Bolívia e Peru 23

Potosi – prata, passado e presente

A chegada a Potosi, numa sexta-feira, metade da tarde, foi marcada pelas dificuldades impostas por um plano urbano de ruas estreitas e de densidade construtiva alta: um imóvel ao lado do outro, ocupando o terreno até as calçadas estreitas. Não é para menos, porque aqui também as montanhas abraçam a cidade com tanta força que quase a “esganam”. Putz, essa metáfora não ficou nada legal – montanhas que esganam cidades – mas fica assim, porque foi a que ocorreu, deixando claro que não sou uma escritora, mas apenas uma escrevinhadora.

Ao deixarmos a estrada, começamos a descer, cruzando bairros empobrecidos, até chegar às ruelas mais antigas, aproximando-nos das construções mais bonitas que foram ocupadas pela elite no passado colonial de Potosi e, hoje, são destinadas a diversos usos institucionais, comerciais e de serviços. Também há, pelo que observei, quem ainda mora nesta área que foi a cidade do passado (vejam a representação de Potosi de 1758, que consta como uma cidade peruana) e hoje é o centro histórico da cidade do presente.

Fonte: https://www.alamy.es/imagenes/potosi-map.html?sortBy=relevant

Passamos pela porta do Hostal Colonial Potosi e, simplesmente, não pudemos parar na estreita Rua Hoyos, porque uma fila de carros, vans, minibus e motocicletas estava atrás de nós. Adiante, na Plaza 6 de Agosto, foi possível estacionar, provisoriamente, e já começarmos a nos apropriar dessa graça de cidade.

Este centro não apenas é bonito, testemunhando a riqueza que marca o passado de Potosi, como está extremamente bem cuidado. Em contraponto a uma Bolívia, onde há lixo por todo lado, esta área urbana estava agradavelmente limpa.

O contraste entre o branco e o cinza dos prédios institucionais e as fachadas revestidas de pedras das igrejas conformam um conjunto muito bem articulado, que se combina com um espaço público vivo e diverso.

Como outras cidades bolivianas, aqui o centro também se assenta numa bacia cercada por montanhas, com a diferença de que uma parte delas, em Potosi, já foi bastante desgastada pela extração da prata e do estanho, metais aos quais se vincula a história desta cidade. A elevação mais importante é o Cerro Potosi também chamado de Cerro Rico.

Em 1645, Potosi aparece numa representação holandesa como a principal fornecedora de prata do “Império Espanhol del Nuevo Mundo” e vejam o famoso cerro aí representado.

Potosi é, para o subcontinente sul-americano, muito longeva. É claro que, se comparamos com a Europa ou Ásia é uma cidade até nova, mas para nós deste continente ocidental é uma joia do ponto de vista histórico:

Foi fundada em 1546. Em 1611, já era a maior produtora de prata do mundo e tinha à volta de 150 000 habitantes. Alcançou seu apogeu durante o século XVII, tornando-se a segunda cidade mais populosa (atrás de Paris) e a mais rica do mundo, devido à exploração de prata enviada à Espanha. No entanto, em 1825, a maior parte da prata já se tinha esgotado e a sua população desceu até os 8 000 habitantes. No começo do século XX, a exploração de estanha se incrementou pela demanda mundial e, como consequência, Potosí voltou a experimentar um crescimento importante.

Após a chegada dos espanhóis à América e a dominação do povo inca, com a descoberta de Potosí e sua riqueza em prata, começou sua extração, utilizando-se, para isso, trabalho indígena, chegando cada extrator a levar 29 quilogramas de prata por dia, subindo pelas minas com este peso em uma bolsa atada ao pescoço.

Em razão das más condições de trabalho, muitos índios acabavam morrendo, por fome ou doenças, como pneumonia, acidentes, como soterramentos e quedas de grandes alturas. Frei Domingo de Santo Tomas, um padre que viveu à época, escreveu: “Não é prata o que se envia à Espanha, é o suor e sangue dos índios”.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Potos%C3%AD

Do mesmo modo que a maior parte da Bolívia atual, esta cidade pertencia até 1776 ao, então, Vice-Reinado do Peru e depois ao Vice-Reinado do Rio da Prata. Ser a segunda maior cidade do mundo no século XVII não é pouca coisa, mas ajuda a explicar o patrimônio da cidade.

A primeira visita foi à Catedral Basília Nossa Senhora de la Paz, que fica bem na lateral da Plaza 6 de Agosto, onde havíamos estacionado o carro na chegada.

Esta como tantas outras na Bolívia e na Peru (aliás, como também nas cidades coloniais brasileiras) encontrava-se com as portas fechadas. Visitar estas igrejas é, por vezes, condição de sorte, por vezes, de oportunidade: se é feriado, não está aberta à visitação; se não é, a porta está fechada porque é hora de almoço; se são 9h15 da manhã, a próxima visita guiada ocorrerá somente às 11h00; ser quer mesmo visitar, seja rápido porque logo vamos fechar…. Haja persistência.

No caso desta igreja, havia a indicação de que o acesso para visita ficava na rua lateral. Lá fomos nós, vimos uma escadaria para o subsolo com uma fila: não era ali, tratava-se apenas de acesso aos banheiros públicos.

Continuamos e chegamos à rua atrás da igreja, estreita, cuja calçada deveria ter 60 cm de largura, em alguns trechos, e lá havia a entrada para uma salinha, onde nos deparamos com um jovem que, depois, ficamos sabendo que se chamava Joaquim.

Não pareceu um nome muito boliviano (ou será que os portugueses passaram por lá) e perguntamos se ele sabia a razão dele. Disse que não e esclareceu que seu nome era composto – Joaquim Rolando. Conhecer o seu segundo nome não ajudou nada a entender a escolha e o engraçado é que nem Joaquim, nem rolando combinavam com o estilo jovem da roupa, do cabelo repicado com gel e da atitude dele, que nos vendeu os ingressos e nos guiou até a entrada para a igreja.

Saímos da salinha, descemos uns degraus até a rua, percorremos uns metros pela calçada, passamos por um portão e uma enorme porta de madeira, ambos com cadeados que pesam mais que do que o esperado. O guichê de venda de entradas ficou aberto e sem ninguém, enquanto ele nos acompanhou por meia hora.

Ufa, neste caso, tivemos sorte, porque se alguém chega antes de nós, teríamos encontrado o guichê sem ninguém e seria mais uma visita frustrada a uma igreja boliviana.

Valeu a pena. A igreja é muito linda com as paredes pintadas de branco e vários altares e colunas folheados a ouro. Na Bolívia, esse acabamento – folheado a ouro – é chamado de pan de oro. Achei engraçado e mesmo tendo perguntado depois, ao guia da Casa de la Moneda que também usou a mesma expressão, a razão de se nomenclaturar o folheado como pão, continuei sem saber o porquê.

As informações obtidas é de que boa parte das obras de arte desta igreja foram feitas por indígenas, como tantas outras do Peru de Bolívia. Vejam que na fisionomia das estátuas e pinturas, é possível observar traços das etnias autóctones. Além do mais, notem, também, que algumas estátuas tem cabelos, que são naturais e não sintéticos. São cabelos de indígenas. Nada de madonas, apóstolos ou anjinhos loiros.

Joaquim explicava pouco, mas respondia com atenção às nossas perguntas. Informou que estudou Turismo em Oruro e estava se especializando agora em pesquisa histórica.

Convidou-nos para subir ao campanário da igreja. Quando vi a altura dos degraus e ele informou que eram 90, desisti. Expliquei que ficaria ali sentadinha, esperando e apreciando a igreja.

Eliseu e ele me olharam com uma carinha de cachorro morto, deixando passar a ideia de que faziam questão que eu fosse. Vamos lá. Estávamos a mais 4 000 metros de altitude e não eram 90 degraus, mas 98 (teria sido mais honesto, ele ter arredondado para 100). Cheguei lá em cima com pouco ar e com o coração batendo mais forte, mas valeu a pena.

Primeiro, os sinos seculares eram espetacularmente grandes. Segundo Joaquim, vieram da Alemanha. Um deles pesava uma tonelada. Eram tão grandes, que não tínhamos distância suficiente, no espaço restrito do campanário, para fotografá-los, a não ser o menor dos três.

Em segundo lugar, a vista era simplesmente bárbara. Podia-se olhar para os quatro cantos da cidade. Apreciar o mar de telhadinhos e as ruas estreitas, olhar para as montanhas de outro ponto de vista, ter a visão aérea das duas praças principais e, por fim, apropriar-se de uma perspectiva de conjunto da cidade, o que foi muito bom.

Na torre lateral, vê-se o relógio (marcador dos tempos do homem moderno) e os sinos (marcadores dos tempos pré-capitalistas no mundo ocidental). Estes são os que, atualmente, continuam a badalar, mas já sincronizados a um sistema automático. Bem menores, lá estão eles para dizer que a Igreja ainda conta.

Apreciar a Plaza 6 de Agosto lá de cima, possibilitou constatar que ela é tão linda como vista de baixo, a qual curti sentadinha, no mesmo final de tarde, e diante do seu obelisco, no seguinte.

A descida do campanário foi mais fácil, leitor, mas não pense que é barbada não, porque a escada é escura, nem sempre há corrimãos e os degraus altos demais são estreitos para quem calça 37.

Logo adiante da basílica catedral, está o Colégio Nacional Pechincha (nome engraçado né?), cuja igreja lindeira está sendo reformada para se tornar um teatro público – alguma coisa como: cada um pode chegar e fazer a sua performance ou representação. Achei a ideia genial.

Potosi tem muitas outras igrejas bonitas, mas não tivemos a sorte de encontrar outras abertas. Aliás, chamou atenção que, além da denominada catedral basílica que visitamos, tem outra catedral, esta em devoção a São Francisco.

Fonte: https://es.wikipedia.org/wiki/Templo_y_exconvento_de_San_Francisco_%28San_Luis_Potos%C3%AD%29

Algumas igrejas de Potosi são singelas no tamanho, mas sempre chama atenção o maravilhoso trabalho com as pedras em altos relevos que devem ter dado muito trabalho e exigido muito tempo e vida de indígenas.

Uma visita recomendada em Potosi é a ida ao Mercado Municipal.

Sinceramente, fiquei decepcionada. Ele é grande e movimentado, isso é verdade, e já vale a pena conhecê-lo sob este ponto de vista, mas esperava boxes com venda de produtos artesanais bolivianos e, sobretudo, peças de prata, afinal estamos na capital mundial da prata. Nada disso, porque lá encontrei baldes de plástico, alimentos industrializados, capas para celular, calças jeans baratas e até camisas de futebol “verdadeiras cópias do original”.

Potosi tem tanta coisa interessante para se relatar que acabo de resolver que farei outro capítulo só para contar sobre seu espaço público.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 22

Os percursos entre o Oruro e o Salar de Uyuni (sentido norte para o sul) e, depois, entre o Salar e Potosi (sentido sul para nordeste) foram muito agradáveis nesta “expedição”. Primeiramente, cruzamos 380 km e, na segunda parte, foram mais 226 km. Mudamos pouco de altitude. Fomos de 3.735 m (Oruro) para 3600 m (Salar de Uyuni) e, depois, para 4.090 m (Potosi).

Mantivemo-nos, sempre, próximos da mesma altitude, em patamares elevados topograficamente, ainda que relativamente planos, na linha em que se assenta a rodovia.

Saímos da situação de viajar ensanduichados pelas montanhas e, agora, havia certa planura e avistávamos sempre, a 500 ou 2000 metros, os contrafortes dos Andes. A aridez da paisagem mostrava que ainda estávamos em domínios desérticos e semidesérticos.

Andamos quilômetros, sem ver uma árvore ou arbusto, no máximo, havia vegetações rasteiras que dificilmente alcançam o verde.

À medida que avançávamos pela estrada, mesmo estando sempre acima dos 3 500 metros de altitude, havia cursos d’água extensos e largos que se desenhavam no relevo, frequentemente, ladeando a rodovia. Estavam sempre secos ou com pequenos fios de água.

Fiquei me perguntando se são rios intermitentes e que, portanto, em período de chuvas, chegam a ser caudalosos ou se a ação humana e as mudanças trazidas pelo El Niño e La Niña ajudariam a explicar a secura recente destes cursos e ela é praticamente definitiva (até segundo aviso pelo menos).

Como em todos os países, sejam grandes ou pequenos, no transcorrer de algumas dezenas de quilômetros, observamos mudanças significativas, seja na paisagem natural, seja naquela que resulta da ação humana.

Nos dois trechos relativos a esse capítulo, a primeira surpresa decorreu da presença grande de lhamas ou seus congêneres: alpacas, guanacos e vicunhas. Eu me esforcei para fazer a distinção, mas nas estradas, elas nunca se parecem com as fotos que encontramos na web. Se quiser tentar, veja o site – https://www.peritoanimal.com.br/diferencas-entre-alpaca-e-lhama-23183.html.

Elas pastoreavam tanto nas áreas planas de deposição, perto do sopé das elevações dos Andes, como vinham até as margens da rodovia e nela entravam.

Além da lã que propiciam, do apelo turístico que representam, elas são criadas também por causa do valor da carne, parte da cultura andina e, aliás, provei tanto a carne de alpaca como de lhama e são muito saborosas.

Os pequenos rebanhos estavam sempre acompanhados de pastores. As mulheres são as mais presentes neste trabalho e, muitas vezes, estão acompanhadas pelos filhos.

Chama atenção que há as de pelo totalmente branco (com a poeira da secura dos Andes ficam bege), as de lã marrom e as que são preta e branco ou marrom e branco.

Durante todo o tempo da viagem, havia placas rodoviárias indicando para tomarmos cuidado e era mesmo necessário.

Logo depois de passar por essa madame da foto aí de cima, tivemos que brecar bruscamente para não atropelar outra, a marrom. Do nada, atravessou a rodovia.

A segunda surpresa foram as formas do relevo tão peculiares que encontramos e convidaram aos registros fotográficos, que nem sempre são fáceis de fazer, porque não é com frequência que a estrada tem acostamentos. 

Os dobramentos continuaram a aparecer deixando desenhos magníficos nas elevações. São tão impressionantes que parecem que foram feitos por computadores.

Quem foi o engenheiro que desenhou a linha de torres de energia elétrica bem aí para macular essa paisagem?

A terceira surpresa foram os cactos, que são a vegetação dominante, sobretudo entre Uyuni e Potosi (aparecem em outros trechos também). Eles são de alturas impressionantes e a camada de espinhos dá a ilusão, à distância, de um verde acinzentado, muito bonito.

Fonte: https://rove.me/pt/to/bolivia/blooming-cacti?gallery

Chegando a Potosi, cansados, o que encontramos? O hotel Colonial Potosi todo adornado com cactos. Um muito lindo estava na porta do nosso apartamento. Um muito lindo estava na porta do nosso apartamento. Dá para ver ele atrás da cadeira de ferro da esquerda?

Fonte: https://www.hostalcolonialpotosi.com.bo/el-hostal/

No próximo capítulo, a atenção será para Potosi.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 21

Ainda o maravilhoso Salar de Uyuni

Volto a relatar a experiência de conhecer o Salar de Uyuni. No capítulo anterior deste diário da “expedição” à Bolívia e Peru, talvez eu não tenha ajudado você, leitor, a imaginar a imensidão deste ambiente. Veja o tamanho que tem o salar, na imagem de satélite em que se representa o território boliviano, que não é pequeno, pois se trata do 5º maior país da América do Sul. Além do mais, o ambiente ocupado por ele está inserido na imensa área desértica que se situa nesta porção dos Andes.

Não apenas é o maior salar do mundo, como fica muito acima dos subsequentes neste ranking: 1º. Salar de Uyuni na Bolívia, com 10.582 km2; 2º. Salinas Grandes, na Argentina, com 6.000 km2; Chott el Jeridd, na Tunísia, com 5.000 km2.

Para uma comparação até boba, a 10ª Região Administrativa do Estado de São Paulo, cuja capital é Presidente Prudente, onde moro, tem um pouquinho mais que 11 mil km2, ou seja, o salar equipara-se, mais ou menos, ao total de mais de 50 municípios desta região. É grande demais.

Se fosse uma paisagem feia, a extensão incomodaria, mas é absolutamente lindo este salar, por isso é maravilhoso que ele seja grande e que eu possa conhecê-lo.

Há um trecho do salar que é chamado Playa Blanca, onde há o que restou de um antigo hotel também feito em sal que teve que ser fechado, por causa de problemas sanitários que provocavam poluição no salar. Ficou sendo uma parada para descanso e ida ao banheiro. Na frente, há inúmeras bandeiras de países fincadas. Olha eu aí com a do Brasil.

Fiquei em dúvida de postar essa foto, porque hoje se associa a nossa bandeira, que é de todos os brasileiros, apenas ao grupo que é partidário do ex-presidente do Brasil, no último mandato, mas penso que temos que desconstruir essa associação.

Dá para notar pela foto que a bandeira está incompleta? Várias delas estão assim pela ação do vento que não é brincadeira no deserto.

A porção mais linda do salar é, sem dúvida, aquela em que, acima da camada de sal, está depositada uma fina lâmina de água, fazendo a vez de um espelho. As fotos falam por si.

Muitas vezes, é difícil ver onde termina o salar e começa o céu.

Nosso guia Elliot gostava de fazer fotos de “ilusão”, pois a brancura do salar favorecia e ele fazia questão de vários registros. Alias, ele e todos os guias que estavam por ali com grupos menores (um casal como era o nosso caso) ou maiores (famílias numerosas, grupos de estrangeiros sob a batuta de uma agência, jovens que viajam ao estilo mochileiros).

Ele fez muitas fotos, as mais brincalhonas foram as com o dinossauro.

Veja, a seguir, a ginástica que Elliot fazia, deitado ao chão, com um pequerrucho dinossauro de plástico, orientando a posição que devíamos ficar para obter o efeito esperado.

Da foto seguinte, eu gostei demais. Equilibrando-me na vida e na mão do meu companheiro de tantos anos.

O número de carros com turistas no salar é grande – vejam os risquinhos que correspondem a pessoas andando para lá e para cá, curtindo a beleza deste espaço, como nós estávamos.

Por meio das próximas fotos, registrei um redemoinho de vento que estava se formando nas bordas do salar. É este tipo de fenômeno que leva a poeira para cima da grande superfície branca, formando, com o passar do tempo, as listinhas que constituem os blocos de sal.

Este é o carro da Hidalgo Tours, com o qual fizemos o passeio de cinco horas e meia no salar. Era alto, confortável e cheio de adesivo filme para cortar a insolação, que é altíssima.

Começamos às 14h e terminamos 19h30, mas, por volta das 18h30, o que parecia ser um enorme temporal começou a se formar no horizonte. Caíram uns pingos de água, corremos para o carro e, em 15 minutos, tudo passou.

Elliot disse que há, também, os tours de madrugada para se verem as estrelas, mas, normalmente, eles são opção, principalmente, dos coreanos.

As temperaturas, mesmo no verão do hemisfério sul, ficam abaixo de zero pela madrugada, por isso acho que prefiro a experiência diurna mesmo.

Quando o sol começa a pensar em ir embora, os carros vão se retirando do salar, mas foi possível ainda ver um lindo arco-íris.

Antes da volta para o hotel, a agência propicia em vinho com alguns petiscos para dizer tchau ao salar. Ou seria adeus?

A essa altura, já estávamos com a calça jeans completamente respingada de sal, apesar das botas de borracha que o hotel oferece, estávamos também descabelados pelo vento, mas extasiados de “beber” tanta beleza.

A agência capricha, leva mesinha, bancos, toalha e oferece uma garrafa do tinto Campos de Solana, que os bolivianos se orgulham de ser o melhor produzido no país. É caracterizado por ser um vinho de altitude, cuja produção é da região de Tarija, ao sudeste do país. Nós gostamos. Tim Tim!

Fecho o capítulo, com a última foto que fiz, já da janela do carro, quando voltávamos para o hotel.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 20

Salar de Uyuni

Cheguei ao capítulo 20 deste diário de viagem “Expedição à Bolívia e Peru”. Resolvi procurar pelo significado deste número e encontrei o seguinte:

Na numerologia, o número 20 é considerado um número de dualidade e equilíbrio. Ele representa a cooperação, a diplomacia, a harmonia e a parceria. Também está associado à intuição e à sensibilidade.

Fonte: https://loja.ibrath.com/blogs/o-que-significa-o-numero-20/o-que-significa -o-numero-20

Não que eu seja supersticiosa, mas achei a descrição uma boa metáfora para designar o Salar de Uyuni, ponto do nosso roteiro de viagem, que mais amei até agora. É provável que, no decorrer deste capítulo (e talvez seja necessário mais um), eu não consiga demonstrar por que este maravilhoso ambiente tem as mesmas características do número 20, mas vou me esforçar.

Imagine você, que está lendo esse blog agora, que durante o processo de formação da Cordilheira dos Andes, por meio do dobramento de placas tectônicas que se encontraram, uma parte da água do Pacífico, subiu junto com as elevações que se erguiam. Inicialmente, formou-se um imenso lago, mas com temperaturas altas e pouca chuva, ele secou e deu origem a este salar.

Pelo que li na web, em mais de um site, trata-se do mais alto deserto de sal do mundo, com 10 mil e tantos quilômetros quadrados, e está a mais de 3.600 metros acima do nível do mar. O brilho que ele tem e a lisura de sua camada externa serviram de orientação para os astronautas da Apollo 11, em 1969.

Não bastasse toda essa imensidão de sal e a beleza da camada fina de água que, em parte dele se acumula, formando um verdadeiro espelho, essa área contém cerca de 60% das reservas de lítio de mundo.

Dois dias depois de estarmos lá, vejo uma reportagem na Folha de São Paulo, informando que este salar foi eleito símbolo do turismo na Bolívia. Não é para menos. Se quiser conhecer mais sobre esse encanto da natureza, veja https://www1.folha.uol.com.br/folha/turismo/noticias/ult338u4783.shtml .

Pusemos a nos perguntar, meu marido e eu, que lugares do mundo tínhamos visitado cujo impacto da natureza nos deixou de queixo caído e lembramos de alguns: Perito Moreno, na Argentina; Deserto de Atacama, no Chile; Cataratas do Iguaçu, na fronteira entre o Brasil e a Argentina; o Grande Canyon nos Estados Unidos… e agora o Salar de Uyuni na Bolívia. Lembramos, então, que todos ficam na América.

É claro que já viajamos mais por este continente que pelos outros, mas acho que mesmo descontando esse aspecto, podemos afirmar que, na Europa, encantamo-nos com as maravilhas feitas pelos homens, mas na América, a Natureza caprichou muito.

Que fique claro que eu estou puxando a sardinha para o nosso lado e que não há qualquer imparcialidade na minha opinião, mas para não parecer demais, lembro que também adorei a graciosidade da Baía de Halong no Vietnã, considero que pouca coisa se compara às pradarias cheias de animais na África do Sul ou ao maravilhoso deserto que conhecemos a leste do Marrocos, ou, ainda, aos fiordes na Noruega…. E ainda falta tanto para conhecer.

Acho que a visita ao Salar de Uyuni também impressionou, porque ali é o encontro de duas situações naturais muito peculiares – o salar e o deserto – o que podemos associar à “dualidade e equilíbrio” para fazer referência ao número 20.

O mesmo acontece com o seu vizinho, o Atacama, mas o salar chileno tem 1/3 do tamanho de Uyuni.

Quando comecei a escrever este capítulo, há alguns minutos, pensei: “Carminha, seja econômica, não escreva muito, pois as fotos do salar falam por si”, mas como sou uma escrevinhadora, já preenchi duas laudas, incomodando você leitor, ao invés de ir logo ao ponto. Vamos a ele.

Assim, que entramos de veículo 4 x 4, no salar, a homogeneidade da superfície já impressiona demais.

No entanto, aos poucos vamos vendo que, no salar, não há apenas o sal que restou da evaporação da água do Pacífico, mas também camadas de pó que o vento desértico joga sobre essa superfície. Essa sobreposição de camadas vai solidificando o material que está ali depositado e que, depois, pode ser recortado compondo verdadeiros blocos que funcionam como tijolos.

É assim, por exemplo, que foi construído o hotel Palácio do Sal, onde nos hospedamos.

E é, com este material, que os moradores do povoado Colchani (procurem no mapa anterior, à direita da área do salar), também construíram uma série de esculturas que são visitadas pelos turistas logo na entrada do salar.

Aliás, por meio delas, vê-se de modo mais claro as listinhas que correspondem à alternância entre o sal puro e o sal misturado com a poeira do deserto.

Segundo nosso guia, Elliot (não me pergunte por que um boliviano se chama Elliot, porque eu perguntei a ele, que me respondeu que não faz a menor ideia), a Coreia é um dos países, do qual vêm mais turistas para conhecer o salar. No comportamento, no que se refere a fazer registros fotográficos, eles são iguais aos vizinhos japoneses: adoram poses e se esquecem que têm outros na fila para fazer suas fotos. Eram os únicos com sombrinha e faziam muito bem porque o sol era efetivamente de deserto.

Apesar de, ao longe, oferecer uma impressão de superfície completamente lisa, o salar é composto de hexágonos de sal, como eles chamam as células que são desenhadas com sobressalências, por onde evapora a água que continua a existir sob a camada de sal, que se petrificou a ponto de suportar a circulação de, pelos menos, cinquenta veículos (se bem observei o número de veículos que levavam turistas).

O salar é tão imenso, que a cordilheira ao fundo fica pequena, quando a observamos a partir dele.

A brancura do salar também ajuda a gente a prestar mais atenção nos desenhos das nuvens, possibilitando paralelo com a cooperação e a parceria associadas ao número 20.

Apenas numa pequena área do salar, a água brota do subsolo, como se estivesse borbulhando, embora cinco cm ao lado das bordas das pequenas crateras, o piso continue firme o suficiente para suportar o peso de um adulto.

Vou voltar ao salar, no próximo capítulo deste diário, porque as fotos da parte mais bonita ainda estão por vir. Agora quero incluir, algumas imagens do hotel Palácio de Sal, porque acho que a hospedagem nele vale a pena, pelo conforto e pela peculiaridade da construção ser feita de sal.

E este é o teto do nosso apartamento. A foto foi tirada da cama.

Por meio da foto da fachada, é possível ver as abóbadas que compõem os apartamentos e que, por dentro, estão alicerçadas nos blocos de sal.

Fonte: https://www.lanacion.com.ar/revista-lugares/uyuni-como-nacio-el-primer-hotel-de-sal-del-mundo-con-5-estrellas-nid10082022/

Fonte: https://www.es.kayak.com/Uyuni-Hoteles-Hotel-Palacio-De-Sal.389256.ksp

São ou não são ambientes que estimulam nossa intuição e sensibilidade?

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 19                       

Oruro

Fonte: https://www.istockphoto.com/es/search/2/image?mediatype=illustration&phrase=oruro+bolivia

O percurso entre Puno (Peru) e Oruro (Bolívia) foi marcado por uma passagem tranquila pela fronteira, em Desaguadero, o mesmo lugar onde, uma semana antes, tivemos dificuldades de obter os documentos para a entrada do nosso carro. Sair de um país sempre é mais fácil do que entrar, eu sei, mas de todo modo, sentimos uma sensação de alívio.

Ainda no Peru, as paisagens diferiam um pouco das que tínhamos apreciado antes, porque o tipo de habitat rural era peculiar e me agradava pela existência de muros entre as propriedades feitos de pedra. De algum modo, lembrei das paisagens rurais da Inglaterra, embora a arquitetura e os materiais das pequenas casas em nada lembrassem as inglesas.

Próximo à estrada, as habitações eram bastante pobres, mas não demonstravam qualquer situação de miséria.

Durante todo o trajeto, as elevações dos Andes nos acompanhavam, menos acentuadas do que no trecho anterior, do ponto de vista da altitude, mas bastante desenhadas pelos processos geomorfológicos milenares.

Em alguns trechos, a montanha estava terraceada para o desenvolvimento da agricultura e me perguntei se esse trabalho teria sido feito pelas nações indígenas, antes mesmo da chegada dos espanhóis.

A chegada em Oruro foi tranquila. A cidade tem mais de 260 mil habitantes e, como outras na Bolívia, está ladeada por montanhas. Neste caso, a cordilheira está a oeste e uma área plana estende-se à leste. Ao sul, o Lago Uru Uru, que não pudemos ver, porque praticamente secou.

Segundo a explicação de um motorista de táxi, quando começou a cair o nível do Titicaca, optaram por fechar as comportas do rio que ligava os dois lagos e o de Oruro praticamente secou. Vejam, na foto que fizemos do alto do morro que, ao longe, se vê muito pouca água na área que ocupava o lago.

A cidade tem sua origem associada à mineração. Quando foi fundada oficialmente, em 1606, já havia 15 mil pessoas aí assentadas – espanhóis, negros e indígenas das etnias uru, quéchua e aimará.

Perto da praça central havia uma espécie de outdoor com a explicação sobre a sua origem, logo acima de uma estátua dedicada à força da mulher, que aparece um pouquinho na parte inferior da foto. Não tive presença de espírito de fotografá-la, mas registro que, lamentavelmente, a imagem é de uma mulher branca, europeia, e não das que dominam as ruas em Oruro, nitidamente quéchuas ou aimarás.

A cidade cresceu em ritmos que oscilaram conforme o preço da prata. Era chamada antes de Vila Real de São Felipe de Áustria, segundo li na Wikipédia, e se notabilizou porque, em 1781, foi nela que se deu o primeiro grito libertador da América Latina, a partir da seguinte frase:

“Amigos paisanos e companheiros: em nenhuma ocasião, poderemos dar melhores provas de nosso amor à pátria, se não nesta. Não estimemos em nada nossas vidas. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Oruro

Foi interessante ler sobre esse passado de Oruro, porque na mesma praça onde ficava o Hotel Eden By Blue Bay, onde nos hospedamos, havia uma manifestação pacífica, mas contundente, com música, altos falantes e discursos, que começou na manhã do dia 14 de janeiro, varou a noite e estava firme no dia seguinte, quando deixamos a cidade.

Acabei fazendo algum paralelo e ficando com a imagem que o povo de Oruro é lutador. O protesto agora não era contra os reis de Espanha nem visavam a independência, mas em defesa dos trabalhadores de obras e contra Paola Condori.

Tentei descobrir direitinho quem é a Paola, mas não ficou muito claro. Parece que ela é a engenheira que comanda obras no município e contra a qual os trabalhadores associados ao Sindicato Mixto lutavam. Do outro lado da rua, os policias assistiam à sombra, calmamente.

Bom, já que eu escrevi o nome do hotel que se localiza na praça central, preciso fazer dois comentários: – não vale a pena se hospedar lá quando fores a Oruro (não que haja outras opções melhores), porque o preço é alto e o serviço fraquinho; – vejam a arquitetura do prédio, para lá de pós-moderna, porque sobre a construção colonial ergue-se um prédio de vidro, com elevador panorâmico.

Já tinha visto outras combinações deste tipo – manutenção da edificação antiga, geralmente de valor histórico e construção da nova – tanto em São Paulo como em Curitiba, mas sinceramente, a solução encontrada aqui ficou para lá de esquisita. Além de tudo, internamente, o hotel não é nem colonial, nem moderno. Escadas redondas de granito misturam-se a jardineiras com flores de plástico. 

Desde que começamos essa “expedição”, Oruro é, do nosso roteiro de cidades escolhidas para visitação, a que menos gostei. Ela tem um certo ar de decadência e muito lixo por todo lado, mas como tudo na vida, ela tem seus lados positivos.

A praça central denominada 10 de Febrero é agradável. O prédio do governo departamental de Oruro localiza-se nela e é bem bonito, com suas arcadas à moda hispânica.

Numa elevação a uns 500 metros (foi duro subir até lá) está o Santuário de la Virgen de Socavon que, para mim, destacou-se pelo azul do seu teto.

Logo ao lado deste santuário estava a estação de teleférico que deveria nos levar ao alto do morro, onde no começo dos anos de 2000 foi inaugurado um monumento para a mesma virgem.

Tivemos a informação de que o moderno sistema de transporte só funcionava às quartas-feiras, aos sábados e domingos, e era uma terça-feira. Lá fomos nós de taxi, o que foi ótimo, porque o motorista respondia às nossas perguntas e acabou reforçando, com suas explicações, a primeira impressão nossa de que a cidade não vai bem. No entanto, além de rapidamente demonstrar que era bem de “direita” e pessimista, suas interpretações batiam sempre na mesma tecla: “Os políticos na Bolívia não valem nada, são todos corruptos”. Não que ele não possa ter alguma razão, mas uma explicação como esta nem sempre é suficiente.

A mulher da foto não tenho ideia de quem seja, mas como o fluxo de pessoas que cruzavam por ali era grande, o jeito foi ficar com ela na frente da virgem.

O bom de subir o morro foram as fotos da cidade que pudemos registrar.

E foram lindas vistas, com as explicações do Eliseu sobre a expansão urbana.

A altitude de Oruro – 3.735 metros – atingiu-me de cheio, pois tive grande dificuldade de caminhar, quando havia aclives ou declives, alguns dos quais com escadarias imensas, pois imediatamente meu coração disparava.  Vejam o tamanho da escadaria que dá acesso ao Farol de Concupata. Fiquei quietinha no degrau inferior, aguardando…

Eliseu aproveitou mais e, inclusive, visitou o Museu de Minería, um túnel de uma antiga mina de estanho, 30 metros abaixo da superfície, com apetrechos dos mineradores (pequenos vagões, calculadoras, teodolitos, escafandros, vestimentas de vários tipos etc) e duas estátuas do “tio de la mina”, uma espécie de protetor religioso dos trabalhadores deste metiê, que aparentava um velho, de cara escurecida pelos gases do subsolo, mas de boa índole. Lá, o guia informou que deve haver, aproximadamente, 250 km de túneis de antigas minas, que se interligam, abaixo da cidade de Oruro.

Do que eu mais gostei em Oruro? Do Typica Café. Fica numa rua comercial do centro tradicional. Está instalado numa casa com um pátio interno. A fachada não é nada chamativa, mas entramos, em busca de um cafezinho às 11h da manhã, após uma visita que não foi grande coisa no Museu Simon Patiño de Oruro. Lembram que escrevi sobre o museu da fundação que leva o seu nome em Cochabamba? Valeria a pena umas linhas sobre este senhor, mas ficará para outro capítulo, porque as histórias sobre ele estão por toda a Bolívia.

Gostamos tanto do café, com seus móveis antigos, cardápio variado e serviço atenciosa, que voltamos ao entardecer e ali ficamos por um bom tempo, eu escrevendo algum capítulo deste diário, Eliseu olhando notícias na internet…

Não é um charme este lugar? Se fores a Oruro, não deixes de passar pelo Typica Café.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 18

De Cusco fomos a Puno, a cidade mais importante às margens do Titicaca, pelo lado peruano. Foi um revival, porque já tínhamos estado nesta cidade, com um grupo de amigos, há uma década e resolvemos ficar no mesmo hotel, que continua ótimo, mas agora, adquirido por uma empresa colombiana, chama-se GHL Hotel Lago Titicaca Puno e não mais Hotel Libertador Lake Titicaca.

O trajeto feito para chegar a Puno foi agradável. A estrada não é uma Brastemp, mas está bastante boa. Além do mais as paisagens, que já descrevi no capítulo 12 deste diário de expedição, são magníficas.

Gostei de ter passado por Juliaca, uma cidade que não é turística e tem cerca de 270 mil habitantes, porque assim pude ver uma cidade “normal” do Peru que não tenha passado por todos as influências, que a análise científica chama, hoje, de ‘turistificação do espaço’.

Impressionou muito o movimento comercial da cidade. As lojas estavam abertas, mas também havia barracas nas calçadas e carrinhos que se movimentavam vendendo de tudo. Era sábado.

Impressiona muito, tanto no Peru como na Bolívia, a importância que tem o transporte por vans. Já escrevi sobre isso, no capítulo sobre La Paz e reforço aqui, descrevendo rapidamente Juliaca: a maior parte das vias está tomada por esses veículos que fazem tanto percursos urbanos, como interurbanos, visto que os agricultores que vêm vender seus produtos na cidade também utilizam esse modal, como já tínhamos observado nas rodovias onde as vans estão e param a qualquer aceno [Aproveitem para reparar, nas fotos, a confusão que é a fiação elétrica por aqui – deve ter muito gato].

Em Juliaca, também, os tuk tuks são importantes no transporte urbano, pelo que observei para as distâncias menores. Fazem filas perto das áreas comerciais, à espera dos fregueses.

Também há cholitas no Peru, mas elas são em menor número e não usam a saia com várias camadas de anáguas e enchimentos. Ademais, observando bem, parece que as peruanas são menos gorditas que as bolivianas.

Acho que é melhor voltar ao foco deste capítulo – Puno – se não fico fazendo aula de Geografia Urbana em diário de viagem e, portanto, que é de férias e não de trabalho…

A vista do Lago Titicaca que tínhamos, a partir do nosso apartamento no hotel, estava deslumbrante no final do dia 13 de janeiro de 2024, quando chegamos. O sol se pondo, a água brilhando, e os tufos de junco flutuando.

No dia seguinte, quando acordamos a paisagem iluminada pelo sol era igualmente bárbara.

Da nossa janela, também vimos guanacos (ou seriam alpacas?) pastoreando no jardim do hotel.

Observando o hotel de longe, achei que o arquiteto da edificação deve ter tido a intenção de fazê-lo parecer a um transatlântico. Essa forma possibilita que todos os apartamentos tenham vista para o lago. Da outra feita, ficamos num apartamento virado para a face da cidade. Agora estávamos observando a face que tem, ao fundo, as ocupações dos Uros, sobre as quais escrevo alguma coisa logo mais. Agora, vejam a localização do hotel numa pequena península ao norte da baía.

Por cima, até que não parece tanto um transatlântico, mas vejam pela lateral.

Gostei demais de rever o hotel. A decoração é agradável, os ambientes convidam a permanecer e, além de tudo, os objetos que adornam os espaços são muito bonitos. As fotos que se seguem estão incluídas, especialmente, para a Christina que tem memória ótima e curtiu esse hotel, na viagem anterior.

Ok, o hotel está uma delícia de bom, mas vamos ao que interessa em Puno: o passeio pelo lago. Ele é contratado já nos hotéis da cidade. Observei que, se alguém chegar, sem o intermédio de uma agência, terá alguma dificuldade de ter acesso a uma embarcação.

Os preços do passeio são altos, penso que calculam sempre em dólares ou euros, porque os principais turistas por aqui vêm do Hemisfério Norte.

Nosso guia se chamava Carlos e veio nos pegar com um táxi na porta do hotel. Em 15 minutos chegamos ao pequeno porto.

Aos poucos, conversando com ele, vimos que o passeio contratado tinha muitas variáveis intervenientes, que não são explicadas pela mocinha peruana, bem maquiada, que, numa sala bem decorada do hotel, vende o pacote para a gente.

Sim, era verdade que o passeio era privado, ou seja, iríamos só nos dois na lancha a motor, mas Carlos explicou que não podemos escolher a lancha, pois elas pertencem a uma associação da comunidade de Uros e são eles que decidem. Conversa daqui, conversa dali, e um rapaz disse que a nossa lancha era a número 8.

Elas ficam atracadas, umas ao lado das outras. Apenas duas delas estão acessíveis a partir do pequeno cais. Para chegar as demais você vai pulando de lancha em lancha. Assim, chegamos na oitava…

Não tive presença de espírito de pedir para Carlos fazer o registro fotográfico dos nossos pulos, pois sairiam flashs engraçados. Também vejo agora consultando o arquivo das fotos que não fiz uma do barco. Não valia nada a pena. Era velho, o motor rangia alto e o vidro era alto demais para quem se sentava nos bancos que estavam na parte envidraçada. Solução? Subir para a parte superior e ficar se equilibrando, conforme barcos maiores cruzavam pelo nosso e faziam verdadeiras ondas, como se estivéssemos no mar.

Os barcos navegam em raias entre as fileiras de tufos de junco. Carlos explica que por causa do El Niño, o nível do lago baixou 1,5m e isso exigem que a navegação, nesta área perto de Puno, seja feita com mais cuidado. No centro do lago, esse 1,5m a menos não faz tanta diferença, mas nas margens sim.

Aos poucos, lá estávamos nós perto das ilhas dos Uros.

Vejam o que a Wikipédia explica sobre eles:

Os Uros ou Urus (Em uru: Qhas Qut suñi) são uma etnia que habita uma vasta região entre a Bolívia e o Peru.

Na Bolívia estão hoje cerca de 2600 indígenas que se estabeleceram nas bordas de rios e lagos. Do lado peruano são cerca de 2 mil Uros, que vivem principalmente no local denominado Ilhas Flutuantes dos Uros, sobre o Lago Titicaca ou às margens dele, próximo a cidade de Puno. Em princípio, os Uros falavam seu próprio idioma, o uruquilla, mas devido a terem assimilado a cultura dos Aimarás, pelos quais foram dominados por longo período, perderam sua língua própria.

A existência dos Uros naquela região já se verifica desde a era pré-colombiana, quando desenvolveram a habilidade de habitarem sobre as ilhas flutuantes, tendo em vista maior segurança. Desde tempos remotos, os Uros sobrevivem através da pesca, da caça de aves e da coleta de ovos de aves. Ultimamente têm se aplicado ao turismo, onde apresentam seu peculiar modo de vida e seu artesanato. Indivíduos Uros, especialmente os que não atuam no turismo, têm como atividade laboral o trueque, forma de comércio informal em que comunidades tradicionais trocam mercadorias em feiras próprias para esse fim. Dessa forma, esses Uros trocam seu .

Os Uros possuem uma relação especial com o Lago Titicaca. De acordo com historiadores, para não serem escravizados, esses indígenas se embrenharam em meio a vegetação de totora no interior do Titicaca, escondendo-se em balsas. Posteriormente, tiveram a engenhosidade de construir plataformas artificiais, hoje comumente chamadas de ilhas flutuantes, com o abundante junco que predomina no lago.

Carlos informou que essa nação indígena tem, perante o governo peruano, o estatuto de independentes. Não pagam impostos, têm suas normas próprias e o direito de dar continuidade às suas práticas centenárias. Como estive há dez anos visitando essas mesmas ilhas, senti que as mudanças são muitas.

Em primeiro lugar, naquela ocasião, fiquei com a impressão que eram algumas ilhas. Hoje são 150. Como elas não são ilhas que se constituem naturalmente, porque dependem de haver o trabalho de acumular o junco em camadas pelos que as desejam ocupar, deduzi que o negócio do turismo estava sendo rentável e mais ilhas foram sendo “construídas”, formando hoje um “colar” delas.

Carlos explicou que as grandes embarcações que, ainda, continuam a ser feitas em junco, hoje são “recheadas” de garrafas pets vazias de modo a diminuir a quantidade daquela matéria prima e tornar o barco mais leve.

As lanchas com turistas não param de chegar e este volume de turismo levou, sem bem observei, a um adensamento da ocupação e várias iniciativas. Por exemplo, já há uma ilha com as implantações voltadas à comunidade, como um campo de futebol, em que os meninos se divertiam nesta manhã de domingo.

Algumas das construções sobre as ilhas, já não são feitas de junco, mas sim de madeira com telhado de zinco. O governo peruano, considerando que era importante, promoveu um programa de banheiros para as ilhas. Carlos explicou que eles usam a pequena casinha para guardar coisas e não se acostumaram a esta prática sanitária. Vejam na foto, as caixas d’água sobre as tais construções.

Segundo ele, ainda, hoje 50 das 150 ilhas são ocupadas por hotéis, que eles qualificam como lodges. Nós mesmos tínhamos reserva em um deles, mas tivemos que cancelar quando houve a mudança de cronograma face às dificuldades para passar na fronteira peruana com o carro.

Algumas ilhas são mais bonitas, olhando de longe.

No entanto, descemos naquela cuja embarcação para: a da família do condutor do barco.

Tudo muito simples. Ali moram cinco famílias. Cada uma ocupa uma “cabana” de um cômodo e uma segunda que faz as vezes de cozinha. Eu preferi não entrar na cabana, porque o degrau era alto, a porta baixa e o cheiro de umidade interno poderia me fazer marear o estômago. Todo o tempo que você está ali, tanto eles como Carlos, de modo gentil, querem te induzir a comprar artesanato, nem sempre bonito. É um pouco constrangedor porque já pagamos caro pelo passeio, eles recebem percentual da agência, é um deles que dirige o barco e, portanto, já estamos quites.

Os bordados tem seu valor, mas estavam menos bonitos do que os que estão nas fotos da internet.

Fonte: https://www.fragatasurprise.com/2010/11/ilhas-uros-peru.html

Da outra vez que fui a Uros comprei um pano preto, bordado em laranja e vermelho (parecido com este que está no colo da mulher à direita. Agora para não sermos simpáticos, ficamos um barquinho parecido com este abaixo, mas bem menos elaborado. É assim, no mundo da publicidade: as fotos e representações são mais espetaculares que a realidade.

Fonte: https://www.tripadvisor.com.br/LocationPhotoDirectLink-g298442-d318207-i113381920

Fiquei bastante decepcionada como fato de o povo Uros, embora viva com base naquilo que a Natureza oferece, do ponto de vista do seu habitat, tem também com ela uma relação bastante predatória. Havia garrafas pets boiando em torno das ilhas. Na hora em que já íamos para a nossa ‘maravilhosa’ lancha, eles nos mostraram com orgulho, o flamingo que tinham “caçado” e que mantinham em cativeiro para qualquer dia traçar e um cachorro que dormia numa sobra e que também iria virar almoço. Pensando bem, como seria diferente? Eles não são agricultores, mas pescadores e caçadores… Será que é por causa da caça deles que, diferentemente da vez anterior, não vimos flamingos no Titicaca?

Valeu a pena rever Uros? Claro que sim, pela possibilidade de comparação entre as duas experiências, pela chance de rever o Titicaca. Além disso, no final da visita, paramos numa ilha que tem o papel de sede da comunidade, para tomar um café (simplesmente horrível) e uma coca (como em todo lugar do mundo, para ver que até os Uros se globalizam e ficam sob influência das transnacionais). Encetamos, então, uma conversa com Carlos sobre a política no Peru.

Ele fez referência hiper negativa a Fujimori e sua filha que, agora, insiste em concorrer nas eleições. Elogiou, de passagem, Lula. Disse que houve uma melhoria, ainda que pequena, no que se refere a maior respeito aos povos de origem nas nações indígenas anteriores à chegada dos espanhóis. Aliás, aproveitei para fazer mentalmente comparações e buscando na memória observações feitas durante esta “expedição” e achei (só achei, precisaria de mais informações para ter uma opinião mais abalizada) que o avanço foi maior na Bolívia, onde se veem outdoors e imagens por todo lado, valorizando esses grupos, o que parece ter sido o maior feito de Evo Morales, quando foi presidente deste país.

Carlos também explicou que a decisão governamental de fechar muitas universidades privadas sem qualidade levou à diminuição do acesso ao ensino superior para os que trabalham. Em Puno, há uma instituição superior pública, com um mega estádio e ele explicou que é difícil acesso a uma vaga. Estabeleci algum paralelo com o Brasil de 15 ou 20 anos atrás, porque hoje sobram vagas nas universidades públicas brasileiras.

Ficou todo animado quando soube que somos professores universitários. Disse que estudava francês, com a expectativa de um dia ir estudar na Sorbonne. Fizemos, então, referência a termos feito pós-doutorado lá e ele ficou em êxtase. Pediu que mandássemos livros em PDF a ele e perguntou muitas coisas.

Fiquei pensando se ele com 33 anos, já com dois filhos e com um emprego de guia freelancer teria chance de ir para a França. Depois, lembrei da história de muitos de nossos alunos e na nossa própria história e conclui que, sim, se houver ensino público de qualidade, essa chance aparecerá. Olha ele aí.

Logo em seguida, Eliseu remeteu a ele PDFs de vários livros que tinha em seu computador. Até agora ele não reagiu!

Ao final do passeio, vislumbramos a cidade se estender pela montanha. Descemos no pequeno cais e Carlos e o motorista, que já era outro, deixaram-nos no centrinho de Puno, que estava animado, mas a catedral, como grande parte das igrejas que pretendemos conhecer por dentro nesta viagem, estava fechada.

Comemos por ali, passeamos no calçadão e voltamos para o hotel. Como? De Tuk Tuk porque não podíamos perder a chance de experimentar.

O banco dos passageiros era apertadinho e estava separado do motorista por uma grade que quase não me dava distância suficiente para fazer uma self.

Fomos aos trancos e barrancos, porque as rodas pequenas do veículo são super sensíveis ao asfalto todo esburacado de Puno. Chegamos rindo no hotel e, ainda, deu para fotografar o corajoso veículo.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 17

Copacabana, mas não a carioca

Tivemos a oportunidade de ladear o Lago Titicaca (Titikaka para os indígenas) por mais de um dia durante essa expedição, assim como pudemos apreciá-lo a partir de Copacabana, na Bolívia, e de Puno, no Peru.

As explicações sobre a origem e significado do nome são muitas, mas a mais aceita é de que o termo quer dizer “Pedra do Puma”, misturando palavras Quíchua e Aimará, duas nações indígenas importantes na ocupação deste território.

Nos dois países – Bolívia e Peru – há sempre falas elogiosas ao lago mais alto do mundo. Ele é bonito mesmo. Não escrevi sobre ele, nos dias em que, pela primeira vez, estava lhe vislumbrando, porque fui atrapalhada pela premência de descrever a epopeia da passagem pela aduana…

Agora já na volta de Cusco, curtindo esse lago novamente, achei que não podia deixar de fazer esse capítulo e o seguinte em homenagem a essa enorme lâmina d’água que paira sobre os Andes, solene, em contraponto a uma paisagem bastante árida, que marca esse altiplano, onde as chuvas não são abundantes.

Constitui uma área de 8.372 km2 com uma profundidade média de 107 m e é navegável. É tão extenso que tem quatro ilhas importantes dentro dele: Taquile, Sol, Luna e Suriqui. Está a 3.800 metros de altitude.

Saindo de La Paz em direção à Copacabana, a sensação de altura já nos tocava, tanto pela enorme diferença de altitude entre esta cidade (3.400m) e a que está justaposta a ela, El Alto (4.100m), como porque, ao sairmos pela autopista de oeste, que possibilita  circulação menos meândrica, do que a experimentada na chegada, vislumbramos elevações que, mesmo no verão, mantêm neve em seu cume.

Em direção a Copacabana, mal deixamos a região metropolitana, já vemos o Titicaca à nossa esquerda.

Planejando o caminho pelo Google Maps, não chegamos a perceber que havia um momento do percurso em que a rodovia se interrompe. É no Estreito de Tiquina, vejam no mapa como o lago quase chega a se dividir em dois, neste ponto.

Deparamo-nos com um sistema de balsa, tanto precário quanto eficiente. Como assim? Pois é, apesar da simplicidade da balsa que era puxada por um barco a motor, para lá de Bagdá, achei que o serviço era bom. Claro que para chegar a essa opinião, houve todo um processo de relativização da situação.

Tendo perguntado, soubemos que cada transfer custava 80 bolivianos (cerca de 55 reais). Caso não quiséssemos esperar por um segundo carro, poderíamos pagar o preço integral e atravessarmos sozinhos. Foi assim que fizemos. A rapidez e a simplicidade do sistema acabaram levando a certa agilidade que caracterizo como eficiência.

Cada balsa era composta de tábuas largas de madeira que pareciam apenas sobrepostas, sem estarem presas, à estrutura inferior a elas. A falta de uma tábua ou outra dava medo, é claro, mas lá fomos nós.

Às margens do lago, algumas mulheres lavavam roupa, tranquilamente, aparentemente sem prestar atenção nos turistas, que pareciam ser os que predominantemente atravessavam o lago.

Como o seguro morreu de velho, sugeri a Eliseu, que saíssemos logo de dentro do carro, porque se aquela balsa se partisse em dois ou virasse, iria o carro sem a gente dentro, o que poderia ser mais fácil para tentar nadar…

Lá fiquei, vivendo aquela travessia, ao mesmo tempo, perigosa, em função do meio de navegação, e agradável, pela linda cor da água e o do céu. O único banco disponível era a tampa da caixa de ferramentas, a um triz de um dos muitos orifícios no piso da embarcação.

Não é um azul demais de lindo?

Outras balsas cruzavam e me dei conta que se tivesse pipocas comigo teria tido a chance de ver as aves voarem acima da nossa. Os pássaros são como os bolivianos, adoram uma pipoca doce. Aqui elas são vendidas em qualquer lugar e são crocantes e deliciosas.

Feita a travessia, voltamos a subir e a distância que nos separava de Copacabana foi vencida por um trecho de estrada maravilhoso, sobre as montanhas. Pena que não havia qualquer chance de parar o veículo, por falta de acostamento. Teria possibilitado fotos mais bonitas.

Quem teve a ideia de plantar essa fileira de árvores no cume desta pequena serra?

Aqui e ali os carneiros pastoreavam tão espremidos entre a estrada e as montanhas ou ribanceiras, que subiam por vezes no asfalto e eu tinha a impressão que não escaparíamos de atropelar um deles.

O mapa turístico, disposto na rodovia, mostrava que havia muita coisa para ver por ali, mas seguimos em frente dispostos a chegar antes do entardecer em nosso destino.

Chegamos em tempo de nos acomodar no Hotel Rosário, situado numa leve encosta em frente ao lago e na pequena cidade.

Que tal o pôr do sol que fotografamos da varanda do nosso apartamento? A foto do começo do capítulo foi feita minutos antes.

O hotel era ótimo – agradavelmente decorado com elementos da cultura inca e bem confortável.

Copacabana vale a visita? Chega, ao menos, aos pés do charme da Copacabana carioca? É difícil incorporar duas cidades tão diferentes, mas na minha opinião, não. Trata-se de uma cidade pequena que invade o lago com dezenas de embarcações, inclusive essas que no Brasil chamamos de “banana bolt” visando a locação para turistas. A linha de barracas e o grande número de pessoas vendendo bugigangas impedem que se curta a linda paisagem lacustre.

Dali passamos a fronteira para o Peru, em Yuncuyo, o que já descrevi no capítulo 12 deste diário de expedição (https://carminhabeltrao.com/2024/01/11/bolivia-e-peru-12/) e, ainda continuamos por uns km a ladear o Titicaca.

Em alguns trechos haviam placas indicando a existência de praias. Entramos num desses atalhos, percorremos um ou dois km e nos deparamos com uma faixa larga de areia linda, mas, infelizmente, com muito lixo deixado por grupos que, suponho, frequentam aquele espaço nos finais de semana.

Vamos acabar o capítulo com uma imagem mais bonita do lago, não é mesmo?

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 16

Fonte: https://depositphotos.com/br/vectors/lugares.html

Cusco não vive só no passado, como pode parecer no último post que fiz, cheio de imagens de igrejas e museus. Há os lugares do presente, que apoiam a vida do turismo que, hoje, é a base econômica da cidade.

Entre os lugares que conhecemos aqui, também faço minha seleção, para falar da Cusco contemporânea.

Adorei o Restaurante Morena, que exigia antecedência e reservas para sentar-se em uma de suas mesas, mas valia a pena.

É o tipo de restaurante do qual gosto. Bem decorado, agradável, com boa comida, sem ser metido a besta, ou seja, sem grandes formalidades. A primeira refeição foi tão boa que voltamos no dia seguinte, sempre conseguindo sentarmo-nos à janelinha tão especial que possibilita ver o espaço público da Plaza de las Armas.

Os bancos do bar, logo na entrada, eu achei super bonitos. Vou tentar copiar com a habilidade do marceneiro Luiz Carlos de Anhumas.

Gostamos tanto que fomos duas vezes a este restaurante. Eu sempre escolho os pratos mais exóticos, como a carne de alpaca e o cuy (uma espécie de preá do altiplano andino). Eliseu gosta de reafirmar sua auto visão de ser um “homem das massas” e escolheu nhoque.

Já está com água na boca? Tem mais.

O cuy é saboroso, mas só recomendo para quem tem paciência de retirar fiapos de carne entre os ossinhos. O gosto da carne não é nem de porco, nem de galinha. Acho que ficaria mais próximo do pato. As batatinhas assadas à esquerda e o milho à direita estavam ótimos.

As flores que acompanham os pratos são comestíveis e gostosas.

A sobremesa foi tão deliciosa como linda, pois o bolo de chocolate com sorvete na casca de cacau ficou muito especial.

A limonada não poderia ser servida de modo mais charmoso que este, não é mesmo?

Outro lugar especial em Cusco foi o Hotel Boutique Tambo del Arriero.  Nas duas primeiras noites ficamos no Hotel Hacienda, que não recomendo por causa do excesso de grupos de turismo que dominam a recepção, dificultando a nosotros obtermos alguma informação ou sermos atendidos.

Como resolvemos passar mais um dia em Cusco, deixamos o Hacienda e encontramos lugar na mesma rua, no Tambo. Alojado num antigo casarão de dois pisos com dois pátios internos, compõem um ambiente extremamente agradável. Sintetiza uma boa mistura de elementos da arquitetura colonial cusquenha que tem influência hispânica, com objetos e mantas da cultura inca ou de outras nações indígenas.

Ficamos no amplo apartamento 102.

A recepção sempre com flores naturais e compondo um ambiente fresquinho era um oásis quando chegávamos da rua onde, apesar das temperaturas relativamente baixas no começo e no final do dia, quando a altitude é 3400 metros, o sol torna-se implacável.

Os pátios internos eram convidativos para a permanência e os vasos em barro, verdadeiros potes com plantas nativas compunham um conjunto muito agradável.

O café da manhã era ótimo e todos da recepção aos serviços de alimentação e limpeza eram super agradáveis.

O que um hóspede quer? Segundo um grande amigo que já se foi, ele quer carinho. Pois é, no Tambo você tem carinho.

Os lugares de compras em Cusco também são convidativos, embora seja necessário pensar duas vezes. O que é muito barato, via de regra, é já totalmente industrializado e, muitas vezes, não têm qualidade. O que tem qualidade não custa nada barato.

É grande o número de lojas de roupas de lã de alpaca pertencentes a redes que também estão em Lima e outras cidades. Adorei, na loja em que estivemos para comprar algumas peças, ver a foto das alpacas. Fiquei com remorso de ter degustado a carne de uma no dia anterior.

Até aqui escrevi sobre a Cusco dos turistas, mas ela é muito mais que isso e como professora de Geografia Urbana, também gosto das outras Cuscos.

 Trata-se de uma cidade de quase 430 mil habitantes, segundo a contagem feita em 2017.

Como já escrevi, foi capital do Império Inca. Atualmente é o nome dado a uma das 25 regiões do Peru e é composta de 13 províncias.

A cidade tem seu lado B, como tudo na vida. Ele é constituído de uma extensiva área residencial destinada sobretudo aos mais pobres, embora haja bairros ocupados por classes média e alta.

Os bairros mais populares têm o mesmo padrão construtivo que vimos em La Paz: imóveis sempre inacabados e prontos para continuar a subir. Todos eles deixam os ferros que estão nas colunas de concreto prontos para receber mais um ou vários pavimentos.

Alguns chegam a alcançar até a 8 andares sem elevador. Isso é bom, porque ninguém terá flacidez ou celulite. [risos]

Logo na entrada da cidade está a estátua de Tupac Amaru. Espero que eu não esteja fazendo confusão, mas deve ser o Túpac Amaru II que, de acordo com a Wikipédia, era mestiço, viveu entre 1738 e 1781. Nascido José Gabriel Condorcanqui Noguera, tinha origem nobre, mas assumiu sua ascendência indígena e conduziu uma rebelião anticolonial.

Os morros apertam o vale, por onde se estende a cidade e até o final dela.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 15

Cusco: arte e cultura

Fonte: https://pt.vecteezy.com/arte-vetorial/20600215

Cusco é uma cidade que tem lugares que são bem especiais.

Como essa é nossa segunda vez nesta cidade, optamos pelo usufruto de um tempo mais lento, sem qualquer intenção de ver ou rever tudo que os guias ou sites turísticos recomendam.

Assim, foi possível “degustar” mais os lugares, mais do que apenas ir ticando uma lista infinda de visitas a serem feitas.

Começamos pela Iglesia de la Companhia de Jesús, situada na Plaza de las Armas, também conhecida como Mayor.

Ela está construída no mesmo terreno em que estava antes o palácio inca Amarucancha. Segundo a Wikipédia, os jesuítas chegaram em Cusco em 1571 e foram autorizados a se apropriar de Amarucancha que, a esta altura, era dos herdeiros de Pizarro, o espanhol que primeiro dominou Cusco. A primeira igreja foi demolida pelo terremoto de 1650 e logo depois teve início a construção da atual edificação. 

Fonte: https://es.wikipedia.org/wiki/Iglesia_de_la_Compa%C3%B1%C3%ADa_(Cuzco)#/media

Não se trata de uma construção suntuosa, mas há dentro dela altares, retábulos e imagens que encantam pelo folheado em ouro e pela mescla de traços europeus e traços indígenas, nas fisionomias e corpos representados.

Na sala lateral à igreja havia uma exposição de presépios – um mais lindo que o outro – sendo que os que mais me interessaram foram os que expressavam esta mescla de civilizações que caracteriza Cusco.

No dia seguinte, para não ter uma overdose de igrejas no mesmo dia, revimos a Catedral de Cusco, que havíamos conhecido minuciosamente com o guia que nos acompanhou há 10 anos.

Ele era professor universitário no campo da Antropologia e Arqueologia, e foi excelente nas explicações que nos oferecia.

Ao entrarmos no recinto, constatamos que não nos lembrávamos de muita coisa. Senti uma certa sensação de perda por não reter tanta coisa interessante que aprendemos. Li em algum lugar que retemos cerca de 10% apenas do que lemos ou vivemos e que ficaríamos loucos se conseguíssemos reter tudo.

Desse ponto de vista, é bom rever os lugares, para reativar parte dos 90% que foram olvidados. Adoro o verbo olvidar e suas derivações substantivas e  adjetivas porque acho que ele é mais que esquecer… que seria a tradução mais imediata, mas não sei explicar bem por que sinto essa diferença.

Efetivamente, esta igreja é grandiosa. O número de altares laterais, a magnificência do coro talhado em madeira, a beleza das imagens e das pinturas… É difícil até entender por que, por exemplo, não é tão famosa como a Notre Dame.

Por ser um cartão de visitas da Cusco espanhola, talvez esteja melhor preservada do que a dos jesuítas. Foi o que deduzi ao observar que o folheado de ouro dever ter sido recuperado recentemente, as madeiras estavam lustrosas, o chão limpíssimo.

Não era permitido fazer registros fotográficos, o que não concordo, porque se eles não forem efetuados com flash não prejudicam as obras expostas. Ademais, nem havia uma lojinha ao final da visita para se comprar os cartões que substituem as fotos, como ocorre em visitas similares na Europa, por exemplo.

Pronto, lá estava eu novamente cometendo delitos. Já não basta as maracutaias para obter combustível na Bolívia, eu estava fazendo sorrateiramente algumas fotos. Nem todas ficaram enquadradas, é claro, porque era preciso fazer uma ginástica grande para esconder o celular da visão de outrem.

Adorei o Cristo, praticamente negro, entre Maria e José alvos. Segundo informações, a maior parte das pinturas e estátuas foram feitas por indígenas, por isso são anônimas e revelam a mestiçagem que marcou a invasão espanhola na América andina.

Essa magnífica catedral levou um século para ser construída e foi concluída em 1654, apesar de sua abóbada ter sofrido um pouco com o terremoto de quatro anos antes.

Os registros fotográficos que incluo aqui são parte pequena do que há dentro dela para ser visto. Copio na sequência duas fotos da sala reservada ao coro, no meio da igreja. Vejam os detalhes. É um espaço maravilhoso e não é possível imaginar quantos artesãos e quantos anos foram necessários para se fazer essa beleza. O coro é mais lindo que o da Catedral de Amiens, famoso pelos detalhes.

Fonte: https://www.machupicchu.biz/la-catedral-del-cusco

Fonte: https://en.m.wikipedia.org/wiki/File:Siller%C3%ADa_del_coro,_Catedral_de_Lima,_Peru.jpg

A terceira visita que fizemos em Cusco foi ao Palácio Episcopal.

Seu terreno já era ocupado antes dos incas em Cusco. No século XVI, o espanhol Rodrigo de Orgóñez aí construiu uma mansão que, depois, se tornou a casa do bispo, que era irmão de sua mulher. A bela edificação teve outros proprietários e usos até chegar ao museu atual.

A visita vale pelas maravilhosas pinturas, que também foram feitas por indígenas e pela graciosidade da capela.

A pintura que mais gostei foi a que se segue, por ter alguma relação com minha profissão. É a representação do Reitor e da “árvore universitária” em 1794.

Fiquei pensando o quanto nós, brasileiros, demoramos para ter ensino superior. A Universidade do Rio de Janeiro, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi criada em 1920 e a Universidade de São Paulo é de 1934, ou seja, apenas a primeira completou um século.

Pelas consultas que fiz, sempre aqui e ali, conforme o Google me leva, a mais antiga é a de São Domingos (1538), seguida por San Marcos no Peru (1551), México (1553), Bogotá (1662), Cusco (1692), Havana (1728) e Santiago (1738). Voltando ao Palácio Episcopal, olhem a beleza do altar da capela.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 14                 

Cusco de novo – gente e lugares

Já argumentei, no capítulo anterior, o quanto considero Cusco especial. Não é o caso de repetir argumentos. Por outro lado, penso que sempre podemos nos perguntar por que uma cidade nos agrada mais que as outras. Ou, ainda, por que uma cidade agrada a uns e nem tanto a outros.

Uma primeira resposta rápida seria a de que somos mesmo diferentes e valorizamos aspectos que não são sempre os mesmos. Estou de acordo com ela. No entanto, acho que tem outra resposta possível, que não se opõe à primeira, mas pode complementá-la e que eu, especialmente, valorizo muito.

Tudo depende das circunstâncias: quando a conhecemos, em que etapa da vida, sob que condições de maior ou menor conforto, quem estava conosco, quais experiências vivemos, como passamos o tempo aqui ou ali.

Pois é, para mim, as duas experiências em Cusco foram interessantes, com gente de quem gosto, em lugares agradáveis e em momentos muito bons da minha vida.

Nesta cidade, há muita gente diferente oferecendo ao espectador (o turista é sempre um espectador) uma diversidade de culturas e de tipos, compartilhando o mesmo espaço. Em segundo lugar, aqui tem lugares que são bem especiais.

Adoro ficar sentada num banco da praça e me colocar a imaginar o tipo de negociação que a moça alta e loira, parecendo uma europeia nórdica, estava estabelecendo com a cusquenha que lhe tentava vender alguma bijuteria. Um vendedor, numa loja, me disse que os europeus olham muito e compram pouco. Aproveitou para me adular e dizer que, ao contrário, os brasileiros compram muito. Verdade!? Levei duas mantas bonitas desta loja, uma das quais ilustra o começo deste capítulo.

O que será que ia conversando o casal de peruanos que me deram a impressão de aproveitar o horário de almoço do trabalho para colocar o papo em dia?

A senhora que cuidava do jardim com esmero é funcionária da municipalidade ou apenas alguém que faz esse trabalho de modo voluntário?

Quantos chapéus ela vende num dia ensolarado como este?

Voltando cabisbaixa para casa, por ter vendido pouco, ou a trouxa às costas quase vazia é sinal de bons negócios?

Avó, filha e neto ou mãe e dois filhos? Ou será que a de calça amarela não tem nada a ver com a criança e o menino?

De tudo um pouco – chapéus, gorros, luvas, xales – assim o freguês não escapa.

Nas costas, sempre carregam algo, se são peruanas ou bolivianas, seja um bebê, sejam as mercadorias para vender, sejam os alimentos que vão ser levados para casa. O tecido com o qual fazem esse apoio para carregar de tudo já é vendido no tamanho certo para se ser adaptado a elas e suficiente para dar um nó forte na frente.

Se passarmos horas na Plaza Mayor, dezenas de histórias podem ser imaginadas não importando, nessa situação, se são verossímeis ou não, absurdas ou quase reais, fantásticas ou absolutamente comuns.

O que importa é se deixar levar pelo ócio que nos possibilita imaginar qualquer coisa sem ter compromisso com a verificação dos fatos.

Como sua pesquisadora de profissão, esse direito me é dado quando estou em férias como agora. Viva o ócio!

Fonte: https://mariatrusa.org/blog/sabes-cual-es-la-importancia-del-ocio-y-sus-beneficios/

Termino este capítulo, como comecei: com gente.

Como toda cidade turística, Cusco também tem representações, estereotipadas ou não, de sua cultura. Lá estavam as moças vestidas de modo bem tradicional, com um chapéu que chega a ser engraçadinho, conquistando turistas para uma foto.

Olha eu aí com elas. Deu para comprovar que, na média, as bolivianas são baixinhas mesmo, já que eu não me destaco por ser alta!

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024