Bolívia e Peru 3

Fonte: https://www.educamaisbrasil.com.br/enem/geografia/globalizacao

Há pelo menos 30 anos a ideia de globalização foi incorporada à narrativa sobre o nosso tempo.

Primeiro, apareceu como uma expressão que, cunhada no discurso midiático, era capaz de traduzir rapidamente um conjunto de transformações no mundo, que ainda não estavam decifradas no plano científico.

Depois, vários pesquisadores do campo das Ciências Humanas, entre ele Milton Santos que aparece na imagem seguinte, propuseram teorias para explicar as mudanças pelas quais o capitalismo vinha passando.

Fonte da imagem: https://www.youtube.com/watch?app=desktop&v=_XNTrI8rAZI

Entre os estudiosos, há relativo consenso sobre o fato de que a globalização funciona para o capital, mas não se aplica totalmente ou de forma homogênea para a sociedade.

Primeiramente, porque os nacionalismos com todas as suas cores, das mais bonitas até as mais encardidas, continuam a exercer sua força na política e na cultura.

Depois, porque, para a Economia, é fundamental que as barreiras se arrefeçam, mas apenas na medida em que interessa aos grandes grupos econômicos.

Por fim, porque as relações entre países são estabelecidas nas fronteiras, no dia a dia, por gente, que não está interessada, nem em diminuir a burocracia, nem em resolver os problemas para quem quer passar daqui para ali.

Por isso, um casal, que toma todas as providências para expedir os documentos que são necessários para ir do Brasil para a Bolívia e circular neste país com um carro, leva exatamente oito horas para obter vistos e autorizações, e perde com isso o tempo que levaria para se deslocar até Santa Cruz de la Sierra no último dia de 2023.

Agora, passados dois dias, posso dar um tom pitoresco aos acontecimentos, mas foi uma verdadeira epopeia, que  vou resumir aqui.

Tudo começou numa noite não tão agradável na Pousada 4 Cantos.

Já pensou em conhecer o Pantanal? Em se hospedar em Corumbá? Ótimo, mas não se hospede nessa pousada, que tem um nome bonito, aparece em fotos razoáveis no Booking, mas efetivamente não passa de uma hospedaria mal cuidada, em que pese a gentileza das senhoras que nos serviam como se estivéssemos na cozinha da casa delas. E, de fato, estávamos!

Saímos 7h30 para enfrentarmos os mais de 600 km que nos esperavam. Passamos pela Polícia Federal brasileira e ninguém nos parou.

Passamos pela Polícia Boliviana e nada de nos interceptarem ou perguntarem alguma coisa.

Não era possível que fosse tão fácil…

Paramos para trocar dólares por pesos bolivianos e aproveitamos para perguntar por que a passagem era tão fácil e nos foi explicado que a maioria das pessoas que passam por esta fronteira seca são moradores de Corumbá, do lado brasileiro, e de Puerto Quijarro e Puerto Suárez, do lado boliviano.

Deduzi que são travessias cotidianas, que oscilam conforme o câmbio das moedas dos dois países e as oportunidades de trabalho e estudo aqui ou ali.

Nós que vamos atravessar o país deveríamos, então, voltar para o lado brasileiro e entrar na fila da “oficina” da Polícia Federal. Foi o que fizemos e, assim, já se passaram os primeiros 30 minutos da nossa epopeia.

Estacionamos o carro, ao lado dos carros dos policiais que chegavam, às 8h, para abrir o guichê e já havia uma pequena fila. Todos aparentavam ser bolivianos e supus que trabalham do lado brasileiro e queriam voltar para seu país para o Réveillon.

Entrou a primeira família em busca dos carimbos necessários e a porta de acesso aos guichês ficou entreaberta. Não se via qualquer movimento… Resolvi contornar o prédio e achei uma janela aberta, por onde se atendia a outra fila – a dos que queriam entrar no Brasil (aliás, era uma fila bem maior). Tudo parado.

Resolvi fazer sinais para que lá do outro lado do vidro dos guichês que estava a cerca de dois metros dessa janela, alguém olhasse para os pobres mortais do lado de fora, sob uma temperatura que já começava a se elevar.

Tive clara impressão que eles viam meus acenos, mas faziam de conta que não. Revolvi insistir, dei pequenos pulos, para aparecer com maior evidência no enquadramento da janela que era alta em relação ao piso, até que uma moça trajada como polícia federal e portando uma arma pesada demais para sua magreza, gentilmente saiu do ar condicionado e veio até a tal janela.

Explicou que o sistema estava fora do ar. Sempre os sistemas! Perguntei quanto tempo ficaríamos ali e ela disse para aguardar mais um pouco porque já estavam carregando o tal sistema. Agradeci, mas pedi que ela fosse até a porta entreaberta para explicar tudo isso para as trinta pessoas, mais ou menos, que aguardavam. Ela aquiesceu sem convicção, mas daqui a uns minutos apareceu por lá e repetiu oficialmente a explicação que eu já tinha difundido ao voltar.

Aproximei-me dela novamente e perguntei por que não havia um sistema de senhas, assim, podíamos sair da fila, que, aliás, estava a 3 metros da fosse séptica, que exalava odores desagradáveis, e nos sentarmos nuns bancos que estavam na sombra a alguns metros dali.

Ela respondeu: “Nunca pensamos nisso, porque o sistema nunca cai e a fila sempre anda rápido”… Foi irritante escutar que nunca pensaram nisso.

Permanecemos na fila, onde uma criança especial chorava sem parar (não é para menos, se até nós tínhamos dificuldades de entender o que estava acontecendo) e os vendedores de água, refrigerantes semigelados e batatas fritas não cansavam de oferecer seus produtos

Passados 30 ou 40 minutos, meu marido voltou na tal janela e já a encontrou fechada, justamente para que não pudéssemos mais aborrecê-los.

Daqui a pouco, a mesma moça sai pela porta e informa que o sistema estava “caído” em Brasília e não havia estimativa de recuperação dele… Perguntamos até que horas o guichê ficaria aberto e ela informou que até 18h. Alguém contrapôs a informação que, do lado boliviano (onde deveríamos passar na sequência), os guichês fechariam ao meio dia.

Foi desanimador… Lembramos que tivemos dificuldades de reservar hotel para o dia 30 de dezembro em Corumbá e já trememos de imaginar mais uma noite na Pousada 4 Cantos. Voltamos para a cidade e entramos no Hotel Nacional, o melhor por lá.

Perguntei ao recepcionista se havia apartamento para aquela noite. Ele respondeu de pronto que não. Insisti, ele resolveu abrir o sistema (outro sistema!) e achou um apartamento com duas camas de solteiro, que reservei imediatamente, já antevendo que o sistema da Polícia Federal demoraria a voltar a funcionar.

Esperamos 11h e voltamos para a fronteira. A fila estava andando. Que alívio! Na parede externa, havia um aviso mal colado com fita crepe sobre a lei brasileira que garante atendimento prioritário. Alguém entrou com um bebê no colo e resolvemos entrar na sequência. Eram três guichês. Eles estavam no ar condicionado e o aparelho que deveria refrescar o lado de cá do vidro estava ostensivamente desligado.

Alguém acabou o atendimento no guichê do meio e nos aproximamos, informando que tínhamos mais de 60 anos (como se precisasse, porque estava nas nossas caras que o temos).

Com um tom desagradável, o policial informou que iria nos atender, mas que ali na Polícia Federal quem faz as regras são eles e que não costumavam obedecer a lei de atendimento especial.

Um acinte! No entanto, resolvemos calar, ao invés de dar a resposta que ele merecia, já que pediu nossos passaportes. Inseriu os dados no sistema, folheou as páginas curioso, olhando para os carimbos de outros países que ali estavam registrados e com muito má vontade descarada, carimbou os nossos.

Saímos vitoriosos, mas penalizados com a fila que ainda deixamos para trás.

A passagem pela polícia boliviana foi rapidíssima. O prédio era mais simples, apenas um policial que rapidamente tirou fotos nossas e carimbou nossos passaportes. Outro alívio.

Por desencargo, resolvemos perguntar se estava tudo ok para entrar na Bolívia. Eram 12h e poderíamos ainda tentar chegar a Santa Cruz de La Sierra ou a San José de Chiquitos, onde havia disponibilidade nos hotéis, conforme consulta ao Booking.

O ânimo arrefeceu novamente, quando nos foi informado que precisávamos ir até a Aduana, por causa do veículo. Agora outro périplo começava. Meu marido passou pelo guichê com relativa rapidez, já que tínhamos trazido todos os documentos solicitados no site que havíamos consultado. Abriram um enorme portão, por onde deveria entrar o carro para a vistoria. Eu deveria ficar do lado de fora, pois apenas o motorista poderia entrar. Razoável, não fossem os 38 graus centígrados e a falta de um banquinho para se sentar do lado de fora. Acho que, depois de 30 minutos, minha cara estava tão triste que o rapaz me deixou entrar, justificando “para ficar com su marido!”.

Éramos o segundo carro de uma fila imaginária que acompanhávamos com ansiedade, já que o tal rapaz informou que, quando completasse cinco carros, a responsável pela vistoria viria.

Cinco, seis, sete carros e nada. Calor, sede e fome. Pedir um banheiro seria demais. Quando ela finalmente chega e começamos todos a abrir os capôs dos veículos e as portas para que ela olhasse se havia alimentos perecíveis, damo-nos conta que ela começa por onde bem entende e de segundo carro passamos à posição de penúltimo a ser vistoriado.

Novamente por desencargo de consciência foi perguntado se podíamos então circular tranquilamente na Bolívia e ela respondeu que era necessário ir até a Polícia de Trânsito de Puerto Quijarro ou, então, a de Puerto Suárez.

Novamente, lá fomos nós, ainda com os dados móveis funcionando e seguindo as orientações do Google Maps. Encontramos o escritório de Puerto Quijarro fechado.

Ao longo da avenida, o ânimo já era de festa, com as famílias assando “pollos” para o almoço em fogareiros na calçada.

Pegamos a rodovia para Puerto Suárez e fomos até o local indicado no mapa. O policial saiu da sala com ar condicionado, sem nos deixar entrar e indicou outro endereço no final da cidade.

Lá fomos nós. Chegamos e percebemos que era também uma cadeia. Por trás de um portão, que achei frágil demais, se antevia o corredor para o qual davam as celas. Um senhor veio, demonstrou que não sabia como fazer o documento solicitado.

Telefonou ao Coronel, na nossa frente que informou que o Munhoz sabia fazer o tal papel. Não vi Munhoz algum por perto. O mesmo senhor telefona para ele que já estava chegando e entra suado no corredor onde tentávamos em vão obter o que precisávamos.

Como se soubéssemos, o Munhoz explica: “Desde que uma parte deste prédio pegou fogo, esse serviço deixou de ser feito aqui e passou para a mesma avenida, onde está a aduana em Puerto Quijarro, bem em frente da qual haveria um “quiosco” onde o documento seria expedido.

Não acreditamos que a moça da Aduana não soubesse disso. Voltamos indignados pela rodovia e lá encontramos a salinha onde um simpático policial rapidamente digitou o documento, pediu para conferirmos as informações, carimbou, assinou e disse que custava 100 pesos bolivianos (cerca de 70 reais), que rapidamente pagamos sem obter qualquer recibo… Acho que era apenas para as “cervezas” do Réveillon.

Olhamos dez vezes a autorização e, mesmo tendo que ficar indignados, ficamos, isto sim, aliviados.

Eram 15h30. Desistimos de pegar a rodovia e voltamos para Corumbá, onde a reserva do Hotel Nacional nos foi valiosa. Vejam o mapa com os 65 km que percorremos atrás dos documentos e acrescentem mais 16 km, visto que não registrei a ida para fazer a reserva do hotel por volta das 11h da manhã.

Ufa!!! Cansei vocês leitores com essa chatice, mas imaginem como nós ficamos.

Entramos no quarto, ligamos o ar condicionado e dormimos por uma hora para descansar da loucura que vivenciamos.

Foi assim que vimos 2024 entrar em Corumbá e não em Santa Cruz de la Sierra como previsto.

Em que pese a confusão, o jantar no restaurante do hotel foi animado. Degustamos um vinho branco Chablis que nosso querido sobrinho Gustavo nos presenteou na véspera e pouco antes da meia noite fomos para a beira da piscina do hotel, onde jovens, crianças e mais velhos já bebiam e dançavam, embalados pela banda animada que tocava música boliviana.

Carminha Beltrão

Adeus 2023

Bolívia e Peru 2

Do Cerrado ao Pantanal

Fonte: https://app.estuda.com/questoes/?id=5607458

Num país extenso e diverso ambientalmente como o Brasil, de algum modo, vão se constituindo representações sobre o ambiente natural que hierarquizam os diferentes biomas e suas paisagens.

Quando estava cursando os antigos cursos Primário e Ginásio adorava as aulas de Geografia, sem imaginar que seria um dia geógrafa.

Lembro-me bem que as excelentes professoras que tive – Dona Miyako, no 2º ano do Externato Santa Cecília; Dona Maria da Paixão, no 4ª ano primário do Colégio Santa Amália; Dona Eli, professora de Geografia da 1ª série ginasial do mesmo colégio – demoravam-se nas descrições sobre a Amazônia, tecendo loas ao tamanho da sua bacia hidrográfica, à altura das árvores mais frondosas etc. etc.

Também dedicavam bastante tempo às referências à Mata Atlântica ou às coníferas do Paraná. No entanto, se bem me lembro, pouco tratavam do Cerrado e do Pantanal.

Sobre o Cerrado, destacavam elementos relativos à pobreza de seus solos e aos caules das árvores, pouco largos e sem oferecer madeiras de lei.

No que se refere ao Pantanal, frisavam a baixa densidade demográfica e a pecuária extensiva de baixa produtividade, visto que as áreas de inundação, no período chuvoso, restringiam o tamanho do rebanho e sua sobrevivência.

Quando estava na faculdade, aos poucos, essa visão começou a se alterar, até porque, com os avanços científicos de pesquisadores das universidades e da Embrapa, a área do Cerrado passou a ser valiosa para a agricultura de exportação associada ao agronegócio.

De todo modo, penso que remanesce a tendência de hierarquizar os biomas brasileiros dos mais para os menos importantes, o que me parece um equívoco, porque não podemos comparar territórios que são, em princípio, constituídos e caracterizados pelas diferenças.

Quando fui morar na França, em meados da década de 1990, algumas pessoas, ao saberem que eu era brasileira, faziam referência tanto à Amazônia como ao Pantanal e me dei conta assim que este bioma é tão valorizado internacionalmente como aquele. Aliás, talvez, seja esta uma das explicações para as diárias tão altas nos hotéis, que estão situados em territórios que favorecem a apropriação de suas belezas – eles são cotados em dólares ou euros…

Hoje, fazendo o percurso de 426 km entre Campo Grande e Corumbá, tenho a oportunidade de observar as paisagens maravilhosas que compõem essas duas grandes áreas naturais do país, ainda que já bastante alteradas pela ocupação humana e pela atividade agropecuária.

Saindo de Campo Grande, ainda predominam, por vários quilômetros, as grandes propriedades rurais, ocupadas pela pecuária predominantemente. Aos poucos, à medida em que nos distanciamos da cidade, as paisagens típicas do que se conhece como Cerradão ladeiam a estrada. O céu estava carregado e a sensação de calor era um pouco menor do que no dia anterior. Olhava para o painel do carro e as temperaturas oscilavam entre 33 e 35 graus.

Desde que comecei essa “expedição”, estou empenhada em fazer registros fotográficos os melhores possíveis, porque sei que nem a memória nem a retina vão guardar estas imagens.

Repentinamente, abri o vidro para colocar os braços para fora e me “aproximar” daquelas maravilhas. Senti o vento forte, anunciando a chuva.

Paft Puft! O celular voou longe, bateu numa pequena mureta que havia no acostamento e o carro seguiu por algumas dezenas de metros. Paramos, sem esperança de recuperar o aparelho, que poderia ter voado para o meio da mata. Olha aqui, olha ali e lá estava ele, com a capinha e a cobertura da tela danificados, mas imóvel, aguardando-me, caído no acostamento.

Corri e peguei o equipamento valioso que, nos dias de hoje, conecta-nos aos pequenos e grandes mundos que nos cercam. Percebi aliviada, que ele continuava a funcionar. Lá estava a galeria com as fotos, as mensagens de WhatsApp entrando, os avisos do Face, as reservas feitas pelas plataformas Booking e AirBnB, as carinhas dos três netos que compõem a tela de abertura do smartphone etc. etc. etc.

De repente, os pingos grossos começaram a cair e a chuva veio menos intensa do que o céu cinza prometia.

Saíamos do Cerrado e entrávamos no Pantanal. As planuras e as áreas de alagamento passaram a dominar a paisagem, entremeadas pelas elevações que compõem a Serra da Bodoquena. Embora a estrada pouco se movimente do ponto de vista da altitude, ela serpenteia com suas curvas as elevações que compõem a serra, alternando-se, como se passassem da esquerda para a direita da rodovia.

Quando a primeira grande área alagada apareceu, ao longo da rodovia, os jaburus, aves símbolos do Pantanal, com seus pescoços e partes internas das asas em preto, dançavam como se anunciassem que, aos poucos chegávamos à fronteira oeste do país e ao final de 2023.

A travessia do Rio Paraguai a algumas dezenas de quilômetros de Corumbá impressiona pela sua largura e também porque a ponte se eleva, conformando um leve arco, provavelmente para possibilitar a passagem sob ela de embarcações grandes.

Mesmo sendo o último sábado do ano, havia trabalhos de reparo na ponte e apenas uma fila de carros circulava por vez.

Do outro lado, enfileiravam-se os veículos que deixavam Corumbá com destino a outro ponto do país para o Réveillon. Para onde? Sei lá… Esta cidade teve na sua origem grandes relações com o Rio de Janeiro, a partir da navegação pela Bacia do Prata e, na sequência, de Buenos Aires à capital do Brasil pelo Atlântico… Até o sotaque da elite da cidade tinha algo de carioquês.

Fiz as contas e conclui que seriam muitos quilômetros se uma parte destes carros desejasse chegar ao litoral para ver nascer 2024. Talvez, para os de Corumbá, a centralidade tenha se deslocado para Campo Grande, que é hoje uma capital bonita e rica.

Apesar das inúmeras placas recomendando que se preserve o Pantanal, vimos vários animais abatidos às margens da rodovia, como resultado de atropelamentos.

Lamentamos que as rodovias brasileiras não sejam construídas com passagens inferiores, para que a fauna circule de um lado a outro.

Falta muito para se ter efetivamente uma política ambiental no país, em que pese a maravilha dos nossos biomas.

Carminha Beltrão

Dezembro de 2023

Bolívia e Peru 1

Fonte: https://pt.vecteezy.com/arte-vetorial/2898214-termometro-de-calor-40-graus-celsius

Às vezes tenho dificuldade de explicar, a um ou outro, por que resolvemos fazer uma viagem como esta. Serão alguns milhares de quilômetros de carro, por estradas que não são boas como as autopistas, que percorremos, quando viajamos pela Europa ou pelos Estados Unidos.

Alguns argumentam que teria sido melhor ir de avião até La Paz; outros perguntam se não é perigoso um casal de 73 e 68 anos sair por aí dirigindo por longas distâncias; há os que se admiraram e disseram que adorariam fazer igual, mas agradeceram, com certa reserva, o convite para nos acompanhar.

Todos sabemos que muitas escolhas que fazemos não são as mais racionais, mas, com certeza, pensando nelas, encontram suas raízes em valores ou desejos, que vamos acalentando durante a vida, seja no consciente, seja no inconsciente.

Há explicações objetivas, é claro: somos um casal de geógrafos e nada se compara a andar por aí, olhando o mundo.

Há outras não tão objetivas, como a de mostrar a nós mesmos que é possível se fazer coisas que a maioria pensa que não seria tão adequada à nossa idade.

Há o desejo de ter um mês inteiro sem trabalho, passando os dias por lugares que não conhecemos e revendo alguns que consideramos muito especiais em outras viagens…

Para que explicar?

Pensei em adjetivar essa viagem como uma “expedição”, mas observando, em dicionários, o efetivo sentido da palavra, hesitei:

Ato de fazer com que alguma coisa atinja o seu propósito: expedição de um documento. [Figurado] Conjunto de pessoas que viaja para determinado território para o analisar, geralmente com propósito empírico: expedição geológica.

fonte: https://www.dicio.com.br/expedicao/

Ok, não há dúvida que queremos atingir algum propósito, no entanto estamos longe da intenção de fazer essa viagem com o objetivo de analisar alguma coisa, o que geógrafos, como nós, fazemos sim, mas em outras viagens…

Pensando mais um pouco, não importa muito se estou sendo precisa ou não, ao apelidar nossa viagem assim, uma vez que, lá no fundo, espero que o espírito de uma “expedição” se aproprie de nós, durante essa experiência que estamos hoje começando a viver (desde que os quartos e banheiros que reservamos fiquem entre razoáveis e ótimos).

O primeiro trecho foi de 430 km entre Presidente Prudente e Campo Grande. Trata-se de um trajeto muito conhecido nosso, mas a sensação de começar a “expedição” e as férias trouxe um brilho novo para tudo.

As chuvas de verão deixaram o cerrado mais verde que o comum e mesmo as extensas áreas de pastagens chamavam atenção pela planura do relevo que possibilitava uma visão de conjunto muito agradável. Saímos às 14h00 e o calor estava estonteante. Durante a maior parte do percurso, o termômetro do carro indicava que, do lado de fora do veículo, a temperatura era de 40 graus centígrados. Mesmo com o carro em movimento, arrisquei o registro fotográfico para mostrar o tamanho do sol.

Carminha Beltrão

Dezembro de 2023

março 2026
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Uzbequistão 11 – Khiva e os objetos que contam sua história

Como em todo mundo de influência árabe, não há clara distinção entre o espaço privado e o público, assim o comércio está por todo lado, em lojas, tendas, praças, ruas… Além das mercadorias que já havíamos visto em Tashkent, Samarqanda e Bukhara, aqui em Khiva chamou atenção a oferta de produtos resultantes da influência mongol e, mais recente russa, como os chapéus de pele que estavam expostos por todo lado.

Na visita ao museu, que ocupa a construção que outrora havia funcionado como madraça, fiquei fascinada pelas roupas tradicionais dos uzbeques. Por mim, teria no grande mercado de Khiva comprado uma ou duas réplicas, mas, aqui entre nós, estava sendo reprimida para não exagerar com compras que, depois, não caberiam na bagagem. Meu gosto pela decoração de ambientes, sempre me faz imaginar que ficaria maravilhoso pendurar em exemplar destes na parede…

A foto de um casamento no século XIX mostra que eles valorizavam as vestes e que pouca diferença havia, aos olhos estrangeiros ao menos, entre as roupas masculinas e as femininas. Ambas eram largas, serviam para agasalhar, eram sobrepostas a outras, mas, segundo as informações não se levavam roupas íntimas abaixo delas.

Adorei ver no museu os documentos históricos que atestavam a posse sobre uma dada extensão de terra, que eram gravados em pedras. Fico imaginando quantos escravos eram mobilizados para transportar estas escrituras.

Sobre os tapetes que estavam expostos no museu, nem vou falar muita coisa, além de informar que alguns levaram meses e meses para serem tecidos e, mesmo depois de dezenas, centenas de anos, continuam lindos.

As cerâmicas seculares não ficam atrás na beleza e no domínio da técnica para sua produção, sobretudo ao se imaginar que foram feitas há alguns séculos. As informações registradas no museu indicam que, antes de haver contato com a China, os tons utilizados eram variações do marrom ao ocre. O apreço pelo azul teve início com as trocas com os vizinhos de leste.

As botas de veludo bordadas usadas pelas mulheres ricas, especialmente em seus casamentos, também são muito lindinhas e os colares que elas portavam nas bodas eram enormes e podiam chegar a pesar mais de 15 kg, junto com pulseiras e brincos.

Os sapatos usados para o trabalho no campo ou para as grandes viagens eram mais rudes, mas não deixam de ter valor pelo trabalho manual que representam.

A foto que se segue ajuda a imaginar como era um ambiente utilizado pelos homens mais ricos para conversar, fazer negócios e tomar um chá. No apoio, sempre as lindas mesinhas pintadas em cores alegres.

Em Khiva, registrei a maravilha dos sobre relevos nas portas em madeira. Foi explicado a nós que os uzbeques mantêm a madeira passando sempre azeite para lubrificar (vou fazer o mesmo nos objetos de madeira que eu tenho). Também disseram que os mais ricos tinham suas portas com uma única folha, porque era mais difícil de ser rompida e eu achando as de duas mais bonitas… Algumas entre essas portas têm mais de seis séculos.

Quantas mãos terão tocado essas portas, através do tempo? O que terá ocorrido atrás delas? Quanta felicidade ou quanta tristeza, quanta opulência ou quanta exploração, quantas vidas e quantas mortes elas terão escondido do olhar alheio…

Carminha Beltrão

Maio de 2023

Uzbequistão 10 – Khiva em apenas 24 horas

Uma parte da população de Khiva vive dentro da muralha, ocupando construções antigas que compõem, lado a lado às grandes edificações históricas, um ambiente bastante homogêneo, em que os tons ocre predominam.

Essa população, no entanto, não pode alterar ou ampliar suas casas sem autorização do poder público, de modo a que seja verificado se está ou não havendo respeito às normas urbanísticas, que orientam as construções nesta área. Aliás, li em algum site que Khiva foi a primeira cidade uzbeque a ser reconhecida como Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

Muitas destas casas, hoje, oferecem hospedagem como guest houses aos turistas. Imaginei que deve ser interessante uma experiência como esta, ainda que a língua possa ser uma barreira para a comunicação entre quem oferece a hospedagem e quem se hospeda. Quando estivemos na África do Sul, tivemos essa oportunidade e foi bem legal, mas lá era mais fácil, porque mesmo os de origem africana falam o inglês.

Após a viagem longa que fizemos, descrita sucintamente no capítulo anterior, chegamos a esta cidade com a chuva caindo firme. Mesmo sabendo que ela ocupa um oásis no meio das áreas desérticas do Uzbequistão, imagino que deve ser tão incomum a pluviosidade em Khiva, que chovia na área social do hotel, onde há um teto retrátil, e no banheiro dos apartamentos pingava sem parar, a partir de um pequeno orifício no gesso do forro. Imagino que nada foi construído para estar preparado para receber chuva e caía muita água no dia 5 de maio de 2023.

Saímos para jantar e logo nos demos conta de que é preciso ter reservas. No primeiro restaurante, não pudemos ficar; no segundo, foi-nos autorizada a entrada, desde que saíssemos às 20h, porque havia uma reserva para aquela mesa, e eram 19h20.

Observando a maioria dos restaurantes uzbeques, noto que há sempre muita gente trabalhando, mas não há uma divisão e organização do trabalho que leve à eficiência. Eles não param de andar de um lado para o outro, são solícitos, mas nunca os pratos pedidos por nós chegam simultaneamente, de sorte que às vezes um já está acabando de comer, quando o outro tem seu pedido atendido.

A noite foi muito bem dormida, depois da expedição de travessia do deserto.

O passeio, no dia seguinte, começou com guarda-chuva, para depois continuar o dia todo com um céu nublado. Após as temperaturas elevadas que experimentamos em Samarqanda e Bukhara era um alívio poder caminhar sem sentir calor demais.

Há tanta coisa para ver em Khiva, no entanto, há para o olhar estrangeiro muita repetição – madraças, mesquitas, minaretes, mercados… Tanto assim que, à primeira vista, parece que nada vai encantar, porque já estamos com uma overdose de lugares, histórias, informações e experiências, mas não é bem assim porque a cidade é muito especial. Com certeza, essa sensação de fastio é decorrente de já estarmos na fase final da viagem.

O passeio por Khiva transcorreu em apenas um dia. Pareceu pouco, num primeiro momento, mas como a cidade é compacta e pudemos conhecer todos os monumentos andando a pé, o tempo rendeu.

Começamos o percurso pelo grande painel, em que com os mesmos tipos de azulejo que utilizam para as mais lindas decorações uzbeques, eles representaram o mapa da cidade histórica. O difícil foi conseguir fazer uma fotografia sem que houvesse uma cabeça na frente dele.

As muralhas aparecem na imagem de satélite que se segue e se pode ver, na seguinte, que a cidade histórica ocupa uma parte pequena da Khiva atual.

Mal adentramos na cidade, o minarete cuja construção não foi concluída logo chama atenção, porque sua forma assemelha-se mais a uma usina atômica, do que a uma construção cuja finalidade é avisar os horários de oração. Em que pese não ter sido finalizado, esse minarete, especialmente, encanta por ser totalmente coberto por azulejos. Ele foi planejado para ter 70m, mas ficou em 30 e poucos. Ainda assim, ele se destaca no horizonte urbano de Khiva.

Aonde quer que fôssemos, lá estava o minarete se destacando no conjunto da paisagem urbana.

Além dos minaretes que estão sempre perto delas, ao longe, é fácil se reconhecer as mesquitas, porque há muita gente por perto e dezenas de sapatos dos que entraram para a visita, aguardando na porta o retorno de seus donos.

A Mesquita de Juma (em uzbeque: Juma masjid / Жума масжид, que significa ‘Mesquita de sexta-feira’) foi edificada no século 10 e reconstruída em 1788.

Impressiona pelo seu tamanho, pois é um edifício extenso de apenas um andar (55 x 44 m), que é sustentado por 212 colunas de madeira que, enfileiradas geometricamente tanto no sentido horizontal como vertical, como, ainda, transversal. Seu minarete tem mais de 40 metros de altura.

Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Juma_Mosque_(Khiva)#/media/File:Friday_Mosque_of_Khiva.jpg

No caso da Mesquita Juma, vale a pena observar o trabalho das colunas de madeira, cuja parte inferior está sempre sobre uma rocha talhada de modo a que a umidade do solo não estrague, com o tempo, a parte superior.

A foto que abre esse capítulo do meu diário de viagem ao Uzbequistão foi feita para mostrar uma das colunas.

Destas colunas, apenas duas são originais, todas as demais são cópias dos registros que se tem das originais, que foram queimadas por Gengis Khan que, quando esteve em Khiva, no século XIII, colocou foto em quase tudo. Aliás, nem se pronuncia o nome deste senhor na cidade, tão desagradáveis são as lembranças que ele traz.

Havia muitos mulçumanos em visita a esta mesquita e todos faziam questão de tocar as colunas de madeira com as mãos.

Outro ponto alto de Khiva é o Palácio Tach Khaouli, cujo nome significa “casa de pedra”. Foi construído entre 1832 e 1841 por ordem de Allah Kuli Kahn. O primeiro arquiteto que não conseguiu manter o cronograma previsto foi executado por ordem dele. O palácio tem 150 quartos e nove pátios interiores, mas visitamos apenas uma parte dele, a destinada ao harém de Allah Kuli Khan, e aquela onde está seu trono.

Na foto que se segue, aparece o pátio do harém: do lado direito, os aposentos das quatro mulheres oficiais, do lado esquerdo uma porção de salas destinadas às concubinas; em frente, ao fundo a alcova onde ele se encontrava com a escolhida do dia. Na próxima subsequente, a tal da alcova.

Destacam-se os mosaicos que decoram as salas, os tetos e os pilares talhados em madeira com sobre relevos. Uma das salas mais bonitas é a do trono.

A madraça Allakuli Khan também chama atenção na paisagem urbana de Khiva. Alojava uma grande biblioteca que serve toda a população estudantil da cidade. Foi construída em 1834.

Fonte: https://www.lugaresincertos.com/inspiracao-viagem/visitar-fazer-khiva-cidade-magica-uzbequistao/

Depois do almoço, enfrentamos uns tantos degraus altos para chegar a um terraço elevado, onde um grupo tocava, com ajuda de uma caixa de som, música uzbeque. Fiquei até achando que era dublagem. De todo modo, poucos se interessavam pela música, porque a vista era linda.

Como em vários endereços visitados no Uzbequistão, em Khiva, também estavam as professoras organizando seus alunos em fila para a visita a algum monumento.

Em frente aos monumentos históricos de importância religiosa (quase todos), como uma das quatro portas que dão acesso à cidade antiga, sempre havia os uzbeques prontos para uma visita e uma foto de grupo.

Entre uma visita e outra, tanto turistas como autóctones checam as mensagens e as notícias nos smartphones.

Carminha Beltrão

Maio de 2023

Uzbequistão 9 – Chegando à Khiva de muitos tempos e muitas histórias

A viagem entre Bukhara e Khiva foi efetivamente uma expedição. Na véspera, o guia já nos preparou informando que deveríamos levar um lanche, porque não haveria “paradas técnicas” onde se vendesse algo para comer.

Partimos às 8h00 e chegamos 15h30, para atravessar 430 km. A primeira parte foi terrível, porque a rodovia estava em muito mal estado e, ademais, passávamos por áreas de suburbanização, com uma densidade de pessoas e veículos automotivos muito grande. Pela imagem de satélite, podemos ver a extensão do território desértico nesta porção da Ásia Central. No mapa que se segue, podemos ver que as cidades, como Bukhara e Khiva, ocupam os oásis que são e foram tão importantes para a produção de alimentos e obtenção de água.

Pelas informações obtidas, em 2024 deverá ser inaugurada ligação por trem de alta velocidade entre essas duas cidades. Hoje há apenas os trens herdados do período soviético. Talvez, tivesse sido melhor optar por este meio de transporte ferroviário, porque mesmo depois de a estrada melhorar em qualidade, nossa van não desenvolvia muita velocidade e, ademais, nosso motorista dirigia meio perigosamente, porque não obedecida as faixas e tampouco ficava à direita para os demais veículos ultrapassarem. Era boa gente, atencioso e educado, mas andar com ele nem sempre nos deixava tranquilos.

Aí está o registro fotográfico de nosso motorista e nosso guia. Adiante, a planura da planície desértica.

A vantagem do percurso de carro foram duas paradas: na primeira, para fotografarmos de perto a areia quase ocre constitutiva das áreas desérticas do Uzbequistão; na segunda, para ver um curso d’água importante, o rio Amu Dariá, que naquele trecho separa este país do Turcomenistão, ao sul.

Agora, o rio que delimita a fronteira com o Turcomenistão.

Esses pontinhos pretos correspondem a um rebanho de cabras que avistamos ao longe, para notar com no deserto perdemos noção das distâncias.

A grande desvantagem de percorrer esse trecho de estrada de carro: os dois banheiros que tive que enfrentar para aliviar a bexiga, um pior que o outro, ambos com a latrina turca e muito sujos…

Numa das paradas, três rapazes moradores desse território, onde a única atividade é a do pastoreio, solicitaram fazer fotos conosco. Autorizamos, mas depois quisemos entender a razão do pedido tão inusitado e o guia nos explicou que, para eles, ver turistas é ainda muito raro e somos muito diferentes com nossos rostos europeus.

A ponte sobre o rio Amu Dariá foi aguardada por meu marido que havia aprendido algo sobre este curso d’água no ginásio. Para o grupo, foi motivo de festa porque estávamos nos avizinhando de Khiva.

Ufa! Finalmente Khiva, também chamada de Khararizim ou de Quiva ou de Carizim. Em uzbeque eles falam Xiva (Хива, com h gutural lembrando o R); em persa, escreve-se خیوه.

Logo notamos que a cidade do passado está íntegra, com boa parte de sua muralha que é sempre refeita, porque o barro e a palha que são os materiais que lhes são constitutivos estão muito expostos às intempéries de tempo.

A umidade, embora sendo pouca por aqui, acaba minando o adobe e, aqui e ali, víamos o material sendo preparado para recompor as partes deterioradas.

No passado, nas laterais internas da muralha, eram enterradas as pessoas mais importantes do reinado.

Já ia esquecendo de registrar que, depois do esfacelamento império timúrico, poderes regionais se estabeleceram. Até a chegada do domínio czarista russo, Khiva, que domina uma região histórica importante, foi capital várias vezes.

Segundo a Wikipédia foi citado no século V a.C, pelo “geógrafo” grego Heródoto (já vi citações a ele como historiador e isso é compreensível, afinal na Antiguidade não havia a divisão de conhecimento como temos hoje e nem as disciplinas que lhes são constitutivas). Durante os séculos IX e X teve um desenvolvimento grande e, segundo estimativas de historiadores, poderia ter chegado a 800 mil habitantes. Passou no século seguinte pelos conflitos entre dinastias turcas e persas, mas o ponto mais trágico de sua história foi a devastação que viveu com a invasão das tropas de Gengis Khan. Pelas informações que se tem, embora o exército de Khiva fosse maior, a estratégia do fundador do Império Mongol foi cercar a cidade e impedir o abastecimento alimentar…. não demorou tanto para a população ficar à beira da morte por inanição e, assim, abrir as portas ao dominador que colocou fogo em quase tudo.

Foi justamente a fama de suas cerâmicas e azulejos que levou à recuperação de Khiva nos séculos seguintes e foi o reinado de Abdulgazi Badur (1643 a 1664) que tornou a cidade um centro cultural importante, com a construção de muitos edifícios religiosos, mas também um centro de comércio de escravos. Imaginem que há referências a cerca de um milhão de persas e um número desconhecido de russos vendidos em Khiva. Foi um reinado longevo que se manteve entre o século XVI e XX – Canato ou Império de Khiva

Como parte da invasão russa à Ásia Central, a cidade foi atacada e dominada em 1873, mas o reinado permanecia com alguma autonomia como um protetorado. Depois da Revolução Bolchevique, em 1920, a região se tornou República Popular Soviética da Corásmia que depois foi incorporada à República Socialista Soviética Uzbeque em 1924, o que levou ao declínio de Khiva.

Vejam a foto de um de seus últimos primeiro-ministros, hoje exposta no museu da cidade. Na sequência, um de seus últimos cã ou sultão ou rei, Maomé Raxim II, numa ilustração de livro de 1885. Eles tinham cara de mau ou faziam essa pose para serem representados.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Quiva

Ao adentrarmos no Hotel Zarafshon Boutique, logo nos deparamos com réplicas de alguém muito caro para o folclore uzbeque – as imagens de avôs e avós que sempre chegam trazendo alimentos, como uma representação do cuidado que se há entre gerações de uma mesma família. Aliás, nosso guia Bahkram, para nos explicar certas práticas sociais, sempre se referia a “mi abuelito” e “mi abuelita”, já que sua língua de comunicação conosco era o espanhol. Adorei esses bonecos símbolos do Uzbequistão. É claro que não compraria uma réplica para decorar minha casa, mas são uma simpatia, não são?

Olha eu descendo aí, na escada que dava acesso ao nosso apartamento no hotel.

Carminha Beltrão

Maio de 2023

Uzbequistão 8 – Bukhara, suas mercadorias e sua gente

Quando jogo no Google a expressão “mundo das mercadorias”, as vinte primeiras referências referem-se ao capitalismo e/ou à teoria marxista que desnudou o papel delas na construção objetiva e subjetiva do capitalismo.

Ok, é isso mesmo, no sentido científico que essa expressão tem ela se refere ao fato de que foi, no Ocidente, com a constituição deste modo de produção, que as mercadorias se tornaram centrais na vida da Sociedade, como condição e meio para a reprodução do capital.

No entanto, quando observamos boa parte das cidades asiáticas ou aquelas do norte da África, encontramos seus espaços urbanos centrais dominados pelo comércio, como se fossem, efetivamente, o mundo das mercadorias.

É impressionante como, no Uzbequistão, a cultura mulçumana secular, a influência árabe e persa, e a história associada à Rota da Seda permanecem como elementos centrais na vida cotidiana de sua gente, estruturando o uso dos espaços e do tempo, tendo o comércio como uma atividade central no mundo urbano.

Por onde passamos há gente comercializando algo, alguns nestes mesmos espaços estão produzindo artesanal ou semi artesanalmente suas mercadorias.

Ladeando a praça principal entrecortada por dois canais, está o bairro judeu, com sua sinagoga, em ruela estreita, na qual se enfileiram antigas casas de dois pavimentos que hoje são ocupadas por “hostais” ou por “hotéis boutiques”.  Aliás, aproveito para avisar que o conceito de hotel boutique aqui está meio alargado. Basta ser pequenininho para receber esse nome, quase como se popularizou no Brasil o conceito de pousadas: tem para todo gosto e de todo preço.

Na imagem que se segue, aparece a extensa praça central em formato triangular orgânico e, ao sul dela, está o bairro judeu com a sinagoga assinalada em vermelho, com a estrela de Davi, que simboliza o judaísmo.

Nas ruas do bairro judeu, concentram-se as atividades bancárias, de produção artesanal e o comércio da Bukhara turística. Desde agências e caixas onde se pode trocar dólares ou Euros por Som Uzbeque (UZS), passando por pequenas lojas onde se vendem tesouras, facas, pratos de outros produtos de metal trabalhado, por lojas de tapetes de vários tipos, por ateliês de pintura a mão, em que os artistas produzem e vendem seus produtos. Com uma pequena cifra em dólares, você sai com o bolso cheio de Sons. Será que é assim mesmo que se escreve o plural da moeda uzbeque?

É no mercado Toki Zargaro Dome, cuja entrada está à direita na próxima foto, que a mega oferta de produtos enche os nossos olhos de cores, nossos dedos de texturas e nossa mente de imaginação, mas também de dúvidas. Acho bárbara de linda essa edificação com suas cúpulas.

Fonte: https://gotosilkroad.com/city/sight/toki-zargaron-toki-sarrafon-toki-tilpak-furushon-trading-domes

Quem terá desenhado os tapetes? Se são produzidos milenarmente, desde quando começaram a ser tecidos à máquina também?

As echarpes são de fio de seda ou de lã de camelo mesmo, ou isso é trololó para turista? Haja camelo e bicho da seda!

Quais as diferenças e significados culturais de cada desenho dos quepes que os homens usam por aqui? Os solteiros usam os de mesmas cores que os mais idosos? Os mais ricos se diferenciam dos mais pobres?

As bijuterias são produzidas no Uzbequistão ou produzidas em série na China? As cores e os modelos são os mesmos que vi há alguns na Turquia, mas isto é olhar estrangeiro que simplifica porque não conhece a cultura local…

Os maravilhosos casacos bordados em seda são bordados à moda “suzanis” sobre os quais havia lido alguma coisa em vários blogs e sites?

E essa profusão de bonequinhas serão as que as meninas uzbeques brincam ou elas já preferem a réplicas da Frozen que minha neta tanto admira? Girafas amarelas e camelos branquinhos, será que atraem os meninos daqui?

Por que as romãs aparecem em tantos bordados uzbeques? Será uma fruta que cotidianamente é parte da dieta deste país?

Nas casas uzbeques, o que guardam nessas sacolinhas? As chaves, a carteira e, atualmente, o celular?

Será que, ainda hoje, nas casas uzbeques mais abastadas, o chá é servido nestes bules e taças?

Em várias tendas há jogos de xadrez para vender, será que eles querem agradar os turistas ocidentais ou será que ficou essa boa herança do domínio czarista e, depois, soviético sobre o Uzbequistão?

Os pratos e tigelas são tão lindos que tive dificuldade de escolher um para levar para o Brasil. A dúvida me paralisou.

Há uma profusão de ofertas que me deixa um pouco tonta, em decorrência do número de tendas pelas ruas, pequenas lojas e outras já mais sofisticadas onde se vendem os produtos mais elaborados. Ademais, a gentileza e um pouco de insistência exagerada dos vendedores também me deixa sem paciência depois da primeira meia hora. Gosto de negociar o preço, mas passado um tempinho, fico com vontade de voltar para o hotel e descansar porque essa densidade de vida urbana acaba fatigando.

Deixo também, neste capítulo do meu diário de viagem ao Uzbequistão, fotos da gente de Bukhara, cuja simpatia me pareceu maior ainda do que a dos uzbeques de Tashkent ou Samarqanda.

No geral, eu era motivo de observação dessa gente, mas demorei a entender a razão. Depois de um tempinho, algumas crianças e adolescentes, em mais de um lugar, pediram-me para fazer registros fotográficos e pelos gestos, compreendi a razão: meu cabelo pintado de azul. Imagino o impacto causado, numa sociedade em que as mulçumanas sequer mostram os cabelos.

Carminha Beltrão

Maio de 2023

Uzbequistão 7 – Bukhara, uma cidade de alma persa

Agora sim, eu estou numa cidade histórica do único jeito que eu imaginava que elas poderiam ser. Em Samarqanda, havia ficado decepcionada por não haver uma parte bem delimitada do espaço urbano que eu pudesse reconhecer como sítio histórico, já que as edificações mais importantes estão dispersas pelo atual espaço urbano e localizam-se, inclusive, fora da área urbana. Em Bukhara, ao contrário, há uma cidade histórica, cujas feições mantêm-se no plano urbano atual.

Como todas as parcelas de espaço urbano que remanescem do passado, elas são compostas, como bem conceituou Milton Santos tratando do espaço, como ‘acumulação desigual de tempos’.

A maravilha, no caso de Bukhara, é que as camadas recentes não apagaram o desenho urbano do passado, ou em outras palavras, os tempos recentes não são espessos como os de outrora. Assim canais, ruelas e edificações compõem testemunho do mundo pretérito que revelam coesão entre o traçado das vias, as ações dos homens de poder de então, a cultura e a arquitetura de uma sociedade que não existe mais como o foi. Seu centro histórico é extenso e pudemos ser turistas pedestres por boa parte do tempo.

Ela foi o coração da Ásia Central, do ponto de vista cultural, religioso e econômico, ademais de ser também um oásis em meio ao deserto de Kyzylkum. Provavelmente como núcleo de assentamento concentrado tem sua origem no século VI a.C. Após a conquista da Pérsia por Alexandre, no século IV a. C., o território de Bukhara passou a ser possessão grega; fez parte dos Impérios Cuchana e Heftalita; em 710 d.C., foi ocupada por tropas árabe-islâmicas, mas segundo pude ler, aqui e ali foi ao final do século IX, por ter se tornado capital da dinastia persa dos Samânidas e parada importante da Rota da Seda, viveu um período de riqueza cuja herança compõe o patrimônio arquitetônico e urbanístico que hoje é apreciado por milhares de pessoas.

Demograficamente é menor que as duas cidades visitadas até agora por nós – tem um pouco mais de 250 mil habitantes – e é capital da província de mesmo nome. Este território é habitado há cerca de cinco mil anos e seus habitantes falam o tadjique, um dialeto a partir do persa. Eu não consegui distinguir isso ao ouvi-los, pelas ruas, porque o som me parecia o mesmo do uzbeque.

O sítio urbano do passado com suas formas orgânicas e não geométricas parece ter influenciado a expansão da cidade, como as duas imagens mostram, já que a planta atual mantém a forma urbana do passado e se pode ver que a tendência a um plano radial mantém-se com a cidade histórica compondo o centro atual.

Fonte: https://sheherazade-tour.com/uzbekistan/bukhara

Começamos nosso passeio pela madraça Ulugbek que, hoje, não funciona como escola, mas é um verdadeiro ‘antro’ dos turistas, com suas lojinhas e, no período da noite, com seu show de dança uzbeque, com desfile de moda das confecções modernas que utilizam as estampas tradicionais deste país. Esse programa não foi grande coisa, a meu ver, por isso se você for a Bukhara e estiver em dúvida, aconselho a deixá-lo de lado.

O sol estava escaldante às 14h, quando começamos a visita e a incidência dele sobre a parte posterior do portal impediu que eu fizesse uma foto, mas segue a de um site.

Fonte: https://sheherazade-tour.com/uzbekistan/bukhara

O neto de Timur, sobre o qual já fizemos referência em outro capítulo, aquele chamado Ulugbek e que era astrônomo, foi quem ordenou a construção dessa madraça. Seu portal alto numa construção que não foi feita de pedras, tampouco de concreto, distingue essa edificação entre tantas outras madraças pela altura.

Os registros fotográficos seguintes são da parte interna, onde se destacam as decorações em cerâmica em cada uma das celas que antes serviam de moradia aos estudantes. Entre cada duas colunas, os desenhos são diferentes, mantendo-se as cores que o compõem.

Na sequência, na praça em frente à madraça, conhecemos o senhor Nasruddin Hodja, um filósofo que ficou conhecido, ao longo da Rota da Seda, por sua sabedoria. Viveu em Bukhara e foi aí imortalizado numa estátua, diante da qual turistas de muitos países e todas as idades querem fazer seus registros fotográficos. Suas histórias ficaram conhecidas desde a China até Istambul e, como misturam sabedoria com tolices ou brincadeiras, ele é considerado o Sancho Pancho do mundo uzbeque.

Fonte: https://www.saga.co.uk/magazine/travel/destinations/asia/central-asia/who-was-nasruddin-hodja

Logo ao lado estava um pátio, também cercado de celas, que servia de paragem para os mercadores da Rota da Seda. Segundo Bakhram, os mais ricos tinham o direito de entrar ali com seus camelos e os menos ricos tinham que deixá-los fora dos muros de Bukhara. O que vemos na foto é o espaço central, onde se acomodavam os animais, hoje ocupado por mesas de um café, e as celas, antes tomadas pelos viajantes mercadores, para descanso e, hoje, pelos produtos de todo tipo que ficam tentando os turistas.

Estamos hospedados no Zargaron Plaza Hotel e lá encontrei, num dos corredores, quadros com fotos que parecem ser deste mesmo lugar há mais de um século.

A foto me fez voltar no tempo e fiquei imaginando as tropas de camelos e, mais tarde de cavalos (observou a foto?) atravessando o deserto e chegando a essa parada. Suponho que as celas eram forradas de tapetes, que havia uma linda sala de banhos para oferecer descanso aos ricos moradores, que os alimentos a eles oferecidos eram os mais apreciados naquela cultura e que deveria haver lindas mulheres para satisfazer seus desejos em troca de moedas ou de presentes trazidos do Oriente

Deixando a área em volta da praça central de Bukhara, passamos pelo bairro judeu sobre o qual escreverei um pouco no próximo capítulo e chegamos à linda madraça Abdullazizkan.

Com certeza, minhas fotos ficaram aquém da beleza desta edificação porque, neste caso, aos azuis e turquesas combinam-se tons de rosa que tornam muito singular a decoração desta madraça em comparação a todas outras que já visitamos.

Bakhram, nosso guia, sempre informa que os bolcheviques abandonaram as construções do período pré-soviético, pela ligação delas com o muçulmanismo e isso faz sentido, embora eu tenha visto aqui e ali, algo escrito sobre o início dessa recuperação ainda no período soviético.

Pelo número de construções, pela singeleza dos materiais – tijolos e azulejos – os quais o próprio tempo ajuda a destruir, avalio que o trabalho feito é enorme e de qualidade, porque muitas edificações estão já recuperadas e disponíveis à visitação turística. A madraça Abdullazizkan ainda carece de investimentos e muito trabalho para se encontrar totalmente recuperada, porque parte dos seus sobre relevos e azulejos não está em boas condições, mas isso não significa que ela não impressione muito os visitantes.

Recentemente, quando as autoridades públicas começaram os trabalhos para modernizar a praça central de Bukhara, encontraram novo sítio arqueológico, cuja foto abaixo mostra a área destinada no passado aos banhos.

Há muita coisa para contar ainda, como descrever a maravilhosa residência de verão do Emir de Bukhara Sitorai-Mokhi-Hossa, construção do século XIX, decorada com uma mescla de elementos árabes, persas e russos, sobretudo de San Peterburgo, que reflete o estilo francês; ou ainda mostrar o que vi no Mausoléu de Chor  Bakr do século X; quem sabe faria referência ao túmulo da mãe de Bahoudin Naskhband… mas abandono a tarefa ao meio, porque são muitos detalhes.

Para dar um gostinho ao leitor deixo uma série de outras fotos sobre lugares, a respeito dos quais não escreverei nada.

Fiquei com vontade de um dia voltar a Bukhara, mas acho que isso dificilmente vai ocorrer. Que as linhas desse diário de viagem me auxiliem no futuro a reviver essa linda cidade.

Carminha Beltrão

Maio de 2023

Uzbequistão 6 – Samarqanda, uma cidade das mil e uma noites

A foto que fiz de uma pintura que estava no museu (por isso o reflexo das luzes no vidro da gravura) mostra a importância que Samarqanda deve ter tido no passado. A representação de sua feira (bazar em árabe) indica que ali se vendia de tudo, com destaque para os tapetes, e havia muita gente. Não há como uma atração ancestral não se exercer sobre nós, ao contemplarmos essa imagem.

Todos nós já ouvimos falar do livro “As mil e uma noites”. Alguns escutaram histórias contadas pelos mais velhos a partir dele, outros tiveram a chance de ler alguns contos em uma das muitas traduções que esta obra tem.

Eu ganhei, quando tinha uns sete anos, uma versão colorida para crianças, que foi presente de meu avô materno. Foi para mim um presente muito especial, inclusive porque ele sempre preferia trazer presentes para os netos homens, de modo que ganhar alguma coisa já era motivo de alegria.

Não me lembro bem das histórias, mas sim que elas eram deliciosamente cheias de fantasias e que aquele livro merecia estar na estante do lado do Atlas que me foi presenteado pela Tia Irma, porque ambos tinham capa dura e isso dava a uma publicação um status muito diferente das demais. Hoje, com a estante cheia de livros, pergunto-me o quanto esses primeiros tiveram influência no gosto pela leitura e pela Geografia, mas isso é tema para outra conversa…

Abro o site da Amazon e encontro à venda esta obra, com destaque para o fato de que é uma pequena coleção de capa dura, como o meu adorado exemplar do passado.

Fico curiosa, tentando me lembrar de alguma história do antigo livro e me deparo, então, com o resumo apresentado pela maior plataforma de venda de livros do mundo atual:

Decidido a matar todas as mulheres solteiras do reino, após ter descoberto a traição da sua mulher, o sultão Shahriar casa-se a cada noite com uma jovem diferente que será morta ao amanhecer. Mas a filha do grão-vizir, a impetuosa Sherazade, decide enfrentar o desafio e interromper esse ciclo vingativo, oferecendo-se para a noite seguinte. Noite que se multiplica, assim como as histórias de Sherazade, adiando sua morte indefinidamente. Até que passadas mil e uma noites, o sultão, apaixonado pela envolvente narradora, suspende a ordem cruel. Obra-prima da literatura oriental, As mil e uma noites ganhou destaque também no Ocidente a partir da versão do orientalista francês Antoine Galland, no qual esta edição é baseada. Galland selecionou as lendas mais curiosas e de enredo mais palpitante, traduzindo-as para o francês. O livro alcançou êxito extraordinário, sendo a partir daí traduzido para vários idiomas. Com apresentação de Malba Tahan, admirador da cultura árabe e um de seus principais divulgadores no Brasil, esta edição reúne as histórias exóticas e maravilhosas que vem povoando o imaginário de muitas gerações de leitores.

Levo um susto, porque nada deste enredo ficou na minha memória, reforçando a informação de que são tantas versões e traduções que sei lá o que efetivamente estava apresentado na minha versão para crianças. Ademais, a cada idade temos filtros que selecionam aspectos diferentes de uma dada narrativa e o pouco que me lembro remete mais a viagens fantásticas do que às noites de Sherazade.

Não faz mal, porque agora que estive em Samarqanda vou ler novamente a obra, tomando cuidado para ficar com a que é considerada a melhor tradução, a de um professor da USP, Mamede Mustafá Jarouche, por ser a única efetuada diretamente do árabe para o português (fonte: https://lugaresdememoria.com.br/samarcanda-a-cidade-de-mil-e-uma-historias/)

Historicamente, há uma associação entre esta cidade, Samarqanda, nascida sete séculos antes de Cristo, e o famoso livro, que, de fato, nem foi ambientado diretamente nela. Com certeza, são os minaretes, as mesquitas, as madraças e os mausoléus todos cobertos com mosaicos coloridos, numa profusão de tons mais sensíveis e vivos, do que as que vimos em Tashkent, que animam o imaginário coletivo a pensar que este é um lugar especial. Pelo menos assim estou pensando eu agora.

Há quem considere que por ter sido citada várias vezes no livro, esse clássico da literatura árabe está mais associado a Samarqanda do que a outras cidades da Rota da Seda. Escreveu Sylvia Leite no site acima citado que a segunda maior cidade uzbeque e a mais visitada pelos turistas integra o mesmo universo cultural, em que é narrada a história do sultão Shahriar e de sua Shahrazade.

Encontro aqui e ali mais informações e fico sabendo que Michel Foulcault considera que os saraus de Shahrazade destinados a afastar, noite após noite, a decisão do sultão de matá-la podem ser compreendidos como boa representação do esforço humano de não deixar a morte atrapalhar a vida.

Procuro mais um pouco no Google, para entender a associação entre a famosa obra e a cidade que não lhe serviu de palco, e encontro a seguinte informação:

Pela abordagem histórica que faz a um Oriente que julgamos já não existir, a obra Samarcanda, de Amin Maaluf, faz renascer no leitor todo o romantismo associado ao nome mágico desta cidade: as Mil e Uma Noites e as caravanas de camelos de passagem pela Rota da Seda, os bairros poeirentos onde se acotovelavam multidões de turbante, os palácios faustosos de emires cruéis e os seus haréns proibidos, os jardins paradisíacos, palcos de noitadas de vinho e poesia.

[…] o ambiente arcaico, as personagens de outros tempos estão lá. Há velhos de barbicha pontiaguda, casacão comprido e faca na faixa enrolada da cinta, bamboleando-se nas botas negras de cano alto dos cavaleiros. As mulheres, muçulmanas de lenços coloridos, usam vestidos de um estampado ziguezagueante sobre as calças tufadas e vendem legumes e fruta nos mercados, algumas ainda com as sobrancelhas unidas por um traço negro.

Fonte: https://comedoresdepaisagem.com/mil-e-uma-noites-samarcanda-usbequistao/

Fico buscando na Samarqanda atual os vestígios de As mil e uma noites do passado e, memo sabendo que as mudanças são muitas e inexoráveis, encontro aqui e ali, manifestações de um jeito alegre de ser e, simultaneamente, de maior apego às tradições nesta cidade, como se o passado de glórias e luxo, valesse mais que o presente.

Há mais mulheres vestidas com túnicas longas, coloridas e com as cabeças cobertas com lenços, comparativamente ao que observei em Tashkent, capital do Uzbequistão. O gosto pelos brilhos parece ser maior por aqui, uma vez que suas roupas são feitas de sedas ou veludos sedosos que brilham à luz do dia. Aliás elas se vestem com tecidos invernais mesmo que as temperaturas tenham chegado, hoje, aos 36 graus centígrados.

Muitas, entre as mais velhas, têm até os dentes cobertos de ouro, mas não havia como tentar fotografar uma delas: seria muito invasivo. Assim, cometo um pequeno delito e surrupio um registro disponível no site iStock.

Também reparo que há gente pelas ruas e não são somente turistas. É no Registan, a praça monumental de Samarqanda, que desfilam as mulheres uzbeques mais ou menos fiéis à cultura muçulmana. Ali estávamos no final da manhã e uma noiva circulava com suas amigas antes da cerimônia de seu casamento. O vestido branco, segundo nosso guia Barkhram é herança da influência russa, a cabeça coberta é respeito à tradição mulçumana e sobre o celular nas mãos dela não preciso explicar muito.

Mais tarde, esperando o show de luzes que ocorre todos os dias às 20h30, observei muitas jovens, moças e rapazes, vestidos à modo ocidental, sempre com camisetas e bolsas ostentando as peças mais chamativas das grandes marcas globais autênticas ou ‘legítimas’ cópias do original (Diesel, Pierre Cardin, Yves Saint Laurent), afinal  o Uzbequistão está cada vez mais invadido pelos produtos industriais da vizinha China, ainda que nosso guia tenha estabelecido uma hierarquia informando que as melhores confecções são as que vêm da Turquia, ficando as chinesas em segundo plano.

Havia, também, as outras sempre acompanhadas das mães, quando solteiras, e dos maridos e filhos, quando casadas, ainda trajadas à moda ‘antiga’.

Encantou-me uma delas, pela beleza do rosto que talvez tivesse passado despercebido se o corpo estivesse mais à mostra (não vai você leitor interpretar que estou defendendo que andem cobertas). Ela tinha um jeito infantil, ao brincar com o filho, e estava extremamente alegre e risonha, o que afasta um pouco da ideia de que a cultura muçulmana seria mais fechada e triste que outras. Queria ter feito um registro fotográfico melhor do seu rosto, mas não foi possível… de todo modo, cometi outro pequeno delito ao trazê-la para esse blog sem pedir-lhe autorização.

Ali estava ela, como outras uzbeques, no Registan, coração de Samarqanda, que na sua língua tanto pode ser escrito com alfabeto cirílico como latino (Регистон, Registon).

Se pensamos que essa praça foi o centro principal da vida urbana no império Timúrico e que permanece até hoje com tanta vida, não apenas para os turistas como para os moradores, acho que se trata de um exemplo de espaço público muito vivo.

A palavra, de origem persa, significa lugar arenoso ou desértico (Rēgistan, ریگستان), e é representativo do papel de Samarqanda como um oásis na Rota da Seda. No passado, ali ocorriam tanto proclamações reais, precedidas de avisos que eram feitos por meio de explosões em canos de cobre, como era um local de execuções públicas daqueles condenados à morte.

Não é acaso que essa praça seja o coração da cidade, pois além de ter muito espaço livre para se estar, nela estão dispostas três enormes edificações voltadas à mesma finalidade: ensinar o Corão, a bíblia dos muçulmanos. Hoje essas madraças não funcionam mais como tal e são essencialmente o lugar dos turistas, mas ter visto que os moradores também a escolhem para passear ou fazer seus registros fotográficos mostram que a espetacularização da vida pode ocorrer de modos diversos, cotidianamente, como para os moradores, ou excepcionalmente como para os turistas; estandartizados como os organizados pelas agências ou não, quase peregrinos como alguns viajantes escolhem conhecer os lugares; pagãos ou religiosos, cristãos, judeus, hindus ou mulçumanos num mesmo ambiente.

A grande praça e suas madraças são herança dos tempos de riqueza de Samarqanda, decorrentes da passagem de caravanas da Rota da Seda e da riqueza e poder de Timur. A primeira foi construída entre 1417 e 1420 (à esquerda na foto superior e em close na inferior) e se chama Ulugh Beg Madrasah, a segunda denominada Sher-Dor Madrasah foi edificada entre 1619 e 1636 (a da direita na foto de conjunto) e a última Tilya-Kori, entre 1646 e 1660 (está na parte central também da foto anterior).

Os pátios internos são muito agradáveis porque oferecem visão mais detalhada das cerâmicas que decoram as paredes e, ademais, propiciam que imaginemos como terão sido os espaços de estudo há quatro ou cinco séculos atrás.

As portas das celas onde moravam os estudantes são, em alguns casos, ainda originais e desenhadas, com entalhes que valorizam a simetria e as representações da natureza como folhas de plantas. Aí estão os elementos que são tão caros à decoração árabe antiga que não admitia a representação de humanos.

Gostei das três madraças, mas a que mais me impressionou foi a terceira, Tilya-Kori, com sua linda cúpula em verde (ou seria turquesa?) e sua sala de orações que é dourada (a parte superior inclusive é totalmente em ouro). Pelo número de celas que apareçam na fachada central deduzo que teve muitos estudantes do Corão que por ali passaram.

Na noite seguinte, voltamos ao Registan para apreciar o show de luzes (foi quando fotografei a linda uzbeque sobre a qual fiz comentários). A temperatura mais amena do que durante o dia, mas sem vento, o céu extremamente límpido e o ambiente com tantas vozes e línguas que parecia uma Babel tornaram o espetáculo bem agradável, ainda que um pouco longo para o meu gosto.

As músicas tocadas são as mais diversas, havendo tanto orientais como ocidentais. A mudança das cores e o ritmo da reflexão delas nas paredes das madraças buscam orientar o show, que era fotografado e filmado por algumas centenas de pessoas.

Foi uma noite ótima!

A mesquita de Bibi-Khanum, nome da primeira esposa de Timur, é outro monumento representativo do apogeu de Samarqanda. Foi concebida para ser uma das maiores mesquitas do mundo, grande o suficiente para 14 mil pessoas orarem simultaneamente. Sua denominação é homenagem a Sarai Mulque Canun, conhecida como Bibi (‘mãe’ em persa) Khanun (‘senhora’ também em persa), ou seja, Senhora Mãe.

Seu arco de entrada tem 35 metros e nesta mesquita estava o enorme Alcorão que havíamos visto antes em Tashkent, cujo tamanho se justifica, porque deveria ser lido do alto do minarete.

Há muitos folclores sobre essa enorme mesquita. Um deles é de que Timur, por estar sempre em expedições de conquista, confiara à sua esposa acompanhar os trabalhos do arquiteto responsável pelo projeto. Ele estava enamorado de Bibi-Khanun e a cada pedido seu de pequenas modificações no projeto exigia um beijo e ela aceitava fazer o singelo pagamento…. Beijo após beijo o projeto foi tão alterado que não suportou o passar dos anos, trincou e mais tarde desmoronou parcialmente. Em outros sites, li que o desmoronamento se deveu ao terremoto de 1897. Verdade ou mentira, as relações entre o arquiteto e Bibi, como ela é chamada aqui no Uzbequistão, são a explicação dada para o fato de que Timur mandou executar o arquiteto que conseguiu se escafeder, antes que a execução ocorresse.

O Mausoléu Guri Emir, onde está a tumba de Timur, séculos XIV e XV, é outro ícone da arquitetura que faz do Uzbequistão, hoje, um país muito visitado pelos turistas. Fotografei a maquete do complexo, que oferece uma visão melhor do conjunto. Neste complexo, viam-se não apenas os turistas estrangeiros, mas também muitos uzbeques e mulçumanos de outros países, mostrando que há também um turismo associado tanto ao poder político do passado como à religião, afinal, não estamos falando de reinados laicos. Assim, ao lado da presença quase relaxada dos turistas em seus trajes quase caricatos, havia gente que realizava a visita em poses de quase adoração.

Muitas coisas mais pude conhecer em Samarqanda, como o Observatório Ubugbek, do século XV, que foi construído por ordem da esposa de Timur, para seu neto que tinha interesse pelos astros e acabou se tornando um estudioso do tema. Neste Observatório, muitas pesquisas foram feitas e se chegou à conclusão sobre a curvatura da terra paralelamente a este feito na Europa. [E há gente no Brasil que recentemente começou a acreditar que a Terra é plana, por desconhecimento total das evidências científicas ou por oportunismo político].

Visitamos também o Complexo Arquitetônico Shakhi Sinda, construído entre os séculos IX a XV, mas vamos concluindo por aqui esse capítulo do meu diário de viagem ao Uzbequistão, com uma foto feita na madraça Tilya-Kori, o lugar que mais gostei em Samarqanda. Infelizmente não sou boa em selfies e não consegui posicionar o smartphone para ter como fundo os lindos dourados da decoração.

Carminha Beltrão

Abril de 2023

Uzbequistão 5 – Samarqanda, a capital do império

O percurso entre Tashkent e Samarqanda (estranho “q” sem “u” não é mesmo?) foi feito por trem de alta velocidade, uma herança do período russo.

As duas estações eram bonitas e bem conservadas e viajamos de modo muito eficaz,  com conforto e rapidez.

Foi bom sair da capital e ver como se organiza o espaço rural.

No que se refere às paisagens naturais, predominam os tons amarelados e ocres por causa do clima semiárido; nas áreas de agricultura, em função da irrigação, tudo está verde.

O país destaca-se pela produção de algodão, mas neste trecho o que mais havia era o cultivo do trigo, já que aquele será plantado no começo do verão no hemisfério norte, fazendo, portanto, alternância com o valioso cereal, com base no qual grande parte da humanidade alimenta-se cotidianamente com o pão.

Havia também, aqui ou ali, oliveiras e alguns homens pastoreando cabras ou ovelhas.

Chamaram atenção os lugarejos por onde passamos. Se chegarem a ter o estatuto administrativo de cidades, eles seriam pequenas cidades, mas a maior parte se assemelhava a aglomerados humanos ligados à vida rural. Viajamos por mais de meia hora, o que em TGV significa mais de 100 km, passando por áreas em que se mesclava ocupação adensada, como pequenos núcleos urbanos nos arrabaldes de metrópole (Tashkent tem cerca de 3 milhões de habitantes), com ocupação do tipo rural. Ao longo da ferrovia e, depois em trecho que descreverei em outro capítulo, pela rodovia, há sempre muito comercio, desde pequenas barracas que vendem frutas, legumes ou comida pronta, até armazéns de material de construção ou pequenas indústrias. Com menos gente, esse tipo de ocupação me fez rememorar a que eu vi na Índia. A distinção entre o urbano e o rural é menos clara no mundo asiático que no mundo, dito, ocidental.

Durante o percurso, também constatei o testemunho do período russo tanto nos conjuntinhos de casas geminadas, que se alongavam ao longo da ferrovia, tendo sempre na frente um pequeno terreno com cultivos diversos, como nos edifícios de poucos andares, mas com muitas unidades habitacionais, que estavam a uns 500 metros mais ou menos.

As fotos não ficaram nada boas, por causa da velocidade do trem e do seu vidro duplo que causava reflexo, mas oferecem uma rápida ideia do tipo de habitat que predomina.

Ao chegar a Samarqanda, confesso que fiquei bem decepcionada, porque todas as minhas expectativas eram de encontrar uma cidade histórica, no sentido que conhecemos como tal no mundo ocidental.

Imaginava que andaria pelo seu sítio histórico, vivenciaria as ruas do passado, poderia sentir um ambiente urbano antigo e, portanto, mais correspondente à escala humana que à dos carros.

Foram precisos três dias para passar de uma lógica espacial à outra e aceitar o diferente.

Como vou procurar mostrar neste e no próximo capítulo, a Samarqanda muito antiga é, em parte, o que está no museu e num sítio arqueológico ainda pouco pesquisado. No mais, trata-se, mais da recriação do passado de glória da cidade, com a reconstrução de várias edificações que remontam ao período de Timberlão e aos séculos subsequentes, que não compõem uma área única que pudesse ser reconhecida por mim como o centro histórico da cidade.

No mais, é uma cidade de cerca de 500 mil habitantes, com avenidas largas, tráfego intenso e construções que devem ser, em grande parte, dos últimos cinquenta anos. É capital da província (viloyatlar em uzbeque) de mesmo nome, o que lhe confere papeis administrativos. Como fica num vale mais fértil, pela sua posição entre duas cadeias de montanhas, o trecho entre Samarqanda e Tashkent distingue-se pela riqueza agrícola em contraponto a outras áreas desérticas do país.

As edificações da cidade revelam uma mistura entre as formas pesadas que caracterizam o período soviético; elementos da cultura europeia, trazidos também da Rússia, mas especialmente de São Petersburgo, Leningrado durante o período soviético; outros da cultura árabe e turcomana que são caros para o povo uzbeque.

Tudo isso está misturado na Samarqanda de hoje com os novos empreendimentos, como o Brilliant Centre, que me chamou atenção pelo nome e pela extensão da área a ser edificada. Neste caso, já se observa, na paisagem urbana, a influência urbana ou arquitetônica estadunidense. Resolvi até visitar as páginas do empreendimento e fiquei surpresa com a altura das torres de apartamentos que serão construídas.

Fonte: https://www.facebook.com/brilliantcity/

Fonte: https://www.facebook.com/brilliantcity/

Por enquanto, vamos deixar para lá essa a Samarqanda do futuro próximo e voltar ao passado.

Para entender por que ela é um destino turístico tão especial, é preciso sintetizar um pouco da sua história. Vou me apoiar no que li em vários sites, bem como no que contou nosso guia Bakhram, por isso a miscelânia que vou fazer não merece créditos científicos, mas serve “para dar uma geral”, como diríamos em português do Brasil.

Vamos lá: talvez tenha havido um aglomerado humano nesta área desde o século VIII a.C., no entanto não há ainda, segundo nosso guia, pesquisas arqueológicas suficientemente extensas e conclusivas sobre o tema, para afirmar quando a ocupação teve início. À parte, as controvérsias e dúvidas sobre essa origem, foi no tempo do Império Persa que este assentamento humano se tornou importante já como uma espécie de capital de um território regional.

Alexandre, o Grande, esteve por aqui e dominou essas terras e sua gente em 329 a.C. Depois o aglomerado foi governado por líderes iranianos, turcomanos e mongóis, neste último caso, no Reinado de Gengis Kan, em 1220.

Essa sequência de domínios, que também se reflete em influências políticas, nas formas de organização social e na cultura, no caso de Samarqanda, explica-se por sua ótima situação geográfica, pois está a meio caminho entre a China e o Mediterrâneo, o que a tornou um ponto importante na Rota da Seda, razão pela qual chegou a ser a maior cidade da Ásia Central.

O nome dado ao primeiro aglomerado sobre o qual há já algumas escavações feitas, é Afrosiab e seu sítio está incorporado na atual Samarqanda. Observando a foto do mapa exposto no Museu da Cidade Antiga Afrosiab (aliás, vale a visita), chama atenção a extensão da rota que ia do Extremo Oriente até a Europa e o norte da África (volte lá na fotografia do trem de alta velocidade que corre no Uzbequistão e observe que ele é batizado em homenagem à Afrosiab).

Faça um zoom na foto, se quiser ver, no oeste da representação cartográfica, a cidade de Istambul, que foi capital do Império Romano do Oriente e, por isso, neste mapa, está indicada como Rum (relativo a Roma); veja também Iskandariya, ou seja Alexandria no Egito e Damasq, a atual Damasco da Síria. No extremo leste da rota, lá está Xonballq, a atual Pequim. Vejam que Samarqand está bem no meio do caminho.

Além esta situação geográfica tão especial, no contexto geográfico asiático e, talvez, também por causa dela, em 1365, foi a escolhida pelo Rei Timur, o Tamerlão, para ser a capital do seu império (Timúrida).

Talvez, você leitor, como eu, nunca tivesse ouvido falar dele, mas veja no próximo mapa a extensão que esse senhor conseguiu dominar, compreendendo territórios que vão desde a Turquia até a Índia atual, incluindo o Irã, parte do Iraque, da Síria e dos países da família do “quistão”.

Fonte: https://furibe.com/timur-langtamerlan-la-dinastia-timurida/

Dá para compreender, então, por que ele é sempre lembrado pelos uzbeques e sua imagem está em pelo menos três estátuas gigantescas no país: uma em Tashkent (ver o finalzinho de https://carminhabeltrao.wordpress.com/2023/04/30/uzbequistao-2-a-tashkent-de-hoje/), outra em Timur, a cidade que tem seu nome, e a que está na foto que se segue, em Samarqanda.

Fonte: https://www.pinterest.es/pin/323203710756293123/

Foi ele que tornou gloriosa esta cidade, em função dos investimentos para a construção de seu mausoléu, o Gur-i-Amim, da Mesquita de Bibi Hanim (assim batizada em homenagem à sua primeira esposa), da Praça Reguistão, que corresponde ao que eles compreendem como centro histórico da cidade, além de outras obras monumentais.

Com o esfacelamento de seu império, que apenas durou cerca de 100 anos, pois as gerações seguintes dividiram o território e não tinham o espírito guerreiro de liderança de Timur, Samarqanda remanesceu, nos séculos subsequentes, mais em função de seu papel comercial, mas, entre 1925 e 1930, foi a capital da República Socialista Soviética, até que o poder administrativo passasse para a nova capital Tashkent.

Desde 2001, Samarqanda, que significa “cruzamento de culturas”, foi reconhecida como Patrimônio Mundial pela Unesco.

Aliás, para se compreender Samarqand é necessário observar os “5 Ms”, como eles falam por aqui – madraças, mesquitas, mausoléus, minaretes e mercados. Vamos escrever um pouquinho sobre isso tudo, mas principalmente mostrar as fotos que dizem mais que mil palavras. 

O mausoléu de Timur, denominado Gur-i-Amim, é uma das construções mais lindas da cidade e, segundo o que pude ler sobre ele, tem influência de diferentes culturas e civilizações do Islão. As paredes internas são ornadas com mosaico de faiança, produzidos com técnicas persas, as partes com inscrição fazem referência a Maomé e a Alá.

Adorei ver os estudantes em fila, preparando-se para visitar o mausoléu, com seus uniformes à moda antiga, calça ou saia e gravata preta junto com a camisa branca. As meninas numa fila, os meninos em outra, dando para notar que as classes não são mistas. Gostei também dos chapeuzinhos que portavam com eles.

A suntuosidade do mausoléu fica evidente em sua decoração interna. Segundo o guia, a parte inferior é apenas dourada e a superior é efetivamente de ouro. Aliás, em uma de suas explanações, ele informou que o país tem muitas jazidas deste metal precioso.

Lindo demais, não é?

Não me perguntem o que está escrito nas paredes do mausoléu, mas as letras do alfabeto árabe lembram, como disse uma querida amiga, bailarinas. No geral, são versos com princípios mulçumanos.

Durante muitos séculos, apenas escritos e desenhos geométricos eram utilizados na decoração das edificações; mais tarde vieram os desenhos associados à natureza, primeiro do mundo vegetal, folhas, galhos e flores, e, depois, do mundo animal, como leões e grandes pássaros, por exemplo.

A representação de figuras humanas, em desenhos ou pinturas, não era permitida entre os mulçumanos, razão pela qual, antes de haver fotografias, não ficaram registros da aparência de muitos dos grandes personagens da história destes povos. Aliás, no caso de Tamerlão, isso foi possível, por causa de um estudioso que, vindo do ocidente, e tendo conhecido o grande guerreiro e conquistador, fez um desenho dele que, séculos depois, foi recuperado possibilitando que haja alguma segurança sobre a imagem do Tamerlão, agora imortalizada em bronze em tamanhos excepcionalmente grandes, quando comparo as estátuas dele que estão em Tashkent e Samarqanda às que temos nas cidades do mundo ocidental.

Ainda na lista dos mausoléus, Samarqand destaca-se pela Necrópole de Shakhi-Zinda (ou Shohizinda ou Chah-e-Zindeh), erguida entre os séculos IX e XV. Para uma visão de conjunto, preferi duas fotos profissionais. Na sequência, estão as minhas. Vejam na primeira que, ao lado do monumento histórico, há um cemitério mais recente.

Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/92/500px_photo_%2856183834%29

Fonte: https://www.advantour.com/es/uzbekistan/samarcanda/shahi-zinda.htm

De fato, este complexo é uma necrópole edificada onde terá sido enterrado um primo do Profeta Maomé. Hoje é visitado tanto por turistas, como por peregrinos religiosos.

Este complexo é composto de duas pequenas mesquitas e cerca de vinte mausoléus. Ao final da visita ao complexo, entrei para visitar uma das duas pequenas mesquitas, com a cabeça coberta e com todo respeito, e lá encontrei outros turistas. Trata-se de um espaço de uns 30 ou 40 metros quadrados, portanto bem pequeno comparado a outra mesquitas que visitamos. A sala tinha bancos de todos os lados, o que era ótimo para se ter um apoio com a finalidade de fotografar o teto (são sempre lindas as cúpulas internamente). No que eu estava buscando o melhor ângulo, várias pessoas saíram e, dei-me conta, então, que se iniciava um canto dramático, como uma oração e, ali estava o senhor que cantava, outros que acompanhavam, um casal que julgo que são alemães, porque os vi conversando na saída, e essa escritora chinfrim, que lhes rabisca algumas linhas.

Fiquei discretamente observando, mas logo aquele que cantava percebeu que os três estranhos ao mundo muçulmano não acompanhavam seu canto com os gestos que os demais faziam (um passar de mãos no rosto e na cabeça, como se quisessem jogar fora ideias ou sentimentos…). Parou, então, de cantar e nos pediu, meio rispidamente, que saíssemos. Como eu poderia saber que era exatamente a hora da oração deles? Será que havia alguma inscrição na entrada, indicando horários de visita interditada, que me passou despercebida?

À parte esse episódio, que não deixou de ser pitoresco, registro que o estilo arquitetônico do complexo se assemelha ao de outros monumentos históricos com os azuis e verdes predominando nos azulejos das paredes e nas lindas cúpulas. Como sempre o contraste com os tijolos valoriza ainda mais o brilho deles. Acede-se a este ambiente por meio de uma enorme escadaria. Percorre-se uma viela interna, ao longo da qual, dos dois lados, há mausoléus.  

Tanto os portais como as cúpulas são muito bonitos e estão bem conservados. Internamente, o mausoléu que mais apreciei é o de Shodi Mulk Oko, que era sobrinha de Tamerlão. Disse nosso guia, que este é o único que tem iluminação natural, por meio de janelas no alto da edificação, porque a moça tinha medo de escuro. Se há veracidade nesta explicação, não sei, mas a entrada de luz distingue positivamente este dos demais mausoléus do complexo.

Sobre os demais “M” – especialmente maçadras e mesquitas – escrevo alguma coisa mais no próximo capítulo.

Carminha Beltrão

Abril de 2023