Bolívia e Peru 13

Fonte: https://www.inkanmilkyway.com/pt-br/blog/praca-das-armas-cusco/

Por onde começar? Tudo que eu falar sobre Cusco, ficará aquém da maravilha de síntese histórica e cultural, que essa cidade é expressão.

Representativa do Império Inca, Cusco foi, por dois séculos, a sua capital, do ponto de vista administrativo, militar e religioso. Sua situação geográfica no Vale do rio Huatanay, assentando-se sobre uma planície entre montanhas, o que, para este império significava o “céu na terra”.

Entre os séculos XII e XV, 13 imperadores incas governaram a partir desta cidade. Quando os espanhóis chegaram e os dominaram, sobre as fundações da cidade inca, ergueram a sua. Por isso, essa cidade é considerada símbolo da mescla, ou da mestiçagem, entre a cultura andina autóctone e a que se impôs pelo domínio hispânico.

Não é demais lembrar que, embora eu mesma tenha qualificado a presença inca como autóctone, nos séculos VIII e IX, os Wari já haviam ocupado este território e, antes deles, outras tribos e nações.

O que resulta hoje como patrimônio e representação é a relação ou a tensão entre a cultura inca e a hispânica. Desse ponto de vista, embora Cusco me leve a comparações com Ouro Preto ou Olinda, para citar dois exemplos brasileiros de cidades históricas, ela tem um patrimônio muito mais muldimensional e multicultural.

A imagem que abre este capítulo corresponde a Cusco, ainda sob o comando inca, em 1470. Vejam que já era um cidade grande e densa do ponto de vista das construções, mas que foi arrasada pelos espanhóis.

Muitos dos edifícios pré-incas foram destruídos e substituídos por palácios incas, como o Palácio Huayna Qapac ou o Palácio Wiracocha. Havia também outros edifícios, como Accla Wasi (casa das mulheres escolhidas), Suntur wasi (arsenal) e Yachay Wasi (casa do conhecimento), bem no centro havia um “Ushno”, uma espécie de pirâmide truncada e muitos outros edifícios na área Oriental.

O chão desta praça pré-hispânica estava cheio de areia trazida da costa por ordem do imperador Pachacuteq. O nível ou elevação do piso era pelo menos 1 metro mais profundo que o nível atual.

Fonte: https://www.inkanmilkyway.com/pt-br/blog/praca-das-armas-cusco/

Enquanto Pizarro, no século XVI, esteve sob o comando de Cusco, ela era um centro importante da presença hispânica nos Andes, mas a sua saída deste território, pelo que pude ler, deixou a cidade em certo ostracismo, o que foi se recuperando, aos poucos, a partir da ‘redescoberta” de Machu Pichu, em 1911, e de sua transformação em sítio arqueológico e lugar de visitação turística importantes, já que a distância entre a cidade em tela e este “santuário arqueológico” é de cerca de 100 km.

A Unesco declarou Cusco como Patrimônio da Humanidade em 1983. Ouro Preto recebeu esse título em 1980, Olinda em 1982, o centro da Cidade do México em 1987, Sucre na Bolívia em 1991, Cartagena na Colômbia em 1984, o que me leva a crer que foram do último quartel do século XX as iniciativas para reconhecimento da importância cultural e artística na América Latina.

Entre esses exemplos que citei, só falta conhecer Sucre, o que deverá ocorrer ainda nesta “expedição”. Todas as demais considero muito representativas de tempos históricos importantes para determinadas sociedades e culturas, hoje apropriadas pelo turismo com seu potencial e com suas mazelas.

No entanto, talvez, seja Cusco a mais significativa da simbiose cultural que ela representa, já que, em alguns casos, as nações indígenas que ocupavam o território antes da chegada dos portugueses e espanhóis não tinham vida urbana e, portanto, não havia a cidade do colonizador, sobre a cidade primeira. No caso da cidade do México, Teotihuacán, um dos símbolos da Civilização Asteca, está na região metropolitana, mas não ocupa o mesmo sítio da atual capital.

A Cusco que vejo hoje é também uma mescla de mais de uma experiência que vivi. Estive aqui pela primeira vez há cerca de 10 anos. Orientei, com prazer, a tese de doutorado de Rita de Cássia Andrade que versou sobre essa cidade e, por meio dela, aprendi um pouco sobre a sua histórica social e sua geografia urbana. Li textos aqui e ali que me deixam reminiscências, que, é claro, sempre resultam de uma seleção que a memória de cada um de nós opera, mais involuntária do que voluntariamente. As minhas lembranças são todas positivas e se reavivam agora.

Quanta coisa há para se ver em Cusco, mas seleciono como sua representação atual mais emblemática a Plaza de Armas, também nomeada, em alguns mapas, como Plaza Mayor, com seus arcos e sacadas de madeira, projetadas no primeiro piso, como ‘binóculos’ para se olhar o espaço público.

Se, no passado, essas varandas eram ocupadas por famílias da elite hispano-peruana, hoje alojam cafés, pubs e restaurantes, onde o direito de se sentar numa mesa nestas adoráveis janelinhas, tem que ser precedido de reserva e da disponibilidade para pagar preços um pouco mais altos do que em outros sítios, mas vale a pena. Os balcones como eles chamam são espaços especiais para se olhar essa cidade.

O cuidado com os jardins floridos, que já tínhamos visto em praças bolivianas, também está por aqui.

Curto jogar meu olhar sobre esta praça, ora andando por ela, sentada num dos bancos, fotografando a vida pública que ali se desenrola e meu parceiro querido, ou mirando-a pela grade da janela do Starbucks e pela varanda do Restaurante Morena.

Também posso fazer de binóculo o Google Maps, aproximando escalas e possibilidades de olhar, para entender essa cidade: rede urbana, município, centro histórico, Plaza Mayor de Cusco.

De qualquer ponto da praça e mesmo um pouco longe dela, a Catedral domina a paisagem no seu estilo renascentista, segundo o que li. Como outras igrejas, que vimos por aqui, tanto nesta cidade como em outras, a visão é dominada pelo granito vermelho que recobre as fachadas.

Aliás, a Plaza de las Armas conta com outras duas igrejas também revestidas por este granito: – a mais antiga, situada à esquerda da catedral e praticamente justaposta a ela, é chamada El Triunfo porque foi erigida sobre arsenal inca para demonstrar a vitória espanhola; – a da Companhia Jesuítica, chamada Capela de Jesus, Maria e José, fica à direita.

Nas ruas estreitas, que acedem a esta praça o comércio se desenvolve, pequenas agências de turismo vendem pacotes de todo tipo, gente oferece massagens a preços módicos (fiquei desconfiada), localizam-se tanto pequenos hostales, como hotéis boutiques ou de grandes redes. Há até os que valorizam a hospedagem do público LGBTQI+.

Adoro o desenho das pedras compondo um piso por onde milhões de pessoas em algumas centenas de anos têm passado.

Face à altitude de Cusco, subir essas ladeiras é uma dificuldade para nós. No entanto, vê-se que elas dão acesso às áreas mais periféricas que se expandiram a partir do núcleo histórico, pois a cidade sobe os morros.

Para fazer a foto que se segue e mudar nosso ponto de vista, enfrentamos uma das ladeiras. O coração dispara, o ar falta, mas valeu a pena, inclusive para ver os cusquenhos no seu dia a dia. Vejam, à direita, o casal que se beijava sob os capuzes dos agasalhos.

Por fim, a demonstração da nacionalidade peruana em um dos contrafortes da serra que abraça o núcleo histórico de Cusco.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 12

Entrando no Peru em direção a Cusco

Como escrevi no capítulo anterior deste diário de viagem, a entrada no Peru foi cheia de peripécias, quase uma epopeia. Assim, a passagem por este portal que demarca a fronteira foi muito emblemática para nós.

Já tínhamos estado no Peru há cerca de 10 anos, numa viagem especial, pela Agência Latitudes, com amigos mais que especiais. Éramos 16 pessoas. Conhecemos Lima, Puno, Cusco e Machu Pichu, fazendo os percursos maiores por avião, um deles por ônibus de turismo e também percorremos o Vale Sagrado dos Incas por trem.

Agora estamos vivendo a experiência de conhecer uma parte do Peru profundo, aquele onde vivem os peruanos no seu cotidiano, por estarmos atravessando o país de carro, parando aqui e ali, ainda que os pontos escolhidos por nós, para passar duas ou três noites, sejam essencialmente turísticos.

De um jeito ou de outro, somos sempre estrangeiros e o nosso olhar tem esse ponto de vista, mas vale a pena registrar que, dependendo de como você faz a viagem, sua perspectiva se modifica.

O Peru é parecido com a Bolívia, todos sabemos. Antes de os espanhóis chegarem por aqui, os incas e outras nações autóctones construíram civilizações e constituíram territórios, políticos e culturais, que não reconheciam as fronteiras que hoje separam os Estados-nação latino-americanos.

Essa identidade entre povos dos dois países, parece-me mais importante, ainda, por estarmos circulando sobre o altiplano dos Andes, que compõe um bioma, explicativo também pelo conjunto de condições de vida que se oferecem a seus ocupantes.

Fonte: https://www.historiadomundo.com.br/inca/mapa-do-imperio-inca.htm

Assim, modos de se vestir, de garantir o sustento, de desenvolver agricultura e comércio, assim como paisagens dos dois lados da fronteira, têm semelhanças entre si.

Ademais, entre os países de domínio espanhol, na América, eles chegaram a compor a Confederação Peru-Boliviana, entre 1836 e 1839:

…constituida por tres estados: el Estado Nor-Peruano, el Estado Sud-Peruano —estados que surgieron de la división de la República Peruana, a causa de la Guerra civil de 1834 y la guerra entre Salaverry y Santa Cruz— y el Estado Boliviano. Los límites geográficos variaron con el tiempo, con la consolidación territorial de Tarija y la ocupación de territorios de Salta y Jujuy; también contaba con territorios indígenas, que eran autónomos de facto, como Iquicha. Todo bajo el mando supremo del maris, de Andrés de Santa Cruz, quien asumió el cargo de Supremo Protector en 1836, mientras era presidente de Bolivia (1829-1839).

Fonte: https://es.wikipedia.org/wiki/Confederaci%C3%B3n_Per%C3%BA-Boliviana

Pelo mapa podemos ver que essa confederação incluía o atual estado do Acre, cujas terras foram adquiridas, pelo Governo brasileiro, no começo do século XX. O Estado Boliviano, então, tinha acesso ao Pacífico…

Fonte: https://historiauniversal.org/historia-del-peru-la-confederacion-peru-boliviana-1836-1839/

Reconhecidas identidades e semelhanças, há também disputas e diferenças que são visíveis. A área rural dos dois países nestes trechos andinos da nossa viagem está marcada por uma ocupação importante, mas ela é muito mais densa no Peru do que na Bolívia. De algum modo, essa densidade ocupacional reflete a diferença demográfica entre os dois Estados Nação: a Bolívia tem cerca de 12 milhões de habitantes e o Peru alcança os 34 milhões.

Entre Cochabamba e La Paz e entre esta cidade e a fronteira, encontramos assentamentos humanos por todo o percurso. Agora fazendo o trecho entre Kasani e Cusco, a intensidade da ocupação é muito maior, há mais áreas agricultadas e muito mais criação de ovelhas e gado leiteiro, do que vimos na Bolívia.

Essa densidade de ocupação maior, observada no Peru, também tem nuances, pois tomando como referência o trecho percorrido, podemos dizer que nos 150 km mais próximos de Kasani e nos 150 km mais próximos de Cusco essa ocupação é muito maior: praticamente, durante todo o percurso não se faz 10 km sem passar por algum tipo de assentamento humano que reúne algumas dezenas de famílias, às vezes centenas ou milhares. No trecho intermediário deste trajeto representado, a ocupação é menor e a paisagem andina prevalece quase intocada.

Também chama atenção, comparando os dois países, a melhor sinalização nas estradas e cidades do Peru, que já está mais preparado para o turismo, havendo sempre iniciativas para valorizar as identidades regionais, mas também para reforçar a unidade peruana. Vejam essa dupla intenção na placa que se segue.

Eu adoro esse símbolo adotado pelo país, porque ele é moderno e, ao mesmo tempo, preserva no “P” os labirintos que se referem a culturas indígenas pretéritas:

La P hace una obvia alusion a las lineas Nazca, pero no unicamente a esto sino a algo que se repite en varias culturas preincas e incas que es el tema de la espiral. Es un simbolo que no solo se observa y es reconocido en el Peru, sino que es un simbolo universal que refleja continuidad. La logomarca consiste en una linea continua que genera esta espiral que en distintas culturas siempre está presenta y que forma una P de Peru asi como una @ que es simbolo de modernidad. La palabra Peru se forma con la misma linea continua simbolizando continuidad e infinitud. También puede interpretarse como una huella digital, simbolo de identidad. Es un icono que recoje muchos de los atributos que los Peruanos tienen que ofrecer al mundo.

Fonte: https://brandemia.org/peru-estrena-una-estupenda-marca-pais

Aviso você, leitor, que todas as observações que faço são muito superficiais e carecem de leitura e pesquisa para que sejam atestadas em sua veracidade, mas a impressão que tenho é que o Peru busca se organizar.

A rodovia estava em bom estado e, ademais, uma série grande de pontes sobre pequenos ou médios cursos de água também estavam, no percurso que fizemos, todas com a mesma estrutura metálica, cor de laranja. Outras estavam em construção, razão pela qual, volta e meia havia pequenos desvios.

Algumas vezes se via, ao lado da ponte nova, a antiga ainda de pedra, que suponho, tem muitas dezenas de anos.

A estrada está assentada em um vale demarcado por elevações significativas dos Andes de um lado e de outro. Nos trechos em que ele é mais largo, sempre tem gente vivendo. Muitas vezes, as áreas de cultivo ladeiam a rodovia e as casas estão já no início dos aclives das grandes montanhas.

Pensei que pode haver duas razões para isso. A primeira resultaria da necessidade de ocupar toda a área plana com a agricultura, afinal, no altiplano de uma cordilheira, o espaço para cultivar é restrito.

Em segundo lugar, o vento neste vale é forte e as casas estando mais próximas das montanhas mais elevadas ficariam mais protegidas das intempéries e correntes. Para fazer a próxima foto, eu fiz um zoom máximo, visando aproximar a área onde estavam as casas.

Do ponto de vista do cultivo, predominam as áreas de produção de milho, cholo para eles.

Por todo lado, há pedaços de rochas que devem rolar da cordilheira e que a população autóctone reúne para uso posterior. Há muitas divisões entre pequeníssimas propriedades feitas de muros de pedras, como há casas, cuja fundação tem esse material. Os fragmentos de rocha de tamanho médio também são usados para segurar os telhados, quando eles são de zinco ou alumínio, garantindo que não saiam voando, quando as rajadas de vento sopram.

Há trechos em que a rodovia fica mais apertada entre as elevações e, em algumas ocasiões, ali se estabelece uma cidade ou pueblo maior. Quando isso acontece a estrada vira cidade e não é possível continuar o caminho sem passar por ela. Assim foi com Pomata, logo no começo de nosso percurso.

Essa cidade surpreendeu pela beleza de sua igreja principal, que é grandiosa e tem a fachada toda trabalhada em sobre relevos, alguns dos quais mesclam elementos do imaginário católico ao do indígena. Vejam os detalhes na terceira foto, na sequência.

Adorei, também, observar que a rodovia acompanha um rio de águas movimentadas que alimentarão a Bacia Amazônica. Dá para acreditar?

O percurso feito por nós, por duas vezes, na ida para Cusco, em 10 de janeiro, e na volta, em 13 de janeiro de 2024, em direção a Puno, foi composto por duas regiões importantes turisticamente no Peru.

A primeira é chamada de “Região dos Cânions”, onde está o Lago Titicaca, Arequipa (que desapareceu do nosso roteiro) e Puno. A outra é chamada de “Terra dos Incas”, destacando-se Cusco e Machu Pichu, sendo que esta última, conhecemos na viagem anterior.

No entanto, do ponto de vista de cidades importantes na rede urbana peruana, há no meio do caminho Juliaca, cujo aeroporto serve de base para os turistas que vão curtir o Titicaca, hospedando-se em Puno.

Segundo informações, obtidas em sites diferentes, esta cidade ainda não alcança os 300 mil habitantes, mas chamou minha atenção pelo movimento comercial.

Tal como observado em cidades bolivianas, a feira cumpre papel importante no cotidiano da vida peruana, a menos em cidades como Juliaca, embora tenhamos visto o mesmo na periferia de Cusco, o que adiante poderei comentar.

Estacionados, aguardando fregueses, há dezenas de tuk tuks em Juliaca, que, aqui no Peru, são chamados de moto táxis.

Termino, com essa imagem dos Andes, onde se vê traçadas, nas encostas, as raias que devem ter sido desenhadas, por séculos, pelo degelo ou pelo rolamento de frações de rochedos da cordilheira.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 11

A entrada no Peru não foi fácil. O fato de estarmos com um carro locado da empresa Kinto Share, associada da Toyota no Brasil e presente também na Bolívia, não facilitou em nada nossa passagem pela fronteira.

Saímos cedo de La Paz, no dia 8 de janeiro de 2024, animados para chegar em Cusco (cada vez vejo menos a grafia Cuzco), passando por Desaguadero, o que corresponde a 113 Km.

Gastamos, ao menos uma hora e meia, para vencer o trânsito da região metropolitana, saindo de La Paz e atravessando El Alto, mas depois encontramos uma estrada livre, em boas condições e com lindas paisagens.

Passamos por Tiwanaku, onde há ruínas arqueológicas importantes, mas desistimos de fazer a visita pelo tempo necessário, face à nossa preocupação de termos ainda que vencer os trâmites fronteiriços e, depois, fazer mais 160 km até a cidade de Puno.

Sabíamos que a estrada era tortuosa e, portanto, não alcançaríamos velocidade alta. Pelo que vimos em folhetos e na internet, a visita às ruínas vale a pena, mas ficou sem ser feita… Acho que já estávamos adivinhando o que viria.

Antes de alcançarmos Desaguadero, a paisagem dominada pelo Lago Titicaca (ou Titikaka) já nos animava, tal a sua extensão e pelo azul da água que se mistura com o azul do céu.

A passagem pela Aduana boliviana foi fácil, porque estávamos já com o documento de circulação do carro obtido na fronteira com o Brasil.

Atravessamos a ponte que faz a ligação entre os dois países e chegamos à barreira constituída pelo que chamam de “Controles Integrados Bolívia – Peru”.

Esse serviço coloca no chinelo os que são oferecidos na fronteira Brasil – Bolívia, marcada pela pouca articulação, desorganização e falta de informação, como eu já descrevi em capítulo anterior desse “diário de expedição” – “Globalização, pero no mucho” disponível em: https://wordpress.com/post/carminhabeltrao.com/3176.

Num mesmo prédio, grande, bem iluminado e sinalizado, com várias vagas para estacionamento, estão a Polícia de Imigração boliviana e a peruana, em guichês lado a lado. Em anexo, o serviço da Aduana para verificação de bagagens e veículos. Tudo fácil e rápido. Em vinte minutos tínhamos, no passaporte, os carimbos de saída da Bolívia e entrada no Peru.

Fomos para a fila da verificação do veículo e logo fomos interceptados por agente da Polícia peruana, que se dizia também advogado, e nos abordou para explicar que nosso documento de locação do veículo não era suficiente para que entrássemos no país.

Ele tinha razão, na minha opinião. O tal documento trata mais das nossas obrigações para a devolução do carro e seu usufruto, do que explicitava o direito sobre o uso do veículo. Argumentamos, mas em vão. Ele contra-argumentava frisando que era preciso um papel que dissesse que tínhamos “poder” de dirigir o automóvel em outro país que não o Brasil. Demoramos a entender o que ele queria nos explicar, mas deduzimos que seria o poder sobre o carro, mesmo não sendo proprietários dele.

Nenhum comportamento inadequado do policial, tampouco sugestão de que algum suborno resolvesse o problema. Aconselhou-nos a voltar a La Paz e tentar novos documentos da empresa e/ou passar pela embaixada brasileira.

Voltamos cabisbaixos pela fileira de centenas de caminhões, a maior parte de combustível, entremeados por alguns tuk tuks que levam pessoas para lá e para cá, que aguardavam a verificação dos respectivos documentos.

Antes, porém, passamos pela Imigração e novos carimbos de saída do Peru e entrada na Bolívia. Em outras palavras, entramos e saímos dos dois países no mesmo dia e no intervalo de menos de uma hora.

Paramos na volta para almoçar num restaurante agradável na entrada de Tiwanaku, no qual degustamos uma deliciosa truta na chapa. Havia outras duas mesas ocupadas, por pequenos grupos de turistas e o guia, nas quais o idioma falante era o inglês.

Com o estômago cheio e desanimados, lá pegamos nós o caminho de volta a La Paz, após avisarmos, pela plataforma do Booking, ao hotel em Puno, que não chegaríamos mais naquela noite.

Fomos para o Hotel El Rey, na capital, reservado de última hora, e mais uma vez enfrentamos o trânsito da região metropolitana.

No dia seguinte, após “mil” mensagens para a Toyota em Presidente Prudente, à qual se associa o serviço da locadora, obtivemos um novo documento que foi, depois, impresso e carimbado na agência da Locadora Kinto em La Paz. O Rodrigo que nos atendia, por WhatsApp (telefonemas e mensagens) foi incansável, desde a véspera, que era um domingo, mas penso que, realmente, a empresa não tem prática em locação para saída do veículo do Brasil.

Voltamos animados para a fronteira, agora com um contrato assinado digitalmente pela empresa e novamente fomos barrados, já que ele não estava chancelado por um cartório ou coisa do tipo.

Em suma, percebemos que são precauções adequadas que o governo peruano toma contra roubos de carro, cuidados que o governo boliviano parece não ter.

Novamente fizemos o trecho de volta para a capital, agora hospedando-nos no Hotel Madero, perto da Plaza de los Estudiantes, o qual recomendamos para quem for a La Paz.

Passaram pela nossa cabeça duas opções: – abolir a ida ao Peru, a qual, aliás, era a mais indicada, depois de duas tentativas frustradas; – a outra era tentar a validação daquele documento na Embaixada do Brasil.

Ficamos com a segunda, mesmo que relativamente pessimistas sobre as possibilidades.

Às 9h00 em ponto do dia seguinte, 9 de janeiro de 2024, chegamos à Embaixada brasileira em La Paz e fomos informados que devíamos ir ao Consulado… Ok, era ao lado, num prédio elegante, mas só abriria às 9h30. Plantamo-nos na recepção e fomos os segundos a terem direito de ser atendidos.

Fonte: https://es.wikipedia.org/wiki/Archivo:Embajada_de_Brasil_en_La_Paz,_Bolivia.jpg

A funcionária era uma boliviana que morou dez anos no Brasil. Boliviana loira e de cabelo encaracolado, o que não é comum. Gentil, atenciosa, mas cética quanto ao que poderia ser feito em nosso favor. Sugeriu que fôssemos à empresa, explicamos que já tínhamos ido. Lembrou que o documento deveria ter vindo com o reconhecimento de um cartório brasileiro. Contra-argumentamos que o consulado era território brasileiro na Bolívia e ali essa chancela poderia ser dada. Ela dizia que não.

Praticamente desistimos, mas ela ficou tão penalizada que se dispôs a ir falar com o Vice-cônsul que, após 10 minutos, veio até nós. Era um carioca que tinha o semblante cansado da burocracia. Foi, assim, que o interpretei.

Explicou as limitações que o consulado tem em situações como esta, mas se dispôs a oferecer uma cópia autenticada do documento que tínhamos em mãos que, a bem da verdade, também não era o original porque foi encaminhado pela internet…

Novas providências: para tal, era preciso ir a um banco e pagar cinco dólares pela cópia. Eliseu foi ao mais próximo, onde a funcionária aproveitou para solicitar a ele que contribuísse com uma campanha humanitária que estava em curso. Como discordar numa situação como aquela?

Voltando ao consulado, foi mostrado o depósito e solicitada a cópia. A gentil funcionária pediu que voltássemos às 11h30 para pegar.

Eliseu reagiu rapidamente: “Não é possível! Por que a cópia não pode ser feita e assinada agora?” Ela olhou para a cara dele, pouco amigável àquela altura, e foi ao encalço da assinatura. Por volta de 10h30, saímos do consulado com o papel na mão.

Pondera daqui, pondera dali, lembramos que não era bem um documento chancelado como, na fronteira, havia sido solicitado, mas apenas uma cópia autenticada pelo consulado e tivemos dúvidas se valeria a pena nova ida até a fronteira.

Acho que meu sangue espanhol valeu nessa hora e minha tendência a não desistir facilmente prevaleceu, embora soubesse que a possibilidade era pequena.

Eliseu teve uma ideia, então: mudar de ponto de passagem na fronteira, como um modo de não nos encontrarmos mais com o gentil policial-advogado tão cioso da obtenção do documento correto.

Foi assim que saímos pela terceira vez de La Paz, agora em direção a Copacabana. Vejam, no mapa, que este ponto da fronteira está um pouco mais ao norte que Desaguadero e escondido nos meandros do Lago Titicaca e suas ilhas.

Ao mesmo tempo em que íamos em direção à terceira tentativa, preparávamos o “espírito” e o planejamento da viagem para a hipótese de não entrar no Peru.

Para chegar em Copacabana, fizemos um lindo percurso que vou contar em outro capítulo deste diário.

Por volta das 17h, antes de nos acomodarmos no hotel Rosário reservado para passar a noite em frente ao lago, resolvemos ir à Aduana Peruana a pouco menos de 20 km dali.

Fomos sinceros ao contar que já tínhamos tentado passar pela fronteira, mas omitimos o fato de que havia sido duas vezes. Fomos logo informando que trazíamos um documento com chancela do Consulado do Brasil, sem explicar bem que tipo de selo foi o que se imprimiu no documento, simplesmente o de uma cópia reconhecida.

O primeiro policial olhou e resolveu entrar no container-caminhão que servia de escritório aos funcionários da Aduana Peruana. Mostrou para uma policial que estava acima dele na hierarquia, pelo que presumimos. Ela faz cara de descrença e balbuciou que achava que não serviria, mas resolveu ir direto ao chefe, que olhou o selo do Consulado e enfaticamente em 10 segundos disse: Vale!

Fomos dormir com essa primeira impressão de que seria possível.

Acordamos cedo e passamos pela Imigração primeiramente, onde outros preenchimentos e formulários foram necessários. Tudo rápido e antes das 9h00 estávamos diante dos mesmos funcionários do dia anterior. Éramos o segundo carro na fila. O primeiro era uma super Hillux dirigida por um argentino que viajava com três filhos homens jovens. Pretendiam ir até Machu Picchu.

Nesse meio tempo, o da espera, resolvi fazer uma foto da placa da fronteira e me dei conta que estava sem celular. Eliseu tinha ido com ele até o pequeno quiosque para imprimir os tais formulários de imigração e, na pressa, tinha deixado o aparelho por lá.

Voltou correndo, percorrendo a pé uns 200 metros enquanto eu ficava guardando lugar na fila para verificação do carro. Antes que ele voltasse aliviado com o aparelho na mão (o dono da bodeguita poderia ter ficado com o smartphone), o policial da Aduana peruana já tinha verificado tudo no carro e até fotografado o número do chassi.

Ficamos mais uns minutos na fila e o mesmo policial chefe do dia anterior preencheu um formulário no computador lentamente e nos entregou o papel de circulação do veículo no Peru, impresso (uma impressão horrível pois a tinta estava fraca), assinado e carimbado.

Pronto, estávamos empoderados! Entramos vitoriosos no carro, onde eu fiz um “Hip Hip Urra” duas vezes em voz alta. Eliseu me recomendou baixar o tom, antes que eles nos escutassem e pedissem o documento de volta.

Vitória!

Fonte: https://br.freepik.com/vetores-premium/desenho-de-pessoas-pequenas-com-a-palavra-vitoria_18761359.htm

Com um enorme saco de pipocas para o almoço, fotografamos a placa de boas-vindas e pegamos a estrada para Cusco.

Foram mais 530 km sobre os quais escrevo alguma coisa depois.

Enquanto os percorríamos, mentalmente refazíamos o roteiro previsto para o Peru, que incluía Puno, Cusco e Arequipa. Invertemos a prioridade. Perdemos a reserva em Puno em função das três noites que passamos entre La Paz e Copacabana e deixamos esta cidade para a volta. Agora, precisávamos ir para Cusco, onde também já tínhamos perdido um dia da reserva, mas ainda tínhamos duas noites pagas.

Era preciso fazer algum corte no roteiro inicialmente desenhado.

Foi assim que Arequipa sumiu do mapa. Não do mapa do Peru, mas do nosso mapa de viagem.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 10

O comércio e las cholitas

La Paz encanta porque é uma cidade cheia de vida. Muito do que se vê aqui, encontra-se por toda a Bolívia, mas a densidade humana, o sítio urbano marcado por desníveis imensos e a necessidade de todo mundo se virar para ganhar a vida tornam a vida pública tão intensa, que é magnífico observá-la.

Desde a origem das cidades, o comércio foi uma atividade importante para lhes explicar a gênese e justificar a existência e o crescimento. Essa função urbana permaneceu em diferentes períodos da história e de modos de produção, seja no Ocidente, seja no Oriente, nos países ricos ou nos pobres.

Estamos na América Latina e, quando analisamos esse subcontinente, enxergamos, neste espaço, uma unidade que o diferencia, por exemplo, da América Anglo-Saxônica, ou da África ao sul do Saara, ou da Ásia de Sudeste. No entanto, quando aproximamos a lente, as diferenças aparecem, com muita intensidade e a ideia de unidade latino-americana precisa ser matizada.

No caso brasileiro, é indubitável o papel que as feiras tiveram e, em algumas cidades do Nordeste, ainda têm. No sul do Chile, visitamos mercados imensos. Na Colômbia, também é importante o comércio de rua. Em Cuba, na Guatemala ou em El Salvador nem se fala. Entretanto, nada me pareceu tão intenso como a importância que o comércio tem na Bolívia.

Não há pedacinho de calçada em que não haja uma pequena barraca ou carrinho oferecendo alimentos ou uma lona com os produtos em exposição; não há bairro da cidade onde o comércio não esteja; não é possível pensar nos postulados de Le Corbusier que propugnou uma cidade com separação de funções no espaço.

Aqui, tudo é misturado e junto! Desse ponto de vista, a Bolívia se parece mais com o Vietnã do que com a Argentina ou o Brasil.

Nas ruas onde o comércio formal se estabelece, em lojas que estão funcionando regularmente, o comércio informal está bem em frente, na calçada e na rua, vendendo produtos semelhantes (talvez revendendo das lojas) ou completamente diferentes, como uma ação de complementaridade, por exemplo, lojas vendendo roupas e barracas na rua vendendo alimentos prontos para quem está fazendo compras.

Olhando de cima, a partir de registros feitos no percurso por teleférico, veem-se as barracas por toda parte, às vezes em esquinas, às vezes por ruas completas.

Há setores do comércio que são mais voltados aos turistas, como a rua dos paráguas, como é conhecida por causa da seus adornos.

Ou a rua Sagarnaga, uma das mais importantes, comercialmente falando, por meio da qual se chega à grande praça onde está a Igreja de São Francisco.

Se você for um dia a La Paz, não deixe de fazer a visita guiada a essa igreja, pois as obras de arte que estão no convento dos franciscanos e a própria construção merecem ser apreciados.

Eu gostei dos pátios internos, das galerias, do jardim onde os religiosos cultivavam temperos e árvores frutíferas, da torre com os sinos e das paredes azuis que distinguem uma parte da edificação.

Saindo do silêncio que o ambiente franciscano nos proporcionou, encontramos novamente o comércio, o barulho que lhe é peculiar e gente, mais gente, na enorme praça onde uma parte das pessoas transita, outras vendem e compram, e outras, apenas, ficam sentadas na escadaria esperando o tempo passar.

As rainhas deste comércio, que está por toda lado, são as cholitas, como aqui são chamadas as mulheres que, com origem ou moradia na área rural, ainda se vestem de modo tradicional.  Cholita é diminutivo de chola, que segundo a Wikipédia é

“…é uma denominação étnica referida a mulheres mestiças. O termo aplica-se de maneira contemporânea àquelas que utilizam vestimentas tradicionais estabelecidas durante o processo inicial de mestiçagem no atual território boliviano, e também se estende à outras mulheres mestiças e indígenas.”

É impressionante o quanto elas trabalham. Chegam cedo, descem das vans, abrem seus panos coloridos na calçada ou descobrem as pequenas barracas que já têm estabelecidas e passam o dia comercializando.

Em algumas situações cozinham por ali; em outras trazem alimentos naturais produzidos, sem agrotóxicos como destacou nosso guia Franz; vendem frutas descascadas; comercializam lenços de papel, cartões para celular e outras quinquilharias do mundo industrial…

Comem ali mesmo e, mais de uma vez, via que, após ao almoço, abaixam a cabeça sobre o próprio colo e tiram um cochilo.

Sinceramente, fiquei pensando o que fazem os homens por aqui, porque também na área rural, a pastagem de ovelhas ou alpacas, é responsabilidade delas.

JáJá algumas que se vestem de calça jeans, ou abrigo da Nike e usam tênis, mas são exceção. Neste caso, praticam o comércio, mas não merecem ser chamadas de cholitas.

A maioria está trajada com suas saias pregueadas, sob as quais usam enchimentos e várias anáguas coloridas. Com as duas tranças e a mercadoria ou o bebê que trazem nas costas em seus tecidos coloridos, que são vendidos por toda parte, compõem a paisagem urbana boliviana.

Achei engraçadas duas coisas. Primeiro que, mesmo com um calor grande no meio do dia, permanecem extremamente agasalhadas, pois além das saias com várias camadas, e o tal enchimento para alargar o corpo abaixo da cintura, várias delas estão com meias de lã e usam xales para completar o traje, ainda que seja verão.

Em segundo lugar, todas usam chapéus, porque o calor aqui é intenso e embora a maioria já tenha optado por modelos mais modernos, ainda há as que são fiéis ao de feltro marrom, tipo um chapéu coco. Este, a meu ver, nem protege do sol, porque a aba é curtinha, nem protege do frio, porque ele não entra efetivamente na cabeça, mas fica equilibrado sobre ela e a qualquer ventinho, elas erguem a mão para segurá-lo.

Nos dias de festas, como pude observar em El Alto, ocasião em que se dirigiam a uma festa religiosa, elas usam o mesmo traje, mas muito mais refinado. Algumas vezes com tecidos acetinados, coloridos, com algum tipo de brilho e joias. Não consegui fazer uma foto, mas reproduzo a que se segue que extraí do Pinterest (https://br.pinterest.com/pin/3377768464255956/)

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 9

La Paz e Mi Teleferico

Ficamos apavorados (sim esta é a palavra apavorados) na chegada à cidade de La Paz.

Antes mesmo de sairmos da rodovia, o trânsito já se adensava. Ao entrarmos na área urbana metropolitana, deparamo-nos com uma circulação de veículos caótica, por três motivos ao menos.

Em primeiro lugar, a topografia hiper acidentada da cidade não ajuda em nada a circulação, porque o plano urbano é complexo, as vias são estreitas e obedecem sempre ao imperativo do relevo.

Vejam na primeira imagem, os contrafortes da cordilheira à leste e a área central encaixada numa bacia. Na segunda imagem, observem o plano urbano do setor centro-oeste da cidade – ruas sem saída, estreitas e sinuosas.

Em segundo lugar, ninguém obedece a regras de trânsito, o que é o comum aqui na Bolívia, onde não se respeitam vias preferenciais, ultrapassa-se pela direita e semáforos parecem ser um enfeite, porque todos continuam a circular, mesmo se ele está vermelho.

Tudo isso em uma cidade com muitos veículos nas ruas, levando a inúmeros congestionamentos, o que aqui, eles chamam de tranqueros. Vejam o que o Google mostra às 10h30, e é possível imaginar como isto fica às 18h00.

Em terceiro lugar, o que tem relação com segundo ponto, há centenas de vans circulando pela cidade, cumprindo o papel de transporte coletivo. Elas trazem escrito, no vidro dianteiro, os roteiros que percorrem e, a cada vez que alguém acena, o motorista para em fila dupla ou tripla e azar o seu se estiver atrás dele. Se for uma rua de única mão, a única opção é esperar; se for uma avenida, é lutar para conseguir ultrapassá-lo pela direita ou pela esquerda.

Não fosse pouco, elas também ficam paradas em qualquer lugar para aguardar passageiros quando estão totalmente vazias. No domingo, passando por um bairro, onde havia uma festa religiosa que reunia centenas de pessoas e barracas onde se vendia de tudo, embora estivéssemos numa via de três mãos, as vans ocupavam duas vias e, de repente, paravam na terceira para atender alguém que queria voltar para casa ou descer.

Fonte: https://pegamosumaestrada.com.br/la-paz-bolivia-roteiro-de-3-dias-melhores-atracoes-e-dicas/

Devemos ter levado uma hora ou mais para nos deslocarmos por carro da rodovia até o apartamento que locamos pelo AirBnB na área pericentral da cidade. Uma loucura! Ruelas, curvas acentuadas, gente cruzando na frente do carro e nada de haver nem placas com os nomes das ruas, nem número na frente dos prédios. Não é à toa que quando nos passam um endereço, além das informações usuais, é comunicado o nome do prédio, assim, você pode encontrá-lo pelo letreiro que o nomeia na fachada, já que pelo número será difícil…

Fiquei pensando se já tinha enfrentado trânsito semelhante na vida. Dehli é pior, porque a densidade demográfica é enorme, há gente que mora nas ruas e os tuk tuk (principal meio de transporte na Índia) estão por toda parte, sem seguir quaisquer regras.  Aliás, por aqui, também vi alguns veículos deste tipo. Acho que, No Brasil, ele seria uma boa opção alternativa às motocicletas.

Fonte: https://indiasomeday.com/es/negociar-el-precio-de-los-tuk-tuk-en-india/

Marrakesh não fica atrás em termos de circulação urbana, mas como tudo, no mundo marroquino, é mais lento, há tempo para o motorista decidir entre aguardar ou encontrar caminho alternativo, quando alguém decide esticar um tapete para um turista ver, bem no meio da rua.

Nesses dois casos, só passamos apuros de observar, já que quem dirigia eram os motoristas das agências de turismo com as quais viajamos.

O Rio de Janeiro também não é para principiantes, afinal motoristas de ônibus e de táxis não gostam de esperar e o sítio urbano, entrecortado por morros e lagoas não ajuda. No entanto, conhecer já a cidade, facilita nossa vida de condutor.

Pois é, La Paz deve ser, então, na condição de motorista, a experiência mais difícil que já vivemos. Não foi à toa que, para fazer passeios por aqui, optamos por outros modais de transporte e preferimos deixar nosso carro guardadinho na garagem.

Todo este quadro, ajuda a entender, porque é uma maravilha o sistema de transporte coletivo e público que foi estruturado por teleféricos nesta cidade.

Quando visitei Medellin, na Colômbia, cidade que tem um sítio urbano também ocupando uma bacia entre montanhas, pude constatar a melhoria na circulação trazida por teleféricos. Aqui, em La Paz, esse sistema é ainda mais revolucionário, porque tem mais linhas e porque o relevo é ainda mais acentuado.

Acho justo que o site da empresa que oferece o serviço, traga logo na página de abertura, as frases “superando limites” e “transportando sonhos”. Acho que não é exagero, porque, para quem mora na periferia, neste caso nas áreas topograficamente mais altas e nas encostas mais íngremes, em sítios que muitas vezes carros não chegam, esse sistema de transporte é uma maravilha. Vejam o site da empresa, que nos foi dita que é pública: https://www.miteleferico.bo/.

São 10 linhas de teleféricos, que funcionam maravilhosamente. São estações modernas, cabines confortáveis (podem viajar entre 8 e 10 pessoas sentadas em cada um), o sistema está bem desenhado, havendo linhas radiais que levam ao centro, e outras transversais, que, no topo das serras, articulam uma linha à outra.

O sistema leva o nome de RIM – Red de Integración Metropolitana.

Ah, é verdade, já ia esquecendo de comentar que o município de La Paz, com outros municípios compõe uma área urbana bem considerável, sendo o mais importante deles El Alto. O nome tem a ver com o fato de, a oeste de La Paz, esta cidade estender-se por uma extensa área plana que está no topo das maiores elevações que circundam a área urbana.

Embora em outros capítulos deste diário de viagem, eu tenha feito referências à população estimada de Santa Cruz de la Sierra e de Cochabamba, agora passo dados mais oficiais. Eles já estão um pouco ultrapassados, porque se referem ao Censo de 2012, mas são suficientes para se ter uma visão de conjunto e ver que El Alto é inclusive mais populoso que La Paz.

PosiçãoCidadeDepartamentoPopulação
(
censo 2012)
1Santa CruzSanta Cruz1.453.549
2El AltoLa Paz848.840
3La PazLa Paz764.617
4CochabambaCochabamba630.587
5OruroOruro264.683
6SucreChuquisaca259.388
7TarijaTarija205.346
8PotosíPotosí189.652
9SacabaCochabamba169.494
10QuillacolloCochabamba137.029

Fonte: https://www.wikidata.pt-pt.nina.az/Lista_de_cidades_na_Bol%C3%ADvia_por_popula%C3%A7%C3%A3o.html

Voltando ao teleférico… Tivemos oportunidade de fazer um grande percurso compondo um arco que vai de sudeste ao sul, oeste, norte, pelas linhas verde, amarela, prateada, vermelha e laranja (deem uma olhada para ver a extensão do percurso que fizemos).

Fonte: https://urgente.bo/noticia/mi-telef%C3%A9rico-reduce-su-horario-de-funcionamiento-de-600-2200-de-lunes-s%C3%A1bado

Fiquei encantada pela limpeza das estações, pela arquitetura agradável, pela eficiência das conexões e, sobretudo, pela amplitude da visão que esse percurso me deu sobre a cidade. Além do mais chamar um sistema de transporte de Mi teleférico, é bonitinho demais.

Enquanto escrevo este texto, deparo-me com uma matéria que saiu na BBC Brasil sobre o tema – quem se interessar, vale a pena a leitura: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cpv6epy1n32o. Se lerem, verão que a minha opinião sobre teleférico em São Paulo não é apreciada pelos experts no tema.

As fotos que fizemos no percurso por teleférico, falam por si. Passamos por bairros de classe média e alta, alguns verticalizados, outros com espaços residenciais fechados, mais presentes no setor sul.

“Voamos” por cima de inúmeros bairros populares, que se caracterizam por não terem reboco nas paredes externas. Quando meu filho esteve nesta cidade, há algum tempo informaram que se paga menos imposto, se a casa não estiver rebocada. Perguntei ao guia que nos levou ao Valle de las Lunas e ele confirmou essa explicação.

O sistema, do ponto de vista da engenharia, é também surpreendente. Os pilares que sustentam as linhas estão assentados nos espaços mais difíceis: encostas íngremes, ajeitando-se entre construções que já existiam, passando a baixa altura em algumas partes e “nos céus” em outras. A informação que tivemos é que foi implantado por chineses e que os bolivianos estariam endividados por causa dos custos. Suponho que sim, mas ao mesmo tempo deve ser mais barato do que implantar uma linha de metrô.

Em São Paulo, por exemplo, algo semelhante cairia muito bem, para começar, com três linhas, suspensas sobre os rios Pinheiro, Tietê e Tamanduateí – nada de desapropriar terras, nada de “cavocar” o subsolo. No Rio de Janeiro ou em Belo Horizonte, onde a topografia é mais movimentada, nem se diga, a maravilha que seria. O Rio deu início a uma ação desta natureza, mas parou por aí.

A foto que se segue não ficou nada boa, mas faço questão de incluir neste relato, para que observem a “tripa” colorida que corresponde a uma escadaria que dá acesso às casas. Quem mora nelas não pode chegar de carro e mesmo havendo o teleférico têm que subir ou descer até a estação mais próxima.

Em vários lugares, a cabine do teleférico passa tão perto das casas que podemos entrar na intimidade doméstica delas. Ver mulheres lavando roupa, crianças brincando, gente chegando e saindo.

A estação El Alto está a 4095 metros de altitude. Na média, La Paz está a 3.600. Só essa informação é suficiente para avaliar a importância desse sistema de circulação urbana.

Desta estação, amplia-se ainda mais a visão do conjunto urbano, com La Paz bem encaixada na cuenca, como se chama em espanhol essas bacias acomodadas entre montanhas.

Passamos por um bairro que está todo colorido, por estímulo do poder público municipal e ação da “comunidade” do bairro. Ficaria maravilhosa La Paz, se essa iniciativa se multiplicasse, porque a cor de tijolo predominando deixa a paisagem um pouco triste, o que não combina com o espírito dos bolivianos.

O passeio foi tão completo, que vislumbramos os três cemitérios principais da cidade. O primeiro ao sul, um cemitério jardim, eu não fotografei. Os outros dois estão registrados a seguir. Observem que o primeiro deles é um cemitério vertical. Segundo Franz, o guia que nos acompanhou numa visita que ainda vou relatar em outro capítulo, este cemitério tem escadas disponíveis, para os que desejam colocar flores para seus mortos que ocupam o 5º. ou 6º. andar.

A hierarquia social também funciona para os mortos. O cemitério jardim que está no sul, onde predominam habitats de elite é o mais caro e bonito. O cemitério vertical é o mais utilizado pelos segmentos médios. O terceiro que aparece nas fotos seguintes e se espraia sobre o morro, é ocupado pelos mais pobres, segundo o Franz.

Adorei conhecer La Paz, por meio do Mi Teleferico.

Fonte: https://www.facebook.com/miteleferico/

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 8

Cruzando os Andes e chegando à La Paz

Fizemos a segunda parte da travessia dos Andes, percorrendo o trecho entre Cochabamba e La Paz, cidade onde estou escrevendo esse “capítulo” de meu diário de viagem à Bolívia e ao Peru, descrevendo o que vivemos há dois.

Não sei bem por que, depois de um dia cansativo de passeios em La Paz, que descreverei em outros capítulos, zapeando pela Netflix no apartamento alugado pelo AirBnB, onde estamos hospedados, encontramos o filme Sociedade da Neve. Ele é a aposta dos espanhóis para ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro. Clicamos e passamos duas horas e vinte minutos magnetizados pela película.

Fonte: https://javiu.blog/2024/01/05/005-2024-a-sociedade-da-neve/

Trata-se da filmagem do que alguns chamaram de a “Tragédia nos Andes”, outros de o “Milagre nos Andes”, representando o que sucedeu após a queda de um avião da Força Área Uruguaia, que, em 1972, levava um time de rugby e outros passageiros para Santiago do Chile. Eram 45 pessoas no total, das quais sobreviveram 16. Foi um acidente muito divulgado pela imprensa na época.

Alguns faleceram no momento em que o avião caiu sobre os Andes, cobertos de neve, outros morreram durante os 72 dias de luta para sobreviverem até encontrar socorro. Sim, foram eles que foram atrás de socorro, porque as ações de busca já tinham sido encerradas há algumas semanas.

Senti arrepios ao ver o filme e o recomendo. Primeiro, porque é uma película sensível e não cai em maniqueísmos sobre a pertinência ou não dos sobreviventes, a dada altura, passarem a se alimentar da carne dos corpos dos que faleceram.

Em segundo lugar, porque as imagens são lindas de morrer e os atores latino-americanos, nesta produção hispano-estadunidense, trabalham muito bem.

Por último e o que é mais importante para este relato, porque, pelo filme, constatamos a grandeza da natureza e de suas dinâmicas, sobretudo quando estamos tratando de altitudes como a desta cordilheira.

É claro, os Andes são exuberantes, como procurei mostrar no capítulo “Bolívia e Peru 6”, mas é, ao mesmo tempo, incrível imaginar as dificuldades que, no passado ou hoje, os seres humanos enfrentavam e enfrentam para atravessá-lo.

De boa, nós atravessamos por terra, portanto não estávamos num avião que não conseguiu concluir o trajeto proposto. Ufa! Que alívio.

Mesmo assim, sentimos a grandeza das forças naturais que erigiram essas paisagens tão maravilhosas.

Resta sempre um pouco de inveja, positiva é claro, dos corajosos que desafiam a natureza, pois é epopeica a experiência que vivem, como deve ser a relatada pelo alpinista inglês que escalou as maiores elevações da América do Sul. Pretendo ler este livro qualquer hora.

O trecho que percorremos perfaz 379 km, que levamos para atravessar um pouco mais do que as sete horas previstas pelo Google Maps.

Como se pode ver na imagem, foi na primeira parte que enfrentamos os aclives mais pronunciados, porque depois o percurso se desenvolve, pelo altiplano em que se encontra La Paz. Independente dos trechos mais ou menos íngreme da rodovia, todo o tempo estamos cercados de elevações e formações geológicas das mais impressionantes.

Ao contrário da travessia realizada para chegar a Cochabamba, aqui a cordilheira, em patamares mais elevados, mostra-se com toda sua força geomorfológica, já que a vegetação é escassa a não recobre as maravilhosas formas esculpidas pelo tempo, desde a Era Terciária. As fotos falam por si.  Mostram o tamanho dos veículos diante das elevações rochosa.

Fazem-nos rir com as placas de trânsito, solicitando que não ultrapassemos os 50 km por hora, como se isso fosse possível nos trechos mais acidentados.

Representam as camadas que se sobrepuseram e depois se dobraram, formando a cordilheira e mostrando uma sucessão de tempos geológicos.

As fotos também revelam a beleza dos vales que se escondem entre as serras; as encostas mais suaves que foram sendo degastadas durante milênios…

Ao contrário do território onde houve o acidente com o avião da Força Aérea Uruguaia, na fronteira entre a Argentina e o Chile, os Andes são menos inóspitos à vida humana na Bolívia. Por essa razão, havia lugarejos e gente por todo o percurso, ora ocupando vales entre montanhas, ora ocupando justamente as partes mais elevadas.

Em Tapacari, havia uma placa informando que estávamos a 4.102 m de altitude. Saindo do carro para uma foto ou outra, sentíamos tanto o vento frio como um pouco de falta de ar.

Afirmar que a vida é menos inóspita neste território não significa que a vida destes bolivianos deve ser fácil.

A fonte de renda para os que vivem nessas alturas, pelo que pude observar, advém da criação de ovelhas, da produção de algum artesanato muito elementar, da venda de combustível e de alguns alimentos que são oferecidos às margens da rodovia.

Perguntei-me o que levava tanta gente a viver nesse território, em que as dificuldades se apresentam cotidianamente, mesmo no verão.

Depois me lembrei que, provavelmente, a eles não foi dada oportunidade de qualquer escolha. Estão ali e pronto!

É necessário fazer o possível e sobreviver.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 7

Cochabamba

Fonte: https://www.istockphoto.com/es/vector/paisaje-urbano-edificio-abstracto-forma-simple-y-arte-de-estilo-moderno-dise%C3%B1o-gm1370453446-439999162

A primeira visão de Cochabamba foi surpreendente, porque a cidade está encaixada numa bacia entre as montanhas. Desculpem a falta de enquadramento da foto, mas foi o possível com o carro em movimento. A imagem do Google Maps com o relevo, que vem na sequência, mostra melhor a situação geográfica da cidade e possibilita vislumbrar como ela se acomoda entre as montanhas.

Cochabamba é a capital de um dos nove departamentos que compõem político-administrativamente a Bolívia. Situa-se no centro do território boliviano e, por isso, é o único que não faz fronteira com os países lindeiros.

Fonte: https://www.flickr.com/photos/thejourney1972/3473435847

A cidade tem uma população de cerca de 850 mil habitantes, mas a área urbana aglomerada alcança o 1,5 milhão e se chama Região Metropolitana de Kanata, composta também pelos munícipos de Sacaba, Quillacollo, Colchapirhua, Tiquipaya, Vinto y Sipe Sipe.

Ocupa a terceira posição na hierarquia urbana boliviana, depois das áreas comandadas por Santa Cruz de la Sierra e La Paz. Aliás, as três juntas compõem o que chamam de eixo troncal da economia do país

Essa capital regional é caracterizada como centro agropecuário, comercial e industrial. Foi assim que a encontrei descrita encontrei em mais de um site, ou seja, a economia tem o perfil que se pode qualificar como “de tudo um pouco”.

Achei que é uma cidade bonita, ainda que as características gerais das cidades latino-americanas marcadas por imensas desigualdades também estejam por aqui também.

É bem verticalizada e, quando se trata do centro e dos bairros que ocupam a área urbana mais consolidada, ela se parece com muitas cidades brasileiras do ponto de vista do plano urbano e do conjunto arquitetônico.

No entanto, quando chegamos às áreas mais periféricas, a arquitetura marcada por várias edificações de 3 ou 4 pavimentos é bem estranha para o meu senso estético. Os vidros são coloridos, os telhados cheios de recortes e as cores muito fortes. O difícil é fazer uma foto sem um veículo na frente… Talvez, eles queiram se inspirar na arquitetura de Fredy Mamani, que se notabiliza, aqui na Bolívia e internacionalmente, por inovar buscando valorizar as raízes da cultura de seu povo tanto nas edificações como nas decorações internas. A conferir…

Embora essas edificações, localizadas na periferia, tenham a fachada bem acabada, as laterais geralmente nem sempre estão rebocadas como a maioria das demais construções. Estas seriam as melhores construções na periferia porque a maior parte das habitações são menores e ocupam edificações que não estão rebocadas, fazendo com o anel externo da cidade tenha esse tom de tijolo.

A estrutura urbana da cidade é demarcada não apenas pela circunscrição das serras, mas também pela presença do lago Abalay, que, lamentavelmente, estava praticamente seco neste janeiro de 2024. Imagino que no inverno, com as neves que se acumulam nos Andes e o possível degelo, ele volte a ter água. Será?

A parte central, como a maior parte da área urbana, tem o plano ortogonal. A vida pública e parte da vida político-religiosa-institucional se desenrola em torno da praça central que se chama Plaza Metropolitana 14 de Septiembre. Ali se localizam prédios públicos, com suas varandas e arcadas nas calçadas, e a catedral em ocre, como outras igrejas que já vimos na Bolívia.

Passamos boa parte da manhã em torno desta praça. Havia muita gente por ali e nas ruas circundantes, fazendo comércio de rua, filas para órgãos públicos ou simplesmente não fazendo nada, como nós que nos sentamos no Plaza Café, que se localiza no primeiro piso de um bem conservado prédio colonial, e ficamos observando a vida urbana. É de lá o registro da cúpula da catedral.

Cochabamba é chamada de cidade jardim e acho que merece este codinome, porque está florida por todos os lados.

Os ônibus destinados ao transporte coletivo, na Bolívia, são um número à parte. Lembraram os que vimos em El Salvador e na Guatemala. Pequenos, antigos, nada bem conservados, mas alegres. Além de coloridos, vários deles eram nomeados, por qualitativos que dificilmente nós atribuiríamos a um ônibus – Amor, Passion, Loucura, Plazer, Virgen de Luján, Sexy etc.

Adorei! A partir de agora, vou começar a procurar um nome para o me carro. Pode ficar sossegado, leitor ou leitora, que eu não vou pintá-lo de várias cores, ainda que eu já tenha tido um Ka azul turquesa e um Punto vermelho, mas que ele vai ter nome vai.

A cidade de Cochabamba é “abraçada” por um Cristo. Parecido ao do Rio de Janeiro.

O acesso ao Cerro de San Pedro, onde ele se localiza, pode ser feito por uma escadaria por uma escadaria de 1399 degraus (é claro que nem tentei, mas havia muitos bolivianos que, suponho, pagavam promessas fazendo este percurso). Optamos pela segunda via, a estrada que serpenteia o cerro e lá chegamos, com facilidade.

Deveria ser 12h30, o sol brilhava e a varanda que cerca o pedestal da estrada estava cheia de gente. Desde o estacionamento até o patamar onde se ergue o Cristo, foram cerca de 130 degraus (esses eu não tinha jeito de não percorrer). A visão que se tem da cidade a partir deste ponto é maravilhosa.

Imagino que Cochabamba não seja uma cidade muito visitada por turistas estrangeiros, como parece ser o caso de La Paz, porque os frequentadores deste mirante eram, neste dia, sobretudo bolivianos de origem indígena, que estavam em família. Formavam grupos para fotos em frente à estátua ou se agrupavam num cantinho qualquer para comer alguma coisa. Ao contrário do que seria para nós um lanche – quase sempre um sanduíche – eles comiam em pequenas recipientes de plástico ou ágata onde havia uma refeição completa. Muitos abriam a sombrinha para se proteger do sol. Outros compravam enormes sacos de pipoca doce que eram compartilhados entre duas ou três pessoas.

As vestimentas dos homens são parecidas à da maior parte das que veríamos entre brasileiros. No grupo das mulheres, algumas já estão bem “modernizadas”, mas era grande o número das que se vestiam à moda tradicional. A Coca-Cola acompanhava as refeições da maioria deles.

Se você for um dia a Cochabamba não deixe de visitar o Palácio Portales, mantido pela Fondación Patino, tanto pela beleza da construção e de sua decoração interna, como pelos jardins e pela boa museologia que nos oferece uma visita guiada com muitas informações importantes.

Reproduzo aqui um pouco da história deste espaço tão especial:

Ubicado en la zona denominada Queru Queru, el Palacio Portales fue construido entre 1915 y 1927, actualmente está bajo la custodia de la Fundación Simón I. Patiño con cede en Ginebra y es el edifico que alberga al Centro pedagógico y cultural Simón I. Patiño desde 1968.
El arquitecto francés Eugène Bliault diseñó el proyecto del Palacio, y fue ejecutado empleando mano de obra artesanal y utilizando materiales de construcción traídos de Europa – especialmente mármoles y maderas. El Palacio es un ejemplo de estilo ecléctico, que respondía a comienzos del Siglo XX al gusto de las élites europeas. El eclecticismo se caracteriza por utilizar elementos pertenecientes a diferentes épocas y culturas. En el Palacio Portales los distintos estilos que lo componen se fusionan de tal manera entre ellos que el resultado es un conjunto de gran armonía e integración.

Fonte: https://centropatino.fundacionpatino.org/areas/palacio-portales/

Internamente, do que mais gostei foi da sala de jogos; do lado de fora chama atenção as imensas janelas com venezianas que, segunda a explicação da guia, é que justifica o nome do palácio. Por fim, é particularmente agradável a varanda, que se encontra na porção posterior à grande construção, onde hoje funciona uma casa de chá.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 6

Começando a subir os Andes  

Fonte: https://netnature.wordpress.com/2011/08/11/a-origem-e-a-caracterizacao-morfoclimatica-da-cordilheira-dos-andes/

Nós, brasileiros, sempre nos gabamos da extensão do nosso território, de nossa diversidade regional, da fartura de nossas bacias hidrográficas e, sobretudo, da esplêndida Amazônia. No entanto, vamos combinar que faz falta uma cordilheira de verdade.

Entre os maiores países do mundo – Rússia, Canadá, China, Estados Unidos e Brasil – somente nós não temos uma super cordilheira para chamar de nossa.

Daí a admiração que temos pelos Andes. É, em comprimento, a mais vasta do mundo, alcançando oito mil km de extensão, desde a Venezuela até a Patagônia. Em alguns trechos, alcança 160 km de largura de leste a oeste.

Aliás, uma das experiências incríveis de se atravessar os Andes é desconstruir a representação, que vem desde os desenhos que fazemos na escola básica, de que uma cordilheira é uma porção de picos enfileiradinhos.

Fonte: https://br.freepik.com/fotos-vetores-gratis/sol-cartoon/80

Atravessando os Andes na Bolívia, tanto quanto ao atravessá-lo da Argentina para o Chile, percebe-se que se trata de um mar de picos que conformam várias fileiras, muitas vezes separadas por áreas mais planas e elevadas que chamamos de altiplanos.

Essa cordilheira é tão importante, na América do Sul, que a partir dela constituíram-se culturas completas, com etnias, modos de vida e de sobrevivência que são peculiares ao seu território, tanto assim que se cunhou a expressão América Andina, para caracterizar parcelas das terras e da gente no Chile, Argentina, Peru, Bolívia, Equador e Colômbia.

As explicações para seu nome são muitas. Há a relativa à origem Aymara, que designaria “montanha que se ilumina”; há a gênese possível na palavra Quíchua Anti, referindo-se a uma “crista elevada”; pode-se ainda atribuir essa denominação a Antisuyu, relativa a uma parte do Império Inca, por meio da palavra Suyu que indica cadeia montanhosa (fonte: https://historialiteratura.com/2018/05/14/andes-montanhas-pudessem-falar/).

Neste mesmo blog, levanta-se a hipótese sobre o que nos contaria essa cordilheira, berço de tanta história e de culturas diversas:

“Se as montanhas pudessem falar, elas nos contariam uma história…” a frase anterior, adaptada, pertence à letra de If a mountain could talk da banda alemã Helloween.

Já tínhamos feito a travessia dos Andes, entre a Argentina e o Chile em duas passagens da cordilheira:  entre Mendoza e Santiago e entre Salta e San Pedro de Atacama.

Agora cruzamos essa cadeia em duas etapas. A primeira foi a que nos levou da altitude de 400 metros em Santa Cruz de la Sierra aos 2558 em Cochabamba. Vou descrever um pouco esse primeiro percurso (em outro capítulo do diário desta expedição escreverei sobre o segundo).

Saímos de Santa Cruz de la Sierra e ainda percorremos, por muitos quilômetros áreas relativamente planas. Na última terceira parte dos 481 km, começamos a subir a Cordilheira dos Andes e provavelmente chegamos à altitude mais elevada, do que a que se encontra Cochabamba, porque quilômetros antes de entrar na sua área urbana, passamos por declives.

O movimento na estrada era intenso, especialmente na parcela das maiores elevações da cordilheira. Não esperávamos que a rodovia estivesse tão boa, como a encontramos em alguns trechos, com destaque para aqueles que estão já duplicados e compõem uma autopista, que ameniza bastante a subida. Tanto o motor do carro como os nossos pulmões sentiram os aclives.

As paisagens são muito bonitas. No entanto, a combinação entre chuva fina, excesso de veículos na rodovia e falta de acostamento ou de mirantes, que possibilitassem bons registros fotográficos, deixou a sensação de que passamos, mas não degustamos suficientemente a experiência da travessia.

Foi neste trecho da viagem que alcançamos os primeiros 2.000 km desta “expedição” e, pelo velocímetro, podemos ver que não se podia alcançar grande velocidade, principalmente no trecho em que a rodovia não está duplicada, onde um caminhão segura uma fila de vários carros, que demoram para ter oportunidade de ultrapassagem. Foi tenso dirigir neste percurso.

Outra grande surpresa desta experiência de atravessar os Andes na Bolívia foi constatar o grande número de pequenos assentamentos humanos que há ao longo da rodovia. Parecem não ser muito povoados, mas mesmo assim algumas das construções têm três pavimentos.

De todo modo, a grande surpresa para mim, talvez porque estivesse influenciada pela lembrança das duas travessias anteriores, é que, neste trecho a cordilheira está coberta por uma densa vegetação e não se vê, portanto, as rochas afloradas.

Passamos pelo Lago Corani que tem 18 km2 e está a 2.700 metros de altitude.

As nuvens estavam baixas e nos impediam de apreciar o quadro completo composto pelas montanhas elevadas e pelo lago, mas mesmo assim, valeu a pena.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 5

Fonte: https://www.istockphoto.com/br/ilustra%C3%A7%C3%B5es/santa-cruz-de-la-sierra-bol%C3%ADvia

À medida que nos aproximávamos de Santa Cruz de la Sierra, o mundo dos agronegócios começou a imperar. A topografia plana, favorável à mecanização agrícola, as grandes extensões de terras que não devem ter custado caro favoreceram a ocupação agrícola do tipo moderno. A presença de grandes unidades agroindustriais reflete o perfil econômico da região e ajudam a entender porque esta cidade se tornou a maior demograficamente e a mais importante economicamente da Bolívia.

A chegada a Santa Cruz, como é simplesmente chamada por aqui esta cidade, impressionou pela extensão da área urbanizada e pela presença na rodovia de vários tipos de estabelecimentos voltados ao apoio deste agronegócio – venda de máquinas agrícolas e insumos de todo tipo, indústrias de beneficiamento agrícola, escritórios voltados a serviços agronômicos e veterinários etc.

Percorremos vários quilômetros passando pela aglomeração urbana, conformada pela cidade sede de 1,5 milhão de habitantes e por mais seis município compondo um conjunto de mais de 3,8 milhões.

Na periferia desta área, que qualificam como metropolitana, misturam-se casas pobres, além de carros e motos por todo lado. A foto não está boa, mas vejam que até um trator estava estacionado na rua. Aliás, chama atenção como a Bolívia é um país motorizado, ainda que uma parte grande da frota seja muito velha.

A cidade foi fundada em 1561 com a finalidade de apoiar as missões jesuíticas. Esses religiosos estiveram por toda a América, principalmente neste eixo que ligava as áreas de extração de metais preciosos ao porto de Buenos Aires. Quando estivemos em Córdoba, na Argentina, também visitamos edificações que resultaram deste tipo de missões.

Antes disso (sim há um antes dos brancos, dos católicos ou protestantes na América), a região era ocupada por índios da etnia Arwak, vindos do Caribe, os quais ocuparam esse território que, depois, foi conquistado pelos Guaranis, que deram muito trabalho à monarquia espanhola, que insistiu e obteve o domínio sobre grande parte deste subcontinente.

Chegamos cansados ao Hotel Boutique Cosmopolitano, que recomendamos a quem for a Santa Cruz. Ele é anexo a um café simpático com mesas à sombra de uma árvore, outras na área interna do café e mais algumas no pátio interno do hotel, para o qual dão os apartamentos modernos, bem equipados e agradavelmente decorados.

Numa das salas do café, há um mapa enorme da Bolívia no período colonial. O rapaz que nos serviu, na manhã seguinte, fez questão de destacar que Argentina, Paraguai, Peru, Chile e Brasil subtraíram terras bolivianas.

O fato é incontestável e simpaticamente ele nos acusou de ter tomado parte do Chaco Boliviano. Meu marido concordou com a tese de subtração do território boliviano pelos países vizinhos, mas contestou parte das informações, explicando que “adquirimos” o Acre e a tomada do Chaco não coube a nós…

Fui depois verificar e constatei que, em 1903, pelo Tratado de Petrópolis assinado pelos dois países, o território do Acre foi anexado ao Brasil, correspondendo a uma área de quase 190 mil km2.

De um jeito ou de outro, os bolivianos têm todo direito de se lembrar da enorme redução territorial pela qual passaram. O mapa era lindo e achei representativo que ele estivesse ali, naquele café moderninho e que o garçom conversasse sobre isso conosco. Garçons brasileiros entrariam em assunto semelhante com os fregueses?

Essa representação cartográfica foi elaborada em 1850 e o quadro exposto no café devia ter cerca de dois metros de altura.

O Hotel Boutique Cosmopolitano está bem na área central da cidade, que guarda o traçado em quadrícula, típico das colonizações espanhola e portuguesa.

A maior parte das construções antigas, voltadas hoje sobretudo ao comércio, têm, no frontal, varandas sustentadas por colunas de madeira ou de concreto, o que mostra a preocupação com a proteção do sol que é causticante por aqui (mas não na hora em que fizemos as fotos!).

A estrutura urbana desta parte central é comandada pela Plaza Metropolitana 24 de Septiembre, onde se localiza a Catedral Metropolitana e vários prédios institucionais. É uma praça especialmente bonita por causa da vida que há nela.

Fonte: https://es.m.wikipedia.org/wiki/Archivo:Catedral_de_Santa_Cruz_-_Bolivia.jpg

A recepcionista do hotel, ao perguntarmos o que mais valeria a pena ver em Santa Cruz, foi enfática ao apontar este espaço público, cuja beleza não está apenas nas edificações que a ladeiam, mas no uso diversificado que a sociedade dá a ele.

Aliás, isso sempre me chama atenção nas cidades de colonização espanhola na América, ao contrário das brasileiras que talvez tenham herdado, na forma de apropriação do espaço público, a cultura e o comportamento mais discreto ou menos vaidoso do português.

Havia gente por todo lado, de todas as idades e de diferentes condições socioeconômicas. Talvez, a elite não frequente mais este espaço, pelo que observei, mas havia desde famílias muito simples até outras vestidas com roupas de grife, que denotam pertencer à classe média.

O clima das festas de final de ano permanece, como a decoração natalina mostra

Há uma tradição na cidade de, nos finais de tarde e começo de noite, homens vestidos como garçons elegantes servem café aos que estão por ali. Havia vários e tanta gente em volta deles, aguardando para serem servidos, que não consegui fazer uma foto, por isso retirei a que se segue da internet.

Fonte: https://eldeber.com.bo/santa-cruz/el-cafecito-de-la-plaza-24-de-septiembre-ya-es-parte-de-la-tradicion-crucena_245513

As edificações que ladeiam esse espaço público também são servidas das galerias com arcadas para os pedestres. Estavam todas bem conservadas e pintadas de branco, contrastando com o tijolo da fachada da catedral. Numa das faces da praça, esse conjunto arquitetônico está ocupado por uma espécie de shopping center, que está bem integrado à rua, porque há tanto boxes internos como voltados para a galeria da calçada.

Chamou demais minha atenção o número de bolivianas que ainda se vestem à moda antiga, com suas saias rodadas e as duas tranças longas nas costas, na ponta das quais elas penduram uma espécie de pingente de lã.

Provavelmente, elas voltarão a este diário de “expedição” porque estão por toda parte. O que mais me instiga é que não apenas as mais idosas mantêm a tradição, mas há algumas que não devem ter chegado aos 30 anos e se vestem assim.

Para mostrar que a praça é de todos, também havia as muçulmanas de cabeça coberta.

No dia seguinte, saindo de Santa Cruz de la Sierra, pudemos observar melhor os contrastes que marcam a grande aglomeração urbana.

Nas áreas modernas da cidade, predominam arranhas céus de concreto e vidro, como no bairro Equipetrol, que é hoje o coração financeiro da cidade.

Fonte: https://www.skyscrapercity.com/threads/santa-cruz-de-la-sierra-fotos-no-vistas.647438/page-243

Nos arrabaldes, ainda se vê muita pobreza e precariedade, no que se refere às condições para a vida urbana, reforçando a tendência de grandes desigualdades que marcam as cidades latino-americanas.

A venda ou locação dos galões para a compra ilegal de combustível estão mesmo por todo lado, o que nos alivia, ao saber que não somos os únicos a cometer contravenções no país.

A motocicleta é um importante meio de locomoção para as famílias mais simples. Chegamos a ver quatro pessoas se locomovendo por veículos desse tipo, sempre com as mulheres, sentadas à moda antiga, com as duas penas na mesma lateral.

Se quiser conhecer um pouco sobre o urbanismo de Santa Cruz, veja o texto que está no link: https://www.duabitad.com/historiarq/cmo-evolucion-el-urbanismo-de-santa-cruz-de-la-sierra

Achei que deixamos a cidade sem ter tido oportunidade de conhece-la melhor. Isso nos anima a passar por aqui na volta e perambular um pouco mais.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

Bolívia e Peru 4

Finalmente entrando na Bolívia

Fonte: https://pt.dreamstime.com/ilustra%C3%A7%C3%A3o-de-desenhos-desenhados

Na manhã do primeiro dia de 2024, entramos pacificamente na Bolívia, tendo como primeiro destino Santa Cruz de la Sierra. Digo pacificamente, porque a passagem pela fronteira foi sem interceptações…

Na memória, ainda restavam relances da experiência do dia anterior, atrás de informações precisas e dos documentos necessários para passar a fronteira.

Para compensar um pouco a chatice pela qual tínhamos passado, constatamos que era mesmo necessário todos os papeis e carimbos atrás dos quais corremos, porque dois policiais nos pararam no percurso e olharam para eles com detalhe. Teria sido pior, ao menos psicologicamente, se não fossem necessários os papeis cuja obtenção nos roubou um dia do passeio.

A Natureza continuou a imperar a oeste do Rio Paraguai, espelhando as paisagens que tínhamos apreciado antes da fronteira, ainda no território brasileiro. Primeiro, o Chaco que se assemelhava, à primeira vista, ao Pantanal brasileiro.

Depois, o número de árvores aumentou e nos deparamos com uma formação que eu chamaria de Cerrado.

Nos últimos 150 km, à medida que nos aproximávamos de Santa Cruz, a agricultura começou a predominar nas extensas planuras. Na imagem de satélite que se segue, é possível observar as diferenças de biomas pelas quais passamos neste dia. Nos 2/3 iniciais saindo de Corumbá, áreas relativamente bem preservadas, com cobertura nativa; no último terço, chegando a Santa Cruz de la Sierra, as áreas de uso agrícola.

Não importam aqui as denominações – Chaco, Cerrado ou …. –, mas sim dizer que atravessamos áreas muito bonitas e, em certa medida, bem parecidas às que vislumbramos nos últimos 300 km antes da fronteira.

Ladeamos o Parque Nacional del Gran Chaco e a impressão é de que as características dos biomas naturais estão bastante respeitadas. Estávamos também ansiosos para ver as condições da estrada. Até El Carmen, o asfalto estava pouco conservado, não havia faixas demarcando as pistas, nem muitas placas de sinalização. Na própria pista ou nas suas laterais, a água se acumulava, mostrando o perfil de área de inundação do Chaco.

Atravessamos muitos quilômetros, vendo poucos assentamentos e, portanto, pouca gente. Aqui e ali, algum pequeno povoado com casinhas muito simples.

Já tinha ficado para trás El Carmen, quando vimos o primeiro posto de abastecimento de combustível. Rapidamente, percebemos que alguma coisa não iria acontecer da melhor maneira possível.

Haviam duas filas longas que logo se desdobraram em quatro filas, uma para cada bomba, embora fosse um pouco difícil compreender a lógica que comandava o caos de veículos entrando e saindo por todos os lados.

Meu marido se adiantou para perguntar se seria possível pagar com cartão de débito internacional e disseram que sim, sem maiores detalhes.

Finalmente, chegamos à bomba de abastecimento, quando fomos informados que não era possível abastecer carros com placas de outros países.

Como assim? Não é possível abastecer carros que vêm de outros países. As explicações não foram muito didáticas, mas depois viemos a entender que o combustível é subsidiado para os bolivianos e somente os que tem o registro no sistema (outro sistema!) e um número PIN poderiam ser abastecidos nos postos de forma legal.

Não ficamos muito convencidos que essa regra se aplicava aos estrangeiros, porque logo vimos vários bolivianos enchendo galões de combustível e em seguida abastecendo seus carros. Eles não têm registro no sistema? Seus carros não têm documentos? Não há postos com a frequência necessária e por isso há necessidade dos galões?

Tudo isso e mais um pouco são explicações plausíveis, porque logo ao lado do posto, há um quiosco com galões disponíveis, usados e velhos. Sim, usados porque não estão ali para venda, mas para aluguel, pelo preço de um peso boliviano (cerca de 70 centavos de real), com direito a empréstimo do funil, feito com pet de refrigerante.

Não é hilário? Quase surreal? Ali mesmo onde se vendem refrigerantes gelados e todo tipo de quinquilharia, misturando-se com frutas e com milho, estava o pau fincado próximo ao meio fio com praticamente uma dezena de galões, que eram locados e devolvidos em menos de 15 minutos.

Foi fácil constatar que, na Bolívia como no Brasil, há sempre um modo de se dar um jeitinho. Rimos da situação inusitada de abastecer o carro de modo ilegal e precário, ao lado do posto onde isso não poderia ocorrer de modo legal, mas ficamos preocupados com os quilômetros que tínhamos pela frente, razão pela qual prevenir seria melhor que remediar.

Mais ou menos no meio do trajeto, estava San José dos Chiquitos que, no dia anterior, tinha sido aventada como uma parada, caso conseguíssemos nos desvencilhar mais cedo da papelada na fronteira.

Olhando na Wikipedia fiquei sabendo que é capital da Província de Chiquitas, pertencente ao Departamento de Santa Cruz.

Foi fundada pelos jesuítas em 1697 e hoje é uma cidade de pouco mais de 20 mil habitantes, bastante pobre, mas com alguns hotéis para turistas interessados em visitar a área das missões e de se beneficiar de banhos.

Não cheguei a me inteirar que tipos de banhos são estes, mas supus que devem fazer bem, já que a poeira dominava o pequeno aglomerado, que, sinceramente pareceu pequeno para este tamanho demográfico.

Não tivemos tempo de nada, a não ser procurar um posto de combustível, que não encontramos, e de fazer nosso lanche à sombra de uma árvore numa rua qualquer. Propusemo-nos, nesta viagem, a não comer alimentos preparados em postos ou quioscos na estrada, para nos prevenirmos de bactérias e diarreias… Por essa razão, antes de pegar estrada, passamos em algum supermercado ou cafeteria que nos pareça limpa para comprar o lanche da viagem.

Agora que estou escrevendo esse texto, dou-me conta  que teria valido a pena gastar um tempinho para conhecer as construções mais antigas de San José de Chiquitos, mas estávamos focados em chegar em Santa Cruz antes de anoitecer. Quem sabe na volta, teremos chance de ver um pouco melhor esses testemunhos da história colonial boliviana, como esta edificação que a foto retrata.

Fonte: https://es.wikipedia.org/wiki/San_Jos%C3%A9_de_Chiquitos#

O bom das viagens é que mesmo nos preparando para selecionar os pontos que merecem visita, sempre nos surpreendemos com alguns lugares que nunca imaginamos conhecer e que estão ali, no meio do caminho. Assim, foi com San José dos Chiquitos (não é um nome bonitinho?).

Na segunda metade do trajeto, as paisagens começaram a se modificar um pouco. Uma linda serra estava diante de nós com formações bem especiais. Nem todas as fotos estão nítidas, porque não havia acostamento e os registros foram feitos com o carro em movimento (agora com a precaução de não levar o telefone celular para fora da janela e não o ver voar novamente como ocorreu no Mato Grosso do Sul). As imagens a seguir retratam um trecho especialmente bonito deste percurso.

A estrada serpenteava a serra, de modo muito parecido ao trajeto próximo à Serra da Bodoquena ainda no Brasil. Logo se constata que a Bacia Platina conforma um ambiente com bastante similaridade dos dois lados do Rio Paraguai.

À medida que nos aproximávamos de Santa Cruz de la Sierra o mundo dos agronegócios começou a imperar, mas isso fica para o próximo capítulo deste diário, pois a viagem foi longa, o calor intenso e os percalços com o abastecimento do veículo levavam a várias paradas. Levamos cerca de 10 horas para percorrer os 655 km.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024