – a festa carnavalesca é grande nesta cidade, embora seja diferente do que nós, brasileiros, consideramos carnaval.

Potosí também demonstrou, nos dias em que lá estivemos que se prepara para o carnaval. A cada uma ou duas horas, um grupo de 10 a 30 pessoas saía pelas ruas dos centros apresentando-se. Iam uniformizados, às vezes uma camiseta, às vezes uma jaqueta, com o símbolo e o nome do grupo. Tocavam seus instrumentos (tuba, clarinete, bumbo, repique e trompete) e dançavam.

Ao mesmo tempo que era um desfile exibido, no sentido que faziam questão que os que estavam pelas ruas os observassem, era muito recatado, principalmente no modo de dançar e de se vestir. Em relação a este ponto, é compreensível porque Potosí é, segundo a divulgação que fizer, a cidade mais elevada da Bolívia, com seus mais de 4000 metros de altitude. Não dá para sair por aí de dorso de nu ou de peitos e pernas de fora.

Havia alguns dentre estes grupos que avançavam com um ou outro figurante fantasiado que poderia ser considerado o “destaque”. Algumas crianças ou adolescentes, puxando uns carrinhos que vinham cheios de enfeites em prata, também era parte da alegoria. Fiquei imaginando que, desde os tempos áureos de extração da parta em Potosí, esses desfiles devem ter ocorrido.

Não apenas os participantes eram recatados, mas o batuque também. Mais parecia com uma fanfarra paulista do que um samba carioca ou um frevo pernambucano, mas ainda assim era uma verdadeira festa ver esses “blocos” pela cidade, fazendo o trânsito parar pacientemente, na manhã de sábado.

Outra forma de festar no espaço público foi observada no sábado à tarde com os casamentos.

Os carros enfeitados com tules e flores lembraram-me o taxi preto do meu tio-avô Fernando. Quando eu era pequena, na cidade de São Paulo, nos dias de sábado, ele super lavava e lustrava seu veículo, para enfeitá-lo na sequência, atender encomendas de noivas.

São Paulo já era uma metrópole, no começo dos anos de 1960, mas havia essas práticas de carros enfeitados e arrastando latas pela cidade para, com o barulho, anunciar que passavam os noivos. Suponho que, no último rincão brasileiro, isso já tenha acabado. Que pena! Na boliviana Potosí, lá estavam os carros enfeitando o espaço público.

Alguns casamentos estavam ocorrendo na catedral basílica que tínhamos visitado com o guia Joaquín, no dia anterior, e na qual entramos agora pela porta principal, para observar um casório.

Outros devem ter ocorrido em outras igrejas. Talvez por ser um sábado de verão, antes ainda da quaresma, o número de noivas e seus familiares e convidados era grande nas duas praças principais e ruas lindeiras.

Passamos muitas vezes pelas praças principais nos dois dias que estivemos em Potosí, bem como percorremos suas ruas comerciais. Sempre havia muita gente por todo lado.

As cholitas também estavam lá, mas como falei muito delas em capítulos anteriores, não quero deixar a ideia de que todas as mulheres bolivianas usam este tipo de vestimenta, porque há as que já estão completamente americanizadas ou abrasileiradas no estilo de se vestir.

Esta moça vestida de branco é de origem indígena, mas tingiu os cabelos de loiro.

Na rua comercial de pedestres jovens perambulavam.

Dois senhores batiam o maior papo sentados no beiral da fonte.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024







Carminha
Beltrão

Janeiro
de 2024